Cálice A música e as relações de poder 1

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Transcrição:

Cálice A música e as relações de poder 1 Annete de Souza Morhy e Jaqueline Vieira Ferreira 2 Universidade Federal do Pará (UFPA) Orientação da professora do Departamento de Comunicação Social da UFPA, Doutora Lívia Barbosa. Resumo: Mostrar como a literatura, a comunicação e o poder estão inter-relacionados na letra da música Cálice, destacando, através da análise sintagmática da composição, como a palavra pode ser usada um instrumento de resistência contra um realidade indesejada. O trabalho analisa Cálice partindo da perspectiva histórica e contexto em que foi composta, oferecendo interpretações diretamente relacionadas ao período ditatorial brasileiro. Palavras chaves: Cálice, poder, comunicação, literatura. A letra da música Cálice, comp osta por Chico Buarque e Gilberto Gil em 1973, expõe a realidade do regime militar nas entrelinhas. Com a intenção de informar, através da arte, sobre um período marcado pela degradação humana, os autores utilizam o poder da palavra, aliado à criatividade artística, como instrumento de combate a uma outra forma de poder. A palavra é explorada nos mais variados aspectos e sentidos para desnudar de forma expressiva a realidade desumana impingida por um poder autoritário e arbitrário. Neste sentido, o trabalho dos autores pode ser enquadrado na literatura engajada, pois a obra transparece a consciência que eles tiveram do seu papel como agentes transformadores. A música, a uma primeira e desatenta leitura, pode não passar de texto ou canto religioso. E isso se dá, justamente, por conta do refrão que alude ao trecho bíblico em que Jesus suplica a Deus, momentos antes de seu calvário, que retire de suas mãos a responsabilidade de realizar o sacrifício da paixão, simbolizado pelo cálice. O ambiente bíblico e religioso evocado pela música é tão forte que, certamente, ludibriou muitas pessoas comuns e autoridades. Contudo, a análise sintagmática da letra nos permite reconhecer, fundamentadas por elementos internos externos ao texto, o seu caráter político e denunciador. A referência à passagem bíblica teve, sobretudo, a intenção de expressar a dimensão da dor e do sofrimento daqueles que estavam submetidos às imposições do regime militar. E essa intenção não é comprovada somente na canção, mas também, pelo fato de ter sido de escrita em uma sexta-feira da Paixão de Cristo 3. A aproximação com a figura de Jesus pode ser justificada ainda pelo fato de Ele também ter utilizado o poder da palavra para defender e propagar suas idéias que ameaçaram uma ordem estabelecida sendo, por isso, calado pelo poder romano. 1 Trabalho apresentado ao Grupo Temático (GT) do VI Congresso de Ciências da Comunicação da Região Norte - Intercom Norte 2007. 2 Annete Morhy e Jaqueline Ferreira: Estudantes do 7º semestre do curso de Comunicação Social habilitação em Jornalismo, na UFPA. 3 Informação coletada de entrevista concedida por Gilberto Gil no site http://www.geneton.com.br/arquives 1

O recurso à religiosidade também revela o desespero, pois, diante da gravidade da situação, já não há a quem recorrer senão a um ser superior, tornando a obra mais próxima da realidade religiosa brasileira, predominantemente católica. Mas, é, acima de tudo, mais um estratagema para enganar a censura. Quem poderia imaginar que uma canção com apelo tão forte a religiosidade fosse desvelar de maneira tão profunda e fiel a realidade sofrida de um povo subjugado? O verso Pai, afasta de mim esse cálice sintetiza uma súplica (que é coletiva apesar de ser apresentada em primeira pessoa) por algo que se deseja ver longe ou que não exista. O fato de ser uma súplica, ou seja, um pedido feito com muito desejo (implorado) denuncia o aspecto negativo daquilo que se deseja ver afastado. O objeto de tal rejeição, na música, é o cálice que remete a forma imperativa do verbo calar, cale-se, representando toda a essência autoritária do regime militar que impunha o silêncio de ideologias contrárias a ele e calava todas as atitudes de contestação àquele status quo. E a constatação de esse cale-se realmente era feito existir através da coação dá-se, principalmente, nos versos calada a boca e voz presa na garganta. Ao ser associado ao contexto bíblico, o cálice também faz alusão ao sacrifício de ter que agüentar as atrocidades da repressão militar, marcadas por dor, humilhação, abandono e crueldade, assim como, o sacrifício da paixão de Cristo. O cálice também tem uma acepção material, de um objeto que contém algo em seu interior. Isso é comprovado no verso De vinho tinto de sangue. Se na Bíblia este o conteúdo do cálice é o sangue de Jesus Cristo, na música, ele é o sangue derramado pelas vítimas das torturas e mortes comuns neste contexto. Se Jesus foi submetido a muitos atos de crueldade durante seu calvário, aquele que enfrentava a ditadura também passava por um calvário, no qual os atos de crueldade tomavam forma de diversos tipos de torturas. O eu lírico da música revela sua indignação por ter que viver tal situação ao indagar Como beber dessa bebida amarga. O pronome dessa comprova a relação direta entre a bebida amarga e o vinho tinto de sangue, o que remete a dificuldade de aceitar um quadro social em que as pessoas eram desumanamente subjugadas. A condição de oprimido é reforçada pelo verso seguinte Tragar a dor, engolir a labuta. Através do contraste entre tragar e dor enfatiza-se a imposição de ter que agüentar a dor como algo banal, assim como o simples ato de fumar. A segunda parte de verso reflete a necessidade, também imposta, de assimilar o cotidiano, o trabalho (a labuta) de maneira natural (engolir), mesmo que as condições trabalhistas não fossem as melhores e os movimentos sindicais trabalhistas fossem duramente reprimidos. Tudo isso deixa transparecer o poder da força que impedia a autonomia dos indivíduos de pronunciar sua condição, seus sentimentos e desejos. Mas, mesmo que o livre-arbítrio de pronunciar-se seja cerceado (Mesmo calada a boca...), resta a liberdade de sentir (...resta o peito). Mais adiante, o eu lírico admite que o peito também poderia ser calado (Mesmo calado o peito...), mas, ainda assim, resta um último refúgio, algo intocado: a mente (... resta a cuca), onde as ideologias, idealizações e pensamentos não podem ser reprimidos. Posição otimista diante dos fatos e a crença neste elemento como instrumentos de luta, de resistência e como um recanto fértil da esperança em dias melhores. 2

O verso Silêncio na cidade não se escuta reflete o quadro tenso da situação política em vigor. O paradoxo escutar o silêncio denuncia o fato de não haver tranqüilidade nas ruas, mas sim, confusão, barulho. E é, justamente, o barulho da repressão dos agentes do sistema contra quem se opunha a ele. Em seguida, temos um verso que aponta para uma descrença na religião (De que me vale ser filho da santa) e o rebaixamento da figura da santa à condição inferior de uma puta, termo que fica subentendido no lugar de outra (em Melhor seria ser filho da outra) e que rimaria com escuta, do verso anterior. Teríamos então, a expressão popular filho da puta, que neste contexto pode significar uma pessoa valente disposta a enfrentar a ditadura e não se render às circunstâncias. A indignação por não ter liberdade de escolha é, mais uma vez, manifestada ao lado da declaração do desejo de viver em outra realidade (Outra realidade menos morta), na qual os homens não tenham a individualidade e os direitos anulados. Uma realidade que não seja construída com base em mentiras e na coação física, já que o regime militar implantava imagens distorcidas da conjuntura política, social e econômica do país, para dar a impressão de que o Brasil desenvolvia-se como um milagre econômico. E essa versão dos militares tinha que ser aceita como uma verdade absoluta, mesmo que fosse necessário aplicar a força bruta. Nos versos Como é difícil acordar calado /Se na calada da noite eu me dano o eu lírico admite a dificuldade de aceitar passivamente as imposições de regime e permanecer calado diante de atos escusos (prisões e torturas) que eram realizados, preferencialmente, à noite. E aí reside uma grave crítica a postura dos militares: tudo era tão arbitrário que precisava ser feito às escondidas, às escuras. Todo esse quadro desemboca no desespero e sentimento de abandono do ser reprimido que quer lançar um grito desumano, talvez, a única forma de ser escutado, já que ninguém escuta seu grito humano. Temos a recorrência da palavra silêncio em Esse silêncio todo me atordoa. E, mais uma vez, é utilizada para formar um paradoxo (pelo fato de atordoar), denunciando os métodos de torturas e repressão, utilizados para conseguir o silêncio das vítimas fazendo-as perderem os sentidos. Há também a conotação do transtorno diante da submissão à censura, imposta pelo regime militar. Mas, mesmo atordoado por esta situação, o eu lírico permanece atento, em estado de alerta para o fim dessa conjuntura, como se estivesse esperando um espetáculo na arquibancada. No entanto, o espetáculo pode ser, ironicamente, somente a emergência de mais um mecanismo de imposição de poder do regime, representado pelo monstro da lagoa, uma possível referência a Lagoa Rodrigo de Freitas, local em que ficava a casa de Chico Buarque onde a música foi comp osta 4. O Eu Lírico apresenta a imagem grotesca de um animal que não consegue mais nem andar de tão obeso em De muito gorda a porca já não anda. É possível relacionar essa porca que já até passou do tempo do abate, com o sistema em vigor, ineficiente e mais que pronto para acabar. O porco é, também, um dos símbolos da gula e luxúria que estão entre os sete pecados capitais, retomando a discussão com a religiosidade e elementos católicos. Em De muito usada, a faca já não corta é ressaltada a inoperância, ou seja, o objeto que servia para cortar, já não o faz. Mostra, ainda, o desgaste de algo que foi muito usado, além de simbolizar corte, ferimentos e violência constante, muito comuns na realidade dos que lutavam para mudar a realidade. 4 Idem item 1 3

Um relance de esperança é percebido em Como é difícil, pai, abrir a porta. É expresso o apelo ao divino para que sejam diminuídas as dificuldades, mas ao mesmo tempo apresenta a tarefa como difícil, não impossível. A porta se mostra como a passagem de saída de tanta violência e contexto tão adverso. Sinaliza, ainda, uma possibilidade bíblica de um novo tempo, como o mesmo autor já retratou em outras letras como no trecho Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Relaciona-se ainda com o trecho seguinte ( Essa palavra presa na garganta ) no sentido de a dificuldade para encontrar a liberdade estar na prisão da palavra, no controle da livre expressão, espaço no qual, o Eu deve acreditar ser possível se livrar de tanto mal. A frase é expressiva no sentido de representar o desejo de falar, contar e descrever à todos a repressão que está sendo imposta. A sensação física de ter algo preso na garganta nos remete a desespero, sufoco e angústia, que é o que passaram os comunistas do período. Diante de tanta dor e sofrimento, um dos elementos recorrentes nas expressões artísticas da época foi a bebida. Nesta música percebemos em Esse pileque homérico no mundo, Dos bêbados do centro da cidade e Me embriagar até que alguém me esqueça. Ainda na obra de Chico Buarque, encontramos em letra da mesma época E a gente vai tomando, que também, sem a cachaça / Ninguém segura esse rojão. A embriagues e o torpor são formas encontradas para aliviar a tensão do momento, como também aparece em Quero cheirar fumaça de óleo diesel. Esta última com a ressalva de que adquire duplo sentido, pois também era uma das técnicas de tortura adotada pelo governo para extrair informações e confissões. O Eu volta ao divino ao se questionar da validade dos esforços que faz em De que adianta ter boa vontade. Faz um auto-questionamento sobre a ânsia de lutar pela liberdade se o mundo está do avesso. Percebe-se referência à frase bíblica Paz na Terra aos homens de boa vontade, ou seja, aos homens que tem paz e bondade no coração. Na música, o Eu se pergunta se vale a pena ter o coração puro, voltando ao ponto de que talvez seja melhor ser filho da outra, que não a santa. Ao se questionar, o Eu logo responde Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado, ou seja, aponta que existe a possibilidade de a realidade vir a ser diferente, melhorar, renovando suas esperanças. Seguido do questionamento sobre a necessidade de lutar, ele mesmo, em seguida, aponta Quero inventar o meu próprio pecado, expressando a vontade de libertar-se da imposição do erro por outros para recriar suas próprias regras e definir por si só quais são seus erros, sem que outros os apontem. A palavra pecado remete ao religioso, mas absorve mais intensamente o significado de estar fora da lei, do que o de pecar, em si. O verbo aproxima-se do desejo pungente, urgente e real de liberdade. Em Quero morrer do meu próprio veneno, semelhante à idéia anterior, existe a vontade de morrer quando assim desejar, de veneno seu, não de outrem. Morrer de suicídio em si, ou, ainda, que o próprio veneno signifique a denúncia das arbitrariedades cometidas durante a ditadura. Com sentido aparentemente ilógico, Quero perder de vez tua cabeça / Minha cabeça perder teu juízo traz a idéia de que o Eu deseja ter seu próprio juízo e não o do poder repressor. Quer decapitar a cabeça da ditadura e libertar-se do juízo imposto por ela, para ter suas próprias idéias e ponderações. Referências Bibliográficas 4

MIRANDA, Osmar Tadeu. Chico: O Poeta da Fresta. Belém: Paka-Tatu, 2001. TABORDA, Felipe. A imagem do som de Chico Buarque. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1999. 5