HENRI MATISSE - JAZZ



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Transcrição:

HENRI MATISSE - JAZZ

capa: Ícaro, 1947 Sucession H. Matisse / AUTVIS, Brasil, 2016.

apresenta HENRI MATISSE - JAZZ Coleção Museus Castro Maya IBRAM/MinC Curadoria: Anna Paola Baptista Caixa Cultural Salvador Galeria Arcos 11 de maio a 3 de julho de 2016

Desde que foi criada, em 1861, a Caixa sempre buscou ser mais que apenas um banco, mas uma instituição realmente presente na vida de milhões de brasileiros. A participação efetiva da CAIXA no desenvolvimento das nossas cidades, e sua presença na vida de cada cidadão deste país, consolida-se por meio de programas e projetos de financiamento da infraestrutura e do saneamento básico dos municípios brasileiros; da execução e administração de programas sociais do Governo Federal; da concessão de créditos a juros acessíveis a todos e do financiamento habitacional a toda a sociedade, além de vários outros programas de largo alcance social. Atuar na promoção da cidadania e do desenvolvimento sustentável do País, como instituição financeira, agente de políticas públicas e parceira estratégica do Estado Brasileiro, é a missão desta empresa pública cuja história visita três séculos da vida brasileira. Foi no transcurso desta vitoriosa existência que a CAIXA aproximou-se do artista e da arte nacionais. E vem, ao longo das últimas décadas, consolidando sua imagem de grande apoiadora da nossa cultura, e detentora de uma importante rede de espaços culturais, que hoje impulsiona a vida cultural de sete capitais brasileiras, onde promove e fomenta a produção artística do país, e contribui de maneira decisiva para a difusão e valorização da cultura brasileira além de promover acesso a obras de grandes artistas internacionais. Com esta exposição de renome internacional, a CAIXA reafirma sua política cultural, sua vocação social e a disposição de democratizar o acesso aos seus espaços e à sua programação artística, e cumpre, desta forma, seu papel institucional de estimular a criação e dar condições concretas para que o artista possa apresentar seu trabalho e divulgar sua arte. Henri Matisse é considerado por muitos críticos e historiadores da arte, junto com Pablo Picasso, o pintor mais importante e revolucionário do século 20. Uma de suas maiores inovações foi libertar a cor do caráter naturalista. O Álbum Jazz teve um enorme sucesso quando foi lançado (1947) e foi considerado como uma das obras-primas do artista. A CAIXA agradece sua participação e acredita, desta maneira, estar contribuindo para a renovação, ampliação e fortalecimento das artes no Brasil, e ampliando as oportunidades de desenvolvimento cultural do nosso povo. Caixa Econômica Federal

É com grande prazer que compartilhamos com o público de Salvador essa admirável explosão de formas e cores contidas no Álbum Jazz, de Henri Matisse. Suas pranchas revelam todo o vigor e a liberdade expressiva de um mestre das artes plásticas modernas na plena maturidade de sua trajetória artística. Caracterizado usualmente como livro de arte, Jazz transita entre as concepções de livro-objeto e de gravura. Sua catalogação resiste caprichosamente entrincheirada na fronteira entre peça bibliográfica ou museológica. Raymundo Otonni de Castro Maya, colecionador que formou o acervo de obras dos museus cariocas que levam seu nome, adquiriu o exemplar 196 dos 250 que foram impressos em Paris em 1947. Em sua coleção, o Jazz consolidou-se como uma das mais potentes obras representativas da arte moderna européia. Acreditamos que a fruição desses trabalhos permita um mergulho em uma das principais fases de Matisse e ajude na compreensão dos motivos da reverência a ele como um dos maiores nomes da arte universal. Nesse sentido, parabenizamos a iniciativa da CAIXA de patrocinar e acolher a exposição. Vera de Alencar Diretora dos Museus Castro Maya 5

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O CIRCO DE CORES DE MATISSE Jazz é um dos mais belos livros produzidos pela arte moderna. Para Matisse, ele significou a resposta ao desafio lançado pelo editor e crítico de arte grego Tériade para a realização de um livro de arte só com papéis colados. A história desta edição durou cinco anos desde seu início, em 1942. Tanto o formato quanto o título só foram definidos após 1944 e a decisão de também criar e publicar um texto veio em 1946. Em 1947 foram impressos os 250 exemplares assinados por Matisse com as imagens au pochoir uma variação da serigrafia realizadas por Edmond Vairel e os manuscritos gravados e impressos por Draeger Frères. O exemplar 196, cujas pranchas são expostas aqui, pertence ao acervo dos Museus Castro Maya IBRAM/MinC. Recortando papéis previamente coloridos a tinta guache, o artista desenvolveu um processo de desenho direto na cor com a tesoura que resultou em 20 pranchas de imagens variando da abstração a figuras de grande vivacidade, mescladas a um texto manuscrito impresso em fac-simile no qual ele trata de observações sobre assuntos diversos anotados ao longo da vida. O próprio autor esclarece que a composição aborda assuntos ligados ao circo, contos populares e viagens, com ritmo identificável aos sons de uma orquestra de jazz. Matisse chegou a cogitar denominar a obra de O Circo e nela reconhecemos alguns de seus personagens típicos como o palhaço, o engolidor de espadas, o atirador de facas. Porém o livro acabou recebendo o título Jazz que o referenciava à cultura norte-americana, emergente e menos compromissada com a tradição e, por isso, naquela época fortemente associada aos valores do moderno. As imagens do Jazz personificam a própria linguagem da modernidade: vibrante e reprodutível, baseada no ritmo e na improvisação. O repertório de cores vivas e curvas vertiginosas a serviço da emoção e do movimento essência do moderno fazem dele um dos ícones da arte do século XX. Anna Paola Baptista Curadora 7

HENRI MATISSE - JAZZ NOTAS. Após ter escrito quem quiser dedicar-se a pintura deverá começar por cortar a própria língua porque será que sinto necessidade de utilizar outros meios para além daqueles que me são mais habituais? Desta vez gostaria de apresentar os meus guaches recortados em condições que lhes sejam mais favoráveis. Para isso devo separá-los por intervalos com um carácter diferente. Pareceu-me que o texto manuscrito se adequava melhor a esta utilização. A excepcional dimensão da escrita parece-me obrigatória para estabelecer uma relação decorativa com o carácter das colagens. Estas páginas, por isso, servem apenas para acompanhar as minhas cores, do mesmo modo que as margaridas contribuem para a composição de um arranjo de flores da maior importância. O seu papel é assim puramente espetacular. Que posso então escrever? Eu não poderia, no entanto, preencher estas páginas com fábulas de La Fontaine, como dantes fazia, quando era ajudante de advogado, com os autos que nunca ninguém lê, nem mesmo o juiz, e que existem apenas para usar uma quantidade de papel timbrado proporcional à importância do processo. Só me resta, assim, relatar observações, notas tomadas ao longo da minha existência de pintor. A quem tenha a paciência de ler, peço, para com elas a indulgência que se concede em geral aos escritos dos pintores. LE BOUQUET. Num passeio pelo jardim colho flor a flor, para as juntar uma a uma no meu braço, ao acaso da colheita. Volto pra casa com a ideia de pintar essas flores. Depois de com elas ter feito um bouquet à minha maneira, que decepção: todo seu encanto se perdeu nesse arranjo. Que terá acontecido? A mistura inconsciente feita durante a colheita tem o mesmo gosto que me levou de uma flor a outra, mas, depois, foi substituída por um arranjo voluntário oriundo de reminiscências de outros arranjos mortos há muito tempo que deixaram na minha memória o encanto de outrora, com o qual irei adornar o novo bouquet. Renoir disse-me uma vez: Quando acabo de fazer um bouquet para o pintar, detenho-me no lado que não previ O AVIÃO. Uma simples viagem de avião de Paris a Londres oferece-nos uma revelação do mundo insuspeitada de qualquer outro modo pela nossa imaginação. Apesar de nos encantar o sentimento da nova situação, confunde-nos a recordação de preocupações e aborrecimentos pelos quais nos deixamos perturbar nesta terra 8

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que vislumbramos abaixo de nós, por entre os abismos das planícies de nuvens que dominamos enquanto existir um meio mágico no qual estivermos. E uma vez regressados à nossa modesta condição de pedestres, deixaremos de sentir o peso do céu cinzento sobre nós, pois recordaremos que, atrás dessa parede fácil de atravessar, existe o esplendor do sol bem como apercepção de espaço ilimitado no qual, por um momento, nos sentimos tão livres. Não deveríamos proporcionar uma grande viagem de avião aos jovens mal terminem os seus estudos? O CARÁTER DE UM ROSTO desenhado não depende das suas diferentes proporções mas antes de uma luz espiritual que reflete. Tanto assim que dois desenhos do mesmo rosto podem representar os mesmos traços ainda que sejam diferentes as proporções em cada um dos desenhos. Numa figueira nenhuma folha se parece com as restantes; têm todas formas diferentes: no entanto cada uma delas grita: Figueira SE TENHO CONFIANÇA NA MINHA MÃO quando desenha é porque, enquanto a habituei a servir-me, esforcei-me por nunca a deixar comandar os meus sentimentos. Quando me parafraseia sinto com clareza se existe um desacordo entre nós: entre ela e algo dentro de mim que parece ser-lhe submisso. A mão não é mais do que o prolongamento da sensibilidade e da inteligência. Quanto mais ágil, mais obediente. Não é necessário que a servidora se torne soberana. DESENHAR COM TESOURAS. Recortar a cor ao vivo lembra-me o talhe directo dos escultores. Este livro foi concebido com esse espírito. AS MINHAS CURVAS NÃO SÃO LOUCAS. O fio de prumo ao determinar a direção vertical forma com o seu oposto, a horizontal, a Bússola do desenhador. Ingres usava o fio de prumo. Vejam nos seus desenhos de estudos de figuras de pé essa linha apagada que passa pelo externo e pelo maléolo interno da perna que sustenta. Em volta dessa linha fictícia evolui o arabesco. Da utilização que fiz do fio de prumo retirei um benefício permanente. A vertical está no meu espírito. Ajuda-me a estabelecer com precisão a direção das linhas e, nos meus desenhos rápidos, não indico nenhuma curva, por exemplo a de um ramo numa paisagem, sem ter consciência da sua relação com a vertical. 10

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UM NOVO QUADRO deve ser uma coisa única, um nascimento trazendo uma figura nova à representação do mundo através do espírito humano. O artista deve transportar toda a sua energia, a sua sinceridade e a maior modéstia possível para afastar, durante o seu trabalho, os velhos lugares comuns que tão facilmente lhe chegam às mãos e podem sufocar a pequena flor que nunca cresce exatamente como era esperada. UM MÚSICO DISSE: em arte a verdade, o real, começa quando já não compreendemos nada do que fazemos, do que sabemos e nada mais subsiste para além de uma energia tanto mais forte quanto for contrariada, pressionada, comprimida. Devemos então apresentarmo-nos com a maior humildade, pureza, candura, o cérebro como que vazio, com um estado de espírito análogo ao do comungante que se aproxima da Santa Mesa. É evidente que será fundamental estar munido de todas as suas aquisições e ter sabido preservar a frescura do instinto. SE ACREDITO EM DEUS? Sim, quando trabalho. Quando sou submisso e modesto, sinto-me de tal forma ajudado por alguém que me induz a fazer coisas que me ultrapassam. Contudo, não sinto por ele nenhuma gratidão porque é como se me encontrasse perante um prestidigitador cujos truques não conseguisse perceber. Sinto-me então frustrado do benefício da experiência que deveria ser a recompensa do meu esforço. Sou ingrato sem remorso. JOVENS PINTORES, PINTORES INCOMPREENDIDOS OU TARDIAMENTE COMPREENDIDOS ÓDIO NÃO. O ódio é um parasita que devora tudo. Nada se constrói com ódio mas sim com amor. A emulação é necessária, mas o ódio... O amor, pelo contrário, sustenta o artista. Grande coisa é o amor, um bem imensamente grande, único capaz de tornar leve o que é pesado, e suportar com igual alento o que é desigual. Porque transporta o peso sem que seja um fardo, e torna saboroso e doce o que é amargo... O amor aspira sempre mais alto e a não ser retido por algo que o diminua. Nada é mais doce que o amor, nada é mais forte, nada é mais alto, nada é mais largo, nada existe de mais amável, de mais pleno, nada de melhor no céu e na terra, porque o amor nasce de Deus e só nele repousa, acima de todas as criaturas. Quem ama voa, corre e enche-se de alegria; é livre e nada o retém. (Imitação de J.C.) 12

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FELICIDADE. Encontrar em si mesmo a felicidade, de um bom dia de trabalho, da luminosidade que esse dia possa trazer à obscuridade que nos envolve. Pensar que todos aqueles que venceram, recordando as dificuldades do início do seu percurso, exclamam com convicção: esses foram os bons tempos. Porque para a maioria de nós: sucesso = prisão e o artista não deve jamais deixar-se aprisionar. Prisioneiro? Um artista não deve jamais ser prisioneiro de si mesmo, prisioneiro de um estilo, prisioneiro de uma reputação, prisioneiro do sucesso, etc... Não escreveram os Goncourt que os artistas japoneses do período de ouro mudavam de nome várias vezes durante a vida? Gosto disso: eles queriam salvaguardar a sua liberdade. LAGOAS. Não sereis vós uma das sete maravilhas do Paraíso dos pintores? FELIZES OS QUE CANTAM de todo o coração, na equidade do seu coração. Encontrar a alegria do céu, nas árvores, nas flores. Há flores por toda a parte para quem quer mesmo ver. A VIDA FUTURA. Não seria consolador, gratificante, que todos aqueles que entregaram a sua vida ao desenvolvimento dos seus dons naturais, em benefício de todos, gozassem, depois da sua morte, de uma vida de satisfações, segundo os seus desejos? Enquanto que, pelo contrário, aqueles que viveram com egoísmos estreitos... JAZZ. Estas imagens de tons vivos e violentos provêm de memórias cristalizadas do circo, de contos populares ou de viagens. Fiz estas páginas escritas para apaziguar as reações simultâneas das minhas improvisações cromáticas e ritmadas, páginas que são como que um fundo sonoro que as sustenta, as envolve e assim protege as suas particularidades. Aqui deixo a minha homenagem a Angèle Lamotte e a Tériade, a sua perseverança deu-me alento na realização desse livro. 14

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CRONOLOGIA 1869 - Nasce Henri-Émile-Benoit Matisse, em Le Cateau Cambrésis, norte da França, filho de um comerciante de grãos e uma pintora de porcelana. 1887- Cursa a faculdade de Direito em Paris. 1890 - Após apendicite que o obrigou a ficar em repouso começa a pintar e desiste do Direito. 1891 - Retorna a Paris ingressando na escola de arte da Academia Julian onde estuda com o academista Bouguereau. Ingressa no ateliê do simbolista Moreau. Copia grandes mestres e estuda arte de seu tempo, principalmente os impressionistas. 1894 - Nasce sua filha Marguerite, fruto do relacionamento com Caroline Joblau. 1896 - Expõe trabalhos no Salão da Sociedade Nacional de Belas Artes e tem obras adquiridas pelo Estado. É fortemente influenciado por Cézanne e os pós-impressionistas Van Gogh e Gauguin e também pela arte japonesa. 1898 - Casa-se com Amélie Parayre que dá grande incentivo à sua vida artística. Eles têm dois filhos: Jean (1899) e Pierre (1900). Viagem a Londres onde se interessa pela pintura de Turner. 1900 - Estuda escultura em cursos noturnos. 1901 - Começa a tomar parte nos Salões dos Independentes e Salões de Outono, organizados pelos artistas não alinhados com a Academia de Belas Artes. 1903 - Primeiras gravuras em metal. 1904 - Primeira exposição individual, na Galeria Vollard. 1905 - Participa do célebre Salão de Outono, em Paris, ao lado de Albert Marquet, Maurice Vlaminck e André Derain, que aderiram às cores fortes e aos traços expressivos, sendo chamados pela crítica de fauves (bestas selvagens). Apesar de repudiado pelo público pelo seu radicalismo, começa a ter a aprovação de críticos de arte e colecionadores. 1906 - Inicia ciclo de viagens até 1913 visitando Alemanha, Rússia, Argélia, Marrocos, Estados Unidos da América. Aprecia os ícones russos, o uso decorativo da arte islâmica e as cores sob o sol do Mediterrâneo. Primeiras litografias e xilogravuras. Conhece Picasso que se torna amigo e rival para o resto da vida. 1909 - Exposição em Moscou e criação de uma de suas obras-primas, A Dança, para o mecenas russo Shchukin. 30

1917 - Muda-se para Nice, sul da França. Sua pintura incorpora cenas locais em cores finas e brilhantes. 1925 - Recebe o título de Cavaleiro da Legião de Honra. 1927 - Alcança o prêmio máximo da Exposição Internacional Carnegie, Pittsburgh. 1930 - Começa o 1º trabalho de ilustração de livro: Poemas de Mallarmé, editado pela Skira em 1932. Viagens para o Taiti e Estados Unidos da América. A Dança II é encomendada pelo colecionador americano Alfred Barnes e revela a crescente simplificação e vigor de sua obra. 1935 - Conhece Lydia Delectorskaya que virá a se tornar sua modelo e cuidar do artista durante o câncer até sua morte. 1937 - A partir dos trabalhos de cenografia e figurinos para os balés russos desenvolve a técnica da aplicação de tinta guache em papel recortado e depois colado (papiers collés). 1939 - Separa-se da esposa. Início da guerra na Europa; Matisse resolve permanecer na França. 1941 - Submetido a cirurgias que o deixam permanentemente em cadeira de rodas, passa a trabalhar mais intensamente com os papeis recortados./começa a trabalhar na ilustração de Florilèges des amours, de Ronsard, editado em 1848. 1943 - Inicia a ilustração do álbum Jazz, editado em 1947 por Tériade, primeiro livro cujas pranchas são reproduções em estêncil de papeis recortados. 1946 - Ilustra o livro Cartas de uma religiosa portuguesa, editado por Tériade. 1948 - Trabalha com composições monumentais como os vitrais para a igreja de Assy./Inicia os trabalhos de decoração capela do Rosário em Vence, inaugurada em 1951, a qual considerava sua obra-prima. Uma exposição retrospectiva é organizada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. 1949 - Começa a expor os guaches recortados. 1950 - Publicação do livro Poemas de Charles D Orleans, editado por Tériade, no qual Matisse vinha trabalhando na ilustração desde os anos 1940. 1952 - Inaugura o Museu Matisse em sua cidade natal. 1954 - Falece em Nice vítima de ataque cardíaco. 31

HENRY MATISSE - JAZZ Coleção Museus Castro Maya IBRAM/MinC CURADORIA Anna Paola Baptista COORDENAÇÃO Izabel Ferreira Raquel Silva PRODUÇÃO EXECUTIVA Izabel Ferreira DESIGN DE MONTAGEM Anderson Eleotério ILUMINAÇÃO João Batista PROGRAMAÇÃO VISUAL Mauro Campello ASSISTENTES DE PRODUÇÃO Felipe Paladini Magda Nunes MUSEOLOGIA Equipe de Coordenação de Acervos Museus Castro Maya PRODUÇÃO LOCAL Claudine Toulier ASSESSORIA DE IMPRENSA Cristina Casalta MONTAGEM Roberto Feitoza Tayrone Fontan SINALIZAÇÃO Angelo Teixeira de Sá Antonio Dias dos Santos CENOTÉCNICA Ademir dos Santos Anilson dos Santos SEGURO Ace/Affinité Seguradora TRANSPORTE Art Quality PRODUÇÃO Memória Visual Produção Editorial e Cultural Succession H. Matisse / AUTVIS, Brasil, 2016. Proponente Produção Apoio Realização