UM DIA DEPOIS DO AMANHÃ Lembra-se de mim, professora? Hummm, deixe-me ver... Carmen... Não. Luiza. Nossa como você cresceu! É, professora, a gente é assim mesmo: ta sempre um pouco maior, ou mais envelhecida, depois de um tempo que não se vê. Puxa, me lembro de você; sentava-se bem no cantinho direito, na frente, e tinha uma colega com quem sempre conversava, a... Carla, Professora. Isso mesmo! Carla. E a Carla, você a tem visto? Não professora. Parece que o tempo da escola é diferente do tempo da vida. A gente faz amizades, mas a maioria nunca mais a gente vê. É verdade... Que pena, não? Mas o que foi? Você parece um pouco triste... Sabe, professora, depois que minha mãe faleceu, precisei ajudar a cuidar dos irmãos menores. Deixei a escola onde tinha começado a estudar e fui matriculada em uma outra, porque era mais perto de casa. Perdi o contato com meus amigos e colegas da antiga escola, e nunca mais voltei lá. Lembro-me dos momentos bons que passei, mas também de alguns que não foram tão bons... É por isso que está assim, com esse olhar triste? O que foi?
Bem, eu não queria falar nisso, mas a senhora deve se lembrar do dia em que eu não me recordava da conjugação do verbo POR, lembra-se? Hummm, não muito, porque todo ano, no mês de maio, questiono as crianças a respeito do verbo POR. Mas o que houve? Conte-me! A senhora me pediu para ir à frente da sala, e começou a me fazer perguntas a respeito de tempos de conjugação daquele verbo - é assim que se diz?; bem, eu havia estudado e até mesmo escrito uma carta para minha mãe, já que ela estava doente e há muito internada num hospital. Enquanto escrevia, e toda vez que eu usava algum tempo do verbo POR eu me lembrava que teria de estudar para a sua aula e que a senhora ia cobrar as conjugações da gente, na semana seguinte. Embora eu soubesse escrever, até que razoavelmente bem, eu não conseguia memorizar todos os tempos do tal verbo anomaelo... Anômalo Luiza... É isso! Eu sentia medo até desse nome que a senhora acabou de falar e ficava travada: não conseguia guardar na minha cabeça, nada, nadica de nada. E o dia estava chegando. Que medo, professora! Foi isso então? É... Mas, eu tinha que falar pra minha mãe, escrever para ela, tudo quanto eu estava sentindo naquele momento em que ela estava tão longe de mim e da família. E eu escrevi: Mãe, vou POER você sempre em primeiro lugar na minha lembrança, pois eu a amo muito. Poer?... É professora. Eu me lembrava do que a senhora tinha falado, na aula, que o tal verbo era ano... Como é mesmo, professora? Anômalo Luiza.
Isso. Eu tinha ficado espantada de saber que a gente também podia escrever POER, ao invés de escrever POR daí eu queria mostrar para a minha mãe que eu estava aprendendo coisas muito importantes e difíceis, na escola. Espera! Estou me lembrando agora: então era você que havia perdido a mãe; fiquei sabendo alguns dias depois, o que aconteceu com ela... É, professora. Eu preparei a carta para a minha mãe, mas ela foi piorando rapidamente e faleceu. Quando eu fui ao hospital, uma enfermeira me entregou a carta que eu havia escrito e ela estava do jeitinho que eu a colei... Chore, Luiza, eu entendo a sua dor, querida... Depois de se recompor do choro, Luiza disse à sua ex-professora: A senhora agora se lembra melhor de mim? Lembra-se daquela aula que a gente ia ter de conjugar o verbo POR? Sim... Quero dizer, creio que sim... Então professora, eu me calei: não conseguia dizer nada, nem responder às suas perguntas. Na minha cabeça somente existia uma carta, escrita com o verbo POER. Mas, ninguém poderia saber o jeito que eu havia conjugado aquele verbo, pois para mim ele representava o quanto eu queria dizer pra minha mãe que estava aprendendo, coisas muito difíceis e importantes na escola. Sabe, professora, eu até acreditava que tinha que saber tudo aquilo, e me esforçava! Mas, quando eu ia escrever ah, professora, como eu gosto de escrever! as palavras iam surgindo na minha cabeça e, com elas, eu conseguia expressar tudo aquilo que o meu coração sentia. Uma lágrima correu, inesperadamente, pelo rosto da professora que, ternamente abraçou sua ex-aluna e disse-lhe: sinto muito, Luiza.
Professora, agora eu vendo doces aqui neste lugar, pois preciso ajudar a pagar as despesas de casa, mas nunca deixo de ler - eu também adoro ler! e nos breves intervalos escrevo. Escrevo histórias, faço o meu diário, anoto algumas idéias... É como se eu conversasse comigo mesma, mas de um jeito que fazendo assim eu me sinto acompanhada. Acho que eu consigo pensar de verdade... Luiza, você me comove com sua história, querida... Teria algo aí que tenha escrito, para eu ler? Mas a senhora se importa com o que eu escrevo? Claro! Professora, eu não entendo bem... Quando eu era sua aluna, desenhava histórias em quadrinhos eu até tinha inventado a SUPERGAROTA! - mas... Sim, diga! A senhora não se lembrará! Mas eu vou contar. Quero saber, conte-me! Quando houve uma gincana na escola, eu queria concorrer com um conto no qual a SUPERGAROTA enfrentava o poderoso e maligno doutor Isis Sabe Tudo. Eu havia criado essa história, um dia depois de ter ido mal na prova de matemática e uma idéia não me saia da cabeça: para quê saber tudo aquilo que se chamava produtos notáveis? Eu até sabia ficar fazendo todas aquelas transformações, mas não entendia para o que servia e quando perguntei isso ao professor Isidoro, de Matemática, ele disse que era matéria de prova... Eu travei, mais uma vez. Entendo...
Daí, quando eu apresentei o meu texto, para concorrer na gincana, disseram-me que já havia sido alcançado o limite do número de participantes. Puxa, que pena Luiza! Daí me veio uma grande dor, e eu não tinha para quem falar. Então comecei a escrever um outro texto, ao qual dei o título de Um dia depois do amanhã. Nele eu queria expressar o quanto seria bom se a escola pudesse tratar cada aluno e aluna olhando para além do momento em que estamos ali, encerrados numa sala de aula, mas como pessoas que trabalham, mesmo quando ainda não estão empregadas, andam pelas ruas, por vezes sem saber bem para onde ir, que precisam enfrentar os desafios da vida e, ainda, saibam sobreviver com dignidade, como mamãe sempre me dizia. É verdade Luiza. Espera... Aqui está ele! Uma pastinha surrada foi aberta e Luiza encontrou o texto ao qual se referira. A senhora gostaria que eu o lesse? Sim claro! UM DIA DEPOIS DO AMANHÃ Autoria: Luiza G. Silva Certa vez, enquanto caminhava pela cidade, uma professora se deparou com uma exaluna. Reconheceram-se e passaram a conversar. Enquanto falavam das lembranças dos tempos de escola, surgiam em suas mentes como pingos de chuva sobre folhas secas que as faz brilhar, sentimentos ocultos, guardados a sete chaves, sentimentos que são nós mesmos.
Aluna e professora se encontraram, numa parada de ônibus, na sala de aula da vida, e tudo o que era silêncio se fez verbo. Era preciso POER as coisas no lugar, pois nada há que não venha a ser conhecido um dia, um dia depois do amanhã. Cassiano Zeferino de Carvalho Neto tem Pós-doutorado em andamento no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); Doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento (EGC/UFSC); Mestrado em Educação Científica e Tecnológica (ECT/UFSC); Especialidade em Qualidade na Educação Básica (INEAM/OEA/USA) e Licenciatura em Pedagogia, com complementação em Física (PUCSP). Fundador da Laborciencia Editora, do Instituto para a Formação Continuada em Educação (IFCE) e do Instituto Galileo Galilei para a Educação (IGGE). Artigo originalmente publicado na Revista Direcional Educador, abril /2006.