ANESTESIA EM OFTALMOLOGIA

Documentos relacionados
Proposta de Estágio Opcional em. Anestesiologia Oftalmológica / Desenvolvimento da Componente da Anestesia Loco-regional

CATARATA. O olho funciona como uma máquina fotográfica

PRÁTICA AVANÇADA DE ANESTESIA REGIONAL

ANTIAGREGANTES Quem e quando parar?

ANESTÉSICO ALLERGAN PRODUTOS FARMACÊUTICOS LTDA. Solução Oftálmica Estéril. cloridrato de tetracaína 1% cloridrato de fenilefrina 0,1%

O PREDNIOCIL pomada oftálmica, possui na sua composição como única substância activa o Acetato de Prednisolona na concentração de 5 mg/g.

1.Cite fatores maternos, obstétricos, fetais e do ambiente de prática obstétrica que aumentam a incidência de cesarianas.

URGÊNCIAS EM OFTALMOLOGIA

Nome do Paciente: Data de nascimento: / / CPF: Procedimento Anestésico: I. O que é?

TRABECULECTOMIA MSS ESTUDO PENTACAM DO SEGMENTO ANTERIOR

CUIDADOS PERI-OPERATÓRIOS, DIAGNÓSTICO E CONTROLE DA DOR

Manuseio Peri-operatório do Doente medicado com Outros Anticoagulantes

CH Lisboa Ocidental, EPE - Hospital Egas Moniz

AVC Uma realidade. Serviço de Neurologia Enf.ª Edite Maldonado

ULS Matosinhos, EPE - Hospital Pedro Hispano

XILONIBSA 2% com epinefrina contém lidocaína base 31,14 mg/1,8 ml e epinefrina base 0,0225 mg/1,8 ml.

Prof. Dr. Maria Cris-na S. de Almeida Doutora pela Universidade Johannes Gutenberg/Alemanha Prof. Adjunta do Departamento de Cirurgia/UFSC

Anestesia fora do Centro Cirúrgico

Anestesias e Anestésicos. André Montillo

INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

CH Setúbal, EPE - Hospital de S. Bernardo

MEDICINA PÓS OPERATÓRIA UNIDADE DE DOR AGUDA

Autor: Ângela Bento Data:8/11/2017 ANALGESIA DE PARTO ANALGESIA ENDOVENOSA E BLOQUEIOS PERIFERICOS

Anestesia. em cirurgia cardíaca pediátrica. por Bruno Araújo Silva

APROVADO EM INFARMED. Folheto informativo: Informação para o utilizador Fluotest Multidose, 2,5 mg/ml + 4 mg/ml, Colírio, solução

Estratificação de risco cardiovascular no perioperatório

GUIA ESSENCIAL PARA COMPREENDER A CATARATA

Leia com atenção todo este folheto antes de começar a utilizar este medicamento, pois contém informação importante para si.

MANUAL DE SEGURANÇA DO PACIENTE DA TAKAOKA ANESTESIA

MODELO DE BULA PACIENTE RDC 47/09

Hospital Distrital da Figueira da Foz, EPE

Punções: abdominal, vesical e torácica

Broncoscopia. Certificado pela Joint Commission International. Padrão Internacional de qualidade em atendimento médico e hospitalar.

XII) Anestesia em Oftalmologia

ESTUDOS AVANÇADOS EM ANESTESIOLOGIA REGIONAL

TRAUMATISMO CRANIOENCEFÁLICO. Prof.ª Leticia Pedroso

Conselho Internacional de Oftalmologia. Instruções Clínicas Internacionais. Fechamento Angular Primário (Avaliação Inicial e Tratamento)

PRÁTICA. Anestesia Venosa Total No Idoso. Leonardo Teixeira Domingues Duarte CREMESP: Controle e Precisão ao seu alcance.

EFEITO DA CLONIDINA ASSOCIADA À LIDOCAÍNA NA ANESTESIA SUBTENONIANA (EPISCLERAL) EM CIRURGIA DE CATARATA

COLÉGIO DE ANESTESIOLOGIA

1-Quais as principais diferenças clínicas (não anatômicas) entre as anestesias subaracnóides e peridurais.

QUESTIONÁRIO SOBRE TRATAMENTO DA DOR AGUDA PÓS-OPERATÓRIA

SRPA- Sala de Recuperação Pós-Anestésica

FÁRMACOS USADOS EM AMINAIS DE LABORATÓRIO ANESTÉSICOS E ANALGÉSICOS

O futuro está nas suas mãos

Medição da Pressão Intra-Ocular

TIME DE RESPOSTA RÁPIDA EM PACIENTES DURANTE O TRABALHO DE PARTO E ATENÇÃO ANESTÉSICA PARA O PARTO ADEQUADO SEGURO CMA

Status Epilepticus. Neurologia - FEPAR. Neurofepar Dr. Roberto Caron

Folheto informativo: Informação para o utilizador. alerjon 0,25 mg/ml colírio, solução Cloridrato de oximetazolina

PROPOFOL SEDATION DURING ENDOSCOPIC PROCEDURES: SAFE AND EFFECTIVE ADMINISTRATION BY REGISTERED NURSES SUPERVISED BY ENDOSCOPISTS

ALLERGAN PRODUTOS FARMACÊUTICOS LTDA

PROVA DE CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS MÉDICO ANESTESIOLOGISTA

Profa Dra Eliana Marisa Ganem CET/SBA do Depto. de Anestesiologia Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE MEDICINA LIGA DE CIRURGIA DE CABEÇA E PESCOÇO ACESSO CIRÚRGICO ÀS VIAS AÉREAS SUPERIORES

Principais Recomendações para o Diagnóstico e Tratamento de Cataratas no Adulto

Diprivan 10 mg/ml emulsão injetável ou para perfusão propofol

USO DE ANESTÉSICOS LOCAIS EM PACIENTES COM ALTERAÇÕES CARDIOVASCULARES. COMO SELECIONAR UMA BASE ANESTÉSICA?

Anestesia Peridural em Pediatria. Daniela Tchernin Wofchuk

ANESTÉSICOS LOCAIS: utilização clínica

Protocolo de Sedação e Anestesia no Serviço de Radiologia - Diagnóstico por Imagem

Hemorroidectomia esraeurope.org/prospect 1

Em correspondência encaminhada a este Conselho Regional de Medicina, a consulente formula consulta com o seguinte teor:

2. O que precisa de saber antes de utilizar Propofol-Lipuro 2 % (20 mg/ml)

Informações sobre. Anestesia

NEOSORO. (cloridrato de nafazolina)

Dermomax. Biosintética Farmacêutica Ltda. Creme dermatológico 40 mg/g. Dermomax_BU 02_VP 1

Propovan. propofol. Emulsão Injetável 10 mg/ml. Cristália Prod. Quím. Farm. Ltda. MODELO DE BULA PARA O PACIENTE

CENTRO HOSPITALAR SÃO JOÃO ESTUDOS AVANÇADOS EM ANESTESIOLOGIA - ANESTESIA EM PEDIATRIA SERVIÇO DE ANESTESIOLOGIA. Coordenadora: Fernanda Barros

Artroscopia do Ombro. Especialista em Cirurgia do Ombro e Cotovelo. Dr. Marcello Castiglia

Transcrição:

ANESTESIA EM OFTALMOLOGIA Autores: M. Ramalho, J. Laranjo, F. Vaz, S. Pina, C. Santos, C. Pedrosa, I. Coutinho, M. Mota Director de Serviço: Dr. António Melo

História da Anestesia Oftalmológica Egipto Antigo 8ª Reunião de Casos Clínicos de Glaucoma

História da Anestesia Oftalmológica Egipto Antigo India (Séc. VI) 8ª Reunião de Casos Clínicos de Glaucoma

História da Anestesia Oftalmológica Egipto Antigo India (Séc. VI) Susruta Samhita 8ª Reunião de Casos Clínicos de Glaucoma

História da Anestesia Oftalmológica Egipto Antigo India (Séc. VI) Karl Koller (1884) Hermann Knapp (1884) 8ª Reunião de Casos Clínicos de Glaucoma

História da Anestesia Oftalmológica Egipto Antigo India (Séc. VI) Karl Koller (1884) Hermann Knapp (1884) William Halsted (1885) 8ª Reunião de Casos Clínicos de Glaucoma

História da Anestesia Oftalmológica Egipto Antigo India (Séc. VI) Karl Koller (1884) Hermann Knapp (1884) William Halsted (1885) Van Lint (1914) 8ª Reunião de Casos Clínicos de Glaucoma

Anestesia Raiz grega: An : Sem Estesia : Sensação Inibição da bomba de sódio Potencial de ação não se forma Não há impulso, não há condução

Anestesia ideal Atua imediatamente Reversivel Duração apropriada ao procedimento Sem dano permanente Sem irritação tecidular ou dor Intervalo terapêutico grande

Anestesia em Oftalmologia Local Não acinética Tópica Subconjuntival Pele Acinética Geral Peribulbar e Retrobulbar Subtenoniana

Oxibuprocaína (Anestocil ) Anestesia tópica Dose: 4mg/mL Posologia: 1 a 3 gotas Inicio do efeito: 60 segundos Fim do efeito: 60 minutos após a última instilação Lidocaina intracamerular Proporciona analgesia durante a cirurgia, 0.3 ml Efeito em 10 segundos Possivel toxicidade retiniana transitória se injetada posteriormente Uso concomitante de sedativos (Midazolam e Propofol)

Não invasiva Anestesia tópica Complicações mínimas mas com analgesia insuficiente em alguns casos Popular na cirurgia de catarata Condição operatória desafiante Seleção de doente: Cooperante Conseguir estar em posição supina e quieto Sedação

Anestesia peribulbar Lidocaina a 2% Levobupivacaina a 5% e Ropivacaina a 10% Injeção inferotemporal Volume: 3 a 10 ml Agulha de 25 ou 27-G Anestésico injetado a 2,5 cm de profundidade Deve ser feita aspiração e não se deve sentir resistência à injeção Aplicar balão de Honan 20-30 minutos Muitos doentes requerem uma injeção suplementar se não existe acinésia passado 5 minutos

Anestesia peribulbar

Anestesia peribulbar

Anestesia peribulbar Vantagens Produz boa anestesia e acinésia Risco de complicações mais baixo do que o bloqueio retrobulbar Desvantagens Podem ocorrer todas as complicações do bloqueio retrobulbar Qualidade da acinésia e anestesia menor do que no retrobulbar Frequentemente necessária uma 2ª injeção O bloqueio demora até 30 minutos a ter efeito O balão de Honan pode ser desconfortável Quemose em 80% dos doentes Ptose prolongada em até 6% dos doentes

Anestesia retrobulbar Lidocaina a 2% Levobupivacaina a 5% e Ropivacaina a 10% Injeção inferotemporal Volume: 2 a 4 ml Agulha de 25 ou 27-G Agulha com menos de 31 mm

Anestesia retrobulbar

Anestesia retrobulbar

Anestesia retrobulbar Vantagens Produz excelente anestesia e acinésia O bloqueio tem efeito rápido (5 minutos) Menor volume de anestésico resulta em menos pressão Desvantagens A grande desvantagem do bloqueio retrobulbar é um maior número de complicações

Complicações (1-3%) Anestesia retrobulbar Perfuração do globo ocular (incidência <0.1%; 1/140 comp axial >26 mm) Hemorragia retrobulbar Injeção subaracnoideia ou intradural com anestesia do tronco cerebral (1/350-500) Depressão ou paragem respiratória (0.29%) Contusão e atrofia do nervo óptico Oclusão vascular da retina Convulsões Hipotonia (< 8 mmhg) Amaurose contralateral Ptose, entropion e diplopia Edema pulmonar Reflexo Oculocardiaco

Levobupivacaina a 5% Anestesia sub-tenoniana Anestesia tópica Infero-nasal (3-5 mm do limbo) Volume: 3 a 5 ml Muito popular no UK na cirurgia de catarata Utilização crescente na cirurgia de glaucoma Utilização em vitrectomias pela analgesia A acinésia é volume dependente

Anestesia sub-tenoniana

Anestesia sub-tenoniana Vantagens Menos dor que no bloqueio peribulbar Melhor analgesia do que a anestesia tópica Complicações raramente são sérias Volume baixo. Não aumenta a PIO Cirurgia pode começar imediatamente Dura 60 minutos e pode-se reanestesiar O doente pode mover o olho com indicações do cirurgião Desvantagens Pode ocorrer saída em excesso do anestésico pelo orifício de entrada Pode ser necessário o uso de suturas estabilizadoras

Anestesia geral Máscara laringea Propofol juntamente com um agente volátil Recuperação mais rápida com baixa incidência de náusea e vómito Maior rotatividade de cirurgias

Anestesia geral Vantagens Conforto do doente Condições operatórias ideais Método de escolha para casos difíceis Sem os riscos dos bloqueios locais Possibilidade de cirurgia bilateral Melhores condições para ensino de cirurgia Desvantagens Mais dispendioso Trocas de doentes mais demoradas (do que na local ou tópica)

Guidelines 2012 Idade média dos doentes de catarata: 75 anos 84% têm uma doença médica associada C. Kumar et al. Local anaesthesia for ophthalmic surgery new guidelines from the Royal College of Anaesthetists and the Royal College of Ophthalmologists Eye (Lond). Jun 2012; 26(6): 897 898.

Guidelines 2012 Idade média dos doentes de catarata: 75 anos 84% têm uma doença médica associada Royal Colleges of Anaesthetists and Ophthalmologists recomendam uma história clinica completa e investigação apropriada em doentes apropriados, no entanto, além do ECG quando especificamente indicado, nenhuma outra investigação teve influência no outcome final (anestesia local na catarata) C. Kumar et al. Local anaesthesia for ophthalmic surgery new guidelines from the Royal College of Anaesthetists and the Royal College of Ophthalmologists Eye (Lond). Jun 2012; 26(6): 897 898.

Guidelines 2012 Doença Cardíaca Isquémica (Evitar o stress anestésico) Não anestesiar 6 meses após EAM ou 3 meses após angioplastia ou revascularização coronária A fenilefrina pode aumentar a TA de forma significativa Anticoagulantes Não se deve parar a terapêutica anticoagulante e antiagregante, o risco cardiovascular ultrapassa o risco hemorrágico. Aconselha-se anestesia geral, sub-tenon ou local

Doentes podem ingerir pequenas quantidades de líquidos até 2 horas antes da cirurgia Guidelines 2012

Guidelines 2012 Doentes podem ingerir pequenas quantidades de líquidos até 2 horas antes da cirurgia Monitorização deve incluir ECG e oximetria de pulso Acesso venoso Oxigénio suplementar para evitar hipoxia e claustrofobia Um dos membros da equipa de bloco deve ter suporte avançado de vida, embora o anestesista não tenha de estar presente na sala na anestesia local e sub-tenon Devido ao número elevado intervenções um anestesista deve estar presente no bloco

Concluindo Idealmente, os procedimentos oftalmológicos seriam efetuados sob anestesia geral, no entanto, não é custo-eficiente e alguns doentes têm contraindicação absoluta Apesar da possibilidade de analgesia insuficiente a anestesia tópica é largamente usada na cirurgia de catarata O bloqueio peri-bulbar e retro-bulbar têm um risco potencial de complicações graves A anestesia sub-tenon é uma boa opção na cirurgia de catarata e glaucoma em doentes selecionados

Bibliografia Myron Yanoff, MD and Jay S. Duker, MDt; Ophthalmology, 3 rd Edition, Mosby Elsevier, 2012 Timothy L. Jackson; Moorfields Manual of Ophthalmology; Mosby Elsevier; 2008 Jack Kanski, Brad Bowling; Clinical Ophthalmology: A Systematic Approach, 7 th Edition, 2011 C. Kumar et al. Local anaesthesia for ophthalmic surgery new guidelines from the Royal College of Anaesthetists and the Royal College of Ophthalmologists Eye (Lond). Jun 2012; 26(6): 897 898.

fim