n novembro

Documentos relacionados
ACIDENTES COM ANIMAIS PEÇONHENTOS

Palavras-chaves: Pragas do pequizeiro, Megalopigidae, Levantamento de pragas

Relato de Caso. Juliana Junqueira da Silva, 1 Jean Ezequiel Limongi, 1 e 2 Eduardo Henrique Roscoe 3 e Roberto Henrique Pinto Moraes 4 RESUMO ABSTRACT

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS E VETERINÁRIAS DEPARTAMENTO DE FITOSSANIDADE Disciplina de Entomologia Básica

n março

Monitoramento e controle de mosca-das-frutas em pessegueiros no Sul de Minas Gerais 1

PROGRAMA DE VIGILÂNCIA DE ACIDENTES COM ANIMAIS PEÇONHENTOS NOTA TÉCNICA Nº 02/2011 (DVVZI NT 02/2011)

PROGRAMA DE VIGILÂNCIA DE ACIDENTES COM ANIMAIS PEÇONHENTOS NOTA TÉCNICA Nº 01/2012 (DVVZI NT 01/2012) ACIDENTES COM LEPIDÓPTEROS LAGARTAS E MARIPOSAS

n janeiro

n novembro

Lepidópteros de importância médica no município de Chapecó, Santa Catarina

O IMPACTO DO LIXO NA INCIDÊNCIA DE ANIMAIS PEÇONHENTOS EM MINEIROS E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA A SAÚDE DA POPULAÇÃO

Série Didática Número 6

ACIDENTES PROVOCADOS POR LAGARTAS URTICANTES EM PONTA GROSSA PARANÁ ACCIDENTS CAUSED BY URTICATING CATERPILLARS IN PONTA GROSSA PARANÁ

n junho

Broca-do-café: previsão de infestação e recomendações de controle para a safra 2000/2001 no estado de Rondônia 1

ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE PICADO POR ANIMAIS PEÇONHENTOS

VIII - Doenças alérgicas

ACIDENTES COM ANIMAIS PEÇONHENTOS

DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS

Carbúnculo ou antraz Bacillus anthracis

ACIDENTES COM ANIMAIS PEÇONHENTOS

Ordem Lepidoptera. Ordem Lepidoptera. Ordem Lepidoptera. Borboletas e mariposas

LONOMIA. Duas espécies estão envolvidas em acidentes humanos graves e fatais: Lonomia oblíqua e Lonomia achelous.

DIFERENCIAÇÃO NO ATAQUE DE PHOMA E PSEUDOMONAS J.B. Matiello e S.R. de Almeida Engs Agrs Mapa e Fundação Procafé

7. Manejo de pragas. compreende as principais causadoras de danos na citricultura do Rio Grande do Sul. Mosca-das-frutas sul-americana

n março

INSETOS-PRAGA NO BRASIL: LAGARTA-DAS-VAGENS

Comunicação Química entre Insetos

INSETOS-PRAGA NO BRASIL: LAGARTA-DA-ESPIGA

Queimaduras. Acadêmico: Melissa Dorneles de Carvalho Orientador: Dr. Marcos Cristovam Cascavel, novembro de 2015

ACIDENTES COM ANIMAIS PEÇONHENTOS

Acidentes por animais peçonhentos

n maio

SUMÁRIO 1. PREVENÇÃO DE ACIDENTES DE TRABALHO COM ANIMAIS PEÇONHENTOS ESCORPIÃO SERPENTE ARANHA LACRAIA 09 6.

DERMATOSES OCUPACIONAIS

ALERGIA A INSETOS PICADORES (CHOQUE ANAFILÁTICO)

Cetoconazol. Prati-Donaduzzi Creme dermatológico 20 mg/g. Cetoconazol_bula_paciente

Insetos e Ácaros de Importância Médica e Veterinária. BAN 160 Entomologia Geral Insetos e Ácaros de Importância Médica e Veterinária.

[DERMATITE ALÉRGICA A PICADA DE PULGAS - DAPP]

MANUAL DE CAMPO PARA IDENTIFICAÇÃO DAS PRINCIPAIS PRAGAS DO EUCALIPTO NO BRASIL

Qualidade de sementes de café produzidas na Fazenda Experimental de Três Pontas da EPAMIG Sul de Minas

BEATRIZ ALVES DE ARAUJO CRUZ

Orientações gerais para as famílias. Ambulatório

Circular. Técnica INSETOS-PRAGA ASSOCIADOS À CULTURA DO MILHO EM SERGIPE INTRODUÇÃO. Autores ISSN

Manejo de cafeeiro em áreas infestadas pelos nematoides-das-galhas com uso de cultivar resistente

ACIDENTES COM ANIMAIS PEÇONHENTOS

cetoconazol Creme 20mg/g

BIOLOGIA DE Dirphia rosacordis WALKER, 1855 (LEPIDOPTERA - SATURNIIDAE) EM PEQUIZEI- RO (Caryiocar brasiliensis CAMBESS)

MARINA BESEN GUERINI

BROCA DOS RAMOS, Xylosandrus compactus, EM CAFÉS ROBUSTA NO ESPÍRITO SANTO.

Caixa Postal São José dos Campos SP, Brasil

ENVELHECIMENTO. Definições do Envelhecimento, Acne e Lesões de conteúdo liquido. Envelhecimento cutâneo. Envelhecimento Intrínseco (fisiológico)

O que é o Bicho-Furão. Prejuízos

INCIDÊNCIA DA BROCA DOS RAMOS Xylosandrus compactus (Eichhoff) (Coleoptera :

BOAS PRÁTICAS AGRÍCOLAS. Soluções para um Mundo em Crescimento

IPEF, n.41/42, p.77-82, jan./dez.1989

Capítulo 17b (Ex-CAPÍTULO 9) EFEITOS TARDIOS

Seleção de cultivares Bourbon visando à produção de cafés especiais

História. Descobrimento do Micobacterium leprae, por Gerhard H. Amauer Hansen

Avaliação da solução a base de gengibre no controle da traça do tomateiro

POSSÍVEIS FATORES DETERMINANTES DO AUMENTO DA SUA POPULAÇÃO ROBERTO HENRIQUE PINTO MORAES

Síndrome Periódica Associada à Criopirina (CAPS)

Febre maculosa febre carrapato

EFICÁCIA DO PRODUTO SULFURGRAN (ENXOFRE 90 %) NO CONTROLE DA CIGARRA, Quesada gigas, EM CAFEEIRO NA REGIÃO SUL DE MINAS

INSETOS-PRAGA NO BRASIL: LAGARTA-PRETA

Verutex B (Ácido fusídicol + Valerato de betametasona) LEO PHARMA LTDA creme 20 mg/g + 1,0 mg/g

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES BIOLÓGICAS EM SPODOPTERA FRUGIPERDA EM MILHO NO MUNICÍPIO DE ITUIUTABA (MG)

FUNGONAZOL cetoconazol

Efeito do inseticida Lorsban na supressão de Spodoptera frugiperda (Smith, 1797) (Lepidoptera: Noctuidae) na cultura do milho.

n janeiro

Artrite Psoriásica. 15 Encontro Municipal / 13 Encontro Nacional de Psoríase 10 Encontro de Vitiligo 2017

Programa Estadual de Vigilância de Acidentes por Animais Peçonhentos

TERRA-CORTRIL. Pomada. 30mg + 10mg

A Cultura do Algodoeiro

EFICÁCIA DO PRODUTO SULFURGRAN NO CONTROLE DA CIGARRA, Quesada gigas, EM CAFEEIRO NA REGIÃO SUL DE MINAS

Acidente Vascular Encefálico

Transcrição:

1 n. 109 - novembro - 2010 Acidentes causados por lepidópteros em cafeeiro e outras culturas 1 2 Paulo Rebelles Reis 3 Rogério Antônio Silva 4 Melissa Alves de Toledo 5 INTRODUÇÃO Os acidentes causados por insetos pertencentes à ordem Lepidoptera, tanto na fase de lagarta como na adulta, dividem-se em: a) dermatite urticante - causada por contato com lagartas-urticantes de vários gêneros de lepidópteros; - provocada ocasionalmente pelo contato com cerdas da mariposa Hylesia sp. b) periartrite falangeana - causada pela lagarta pararama; c) síndrome hemorrágica - causada pelas lagartas de Lonomia spp., dentre estas Lonomia obliqua. LEPIDÓPTEROS DE IMPORTÂNCIA MÉDICA A ordem Lepidoptera (mariposas e borboletas) conta com mais de 150 mil espécies, mas somente algumas delas são de interesse médico no Brasil. Na classe Insecta, as larvas e pupas da ordem Lepidoptera recebem o nome de lagartas e crisálidas, respectivamente. A quase totalidade dos acidentes com lepidópteros, denominados erucismo (erucae = larva), decorre do contato com lagartas-urticantes, que causam queimaduras, conhecidas também por taturana ou tatarana, que no tupi significa semelhante a fogo (tata = fogo, rana = semelhante). As principais famílias de lepidópteros causadores de erucismo são Megalopygidae, Saturniidae e Arctiidae. EPIDEMIOLOGIA Os acidentes causados por lepidópteros têm sido, de modo geral, subnotificados, o que dificulta seu real dimensionamento. Em virtude das particularidades dos três tipos de acidentes, alguns aspectos epidemiológicos serão abordados nos tópicos específicos. Família Megalopygidae Os megalopigídeos são popularmente conhecidos por sauí, lagarta-de-fogo, chapéu-armado, taturana-gatinho, taturana-de-flanela, taturana-cachorrinha. Apresentam dois tipos de cerdas: as verdadeiras, que são pontiagudas, contendo as glândulas 1 Circular Técnica produzida pela Unidade Regional EPAMIG Sul de Minas (U.R. EPAMIG SM). Tel.: (35) 3821-6244. Correio eletrônico: uresm@epamig.br 2 Eng o Agr o, D.Sc., Pesq. U.R. EPAMIG SM-EcoCentro/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 176, CEP 37200-000 Lavras- MG. Correio eletrônico: jcsouza@navinet.com.br 3 Eng o Agr o, D.Sc., Pesq. U.R. EPAMIG SM-EcoCentro/Bolsista CNPq, Caixa Postal 176. CEP 37200-000 Lavras-MG. Correio eletrônico: rebelles@epamig.ufla.br 4 Eng o Agr o, D.Sc., Pesq. U.R. EPAMIG SM-EcoCentro/Bolsista FAPEMIG, Caixa Postal 176, CEP 37200-000 Lavras- MG. Correio eletrônico: rogeriosilva@epamig.ufla.br 5 Eng a Agr a, M.Sc., Bolsista INCT Café/U.R. EPAMIG SM-EcoCentro, Caixa Postal 176, CEP 37200-000 Lavras-MG. Correio eletrônico: toledo.melissa@hotmail.com

2 basais de veneno, e as cerdas mais longas, coloridas e inofensivas. Como exemplo podem ser citadas as espécies Megalopyge lanata (coloração geral branca) e Podalia sp. (cor cinza a marrom); ambas ocorrem em cafezais de Minas Gerais e podem ocorrer também em citros. Família Saturniidae As lagartas de saturnídeos apresentam espinhos ramificados e pontiagudos de aspecto arbóreo, com glândulas de veneno nos ápices. Apresentam tonalidades esverdeadas, exibindo no dorso e nas laterais manchas e listras, características de gêneros e espécies. Muitas vezes mimetizam as plantas que habitam. Como exemplo podem ser citadas as espécies de Automeris spp., todas ocorrem em cafezais e citros em Minas Gerais. Nessa família incluem-se as lagartas do gênero Lonomia, causadoras de síndrome hemorrágica, com gravidade, e que pode levar à morte; ocorrem na região Sul do Brasil, especificamente nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Em Minas Gerais, há mais de 25 anos, foram constatadas infestações de lagartas de Lonomia circunstans em duas lavouras de café no município de Lavras, Sul de Minas, não se sabendo se estas causavam a síndrome hemorrágica. Pela grande quantidade de lagartas gregárias de L. circunstans ocorrida nas duas lavouras naquela época e pela grande exposição da mão de obra, nestas lavouras, sem nenhum acidente mais sério, pode-se afirmar que tais lagartas não causam a síndrome hemorrágica como a espécie L. obliqua, que raramente ocorre em cafezais. Família Arctiidae Nesta família incluem-se as lagartas de Premolis semirufa, vulgarmente denominadas de pararama, causadoras da pararamose ou reumatismo dos seringueiros, ou seja uma forma de erucismo. Os acidentes com a pararama, até o presente, parecem restritos à Amazônia, mais particularmente aos seringais cultivados no estado do Pará. Ocorrem durante todo o ano, com discreta redução nos meses de novembro a janeiro, época menos favorável à extração do látex. As vítimas, em quase sua totalidade, são homens que se acidentam durante o trabalho de coleta da seiva das seringueiras. Mais de 90% dos acidentes comprometem as mãos, sendo a direita a mais atingida. O dedo médio é o mais lesado, e a terceira articulação interfalangeana a mais comprometida. Diferindo do modelo usual de acidente agudo e transitório, a pararamose determina, em alguns indivíduos, lesões crônicas que comprometem as articulações falangeanas, levando à deformidade com incapacidade funcional definitiva. DERMATITE URTICANTE Causada na quase totalidade por contato com lagartas de vários gêneros, citados na descrição das famílias Megalopygidae e Saturniidae. Esse acidente é extremamente comum em todo o Brasil, mas particularmente nos cafezais de Minas Gerais, especialmente em épocas de colheita do café e desbrotas de cafeeiros. Resulta do contato da pele com lagartas-urticantes sendo, em geral, de modo agudo e evolução benigna, à exceção dos acidentes com Lonomia obliqua (Fig.1). Essas lagartas-urticantes têm ocorrido nos cafezais durante todo o ano, mais expressivamente no período de fevereiro a agosto (Quadro 1). Alimentamse de folhas e, em geral, ocorre de maneira dispersa nas lavouras. Não requerem controle químico e são muito parasitadas por himenópteros da família Braconidae e moscas da família Tachinidae, presentes naturalmente nas lavouras. O único grande ataque generalizado de lagartas-urticantes nas lavouras de café de todas as regiões cafeeiras de Minas Gerais ocorreu no período de fevereiro a abril de 1999, da espécie Automeris sp. (não identificada). O ataque foi tão intenso e generalizado que entomologistas da EPAMIG o elegeram como o ano das taturanas e de outras lagartas nos cafezais. Figura 1 - Lagarta de Lonomia obliqua Walker, 1855 (Lepidoptera: Saturniidae)

3 QUADRO 1 - Lagartas que ocorrem em cafezais mineiros Espécie Família Dermatite urticante Megalopyge lanata (Fig. 2) Megalopygidae Causa Podalia sp. (Fig. 3) Megalopygidae Causa Automeris complicata (Fig. 4) Saturniidae Causa Automeris coresus (Fig. 4) Saturniidae Causa Automeris ilustris (Fig. 4) Saturniidae Causa Lonomia circunstans (Fig. 5) Saturniidae Causa Lagarta-dos-cafezais Eacles imperialis magnifica (Fig. 6) Saturniidae Lagartas-aranhas Eucleidae Lagartas-gelatinosas ou lagartas-vidro (Fig. 7) Dalcera abrasa Zadalcera fumata Lagartas mede-palmos Glena sp. Oxydia sp. (Fig. 8) Dalceridae Dalceridae Geometridae Geometridae Bicho-cesto Diketicus kirbyi (Fig. 9) Psychidae Figura 2 - Lagarta cabeluda Megalopyge lanata (Stoll & Cramer, 1780) (Lepidoptera: Megalopigidae) Figura 3 - Taturana-do-cafeeiro Podalia sp. (Lepidoptera: Megalopydidae) Paulo Rebelles Reis Figura 4 - Lagarta de Automeris sp. (Lepidoptera: Saturniidae) Figura 5 - Lagarta de Lonomia circunstans (Walker, 1855) (Lepidoptera: Saturniidae)

4 Figura 6 - Lagarta de Eacles imperialis magnifica Walker, 1856 (Lepidoptera: Saturniidae) Paulo Rebelles Reis Figura 7 - Lagarta gelatinosa Figura 8 - Lagarta mede-palmos Oxydia sp (Lepidoptera: Geometridae) Figura 9 - Bicho-cesto Diketicus kirbyi (Landos-guild, 1827) Ações do veneno e seus componentes Não se conhece exatamente como agem os venenos das lagartas. Atribui-se aos líquidos da hemolinfa e da secreção das espículas, tendo a histamina como o principal componente estudado até o momento. Inicialmente, há dor local intensa, edema, eritema e, eventualmente, prurido local. Existe infartamento ganglionar regional característico e doloroso. Nas primeiras 24 horas, a lesão pode evoluir com vesiculação e, mais raramente, com formação de bolhas e necrose na área do contato. Quadro clínico As manifestações são do tipo dermatológico, dependendo da intensidade e extensão do contato. Complicações O quadro local apresenta boa evolução e regride no máximo em dois ou três dias sem maiores complicações ou sequelas.

5 Tratamento a) lavagem da região com água fria; b) infiltração local com anestésico tipo lidocaína a 2%; c) elevação do membro acometido; d) corticosteroides tópicos; e) anti-histamínico oral. Na região Sul do Brasil, por causa da possibilidade de se tratar de acidente hemorrágico por Lonomia obliqua, todo paciente que não trouxer a lagarta para identificação deve ser orientado para retorno, no caso de apresentar sangramentos até 48 horas após o contato. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos. Brasília, 1998. 131p. REIS, P.R.; SOUZA, J.C. de; MELLES, C. do C.A. Pragas do cafeeiro. Informe Agropecuário. Pragas do cafeeiro, Belo Horizonte, ano 10, n. 109, jan. 1984. p. 3-60. Departamento de Publicações