DIREITOS HUMANOS, GÊNERO E MOVIMENTOS SOCIAIS

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Transcrição:

DIREITOS HUMANOS, GÊNERO E MOVIMENTOS SOCIAIS Prof. João Gabriel da Fonseca Graduado em História; Filosofia Pós-Graduado em História Cultural Mestre em História das Identidades.

LGBT ou ainda, LGBTTTs, é a sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros (o 's' se refere aos simpatizantes). Embora refira apenas seis, é utilizado para identificar todas as orientações sexuais minoritárias e manifestações de identidades de género divergentes do sexo designado no nascimento.inicialmente, o termo mais comum era GLS, sendo a representação para: gays, lésbicas e simpatizantes. Com o crescimento do movimento contra a homofobia e da livre expressão sexual, a sigla GLS foi alterada para GLBS, ou seja Gays, Lésbicas, Bissexuais e Simpatizantes que logo foi mudado para GLBT e GLBTS com a inclusão da categoria dos transgêneros (travestis, transexuais, transformistas, crossdressers etc.). A sigla GLBT ou GLBTS perdurou por pouco tempo pois o movimento lésbico ganhou mais sensibilidade dentro do movimento homossexual e a sigla foi alterada para LGBTS.

Atualmente a sigla mais completa em uso pelos movimentos homossexuais é LGBTTIS, que significa: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgéneros, Transexuais, Intersexuais e Simpatizantes, sendo que o S de simpatizantes pode ser substituído pela letra A de Aliados ou ainda acrescido a Letra Q de Queer que não é muito comum, porém é utilizada em alguns países e por alguns grupos do movimento gay. A inclusão do L na frente da sigla do movimento gay deu-se pelo grande crescimento do movimento lésbico e pelo apoio da comunidade gay às mulheres homossexuais.o termo atual oficialmente usado para a diversidade no Brasil é LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros). A alteração do termo GLBT em favor de LGBT foi aprovada na 1ª Conferência Nacional GLBT realizada em Brasília no período de 5 e 8 de junho de 2008.1 A mudança de nomenclatura foi realizada a fim de valorizar as lésbicas no contexto da diversidade sexual e também de aproximar o termo brasileiro com o termo predominante em várias outras culturas.

Ser humano, cultura e poder O ser humano difere de outros animais por depender de orientações do grupo social em que vive para organizar seu comportamento e visão de mundo. Classificar e hierarquizar as coisas e seres é próprio do humano. Nesses processos, pode surgir a discriminação e a diferença pode se transformar em desigualdade. As diferentes formas de discriminação e violência são efeitos de convenções sociais e envolvem relações de poder.

Homens e mulheres É muito comum que: se pense em homens e mulheres como seres com naturezas e destinos distintos na vida social se considere que a base dessas diferenças profundas está na natureza e nos corpos de homens e mulheres, que possuem diferentes anatomias e capacidades. Essa diferença pensada desse modo é, muitas vezes, transformada em desigualdade. A desigualdade entre homens e mulheres bem como relações e regras sociais que desvalorizam as mulheres e o feminino tem sido encontradas em diferentes períodos da história e em diferentes culturas.

Gênero gênero é termo que se refere a um princípio de organização e hierarquização do mundo ao nosso redor que toma por base as diferenças percebidas entre os sexos (Scott, 1995) gênero não diz respeito apenas aos corpos humanos e suas respectivas genitálias, mas a tudo que se relaciona com esses corpos (os objetos, as atividades, os lugares, as cores, as roupas e adereços, os comportamentos, o gestual) (Clastres, 1988) comportamentos de indivíduos de sexos diferentes não são biologicamente determinados, mas socialmente construídos através da relação entre o indivíduo e a cultura, no processo de socialização (Mead, 1969)

os padrões socialmente aceitos e esperados de comportamento para cada um dos sexos variam historicamente, de sociedade para sociedade e a cada grupo humano (Mead, 1969; Strathern, 2006) gênero e sexualidade são duas dimensões da vida das pessoas, que muitas vezes estão conectadas, mas que não se reduzem umas às outras (Rubin, 1998): o menino que brinca de boneca ou a garota que é mais agressiva não podem ser tidos como homossexuais apenas a partir desses comportamentos. comportamentos masculinos e femininos não são dados pela natureza, logo há várias formas de ser homem ou mulher, menino ou menina.

A naturalização do gênero diferenças anatômicas entre os sexos são tomadas como base não apenas para dividir o mundo entre homens e mulheres, como também para definir quem deve se sentir masculino ou feminina e como homens e mulheres devem se vestir, comportar e desejar (Rubin, 1975; Rich, 1980; Butler, 2003; Haraway, 2004). apesar das normas sociais que dividem rigidamente o mundo em homens e mulheres, masculinos e femininas, há uma ampla gama de sujeitos que não estão incluídos a partir de tais normas: LGBT mas também homens e mulheres heterossexuais. (Butler, 2003 e 2002) essa poderosa convenção que oprime grande parte dos seres humanos em nossa sociedade impõe um padrão de pertencimento do mundo que deixa ao excluído um lugar de menos humano, esquisito, desprezível (Butler, 2003 e 2002).

Os reforçadores externos sociais, políticos e econômicos presentes na cultura, contribuem para estigmatizar e discriminar e até mesmo segregar qualquer comportamento, atitude ou afeto que se desvia da norma social. É justamente sobre esse entendimento de que há apenas uma única forma de se relacionar o modelo heterossexual que se assenta o preconceito em relação ao público LGBT e como consequência à lesbianidade.

As lésbicas são ainda as mais condenadas pelos dogmas morais e as mais excluídas e solitárias. Desafiam e desorganizam duas importantes atribuições de papéis impostos pela dominação hetero/masculina. Desafiam o lugar da mulher e desafiam a sexualidade da mulher, ambos impostos arbitrariamente.

Neste sentido ela derruba vários mitos: o mais desafiador e aflitivo para a cultura patriarcal é o de dispensar a companhia de homens para a sua existência afetiva e sexual.

As relações lésbicas são mais susceptíveis de discriminações sociais do que as relações gays por questionarem, a céu aberto e duplamente, o lugar de mulher e da sexualidade feminina na cultura ocidental. Cecarelli,P

O movimento de lésbicas traz questões específicas: - que não são encontradas no movimento feminista ou de mulheres - que não são encontradas no movimento gay - que não são encontradas no movimento negro ou de mulheres negras

A luta por direitos humanos das lésbicas no Brasil, é sempre acompanhada por um diálogo tenso, seja com o próprio movimento LGBT, seja com o movimento feminista, seja com o movimento negro, seja com o Estado e suas instituições. Há sempre uma tensão quando se reivindica as especificidades dos direitos das lésbicas.

Com toda esta tensão, que passos foram dados ou conquistados? Quais os espaços de organização? Núcleos OSCIPs ONGS mistas ONGs OSCIPS Específicas Independentes REDES específicas Academia Grupos mistos e Redes Mistas

Mitos, estigmas, preconceitos e discriminação sexual e de gênero tornam o caminho pela busca de justiça e de direitos iguais bastante longo e cruel para lésbicas em geral.

A relação entre lésbicas, mulheres bissexuais, mulheres que fazem sexo com mulheres com a feminização da epidemia de HIV/Aids e outras DST, está intimamente relacionada com cultura e tradições que negam a plena autonomia das mulheres. A Sexualidade da mulher ainda é invisibilizada ou entendida como meio para reprodução - função social da maternidade heterossexual.

As consequências dessa invisibilidade: O não conhecimento da saúde de lésbicas, mulheres bissexuais e mulheres que fazem sexo com mulheres; Alguns profissionais da rede de saúde têm dúvidas sobre o manejo do atendimento e encaminhamentos. A reprodução do modelo da heterossexualidade, nos seus campos de intervenção, cuidado e controle da saúde das mulheres.

Resultado Permanência e a ampliação dos contextos de vulnerabilidade de mulheres que, quando recorrem aos serviços de saúde, não são orientadas adequadamente para o exercício da sexualidade autônoma, segura e protegida.

Por fim, cabe ainda dizer que a vivência da homossexualidade feminina potencializa diversas situações de violência, seja institucional, sexual ou doméstica. A violência gerada pelo exercício da lesbiandade contribui para produção de sofrimentos psíquicos importantes que, associado à lesbofobia programática e familiar, faz com que muitas delas não acreditem ser possível e cabível a vivência saudável da sua sexualidade e o exercício pleno de uma vida saudável.

Referências BUTLER. Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del sexo. Buenos Aires: Paidos, 2002 [1993]. BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003 [1990]. CLASTRES, P. O arco e o cesto In: A sociedade contra o Estado. 4. ed. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1988. p. 71-89. MEAD, M. Sexo e Temperamento. São Paulo, Perspectiva, 1969. SCOTT, J. W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v.20, n.2., pp. 71-99, 1995. RUBIN, G. S. The traffic in women. Notes on the political economy of sex. In: RAITER, R. (Ed.). Toward anthropology of women. Nova York: Monthly Review Press, 1975. RICH, A. "Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence" in: Signs: Journal of Women in Culture and Society, 5:631-60, 1980.