HABEAS CORPUS Teoria e Prática
PATRÍCIA ELIAS COZZOLINO DE OLIVEIRA JEFFERSON APARECIDO DIAS HABEAS CORPUS Teoria e Prática (De acordo com a Nova Lei das Prisões 12.403/2011 e contendo quadro comparativo com o Projeto do Novo CPP)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Oliveira, Patrícia Elias Cozzolino de Habeas corpus : teoria e prática / Patrícia Elias Cozzolino de Oliveira, Jefferson Aparecido Dias. 1. ed. São Paulo : Editora Verbatim, 2012. De acordo com a nova leis das prisões - 12.403/2011 e contendo quadro comparativo com o Projeto do Novo CPP) Bibliografia. 1. Habeas corpus 2. Habeas corpus - Jurisprudência - Brasil 3. Habeas corpus - Leis e legislação - Brasil I. Dias, Jefferson Aparecido. II. Título. 12-07303 CDU-343.155(81)(094) Índices para catálogo sistemático: 1. Brasil : Leis : Habeas corpus : Processo penal 343.155(81)(094) 2. Leis : Brasil : Habeas corpus : Processo penal 343.155(81)(094) Editor: Antonio Carlos Alves Pinto Serrano Conselho Editorial: Antonio Carlos Alves Pinto Serrano, André Mauro Lacerda Azevedo, Felippe Nogueira Monteiro, Fernando Reverendo Vidal Akaoui, Fulvio Gianella Júnior, José Luiz Ragazzi, Hélio Pereira Bicudo, Luiz Alberto David Araujo, Luiz Roberto Salles, Marcelo Sciorilli, Marilena I. Lazzarini, Motauri Ciochetti Souza, Oswaldo Peregrina Rodrigues, Roberto Ferreira Archanjo da Silva, Suelli Dallari, Vanderlei Siraque, Vidal Serrano Nunes Júnior. Assistente editorial: Bárbara Pinzon de Carvalho Martins Capa e diagramação: Manuel Rebelato Miramontes Direitos reservados desta edição por EDITORA VERBATIM LTDA. Rua Zacarias de Góis, 2006 CEP 04610-000 São Paulo SP Tel. (0xx11) 5533.0692 www.editoraverbatim.com.br e-mail: editoraverbatim@editoraverbatim.com.br
O direito é um dos fenômenos mais notáveis na vida humana. Compreendê-lo é compreender uma parte de nós mesmos. É saber em parte porque obedecemos, porque mandamos, porque nos indignamos, porque aspiramos mudar em nome de ideais, porque em nome de ideais conservamos as coisas como estão. Ser livre é estar no direito e, no entanto, o direito também nos oprime e nos tira a liberdade. Por isso, compreender o direito não é um empreendimento que se reduz facilmente a conceituações lógicas e racionalmente sistematizadas. O encontro com o direito é diversificado, às vezes conflitivo e incoerente, às vezes linear e consequente. Estudar o direito é, assim, uma atividade difícil, que exige não só acuidade, inteligência, preparo, mas também encantamento, intuição, espontaneidade. Para compreendê-lo é preciso, pois, saber e amar. Só o homem que sabe pode ter-lhe o domínio. Mas só quem o ama é capaz de dominá-lo rendendo-se a ele. 1 Tercio Sampaio Ferraz Jr. 1 Ferraz Jr, Tercio Sampaio. Introdução ao Estudo do Direito técnica, decisão, dominação. São Paulo: Atlas, 1988. p. 25.
DEDICATÓRIAS À você meu amor, minha vida, com quem aprendo a cada dia uma nova nuance do que é amar, Olavo de Oliveira Neto. À minha irmã Alba Daura Elias Cozzolino, com gratidão pela rica convivência e amor inestimável, que não consigo traduzir em palavras. Aos amigos Eliana Etsumi Tsunoda, Glória de Fátima Fernandes Galbiati e Ricardo César Galbiati; pela alegria, pelo amor fraterno, pelo apoio em todos os momentos e em especial durante o período de desenvolvimento deste estudo, quando perdi meu pai abruptamente. Patrícia Para Beatriz, meu amor, e para Mateus e Ana Clara, meus filhos maravilhosos, as melhores companhias em todas as minhas aventuras. Para os meus pais, Cido Dias e Neide, por sempre confiarem em meus projetos. Ao meu irmão Josival e às minhas irmãs Josiane e Geize, grandes amigos reais num mundo que tem valorizado os amigos virtuais. Jefferson
AGRADECIMENTOS A Deus, pelo desafio que é viver. Ao Prof. Dr. Vidal Serrano Nunes Júnior, pela confiança em mim depositada, pelo estímulo constante e extremada paciência. Ao amigo Luciano Montalli, brilhante defensor público, por ter-me facultado a consulta aos seus arquivos pessoais. A Zélia Myuki Okagawa pelo auxílio na pesquisa da jurisprudência realizada durante o seu período de lazer e convívio familiar. Patrícia Elias Cozzolino de Oliveira Agradeço às minhas equipes de trabalho na Procuradoria da República em Marília e, também, na Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo, grandes parceiras em minhas recentes lutas em defesa dos direitos humanos. Jefferson Aparecido Dias
INTRODUÇÃO...13 CAPÍTULO 1 ORIGENS HISTÓRICAS...15 CAPÍTULO 2 NATUREZA JURÍDICA...21 CAPÍTULO 3 PRINCÍPIOS PROCESSUAIS PENAIS RELACIONADOS À IMPETRAÇÃO DE HABEAS CORPUS...27 3.1. Princípio da presunção de inocência ou de não culpabilidade... 29 3.2. Princípio da motivação das decisões judiciais e administrativas... 32 3.3. Princípio da duração razoável do processo... 33 CAPÍTULO 4 CONDIÇÕES DA AÇÃO...37 4.1. Possibilidade jurídica do pedido... 37 4.2. Interesse de agir... 39 4.3. Legitimidade... 40 a) Legitimidade ativa: quem pode impetrar... 41 b) Legitimidade passiva: autoridade coatora... 48 CAPÍTULO 5 COMPETÊNCIA...59 5.1. Supremo Tribunal Federal... 60 5.2. Superior Tribunal de Justiça... 61 5.3. Tribunal Superior Eleitoral... 62 5.4. Tribunal Superior do Trabalho... 62 5.5. Superior Tribunal Militar... 63 5.6. Tribunais de Segunda Instância e Juízes de Primeiro Grau... 63 CAPÍTULO 6 HABEAS CORPUS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL...67 CAPÍTULO 7 PROPOSITURA...75 7.1 Requisitos da petição inicial... 75 7.2 Hipóteses de cabimento... 79
a) Falta de justa causa... 79 b) Quando alguém estiver preso por mais tempo do que determina a lei 81 c) Quando quem ordenar a coação não tiver competência para fazê-lo. 81 d) Quando houver cessado o motivo que autorizou a coação... 82 e) Quando não for alguém admitido a prestar fiança, nos casos em que a lei a autoriza... 82 f) Processo manifestamente nulo... 85 g) Extinção de punibilidade... 86 h) Em execução penal... 87 i) Em em face de descumprimento de tratado internacional... 89 CAPÍTULO 8 PROCEDIMENTO...91 CAPÍTULO 9 MODELOS DE HABEAS CORPUS...97 9.1 Observância Ao Princípio Da Presunção De Inocência Ou De Não Culpabilidade Direito De Apelar Em Liberdade... 97 9.2 Princípio da Razoável Duração do Processo Constrangimento Ilegal por Excesso de Prazo... 100 9.3 Habeas corpus em favor de Adolescente Autor de Ato Infracional que sofre Medida Socioeducativa de Internação... 103 9.4 Habeas corpus para Trancamento de Ação Penal Falta de Justa Causa... 107 9.5 Habeas corpus por Indeferimento de Pedido de Liberdade Provisória...110 CAPÍTULO 10 QUESTÕES E RESPOSTAS REFERENTES A CONCURSOS PÚBLICOS E PROVAS DA OAB SOBRE HABEAS CORPUS.... 115 CONCLUSÕES...127 BIBLIOGRAFIA...129 ANEXO...135
É incrível que, passados quase 800 anos de sua criação, pela Magna Charta de 1215, o Habeas corpus continue a cumprir importante papel em nossa sociedade. É evidente que os tempos mudaram e muitos mecanismos do regime democrático se desenvolveram, mas ainda continuam a existir atos que, por representarem um constrangimento ilegal à liberdade de locomoção das pessoas, somente cessam diante da utilização do remédio heroico, forma carinhosa pelo qual o Habeas corpus é conhecido. Assim, diante da atualidade do tema, imprescindível que, não só os acadêmicos do curso de Direito, mas também os que já concluíram referido curso ou aqueles interessados nas ciências jurídicas dediquem-se a estudar o instituto, tão importante em nosso dia a dia como foi na Europa da Idade Média. Visando ser um guia rápido para tal estudo surgiu o presente livro, que não tem a expectativa de esgotar o tema, mas sim a intenção de dar uma visão geral do instituto do Habeas corpus a partir de uma postura prática que, contudo, não está dissociada de uma sólida estrutura teórica. Nesse sentido, no capítulo 1, nos dedicaremos a apresentar as origens históricas do habeas corpus e como referido instituto se desenvolveu no tempo, até atingir a atual previsão constante de nossa Constituição e do Código de Processo Penal. Apresentadas as origens históricas do habeas corpus, no Capítulo 2, apresentaremos algumas considerações quanto a sua natureza jurídica, esclarecendo que se trata de ação de natureza mandamental, apesar de, atualmente, constar do capítulo do Código de Processo Penal nominado de das nulidades e dos recursos em geral. Expostas as origens históricas e a natureza jurídica da medida, em seguida, no Capítulo 3, serão apresentados três dos princípios mais importantes relacionados ao tema, ou seja, o princípio da presunção de inocência ou de não culpabilidade, o princípio da motivação das decisões judiciais e administrativas e o princípio da duração razoável do processo. Além disso, visando atribuir maior efetividade a tais princípios, eles foram adotados como espécies de normas, ao lado das regras. Em seguida, no Capítulo 4, serão analisadas as condições da ação para o habeas corpus (possibilidade jurídica do pedido, interesse de agir e legitimidade). Nesse item, merece destaque a tentativa de expor um extenso rol exemplificativo
14 das pessoas que podem atuar no polo ativo da ação (paciente e impetrante) e, ainda, quem figura em seu polo passivo (autoridade coatora). Dando seguimento à matéria de direito processual relacionada ao habeas corpus, no Capítulo 5, serão elencadas as regras que atribuem a competência para os diversos órgãos do Poder Judiciário para processar e julgar a ação de habeas corpus. No Capítulo 6, visando atualizar os que se dedicam a estudar o tema, será apresentado um quadro comparativo entre a atual redação dos artigos do Código de Processo Penal que tratam do habeas corpus e os preceitos que constam do Projeto de Lei do Senado 156, de 2009, o qual se propõe a criar o Novo Código de Processo Penal. A partir do Capítulo 7 damos início à parte do presente trabalho efetivamente relacionada à atuação prática, tanto que referido capítulo, nominado de propositura, dedica-se a analisar quais os elementos que devem constar na petição inicial do habeas corpus e, também, quais os casos em que a sua propositura será cabível. Nesse item, merece destaque a defesa da possibilidade de propositura de habeas corpus baseada no descumprimento de preceito contido em tratado internacional e não apenas nos preceitos contidos em lei. Dando sequência, no Capítulo 8, são apresentados modelos de petições iniciais de propositura de habeas corpus e, no Capítulo 9, são solucionadas algumas questões relacionadas ao tema exigidas em exames da Ordem dos Advogados do Brasil e em diversos concursos públicos para carreiras jurídicas. Nesse caso, além se direcionar aos acadêmicos que estão se preparando para tais exames e concursos, o objetivo também é apresentar um roteiro rápido de atuação para os já aprovados, visando dar uma visão panorâmica sobre o tema. Ao final, serão apresentadas nossas conclusões, baseadas na defesa intransigente da liberdade de locomoção das pessoas e, também, da adoção do habeas corpus como instrumento eficaz para a sua garantia.
CAPÍTULO 1 O instituto do Habeas corpus tem origem no direito inglês, mais precisamente na Magna Charta Libertatum, redigida em latim bárbaro, e originada de um acordo entre o rei João e os barões da Inglaterra para a outorga das liberdades da igreja e do reino inglês. O diploma legal foi assinado em 15 de junho de 1215, pelo rei João, perante o alto clero e os barões do reino e era chamado Carta Magna das Liberdades ou Concórdia Entre o Rei João e os Barões Para a Outorga das Liberdades da Igreja e do Reino Inglês. O momento histórico justificava a preocupação com os direitos individuais, pois era necessária a oposição de direitos frente ao Estado Absolutista e mesmo ao Clero, para que os nobres pudessem exercer sua liberdade em paz. Nesta época não era o direito da população o mote da legislação, mas a proteção dos direitos da nobreza, com o objetivo de limitação do poder estatal. Esclareça-se que a Magna Charta não foi o primeiro diploma com o objetivo de limitar o poder real do soberano, pois isto já era uma preocupação dos nobres senhores feudais desde o início do século XII, preocupação esta demonstrada em diversas declarações e petições sucessivas, a primeira delas foi a declaração das cortes de Leão, na Espanha, datada de 1188. 2 A Magna Charta surgiu como exigência dos barões da Inglaterra que não se conformavam com o aumento das exações fiscais por parte do rei João para o financiamento de suas campanhas bélicas. A nobreza se organizou e exigiu o reconhecimento de direitos para que continuassem a pagar os impostos. Apesar da forma unilateral da Magna Charta, tratava-se de verdadeira convenção ocorrida entre o monarca e os barões feudais, onde se reconhecia a estes últimos alguns privilégios especiais. Foi um grande marco histórico, pois pela 2 Comparato, Fábio Konder. A Afirmação Histórica Dos Direitos Humanos. 3ª. Ed. Rev. E Ampl., 2ª. Tiragem. São Paulo: Saraiva, 2003. P. 71.