PRATICANDO TRABALHO COM PROJETOS NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA



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Transcrição:

PRATICANDO TRABALHO COM PROJETOS NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA Fernanda Pimentel Dizotti Academia de Ensino Superior fernandadizotti@gmail.com Norma Suely Gomes Allevato Universidade Cruzeiro do Sul normallev@uol.com.br Resumo: O objetivo deste minicurso é apresentar uma alternativa metodológica em sala de aula para a construção do conhecimento matemático, através do trabalho com projetos. Ele pode favorecer a visualização do que acontece fora da escola, proporcionando uma oportunidade de vivenciar uma aprendizagem crítica. O minicurso, baseado nas orientações de Hernández (1998), Abrantes (1994), Boutinet (2002), Hernández e Ventura (1998) e Van de Walle (2009), será realizado de modo que os participantes vivenciem esse tipo de trabalho. A partir de um tema gerador escolhido pelos participantes ou proposto pelo ministrante do minicurso, os participantes desenvolverão pequenos projetos e refletirão sobre como esse tipo de trabalho é importante para desenvolver a iniciativa, a responsabilidade para a investigação, a análise e a reflexão, assim como promover a construção de conhecimento em distintas áreas do saber, inclusive na Matemática. O minicurso estará voltado aos níveis Fundamental (EF) e Médio (EM) de ensino. Palavras-chave: Trabalho com projetos; Educação Matemática; Construção de conhecimento matemático; Geometria. Sobre Projetos Encontramos na literatura, algumas concepções diferentes para o trabalho com projetos, em contextos educacionais, as quais recebem nomenclaturas próprias como Projeto Interdisciplinar, Métodos de Projeto, Trabalho de Projeto, Projeto Educativo, Pedagogia de Projetos, Projetos de Trabalho, entre outros. O trabalho com projetos, em todas as áreas e setores da atividade humana, visa à quebra de quadros coercitivos nas relações humanas, levando ao despertar da criatividade e estimulando os processos de aprendizagem. Isso ocorre porque a execução de um projeto é colocada em movimento com a intenção de realizar algo, em que não há imposições diretas. Trata-se de um trabalho imprevisível, em que ocorrem negociações, algumas revisões e reprogramações das atividades inicialmente previstas. Nesta realização a imaginação, a criatividade e a criação são atitudes indispensáveis dos envolvidos. 1

Admitem-se constantes transformações e as pessoas envolvidas estão abertas a diálogos até sua finalização. No contexto da Educação, o trabalho com projetos pode favorecer a visualização do que acontece fora da escola, ultrapassando amplamente o campo escolar, procurando atingir a coletividade em sua totalidade, podendo considerar aspectos relacionados aos fenômenos naturais, ao estudo das realidades e transformações sociais. Tudo isso proporciona aos estudantes a oportunidade de vivenciar uma aprendizagem crítica, no sentido de que promove a iniciativa, a responsabilidade para a investigação, a análise e a reflexão, desenvolvendo a autonomia do aluno e a construção de seu conhecimento em distintas áreas do saber. Vários autores também têm destacado esses aspectos. Segundo Boutinet (2002), o projeto em educação [...] busca integrar os jovens, propondo-lhes um lugar, um papel a ser desempenhado em um conjunto determinado, aquele do mundo adulto de sua cultura; de outro, esforça-se para torná-los autônomos, isto é, atores de sua própria cultura. (BOUTINET, 2002, p. 184). Assim, o trabalho com projetos apresenta resultados que vão além da construção de conhecimentos específicos relacionados aos conteúdos curriculares, desempenhando um papel formativo de extrema importância no contexto educacional atual. Essa alternativa metodológica permite romper a falta de dinamismo, porque cada etapa do trabalho, cada aula destinada ao projeto é realizada de modo diferente, uma vez que o trabalho é construído, estruturado, planejado, reelaborado a partir de cada nova informação e das demandas que os participantes trazem para o grupo. Promove a contextualização do ensino, trabalhando com diferentes tipos de informações provenientes do cotidiano ou de diferentes campos do saber. Os participantes agem com flexibilidade, acolhem a diversidade e procuram compreender suas realidades pessoais e culturais. O projeto evolui, cresce e desenvolve-se dependendo do grupo que o constitui, pois os interesses dos envolvidos e seus conhecimentos prévios são de extrema importância. Desse modo, o trabalho com projetos favorece a formação de [...] indivíduos com iniciativa, consciência dos problemas atuais, sensibilidade para trabalhar com outros, aptidão e flexibilidade para agir num mundo em mudanças permanentes. (ABRANTES, 1994, p. 86). 2

Este tipo de trabalho pode ajudar na construção do conhecimento matemático através da contextualização dos conteúdos porque tal conhecimento não é independente do mundo e da realidade. A relação do cotidiano com outros campos do saber facilita a interpretação, o entendimento e a busca de soluções para problemas existentes dentro e fora da sala de aula. A partir de uma problemática, os participantes do projeto se permitem explorá-la e relacioná-la para aprender; seus conhecimentos vão tornando-se cada vez mais complexos o que os permite continuar aprendendo. Este tipo de trabalho vai além das disciplinas podendo constitui-se numa alternativa para diluir as fronteiras disciplinares dos currículos que ainda apresentam configurações demasiadamente fechadas. Os conteúdos disciplinares permitem ultrapassar as fronteiras da própria disciplina e, com frequência, ocorrem interações com outras esferas de conhecimento e com a sociedade. Além disso, elas serão a fonte de informações necessárias à resolução de problemas e esclarecimento de questões inesperadas que surgem no decurso do trabalho. Quando os participantes são responsáveis pelas atividades a serem executadas, podem tornar-se autônomos no seu papel de construção de conhecimento. Sentem-se importantes enquanto realizam a coleta de informações e com elas, buscam soluções para ultrapassarem obstáculos. Apoiamo-nos, quanto a isso, em Oliveira (2004): [...] o acesso ao conhecimento faz aumentar tanto o interesse quanto as possibilidades de participação das pessoas nas decisões quanto aos rumos do projeto. (OLIVEIRA, 2004, p. 146). Não existe uma receita que descreva como trabalhar com projetos, porém várias formas de desenvolver essa prática podem ser encontradas na literatura. Tais formas são abordadas nem sempre de maneira distinta, porém apresentam muitos elementos em comum. A seguir descrevemos as fases para a realização de projetos, descritas por Hernández e Ventura (1998), que destacam seis fases. - A escolha do projeto Definir o tema do projeto de acordo com o que os estudantes propuserem. Deve-se partir do que eles sabem sobre um determinado tema, incentivandoos a buscar informações e relacioná-las dentro e fora da escola. - Atividade do professor após a escolha do projeto Cabe ao professor especificar o caminho a seguir; encontrar fontes de informação para iniciar e desenvolver o projeto; 3

envolver os componentes do grupo; mostrar ao grupo a funcionalidade do projeto; planejar o desenvolvimento do projeto; planejar novas propostas educativas. - Atividade dos alunos após a escolha do projeto É a etapa de abordar critérios e argumentos, colaborar com o roteiro inicial da classe, interpretar a realidade, propor perguntas, elaborar índices (roteiros de pesquisa), propor novas perguntas. - Busca das fontes de informação Corresponde ao momento de pesquisar, buscar dados, coletar informações; pode ocorrer o envolvimento de terceiros, através da realização de entrevistas, busca em meio eletrônico, análise de documentos e outras. - Elaboração de um índice Trata-se de um roteiro de acompanhamento da pesquisa, o que se deve e o que não se deve mais investigar; serve para orientação, ampliação e organização do que está sendo realizado. - Síntese do projeto Apresentação dos resultados obtidos. Nos trabalhos (livros, relatos de pesquisa e outros) que relatam desenvolvimento de projetos, nem sempre as etapas são nomeadas e discriminadas tão nitidamente como são descritas pelos autores anteriormente citados. Entretanto, tais relatos mostram que, efetivamente, há etapas que são realizadas no seu desenvolvimento. As que invariavelmente ocorrem, de forma bastante explícita e marcante, são a caracterização do tema e a apresentação final do trabalho. Podemos encontrar como outros autores apresentam as fases da execução de um projeto em Dizotti (2009). A postura e a forma ideal de trabalho e de participação no contexto de projetos é uma aprendizagem importante que os participantes experimentam. Apresentar suas sugestões, ouvir e respeitar as sugestões dos colegas, discutir e dialogar são práticas essenciais nesse trabalho. Os diálogos têm um papel de fundamental importância no trabalho com projetos, através dos quais os participantes socializam observações e reflexões em pequenos grupos, o que pode favorecer, mais tarde, um ambiente menos inibidor nos momentos em que os diálogos se fazem presentes. É um tipo de trabalho em que os participantes podem se manifestar sem medo de errar; trabalham questões de ética, valores, cidadania; aprendem não por memorização, mas por aplicação e relação dos conhecimentos, aprendem de maneira mais significativa, tornam-se críticos e, além disso, constroem conhecimentos disciplinares específicos. (DIZOTTI, 2009). 4

Ocorre uma investigação de dados reais para formar a compreensão de determinado problema. As estruturas matemáticas não são o foco principal de estudo, mas tornam-se um caminho a mais para a organização de ideias e conceitos a serem explorados. (DIZOTTI, 2009). Proposta do minicurso Quando os estudantes fazem matemática desse modo diariamente em um ambiente que encoraja o risco e promove a participação, a matemática se torna um empreendimento excitante. Os indivíduos que se sentem incomodados com um ambiente orientado para respostas e centrado no professor começam a desenvolver autoconfiança. Os estudantes falam mais, compartilham mais idéias, oferecem sugestões e desafiam ou defendem as soluções de outros colegas. (VAN DE WALLE, 2009, p. 39). Tema: Praticando com trabalho com projetos Metodologia: Trabalho com Projetos Público-alvo: Professores em formação e em exercício do Ensino Fundamental e do Ensino Médio; alunos de licenciatura em Matemática; pesquisadores da área de Educação Matemática. Organização do trabalho e atividades 1º dia 2º dia Falar sobre projetos em diferentes contextos: discutir diferentes concepções Apresentar definição de projeto Introduzir a metodologia de trabalho o Trabalho com Projetos Iniciar um trabalho com projetos: Definição de um tema que pode ser escolhido pelos participantes, ou pelo ministrante do minicurso. Restrição ao tema, escolha de subtemas a serem pesquisados Início da pesquisa de dados que pode ser realizada via internet, ou em revistas e jornais Organização do material pesquisado Preparação para apresentação do trabalho Apresentação do trabalho 5

Discussão sobre os conteúdos matemáticos que podem ser trabalhados no decurso da construção do projeto e, como conseqüência, ampliação /expansão e construção de conhecimento matemático. Reflexão sobre as possibilidades, dificuldades e implicações do trabalho com projetos para o ensino de Matemática. Avaliação do Trabalho. Recursos Materiais Laboratório de informática, Internet e datashow; ou computador e datashow; ou lousa e giz, revistas e jornais; e fichas de trabalho. Referências ABRANTES, P. O trabalho de projecto e a relação dos alunos com a matemática. A experiência do Projecto MAT 789. 1994. 630 f. Tese (Doutorado em Educação) Universidade de Lisboa, Lisboa, 1994. BOUTINET, J. P. Antropologia do projeto. RAMOS, P. C. (trad.). 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2002. DIZOTTI, F. P. O trabalho com projetos e a construção do conhecimento matemático. 2009. 153 f. Dissertação (Mestrado) Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2009. HERNÁNDEZ, F. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. RODRIGUES, J. H. (trad.). Porto Alegre: Artmed, 1998. HERNÁNDEZ, F.; VENTURA, M. A organização do currículo por projetos de trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. RODRIGUES, J. H. (trad.). 5 ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. OLIVEIRA, P. R. de. Currículos de Matemática: do programa ao projeto. 2004. 174 f. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. VAN DE WALLE, J. A. Matemática no ensino fundamental: formação de professores e aplicação em sala de aula. COLONESE, P. H. (trad.). 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. 6