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Transcrição:

TÍTULO: A EPIDEMIA DE DENGUE E SEU IMPACTO SOBRE A ASSISTÊNCIA DE UM HOSPITAL GERAL DA REDE PÚBLICA DO RIO DE JANEIRO AUTORES: Aline do Nascimento Macedo (linmacedo@ig.com.br) 2 ; Ana Claudia Santos Amaral (anacsamaral@globo.com) 1 ; Roberta Rodrigues Teixeira de Castro (robycastro@ig.com.br) 1 ; Camila Rodrigues 3 ; Marisa Zenaide Ribeiro Gomes (marisargomes@alternex.com.br) 5 ; Maurício Andrade Perez (map@domain.com.br) 6 ÁREA TEMÁTICA ESCOLHIDA: Saúde. INTRODUÇÃO O dengue é hoje uma importante arbovirose que acomete o homem e se constitui em um sério problema de Saúde Pública no mundo (Ministério da Saúde, 1996). Dentre os determinantes que podem estar facilitando a disseminação do dengue, cabe considerar: a intensificação das trocas comerciais entre os países; os movimentos migratórios; a alta densidade populacional nas áreas metropolitanas; o crescimento desordenado das cidades, onde o abastecimento irregular da água e a inadequada coleta e armazenamento do lixo facilitam a proliferação de mosquitos. Os vetores mais comuns na transmissão do dengue são o A. aegypti e o A. albopictus. Este último, originário da Ásia pode vir a assumir importante papel na manutenção da endemia, pois é capaz de perpetuar a circulação do vírus do dengue, mesmo sem a participação do homem ou de outro reservatório. O primeiro surto de dengue depois da reintrodução (ocorrida no ano de 1976) do A. aegypti, segundo Waldman (1999) deu-se em Roraima, em 1982, com 12.000 casos notificados. O dengue volta a ocorrer de forma epidêmica, no ano de 1986, nos Estados do Ceará, Alagoas e Rio de Janeiro. Este último estado, o mais atingido no período de 1986 e 1987, com cerca de 91. 952 notificações. Vale considerar que, esses dados podem estar subestimados, uma vez que pode haver casos não notificados ou mesmo não diagnosticados como dengue. 1 Residentes do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva (NESC/UFRJ). 2 Residentes do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva (NESC/UFRJ). 3 Estagiária da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (FIOCRUZ). 4 Médica Infectologista, presidente da CCIH do Hospital Geral de Bonsucesso. Doutora em Medicina. 5 Médica Infectologista, presidente da CCIH do Hospital Geral de Bonsucesso. Doutora em Medicina. 6 Médico epidemiologista da CCIH do Hospital Geral de Bonsucesso. Mestre em Epidemiologia.

A partir de 1986, o dengue dissemina-se pelo país, determinando a ocorrência de epidemias em vários centros urbanos de pequenos e grande portes, em estados do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste (distribuídos por Ceará, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Tocantins). Uma das maiores epidemias ocorreram em Fortaleza e na área metropolitana do Rio de Janeiro entre 1991 e 1992, quando foram notificados quase 100.000 casos, sendo 237 deles classificados como dengue hemorrágico, com três pacientes evoluindo para óbito. A epidemia mais recente, no Estado do Rio de Janeiro, ocorreu entre 2001 e 2002, e seus dados ainda não foram disponibilizados pelos sistemas de informações do DATASUS. No Brasil, como na maioria dos países tropicais, onde as condições do meio ambiente favorecem o desenvolvimento e a proliferação do A. aegypti, o principal mosquito vetor, a falta de campanhas sistemáticas foram responsáveis por inúmeras epidemias recentes. O dengue pertence ao grupo de doenças de notificação compulsória, instrumento que visa ações de controle pertinentes, permitindo a análise do comportamento epidemiológico, a avaliação dos problemas e definição de metas e prioridades. A notificação compulsória compõe uma das etapas da vigilância epidemiológica, atividade que possibilita o reconhecimento e a análise do processo saúde-doença, sendo fundamental para o planejamento, o desencadeamento e a avaliação dos impactos das medidas destinadas a interromper a ocorrência de agravos. As atividades de vigilância epidemiológica se organizam de modo a garantir o cumprimento de funções importantes como a coleta, o processamento, a análise e a interpretação dos dados; a recomendação, a promoção e a avaliação da eficácia e da efetividade das medidas de controle, além da divulgação das informações obtidas. As informações geradas e interpretadas de modo contínuo, permitem identificar o comportamento epidemiológico das doenças fornecendo embasamento científico para a tomada de decisões. OBJETIVO

Avaliar o impacto da epidemia de dengue, a partir das notificações, sobre o atendimento da emergência do Hospital Geral de Bonsucesso, rede SUS, no município do Rio de Janeiro. METODOLOGIA O hospital criou um sistema de busca ativa, através dos registros da emergência, de doenças de notificação compulsória (DNC), implementado desde agosto de 2000, o que representou um incremento de cerca de 3 notificações/mês, para 330/mês. O estudo compreendeu os meses de agosto de 2000 a junho de 2002, o que permite comparar a demanda no atendimento da emergência do hospital, em períodos epidêmicos e interepidêmicos. Estes dados foram coletados e analisados pelos residentes do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva/UFRJ, e vêm auxiliando ao hospital, no que tange à série de DNC, tais como a tuberculose, varicela etc. Rotineiramente, os dados são analisados em Programa EpiInfo, versão 6.04. As principais variáveis analisadas foram sexo, idade e data de atendimento. RESULTADOS No Estado do Rio de Janeiro, assim como em vários centros urbanos, as epidemias começam a ocorrer com magnitude no ano de 1986. Em seguida, a epidemia ocorrida nos anos de 1991 e 1992, foi considerada a mais ampla, quando foram notificados quase 100.000 casos, surgindo nesse momento, alguns registros do dengue hemorrágico, o que representa uma mudança no perfil da doença. Pode-se considerar que a análise do Estado, nesse sentido, retrata com riqueza de detalhes o movimento ocorrido na Região Metropolitana e vice-versa, segundo características epidemiológicas. Assim sendo, a partir da série histórica representada pelo gráfico abaixo, poderemos entender o contexto sob o qual está inserido, ao longo dos anos, o Hospital geral de Bonsucesso, bem como as demais instituições de saúde do Estado, mais precisamente do município.

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde, Rio de Janeiro. Observando as curvas, que relacionam número de casos e óbitos, no período de 1986 e 2001, constatamos os períodos epidêmicos, que além de expressivos, denotam a ausência de investimentos em saúde pública preventiva, como forma de economizar recursos com a assistência, prevenir o crescimento das epidemias e, principalmente, evitar uma demanda desordenada à Postos, Centros de Saúde e Hospitais, como ao que se refere esse estudo, cuja estrutura diversa, agrega a assistência em baixa, média e alta complexidades. Para pensar os pontos abordados, é importante localizar a instituição: o Hospital Geral de Bonsucesso é uma unidade vinculada a esfera federal, situado na área de planejamento 3.1 (A.P. 3.1) do município do Rio de janeiro, formada por bairros da Ilha do Governador e por subúrbios das estações da Leopoldina, sendo dividida em cinco regiões administrativas (RA), respectivamente: X RA Ramos; XI Penha; XX RA Ilha do Governador; XXIX RA Complexo do Alemão e XXX RA Complexo da Maré. Composta de 28 bairros e 90 favelas, a A.P. 3.1, é caracterizada como uma área de passagem, sendo cortada pela Avenida Brasil, Linha Vermelha e, por último, a Linha Amarela vias de tráfego que ligam a cidade do Rio de Janeiro a outras. Em virtude de sua localização, já mencionada, e pela própria estrutura de hospital terciário, foi, ainda, considerado referência para o atendimento em dengue na cidade do Rio de Janeiro. O HGB contou com o total de 7.776 notificações realizadas no atendimento de emergência, compreendendo o período de agosto/00 a Maio/02, aproximadamente 52%

foram casos confirmados ou suspeitos de dengue, com média de idade de 32,0 ± 16,2 (mediana=29,2) anos. No ano de 2001 o maior número de casos notificados de dengue foi de 357, no mês de maio, enquanto que em 2002 no mês de fevereiro foram registrados 1240 casos de dengue. O hospital realizou, na epidemia de 2001/2002, a organização de um fluxo de atendimentos para os casos suspeitos de dengue, onde a porta de entrada se deu a partir do Projeto Acolhida. Esse projeto tem o intuito de reduzir o número de atendimentos pela emergência, e assim melhorar a qualidade da assistência, que se deve à diminuição de leitos ocupados, assim como do tempo de espera na fila. Durante a epidemia, o período de atendimento da Acolhida foi ampliado e, uma negociação junto aos demais setores do hospital foi realizada. Duas enfermarias (uma masculina e outra feminina) foram disponibilizadas para a internação de situações mais graves, além de 80 consultas/dia pelo ambulatório aos pacientes suspeitos de dengue. Dentre as situações mais graves, o hospital registrou 1 (um) óbito por dengue. Casos notificados, na emergência do Hospital Geral de Bonsucesso, Rio de Janeiro, no período de agosto/00 a junho/02 1600 1400 1200 1000 1384 1307 1084 Freqüência 800 600 400 437 526 709 401 273 200 209 173 166 170 120 124 0 00/Ago 00/Set 00/Out 00/Nov 00/Dez 01/Jan 01/Fev 01/Mar 01/Abr 01/Mai 01/Jun 01/Jul 01/Ago Meses 269 239226 187174 138 01/Set 01/Out 01/Nov 01/Dez 02/Jan 02/Fev 02/Mar 02/Abr 236 52 49 02/Mai 02/Jun Total de notificações Notificações de dengue Fonte: Hospital Geral de Bonsucesso RJ.

Para a variável sexo foram encontrados valores de 45,7% e 54,3% para o sexo masculino e feminino, respectivamente. Na literatura há relatos de que o dengue acometia mais mulheres do que homens, pelo fato destas permanecerem maior parte do dia (período em que o mosquito ataca) nas suas residências. Em nosso estudo não foi encontrada diferença estatisticamente significativa (45,7% para os homens e 54,3% para as mulheres), o que pode ser explicado tanto pela saída da mulher para o mercado de trabalho quanto pela maior disseminação do vetor. Distribuição Percentual de casos de dengue notificados, segundo sexo 2000 a 2002 54,30% 45,70% Masculino Feminino Fonte: Hospital Geral de Bonsucesso RJ. CONCLUSÃO Ao comparamos as duas epidemias ocorridas no período de estudo, pôde-se observar que houve um aumento de aproximadamente 4 vezes no número de atendimentos, o que sobrecarregou os profissionais de saúde envolvidos, havendo inclusive mobilização de profissionais de outros setores para absorver esta demanda. Fato que pode ser explicado pelo aumento do número de casos do dengue hemorrágico, forma mais grave da doença, o que causou alarde à população e à busca pelo atendimento hospitalar, imaginando um melhor suporte e a garantia de cuidados com qualidade, visto a capacidade técnica e de equipamentos dos hospitais em relação aos postos e centros de saúde. Diante dos resultados encontrados consideramos imprescindível o controle sistemático de vetores pelas autoridades responsáveis, bem como promover a educação em saúde na população esclarecendo sobre a doença, vetor e medidas de prevenção e controle,

visto a grande procura por atendimento, numa rede que já está em seu limite de capacidade, como as emergências existentes em hospitais terciários da rede pública. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MEDRONHO, R. A.; et al. Epidemiologia. São Paulo: Ed. Atheneu, 2002. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Manual de Dengue Vigilância Epidemiológica e Atenção ao Doente. 2ª ed. Brasília: DEOPE, 1996. Brasil. Fundação Nacional de Saúde. Departamento de Operação. Coordenação de Controle de Doenças Transmitidas por Vetores. SCHECHTER, M.; MARANGONI, D. V.. Doenças Infecciosas: Conduta Diagnóstica e Terapêutica. 2ª ed. Rio de Janeiro; 1998. Ed. Guanabara Koogan S.A.. TEIXEIRA, M. DA G.; BARRETO, M. L.; GUERRA, Z.. Epidemiologia e Medidas de Prevenção do Dengue. Informe Epidemiológico do SUS. Vol. 8, n.º 4. Outubro Dezembro, 1999. P. 5-33. WALDMAN, E.A.; et al. Trajetória das Doenças Infecciosas: da Eliminação da Poliomielite à Reintrodução da Cólera. Informe Epidemiológico do SUS. Vol.8, n.º 3. Julho/Setembro, 1999. P.5-49.