Sociedade, Educação e Cultura Prof. Carlos Odilon da Costa Indaial 2021 2 a Edição
Copyright UNIASSELVI 2021 Elaboração: Prof. Carlos Odilon da Costa Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI Indaial. C837s Costa, Carlos Odilon da Sociedade, educação e cultura. / Carlos Odilon da Costa Indaial: UNIASSELVI, 2021. 228 p.; il. ISBN 978-65-5663-682-5 ISBN Digital 978-65-5663-683-2 1. Sociologia. 2. Antropologia - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 370 Impresso por:
Apresentação Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao livro de Sociedade, Educação e Cultura. Nele, você percorrerá um caminho de conhecimentos ligados à Sociologia, à Antropologia e relacionados ao mundo da Educação. Os novos temas e conceitos presentes na Sociedade dita pós-moderna e globalizada fazem parte do currículo das universidades e também das escolas de educação básica. O motivo é simples: é importante a compreensão crítica e mais ampla de mundo por parte dos profissionais e futuros profissionais da educação. O mundo atual está cada vez mais complexo e multifacetado. Somente com olhares aprofundados das origens e desenvolvimento de alguns conceitos e temas é que o sujeito profissional se tornará um ser autônomo e cidadão consciente de seu papel na história humana. Para que esse aprendizado ocorra, na Unidade 1 estudaremos sobre a Sociologia, Autores e Conceitos, tendo como objetivo proporcionar a compreensão da origem histórica e da constituição do conhecimento na sociologia. Na Unidade 2 abordaremos os assuntos envolvendo Cultura e Educação para compreender como se configuraram os principais conceitos dos processos culturais e ambientais em sociedade. Na Unidade 3 focaremos Educação, Cultura e Sociedade em Sala de Aula, analisando as relações culturais e de consumo existentes em sociedade a partir das salas de aula. Bons estudos! Professor Carlos Odilon da Costa
NOTA Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes ENADE. Bons estudos!
LEMBRETE Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
Sumário UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS... 1 TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA... 3 1 INTRODUÇÃO... 3 2 IDADE MÉDIA E SOCIEDADE... 3 3 RENASCIMENTO E SOCIEDADE... 9 4 AUGUST COMTE E SAINT SIMON... 12 RESUMO DO TÓPICO 1... 17 AUTOATIVIDADE... 19 TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO... 21 1 INTRODUÇÃO... 21 2 SOCIOLOGIA, MODERNIDADE E CIÊNCIA... 21 3 ÉMILE DURKHEIM, MAX WEBER E A EDUCAÇÃO... 28 4 KARL MARX E A EDUCAÇÃO... 38 RESUMO DO TÓPICO 2... 48 AUTOATIVIDADE... 50 TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO... 53 1 INTRODUÇÃO... 53 2 SOCIOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE... 54 3 PIERRE BOURDIEU, MICHEL FOUCAULT E A EDUCAÇÃO... 70 4 ZYGMUNT BAUMAN, VIRTUALIDADE E A EDUCAÇÃO... 78 LEITURA COMPLEMENTAR... 84 RESUMO DO TÓPICO 3... 87 AUTOATIVIDADE... 89 REFERÊNCIAS... 91 UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO... 95 TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA... 97 1 INTRODUÇÃO... 97 2 ORIGEM DO CONCEITO DE CULTURA... 97 2.1 EDWARD BURNETT TYLOR (LONDRES 2 DE OUTUBRO DE 1832 WELLINGTON 2 DE JANEIRO DE 1917)... 98 2.2 FRANZ URI BOAS (MINDEN, 9 DE JULHO DE 1858 NOVA IORQUE, 21 DE DEZEMBRO DE 1942)... 101 2.3 ALFRED LOUIS KROEBER (HOBOKEN, 11 DE JUNHO DE 1876 PARIS, 5 DE OUTUBRO DE 1960)... 102 3 CULTURA E IDENTIDADE... 114
4 EXEMPLOS DE IDENTIDADE CULTURAL... 115 5 CULTURA E DESCONSTRUÇÃO... 117 RESUMO DO TÓPICO 1... 119 AUTOATIVIDADE... 121 TÓPICO 2 DIVERSIDADE CULTURAL... 123 1 INTRODUÇÃO... 123 2 INCLUSÃO E CULTURA... 123 3 GÊNERO E CULTURA... 125 4 CULTURA E A TEORIA DECOLONIAL... 129 RESUMO DO TÓPICO 2... 132 AUTOATIVIDADE... 133 TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE... 135 1 INTRODUÇÃO... 135 2 CULTURA E SUSTENTABILIDADE... 135 3 CULTURA E DIÁLOGO DOS SABERES... 139 4 CULTURAS E O BEM VIVER... 141 LEITURA COMPLEMENTAR... 146 RESUMO DO TÓPICO 3... 149 AUTOATIVIDADE... 151 REFERÊNCIAS... 153 UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA... 159 TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA... 161 1 INTRODUÇÃO... 161 2 MULTICULTURALIDADE... 161 3 INTERCULTURALIDADE... 166 4 PRÁTICAS INTERCULTURAIS EM SALA DE AULA... 169 RESUMO DO TÓPICO 1... 174 AUTOATIVIDADE... 175 TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI... 177 1 INTRODUÇÃO... 177 2 SOCIEDADE DE CONSUMO E SALAS DE AULA... 177 3 SOCIEDADE ALTERNATIVAS E SALAS DE AULA... 180 4 SALAS DE AULAS CONECTADAS... 185 RESUMO DO TÓPICO 2... 189 AUTOATIVIDADE... 190 TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS... 193 1 INTRODUÇÃO... 193 2 ESTRUTURA DA BNCC... 193 3 BNCC E A EDUCAÇÃO BÁSICA... 197 4 BNCC: HUMANIDADE E SOCIEDADE... 207
4.1 COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS APLICADAS AO ENSINO MÉDIO... 214 LEITURA COMPLEMENTAR... 216 RESUMO DO TÓPICO 3... 219 AUTOATIVIDADE... 221 REFERÊNCIAS... 223
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: desenvolver a capacidade de análise acerca dos fenômenos sociais e educacionais; analisar aspectos do campo educacional a partir de uma perspectiva sociológica moderna; identificar as principais características sociológicas nos autores pós-modernos e na sociologia da virtualidade; compreender a origem histórica e constituição do conhecimento sociológico. PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO CHAMADA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. 1
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UNIDADE 1 TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA 1 INTRODUÇÃO A origem da Sociologia está vinculada à história do mundo europeu. Pensadores e obras do continente europeu iniciaram o debate e a reflexão em torno do que seria o conhecimento sociológico transformado em Ciência. Para melhor compreender esse debate sobre a origem e desenvolvimento da sociologia no solo europeu, é importante entender como era a Europa do início do processo de constituição da Sociologia. Na história da sociedade humana europeia, esse período de constituição da Sociologia tem suas bases no fim da Idade Média. Por isso, vamos entrar em nossos estudos no período conhecido como Idade Medieval. Veremos as principais características, como era organizada a Sociedade, o principal conhecimento produzido na época e sua relação com o movimento daqueles que defendiam o conhecimento sociológico ou aqueles fatos, acontecimentos e conhecimentos. 2 IDADE MÉDIA E SOCIEDADE A Idade Média, para a maioria dos pesquisadores, foi um período conhecido como a Idade das Trevas, ou seja, a Idade sem Luz, sem criatividade humana. A maior parte da história desse período teve como fonte de compreensão, de interpretação da vida e de tudo que se relacionava com a sociedade o conhecimento religioso ou o conhecimento teológico. Quase tudo girava em torno das coisas de Deus ou do próprio Deus pregado e comunicado pela Igreja da época (Igreja Católica Apostólica Romana). Esse cenário começou a mudar por volta do ano 1.000, com o surgimento das primeiras Universidades, com o fim da Idade Média e com o espírito renascentista, que povoou a Europa. Observando a configuração da Sociedade através do tempo histórico, podemos perceber que, no período medieval, a Sociedade apresentava algumas características que identificamos como principais: Relação principal: do Senhor Feudal e o Servo da terra. O Servo trabalhava nas terras do Senhor Feudal. Era considerado um produto da terra, se a terra fosse vendida, o Servo ficava nas terras como um produto a ser adquirido pelo comprador. A divisão social era hierárquica, dividida basicamente em quatro 3
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS estamentos ou estados: Rei, Nobreza, Clero e Servos, sendo que os dois primeiros possuíam privilégios em relação ao último grupo subordinado. Economia ou modo de produzir as coisas: a produção basicamente girava em torno das grandes extensões de terras, os Feudos. Esse sistema ficou conhecido como Feudalismo. As leis e os códigos de condutas sociais eram elaborados a partir das Tradições da Nobreza e da interpretação Bíblica. A visão de mundo, religião, educação, conhecimento, meio ambiente e cultura: Nessa época, predominava o conhecimento Teológico, marcado pela supremacia da Igreja Católica Apostólica Romana (Igreja e Fiéis). A cultura era elaborada a partir do Teocentrismo. A natureza era obra de Deus e era perfeita. A vida na sociedade medieval se caracterizava por um forte apelo às questões religiosas e rurais no sentido de que o modo de produção vigente, conhecido como Feudalismo, foi o mais usado em toda a história desse período, de grandes extensões de terras do Senhor Feudal, em que trabalha o servo, para fugir da miséria e buscar seu espaço no céu. Arte, Educação, Política, Religião, Leis, Cultura, entre outros setores da sociedade da época, eram fundamentadas no conhecimento religioso ou teológico. O teocentrismo era a medida de todas as coisas. NOTA Teocentrismo é uma doutrina que toma Deus como elemento central. Viver na sociedade medieval era viver dentro dos limites da Igreja Católica Apostólica Romana. Diretrizes, princípios, normas estabelecidas na vida social tinham como parâmetro a interpretação da Bíblia por parte dos membros da Igreja. O destino da vida humana era imposto pela interpretação do clero, ou seja, o conhecimento produzido para interpretar e compreender a vida humana em todos os sentidos passava pelo crivo do conhecimento religioso amparado nas leituras bíblicas das autoridades religiosas da época. 4
TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA FIGURA 1 SOCIEDADE MEDIEVAL FONTE: <https://bit.ly/2w2jxnc>. Acesso em: 8 jan. 2021. Entraremos agora em algumas características importantes para a compreensão da configuração e condição da vida na sociedade medieval. De acordo com Schipansk e Pontarolo (2009), o tempo na Idade Média e a relação com elementos religiosos e sociais se apresentava da seguinte forma: Tempo e relações estabelecidas Viver seu tempo Multiplicidade de tempo QUADRO 1 TEMPO E RELAÇÕES ESTABELECIDAS Características Para nós pode parece estranha a forma como os homens e mulheres medievais viam e viviam o seu tempo, pois estamos habituados a uma rotina frenética, sempre correndo contra o tempo, preocupados com o próximo compromisso. A forma como os indivíduos entenderam e viveram o seu tempo é muito importante para que possamos compreender sua sociedade. No período medieval vemos uma força grandiosa da Igreja sobre muitos aspectos da sociedade e, de fato, o cristianismo influenciou profundamente a relação das pessoas com o tempo. Além disso, nesse período havia uma multiplicidade de tempos: o tempo natural e rural; o tempo senhorial; o tempo religioso. 5
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS O tempo natural e rural O tempo senhorial O tempo religioso Adubamento O bater dos sinos Liturgia Estamos falando de uma época em que a agricultura era a principal atividade econômica e, portanto, uma época em que a terra e o seu uso eram fundamentais para a sobrevivência. A natureza imperava na medição e contagem do tempo rural. Existia o tempo das chuvas e o das secas; o do dia e o da noite; o do plantio e o da colheita; o do inverno e do verão. É o tempo dos dualismos tão enfocados durante o período medieval: luz e escuridão, calor e frio, ócio e trabalho, vida e morte. Esse tipo de tempo é cíclico, lento e longo, e os camponeses estavam habituados a esperar, pacientes, pela mudança se é que ela ocorreria. Esse cenário é uma representação imagética do tempo cíclico: um fato precede o outro, mas voltará a acontecer como as estações do ano. O tempo senhorial é, antes de tudo, militar, isso porque tem como pontos culminantes no ano os períodos dos combates, das reuniões da cavalaria e dos adoubements. Os mosteiros levaram para além de suas muralhas o seu ritmo de vida. As atividades diárias eram ritmadas pelo badalo dos sinos e pelo eco das orações vindas dos interiores dos mosteiros. A importância dos sinos na Idade Média era muito grande, pois cada som emitido significava um acontecimento diferente. Cerimônia de iniciação dos jovens para a cavalaria, na qual acontecia a benção cristã do novo cavaleiro. Certamente, marcava os principais eventos da vida urbana, quer chamando os fiéis para a celebração dos ofícios divinos, quer anunciando as festas; ora avisando o início e o fim do trabalho, ora lembrando triste acontecimento ou, ainda, alertando as pessoas para uma ameaça iminente. Toda a população sabia o significado dos diversos toques, que, apesar de serem incessantes, não perdiam o seu efeito no espírito dos ouvintes. O ano também era marcado pela liturgia e pelas datas festivas relacionadas à vida de Cristo, como o Natal, a Páscoa, a Ascensão e o Pentecostes. Aos poucos foram se inserindo festas em honra à Virgem Maria e aos demais santos. Esses festejos normalmente marcavam acontecimentos importantes para questões econômicas, como, por exemplo, o pagamento de tributos aos senhores ou a festa da colheita. 6
TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA Clero Criação do mundo Horas canônicas O clero era, também, o responsável pela medição do tempo útil e também pelo tempo destinado ao descanso no Domingo, pela liturgia cristã que definia quais eram os dias santos e de festa, bem como os dias de trabalho e os de jejum. O tempo da Igreja era dominante no medievo, mas pede que tomemos cuidado ao fazer essa afirmação, pois mesmo que a ideologia cristã tivesse total domínio sobre a população, a maioria dos camponeses não sabia e nem se importava que dia fosse (com exceção dos domingos e dias de festas), e é bem provável que não soubessem nem mesmo qual era sua própria idade e o dia do seu aniversário. Segundo a narrativa da Igreja sobre a criação do mundo e do homem, eles foram criados em seis dias e o Criador descansou no sétimo, contemplando a sua obra. O domingo representava esse dia, e por isso devia ser reservado às orações e ao descanso. Horas canônicas: São as várias partes do Ofício divino, escalonadas ao longo do dia: Laudes, como oração da manhã; horas menores (Tércia, Sexta e Nona, das quais se pode optar por uma única, hora intermédia, a mais adequada à hora do dia); Vésperas, ao anoitecer (considerada hora principal, juntamente com Laudes); Completas, ao deitar; e Ofício de Leitura, com o valor de tempo de oração meditativa durante a noite, embora podendo celebrar-se a qualquer hora. FONTE: Schipansk e Pontarolo (2009, p. 30-31) A relação das pessoas com o tempo na Idade Média explica muito sobre seu modo de vida. No entanto, vamos destacar outro aspecto fundamental dessa época: o espaço, os locais de reuniões, de trabalho, de estudos. Segundo Schipansk e Pontarolo (2009), assim se apresentava a relação espaço e ser humano no período medieval: QUADRO 2 ESPAÇO E RELAÇÕES Espaços e relações Configurações A primeira condição para o funcionamento do sistema feudal era a fixação dos homens ao solo. Ora, a ligação dessas pessoas com a terra é indiscutível, pois a base da sobrevivência era a agricultura. Além do mais, é a organização es- Fixação ao solo pacial em feudos que estabelece o lugar de cada um: vassalo e suserano, servo ou senhor. 7
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Paróquias Vínculo a terra Movimentação Religiosidade Peregrinação A divisão espacial em paróquias mostra que a Igreja teve importância ímpar também nesse aspecto, a criação do quadro paroquial. A paróquia reunia os grupos, formando aldeias ao redor da igreja (que era um edifício sacralizado) e do cemitério. O lugar central e para onde convergiam as atenções e os olhares era o altar lugar onde a Igreja confirmava sua unidade através da eucaristia. Essa distribuição populacional ao redor dos edifícios sagrados origina um espaço heterogêneo e hierarquizado, polarizado pelos santos e suas relíquias. No entanto, não podemos confundir vínculo à terra com imobilidade, pois, ao contrário do que se acredita, nem todos os homens e mulheres da Idade Média passavam a vida inteira no lugar onde nasceram, muitos deles viviam em constante movimentação e peregrinação. Aparece como um elemento fundamental do encelulamento, que contribui para a estabilidade das populações rurais e, então, para a solidez do laço entre os homens e o seu lugar, indispensável ao funcionamento da dominação feudal. A movimentação se dava pelo fato de que, nesse tempo, as propriedades podiam ser provisórias. Os indivíduos estavam inseridos em uma hierarquia que determinava sua posição social: o senhor tinha todo o direito de retomar do servo ou do vassalo a extensão territorial a ele concedida, desde que o transferisse para outra da mesma proporção. Entretanto, esse novo local poderia estar situado bem longe do local de origem. Já a peregrinação estava associada às experiências de exterioridade e poderia funcionar como um meio de reforçar o vínculo com o lugar de origem. O espírito religioso que imperava nessa época empurrava as pessoas para a estrada. A busca pelos lugares santos e pelas relíquias sagradas movia boa parte da população medieval. A travessia era, na maioria das vezes, cercada de dificuldades: os caminhos longos e tortuosos, o frio e a fome, o medo da noite e da floresta, os ladrões e o mau estado das estradas e dos caminhos percorridos. A peregrinação, portanto, não visava a satisfação do desejo pessoal de conhecer novos lugares, nem mesmo era uma atividade de lazer. A peregrinação era praticada como uma penitência, como uma provação. Era uma das formas de purgar pecados graves, de se sacrificar pelo perdão divino. Essas mobilidades e deslocamentos deixavam cada vez mais clara para os indivíduos a importância dos seus lugares e isso reafirmava neles o laço imaginário que os prendia ao seu espaço. FONTE: Schipansk e Pontarolo (2009, p. 32) 8
TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA O feudalismo predominou na Idade Média. Sendo assim, a agricultura era a base econômica dos povos europeus ocidentais. Como se observa, em geral, a Idade Média foi sumariamente caracterizada por um sistema político, econômico e social denominado feudalismo. Queiroz e Junior (2015, p. 34), caracterizam o Feudalismo da seguinte maneira: O feudo era tido como um modo de posse de bens reais e feudal relacionava-se não apenas ao feudo propriamente, mas também aos encargos decorrentes deste tipo de posse. Posteriormente, durante a monarquia absolutista, a expressão que denominava o aspecto jurídico, passa a incorporar um conteúdo político. Com isso, passa-se a enfatizar como principais características do âmbito feudal os vários aspectos relativos à fragmentação da soberania. Mais tarde, a partir dos estudos e conceitos desenvolvidos por Karl Marx e Friedrich Engels, entre 1845 e 1846, o período medieval passa a ser visto pelos historiadores marxistas como um modo de produção, o chamado modo de produção feudal. Esse modo de perceber o feudalismo como fenômeno histórico implicava num entendimento em que a expressão feudal incorporasse também um conteúdo econômico, referindo-se não apenas à organização política e às relações pessoais estabelecidas entre os homens pertencentes às classes dominantes, mas também à própria maneira como estes sujeitavam uma população mais ampla para a organização de uma produção agrícola da qual todos dependiam para a sua subsistência. Assim, as relações verticais entre senhores e servos e todo um complexo sistema de trabalho e propriedade passavam a figurar o modo de produção Feudal. Portanto, o Feudalismo incluía tanto um sistema senhorial de exploração econômica-social, como o conjunto de mecanismos feudo-vassálicos, por onde se organizava a hierarquia. 3 RENASCIMENTO E SOCIEDADE Entre o final da Idade Média e início da Idade Moderna, o conhecimento dito científico começa a colocar em questão muitos conhecimentos da época e o próprio entendimento do mundo pelo conhecimento religioso/teológico. Por exemplo, lembremos a descoberta de que a Terra não era o centro do Universo. A Revolução Francesa, por exemplo, foi inspirada nas ideias iluministas e representa o principal marco desse movimento intelectual (Renascentista). Iluminismo: Contrário à visão teocêntrica que dominava a Europa. Essa forma de pensamento tinha o propósito de iluminar as trevas em que se encontrava a sociedade. De acordo com Mello e Donato (2011, p. 252), O pensamento iluminista tem como fundamentos a crença no poder da razão humana de compreender nossa verdadeira natureza e de ser consciente de nossas circunstâncias. O homem, então, creia ser o detentor de seu próprio destino, formulando o racionalismo e contrariando as imposições de caráter religioso, sua razão divina de existir, e os privilégios dados à nobreza e ao clero ainda predominantes à época (séculos XVII e XVIII). 9
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS NOTA O iluminismo foi um movimento filosófico e intelectual que aconteceu entre os séculos XVII e XVIII na Europa, em especial, na França. Os pensadores iluministas defendiam as liberdades individuais e o uso da razão para validar o conhecimento. Também chamado de Século das Luzes, o movimento iluminista representa a ruptura do saber eclesiástico, isto é, do domínio que a Igreja Católica exercia sobre o conhecimento. E dá lugar ao saber científico, que é adquirido por meio da racionalidade. O iluminismo é um movimento da Idade Moderna que rompeu com o teocentrismo doutrina que coloca Deus no centro de tudo e passou a ver o indivíduo como o centro do conhecimento. FONTE: <https://www.significados.com.br/iluminismo/>. Acesso em: 29 jul. 2021. O Racionalismo é uma corrente filosófica que atribui particular confiança à razão humana, ao passo que acredita que é dela que se obtém os conhecimentos. Somente o pensamento por meio da razão é capaz de atingir a verdade. Entende-se por Racionalismo, do ponto de vista da Teoria do Conhecimento o saber que se funda na razão. Todo conhecimento deriva de princípios (a priori), ou o conhecimento que independe da experiência sensível. O conhecimento adquirido somente pelos sentidos fornece, tão somente, uma ideia confusa e provisória da verdade. A filosofia do Racionalismo data do século XVII O Racionalismo, enquanto Teoria do Conhecimento pela razão opõe-se ao misticismo, aos dogmas religiosos, às superstições. A teoria do Racionalismo tem sido denunciada como sinônimo de irreligião. Ou seja, o conhecimento que não aceita a Intuição, os valores humanos ligados aos sentimentos. O Racionalismo expandiu- -se, abrindo novos horizontes do conhecimento. Ainda no século XVII, conquistou espaços na política e nas artes (CRUZ; SILVA, 2011 p. 6421). O racionalismo descreve que há um tipo de conhecimento que surge diretamente da razão. É baseado nos princípios da busca da certeza e da demonstração, fundamentados por um conhecimento que é elaborado somente pela razão. O racionalismo considera que o ser humano tem ideias inatas, ou seja, que não são derivadas da experiência, mas se encontram no ser humano desde seu nascimento e desconfia das percepções sensoriais. O Renascimento cultural foi um movimento artístico, cultural e científico, ocorrido nos séculos XIV, XV e XVI, marcando o início da Idade Moderna. Foi marcado pela crítica à cultura religiosa medieval, baseada na fé cega, quase que a rejeição da ideologia da Igreja Católica Romana, apesar dos temas religiosos presentes em algumas de suas manifestações artísticas. O movimento difundiu-se primeiramente na Península Itálica, devido à enriquecida burguesia da região que se beneficiou com o comércio mediterrânico ocidente-oriente na Itália, mais precisamente em cidades ligadas ao comércio, como Veneza, Pisa, Gênova e Florença. Tais cidades receberam uma forte influên- 10
TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA cia dos sábios bizantinos. Além disso, após a Queda de Constantinopla, muitos pensadores do antigo Império Bizantino fugiram para a Itália, auxiliando na difusão dos saberes da cultura greco-romana clássica. Além dessa influência, havia os árabes que mantinham contatos comerciais com os italianos. FIGURA 2 O AFRESCO ESCOLA DE ATENAS FONTE: <https://bit.ly/3mceizs>. Acesso em: 13 jan. 2021. O afresco Escola de Atenas, do pintor renascentista Rafael, mostra os filósofos Platão e Aristóteles (ao centro), além de outros estudiosos da Antiguidade. No Renascimento, o pensamento da Antiguidade clássica foi retomado como base para desenvolver novas ideias. Características do Renascimento a- Individualismo: valorização da capacidade do ser humano em fazer escolhas livremente, valendo-se de suas próprias forças b- Racionalismo: ênfase na razão como principal instrumento para compreender o Universo, a natureza e até mesmo Deus. c- Humanismo e Antropocentrismo: perspectiva de que o homem deveria ser o centro das indagações dos pensadores em detrimento do teocentrismo medieval, centrado na natureza de Deus. No entanto, o fato de os humanistas serem antropocêntricos não quer dizer que fossem ateus. Ao contrário, eles eram profundamente cristãos. Sem se afastarem da religião cristã, os humanistas fizeram da capacidade de conhecer as coisas através do uso da razão uma das qualidades mais elevadas do homem. A fim de poder empregar e desenvolver a inteligência humana eles defenderam o livre exame dos textos sagrados, inclusive da Bíblia. Foi essa imensa confiança nas qualidades humanas que caracterizou o humanismo. d- Hedonismo: busca do prazer individual. Naturalismo: preocupações com a natureza, dentro de uma perspectiva metafísica sobre as coisas e sobre as capacidades da razão em moldar a realidade natural. 11
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS e- Neoplatonismo: ideia de que o homem deveria se elevar até Deus. Influência da cultura Greco-Romana: o movimento se inspirou na cultura da antiguidade clássica, adaptando-a de acordo com os interesses da burguesia europeia da Idade Moderna. f- Mecenato: A Itália foi durante muito tempo apenas uma expressão geográfica e não um país. Desde a Idade Média ela era composta de uma multidão de cidades-estados independentes e assim continuou até sua unificação no século XIX. Na época do Renascimento, algumas cidades-estados, como Florença, Milão e Veneza, destacavam-se não só pela riqueza, mas também pela proteção que dispensavam aos artistas e intelectuais. Os governantes dessas cidades representavam certas famílias, como a Sforza, de Milão, e os Medici, de Florença, notabilizando-se como mecenas, isto é, como protetores e financiadores de sábios e artistas. FONTE: Adaptado de SEVCENKO, N. O renascimento. 4. ed. Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1986. 4 AUGUST COMTE E SAINT SIMON O Iluminismo floresceu na França, na Inglaterra, na Alemanha e nos Países Baixos. A Filosofia Social Iluminista desdobrou-se em duas correntes: de um lado, os Reformadores Sociais Moderados que buscavam um ajuste na sociedade aos interesses da burguesia; de outro, os Radicais, que pareciam intuir vagamente os interesses de um futuro proletariado. Os Moderados deram origem ao que mais tarde ficou conhecido como o pensamento liberal conservador e positivista, e os Radicais deram origem aos Socialistas. A primeira corrente do pensamento sociológico propriamente dito foi o Positivismo, primeira teoria a organizar alguns princípios a respeito do ser humano e da sociedade de forma cientifica. Seu primeiro representante foi o pensador francês Auguste Comte, influenciado por Saint Simon. FIGURA 4 CLAUDE HENRI DE ROUVROY, CONDE DE SAINT-SIMON FONTE: <https://bit.ly/3ctk7d0>. Acesso em: 19 mar. 2021. 12
TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA Saint Simon foi o autor de muitas ideias atribuídas ao seu secretário particular August Comte. Seu pensamento ficou entre uma bifurcação ideológica: parte foi aproveitada pelos conservadores e parte pelos socialistas. Foi o precursor do positivismo e, em alguns aspectos, das ideias de Karl Marx, o mais importante teórico do socialismo. Quais eram os principais pensamentos, ideias e princípios defendidos por Saint Simon? Vejamos a seguir. Sobre o Desenvolvimento da Humanidade, Bins (1990, p. 14) afirma: A humanidade progride por etapas. Na primeira a teológica, o mundo fora interpretado em termos religiosos. Na segunda a metafisica, por meio da filosofia e por fim, a positiva ou científica. O progresso para ele não se reduziria somente ao mundo das ideias, pois seria também material. Você pode notar acadêmico, que ele influenciou muito August Comte nessas ideias de que a humanidade progrediu por etapas. Ao que parece, ele olha a humanidade em seus tempos históricos: no início, a sociedade teria sido influenciada pela magia e rituais sagrados; depois, viria a instituição da religião (idade média); a crítica humana à influência religiosa no mundo (antropocentrismo e racionalismo), fase ou etapa dos intelectuais, pensadores e filósofos; e, por último, a busca pelo conhecimento científico. Olhando para educação e os conhecimentos criados e incorporados no dia a dia das escolas e universidades da época, seriam as seguintes possíveis etapas: conhecimento religioso, conhecimento filosófico e sociológico (com o suporte da geografia e história entre outros conhecimentos) e, por fim, o conhecimento científico. Simon vivenciou a revolução Francesa, que interpretou como luta de classes: os industriais, os que produzem, contra a aristocracia parasitária. Não percebeu, porém, que esta categoria era composta por duas classes, a dos burgueses e a dos trabalhadores. Após a revolução, concluiu que se os industriais haviam teoricamente vencido, quem de fato tinha liderado o processo e continuava a manter o poder eram os metafísicos, os advogados e outras categorias bastardas (BINS,1990, p. 14). É o primeiro teórico que esboça a ideia da luta de classes, muito embora esse conceito seja divergente daquele apresentado por Marx. De acordo com Bins (1990, p. 15), imaginava que para o futuro, as sociedades tornarse-iam orgânicas, com suas partes perfeitamente integradas e sem conflitos, comandadas por uma elite técnica-científica. Influenciou muitos pensadores com esse princípio de sociedades orgânicas, sobretudo Herbert Spencer, e a sociologia evolucionista, que permite conceber o sistema social composto por elementos interdependentes constituindo uma unidade própria, à semelhança dos organismos biológicos. Spencer buscou no evolucionismo os mecanismos e objetivos da sociedade, e defendeu o ensino da ciência para formar adultos competitivos. A concepção organicista, em oposição à perspectiva historicista, influenciou Durkheim e a corrente funcionalista. 13
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Por último, a maior das contribuições. Segundo Bins (1990, p. 15), Simon propôs a criação de uma ciência especializada, no estudo da conduta humana, a física social, depois rebatizada por Comte de sociologia. Crítico ferrenho da aristocracia e do clero, Saint-Simon distingue nas transformações sociais de sua época os prenúncios de uma nova era na história da humanidade. Ele foi, ao mesmo tempo, o referencial ideológico dos socialistas, dos positivistas e dos anarquistas. Suas ideias para a Educação são notadas nessas três vertentes, nas concepções teóricas e práticas da educação usada por parte de professores e sistemas de ensino. Seu maior objetivo era a criação de uma sociedade ideal, mais justa e igualitária. Para alguns pensadores de Saint Simon, esse era o grande objetivo do Socialismo Utópico criado por ele. Outro grande pensador e fundador da Sociologia foi August Comte. FIGURA 5 ISIDORE AUGUSTE MARIE FRANÇOIS XAVIER COMTE FONTE: <https://bit.ly/2w6tiwi>. Acesso em: 18 mar. 2021. Comte nasceu em Montpellier, França, em uma família católica e monarquista. Viveu a infância na França napoleônica. Estudou no colégio de sua cidade e depois em Paris, na escola Politécnica. Tornou-se discípulo de Saint Simon, de quem sofreu enorme influência. Devotou seus estudos à filosofia positivista, considerada por ele como uma religião da qual era o pregador. Segundo sua filosofia política, existiam na história três estados: um teológico; outro metafísico e, finalmente, o positivo. Esse último representava o coroamento do progresso da humanidade. Sobre as ciências, distinguia as abstratas das concretas, sendo que a ciência mais complexa e profunda seria a Sociologia, ciência que batizou na sua obra Curso de Filosofia Positiva, em seis volumes, publicada entre 1830 e 1842. Além dessa, publicou Discurso sobre o espírito positivo, Discurso sobre o conjunto do positivismo, Sistema de política positivista, Catecismo positivista e a Síntese subjetiva. Morreu em Paris (COSTA, 1987). 14
TÓPICO 1 ORIGEM DA SOCIOLOGIA O positivismo foi uma corrente teórica criada por Auguste Comte que influenciou a política praticada nos primeiros anos do período republicano no Brasil. QUADRO 3 CORRENTE POSITIVISTA O positivismo foi uma corrente teórica criada pelo filósofo francês Auguste Comte (1798-1857) que defendia que a regra para o progresso social seria a disciplina e a ordem, o que influenciou a teoria moral utilitarista de John Stuart Mill (1806-1873). Stuart Mill reformulou o primeiro utilitarismo fundado por seu professor, o filósofo e jurista Jerehmy Bentham. No Brasil, o positivismo político de Comte, renovado pela carga moral utilitarista, influenciou a política praticada nos primeiros anos da Primeira República (1889-1930), devido às referências positivistas trazidas pelos militares e pelo primeiro presidente, o marechal Manuel Deodoro da Fonseca. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3cyrlr6>. Acesso em: 29 jul. 2021. Quais as principais características do positivismo? Confira: QUADRO 4 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS POSITIVISMO Doutrina filosófica: como uma continuidade do Iluminismo, a inspiração política e científica do positivismo estava nos ideais iluministas. As aspirações dos primeiros filósofos iluministas de alcançar um estágio de desenvolvimento moral da sociedade foram mantidas. No entanto, um novo modo de agir era necessário para garantir a ordem social, desestabilizada após a Revolução Francesa. Doutrina sociológica: visando garantir a ordem social, o positivismo atua como uma doutrina que, partindo dos estudos sociológicos, serve de base para o comportamento social e moral das pessoas. A Lei dos Três Estados estaria no topo dessa cadeia de desenvolvimento da sociedade. Doutrina política: a disciplina, o rigor e a ordem social eram requisitos políticos para a garantia do avanço social na ótica positivista. Desenvolvimento das ciências e das técnicas: o progresso social estaria intimamente ligado ao progresso intelectual, científico e tecnológico. A ideia de uma escola laica, universal e gratuita, que já havia ganhado certo espaço durante o Iluminismo, passou a ser defendida com mais força pelos intelectuais positivistas. Religião positiva: Comte entendia que a humanidade precisava de relações de devoção. A devoção antes baseada na fé em Deus ou nos deuses no positivismo, dá lugar para a fé na ciência como única depositária de confiança da humanidade, surgindo o cientificismo, caracterizado pela aposta incondicional nas ciências como fonte total do conhecimento verdadeiro. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3cyrlr6>. Acesso em: 12 mar. 2021. 15
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS FIGURA 6 COMTE E O POSITIVISMO FONTE: <https://bit.ly/3cuztvj>. Acesso em: 12 mar. 2021. NOTA O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, por meio da promoção do primado da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência (na concepção positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. O positivismo nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis). FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3isspxv>. Acesso em: 20 jan, 2021. 16
RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: A origem da Sociologia está vinculada à história do mundo europeu. Pensadores e obras do continente europeu iniciaram o debate e a reflexão em torno do que seria o conhecimento sociológico transformado em Ciência. A Idade Média teve como fonte de compreensão, de interpretação da vida e tudo que se relacionava com a sociedade, o conhecimento religioso ou o conhecimento teológico. A vida na sociedade medieval se caracterizava por um forte apelo às questões religiosas e rurais no sentido de que o modo de produção vigente conhecido como Feudalismo foi o mais usado em toda a história desse período, onde grandes extensões de terras do Senhor Feudal eram usadas pelos servos para fugir da miséria e buscar seu espaço no céu. O pensamento iluminista tem como fundamentos a crença no poder da razão humana de compreender nossa verdadeira natureza e de ser consciente de nossas circunstâncias. O homem, então, cria ser o detentor de seu próprio destino, formulando o racionalismo e contrariando as imposições de caráter religioso, sua razão divina de existir, e os privilégios dados à nobreza e ao clero, ainda predominantes à época (séculos XVII e XVIII). O Renascimento cultural foi um movimento artístico, cultural e científico, ocorrido nos séculos XIV, XV e XVI, início da Idade Moderna. Foi marcado pela crítica à cultura religiosa medieval, baseada na fé cega, quase que a rejeição da ideologia da Igreja Católica Romana, apesar dos temas religiosos presentes em algumas de suas manifestações artísticas. Saint Simon foi o autor de muitas ideias atribuídas ao seu secretário particular August Comte. Seu pensamento ficou entre uma bifurcação ideológica: parte foi aproveitada pelos conservadores e parte pelos socialistas. Foi o precursor do positivismo e, em alguns aspectos, das ideias de Karl Marx, o mais importante teórico do socialismo. 17
Comte nasceu em Montpellier, França, em uma família católica e monarquista. Viveu a infância na França napoleônica. Estudou no colégio de sua cidade e depois em Paris, na escola Politécnica. Tornou-se discípulo de Saint Simon, de quem sofreu enorme influência. Devotou seus estudos a filosofia positivista, considerada por ele como uma religião da qual era o pregador. O positivismo foi uma corrente teórica criada pelo filósofo francês Auguste Comte (1798-1857), que defendia que a regra para o progresso social seria a disciplina e a ordem, o que influenciou a teoria moral utilitarista de John Stuart Mill (1806-1873). Stuart Mill reformulou o primeiro utilitarismo fundado por seu professor, o filósofo e jurista Jerehmy Bentham. No Brasil, o positivismo político de Comte, renovado pela carga moral utilitarista, influenciou a política praticada nos primeiros anos da Primeira República (1889-1930), devido às referências positivistas trazidas pelos militares e pelo primeiro presidente, o marechal Manuel Deodoro da Fonseca. 18
AUTOATIVIDADE 1 A Idade Média, para a maioria dos pesquisadores, foi um período conhecido Idade das Trevas, ou seja, a Idade sem Luz, sem criatividade humana. A maior parte da história desse período teve como fonte de compreensão, de interpretação da vida e tudo que se relacionava com a sociedade, o conhecimento religioso ou o conhecimento teológico. Referente ao modo de produzir as coisas na Idade Média, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A produção basicamente girava em torno das grandes extensões de terras, os chamados Feudos, e tal sistema ficou conhecido como Feudalismo. b) ( ) A produção basicamente girava em torno das pequenas extensões de terras, os Feudos. Esse sistema ficou conhecido como Feudalismo. c) ( ) A produção basicamente girava em torno das grandes extensões de terras, os Feudos. Esse sistema ficou conhecido como Mercantilista. d) ( ) A produção basicamente girava em torno das grandes extensões de terras, os Burgos. Esse sistema ficou conhecido como Feudalismo. 2 Entre o final da Idade Média e início da Idade Moderna, o conhecimento dito científico começa a colocar em questão muitos conhecimentos da época, além do próprio entendimento do mundo pelo conhecimento religioso/ teológico. Exemplo disso foi a descoberta de que a Terra não era o centro do Universo. A Revolução Francesa foi inspirada nas ideias iluministas e representa o principal marco desse movimento intelectual. Sobre o Iluminismo, analise as afirmativas a seguir: I- Iluminismo: contrário à visão teocêntrica que dominava a Europa. II- O pensamento iluminista tem como fundamentos a crença no poder da razão humana de compreender nossa verdadeira natureza e de ser consciente de nossas circunstâncias. III- O Iluminismo foi um movimento artístico, cultural e científico, ocorrido nos séculos XIV, XV e XVI. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente as afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) Somente as afirmativas II e III estão corretas. c) ( ) Somente as afirmativas I e III estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 3 A primeira corrente do pensamento sociológico, propriamente dita, foi o Positivismo, primeira teoria a organizar alguns princípios a respeito do ser humano e da Sociedade. Seu primeiro representante foi o pensador francês Auguste Comte, influenciado por Saint Simon. Sobre August Comte, assinale a alternativa INCORRETA: 19
a) ( ) Segundo a filosofia política de Comte, existiam na história três estados: um teológico; outro metafísico e, finalmente, o positivo. b) ( ) O positivismo foi uma corrente teórica criada por Auguste Comte que influenciou a política praticada nos primeiros anos do período republicano no Brasil. c) ( ) Na visão utópica de Comte, nessa sociedade transformada imperavam as noções de mérito, magia e de cooperação. d) ( ) Comte entendia que a humanidade precisava de relações de devoção. A devoção, antes baseada na fé em Deus ou nos deuses, no positivismo, dá lugar para a fé na ciência como única depositária de confiança da humanidade, surgindo o cientificismo. 4 Ao longo da Idade Média, prevaleceu a concepção teocêntrica de mundo e sociedade. A partir do Renascimento e do início da Idade Moderna, esta concepção foi gradualmente sendo substituída pelo antropocentrismo, provocando mudanças e transformações profundas na maneira de entender o homem, a religiosidade, a sociedade e a natureza. Diante disto, descreva duas mudanças apresentadas pela concepção de mundo no contexto do Renascimento e da Idade Moderna. 5 Auguste Comte desenvolveu, no campo teórico, os preceitos do Positivismo, que influenciaram tanto a compreensão da sociedade quanto da educação ao longo da história. Um dos lemas desse pressuposto epistemológico é Ordem e Progresso, o qual também consta estampado na bandeira nacional, símbolo de nosso país. Com base no exposto, disserte sobre o positivismo e sua relação com a sociedade. 20
UNIDADE 1 TÓPICO 2 1 INTRODUÇÃO AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Sociologia, modernidade e Ciência: esse Tópico servirá para situar a reflexão trazida neste livro de estudos sobre origem e o desenvolvimento da sociologia, ou seja, apresentar o mundo europeu no início da modernidade e sua relação com os estudos da sociologia da época. A sociedade moderna se caracterizou por símbolos, valores, representações e instituições marcadas por determinadas formas de saber e de poder, ocupantes de uma posição hegemônica. O exercício dessa hegemonia dependeu, em grande medida, desde as conquistas dos grandes impérios sobre povos colonizados até os modelos mais avançados de dominação, de estratégias próprias de apropriação do espaço, origem e fundação de um território. Apresentaremos sobre Émile Durkheim, que nasceu em Épinal, na Alsácia, descendente de uma família de rabinos, e iniciou seus estudos filosóficos na Escola Normal Superior de Paris, indo depois para a Alemanha. Lecionou Sociologia em Bordéus, primeira cátedra dessa ciência na França. Max Weber nasceu na cidade de Erfurt, em uma família de burgueses liberais. Desenvolveu estudos de direito, filosofia, história e sociologia, constantemente interrompidos por uma doença que o acompanhava por toda a vida. Iniciou a carreira de professor em Berlim e, em 1895 foi catedrático em Heidelberg. Manteve contato permanente com intelectuais de sua época. No decorrer do Tópico 2 vamos estudar os principais conceitos e características da proposta sociológica desses autores e a relação com a educação. Por último, apresentaremos Karl Marx, que nasceu na cidade de Treves, na Alemanha. Em 1836 matriculou-se na Universidade de Berlim e doutorou-se em filosofia na Universidade de Jena. Foi redator de uma gazeta liberal em Colônia. Mudou-se em 1842 para Paris, onde conheceu Friedrich Engels, seu companheiro de ideias e publicações por toda a vida. 2 SOCIOLOGIA, MODERNIDADE E CIÊNCIA Os Estados Nacionais foram constituídos a partir do ideal de nação em termos de uma identidade compartilhada e de território, concebido como a base homogênea para o desenvolvimento dessa identidade. 21
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS A vida humana se constitui dentro desse período por meio de grandes avanços e desenvolvimentos em diversas áreas, como a Política, a Economia, a Cultura e a Ciência. Angústias, certezas, esperanças, medos e mistérios cercaram o nascimento e desenvolvimento desse período na história humana. O ser humano do período moderno compreendeu que para viver e ser, nessa época, precisaria de muitos conhecimentos para ter um mínimo de visão sobre a compreensão de habitar esse planeta e se aculturar nas novas formas de convívio e de vida. No período conhecido como Idade moderna, as principais características da sociedade eram: Relação principal: no início do período o Rei e o Súdito simbolizavam a maior relação existente na sociedade da época. No final do período, o Governo e o trabalho aparecem como a relação que predominou. A divisão social: início das classes sociais descritas por Marx e outros pensadores que estudavam a sociedade. Economia ou modo de produzir as coisas: surgimento das primeiras fábricas e oficinas. O capitalismo era mercantilista na época das grandes navegações, e no início da idade contemporânea o capitalismo industrial veio assim se caracterizando, com a revolução industrial. As leis e os códigos de condutas sociais: com o início das estruturações e configurações dos Estados-nações e, sobretudo, na Idade Contemporânea, com a Revolução Francesa, a questão do direito se tornou presente em muitos países. Surge a discussão sobre os Direitos Universais do Homem. A visão de mundo, religião, educação, conhecimento, meio ambiente e cultura: a visão de mundo passa pelo parâmetro do Antropocentrismo. A Igreja Protestante nasce com Lutero. Contrarreforma Católica com os Jesuítas. A natureza é vista como algo a ser explorado para a produção de artefatos culturais. Nesse período, vigorava a ideia de que a natureza era fonte inesgotável de riquezas. Nascimento das primeiras Universidades Modernas, o conhecimento é ampliado em diversas disciplinas ou áreas, sobretudo aquelas que podem auxiliar o ser humano na compreensão do mundo, da sociedade que está sendo gestada. Fortalecimento do liberalismo e início dos ideais comunistas/socialistas. FIGURA 8 A CONQUISTA DE CONSTANTINOPLA PELOS OTOMANOS, EM 1453 FONTE: <https://bit.ly/37nz0nh>. Acesso em: 13 mar. 2021. 22
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Você pode se perguntar: o que foi a Idade Moderna? Idade Idade Moderna QUADRO 5 IDADE MODERNA O que foi? Foi uma das formas encontradas pelos historiadores para se dividir a história da humanidade. Seu recorte temporal inicia-se com a queda do Império Bizantino e a tomada da cidade de Constantinopla pelo Império Turco-Otomano, em 1453. Seu recorte final está delimitado com a Revolução Francesa, em 1789. Essa divisão é pautada na perspectiva histórica europeia, já que os marcos divisórios referem-se indireta ou diretamente a fatos importantes para os europeus. A tomada de Constantinopla pelos turcos pôs fim ao Império Bizantino herdeiro direto do Império Romano da Antiguidade e surgido onde hoje é a Itália e representou o fim de uma longa era. A concepção de uma Idade Moderna era também uma ruptura com o que foi considerado como uma Idade Média da História. Média, nesse sentido, era o período entre a Antiguidade e a Idade Moderna. A própria divisão histórica como conhecemos (Idades Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea) surge nesse momento da História europeia. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3jvmeze>. Acesso em: 29 jul. 2021. Em síntese, como podemos compreender a Idade Moderna no âmbito de sociedade e vida? QUADRO 6 COMO A IDADE MODERNA PODE SER ENTENDIDA Idade Síntese Pode ser entendida pelas grandes transformações ocorridas no território europeu no período. Foi durante a Idade Moderna que os europeus realizaram as Grandes Navegações e a Expansão Marítima, criando as condições para a dominação de Idade Moderna continentes inteiros, como a África e a recém-conhecida América. O domínio dessas regiões resultou na conquista de inúmeras riquezas por parte das classes dominantes europeias, criando as bases para que pudessem expandir, posteriormente, sua forma de organização social para o restante do mundo. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3jvmeze>. Acesso em: 29 jul. 2021. 23
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Esses e outros fatores influenciaram a vida moderna (Capitalismo mercantilista, Grandes Navegações, Renascimento, Iluminismo, Reforma Luterana, Contrarreforma Católica). De uma vida essencialmente no campo, a Europa passa a viver nas cidades que nascem com o capitalismo mercantilista e mais tarde com o capitalismo industrial. Também é possível destacar algumas características da Idade Moderna que ainda condicionam a vida em Sociedade: A Separação Tempo e Espaço: O ritmo das mudanças, que na modernidade se dá de maneira muito mais acelerada do que acontecia nas sociedades pré- -modernas. As mudanças ocorridas nas sociedades pré-modernas aconteciam em uma localidade e ficavam ali restritas, sem influenciar outros centros ou localidades. Isso não ocorreu na modernidade, em que diferentes áreas do planeta foram postas em interconexão. O papel dos agentes e instituições: tais como a família e a Igreja, se modificaram em termos econômicos e culturais, bem como o surgimento dos Estados Nações em oposição às cidades ou reinos. Desenvolvimento das cidades: o desenvolvimento de uma sociedade majoritariamente urbana, que acarretou profundas e diversas modificações na maneira de ser e estar no mundo. O centro condutor da vida: com a modernidade, há uma mudança significativa de mentalidade. O ser humano começa a valorizar com mais ênfase as suas capacidades racionais (ampliação do conhecimento, maior uso do conhecimento científico, não somente do conhecimento religioso). Todas essas transformações, conhecimentos e invenções mudaram por completo a vida das pessoas que viviam na Europa, no início e durante a Idade Moderna. Novos conhecimentos foram produzidos para se compreender e viver em sociedade, as Universidades começaram a ter um importante papel para essa compreensão, bem como a educação começa a ser vista como direito e essencial à vida humana. Sobre o modo de produzir as coisas e de transformar a natureza em bens culturais ou objetos de uso, podemos citar que nesse período o desenvolvimento do mercantilismo possibilitou a ruptura da economia feudal. O mercantilismo antecedeu o desenvolvimento da indústria e trouxe novas necessidades com o surgimento da burguesia, diferentes dos interesses da nobreza. Posteriormente, o mercantilismo será substituído pelo capitalismo industrial. O que foi o Capitalismo Mercantilista ou Comercial? 24
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO QUADRO 7 PRIMEIRA FASE DO SISTEMA CAPITALISTA: CAPITALISMO COMERCIAL (MERCAN- TILISTA) SÉCULO XV XVIII A fase do capitalismo comercial é também chamada de pré-capitalista. Naquele momento ainda não havia industrialização e o sistema estava baseado em trocas comerciais. O modelo econômico adotado nesse período foi o mercantilismo, que tinha como principais características: o controle estatal da economia o Rei controlava o mercado; o protecionismo proteção do mercado interno; o metalismo acúmulo de metais preciosos; e a balança comercial favorável mais exportação do que importação. A crença naquele momento era de que a riqueza disponível no mundo não poderia ser aumentada, apenas redistribuída. Assim, os países buscavam a acumulação de riquezas por meio da proteção da economia local e acúmulo de metais decorrente das trocas comerciais que realizavam com outros países. Foi nesse período que nações europeias exploraram os recursos de suas colônias, como aconteceu aqui nas Américas. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3iso2b6>. Acesso em: 13 jan. 2021. NOTA A monetização é uma ação humana e significa o aproveitamento de algo como fonte de lucro. O termo é derivado do verbo monetizar, que designa o ato de transformar algo em dinheiro. Basicamente, qualquer coisa (objeto, informação, título, dívida etc.) pode ser usada para monetização. Na atualidade até mesmo as relações entre pessoas. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3xrhcnh.>. Acesso em: 30 jul. 2021. No início da Idade Moderna, a Europa ainda tinha como base religiosa a Igreja Católica Apostólica Romana. Essa liderança foi abalada, com um Movimento liderado por um Monge Agostiniano, Martinho Lutero, que criticou as indulgências e certas normas católicas, provocando o Movimento de Reforma Luterana ou Protestante. 25
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS FIGURA 9 95 TESES, MARTINHO LUTERO FONTE: <https://m.media-amazon.com/images/i/51tewyvrujl.jpg>. Acesso em: 12 jan. 2021. QUADRO 8 REFORMA PROTESTANTE Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão do século XVI liderado por Martinho Lutero, simbolizado pela publicação de suas 95 Teses em 31 de outubro de 1517 na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. Tendo por ponto de partida as críticas às vendas de indulgências, o movimento de Lutero tornou- -se conhecido como um protesto contra os abusos do clero, evoluindo para uma proposta de reforma no catolicismo romano a partir da mudança em diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana, com base no que Lutero entendia como um retorno às escrituras sagradas. Os princípios fundamentais extraídos da Reforma Protestante são conhecidos como os Cinco Solas. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3iuazuf>. Acesso em: 29 jul. 2021. A construção teológica iniciada por Martinho Lutero deu origem a um princípio conhecido como Cinco Solas: Sola fide (somente a fé). Sola scriptura (somente a Escritura). Solus Christus (somente Cristo). Sola gratia (somente a graça). Soli Deo gloria (glória somente a Deus). 26
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO QUADRO 9 CAUSAS DA REFORMA PROTESTANTE A Reforma Protestante teve causas relacionadas a aspectos políticos, econômicos e teológicos e resultou da corrupção existente na Igreja Católica. Além disso, resultado de interesses políticos oriundos de nobres que viram na reforma uma possibilidade de romper o vínculo de autoridade com o papa. Por fim, foi imposta a questão dos interesses econômicos, uma vez que a Igreja estipulava a cobrança de impostos de todos os seus fiéis. No aspecto teológico, o ponto imediato a ser destacado é a insatisfação de Martinho Lutero com as práticas da Igreja Católica. A Igreja de Roma era, naquele período, a maior autoridade da Europa Ocidental e detinha um imenso poder, uma vez que era dona de terras e riquezas gigantescas. Além disso, a autoridade do papa impunha-se além do campo religioso, alcançando o campo secular (político). Os reis da Europa tinham seu poder sustentado pela autoridade da Igreja, uma vez que era praticamente impossível manter-se no comando sem a aprovação do papa. Sendo assim, a Igreja Católica possuía o monopólio da vida política e religiosa europeia. Centrado no aspecto teológico, muitos começaram a questionar as posições da Igreja. Antes mesmo de Lutero, já haviam existido na Europa movimentos religiosos e figuras do clero católico que questionavam determinados princípios do catolicismo. Em longo prazo, pode-se ressaltar, por exemplo, os valdenses, que surgiram na França no final do século XII. Em um período imediato, isto é, poucos anos antes do início da reforma, existiram os pré-reformadores na Europa, que teceram críticas à Igreja de Roma. Dois nomes que se destacaram nesse contexto foram John Wycliffe e Jan Hus. O primeiro criticava o acúmulo de poder político e os desvios da Igreja dos verdadeiros ensinamentos de Jesus. O segundo tecia críticas parecidas contra o enriquecimento da Igreja e a venda de indulgências. Com relação às questões políticas, existia uma série de reis, nobres e autoridades em geral que estavam interessados em romper o poder secular com o religioso. Isso significa que muitos viam o rompimento como uma forma de consolidar ou de assegurar mais poder sem a necessidade de ter que se sujeitar a outra autoridade no caso, o papa. Nas questões econômicas, há de se destacar que na região norte da Europa havia uma insatisfação muito grande com a quantidade de impostos que deveriam ser repassados para a Igreja. Tal questão intensificava-se em um contexto em que as penínsulas Itálica e Ibérica estavam em franco desenvolvimento e enriquecimento, enquanto regiões como a que corresponde à atual Alemanha eram pobres e enfrentavam dificuldades econômicas. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3iukq3f>. Acesso em: 29 jul. 2021. Martinho Lutero foi o fundador do protestantismo, vertente do cristianismo que rompeu com a Igreja Católica. 27
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS No aspecto cultural da Idade Moderna, podemos destacar o Antropocentrismo e o Renascimento. Contrário ao Teocentrismo, o Antropocentrismo é um conceito filosofia que ressalta a importância do ser humano como um ser dotado de inteligência e, portanto, livre para realizar suas ações no mundo. A palavra vem do grego, significa o ser humano no centro, ou seja, todos os parâmetros para se viver em sociedade passam pelo ser humano. A Política, a Economia, a Religião e a Arte terão como centro o Ser Humano. Se na Idade Média a Cultura era permeada de anjos, igrejas, devoções, santos, das coisas de Deus, agora, na Idade Moderna, tudo aquilo que a representa ou está relacionado com a condição humana e o próprio ser humano passar ser um parâmetro norteador na produção cultural (peças teatrais, música, pinturas). Monalisa é um exemplo desse período. Ela é retratada sozinha, no centro. Centro e Individualização, duas características do Antropocentrismo. Importante sublinhar que durante a Idade Moderna o homem passa a dar maior importância a si mesmo, valorizando sua condição humana e sua capacidade de intervenção na natureza. A visão teocêntrica é sobreposta pela visão antropocêntrica da realidade. Essa perspectiva de mudança é inter-relacionada com dois novos valores da sociedade moderna, o individualismo valorização do indivíduo, e o racionalismo valorização da razão (RUSSELL, 2004, p. 67). FIGURA 10 MONALISA FONTE: <https://bit.ly/3lotqcl>. Acesso em: 12 jan. 2021. 3 ÉMILE DURKHEIM, MAX WEBER E A EDUCAÇÃO Embora Comte seja considerado o Pai da Sociologia, entre outras coisas, por tê-la assim batizado, Durkheim é apontado como um dos seus primeiros grandes teóricos. Juntamente com seus colaboradores, esforçou-se por emancipar a Sociologia da Filosofia Social. 28
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO FIGURA 11 DAVID ÉMILE DURKHEIM FONTE: <https://slideplayer.com.br/9702941/31/images/slide_1.jpg>. Acesso em: 20 mar. 2021. Durkheim nasceu em Épinal, na Alsácia. Descendente de uma família de rabinos iniciou seus estudos filosóficos na Escola Normal Superior de Paris, indo depois para Alemanha. Lecionou Sociologia em Bordéus, primeira cátedra dessa ciência na França. Transferiu-se em 1902 para a Sorbonne, para onde levou inúmeros cientistas, entre eles seu sobrinho Marcel Mauss, reunindo-se em um grupo que ficou conhecido como escola sociológica francesa. Morreu em Paris (COSTA, 1987). Em livros e cursos, sua preocupação foi definir com precisão o objeto, o método e as aplicações da nova Ciência. De acordo com Costa (1987, p. 51), Durkheim formulou com clareza os tipos de acontecimentos sobre os quais o sociólogo deveria se debruçar: os fatos sociais. Estes constituem os objetos da Sociologia. Três são as características que Durkheim distingue nos fatos sociais. FIGURA 12 GENERALIDADE, EXTERIORIDADE E COERCITIVIDADE FONTE: <https://bit.ly/3xvrkot>. Acesso em: 20 mar. 2020. 29
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Os fatos sociais são apresentados por Durkheim como maneiras coletivas de pensar, de sentir e de agir que estão presentes na realidade das sociedades, estando diretamente vinculados aos aspectos morais que regem a vida das pessoas e as relações que estabelecem entre si. Valores, costumes, hábitos, regras, leis, normas e estruturas sociais são alguns dos componentes que dão forma aos fatos sociais e, sobretudo, a sua capacidade de influenciar o comportamento dos seres humanos a partir de fatores externos aos próprios indivíduos. QUADRO 10 GENERALIDADE A generalidade A exterioridade A coercitividade Em primeiro lugar, a generalidade corresponde à capacidade dos fatos sociais exercerem o seu poder de influência sobre a totalidade ou sobre a maioria dos membros de uma sociedade ou grupo social. Nesse sentido, a necessidade de obediência às determinações não recai apenas sobre alguns indivíduos, mas sobre todos aqueles reconhecidos como membros do corpo social ao qual são destinadas tais obrigações. Em segundo lugar, a exterioridade compreende e delimita a existência dos fatos sociais independentemente das vontades pessoais. Portanto, são elementos cuja propriedade é exterior às consciências individuais, sendo, portanto, imutáveis em curto prazo e aplicáveis coletivamente às pessoas. Por fim, a coercitividade representa a condição de coerção social, em que os indivíduos se tornam suscetíveis diante dos fatos sociais, o que não permite que suas estruturas sejam alteradas sem grande capacidade de resistência. Desse modo, ocorre a imposição de comportamentos sob a condição de que, se necessário, para a manutenção da ordem e dos aspectos morais vigentes, as pessoas sejam reprimidas e sofram sanções em casos de condutas consideradas como inadequadas. No entanto, é importante destacar que nem toda coerção social exclui a personalidade individual, tornando-a um instrumento que impele a alienação de algumas das vontades individuais, porém não de todas visto que o seu objetivo maior é a preservação da ordem social. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3gdmbxy>. Acesso em: 10 abr. 2021. Além do Fato Social, quais as outras contribuições deixadas por Durkheim para a Sociologia? Foram diversas contribuições. no quadro a seguir apresentaremos algumas: 30
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO QUADRO 11 CONCEITOS Instituição social e Anomia A instituição social é um mecanismo de organização da sociedade, é o conjunto de regras e procedimentos padronizados socialmente, reconhecidos, aceitos e sancionados pela sociedade, cuja importância estratégica é manter a organização do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos que dele participam. As instituições são, portanto, conservadoras por essência, quer seja família, escola, governo, religião, polícia ou qualquer outra. Elas agem contra as mudanças, pela manutenção da ordem vigente. Durkheim registra, em sua obra, o quanto acredita que essas instituições são valorosas e parte em sua defesa, o que o deixou com certa reputação de conservador, que durante muitos anos causou antipatia a sua obra. No entanto, Durkheim não pode ser meramente tachado de conservador. Sua defesa das instituições se baseia num ponto fundamental, o ser humano necessita se sentir seguro, protegido e respaldado. Uma sociedade sem regras claras ("em estado de anomia"), sem valores e sem limites leva o ser humano ao desespero. Preocupado com esse desespero, Durkheim se dedicou ao estudo da criminalidade, do suicídio e da religião. Uma rápida observação do contexto histórico do século XIX nos permite perceber que as instituições sociais se encontravam enfraquecidas, havia muito questionamento, valores tradicionais eram rompidos e novos surgiam, muita gente vivia em condições miseráveis, desempregados, doentes e marginalizados. Ora, numa sociedade integrada, essa gente não podia ser ignorada, de uma forma ou de outra, toda a sociedade estava ou iria sofrer as consequências. Aos problemas que ele observou, considerou como patologia social, e chamou aquela sociedade doente de "Anomana". A anomia era a grande inimiga da sociedade, algo que devia ser vencido, e a sociologia era o meio para isso. O papel do sociólogo seria, portanto, estudar, entender e ajudar a sociedade. Em seus estudos, Durkheim concluiu que os fatos sociais atingem toda a sociedade, o que só é possível se admitirmos que a sociedade seja um todo integrado. Se tudo na sociedade está interligado, qualquer alteração afeta o geral, o que quer dizer que, se algo não vai bem em algum setor da sociedade, toda ela sentirá o efeito. Partindo desse raciocínio, desenvolve dois dos seus principais conceitos: Instituição social e Anomia. Solidariedade Social A solidariedade, segundo Durkheim, é oriunda de dois tipos de consciência: a consciência coletiva (ou comum) e consciência individual. Cada indivíduo possui uma consciência individual que sofre influência da consciência coletiva, que nada mais é que a combinação das consciências individuais de todos os homens ao mesmo tempo. A consciência coletiva seria responsável pela formação de nossos valores morais, e exerce uma pressão externa aos indivíduos no momento de suas escolhas. A soma da consciência individual com a consciência coletiva forma o ser social. Dentro da perspectiva sociológica durkheimniana, a existência de uma sociedade só é possível a partir de um determinado grau de consenso entre seus membros constituintes: os indivíduos. Esse consenso se assenta, basicamente, no processo de adequação da consciência individual à consciência coletiva. Dependendo do grau de consenso, temos dois tipos de solidariedade. 31
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Solidariedade mecânica A sociedade em sua fase primitiva se organizava socialmente a partir das semelhanças psíquicas e sociais entre os membros individuais. Nessas sociedades, os indivíduos que as integravam compartilhavam dos mesmos valores sociais, tanto no que se refere às crenças religiosas como com relação aos interesses materiais necessários à subsistência do grupo, essa correspondência de valores é que assegurava a coesão social. Solidariedade orgânica Já nas sociedades ditas "modernas" ou "complexas" do ponto de vista da maior diferenciação individual e social, existe a solidariedade orgânica. Nesse modelo, cada indivíduo tem uma função e depende dos outros para sobreviver. A Solidariedade Orgânica é fruto das diferenças sociais, já que são essas diferenças que unem os indivíduos pela necessidade de troca de serviços e pela sua interdependência. O indivíduo é socializado porque, embora tenha sua individualidade, depende dos demais e, por isso, se sente parte de um todo. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/2xqrdvy>. Acesso em: 20 mar. 2021. Durkheim é considerado o criador da Sociologia da Educação. Para ele, a principal função do professor é formar cidadãos capazes de contribuir para a harmonia social. Qual seria a grande função da Educação segundo Durkheim? QUADRO 12 CONTRIBUIÇÕES Durkheim não desenvolveu métodos pedagógicos, mas suas ideias ajudaram a compreender o significado social do trabalho do professor, tirando a educação escolar da perspectiva individualista, sempre limitada pelo psicologismo idealista. Segundo Durkheim, o papel da ação educativa é formar um cidadão que tomará parte do espaço público, não somente o desenvolvimento individual do aluno. Portanto, "a educação tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança estados físicos e morais que são requeridos pela sociedade política no seu conjunto". Tais exigências, com forte influência no processo de ensino, estão relacionadas à religião, às normas e sanções, à ação política, ao grau de desenvolvimento das ciências e até mesmo ao estado de progresso da indústria local. Se a educação for desligada das causas históricas, ela se tornará apenas exercício da vontade e do desenvolvimento individual, o que, para ele, era incompreensível: "Como é que o indivíduo pode pretender reconstruir, por meio do único esforço da sua reflexão privada, o que não é obra do pensamento individual?". Ele mesmo respondeu: "O indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são suas origens e as condições de que depende. E não poderá sabê-lo sem ir à escola, começando por observar a matéria bruta que está lá representada". Por tudo isso, Durkheim é também considerado um dos mentores dos ideais republicanos de uma educação pública, monopolizada pelo Estado, e laica, liberta da influência do clero romano. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/2w1b7lr>. Acesso em: 20 mar. 2021. 32
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO NOTA Para pensar: Durkheim dizia que a criança, ao nascer, trazia consigo só a sua natureza de indivíduo. "A sociedade encontra-se, a cada nova geração, na presença de uma tábua rasa sobre a qual é necessário construir novamente", escreveu. Os professores, como parte responsável pelo desenvolvimento dos indivíduos, têm um papel determinante e delicado. Devem transmitir os conhecimentos adquiridos, com cuidado para não tirar a autonomia de pensamento dos jovens. A proposta de Durkheim levará o aluno a avançar sozinho? Esse modelo de formação externa contrária à independência nos estudos? Ou será uma condição para que a educação cumpra seu papel social e político? FONTE: <https://bit.ly/2w1b7lr>. Acesso em: 20 mar. 2021 Outro grande Sociólogo desse período é Max Weber. A partir de agora vamos apresentar a vida, obras e seus conceitos: FIGURA 13 MAXIMILIAN KARL EMIL WEBER FONTE: <https://bit.ly/3iupkan>. Acesso em 20 mar. 2021. 33
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Foi na cidade de Erfurt que nasceu Max Weber, em uma família de burgueses liberais. Desenvolveu estudos de direito, filosofia, história e sociologia, constantemente interrompidos por uma doença que o acompanhava por toda a vida. Iniciou a carreira de professor em Berlim e em 1895 foi catedrático em Heidelberg. Manteve contato permanente com intelectuais de sua época, como Simmel, Sombart, Tönnies e Georg Lukács. Na política, defendeu ardorosamente seus pontos de vista liberais e parlamentarista e participou da comissão redatora da Constituição da República de Weimar. Sua maior contribuição nas pesquisas e estudos sociológicos foi na Sociologia da Religião, estabelecendo relações da formação política e crenças religiosas. Suas principais obras foram: Artigos reunidos da Sociologia da Religião; Artigos reunidos da Teoria da Ciência; Economia e Sociedade (obra póstuma); Ética Protestante e Espírito do Capitalismo. Morreu em Monique (COSTA, 1987). Max Weber formulou com precisão o conceito de ação social, que para ele baseia-se no processo comunicativo entre sujeitos, tomando como ponto de partida o sentido dado pelo autor de uma ação e seu objetivo. QUADRO 14 TEORIA DA AÇÃO SOCIAL A teoria sociológica da ação social foi amplamente trabalhada pelo teórico Max Weber, que acreditava que a principal função da Sociologia era compreender os diversos aspectos da ação social. A ação social é entendida por Weber como qualquer ação realizada por um sujeito em um meio social que, no entanto, possua um sentido determinado por seu autor. O contínuo processo de comunicação está intimamente ligado ao conceito de ação social. A manifestação do sujeito que deseja uma resposta é manifestada em função dessa resposta. Em outras palavras, uma ação social constitui-se como ação a partir da intenção de seu autor quanto à resposta que deseja de seu interlocutor. A partir desse entendimento, Weber justifica que a função dos esforços sociológicos é justamente tentar compreender os sentidos dados às ações humanas em suas relações sociais. As relações humanas e, por sua vez, as ações que estão inseridas no contexto dessas relações, possuem sentido atribuído a elas por seus autores. Para que se compreenda o processo de comunicação e de interação social, é necessário, então, que se compreenda o sentido da ação, bem como, ainda mais importante, desvende-se o objetivo do autor da ação em seu esforço comunicativo. Peguemos, por exemplo, a ação social de um abraço, que pode carregar uma infinidade de sentidos. O autor da ação, ao realizá-la, deseja que seu interlocutor apreenda o sentido que desejou implantar em seu ato, e não apenas que entenda o sentido genérico do ato de abraçar. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3cuovbw>. Acesso em: 29 jul. 2021. 34
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO FIGURA 14 CARACTERIZAÇÃO DA AÇÃO SOCIAL FONTE: <https://bit.ly/3spsxny>. Acesso em: 20 mar. 2021. Max Weber escreveu sobre os tipos de dominação. O autor citou que podemos legitimar três tipos: QUADRO 15 TIPOS DE DOMINAÇÃO LEGÍTIMA Dominação Legal: onde qualquer direito pode ser criado e modificado através de um estatuto sancionado corretamente, tendo a burocracia como o tipo mais puro desta dominação. Os princípios fundamentais da burocracia, segundo o autor, são a Hierarquia Funcional, a Administração baseada em Documentos, a Demanda pela Aprendizagem Profissional, as Atribuições são oficializadas e há uma Exigência de todo o Rendimento do Profissional. A obediência se presta não à pessoa, em virtude de direito próprio, mas à regra, que se conhece competente para designar a quem e em que extensão se há de obedecer. Weber classifica este tipo de dominação como sendo estável, uma vez que é baseada em normas que, como foi dito anteriormente, são criadas e modificadas através de um estatuto sancionado corretamente. Ou seja, o poder de autoridade é legalmente assegurado. 35
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Dominação Tradicional: onde a autoridade é, pura e simplesmente, suportada pela existência de uma fidelidade tradicional. O governante é o patriarca ou senhor, os dominados são os súditos e o funcionário é o servidor. O patriarcalismo é o tipo mais puro desta dominação. Presta-se obediência à pessoa por respeito, em virtude da tradição de uma dignidade pessoal que se julga sagrada. Todo o comando se prende intrinsecamente a normas tradicionais (não legais), como um tipo de lei moral. A criação de um novo direito é, em princípio, impossível, em virtude das normas oriundas da tradição. Também é classificado por Weber como sendo uma dominação estável, devido à solidez e estabilidade do meio social, que se acha sob a dependência direta e imediata do aprofundamento da tradição na consciência coletiva. Dominação Carismática: onde a autoridade é suportada graças a uma devoção afetiva por parte dos dominados. Ela assenta sobre as crenças transmitidas por profetas, sobre o reconhecimento que pessoalmente alcançam os heróis e os demagogos, durante as guerras e revoluções, nas ruas e nas tribunas, convertendo a fé e o reconhecimento em deveres invioláveis que lhes são devidos pelos governados. A obediência a uma pessoa se dá devido as suas qualidades pessoais. Não apresenta nenhum procedimento ordenado para a nomeação e substituição. Não há carreiras e não é requerida formação profissional por parte do portador do carisma e de seus ajudantes. Weber coloca que a forma mais pura de dominação carismática é o caráter autoritário e imperativo. Contudo, Weber classifica a Dominação Carismática como sendo instável, pois nada há que assegure a perpetuidade da devoção afetiva ao dominador, por parte dos dominados. FONTE: Adaptado de Weber (1982) Segundo o professor e pesquisador Sell (2002), podemos apresentar os tipos ideais de educação de Max Weber da seguinte forma: Educação carismática: conforme explica Weber, isto significa que eles [os educadores] simplesmente desejavam despertar e testar uma capacidade considerada como um dom de graça exclusivamente pessoal, pois não se pode ensinar nem preparar um carisma (WEBER, 1982, p. 482). Entre os exemplos citados por Weber estão os mágicos (ou feiticeiros) e os heróis guerreiros, Educação especializada: de acordo com a explicação de Weber, trata-se das tentativas especializadas de treinar o aluno para finalidades úteis à administração na organização das autoridades públicas, escritórios, oficinas, laboratórios industriais, exércitos disciplinados (WEBER, 1982, p. 482). Weber esclarece ainda que esse treinamento pode ser realizado com qualquer pessoa. Educação humanística: retomando os termos weberianos temos, que a pedagogia do cultivo finalmente procura educar um tipo de homem, cuja natureza depende do ideal de cultura da respectiva camada decisiva. Isso significa educar um homem para certo comportamento interior e exterior (WEBER, 1982, p. 483). Entre os exemplos citados pelo autor está a camada dos guerreiros no Japão, no qual a educação visará a fazer do aluno um cavalheiro e um cortesão estilizado, que despreza os homens que usam a pena, tal como 36
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO os samurais japoneses os desprezaram (WEBER, 1982, p. 483). Depois dessas definições conceituais, Weber se dirige para a realidade, perguntando-se pelo caráter da educação chinesa: o importante, no caso, é definir a posição da educação chinesa em termos dessas formas (WEBER, 1982, p. 482). O professor e pesquisador Sell (2002) prossegue sua explanação, afirmando que Weber também faz várias referências à educação ocidental, mostrando suas diferenças para com a educação chinesa. Pretendemos interpretar esses fragmentos à luz da teoria weberiana da racionalização. Falando da educação moderna, Weber toma como exemplo o caso da Alemanha, e constata o conflito entre uma concepção humanista de educação uma concepção técnica de educação: Na Alemanha, essa educação [trata-se da educação humanista] foi, até recentemente e de forma quase exclusiva, uma condição preliminar para a carreira oficial que leva a posições de comando na administração civil e militar. Ao mesmo tempo, essa educação humanista marcou os alunos que se preparavam para tais carreiras, como pertencendo socialmente ao estamento culto, porém, trata-se de uma diferença muito importante entre a China e o Ocidente o treinamento racional e especializado foi acrescentado a essa qualificação educacional honorífica, que substituiu em parte (SELL, 2002, p. 483). Portanto, todas as vezes em que discorre sobre a educação ocidental, Weber insiste nas características racionais desta última. Em suma, o processo histórico de desenvolvimento da educação no Ocidente também é o desenraizamento e o multiculturalismo pensado por Weber em termos de um processo de racionalização. Além disso, a vitória da educação técnica sobre a educação humanística na Alemanha também demonstra como a força avassaladora do processo de desencantamento e secularização do mundo atinge todas as esferas da vida social, inclusive a educação. As grandes contribuições de Weber para a Sociologia da Educação: de forma simples, a educação consiste na maneira de preparar os homens para o exercício das funções estabelecidas pela racionalização da vida. A educação sistemática constitui uma série de conteúdos que servem para treinar os indivíduos para operar nessas novas funções racionais, ou seja, a administração burocrática do Estado Moderno. Isso está diretamente ligado ao mundo Ocidental, onde a complexificação da sociedade e o capitalismo geraram uma racionalização da vida social e a educação, portanto, voltou-se para a formação de indivíduos aptos para as funções racionais estabelecidas. A concepção de educação para Weber, nas palavras da professora e pesquisadora Trevisan (2009, p. 35), é de que, a educação humanística e intelectualizante deram espaço à confecção de profissionais capacitados para este mundo racional: diferentemente das ideias de Durkheim, para quem a educação é um processo de preparação do sujeito para constituir sua parte no todo orgânico da sociedade para a harmonia do organismo social. De modo diferente também da teoria de Marx segundo a qual a educação aparece como forma de emancipação do sujeito alienado pelo capitalismo. Weber concebe a 37
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS educação como uma forma de ampliar a estratificação social, de obter dinheiro e poder, de competição entre os indivíduos, como uma ação racional, o que chama de desencantamento. Sobre a racionalidade e a finalidade da Educação, Weber descreve que, conforme seu método analítico da racionalidade, há três tipos (tipos ideais) de finalidade para a educação: despertar o carisma, preparar o aluno para uma conduta de vida e transmitir conhecimento especializado. Vamos dar maior importância aqui ao terceiro caso, ao que Weber chamou de pedagogia do treinamento. Nessa perspectiva, devido à crescente racionalização da vida social e a burocratização do aparato estatal, a educação tem paulatinamente deixado de preparar o indivíduo de uma forma mais humanística em favor de uma preparação mais especializada. Desse modo, Weber expressa seu pessimismo quanto ao rumo da educação como um mecanismo de obtenção de poder, dinheiro, de ascensão social e status (TREVISAN, 2009, p. 35). Podemos observar que Weber via a educação como parte do processo capitalista, da racionalização da vida, ou seja, o fim da possibilidade de formação emancipatória e humanística do ser humano e o início de um processo de educação para o trabalho e o dinheiro. 4 KARL MARX E A EDUCAÇÃO Weber não chegou a presenciar a vitória de nenhuma revolução comunista, mas sua crítica ferrenha ao capitalismo trouxe para muitos rebeldes uma certeza: a mudança era inevitável. Estamos falando de Karl Marx. 38
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO FIGURA 16 KARL HEINRICH MARX FONTE: <https://bit.ly/3yx0oeo>. Acesso em: 20 mar. 2021. Nasceu na cidade de Treves, na Alemanha. Em 1836 matriculou-se na Universidade de Berlim e doutorou-se em filosofia em Iena. Foi redator de uma gazeta liberal em Colônia. Mudou-se em 1842 para Paris, onde conheceu Friedrich Engels, seu companheiro de ideias e publicações por toda a vida. Expulso da França em 1845, foi para Bruxelas participar da recém-fundada Liga dos Comunistas. Em 1848 escreveu com Engels o Manifesto do Partido Comunista, obra fundadora do marxismo enquanto movimento político e social a favor do proletariado. Com o malogro das revoluções sociais de 1848, Marx mudou-se para Londres, onde se dedicou a um grande estudo da economia e da política. Marx foi um dos fundadores da Associação Internacional dos Operários, ou Primeira Internacional. Morreu em 1883, após intensa vida política e intelectual. Suas principais obras foram: A Ideologia Alemã, Miséria da Filosofia, Para a crítica da economia política, A Luta de Classes em França, O Capital (COSTA, 1987). 39
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS NOTA A palavra proletariado deriva de proletário, que tem origem no latim advindo do antigo Império Romano. Os proletários eram os homens sem posses, que tinham seus filhos (sua prole, daí a origem da palavra proletário) como única coisa a oferecer ao Império para que servissem no exército imperial. No século XIX, o termo foi ressignificado. O filósofo e sociólogo alemão Karl Marx utilizou o termo proletariado tal como entendemos hoje: o trabalhador assalariado, pobre, que tende a permanecer nessa condição por causa do pouco que recebe. FONTE: <https://bit.ly/3cxabij>. Acesso em: 22 mar. 2021. Caro acadêmico, é o momento de estudarmos algumas ideias, conceitos e pensamentos de Karl Marx. Alguns conceitos são básicos, tais como: forças de produção, relações de produção, ideologia, infraestrutura, superestrutura, classes sociais, mercadoria, alienação, mais-valia, fetichismo da mercadoria, força de trabalho, valor de troca e valor de uso. A perspectiva de Karl Marx era uma perspectiva de Materialismo Histórico e Dialético, ou seja, de interpretar os acontecimentos históricos como fatores econômicos sociais. O Materialismo Histórico é a parte real da vida, coisas que os seres humanos precisam para sobreviver, bem como capital, trabalho etc., ou seja, a base econômica é o seu fundamento e a produção e reprodução da sociedade capitalista só se realiza porque capitalistas e trabalhadores entram em uma relação de dominação e exploração. NOTA O materialismo dialético é a concepção filosófica do Partido marxista-leninista. Chama-se materialismo dialético porque o seu modo de abordar os fenômenos da natureza, seu método de estudar esses fenômenos e de concebê-los é dialético, e sua interpretação dos fenômenos da natureza, seu modo de focalizá-los e sua teoria, é materialista. O materialismo histórico é a aplicação dos princípios do materialismo dialético ao estudo da vida social, aos fenômenos da vida da sociedade, ao estudo desta e de sua história. FONTE: <https://bit.ly/2uofj76>. Acesso em: 12 maio 2021. 40
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Em seus estudos, Marx relacionou os conceitos de Homem, de Trabalho e de História, o Homem como ser de necessidades, satisfação das necessidades e de produção de bens materiais. O Homem, aqui, é entendido nas suas relações sociais (forma como se comportam, agem e pensam), que são determinadas pela forma de produção da vida material. Produção Material, aqui, se entende a partir de como os indivíduos trabalham e produzem os meios necessários para a sustentação das sociedades. O Trabalho é entendido como ação humana de transformação da natureza. A história humana é a história das relações dos homens com a natureza e dos homens entre si. Para Marx, a história das sociedades que estão baseadas na apropriação privada dos meios de produção confunde-se com a história das lutas de classes. O pensador procura evidenciar os antagonismos de interesses presentes em uma sociedade de classes. O conflito é algo inerente a essa sociedade, já que a relação entre classes está baseada na exploração e na desigualdade social. Apesar das relações de classe não se limitarem somente à polaridade entre detentores dos meios de produção e assalariados, já que existem outras relações como a classe média, por exemplo, esta relação conflituosa é que acaba por permear toda a vida social. Marx distingue dois tipos de classes: classe em si e classe para si. A primeira seria constituída de grupos de pessoas que compartilham de uma mesma situação, a segunda seriam grupos que passam organizar politicamente para defenderem conscientemente seus interesses, formando uma identidade de classe. As condições econômicas transformam primeiro a massa da população do país em trabalhadores. A dominação do capital criou para esta massa uma situação comum, interesses comuns. Assim, pois, esta massa já é uma classe com respeito ao capital, mas ainda não é uma classe para si. Na luta, esta massa se une, se constitui como classe para si. Marx também acredita que por meio da luta de classes é que ocorrem as transformações na sociedade. A luta de classes seria o motor da história e a classe explorada o agente de mudança. A luta de classes irá conduzir à ditadura do proletariado, sendo esta a transição para a abolição de todas as classes e para uma sociedade sem classes (BASSI, 2018, s. p.). QUADRO 15 MAIS-VALIA No sistema capitalista, o trabalhador vende sua força de trabalho como uma mercadoria. Contudo, esta tem características distintas das outras mercadorias. O trabalhador oferece sua força de trabalho e o empregador paga com o salário. Estabelece-se uma ideia de igualdade, segundo a qual os homens são iguais diante da lei, do Estado, do mercado etc., e se veem dessa forma. Contudo, o valor de sua força de trabalho durante o tempo que está produzindo é maior do que seu salário. Esse trabalho excedente é o valor não pago e que integra o capital, transformando-se na riqueza dos dominantes. 41
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Esse trabalho excedente é o que Marx denomina de mais-valia, que se traduz no grau de exploração da força de trabalho pelo capital. O que impede o trabalhador de perceber que existe um excedente de seu trabalho que não é pago é sua situação de alienação. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3g8segu>. Acesso em: 29 jul. 2021. QUADRO 16 MERCADORIA A mercadoria surge como o ponto a priori de Marx, como o pilar fundamental desse sistema que tem como característica fundamental a aquisição de mercadorias em prol da satisfação de necessidades pessoais, sejam elas provindas do estômago (necessidade) ou da mente (desejo), conferindo-lhe assim um caráter universal, comum a todos. Marx apresenta-nos o conceito de mercadoria como sendo algo com duplo caráter, que em essência define-se como Valor de Uso (substância de valor) e Valor de Troca (grandeza de valor). As mercadorias aparecem no mercado de infinitas formas, são produzidas de infinitas maneiras e atendem as mais diversas necessidades. A diversidade de mercadorias é tão grande que é impossível mensurá-las em sua totalidade. Tal diversidade é superada por Marx por meio de uma abstração, pela redução de toda a diversidade de mercadorias existentes para apenas um fator: a utilidade. Uma mercadoria, para ser considerada como tal, precisa antes de tudo ser útil para alguém, possuir seu Valor de Uso, independente de qual seja essa utilidade. No entanto, não é possível mensurar quantitativamente a utilidade de algo, sendo ela intrínseca e subjetiva. É preciso algo que torne as mercadorias comensuráveis entre si, que possibilite a efetivação da troca nos processos mercantis, que demonstre sua objetividade. Para Marx, a 42
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO quantidade de trabalho humano médio despendido na produção de uma mercadoria, abstraído e incorporado nela, é que define seu caráter quantitativo, sua substância de valor, seu Valor de Troca. O Valor de Uso é efetivado apenas durante o consumo e serve como base de sustentação para o Valor de Troca que se realiza. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3cuqbps>. Acesso em: 29 jul. 2021. QUADRO 17 ALIENAÇÃO, FEITICHISMO A partir do conceito de alienação, Karl Marx propôs a tese de que o homem, no contexto do Capitalismo, se aliena com relação ao fruto de seu trabalho e a sua própria essência e espécie. Marx desenvolveu o conceito de alienação em sua obra Manuscritos Econômico-filosóficos ou Manuscritos de Paris (1844), obra que, embora escrita ainda em sua juventude, só veio a ser conhecida por um público maior em 1932. Nas palavras de Sell (2013, p. 48), para Marx, a alienação significa que a exteriorização e objetivação dos bens sociais que resultam do processo de trabalho tornaram-se autônomos e independentes do homem, apresentando-se como realidades estranhas e opostas a ele, como um ser alheio que o domina. Fetichismo da Mercadoria O sistema capitalista sustenta-se graças ao desenvolvimento tecnológico que traz novos e modernos elementos e aumento da produtividade. Esse aumento na produtividade se dá devido ao que Marx chamou de divisão do trabalho social, em que cada qual realiza sua atividade individual abstrata, sua especialidade, sem relação com o produto final. Esse sistema atende aos interesses particulares dos grupos dominantes e muito eventualmente o trabalhador. As decisões a respeito do trabalho do proletário são tomadas pelo empregador. O trabalhador acaba por perder o prazer por seu ofício, como se fosse um apêndice da máquina, e que pode ser facilmente substituído por outro trabalhador que negocie melhor preço por sua força de trabalho. O trabalhador está alienado do produto do seu trabalho. Por uma ironia histórica, as imagens que mais são utilizadas para mostrar os trabalhadores alienados são do filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin. 43
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS O clássico do cinema mudo mostra o Homem como se fosse uma peça da grande engrenagem industrial, um apêndice da máquina. Dentro dos escritos contemporâneos que interpretam as teorias de Marx, o uso das imagens do filme de Chaplin é feito para ilustrar que o produto do trabalhador parece ter surgido independente de seu produtor, como uma espécie de feitiço. As mercadorias no sistema capitalista ocultam as relações sociais de exploração do trabalho. O fetichismo da mercadoria é essa espécie de obscurecimento das percepções, como se a exploração do trabalho não ocorresse e as relações sociais existissem sob a forma de objetos, mercadorias. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3g8segu>. Acesso em: 29 jul. 2021. QUADRO 18 IDEOLOGIA O conceito de ideologia aparece em Marx como equivalente de ilusão, falsa consciência, concepção idealista na qual a realidade é invertida e as ideias aparecem como motor da vida real. Para Marx, os ideólogos promoviam uma subversão entre a realidade e o pensamento, submetendo aquela a este, isto é, invertendo a relação, de modo que os fatos se adequassem às ideias, e não as ideias aos fatos. A Ideologia crítica concebida por Karl Marx, em contraposição aos ideólogos alemães, era uma designação negativa do termo, atribuindo ao termo uma dissociação proposital entre a realidade e as ideias, promovida por uma classe burguesa como forma de obnubilar a apreensão da realidade pelos trabalhadores com o intuito de explorá-los. De acordo com Marx, as ideologias surgem por meio de relações sociais, econômicas e políticas, em contextos de ideias conflitantes, de contradições e contrastes sociais manifestos em desigualdade de recursos, de direitos, de acesso a bens e serviços. Portanto, as ideologias podem ter por finalidade naturalizar conflitos para que eles sejam considerados aceitáveis, na tentativa de normalizar, justificar, amenizar e mesmo ocultar as tensões sociais. Assim, elas contribuem para a manutenção e reprodução de determinado arranjo social, possibilitando que aqueles que, de alguma forma, são prejudicados e poderiam insurgir-se contra ele, enxerguem-no como bom ou como impossível de ser modificado. Marx aponta a ideologia como uma falsa consciência da realidade. Para ele, ela é um instrumento de ocultamento da realidade utilizado pela classe dirigente para sobrepor-se às demais classes com a aquiescência delas. O monopólio da produção intelectual e cultural pela classe dominante permitiu que ela manipulasse, a seu favor, a valoração dos fatos de maneira sistemática. Assim, as suas ideias prevaleceram e foram interiorizadas pelos demais, ainda que para eles colocá-las em prática não representasse os mesmos benefícios. Em síntese, para Marx, a ideologia é a percepção da realidade com base em uma perspectiva sobre ela que vem da classe que tem o monopólio dos meios de produção material e intelectual. A ideologia restringe a compreensão da realidade a uma única visão dos fatos, ou seja, toma um recorte da realidade como se fosse a sua totalidade. Como parte desse mecanismo da classe burguesa de alienar os trabalhadores quanto à sua própria realidade, Marx identifica um processo que ele conceitua como fetichismo, isto é, a dissociação entre a mercadoria e a forma como ela foi produzida. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3m7st3y>. Acesso em: 29 jul. 2021. 44
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO DICAS Para saber mais! O pensamento de Marx iniciou-se como uma crítica aos pensamentos de Hegel. Segundo Marx, os movimentos dialéticos da sociedade se desenvolvem como um resultado das condições materiais da vida dos homens, ou seja, não são as ideias que formam a sociedade, mas as condições materiais dos homens é que produzem as suas ideias e o seu modo de agir na sociedade. Não é a religião que cria o homem, mas o homem que cria a religião, não é a constituição que desenvolve um povo, mas um povo que desenvolve uma constituição. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência. A raiz do homem é o próprio homem em sua condição material, e não em sua condição ideal. A liberdade desse homem não passa pela filosofia, pela teologia ou pela autoconsciência, mas pela sua condição histórica e material. Dessa forma Marx acredita unir a teoria à prática. E a libertação do homem começa pela libertação da sua exploração, e libertá-lo de ser explorado passa pelo fim do capital, pois o capital é a propriedade privada dos produtos do trabalho de outros homens. A propriedade privada não existiu sempre, e nem sempre existirá, sendo uma criação humana e como tal também pode ser modificada ou destruída. O capital é o trabalho expropriado dos trabalhadores, o trabalho alienado dos trabalhadores, surgindo da exploração dos trabalhadores e tornando-se estranho a esses mesmos trabalhadores, pois não lhes pertence mais. Quanto mais o trabalhador é explorado, mais o capital não é reconhecido por ele, da mesma forma que quanto mais o homem põe em Deus, menos conserva de si e para si. O trabalho é vida de trabalhador que se torna objeto, objeto que não lhe pertence, que lhe é alheio, que lhe é alienado. O trabalhador, com seu trabalho, cria objetos que não lhe pertencem mais, assim como a vida, em forma de trabalho colocada nesses objetos, também não lhe pertence mais. A vida do trabalhador torna-se estranha a esse mesmo trabalhador, isso é alienação. FONTE: <https://bit.ly/3yzifwz>. Acesso em: 20 mar. 2021. Como Marx se manifestava com relação à Educação? Nas Instruções aos Delegados do Conselho Central Provisório da AIT, de 1868, Marx assim se manifesta: Afirmamos que a sociedade não pode permitir que pais e patrões empreguem, no trabalho, crianças e adolescentes, a menos que se combine esse trabalho produtivo com a educação. Por educação entendemos três coisas: 1) Educação intelectual. 2) Educação corporal, tal como a que se consegue com os exercícios de ginásticas militares. 3) Educação tecnológica, que recolhe os princípios gerais e de caráter científico de todo o processo de produção e, ao mesmo tempo, inicia as crianças e os adolescentes no manejo de ferramentas elementares dos diversos ramos industriais (MARX; ENGELS, 2006, p. 68). Nas palavras de Marx, a educação relaciona-se com o trabalho. Para Marx, a educação deve estar integrada ao trabalho produtivo desde a infância. Isso não deve ser entendido como apologia à exploração do trabalho infantil. É que para esse filósofo, o homem constrói sua humanidade em sua práxis no mundo, por meio do trabalho. Ao transfor- 45
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS mar o mundo, também se transforma. Pode-se dizer que o trabalho é a categoria fundante da humanização, para Marx, e também um princípio educativo (LOMBARDI, 2008). Nessa perspectiva, a educação associada ao trabalho produtivo, tem a função de reintegrar o trabalho intelectual ao trabalho manual (concepção e execução), separados pela divisão social do trabalho nas sociedades capitalistas. A intenção é que o trabalhador tenha uma compreensão integral do processo produtivo e não esteja alienado do mesmo. Isso também pode ser visto como uma possibilidade de superar a ruptura entre a ciência e o trabalho, típica da produção industrial. Lombardi (2008, p. 11) destaca que a teoria marxista entende que: com o trabalho produtivo, a educação deveria possibilitar o acesso aos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade, em seus aspectos filosófico, científico, literário, intelectual, moral, físico, industrial e cívico (SAUL, 2014, p. 30) Qual a grande contribuição da Educação na visão de Marx para o ser humano? No bojo da filosofia proposta por Marx, a educação está associada ao conceito de omnilateralidade e deve contribuir para o desenvolvimento integral do ser humano, no sentido de promover o acesso à produção de cultura e a construção de saberes. Sobre a referida concepção, Manacorda (1991, p. 81) esclarece que: A omnilateralidade é, portanto, a chegada histórica do homem a uma totalidade de capacidades produtivas e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de capacidades de consumo e prazeres, em que se deve considerar, sobretudo, o gozo daqueles bens espirituais [inclusa a educação], além dos materiais, e dos quais o trabalhador tem estado excluído em consequência da divisão do trabalho. É importante salientar que, para Marx, a educação politécnica caminha lado a lado com a concepção de omnilateralidade. É o próprio desenvolvimento do capitalismo (e suas contradições) que cria bases para a sua implementação. Em consonância desse entendimento, Lombardi (2008, p. 14) aponta que: Os fundamentos dessa educação omnilateral e politécnica eram decorrência da própria transformação da indústria, que constantemente revoluciona as bases técnicas da produção, e com ela, a divisão do trabalho. Articulando o desenvolvimento das forças produtivas com a implementação de transformações nas bases técnicas de produção, cujas dimensões promovem transformações na divisão do trabalho, é que Marx vislumbrou uma educação mais ampla, integral e flexível. Em contraposição à visão capitalista, o marxismo entende que a associação do trabalho à educação politécnica não tem como objetivo principal o aumento da produtividade e do lucro, mas está relacionada à questão do desenvolvimento pleno das capacidades humanas, ou seja, à construção do homem omnilateral (SAUL, 2014). 46
TÓPICO 2 AUTORES CLÁSSICOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO DICAS Para saber mais! Qual a diferença entre socialismo e comunismo? Há várias correntes da teoria marxista. Em uma delas, o socialismo é a etapa de transição inevitável entre o sistema capitalista e o comunista. Este último seria organizado sem divisão de classes sociais e suprimiria até a existência do próprio Estado. Essa sociedade utópica nunca se concretizou, mas países e partidos adotaram as ideias socialistas. Karl Marx (1818-1883) defendia que os trabalhadores se unissem em uma revolução para acabar com o poder da burguesia e a propriedade privada dos meios de produção. O objetivo era instalar um sistema político voltado aos interesses dos trabalhadores (ou proletários, termo do Manifesto do Partido Comunista, de 1848), em que o dinheiro não fosse o foco. No socialismo, o governo controla a produção e a distribuição dos bens. FONTE: <https://bit.ly/3gfbmvj>. Acesso em: 21 mar. 2021. INTERESSANTE A alienação de que fala Marx é consequência do afastamento entre os interesses do trabalhador e aquilo que ele produz. De modo mais amplo, trata-se também do abismo entre o que se aprende apenas para cumprir uma função no sistema de produção e uma formação que realmente ajude o ser humano a exercer suas potencialidades. Você já pensou se a educação, como é praticada a seu redor, procura dar condições ao aluno para que se desenvolva por inteiro ou se responde apenas a objetivos limitados pelas circunstâncias? FONTE: <https://bit.ly/3iykujq>. Acesso em: 23 mar. 2021. 47
RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: A sociedade moderna se caracterizou por símbolos, valores, representações e instituições marcadas por determinadas formas de saber e de poder, ocupantes de uma posição hegemônica. A Idade Moderna pode ser entendida pelas grandes transformações ocorridas no território europeu no período. Foi durante a Idade Moderna que os europeus realizaram as Grandes Navegações e a Expansão Marítima, criando as condições para a dominação de continentes inteiros, como a África e a recém-conhecida América. Outros fatores influenciaram a vida moderna (Capitalismo mercantilista, Grandes Navegações, Renascimento, Iluminismo, Reforma Luterana). De uma vida essencialmente no campo, a Europa passa a viver nas cidades, que nascem com o capitalismo mercantilista e mais tarde com o capitalismo industrial. Sobre a produção do conhecimento, a Idade Moderna é um período de grandes transformações. Essas transformações e o desenvolvimento da ciência moderna levaram o ser humano a questionar os critérios e os métodos usados para aquisição do conhecimento verdadeiro da realidade. No início da Idade Moderna, a Europa ainda tinha como base religiosa a Igreja Católica Apostólica Romana. Esta liderança foi abalada, com um Movimento liderado por um Monge Agostiniano, Martinho Lutero, que criticou as indulgências e certas normas católicas, provocando o Movimento de Reforma Luterana ou Protestante. No aspecto cultural da Idade Moderna podemos destacar o Antropocentrismo e o Renascimento. Durkheim nasceu em Épinal, na Alsácia. Descendente de uma família de rabinos, iniciou seus estudos filosóficos na Escola Normal Superior de Paris, indo depois para Alemanha. Lecionou Sociologia em Bordéus, primeira cátedra dessa ciência na França. Transferiu-se em 1902 para a Sorbonne, para onde levou inúmeros cientistas, entre eles seu sobrinho Marcel Mauss, reunindo-se em um grupo que ficou conhecido como escola sociológica francesa. Morreu em Paris. Foi na cidade de Erfurt que nasceu Max Weber, em uma família de burgueses liberais. Desenvolveu estudos de direito, filosofia, história e sociologia. Iniciou a carreira de professor em Berlim e, em 1895, foi catedrático em Heidelberg. Manteve contato permanente com intelectuais de sua época, como Simmel, 48
Sombart, Tönnies e Georg Lukács. Na política, defendeu ardorosamente seus pontos de vista liberais e parlamentarista e participou da comissão redatora da Constituição da República de Weimar. A dominação é sempre resultado de uma relação social de poder desigual, onde se percebe claramente a existência de um lado que comanda (domina) e outro que obedece. Podemos assemelhar, assim, a dominação a qualquer situação em que indivíduos são subordinados ao poder de outros. No entanto, a dominação se difere das relações de poder em geral por apresentar uma tendência a se estabilizar, a procurar manter-se sem provocar confrontos. Marx nasceu na cidade de Treves, na Alemanha. Em 1836 matriculou-se na Universidade de Berlim e doutorou-se em filosofia em Iena. Foi redator de uma gazeta liberal em Colônia. Mudou-se em 1842 para Paris, onde conheceu Friedrich Engels, seu companheiro de ideias e publicações por toda a vida. Expulso da França em 1845, foi para Bruxelas participar da recém-fundada Liga dos Comunistas. Em 1848 escreveu com Engels o Manifesto do Partido Comunista, obra fundadora do marxismo enquanto movimento político e social a favor do proletariado. A perspectiva de Karl Marx era uma perspectiva de Materialismo Histórico e Dialético, ou seja, interpreta os acontecimentos históricos como fatores econômicos sociais. O Materialismo Histórico é a parte real da vida, coisas que os seres humanos precisam para sobreviver, bem como capital, trabalho etc., ou seja, a base econômica é o seu fundamento e a produção e reprodução da sociedade capitalista só se realiza porque capitalistas e trabalhadores entram em uma relação de dominação e exploração. 49
AUTOATIVIDADE 1 Foi uma das formas encontradas pelos historiadores para se dividir a história da humanidade. Seu recorte temporal inicia-se com a queda do Império Bizantino e a tomada da cidade de Constantinopla pelo Império Turco-Otomano, em 1453. Seu recorte final está delimitado com a Revolução Francesa, em 1789. Esse período ficou conhecido como? a) ( ) Idade Média. b) ( ) Idade Contemporânea. c) ( ) Idade Antiga. d) ( ) Idade Moderna. 2 Os fatos sociais são apresentados por Durkheim como maneiras coletivas de pensar, de sentir e de agir que estão presentes na realidade das sociedades, estando diretamente vinculados aos aspectos morais que regem a vida das pessoas e as relações que estas estabelecem entre si. Valores, costumes, hábitos, regras, leis, normas e estruturas sociais são alguns dos componentes que dão forma aos fatos sociais e, sobretudo, a sua capacidade de influenciar o comportamento dos seres humanos a partir de fatores externos aos próprios indivíduos. Sobre os Fatos Sociais, analise as sentenças a seguir: I- Em primeiro lugar, a generalidade corresponde à capacidade dos fatos sociais exercerem o seu poder de influência sobre a totalidade ou sobre a maioria dos membros de uma sociedade ou grupo social. II- Em segundo lugar, a exterioridade compreende e delimita a existência dos fatos sociais independentemente das vontades pessoais. III- Por fim, a coercitividade representa a condição de coerção social a qual os indivíduos se tornam suscetíveis diante dos fatos sociais, o que permite com que suas estruturas sejam alteradas sem grande capacidade de resistência. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a alternativa I está correta. b) ( ) Somente a alternativa III está correta. c) ( ) Todas as alternativas estão corretas. d) ( ) Somente as alternativas I e II estão corretas. 3 Nasceu na cidade de Treves, na Alemanha. Em 1836 matriculou-se na Universidade de Berlim e doutorou-se em filosofia em Iena. Foi redator de uma gazeta liberal em Colônia. Mudou-se em 1842 para Paris, onde conheceu Friedrich Engels, seu companheiro de ideias e publicações por toda a vida. Expulso da França em 1845 foi para Bruxelas participar da recém-fundada Liga dos Comunistas. Em 1848 escreveu com Engels o Manifesto do Partido Comunista, obra fundadora do marxismo, enquanto movimento político e social a favor do proletariado. Com o malogro das revoluções sociais de 50
1848, Marx mudou-se para Londres, onde se dedicou a um grande estudo da economia e da política. Marx foi um dos fundadores da Associação Internacional dos Operários, ou Primeira Internacional. Morreu em 1883, após intensa vida política e intelectual. Suas principais obras foram: A Ideologia Alemã, Miséria da Filosofia, Para a crítica da economia política, A Luta de Classes em França e O Capital. Sobre o conceito de alienação em Marx, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A partir do conceito de alienação Karl Marx propôs a tese de que o homem, no contexto do Capitalismo, se aliena com relação ao fruto de seu trabalho e a sua própria essência e espécie. b) ( ) O sistema capitalista sustenta-se graças ao desenvolvimento tecnológico que traz novos e modernos elementos e aumento da religiosidade. c) ( ) O conceito de alienação aparece em Marx como equivalente de ilusão, falsa consciência, concepção idealista na qual a realidade é invertida e as ideias aparecem como motor da vida real. d) ( ) Numa de suas frases mais famosas, escrita em 1845, o pensador alemão Karl Marx dizia que, até então, os filósofos haviam alienado o mundo de várias maneiras. "Cabe agora transformá-lo", concluía. 4 A obra "Escola de Atenas é um afresco elaborado pelo artista renascentista Rafael Sanzio, entre os anos de 1506 e 1510; e se encontra disponível ao acesso e à visitação no Palácio Apostólico do Vaticano, em Roma. Trata-se de uma alegoria que mostra um grupo de filósofos e pensadores de várias épocas históricas, que rodeiam Aristóteles e Platão, ilustrando a retomada e continuidade histórica do pensamento filosófico clássico. A obra também é identificada como uma síntese do pensamento renascentista, que rompe drasticamente com as ideologias que predominaram ao longo da Idade Média, destacando o Renascimento comercial, urbano, artístico, bem como as grandes navegações e a reforma religiosa. A partir do contexto do Renascimento, disserte sobre os aspectos que prevaleceram nas mentalidades renascentistas. 5 Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim são considerados e identificados como sociólogos clássicos e seus pressupostos teóricos e metodológicos são revisitados por estudiosos e pesquisadores até os dias atuais. Estes sociólogos viveram e assistiram ao fortalecimento dos ideais Iluministas, da Revolução Francesa, do positivismo, do capitalismo e da sociedade moderna industrial. Foi neste momento que a Sociologia e os Estudos Sociais se consolidaram como conhecimento científico. Diante disto, disserte sobre o contexto econômico e as problemáticas sociais a partir de Marx e Weber. 51
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UNIDADE 1 TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO 1 INTRODUÇÃO Neste tópico estudaremos a questão da pós-modernidade em comparação com o espírito da modernidade, principais características, autores e movimentos dentro dessas duas concepções de sociedade. Para alguns autores, a Revolução Francesa no campo político e dos direitos, aliada à Revolução Industrial no fator econômico, foram os dois grandes acontecimentos que direcionaram a vida das pessoas na Idade Contemporânea e deram os fundamentos para aquilo que podemos denominar do espírito moderno. O pós-modernismo ou a pós-modernidade pode ser percebido a partir das mudanças sociais, culturais, artísticas, filosóficas, científicas e estéticas que surgiram após a segunda guerra. Essas mudanças foram responsáveis por marcantes transformações nas relações travadas entre as crescentes práticas capitalistas, a arte e a cultura. Em seguida, abordaremos dois grandes autores contemporâneos: Pierre Bourdieu e Michel Foucault. Bourdieu foi um dos maiores pensadores das ciências humanas do século XX. Filósofo por formação desenvolveu importantes trabalhos de etnologia, no campo da antropologia, e conceitos de profunda relevância no campo da sociologia, como habitus, campo e capital social. Já Foucault foi um intelectual que exerceu uma ação e influência consideráveis em vários ramos do saber: na filosofia, na psiquiatria, na psicologia, na história, na sociologia, na antropologia, nas artes e na política e a relação deles com a educação. Por último, apresentaremos Zygmunt Bauman, um sociólogo, pensador, professor e escritor polonês, uma das vozes mais críticas da sociedade contemporânea. Criou a expressão Modernidade Líquida para classificar a fluidez do mundo onde os indivíduos não possuem mais padrão de referência e como ele apresenta a educação nesses tempos ditos pós-modernos. 53
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS 2 SOCIOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE No período Contemporâneo, até próximo ao início do século XXI, a Sociedade apresentava as seguintes principais características: Relação principal: no início do século XX, Governo e o cidadão e após a segunda guerra mundial, o Empresário e o consumidor. Divisão social: ampliou a divisão de classes sociais. Economia ou modo de produzir as coisas: após o capitalismo industrial, no início do século XX, fortaleceu o Socialismo e após a segunda guerra mundial, o Capitalismo Financeiro e depois o Informacional. Leis e os códigos de conduta social: do direito do Homem, ampliou-se para os Direitos Sociais, Étnicos, Ambientais, Culturais, Gênero, entre outros. Visão de mundo, religião, educação, conhecimento, meio ambiente e cultura: educação vista como direito humano. Após a segunda guerra mundial, a preocupação com uma agenda ambiental preservacionista. Crescimento do Ateísmo e diversidade religiosa. A cultura do consumir e materialidade. Predomínio do Neoliberalismo. O período conhecido como Idade Contemporânea inicia por volta de 1789, com um dos acontecimentos políticos que muito influenciou a vida em sociedade, no primeiro momento no contexto europeu e, com o passar do tempo, no contexto global. Esse acontecimento somado aos seguintes: Revolução Industrial, Capitalismo Industrial, Financeiro, Informacional, Revolução Russa, duas grandes guerras mundiais, crise de 1929, Movimentos de contestações sociais, entre outros, caracterizaram a vida humana sobretudo em uma forma dinâmica e de extremos. Em 1789 inicia-se a Revolução Francesa, movimento que buscava o fim da organização política, social e econômica vigente na época (a Monarquia), que oferecia privilégios a pequenas parcelas da população e concedia poucos direitos ao povo. Algumas causas foram vitais para que o acontecimento prosperasse, tais como: absolutismo de Luís XVI; dívidas da corte; dívida externa; Tratado de Éden-Reynevall; exploração do campesinato; Guerra dos Sete Anos (1757-63); Independência dos EUA (1776-1781); e a grande fome (1787-1789). Para alguns autores, a Revolução Francesa no campo político e dos direitos, aliada à Revolução Industrial no campo econômico, foram os dois grandes acontecimentos que direcionaram a vida das pessoas na Idade Contemporânea e deram os fundamentos para aquilo que podemos denominar de espírito moderno. 54
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO FIGURA 17 REVOLUÇÃO FRANCESA FONTE: <https://bit.ly/3ikhptj>. Acesso em: 12 jan. 2021. Podemos afirmar que a Revolução Francesa é o acontecimento que inaugura a Idade Contemporânea e institui novas perspectivas políticas que até hoje exercem efeitos no mundo ocidental A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, sem dúvida, foi o documento mais importante, que promovia e influenciava outros documentos sobre o pensar o ser humano acima do poder particular em qualquer esfera e sobre a perspectiva que se iniciou a Revolução Francesa, que desejava dar todo o poder ao povo, um ideal a ser conquistado por todas as nações, por todos os povos. A própria reflexão em torno da liberdade em seu sentido pleno viria influenciar povos, nações e gerações. Nesse sentido, a visão de mundo e a forma de vida no planeta seriam influenciadas após esse acontecimento. Outro acontecimento importante ocorrido já no século XX é a Revolução Russa em 1917. A construção do Estado soviético pelos membros do partido bolchevique resultou em uma mudança das formas de desenvolvimento econômico, político, religioso e cultural. Esse processo de transformação social na Rússia posteriormente seria espalhado pelo resto do mundo. A Rússia no século XIX tinha sua economia baseada na agricultura (sistema feudal Russo). Os senhores feudais Russos não admitiam a modernização produtiva e econômica. Por se tratar de um Império, o país, em sua totalidade, estava submetido às decisões do Czar (Imperador), que tinha a mentalidade absolutista e governava as alianças com foco em lucros e interesses pessoais. Os senhores feudais eram fiéis aos interesses do Czar. 55
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS NOTA CZAR czar [tzar] sm Título que se dava ao imperador da Rússia, antes da Revolução de 1917. Informações complementares: var. tzar. Informações complementares: fem.: czarina. Etimologia: russo car, via fr. FONTE: <https://bit.ly/3z0wd13>. Acesso em: 3 ago. 2021. NOTA Igreja Católica Apostólica Ortodoxa. Significado de Ortodoxo. A palavra ortodoxo vem do grego, da junção de orthos que significa reto e doxa que significa fé. Por isso, o cristianismo ortodoxo acredita que eles sejam os únicos depositários da verdadeira fé. A Igreja Católica Apostólica Ortodoxa foi fruto de um desmembramento da Igreja Católica Apostólica Romana surgida após o Cisma do Oriente em 1054. Ocidente e Oriente disputavam questões teológicas como a supremacia do Bispo de Roma sobre o clero, a questão da veneração de imagens e a procedência do Espirito Santo. Sem chegarem a um acordo, o Papa Leão IX (1002-1054) e o Patriarca Miguel I Cerulario (1000-1059) se excomungaram mutuamente. A partir de então, o cristianismo passa a se constituir em dois grandes grupos: a Igreja Católica Apostólica Romana, com sede em Roma e a Igreja Ortodoxa, com sede em Constantinopla (atual Istambul). FONTE: <https://www.todamateria.com.br/igreja-ortodoxa/>. Acesso em: 3 ago. 2021. Como esse cenário começou a mudar? Próximo ao século XIX, a Rússia entrou em Guerra contra Inglaterra, França e Turquia. Por se encontrarem em um nível atrasado de industrialização, acabaram perdendo e forçando o czar Alexandre II a tomar uma série de providências. Com isso, a servidão foi abolida, as terras foram vendidas aos camponeses e novas áreas 56
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO agrícolas foram ocupadas. De acordo com Morais (2019), essas medidas levaram a um crescimento importante da Rússia, que passou a se tornar um dos principais países exportadores de grãos. O Império precisou, finalmente, investir no processo de industrialização. Isso levou à criação de várias fábricas estrangeiras na Rússia, resultando nas maiores taxas de crescimento entre os países europeus nas últimas duas décadas do século XIX. Em 1904, a Rússia entrou novamente em uma guerra, dessa vez contra o Japão. Como todo conflito, resultou em graves consequências para o povo russo, desorganizando a economia e refletindo negativamente na vida dos camponeses e operários. A derrota para os japoneses também fez com que os ânimos se acirrassem, elevando ainda mais a insatisfação contra o Czar. QUADRO 19 COMO FOI INSTALADA A REVOLUÇÃO RUSSA Em uma manifestação popular por melhores condições de vida e pela instalação de um parlamento, o czar respondeu com um massacre, matando várias pessoas em um conflito que é considerado o marco inicial da Revolução Russa. Como não poderia deixar de ser, o resultado foi uma insatisfação ainda maior da população. Apesar disso, o imperador fez algumas concessões a fim de se evitarem novos conflitos, como a criação do parlamento de Duma. Entre os anos de 1907 e 1914, a Rússia encontrou um ambiente relativamente ameno, com a volta do crescimento econômico e a distribuição de terras aos camponeses. Contudo, ao longo do tempo, a oposição começou a ganhar bastante força, principalmente com o lado socialista baseado nas ideias de Karl Marx. Nesse sentido, a ideia era que os problemas somente acabariam com a abolição do capitalismo e a consequente implantação do comunismo. Divididos em dois grupos distintos, os comunistas tinham ideias mais radicais (bolcheviques, liderados por Lenin) e moderadas (mencheviques). Com o estouro da Primeira Guerra Mundial, em 1914, várias consequências recaíram sobre a Rússia, como a desorganização econômica, a fome e a pobreza, os protestos contra o império e, finalmente, a renúncia por parte do czar, em 1917. A queda do imperador fez com que um cenário de disputa surgisse, de modo que o governo provisório, ocupado pela burguesia, adotasse algumas medidas que iam desde a anistia para presos políticos até a redução da jornada de trabalho para oito horas. Apesar disso, os camponeses, que queriam terras, e os operários, que buscavam melhores salários, continuavam insatisfeitos. Em um contexto de grande disputa política, os bolcheviques passaram a ocupar o cargo de porta-voz da oposição. Esse cenário também favoreceu o surgimento dos sovietes, grupos políticos que nasceram no meio das camadas populares. Dessa forma, era possível encontrar sovietes oriundos de grupos de camponeses, operários e até mesmo soldados. Em um crescente cenário de insatisfação popular, que se acumulava desde o período imperial até as decisões burguesas tomadas pelo governo provisório, os grupos sovietes e bolcheviques eram vistos como a solução. Assim, apoiado por essas camadas da população e, em conjunto com uma milícia popular, Lênin conquista a capital, forçando a renúncia do poder provisório e assumindo o governo em 1917. Agora no poder, Lênin busca a realização e a implantação de uma sociedade igualitária e libertária. Dessa forma, várias medidas foram tomadas, como: 57
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS desapropriação das terras de burgueses e da Igreja; distribuição dessas terras aos camponeses; estatização dos meios de produção (fábricas, lojas, bancos etc.). FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3ikj3nz>. Acesso em: 29 jul. 2021. A Revolução Russa é um dos Movimentos Políticos, Econômicos e Sociais mais importantes do Século XX. Suas repercussões se desenvolveram em diversas partes do mundo até os dias atuais, influenciando governos, partidos, movimentos sociais e a própria forma de se fazer política e economia. A Idade Contemporânea viveu também duas grandes Guerras Mundiais. A Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918, foi considerada por muitos de seus contemporâneos como a mais terrível das guerras. Por este motivo, tornou-se conhecida durante muito tempo como A Grande Guerra. E a Segunda Guerra Mundial foi o maior conflito da humanidade, acontecendo de 1939 a 1945, em diferentes locais da Oceania, Ásia, África e Europa. Esse conflito foi travado entre os Aliados (Reino Unido, França, EUA, URSS etc.) e o Eixo (Itália, Alemanha, Japão etc.) e teve como consequências a morte de, aproximadamente, 60 milhões de pessoas e uma destruição material significativa. Na década de 1960 aconteceram diversos Movimentos em termos Mundiais que buscavam a formas de vida mais simples ou até mesmo mais ecológicas. Movimentos de reivindicações foram realizados em diversas partes do mundo. Movimento Feminista, Movimento Negro, Movimento de liberação gay (marco do Movimento LGBTTTS: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), Movimento Ecológico/ambiental, entre outros. Neste momento, vamos destacar o Movimento Hippie e o Maio de 1968. Uma ideia que foi ganhando espaço de debate em termos mundiais foi a preservação ambiental. O Movimento Ambiental ou ecológico, a partir da sensibilização da sociedade em razão do uso irracional dos recursos naturais e dos impactos ambientais gerados pela ação humana, passou a destacar o conceito de crescimento sustentável, que se colocou como uma alternativa que promove a interdependência entre economia, meio ambiente e sociedade. Confira no quadro a seguir a origem desse movimento e o seu conceito. 58
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO QUADRO 20 MOVIMENTO AMBIENTAL A WWF (O Fundo para a Vida Selvagem), a primeira ONG ambiental de espectro verdadeiramente ambiental, foi criada em 1961. O assunto ganhou corpo com a publicação de Silent Spring (Primavera Silenciosa), o famoso livro de Rachel Carlson, que chamou atenção para a degradação ambiental. Já nos anos 1970, Leis e D Amato afirmam que o ambientalismo não governamental se institucionaliza nas sociedades americana e europeia. A década de 1970 foi marcada pelas críticas contundentes contra a industrialização, feitas pelo movimento ambiental, que começou a se consolidar. É justamente nesta época que a questão ganhou relevância e passou a ser pautada pelos órgãos nacionais e internacionais. Em 1971, o 1º relatório do Clube de Roma alertou para os limites do planeta e vinculou o crescimento da população ao uso abundante de recursos naturais, em um debate malthusiano. A primeira Conferência Internacional para debater o Meio Ambiente Humano foi realizada no ano seguinte, em Estocolmo, e buscava soluções técnicas para os problemas ambientais. Na mesma década, foi fundada no Canadá a maior e ainda mais conhecida organização não governamental ambientalista o Greenpeace, caracterizado por suas ações estratégicas e amplos protestos para mobilizar a opinião pública. A ONG expandiu-se oficialmente em 39 países. Aqui no Brasil, um pouco mais tarde, em 1986, foi formada uma das organizações ambientais mais representativas, a SOS Mata Atlântica, que tem como principal objetivo preservar as áreas remanescentes da Mata Atlântica e valorizar a identidade física e cultural da região. Atualmente, segundo o CNEA (Cadastro Nacional de Entidades Ambientalistas), registro vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, o Brasil conta com 463 ONGs de cunho ambientalista. Isso sem contar organizações não legalmente estabelecidas ou que por eventuais razões, não constam no cadastro oficial. Em sua fase fundacional, os movimentos ambientais se restringiram a combater a poluição e a apoiar a preservação de recursos naturais, sem aliar a temática social, mas a década de 1980 revelou outros desafios, como a superação da pobreza, a participação e o controle social do desenvolvimento. Em 1987, foi criada a Comissão de Brundtland (presidida pela primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland) e surge a expressão desenvolvimento sustentável, como o desenvolvimento que corresponde às necessidades presentes, sem comprometer o desenvolvimento das futuras gerações. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3k3djdi>. Acesso em: 29 jul. 2021. Para a vida em sociedade, o conceito de desenvolvimento sustentável remete, dessa maneira, à importância de três princípios para a sua efetivação: os princípios econômicos, ambientais e sociais. Essas ações remetem ainda ao conceito de sustentabilidade, que está ligada à promoção de ações que oferecem sustentação para o crescimento econômico, a preservação ambiental e a redução da desigualdade social. Dois acontecimentos, o Movimento Hippie e Maio de 1968, mudaram a forma de ser e existir da humanidade. Após as duas grandes guerras, a população muda sua forma de vida. 59
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS QUADRO 21 MOVIMENTO HIPPIE Na década de 1960, o movimento hippie apareceu disposto a oferecer uma visão de mundo inovadora e distante dos vigentes ditames da sociedade capitalista. Na maioria jovens, os hippies abandonavam suas famílias e o conforto de seu lar para se entregarem a uma vida regada por sons, drogas alucinógenas e a busca por outros padrões de comportamento. Ao longo do tempo, ficariam conhecidos como a geração da paz e amor. Ao longo da década de 1960, junto do movimento negro, os integrantes dessa geração discutiram questões políticas de grande relevância e se organizaram para levar a público uma opinião sobre diversos acontecimentos contemporâneos. Conseguindo mobilizar uma enorme quantidade de pessoas, os hippies lutaram pela ampliação dos direitos civis e o fim das guerras que aconteciam naquele momento. Em várias situações, a influência das autoridades sob os meios de comunicação acobertava a discussão que se desenvolvia, para assim reforçar os comportamentos marginais dos hippies. Não raro, a força policial era acionada para que esses desordeiros fossem retirados do espaço público. Entre os grandes confrontos do movimento hippie, podemos destacar a mobilização feita na Convenção Nacional Democrata, ocorrida entre os dias 26 e 29 de agosto de 1968, na cidade de Chicago. Sob a liderança de Abbie Hoffman e Jerry Rubin, a chamada Festa da Vida contou com vários episódios em que o cenário político norte-americano era criticado. Entre tantas outras ações de deboche, os hippies lançaram um porco (chamado de Pigasus ) como candidato a presidente dos EUA. FONTE: <https://bit.ly/3kli0nv>. Acesso em: 29 jul. 2021. Com o desenvolvimento do movimento hippie mundo afora, o Brasil rapidamente teve contato com os ideais de contracultura e de rebeldia. Houve adesão dos estudantes e artistas buscaram o rock n roll como referência, utilizaram roupas coloridas e tentavam romper com o comportamento social e cultural dominantes. Vivendo durante a Ditadura Militar, os jovens do Brasil também tinham os objetivos de igualdade de direitos, liberdade de comportamento, fim do machismo e das arbitrariedades dos governos militares. Muitos artistas e estudantes foram perseguidos, presos e até mortos por divulgarem ideais que eram considerados rebeldes. Vamos retratar agora o mês de maio de 1968, sua origem e consequências para a vida humana. 60
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO QUADRO 22 MAIO DE 1968 Maio de 1968 ficou marcado na história mundial como o mês em que estudantes demonstraram sua intenção de transformar o mundo. Influenciados por ideais anarquistas e marxistas, os estudantes franceses iniciaram protestos contra o sistema educacional francês e contra a sociedade capitalista da França. Contando com o apoio dos trabalhadores, esses jovens pararam a França e marcaram gerações de pessoas. Os protestos contra a Guerra do Vietnã; o debate por transformações significativas no combate ao racismo; a Tchecoslováquia era agitada por um reformismo que procurava democratizar o socialismo no país; na Alemanha, protestos estudantis aconteciam em Berlim; e aqui no Brasil, lutava-se contra a ditadura. Embora as mobilizações estudantis tivessem sido influenciadas por acontecimentos globais, havia também problemas relacionados à própria sociedade francesa que serviram de catalisadores. Entre os fatores estavam a insatisfação pelo desemprego e com o sistema educacional francês, além do descontentamento com o governo de De Gaulle, em geral. O protesto dos estudantes em Nanterre foi encerrado após a chegada da polícia, convocada pela própria administração da cidade. Novos protestos seguiram acontecendo nos meses de março e abril, e a ação policial era baseada na truculência, o que indignava os estudantes. Os protestos, no entanto, continuaram. Em dois de maio, a administração da universidade em Nanterre decidiu autorizar o fechamento do campus e ameaçou expulsar os estudantes que participavam dos protestos. No dia seguinte, três de maio, os estudantes de Nanterre começaram a contar com o apoio dos estudantes do campus da Universidade de Sorbonne, em Paris. Nesse dia, os confrontos entre policiais e estudantes foram violentos. A polícia incendiava carros para incriminá-los e usava da violência para dispersá-los, e os estudantes respondiam construindo barricadas para impedir o avanço policial e lançando paralelepípedos nas forças de polícia. Novas pautas foram adicionadas às reivindicações estudantis, como o fim da separação de gêneros nos alojamentos. A força do movimento foi crescendo, pois a violência policial fez com que ele passasse a contar com o apoio de outras classes, principalmente a dos trabalhadores. Os sindicatos decidiram convocar greve geral na França. Estima-se que, nesse mês de maio, cerca de 10 milhões de trabalhadores estiveram em greve no território francês. Em muitos lugares, eles ocuparam as fábricas e assumiram o controle da produção. A adesão dos trabalhadores aos protestos estudantis forçou o governo do presidente De Gaulle a negociar. Governo, representantes dos sindicatos e empresários sentaram-se à mesa para debater condições para que os trabalhadores voltassem ao trabalho. As negociações estenderam-se por todo o mês de maio, e, ao final, chegou-se aos Acordos de Grenelle. Os trabalhadores ganharam uma série de benefícios, como aumentos salariais e redução na jornada de trabalho, e os sindicatos ganharam maior liberdade para organizar-se. Parte dos trabalhadores decidiu retomar os trabalhos, mas outra parte considerou que as concessões realizadas não eram suficientes. Charles De Gaulle decidiu usar a violência policial contra os trabalhadores. 61
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Enquanto o governo negociava com os trabalhadores, os estudantes seguiam firmes na sua mobilização. Dezenas de barricadas foram construídas nas ruas de Paris, e os estudantes, além dos protestos, engajaram-se em produzir cartazes que manifestavam suas intenções e insatisfações. Mensagens contra o capitalismo e contra o governo De Gaulle eram comuns. Uma das expressões mais populares desse período foi é proibido proibir, uma mensagem clara contra os padrões da sociedade francesa, enxergados pelos estudantes como conservadores. O ímpeto dos protestos seguiu-se durante o mês de maio, mas perderam força no final dele. A decisão de parte dos trabalhadores de retornarem ao trabalho também enfraqueceu a mobilização. A repressão de De Gaulle e uma reação conservadora de parte da sociedade francesa também foram fatores que desarticularam os estudantes. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3xvoosb>. Acesso em: 11 ago. 2021. Em certo sentido, Maio de 1968 tornou-se um símbolo da mobilização estudantil e influenciou gerações no mundo, mas, no final, não foi a revolução que muitos enxergavam, principalmente porque não houve apoio político consistente para as causas estudantis. Vamos retornar a outro acontecimento que marcou o Espírito Moderno no Mundo e influenciou a vida na Idade Contemporânea. A Revolução industrial foi um conjunto de mudanças que aconteceram na Europa nos séculos XVIII e XIX. A principal particularidade dessa revolução foi a substituição do trabalho artesanal pelo assalariado e com o uso das máquinas. A principal característica da Revolução Industrial foi a criação do sistema fabril mecanizado, isto é, as fábricas passaram da simples produção manufaturada para a complexa substituição do trabalho manual por máquinas. Essa substituição implicou na aceleração da produção de mercadorias, que passaram a ser produzidas em larga escala. Essa produção em larga escala, por sua vez, exigiu uma demanda cada vez mais alta por matéria-prima, mão de obra especializada para as fábricas e mercado consumidor. Tal exigência implicou, por sua vez, também na aceleração dos meios de transporte de pessoas e mercadorias. Era necessário o encurtamento do tempo que se percorria de uma região à outra para escoar os produtos. 62
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO FIGURA 18 REVOLUÇÃO INDUSTRIAL FONTE: <https://bit.ly/3sqbl5m>. Acesso em: 20 mar. 2021. Confira no Quadro a seguir algumas das consequências da Revolução Industrial: O desenvolvimento tecnológico acelerado, que caracterizou uma sucessão de etapas evolutivas, como a Segunda Revolução Industrial (desenvolvida no século XIX, seu principal aspecto foi a criação dos motores de combustão interna movidos a combustíveis derivados do petróleo) e a Terceira Revolução Industrial (desenvolvida no século XX e ainda em expansão, seu aspecto principal são os ramos da microeletrônica, engenharia genética, nanotecnologia, entre outros). QUADRO 23 CONSEQUÊNCIAS A formação da sociedade de massas constituiu também uma das consequências da Revolução Industrial, haja vista que o crescimento das cidades e a grande quantidade de trabalhadores (que formaram a classe operária) que passaram a habitar os centros urbanos geraram as massas, isto é, o grande fluxo de pessoas em uma só região. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3g8cbnf>. Acesso em: 21 jan. 2021 Na segunda metade do século XIX, o capitalismo proporcionou a integração econômica mundial, favorecendo assim, principalmente, as nações que haviam começado seu processo de industrialização. Essas mesmas nações expandiram significativamente seu território em direção a outros continentes, sobretudo o Asiático, o Africano e a Oceania. A Idade contemporânea conheceu três etapas do Capitalismo, conforme exposto a seguir: 63
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS QUADRO 24 CAPITALISMO INDUSTRIAL Segunda fase do sistema capitalista: Capitalismo Industrial (Século XVIII XIX) A passagem do capitalismo comercial para o capitalismo industrial se deu em meio às revoluções tecnológicas e políticas. A Revolução Industrial se inicia na Inglaterra, em 1760, e tem como seu marco principal a introdução da máquina a vapor na produção, o que deu início à transição de uma produção manufatureira para uma produção industrial. A produção industrial tornava-se necessária, pois com o crescimento demográfico e expansão das cidades era necessário que os produtos fossem criados e distribuídos com mais eficiência e escala. As revoluções também tiveram um caráter político. Em 1789, inicia-se a Revolução Francesa, movimento que buscava o fim da organização política, social e econômica vigente na época; que oferecia privilégios a pequenas parcelas da população e concedia poucos direitos ao povo. Nessa fase do capitalismo, o poder passou para as mãos da burguesia, que começou a crescer com a intensificação do comércio. A economia durante o período do capitalismo industrial estava baseada no liberalismo econômico. Essa corrente de pensamento cujo principal pensador foi Adam Smith defendia o Estado mínimo e a não intervenção estatal na economia. Segundo seus defensores, a lei de oferta e procura e a competição do mercado, garantiriam melhores resultados para a sociedade como um todo. O modo de produção vigente nos séculos de capitalismo industrial permitiram o aumento da produtividade, a diminuição dos valores das mercadorias e a acumulação de capital; por outro lado, esses avanços só foram possíveis a partir de condições precárias de trabalho, jornadas de trabalho muito altas, diminuição dos salários e aumento do desemprego. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3iso2b6>. Acesso em: 29 jul. 2021. QUADRO 25 CAPITALISMO FINANCEIRO Terceira fase do sistema capitalista: Capitalismo Financeiro (Século XX) O capitalismo financeiro se inicia no século XX, depois do final da Segunda Guerra Mundial. Essa nova fase tem seu início quando bancos e empresas se unem para obter maiores lucros. É nesse momento que surgem as empresas multinacionais e transnacionais, e se fortalecem as práticas monopolistas. Esse modelo, vigente até hoje, é baseado nas leis das instituições financeiras e dos grandes grupos empresariais presentes no mundo todo. É um período caracterizado por elevada concorrência internacional, monopólio comercial, evolução tecnológica, globalização e elevadas taxas de urbanização. É chamado de capitalismo financeiro, pois as grandes empresas passaram a vender parcelas de seu capital na bolsa de valores, e a partir de então, passou-se a produzir riqueza por especulação. Nesse momento, a acumulação do capital chegou a níveis nunca vistos antes. 64
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Em decorrência das políticas liberais, em 1929, o sistema capitalista vive uma das piores crises econômicas da história. Por conta de uma produção em excesso nos Estados Unidos e da redução da demanda por produtos desse país, as empresas perderam valor e houve a quebra da bolsa de valores. Para salvar o mercado, o Estado teve que intervir na economia e a partir de então se adotou o sistema econômico Keynesiano, que defendia a intervenção do Estado na economia para evitar crises e garantir o consumo e o emprego. Esse sistema é também chamado de Welfare State, ou Estado de bem-estar social. A partir dos anos 1980, o keynesianismo perde forças e a ideia de Estado mínimo e pouca participação estatal na economia retorna. Assim como os liberais, os defensores do neoliberalismo defendem que as próprias regras do mercado vão garantir o crescimento econômico e o desenvolvimento social. O neoliberalismo foi implantado no Brasil e em diversos países da América Latina, seguindo as proposições do que se estabeleceu no Consenso de Washington uma proposta neoliberal para o desenvolvimento dos países da região. Guerra Fria e a vitória do sistema capitalista Apesar de ser adotada em grande parte do mundo hoje, a hegemonia do sistema capitalista esteve em disputa durante décadas após a Segunda Guerra Mundial. O outro sistema econômico era o comunismo, que defendia o fim da propriedade privada em prol da construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Ao longo do conflito, Estados Unidos defensor do capitalismo e União Soviética defensora do comunismo disputavam a hegemonia mundial e buscavam o apoio de outros países para fortalecer seu posicionamento ideológico. Foi chamada Guerra Fria, pois não houve embate militar direto entre esses dois países, era um conflito ideológico sustentado por uma guerra armamentista. Ambos os países foram investindo em materiais e tecnologias bélicas e o equilíbrio entre essas forças foi o que impediu que ataques entre eles de fato acontecessem. Com o final da Guerra Fria e a vitória do capitalismo como sistema hegemônico, grande parte dos países que estavam do lado da União Soviética começaram a implementar o capitalismo. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3iso2b6>. Acesso em: 29 jul. 2021. 65
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS FIGURA 20 CAPITALISMO FINANCEIRO FONTE: <https://bit.ly/3iwaiy4>. Acesso em: 21 fev. 2021. QUADRO 26 CAPITALISMO INFORMACIONAL Para alguns estudiosos da economia, o Capitalismo Informacional não é uma nova fase do capitalismo, mas um novo momento da fase do capitalismo financeiro. O conceito de capitalismo informacional foi discutido pela primeira vez por Manuel Castells, em seu livro Sociedade em rede, publicado em 1996 e está relacionado à revolução tecnológica dos últimos tempos. O capitalismo informacional é caracterizado pela globalização e pelos avanços nas tecnologias de informação, na aceleração e crescimento dos fluxos de informações, pessoas, capitais e mercadorias. Segundo esse autor, essas transformações tecnológicas mudam nossas práticas culturais e sociais e constroem uma nova estrutura social. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3iso2b6>. Acesso em: 29 jul. 2021. 66
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Entende-se por moderno o período histórico que começou no Iluminismo e se desenvolveu até a metade do século XX, aproximadamente. A modernidade é caracterizada pela crença na ciência, além da razão e do progresso como guias da humanidade. Esses princípios deixaram de ser referências intelectuais, sociais e artísticas, a partir do momento que a realidade mostrou um resultado decepcionante: os valores da modernidade. O ideal da modernidade havia fracassado e assim se inicia uma nova era: a pós-modernidade A modernidade construiu-se em meio aos conflitos ideológicos da razão objetiva instrumental, utilizada como ferramenta de abordagem de questões do pensamento humano e de sua realidade. Assim, o pensamento tradicional, ligado ao pensamento teológico e religioso, foi progressivamente abandonado. Max Weber referiu-se a esse fenômeno como o processo de desencantamento do mundo, no qual o sujeito moderno passou a despir-se de costumes e crenças baseados em tradições aprendidas que se apoiavam nos pilares fixos das religiões. Explicações e questionamentos baseados na utilização da razão instrumental quebraram noções preconcebidas e ancoradas no núcleo religioso. Todavia, foi apenas nos séculos XIX e XX que esse fenômeno tomou as dimensões que vemos hoje. A era moderna, diante dos conflitos cada vez mais globais, foi marcada pela segregação de classes, indivíduos e, principalmente, de nações. Como se desenvolveu o espírito moderno? QUADRO 27 ESPÍRITO MODERNO A modernidade está, portanto, associada, nos séculos XVII e XVIII, a uma visão eufórica do progresso, considerando-a como a inauguração de uma época de desenvolvimento técnico ilimitado. Os instrumentos são ainda considerados como aperfeiçoamentos da percepção do mundo e os utensílios destinam-se a ajudar o gesto humano, na modelagem dos objetos naturais. No entanto, à medida que foi integrando conhecimentos científicos mais elaborados, a técnica foi adquirindo cada vez maior autonomia com relação à percepção e aos gestos humanos. É esse processo que conduzirá ao maquinismo industrial, a partir da segunda metade do século XIX, e ao aparecimento de uma relação cada vez mais problemática e conflitual com a técnica. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o domínio da técnica adquiriu uma autonomia até agora inimaginável, ao converter-se em sistema, acarretando consequências para a própria experiência do mundo que ainda estamos longe de poder avaliar com rigor. Em todo o caso, essas transformações estão associadas ao atual processo de globalização, não só no domínio económico, mas sobretudo nos domínios político, ético e estético, anunciando-se, desse modo, novas oportunidades, mas também novos riscos. O ideal revolucionário é outra das características constantes da modernidade. Em contraste com os valores de estabilidade que caracterizam a experiência tradicional, a modernidade promove valores de ruptura e de mudança constante. 67
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS A experiência moderna está também associada à emergência do sujeito, no sentido ambivalente desse termo, entendido, por um lado, como instância soberana, de autonomia e emancipação e, por outro lado, como processo de sujeição ao imperativo do novo e da mudança. Dessa duplicidade, retira o sujeito moderno uma consciência dilacerada ou clivada. A modernidade promove a procura de princípios explicativos racionais para os fenômenos da natureza e da cultura e de normas racionalmente fundadas para a política, para a ética e para a estética. A nossa época caracteriza-se pela consciência aguda do esgotamento dos projetos, romântico e futurista, da modernidade e pela consequente indiferença perante os valores e as normas que os movimentos de vanguarda procuraram instaurar, ao longo do seu processo de implantação. Essa consciência da crise da modernidade pode ser entendida como o retorno do recalcado: através das atuais manifestações da pós-modernidade vislumbram-se as próprias formas tradicionais que retornam, por vezes, de maneira nostálgica. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/37uutzo>. Acesso em: 29 jul. 2021. No início do Século XXI, a sociedade começa a apresentar as seguintes características. Relação principal: blocos econômicos e atores políticos, ONGs, virtualidade? A divisão social: classes sociais concretas e classes sociais virtuais? Economia ou modo de produzir as coisas: Capitalismo Virtual, Socialismo Virtual? As leis e os códigos de condutas sociais: ênfase nas condições humanas voltadas para o mundo virtual? A visão de mundo, religião, educação, conhecimento, meio ambiente e cultura: virtualidade e desconstruções, fragmentações? Você deve se perguntar sobre as interrogações nesse último período apresentado, não é mesmo? Veja, ainda não passamos esse período, estamos vivendo e fazendo ou criando a história, somos protagonistas neste enredo. Como serão as características deste período? Somente o futuro dirá ao certo. De nossa parte, podemos refletir e pesquisar. O pós-modernismo ou a pós-modernidade pode ser percebido a partir das mudanças sociais, culturais, artísticas, filosóficas, científicas e estéticas que surgiram após a segunda guerra. Essas mudanças foram responsáveis por marcantes transformações nas relações travadas entre as crescentes práticas capitalistas, a arte e a cultura. Por conta das transformações ligadas à cultura e as relações capitalistas, o movimento pós-modernista pode também ser chamado de pós-industrial ou de movimento financeiro, pois é a partir do fim da Segunda Guerra Mundial que as inovações tecnológicas, os investimentos financeiros e a indústria de massa desenvolveram-se e marcaram intensas e profundas transformações na sociedade e na maneira pela qual os indivíduos passaram a relacionar-se com o consumo. Quais seriam as principais características da pós-modernidade? 68
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO NOTA No contexto pós-segunda Guerra e diante de tantas informações, ligadas ou não a esse acontecimento, algumas características permitem identificar o pós-modernismo. Dentre elas, merecem destaque: Ausência de regras e valores muito rígidos. Individualismo. Pluralidade e diversidade. Combinações de tendências, gostos e estilos. Produção em série de cultura voltada para o consumo rápido. Liberdade de expressão e pensamento. Mistura entre realidade e imaginação - hiper-realismo. Disponibilização de grande quantidade de informações. Incertezas e vazios existenciais. FONTE: <https://bit.ly/3atj0kk>. Acesso em: 29 jul. 2021. NOTA Vários autores dividem a pós-modernidade em dois principais períodos. A primeira fase teria começado com o fim da Segunda Guerra Mundial e se desenvolvido até o declínio da União Soviética (fim da Guerra Fria). Já a segunda e derradeira etapa teve início no fim da década de 1980, com a quebra da bipolaridade vivida no mundo durante a Guerra Fria e o avanço das novas tecnologias. Primeira etapa da Pós-Modernidade De modo geral, a pós-modernidade representa a "quebra" com antigos modelos de pensamento linear defendidos na era moderna pelos iluministas. Eles eram baseados na defesa da razão e ciência como parte de um plano em prol do desenvolvimento da humanidade. No entanto, com os horrores presenciados na Segunda Guerra Mundial, começou a crescer um forte sentimento de insatisfação e decepção na sociedade, visto que todo o "plano" moldado com base nos ideais iluministas havia falhado. Segunda etapa da Pós-Modernidade: consolidação Muitos estudiosos consideram o fim da década de 1980 como a consolidação definitiva da Pós-Modernidade como uma estrutura social, política e econômica no mundo. Com o fim da bipolaridade imposta pela Guerra Fria, o mundo passou a viver sob uma Nova Ordem, baseada na ideia de pluralidade e globalização entre quase todas as nações. Os avanços tecnológicos e nos meios de comunicação, o boom da internet e o monopólio do sistema capitalista são algumas das características que ajudaram a consolidar os princípios que definem a sociedade pós-moderna. FONTE: <https://www.significados.com.br/pos-modernidade/>. Acesso em: 29 jul. 2021. 69
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS 3 PIERRE BOURDIEU, MICHEL FOUCAULT E A EDUCAÇÃO Pierre Bourdieu foi um dos maiores pensadores das ciências humanas do século XX. Filósofo por formação desenvolveu importantes trabalhos de etnologia, no campo da antropologia, e conceitos de profunda relevância no campo da sociologia, como habitus, campo e capital social. Sua obra é extensa e abrangente, com contribuição para diversas áreas do conhecimento, especialmente na educação e cultura. FIGURA 24 PIERRE BOURDIEU FONTE: <https://bit.ly/3xvmxnm>. Acesso em: 20 mar. 2021. Pierre Félix Bourdieu nasceu em Denguin, França, no dia 1 de agosto de 1930. Iniciou seus estudos básicos em sua cidade natal. Mudou-se para Paris, ingressou na Faculdade de Letras, onde cursou Filosofia, obtendo a graduação em 1954. Prestou serviço militar na Argélia (então colônia francesa). Entre os anos de 1958 e 1960, assumiu a função de professor assistente na Faculdade de Argel. De volta à França, Pierre Bourdieu foi nomeado assistente do filósofo e sociólogo Raymond Aron, na Faculdade de Letras de Paris. Filiou-se ao Centro Europeu de Sociologia, tornando-se secretário-geral em 1962. Durante as décadas de 60 e 70, Bourdieu se dedicou às pesquisas como etnólogo que revolucionaram a Sociologia. Dessas investigações sobre a vida cultural, sobre as práticas de lazer e de consumo dos povos europeus, principalmente dos franceses, resultou na publicação de Anatomia do Gosto (1976), e sua obra prima A Distinção Crítica Social do Julgamento (1979). Em suas obras, Bourdieu tenta explicar a diversidade do gosto entre os segmentos sociais, analisando a variedade das práticas culturais entre os grupos. Afirmava que o gosto cultural e os estilos de vida da burguesia, das camadas médias e da classe operária, estavam profundamente marcados pela trajetória social vivida por cada um deles. A repercussão de suas reflexões o levou a lecionar em importantes universidades do mundo a Universidade de Harvard e de Chicago e o Instituto Max Planck de Berlim. Em 1981, Bourdieu assumiu a cadeira de Sociologia no Collège de France, onde em sua aula inaugural destacou-se por propor uma 70
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO crítica sobre a formação do sociólogo, propondo o que ficou identificado como Sociologia da Sociologia. Pierre Bourdieu foi considerado um dos mais importantes intelectuais de sua época. Tornou-se referência na Antropologia e na Sociologia, publicando trabalhos sobre educação, cultura, literatura, arte, mídia, linguística, comunicação e política. Com sua vasta produção intelectual, recebeu o título Doutor Honoris Causa da Universidade Livre de Berlim (1989), da Universidade Johann Wolfgang-Goethe de Frankfurt (1996) e da Universidade de Atenas (1996). Pierre Bourdieu faleceu em Paris, França, no dia 23 de janeiro de 2002 (FRAZÃO, 2002, s. p.) FONTE: FRAZÃO, D. Pierre Bourdieu. 2002. Disponível em: https://bit.ly/2xthg3g. Acesso em: 23 mar. 2021. FIGURA 25 CONCEITOS E TEMAS DE PIERRE BOURDIEU FONTE: <https://bit.ly/3arobx9>. Acesso em: 23 mar. 2021. 71
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Crítico dos mecanismos de reprodução das desigualdades sociais, Pierre Bourdieu destaca em sua obra os condicionamentos materiais e simbólicos que agem sobre nós (sociedade e indivíduos) numa complexa relação de interdependência, ou seja, a posição social ou o poder que detemos na sociedade não dependem apenas do volume de dinheiro que acumulamos ou de uma situação de prestígio que desfrutamos por possuirmos escolaridade ou qualquer outra particularidade de destaque, mas está na articulação de sentidos que esses aspectos podem assumir em cada momento histórico. A estrutura social é apresentada por Bourdieu como um sistema hierarquizado de poder e privilégio, determinado tanto pelas relações materiais e/ou econômicas (salário, renda) como pelas relações simbólicas (status) e/ou culturais (escolarização) entre os indivíduos. Alguns conceitos e aspectos da teoria de Bourdieu. QUADRO 26 CAPITAL, CAMPO O capital, junto com o campo e o habitus, são três conceitos que se conectam. O capital diz respeito aos recursos que um indivíduo possui que lhe fornece vantagens e privilégios em relação àqueles que não os tem, ou seja, o capital são as armas herdadas ou adquiridas por alguém. Esses capitais podem ser econômicos, culturais ou sociais. O capital econômico pode ser considerado o mais óbvio: é a quantidade de recursos financeiros que uma pessoa dispõe na forma de propriedades, dinheiro e bens materiais. Esse é o fator que é considerado geralmente para explicar as desigualdades sociais. Entretanto, Bourdieu descobre, ao analisar a escola, outro tipo de capital: o cultural, que diz respeito a recursos adquiridos na instituição escolar como linguagem erudita, domínio da oratória, livros, diplomas e notas altas em provas, por exemplo. Além disso, existe o capital social que é a rede de relacionamentos sociais e contatos que uma pessoa possui que lhe confere vantagem sobre os demais. Campo O conceito de campo está intimamente ligado ao de capital porque é no campo que ocorrem as disputas de poder e posição na realidade social. De fato, o campo é definido como uma rede ou uma configuração de relações sociais que são organizadas em posições de dominância diferentes. Qualquer espaço social em que há uma correlação de forças desiguais em termos de capital econômico, cultural ou social entre diferentes pessoas pode ser considerado um campo. Bourdieu descobre, por exemplo, que a área da literatura é um campo, assim como a política, a ciência, ou a escola. Além disso, todo campo possui suas próprias regras. A forma como aprendemos como o campo em que estamos inseridos funciona é abarcada pelo conceito de habitus. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3gevner>. Acesso em: 29 jul. 2021. 72
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO QUADRO 27 HABITUS, PRODUÇÃO DO GOSTO E VIOLÊNCIA SIMBÓLICA O conceito de habitus advém da ideia de hábito mental, ou seja, a forma como as pessoas aprendem e reproduzem aquilo que aprenderam durante o seu crescimento dentro de uma sociedade, passando a assumir os pensamentos de sua época. Trata-se de uma aprendizagem de como perceber o mundo e atuar nele. O habitus é a experiência social incorporada em nossas mentes. Os habitus são sempre construídos em um indivíduo dentro de um campo, detendo alguns capitais. Cada pessoa ocupa uma posição diferente no campo e herda ou adquire determinados capitais ao longo da vida, o que a torna única. Ao mesmo tempo, o campo já existe antes de qualquer indivíduo nascer: ele determina algumas condições que são compartilhadas por todas as pessoas no mesmo campo. Assim, com o habitus, Bourdieu mostra como as pessoas são construídas e ao mesmo tempo constroem o campo social no seu dia a dia, em uma verdadeira interdependência com a estrutura social. É por isso que ele usa o termo agente para se referir a todos nós, indivíduos ou pessoas que, de fato, atuam cotidianamente na sociedade. Produção do gosto Já houve muita discussão na filosofia sobre qual a verdadeira definição do belo ou do sentido do bom ou mau gosto. Bourdieu demonstra que, na verdade, os gostos são construídos socialmente como uma forma de fazer vínculos sociais, a depender do campo social em que o agente está inserido. Depois de uma pesquisa que compreendeu 1.217 entrevistas na França, Bourdieu demonstra como os gostos servem para realizar um julgamento social dos indivíduos. Gostar e consumir arte, cinema, músicas eruditas revela o capital cultural de um agente, e funciona muitas vezes como uma forma de se distinguir daqueles que não possuem os mesmos gostos refinados. Violência simbólica O conceito de violência simbólica visa apresentar de que maneira a autoridade e o poder de agentes ou instituições são naturalizadas, ou seja, consideradas normais em uma sociedade. Exemplos de violência simbólica na escola incluem: conteúdos, disciplinas, provas, trabalhos e correções gramaticais. Isso porque os critérios de avaliação escolar estão pautados nos capitais econômicos e culturais das classes dominantes, e não a dos pobres. Assim, o sucesso na escola muitas vezes acaba sendo condicionado pela origem e o desenvolvimento econômico, cultural e social dos estudantes. Os próprios alunos em desvantagem, por sua vez, acabam aderindo e aceitando os critérios desse campo na escola. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3gevner>. Acesso em: 29 jul. 2021. 73
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Referente aos processos educacionais, é possível notar que a educação é parte de um dos temas centrais na obra de Bourdieu. Ele foi responsável por demonstrar a violência simbólica existente nas escolas e alertar as pessoas sobre o otimismo no sistema educacional. Bourdieu apresentou as dificuldades das classes mais pobres com relação ao acesso e à permanência na escola, bem como as diferenças de desempenho de alunos por sexo, origem, local de moradia e classe. Com sua teoria, Bourdieu pretende mostrar não só a escola, mas como outras instituições dominantes funcionam, e fazer um esforço para pensar outros modos de organização que estimulem a crítica e a produção de novas ideias. Embora a maioria dos grandes pensadores da educação tenha desenvolvido suas teorias com base numa visão crítica da escola, somente na segunda metade do século XX surgiram questionamentos bem fundamentados sobre a neutralidade da instituição. Até ali a instrução era vista como um meio de elevação cultural mais ou menos à parte das tensões sociais. O francês Pierre Bourdieu empreendeu uma investigação sociológica do conhecimento que detectou um jogo de dominação e reprodução de valores. Para Bourdieu, o sistema de ensino perpetua a desigualdade social. Setton (2010) comenta que, agindo dessa forma, o sistema escolar limitaria o acesso e o pleno aproveitamento dos indivíduos pertencentes às famílias menos escolarizadas, pois cobraria deles os que eles não têm, ou seja, um conhecimento cultural anterior, aquele necessário para se realizar a contento o processo de transmissão de uma cultura culta. Essa cobrança escolar foi denominada por ele como uma violência simbólica, pois imporia o reconhecimento e a legitimidade de uma única forma de cultura, desconsiderando e inferiorizando a cultura dos segmentos populares. Assim, convertendo as desigualdades sociais, ou seja, as diferenças de aprendizado anterior, em desigualdades de acesso à cultura culta, o sistema de ensino tende a perpetuar a estrutura da distribuição do capital cultural, contribuindo para reproduzir e legitimar as diferenças de gosto entre os grupos sociais. Posto isso, as disposições exigidas pela escola, por exemplo, as sensibilidades pelas letras ou pela estética visual ou musical, enfim, uma estética artística, privilégio de alguns poucos, tendem a intensificar as vantagens daqueles mais bem aquinhoados, material e culturalmente. Quais foram as grandes influências deixadas por Bourdieu para a educação? Suas pesquisas exerceram forte influência nos ambientes pedagógicos nas décadas de 1970 e 1980. "Desde então, as teorias de reprodução foram criticadas por exagerar a visão pessimista sobre a escola", diz Cláudio Martins Nogueira, professor da Universidade Federal de Minas Gerais. "Vários autores passaram a mostrar que nem sempre as desigualdades sociais se reproduzem completamente na sala de aula". Na essência, contudo, as conclusões de Bourdieu não foram contestadas. Na mesma época em que as restrições a sua obra acadêmica se tornaram mais frequentes, a figura pública do sociólogo ganhou notoriedade pelas críticas à mídia, aos governos de esquerda da Europa e à globalização. Ele costuma ser incluído na tradição francesa do intelectual público e combativo, a exemplo do escritor Émile Zola (1840-1902) e do filósofo Jean Paul Sartre (1905-1980) (FERRARI, 2009a, s. p.). Referente ao conceito de Capital Cultural e Educação, o autor relacionou esses dois elementos da seguinte forma: 74
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Outro conceito utilizado por Bourdieu é o de campo, para designar nichos da atividade humana nos quais se desenrolam lutas pela detenção do poder simbólico, que produz e confirma significados. Esses conflitos consagram valores que se tornam aceitáveis pelo senso comum. No campo da arte, a luta simbólica decide o que é erudito ou popular, de bom ou de mau gosto. Dos elementos vitoriosos, formam-se o habitus e o código de aceitação social. Os indivíduos, por sua vez, se posicionam nos campos de acordo com o capital acumulado - que pode ser social, cultural, econômico e simbólico. O capital social, por exemplo, corresponde à rede de relações interpessoais que cada um constrói, com os benefícios ou malefícios que ela pode gerar na competição entre os grupos humanos. Já na educação se acumula, sobretudo, capital cultural, na forma de conhecimentos apreendidos, livros, diplomas etc.com os instrumentos teóricos que criou, Bourdieu afastou de suas análises a ênfase central nos fatores econômicos, que caracteriza o marxismo, e introduziu, para se referir ao controle de um estrato social sobre outro, o conceito de violência simbólica, legitimadora da dominação e posta em prática por meio de estilos de vida. Isso explicaria por que é tão difícil alterar certos padrões sociais: o poder exercido em campos como a linguagem é mais eficiente e sutil do que o uso da força propriamente dita. Para Bourdieu, a escola é um espaço de reprodução de estruturas sociais e de transferência de capitais de uma geração para outra. É nela que o legado econômico da família transforma-se em capital cultural. E ele, segundo o sociólogo, está diretamente relacionado ao desempenho dos alunos na sala de aula. Eles tendem a ser julgados pela quantidade e pela qualidade do conhecimento que já trazem de casa, além de várias "heranças", como a postura corporal e a habilidade de falar em público. Os próprios estudantes mais pobres acabam encarando a trajetória dos bem-sucedidos como resultante de um esforço recompensado (FERRARI, 2009a, s. p.). DICAS O sociólogo francês detectou mecanismos de conservação e reprodução em todas as áreas da atividade humana, entre elas, o sistema educacional. Em síntese, para Bourdieu o sistema escolar, em vez de oferecer acesso democrático de uma competência cultural específica para todos, tende a reforçar as distinções de capital cultural de seu público (SETTON, 2010). NOTA Frequentemente fazemos, sem perceber, julgamentos severos com base em motivos nada consistentes ou, pior, preconceituosos. Na escola, é comum alunos serem discriminados por causa de sua aparência e seus hábitos. Você já observou como muitas vezes isso é uma manifestação de sentimentos de superioridade de alguns grupos sociais em relação a outros? (FERRARI, 2009a). 75
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Michel Foucault foi um intelectual que exerceu uma ação e influência consideráveis em vários ramos do saber: na filosofia, na psiquiatria, na psicologia, na história, na sociologia, na antropologia, nas artes e na política. Teve uma trajetória acadêmica brilhante e uma atuação militante política expressiva. Foi uma das cabeças mais lúcidas que nosso século passado produziu. FIGURA 26 MICHEL FOUCAULT FONTE: <https://bit.ly/3k6rymh>. Acesso em: 19 mar. 2021. Frazão (2019, s. p.) disserta sobre o caminho da vida e obra de Foucault: Michel Foucault nasceu em Poitiers, França. Estudou no Lycée Henri IV e em seguida na École Normale Supérieure, em Paris, onde desenvolveu um interesse pela filosofia. Foi aluno da Sorbonne, onde se formou em filosofia e psicologia. Em 1954 publicou Doença Mental e Psicologia. Após vários anos como diplomata cultural no exterior, ele retornou à França, e a partir de 1960, passou a lecionar na Universidade de Clemont-Ferrand. Em 1961, publicou sua grande obra: História da Loucura na Era Clássica. Em 1966, após deixar Clemont, Foucault lecionou na Universidade de Tunis, permanecendo até 1968, quando retornou à França e passou a chefiar o departamento de filosofia da nova universidade experimental de Paris. Em 1970, Foucault passou a lecionar História do Pensamento no Colégio de França. Tornou-se um ativista de vários grupos envolvidos em campanhas contra o racismo, contra os abusos dos direitos humanos e em campanhas pela reforma penal. Michel Foucault veio cinco vezes ao Brasil, a primeira foi em 1965. No final dos anos 70, foi descoberto pela universidade de Berkeley, na Califórnia, onde foi bem acolhido, e realizou palestras. Confira o que abordam as Teorias de Foucault: As teorias de Foucault abordam principalmente a relação entre o poder e o conhecimento, e como elas são usadas com o objetivo de controle social através das instituições. Embora citado como estruturalista e pós-modernista, Foucault rejeitou esse rótulo, preferindo apresentar seu pensamento como uma história crítica da modernidade. Suas teorias influenciaram acadêmicos, que trabalham em estudos de sociologia, teoria literária, teoria crítica, comunicação, e também alguns grupos ativistas (FRAZÃO, 2019, s. p.). 76
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO FIGURA 27 CONCEITOS E TEMAS DE MICHEL FOUCAULT FONTE: <https://bit.ly/37uxowu>. Acesso em: 29 jul. 2021. A educação não foi o foco principal do pensador francês; nos momentos em que esteve nas escolas foi para analisar as atividades dos estudantes. O elemento fundamental para a Pedagogia é o sujeito, aí que se possibilita a articulação entre Foucault e a Educação. É nesse aspecto do sujeito que o autor apresenta uma perspectiva para a educação escolar, pois a partir dessa análise do pensamento de Foucault se pode aproveitar os pontos do seu pensamento pedagógico. Por meio de uma análise histórica inovadora, o filósofo francês viu na educação moderna atitudes de vigilância e adestramento do corpo e da mente. A seguir, abordaremos a visão do autor referente à escola e à educação de forma geral: Para Foucault, a escola é uma das instituições de sequestro, como o hospital, o quartel e a prisão. São aquelas instituições que retiram compulsoriamente os indivíduos do espaço familiar ou social mais amplo e os internam, durante um período longo, para moldar suas condutas, disciplinar seus comportamentos, formatar aquilo que pensam etc.", diz Alfredo Veiga-Neto. Com o advento da Idade Moderna, tais instituições deixam de ser lugares de suplício, como castigos corporais, para se tornarem locais de criação de "corpos dóceis". A docilização do corpo tem uma vantagem social e política sobre o suplício, porque este enfraquece ou destrói os recursos vitais. Já a docilização torna os corpos produtivos. A invenção-síntese desse processo, segundo Foucault, é o panóptico, idealizado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1832): uma construção de vários compartimentos em forma circular, com uma 77
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS torre de vigilância no centro. Embora não tenha sido concretizado imediatamente, o panóptico inspirou o projeto arquitetônico de inúmeras prisões, fábricas, asilos e escolas. Uma das muitas "vantagens" apresentadas pelo aparelho para o funcionamento da disciplina é que as pessoas distribuídas no círculo não têm como ver se há alguém ou não na torre. Por isso, internalizam a disciplina. Ampliada a situação para o âmbito social, a disciplina se exerce por meio de redes invisíveis e acaba ganhando aparência de naturalidade (FERRARI, 2009b, s. p.). NOTA É comum a educação ser encarada como um valor único, invariável e redentor. No entanto, Foucault a via enredada em seu contexto cultural. Por isso, o ensino que em uma época é considerado a salvação do ser humano, em outra pode ser visto como nocivo. Você já pensou nas implicações políticas e sociais da educação atual, com base em sua experiência? Se sim, você leva em conta as conclusões ao planejar o trabalho em sala de aula? (FERRARI, 2009b) 4 ZYGMUNT BAUMAN, VIRTUALIDADE E A EDUCAÇÃO A tecnologia é um dos temas mais estudados no mundo contemporâneo. Em todas as áreas do conhecimento e das artes ela se faz presente, não só como tema de debate, mas transformando a ação humana e os objetos produzidos. Dentre as diversas áreas, destacam-se a nanotecnologia, a robótica, a informática e a biotecnologia. Se no passado a distinção entre natureza e máquina era natural, hoje essas diferenças tendem a ganhar contornos bem mais imprecisos. Ideias que figuravam na literatura ficcional passaram a integrar o cotidiano das civilizações. Seriam as promessas de um mundo novo que fazem os seres humanos buscar novas formas de tecnologias e Ciência. DICAS Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) podem ser definidas como o conjunto total de tecnologias que permitem a produção, o acesso e a propagação de informações, assim como tecnologias que permitem a comunicação entre pessoas. Com a evolução tecnológica, surgiram novas tecnologias, que se propagaram pelo mundo como formas de difusão de conhecimento e facilitaram a comunicação entre as pessoas, independentemente de distâncias geográficas (RODRIGUES, 2016). 78
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO O que estamos assistindo é que um novo mundo, uma nova sociedade, em termos de relacionar-se e viver, está sendo gestada e você, acadêmico, está convidado a vivê-la e compreendê-la. Nesta sociedade, multifacetada, líquida, virtual e de consumo, um nome da Sociologia que a analisou de forma competente foi o Polonês Zygmunt Bauman FIGURA 28 ZYGMUNT BAUMAN FONTE: <https://bit.ly/2vkgnya>. Acesso em: 22 mar. 2021. Quem foi Bauman? Qual sua formação? O que ele pesquisou? Zygmunt Bauman foi um sociólogo, pensador, professor e escritor polonês, uma das vozes mais críticas da sociedade contemporânea. Criou a expressão Modernidade Líquida para classificar a fluidez do mundo onde os indivíduos não possuem mais padrão de referência. Nasceu em Poznan, Polônia, no dia 19 de novembro de 1925. Filho de judeus, em 1939, junto com sua família escapou da invasão das tropas nazistas na Polônia e se refugiou na União Soviética. Alistou- -se no exército polonês no front soviético. Em 1940 ingressou no Partido Operário Unificado, o partido comunista da Polônia. Em 1945 entrou para o Serviço de Inteligência Militar, onde permaneceu durante três anos. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Zygmunt voltou para Varsóvia. Conciliou sua carreira militar com os estudos universitários e com a militância no Partido Comunista. Estudou Sociologia na Academia de Política e Ciências Sociais de Varsóvia. Casou-se com Janina Bauman, uma judia de família próspera que sobreviveu aos horrores da invasão nazista. Zygmunt viveu com Janina (também escritora) até sua morte, em 2009. Bauman ingressou no mestrado na Universidade de Varsóvia. Em 1950, deixou o Partido Operário. Em 1953 foi expulso do Exército da Polônia. Em 1954 concluiu o mestrado e tornou-se professor assistente de Sociologia na mesma Universidade. Durante muitos anos se manteve próximo à ortodoxia marxista, mas depois passou a fazer severas críticas ao governo comunista da Polônia, sofrendo perseguições durante 15 anos. Em março de 1968, uma série de protestos de professores, estudantes e artistas que lutavam contra a censura do regime, culminou com o expurgo antissemita que obrigou muitos poloneses 79
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS de origem judia a deixarem o país. Brauman e sua mulher foram expulsos da Polônia. Exilado em Israel, lecionou na Universidade de Tel-aviv. Em 1971, foi convidado para lecionar Sociologia na Universidade de Leeds, Inglaterra, onde também dirigiu o departamento de sociologia da Universidade até sua aposentadoria, em 1990. Durante mais de meio século, Zygmunt Bauman foi um dos mais influentes observadores da realidade social e política. É descrito como um pessimista, que entra no coro dos que criticam a pós-modernidade, em busca das causas do processo social perverso, no mundo das ideias do pensamento anticapitalista (FRAZÃO, 2021, s. p.). FONTE: <https://bit.ly/3cxnmci>. Acesso em 20 mar. 2021. FIGURA 29 CONCEITOS E TEMAS DE ZYGMUNT BAUMAN FONTE: <https://bit.ly/3cucyvm>. Acesso em: 20 mar. 2021. 80
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO A Pós-Modernidade pode ser definida, dentre outras formas, como um período histórico que expressa, através da cultura da globalização e da sua ideologia neoliberal, uma estrutura econômica global que mascara as relações de desigualdade entre os povos das grandes potências econômicas e dos países periféricos. A sociedade humana passa a caminhar por um período de intensas transformações e inovações, não somente no âmbito das tecnologias, mas também, morais, socioculturais e econômicas, cujos efeitos e reflexos abalaram os tradicionais modelos de convivência até então conhecidos. Tais transformações têm alterado as formas de interação do Ser Humano com os seus semelhantes, com o meio ambiente, com todos os aspectos essenciais à vida, induzindo-nos a uma existência temporária, imediatista, mas sem grandes perspectivas para o futuro. Bauman se debruçou sobre esses fenômenos e, de certa forma, contribuiu para se pensar a educação nesses tempos pós-modernos e desafios a enfrentar. Caro acadêmico, acompanhe uma entrevista concedida por Bauman. Nessa entrevista, ele reflete sobre o aprendizado e os desacertos da sociedade com relação ao ensino. Qual a diferença entre educar na era pré-moderna e na modernidade líquida dos dias atuais? Muita coisa se transformou no trabalho dos professores. Como o educador E. O. Wilson observou, estamos nos afogando em informação e, ao mesmo tempo, famintos por sabedoria. A cada dia, o volume de novas informações excede milhões de vezes a capacidade do cérebro humano de retê-las. A mudança da sociedade moderna de sólida para um estágio líquido coincide, segundo a terminologia de Byung-Chul Han (teórico sul-coreano), com a passagem da sociedade da disciplina para a sociedade de desempenho. Esta última é, principalmente, a sociedade de desempenho individual e da cultura de afundar ou nadar sozinho. Mesmo indivíduos emancipados descobrem que eles mesmos não estão à altura das exigências da vida individualizada. Então, é preciso mudar esse pensamento individualizado? Nosso sistema educacional é um poderoso mecanismo de, cada vez mais, reproduzir os privilégios entre gerações. Nos Estados Unidos, 74% dos estudantes que frequentam as universidades mais competitivas vêm das famílias mais ricas, e 3%, das mais pobres. Além disso, muitas escolas e universidades induzem à fácil ideologia de que empregos bem remunerados são os únicos objetivos da universidade. Esses são apenas uns dos desafios, erros e negligências da educação contemporânea. E como será no futuro? Uma coisa certa é que, num cenário líquido, rápido e de mudanças imprevisíveis, a educação deve ser pensada durante a vida inteira. O resto vai depender de nossas escolhas dentro do que é possível para essa obrigação. Enfatizamos que esse nós que faz as escolhas não é limitado aos profissionais de educação. 81
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS Para citar Will Stanton (professor australiano), que nos mantém alerta de que há muitos que pretendem ensinar nossos filhos apenas a obedecer: Devemos aceitar autoridade como verdade em vez da verdade como autoridade. Ele ainda diz: O que é a mídia mainstream se não outra plataforma de educação defendendo a autoridade como verdade? Nós sentamos em frente ao noticiário noturno e escutamos âncoras e repórteres nos dizendo o que pensar, a quem apontar nossos dedos, porque nosso país precisa ir para a guerra e com o que a gente deve se horrorizar. Considere ainda o tremendo impacto da indústria da publicidade em nós mesmos ou no que as crianças aprendem ou no que elas foram levadas a esquecer. Por exemplo, crianças não nascem inseguras. A publicidade é que as deixa apavoradas com o que as outras pessoas pensam delas. O sucesso mundial das redes sociais é um produto da modernidade líquida ou aspecto transformador dela? As duas coisas. Nós estamos seduzidos pelos recursos das mídias digitais por causa do nosso medo de sermos abandonados, mas uma vez imerso na rede de relações on-line, que tem uma falsa ideia de ser facilmente manuseada, nós perdemos ou não adquirimos habilidades sociais que poderiam (e deveriam) nos ajudar a extirpar as causas dos medos que vêm do mundo off-line. Assim, as redes sociais são, simultaneamente, produto da modernidade líquida e a sua válvula de escape. O senhor afirma que o fato de a educação superior não garantir mais ascensão social é um problema para a educação tal qual conhecemos. Qual a solução para esse problema? Ascensão social é uma sinfonia, não um canto gregoriano monofônico. A educação superior é apenas um dos muitos sons que se fundem na melodia, e um dos muito poucos instrumentos que contribuem para sua evolução. Nós configuramos o problema e torcemos por soluções, como o ensino superior, porque alguns desses nós que se preocupam, pensam e escrevem sobre o problema têm ensino superior e passaram anos sendo ensinadas que vivemos em uma sociedade do conhecimento que continua sendo transformada pelo tipo de conhecimento definido, armazenado e distribuído por universidades. Isso não é necessariamente correto pelo menos até quando isso permanecer sem ressalvas. O que nós percebemos como ascensão social é um rio cuja trajetória resulta de vários afluentes. Mais e mais pessoas por trás das mudanças sociais que chamamos de ascensão desistiram da universidade ou nunca entraram nela. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/2urqldi>. Acesso em: 29 jul. 2021. O autor acrescenta que nesse cenário de ignorância que a sociedade globalizada está vivendo, é fácil sentir-se perdido e sem esperança, e é ainda mais fácil sentir-se perdido e privado de esperança quando não se tem capacidade de compreender aquilo que acontece. Quem não tem uma visão mais acabada do presente não poderia sonhar em controlar o futuro. A ignorância leva à paralisia da vontade. 82
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO Quem não sabe o que guarda no depósito, não tem como calcular os riscos. Para a autoridade, intolerante com relação às proibições impostas pelos detentores do poder através de uma democracia "elástica e flutuante", essa impotência, induzida pela ignorância do eleitorado, bem como a desconfiança geral na eficácia do dissenso e a oposição ao envolvimento político, são fontes necessárias e bem-vindas de capital político: a dominação através da ignorância e da incerteza deliberadamente cultivadas é mais aceitável e menos cansativa do que o princípio baseado na discussão atenta dos acontecimentos e no esforço demorado de estabelecer a verdade dos fatos e os modos menos arriscados de proceder. A ignorância política entrançada com a inatividade fica ao alcance da mão cada vez que é sufocada a voz da democracia ou as suas mãos ficam atadas. É preciso uma educação permanente para dar a nós mesmos a possibilidade de escolher, mas temos ainda mais necessidade de salvar as condições que tornam as escolhas possíveis e ao nosso alcance. 83
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS LEITURA COMPLEMENTAR A EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE LÍQUIDO-MODERNA: REFLEXÕES SOBRE OS ESCRITOS DE ZYGMUNT BAUMAN Daniel Bardini Dürks Sidinei Pithan Da Silva Na leitura de Bauman (1999), inicialmente o projeto social da modernidade tinha como objetivo principal a instauração da ordem. Neste momento, a administração, planejamento e controle social ficavam a cargo, essencialmente, das políticas com P maiúsculo do Estado-Nação. As grandes estruturas solidificadas no imaginário social agiam diretamente sobre os indivíduos, influenciando para a manutenção do status quo instituído pelos legisladores. Para o autor, a fase sólida da modernidade influenciava e administrava as formas de ser dos indivíduos, em grande parte gerenciadas pelo poder do Estado-Nação. Neste momento, o poder era enraizado no espaço-tempo determinando e interpelando os indivíduos, ainda que por vezes através da coerção, ao engajamento social. Conforme Bauman (2009), o trabalho era um dos conceitos chave para a constituição identitária dos indivíduos. Na sociedade sólido-moderna, com base no arranjo social de uma sociedade engajada para a produção de bens e serviços, a característica predominante no tipo de representações e disposições sociais dos indivíduos era pela ética do trabalho (BAUMAN, 2000). Dessa forma, a procrastinação dos prazeres individuais era fundamental para se pensar num projeto de vida vinculada ao enraizamento a um determinado tipo de trabalho e arquitetura social (BAUMAN, 2001). Contudo, em decorrência das reformulações políticas e econômicas impulsionadas pelo advento da globalização, ou mais especificamente pelo avanço e aceitação do modelo neoliberal, profundas transformações sociais são instauradas. As estruturas ou instituições responsáveis pela normatividade social nas diferentes instâncias da vida (trabalho, cultura, educação etc.) se liquefazem e, ao contrário da modernidade sólida em que eram remodeladas com uma forma ainda mais sólida, se mantém líquidas e cambiantes à mercê da responsabilidade e da ação individual (BAUMAN, 2001). Essa remodelação política, cultural e econômica da arquitetura social implica no deslocamento dos papéis-sociais contemporâneos da ética do trabalho para a estética do consumo (BAUMAN, 2000). Segundo Bauman (2008a), passamos de uma sociedade sólido-moderna, que poderia ser denominada de sociedade de produtores, para uma sociedade líquido-moderna, compreendida como uma sociedade de consumidores. É importante salientar que o termo consumo assume uma perspectiva mais ampla que a esfera natural/biológica do indivíduo. Na reflexão de Bauman (2008a, p. 41), o consumo assume uma conceituação referente à esfera macrossocial, tornando-se [...] um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e an- 84
TÓPICO 3 AUTORES CONTEMPORÂNEOS DA SOCIOLOGIA E A RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO seios humanos rotineiros, permanentes e, por assim dizer, neutros quanto ao regime, transformando-os na principal força propulsora e operativa da sociedade. O tipo de arranjo social da sociedade líquido-moderna impele aos indivíduos a necessidade permanente de se ressignificar em um ambiente extremamente cambiante e volátil. Ao contrário da sociedade de produtores sólido-moderna, em que características como a acumulação, o engajamento social e o adiamento dos prazeres predominavam no tecido do imaginário social, a sociedade de consumidores líquido-moderna incita ao permanente descarte, privatização, individualismo e a busca do prazer instantâneo e episódico. Conforme Bauman (2001; 2002), a política que antes poderia ser considerada global ou com P maiúsculo, mas que, de certa forma, apagava o indivíduo, agora é considerada com p minúsculo e ocupa-se majoritariamente das políticas da vida, o que coloca todas as responsabilidades às custas do mérito individual (se você falhou, foi por culpa sua). Estas transformações da sociedade líquido-moderna são elementares no entendimento de Bauman sobre a educação, como em suas palavras: [...] a vida de consumo é uma vida de aprendizado rápido... e imediato esquecimento (BAU- MAN, 2011, p. 151). O tipo de arranjo social consumista, acelerado, cambiante e emoldurado para a expansão do progresso econômico da sociedade líquido-moderna difere profundamente do arranjo social de ordenamento e acumulação da sociedade sólido-moderna. Para Bauman (2008b; 2011; 2013a), a ideia de educação planejada e arquitetada para o arranjo social de ordenação da modernidade sólida era equivalente a ideia da paideia grega. Ou seja, apesar das crises que emergiam nos diferentes tempos históricos, a educação tinha como objetivo principal a promessa da educação para toda a vida e comprometia-se para propiciar esse acúmulo de conhecimentos e o comprometimento com a cidadania. Contudo, para Bauman (2008a; 2008b; 2010; 2011; 2013b), a educação no sentido amplo do termo, ou seja, institucionalizada e não-institucionaliza enfrenta, diante das metamorfoses sociais da modernidade líquida, um desafio diferente das crises anteriores. O arranjo social líquido-moderno consumista e individualista, não possui mais a intenção de valorizar características intrínsecas à ideia de educação para toda a vida. A memória, o estudo aprofundado de um tema, a densidade e fundamentação de um conceito, a descoberta gradual de conhecimentos (do simples para o complexo) não fazem mais sentido para os indivíduos culturalmente inseridos nesta liquidez. A (des)ordem cultural e política líquido-moderna se ancora na perspectiva da oferta massiva de informações. Nesse momento, a ambivalência com o desenvolvimento tecnológico e a preocupação com o novo tipo de indivíduo moldado na esfera deste arranjo social, são alvos das reflexões de Bauman. Por conseguinte, Bauman (2008b, p. 163) entende que: [...] o avassalador sentimento de crise sentido de igual forma pelos filósofos, teórico e educadores, essa versão corrente do sentimento de viver nas encruzilhadas, a busca febril por uma nova autodefinição e, idealmente, também uma nova identidade, tem pouco a ver com as 85
UNIDADE 1 SOCIOLOGIA, AUTORES E CONCEITOS faltas, os erros e a negligência dos pedagogos profissionais, tampouco com os fracassos da teoria educacional. Estão relacionados com a dissolução universal das identidades, com a desregulamentação e a privatização dos processos de formação de identidade, com a dispersão das autoridades, a polifonia das mensagens de valor e a subsequente fragmentação da vida que caracteriza o mundo em que vivemos. É possível interpretar na leitura do autor que a questão educacional é essencial para a continuidade de uma sociedade democrática. No entanto, o tom pessimista de sua reflexão sobre a modernidade em sua fase líquida perpassa pelo sentimento de uma sociedade que, parafraseando Castoriadis [...] deixou de se questionar (BAUMAN, 2001, p. 30). O envolvimento com a educação de uma maneira geral, isto é, a preocupação com o espaço da esfera pública, do encontro com os Outros, vem se tornando vazio, o que permite que oligarquias financeiras e empresariais ocupem este espaço. Citando Castoriadis (1999, p. 82), O capitalismo parece ter enfim conseguido fabricar o tipo de indivíduo que lhe corresponde : perpetuamente distraído, zapeando de uma fruição para a outra, sem memória e sem projeto, pronto a responder a todas as solicitações de uma máquina econômica. De certa forma, este é um dos grandes desafios educacionais que Bauman diagnostica na sociedade líquido-moderna. Os indivíduos não possuem mais um projeto de vida, permanecem a procura de momentos de felicidade cada vez mais episódicos e ambivalentes. Nesse cenário, em que o espaço público está cada vez mais esvaziado, privatizado e acelerado, é que Bauman compreende a necessidade da educação se ressignificar e permanecer crítica, desafiando os educadores a se tornarem intérpretes para as gerações que estão e serão inseridas em um mundo não mais ordenado (sólido) mas ambivalente e incerto (líquido). FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3g9fwcq>. Acesso em: 20 mar. 2021. 86
RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: O período conhecido como Idade Contemporânea inicia por volta de 1789, com um dos acontecimentos políticos que muito influenciou a vida em sociedade, no primeiro momento no contexto europeu e com o passar do tempo no contexto global. Esse acontecimento, somado aos seguintes: Revolução Industrial, Capitalismo Industrial, Financeiro, Informacional, duas grandes guerras mundiais, Movimentos de contestações sociais, entre outros, caracterizaram a vida humana, sobretudo, em uma forma dinâmica e de extremos. Para alguns autores, a Revolução Francesa no campo político e dos direitos, aliado à Revolução Industrial no fator econômico, foram os dois grandes acontecimentos que direcionaram a vida das pessoas na Idade Contemporânea e deram os fundamentos para aquilo que podemos denominar do espírito moderno. A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, sem dúvida, foi o documento mais importante, que promovia e influenciava outros documentos sobre o pensar o ser humano acima do poder particular em qualquer esfera e sobre a perspectiva que se iniciou a Revolução Francesa, que desejava dar todo o poder ao povo, um ideal a ser conquistado por todas as nações, por todos os povos. Na década de 1960 aconteceram diversos Movimentos em termos Mundiais que buscavam a formas de vida mais simples ou até mesmo mais ecológicas. Movimentos de reivindicações foram realizados em diversas partes do mundo. Movimento Feminista, Movimento Negro, Movimento de liberação gay (marco do Movimento LGBTTTS: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), Movimento Ecológico/ambiental, entre outros. O capitalismo financeiro se inicia no século XX, depois do final da Segunda Guerra Mundial. Essa nova fase tem seu início quando bancos e empresas se unem para obter maiores lucros. É nesse momento que surgem as empresas multinacionais e transnacionais, e se fortalecem as práticas monopolistas. Esse modelo, vigente até hoje, é baseado nas leis das instituições financeiras e dos grandes grupos empresariais presentes no mundo todo. O capitalismo informacional é caracterizado pela globalização e pelos avanços nas tecnologias de informação, na aceleração e crescimento dos fluxos de informações, pessoas, capitais e mercadorias. Segundo esse autor, essas transformações tecnológicas mudam nossas práticas culturais e sociais e constroem uma nova estrutura social. 87
O pós-modernismo ou a pós-modernidade, pode ser percebido a partir das mudanças sociais, culturais, artísticas, filosóficas, científicas e estéticas que surgiram após a segunda guerra. Essas mudanças foram responsáveis por marcantes transformações nas relações travadas entre as crescentes práticas capitalistas, a arte e a cultura. Pierre Bourdieu foi um dos maiores pensadores das ciências humanas do século XX. Filósofo por formação desenvolveu importantes trabalhos de etnologia, no campo da antropologia, e conceitos de profunda relevância no campo da sociologia, como habitus, campo e capital social. Sua obra é extensa e abrangente, com contribuição para diversas áreas do conhecimento, especialmente na educação e cultura. Michel Foucault foi um intelectual que exerceu ação e influência consideráveis em vários ramos do saber: na filosofia, na psiquiatria, na psicologia, na história, na sociologia, na antropologia, nas artes e na política. Teve uma trajetória acadêmica brilhante e uma atuação militante política expressiva. Foi uma das cabeças mais lúcidas que nosso século passado produziu. Zygmunt Bauman foi um sociólogo, pensador, professor e escritor polonês, uma das vozes mais críticas da sociedade contemporânea. Criou a expressão Modernidade Líquida para classificar a fluidez do mundo onde os indivíduos não possuem mais padrão de referência. CHAMADA Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. 88
AUTOATIVIDADE 1 A Idade Contemporânea viveu também duas grandes Guerras Mundiais. A Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918, foi considerada por muitos de seus contemporâneos como a mais terrível das guerras. Por esse motivo, tornou-se conhecida durante muito tempo como A Grande Guerra. A Segunda Guerra Mundial foi o maior conflito da humanidade, acontecendo de 1939 a 1945 em diferentes locais da Oceania, Ásia, África e Europa. Esse conflito foi travado entre Aliados (Reino Unido, França, EUA, URSS etc.) e Eixo (Itália, Alemanha, Japão etc.) e teve como consequências a morte de, aproximadamente, 60 milhões de pessoas e uma destruição material significativa. Referente à Idade Contemporânea, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Na década de 1960 aconteceram diversos Movimentos em termos Mundiais que buscavam a formas de vida mais simples ou até mesmo mais ecológicas. b) ( ) Uma ideia que foi ganhando espaço e debate em termos mundiais foi a preservação ambiental. O Movimento Ambiental ou ecológico, c) ( ) Maio de 1968 ficou marcado na história mundial como o mês em que estudantes demonstraram sua intenção de transformar o mundo. Influenciados por ideais anarquistas e marxistas, os estudantes franceses iniciaram protestos contra o sistema educacional francês e contra a sociedade religiosa da França. d) ( ) Na década de 1960, o movimento hippie apareceu disposto a oferecer uma visão de mundo inovadora e distante dos vigentes ditames da sociedade capitalista. Na maioria jovens, os hippies abandonavam suas famílias e o conforto de seu lar para se entregarem a uma vida regada por sons, drogas alucinógenas e a busca por outros padrões de comportamento. 2 Pierre Bourdieu foi um dos maiores pensadores das ciências humanas do século XX. Filósofo por formação desenvolveu importantes trabalhos de etnologia, no campo da antropologia, e conceitos de profunda relevância no campo da sociologia, como habitus, campo e capital social. Sua obra é extensa e abrangente, com contribuição para diversas áreas do conhecimento, especialmente na educação e cultura. Sobre Bourdieu, analise as sentenças a seguir: I- Em suas obras, Bourdieu tenta explicar a diversidade do gosto entre os seguimentos sociais, analisando a variedade das práticas culturais entre os grupos. II- Pierre Bourdieu foi considerado um dos mais importantes intelectuais de sua época. Tornou-se referência na Antropologia e na Sociologia, publicando trabalhos sobre educação, cultura, literatura, arte, mídia, linguística, comunicação e política. III- Crítico dos mecanismos de reprodução das desigualdades sociais, Pierre Bourdieu destaca em sua obra os condicionamentos materiais e simbólicos que agem sobre nós (sociedade e indivíduos) numa complexa relação de interdependência. 89
Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a sentença I está correta. b) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas. c) ( ) Somente a sentença II está correta. d) ( ) Somente a sentença III está correta. 3 Zygmunt Bauman foi um sociólogo, pensador, professor e escritor polonês, uma das vozes mais críticas da sociedade contemporânea. Criou a expressão Modernidade Líquida para classificar a fluidez do mundo onde os indivíduos não possuem mais padrão de referência. Sobre o conceito de modernidade líquida, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Zygmunt criou o termo modernidade líquida título de um livro seu publicado em 1960 para descrever as transformações do mundo contemporâneo, no qual nada é sólido: tudo se dilui no ar. b) ( ) Zygmunt criou o termo modernidade líquida, título de um livro seu publicado em 2000, para descrever as transformações do mundo contemporâneo, no qual nada é sólido: tudo se dilui no ar. c) ( ) A Modernidade pode ser definida dentre outras formas, como um período histórico que expressa, através da cultura da globalização e da sua ideologia neoliberal, uma estrutura econômica global que mascara as relações de desigualdade entre os povos das grandes potências econômicas e dos países periféricos. d) ( ) Uma coisa certa é que, num cenário líquido, rápido e de mudanças imprevisíveis, a educação deve ser pensada de forma imediata. 4 Zygmunt Bauman e Pierre Bourdieu são considerados dois grandes sociólogos da época contemporânea. Em seus estudos, defenderam diversos conceitos e dentre eles podem ser relacionados: tempos líquidos, mal-estar na pós-modernidade; poder e violência simbólica, habitus e campus. Com estes conceitos, buscavam melhor definir e explicar os fenômenos e fatos sociais que observavam. Diante disto, disserte sobre o contexto e os problemas sociais aos quais Bauman e Bourdieu remetiam suas análises, conceitos e reflexões. 5 O contexto escolar da sociedade contemporânea vivencia situações-problema. Isto exige uma compreensão da totalidade do ambiente escolar: as relações dentro e fora da sala de aula, a comunidade, a história dos indivíduos, entre outros fatores. Esta realidade exige dos profissionais da educação uma aproximação entre os conhecimentos da sociologia e da educação. Nesse sentido, disserte sobre as afinidades entre a sociologia e a educação e as contribuições que a sociologia pode trazer à educação. 90
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UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: compreender como se configuraram os principais conceitos dos processos culturais e ambientais em sociedade; identificar os principais conceitos de cultura presentes na sociedade; interpretar as relações inclusivas encontradas em sociedade; analisar as ações antrópicas e seus resultados para o meio ambiente e a relação com os processos educacionais tradicionais. PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA TÓPICO 2 DIVERSIDADE CULTURAL TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE CHAMADA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. 95
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UNIDADE 2 TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, vamos estudar três blocos de conteúdo. No primeiro entraremos no conceito de cultura e sua origem. Principais autores e obras, conceitos usados na pesquisa e entendimento do assunto abordado. De forma simples, a Cultura adquire diversos significados: grande conhecimento de determinado assunto, arte, ciência, "fulano de tal tem cultura". No entanto, aos olhos da Antropologia e da Sociologia, Cultura é tudo aquilo que resulta da criação humana. No segundo, veremos a relação de cultura e produção de identidade humana e como a identidade humana é construída nos processos culturais e sociais existentes. Em certo sentido, a identidade cultural é um conjunto híbrido e maleável (depende do momento e das peculiaridades culturais de uma determinada sociedade) de elementos que formam a cultura identitária de um povo, é a forma de reconhecer-se enquanto agrupamento cultural que se distingue dos outros. Por fim, abordaremos os processos de desconstrução da cultura moderna. Você vai compreender a importância da desconstrução de certas visões culturais para o avanço das sociedades democráticas. Desconstrução é um esforço de superação dos estereótipos e preconceitos que carregamos dentro de nós. É quebrar o conjunto de barreiras morais e culturais que nos impede de aceitar o diferente. 2 ORIGEM DO CONCEITO DE CULTURA Como ser histórico, o ser humano é um ser cultural, compreendendo e transformando a natureza ele a humaniza; reconhecendo o outro, ele se humaniza. Assim cria um mundo propriamente humano que é o mundo da cultura, o mundo histórico. Assim, a própria consciência humana, produto do trabalho humano, é também construída na história, ser consciente o ser humano surge em um mundo de cultura. Dentro das chamadas Ciências Sociais (Sociologia, Antropologia e Ciência Política), a Ciência que estuda e pesquisa a Cultura Humana de forma mais direta é a Antropologia, principalmente por meio de um dos seus ramos: a Antropologia Cultural. Outras Ciências também contribuem com a questão cultural, por exemplo a Sociologia com enfoque sobre a Cultura. 97
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO NOTA Antropologia é o estudo do homem como ser biológico, social e cultural. Sendo cada uma destas dimensões por si só muito ampla, o conhecimento antropológico geralmente é organizado em áreas que indicam uma escolha prévia de certos aspectos a serem privilegiados como a Antropologia Física ou Biológica (aspectos genéticos e biológicos do homem), Antropologia Social (organização social e política, parentesco, instituições sociais), Antropologia Cultural (sistemas simbólicos, religião, comportamento) e Arqueologia (condições de existência dos grupos humanos desaparecidos). Além disso podemos utilizar termos como Antropologia, Etnologia e Etnografia para distinguir diferentes níveis de análise ou tradições acadêmicas. FONTE: <https://antropologia.fflch.usp.br/antropologia>. Acesso em: 9 set. 2021. Cultura, de certa forma, são ideias, artefatos, costumes, leis, crenças morais e conhecimento adquirido a partir do convívio social etc. A palavra cultura tem origem no latim, é um verbo e significa ato de plantar e cultivar plantas ou realizar atividades agrícolas. Qual a origem do conceito de cultura com enfoque moderno? No final do século XVIII e no princípio do seguinte, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. Ambos os termos foram sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no vocábulo inglês Culture, que "tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade". Com essa definição, Tylor abrangia em uma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição à ideia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos (LARAIA, 2001, p. 25). 2.1 EDWARD BURNETT TYLOR (LONDRES 2 DE OUTUBRO DE 1832 WELLINGTON 2 DE JANEIRO DE 1917) Foi um antropólogo britânico, irmão do geólogo Alfred Tylor. Edward Tylor filia-se à escola antropológica do evolucionismo social. Considerado o pai do conceito moderno de cultura, Tylor vê, porém, a cultura humana como única, pois defende que os diferentes povos sofreriam convergência de suas práticas culturais ao longo de seu desenvolvimento, ideia que não é consenso hoje em dia. Sua principal obra é Primitive Culture (1871). 98
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA FIGURA 1 EDWARD BURNETT TYLOR FONTE: <https://bit.ly/2yjegcg>. Acesso em: 20 abr. 2021. Portanto, acadêmico, o conceito de Cultura, pelo menos como utilizado atualmente, foi definido pela primeira vez por Tylor, como sugere Laraia (2001, p. 30): A primeira definição de cultura que foi formulada do ponto de vista antropológico, como vimos, pertence a Edward Tylor, no primeiro parágrafo de seu livro Primitive Culture (1871). Tylor procurou, além disto, demonstrar que cultura pode ser objeto de um estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural que possui causas e regularidades, permitindo um estudo objetivo e uma análise capazes ele proporcionar a formulação de leis sobre o processo cultural e a evolução. Como Tylor apresentava a cultura e sua diversidade em suas pesquisas? Mais do que preocupado com a diversidade cultural, Tylor a seu modo preocupa-se com a igualdade existente na humanidade. A diversidade é explicada por ele como o resultado da desigualdade de estágios existentes no processo de evolução. Assim, uma das tarefas da antropologia seria a de "estabelecer, grosso modo, uma escala de civilização", simplesmente colocando as nações europeias em um dos extremos da série e em outro as tribos selvagens, dispondo o resto da humanidade entre dois limites (LARAIA, 2001, p. 31). Percebam que Tylor pensava as instituições humanas tão distintamente estratificadas. Elas se sucedem em séries substancialmente homogêneas por todo o planeta, independentemente de raça e linguagem, diferenças essas que são comparativamente superficiais, mas moduladas por uma natureza humana semelhante, atuando através das condições sucessivamente mutáveis da vida selvagem, bárbara e civilizada. 99
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO NOTA Charles Robert Darwin ( Shrewsbury, 12 de fevereiro de 1809 Downe, 19 de abril de 1882) foi um naturalista, geólogo e biólogo britânico, célebre por seus avanços sobre evolução nas ciências biológicas. Juntamente com Alfred Wallace, Darwin estabeleceu a ideia que todos os seres vivos descendem de um ancestral em comum, argumento agora amplamente aceito e considerado um conceito fundamental no meio científico, e propôs a teoria de que os ramos evolutivos são resultados de seleção natural e sexual, onde a luta pela sobrevivência resulta em consequências similares às da seleção artificial. FONTE: <https://bit.ly/3bzidms>. Acesso em: 23 mar. 2021. Qual a relação do pensamento de Tylor com a Teoria de Darwin? Para entender Tylor, é necessário compreender a época em que viveu e consequentemente o seu background intelectual. O seu livro foi produzido nos anos em que a Europa sofria o impacto da Origem das espécies, de Charles Darwin, e que a nascente antropologia foi dominada pela estreita perspectiva do evolucionismo unilinear. A década de 60 do século XIX foi rica em trabalhos desta orientação. Uma série de estudiosos tentou analisar, sob esse prisma, o desenvolvimento das instituições sociais, buscando no passado as explicações para os procedimentos sociais da atualidade (LARAIA, 2001, p.31) O pensamento de Tylor mostra que a cultura desenvolve-se de maneira uniforme, e se espera que cada sociedade tenha percorrido as etapas que já tinham sido percorridas pelas sociedades mais avançadas". Dessa maneira era fácil estabelecer uma escala evolutiva que não deixava de ser um processo discriminatório, através do qual as diferentes sociedades humanas eram classificadas hierarquicamente, com nítida vantagem para as culturas europeias. Etnocentrismo e Ciência, marchavam então de mãos dadas. 100
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA NOTA ETNOCENTRISMO Etnocentrismo é um conceito antropológico, segundo o qual a visão ou avaliação que um indivíduo ou grupo de pessoas faz de um grupo social diferente do seu é apenas baseada nos valores, referências e padrões adotados pelo grupo social ao qual o próprio indivíduo ou grupo fazem parte. Essa avaliação é, por definição, preconceituosa, feita a partir de um ponto de vista específico. Basicamente, encontramos em tal posicionamento um grupo étnico considerar-se como superior a outro. Do ponto de vista intelectual, etnocentrismo é a dificuldade de pensar a diferença, de ver o mundo com os olhos dos outros. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3c3jelj>. Acesso em: 23 mar. 2021. 2.2 FRANZ URI BOAS (MINDEN, 9 DE JULHO DE 1858 NOVA IORQUE, 21 DE DEZEMBRO DE 1942) Foi um antropólogo teuto-americano, um dos pioneiros da antropologia moderna que tem sido chamado de Pai da Antropologia Americana. FIGURA 2 FRANZ URI BOAS FONTE: <https://bit.ly/3ta34n9>. Acesso em: 23 mar. 2021. Qual foi a principal reação à corrente evolucionista da Antropologia? A principal reação ao evolucionismo, então denominado método comparativo, inicia-se com Franz Boas inicialmente um estudante de física e geografia em Heidelberg e Bonn. Uma expedição geográfica a Baffin Land (1883-1884), que o colocou em contato com os esquimós, mudou o curso de sua vida, transformando-o em antropólogo. Tal fato provocou, também, a sua mudança para os Estados Unidos, onde foi responsável pela formação de toda uma geração de antropólogos. Aposen- 101
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO tou-se, em 1936, pela Universidade de Columbia, da cadeira que hoje tem o seu nome. A sua crítica ao evolucionismo está, principalmente, contida em seu artigo "The Limitation of the Comparative Method of Anthropology", no qual atribuiu a antropologia a execução de duas tarefas: A) a reconstrução da história de povos ou regiões particulares; B) a comparação da vida social de diferentes povos, cujo desenvolvimento segue as mesmas leis (LARAIA, 2001, p.32) Franz Boas em seus escritos também insistiu na necessidade de ser comprovada, antes de tudo, a possibilidade de os dados serem comparados. Propôs em lugar do método comparativo puro e simples, a comparação dos resultados obtidos através dos estudos históricos das culturas simples e da compreensão dos efeitos das condições psicológicas e dos meios ambientes. São as investigações históricas, reafirma Boas, o que convém para descobrir a origem deste ou daquele traço cultural e para interpretar a maneira pela qual toma lugar num dado conjunto sociocultural. Em outras palavras, Boas desenvolveu o particularismo histórico (ou a chamada Escola Cultural Americana), segundo a qual cada cultura segue os seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou. A partir daí a explicação evolucionista da cultura só tem sentido quando ocorre em termos de uma abordagem multilinear (LARAIA, 2001, p. 33). Outro grande pesquisador que em sua obra caracterizou-se pela profundidade teórica e amplitude dos temas tratados, que abrangiam desde os sistemas classificatórios de parentesco, categorias linguísticas, estilos de arte, mudança cultural, linguagem por sinais, contos épicos e até mesmo a moda feminina. Teve enorme influência sobre os investigadores do seu tempo e deixou alguns ensaios de grande importância, estamos falando de Alfred Kroeber. 2.3 ALFRED LOUIS KROEBER (HOBOKEN, 11 DE JUNHO DE 1876 PARIS, 5 DE OUTUBRO DE 1960) Foi um antropólogo estadunidense. Após formar-se em inglês pela Universidade de Columbia, em 1897, estudou antropologia com Franz Boas e em 1901 apresentou tese sobre o simbolismo decorativo dos Arahapo, tribo indígena de Montana. No mesmo ano fundou o Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, ao qual ficou ligado até aposentar-se, em 1946. Foi depois professor visitante em diversas Universidades norte-americanas (Chicago, Columbia, Harvard e Yale). 102
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA FIGURA 3 ALFRED LOUIS KROEBER FONTE: <https://bit.ly/2xcence>. Acesso em: 23 mar. 2021. Portanto, Kroeber tinha um campo de pesquisa amplo, incluindo desde os índios da Califórnia, até estudos sobre índios das planícies e do povo primitivo zuñi. Seus interesses e competência eram mais abrangentes que os de qualquer outro antropólogo norte-americano de sua época. Alfred Kroeber (1876-1960), antropólogo americano, em seu artigo "O superorgânico" mostrou como a cultura atua sobre o homem, ao mesmo tempo em que se preocupou com a discussão de uma série de pontos controvertidos, pois suas explicações contrariam o conjunto de crenças populares. Iniciou, como o título de seu trabalho indica, com a demonstração de que graças à cultura a humanidade distanciou-se do mundo animal. Mais do que isto, o homem passou a ser considerado um ser que está acima de suas limitações orgânicas (LARAIA, 2001, p. 33). Para Kroeber, o ser humano pode ser considerado o resultado do meio cultural? Laraia (2001, p. 33) afirma que sim. O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Essas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade. Kroeber (apud Laraia, 2001, p. 34) contribuiu para a ampliação do conceito de Cultura e pode ser relacionada nos seguintes pontos: QUADRO 1 CONCEITO DE CULTURA A cultura, mais do que a herança genética, determina o comportamento do homem e justifica as suas realizações. O homem age de acordo com os seus padrões culturais. Os seus instintos foram parcialmente anulados pelo longo processo evolutivo pelo qual passou. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes ambientes ecológicos. Em vez de modificar para isso o seu aparato biológico, o homem modifica o seu equipamento superorgânico. 103
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO Em decorrência da afirmação anterior, o homem foi capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e transformar toda a terra em seu hábitat. Adquirindo cultura, o homem passou a depender muito mais do aprendizado do que a agir através de atitudes geneticamente determinadas. Como já era do conhecimento da humanidade, desde o Iluminismo, é esse processo de aprendizagem (socialização ou endoculturação, não importa o termo) que determina o seu comportamento e a sua capacidade artística ou profissional. A cultura é um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores. Esse processo limita ou estimula a ação criativa do indivíduo. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes que têm a oportunidade de utilizar o conhecimento existente ao seu dispor, construído pelos participantes vivos e mortos de seu sistema cultural, e criar um novo objeto ou uma nova técnica. Nessa classificação podem ser incluídos os indivíduos que fizeram as primeiras invenções, tais como o primeiro homem que produziu o fogo através do atrito da madeira seca; ou o primeiro homem que fabricou a primeira máquina capaz de ampliar a força muscular, o arco e a flecha etc. São eles gênios da mesma grandeza de Santos Dumont e Einstein. Sem as suas primeiras invenções ou descobertas, hoje consideradas modestas, não teriam ocorrido as demais. E pior do que isso, talvez nem mesmo a espécie humana teria chegado ao que é hoje. FONTE: Kroeber (apud Laraia, 2001, p. 34) NOTA O superorgânico é outro modo de descrever e compreender a cultura ou o sistema sociocultural. Se começarmos com o inorgânico, é o universo físico, todos os átomos dos elementos sem vida. Podemos chamar isso o mais baixo nível de complexidade. O segundo nível de complexidade é composto das coisas vivas. A cultura e a sociedade compõem o terceiro nível. Os seres humanos são animais, e, dessa forma, são sistemas orgânicos. Eles desenvolveram comunicações entre eles próprios a um nível complexo, muito mais sofisticado do que outros animais. Essa complexidade associa os humanos em comunidades e sociedades. Essas associações são simbólicas, não genéticas como nos sistemas biológicos. O nível socioeconômico, cultura ou sociedade, é desse modo transportado por humanos e transcende os humanos. Uma cultura tem uma "vida própria" que é simbólica em vez de genética. É, desse modo, uma coisa "viva". Opera a um nível mais elevado de complexidade que o orgânico. É superorgânico (BARTLE, 2012). Como é realizada a atuação da Cultura e de que forma a Cultura molda a vida das pessoas? Laraia (2001) destaca as seguintes características e elementos: 104
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA QUADRO 2 CARACTERÍSTICAS 1- A Cultura Condiciona a Visão de Mundo do Homem Ruth Benedict escreveu em seu livro o crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas. A nossa herança cultural, desenvolvida através de inúmeras gerações, sempre nos condicionou a reagir depreciativamente com relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. O modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim produtos de uma herança cultural, ou seja, o resultado da operação de uma determinada cultura. Podemos entender o fato de que indivíduos de culturas diferentes podem ser facilmente identificados por uma série de características, tais como o modo de agir, vestir, caminhar, comer, mencionar a evidência das diferenças linguísticas, o fato de mais imediata observação empírica. O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. Tal tendência, denominada etnocentrismo, é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais (LARAIA, 2001, p 69-77). 2- A Cultura interfere no plano biológico A reação oposta ao etnocentrismo, é a apatia. Em lugar da superestima dos valores de sua própria sociedade, numa dada situação de crise os membros de uma cultura abandonam a crença nesses valores e, consequentemente, perdem a motivação que os mantém unidos e vivos. Diversos exemplos dramáticos desse tipo de comportamento anômico são encontrados em nossa própria história (LARAIA, 2001, p. 77-82). 3- Os indivíduos participam diferentemente de sua cultura A participação do indivíduo em sua cultura é sempre limitada; nenhuma pessoa é capaz de participar de todos os elementos de sua cultura. Esse fato é tão verdadeiro nas sociedades complexas com um alto grau de especialização, quanto nas simples, onde a especialização refere-se a penas às determinadas pelas diferenças de sexo e de idade. Qualquer que seja a sociedade, não existe a possibilidade de um indivíduo dominar todos os aspectos de sua cultura. Isto porque, nenhum sistema de socialização é idealmente perfeito, em nenhuma sociedade são todos os indivíduos igualmente bem socializados, e ninguém é perfeitamente socializado. Um indivíduo não pode ser igualmente familiarizado com todos os aspectos de sua sociedade; pelo contrário, ele pode permanecer completamente ignorante a respeito de alguns aspectos. O importante, porém, é que deve existir um mínimo de participação do indivíduo na pauta de conhecimento da cultura a fim de permitir a sua articulação com os demais membros da sociedade. Todos necessitam saber como agir em determinadas situações e, também, como prever o comportamento dos outros (LARAIA, 2001, p. 82). 105
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO 4- A Cultura tem uma lógica própria Todo sistema cultural tem a sua própria lógica e não passa de um ato primário de etnocentrismo tentar transferir a lógica de um sistema para outro. Infelizmente, a tendência mais comum é de considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir aos de mais um alto grau de irracionalismo. A coerência de um hábito cultural somente pode ser analisada a partir do sistema a que pertence. Todas as sociedades humanas dispõem de um sistema de classificação para o mundo natural parece não haver mais dúvida, mas é importante reafirmar que esses sistemas divergem entre si porque a natureza não tem meios de determinar ao homem um só tipo taxionômico. Finalmente, entender a lógica de um sistema cultural depende da compreensão das categorias constituídas pelo mesmo. Como categorias entendemos, como Marcel Mauss, "esses princípios de juízos e raciocínios... constantemente presentes na linguagem, sem que estejam necessariamente explícitas, elas existem ordinariamente, sobretudo sob a forma de hábitos diretrizes da consciência, elas próprias inconscientes (LARAIA, 2001, p. 90-98). 5- A Cultura é Dinâmica Podemos agora afirmar que existem dois tipos de mudança cultural: uma que é interna, resultante da dinâmica do próprio sistema cultural, e uma segunda que é o resultado do contato de um sistema cultural com um outro. No primeiro caso, a mudança pode ser lenta. O segundo caso pode ser mais rápido e brusco. Cada sistema cultural está sempre em mudança. Entender essa dinâmica é importante para atenuar o choque entre as gerações e evitar comportamentos preconceituosos. Da mesma forma que é fundamental para a humanidade a compreensão das diferenças entre povos de culturas diferentes, é necessário saber entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema. Esse é o único procedimento que prepara o homem para enfrentar serenamente este constante e admirável mundo novo por vir (LARAIA, 2001, p. 98-105). FONTE: Adaptado de Laraia (2001, p. 98-105) Quais principais autores, obras, características e pensamentos que permearam a produção do conceito e temas relacionados à cultura? Barraqui (2018) sugere o seguinte: A) O CONCEITO DE CULTURA: O Universo da Cultura I. Alfred Kroeber (1876-1960): Cultura como mecanismo adaptativo, acumulativo, transmissivo de geração em geração, ao longo da história. 106
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA II. Bronislaw Malinowski (1884-1942): Cultura como significados e valores. Só é possível compreender a cultura quando se é integrante dela. Propõe que o pesquisador se insira dentro da cultura. III. Roberto DaMatta (1936-): Noção prescritiva de cultura: cultura como uma espécie de receituário, um código uma espécie de mapa que, ao ser seguido, nos torna humanos. IV. Ruth Benedict (1887-1984): Noção descritiva: cultura é o que nos descreve como humanos. Não é possível falar em humanidade sem cultura. FONTE: Adaptado de Barraqui (2018) B) A CULTURA DA ANTIGUIDADE À MODERNIDADE: I. Grécia e Roma: Cultura como um sistema de valores universais. Bárbaro conceito utilizado pelos gregos e romanos para quaisquer povos que não fossem originários de sua cultura. Visão etnocêntrica. 107
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO II. Iluminismo: Cultura assume um caráter hierarquizante (como se houvesse uma cultura superior a outra). Relacionada ao conhecimento científico, à evolução e ao progresso. Cultura se refere ao cultivo do espírito humano ao adquirir educação e instrução com pressuposto na razão. Estado de cultura se opõe ao estado de natureza. Visão universalista todas as culturas se desenvolvem da mesma forma em direção a um mesmo objetivo: a civilização. Hierarquiza: concebe o modelo de sociedade europeia do século XVIII (urbana, industrializada, republicana e democrática) como superior. Cultura como civilizadora. FONTE: Adaptado de Barraqui (2018) III. Civilização e cultura A noção de civilização está atrelada ao progresso. Kultur Para os alemães é aquilo que os indivíduos têm de mais autêntico (hábitos, costumes, habilidades, tradições). Aspectos únicos e particulares de uma comunidade. Civilization Para os franceses é um padrão universal de comportamento ligado a identidade cultural. 108
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA Culture para Edward Tylor (1832-1917), antropólogo inglês, é toda a gama de conhecimentos, crenças, produções artísticas, leis, moral, ou seja, todos os aspectos simbólicos que envolve a vida em sociedade. C) O CARÁTER SIMBÓLICO DA CULTURA O ser humana se caracteriza pela capacidade de abstração e simbolização. Comportamento humano se baseia em símbolos (escrita, gestos, placas de trânsito, ritos, valores). Cultura é a produção, reprodução e manutenção de símbolos ao longo da história. D) EVOLUCIONISMO CULTURAL I. Definição: Conjunto de teorias antropológicas, inspiradas na Teoria Evolucionista de Charles Darwin. Sociedade funcionaria como um organismo vivo (visão organicista). Uso de leis naturais e conceitos das ciências naturais para explicar a sociedade. II. Autor e obra: Edward Tyler - Primitive Culture (1871) Cultura como um fenômeno natural. Os grupos humanos se diferenciam apenas pelo grau de civilização (assim quando comparada a civilização europeias, as demais civilizações sempre eram atrasadas / servil de base para a missão civilizadora do imperialismo do séc. XIX e XX). Uso do método comparativo linear (como se todas as civilizações caminhassem em uma mesma linha evolutiva. E) DIFUSIONISMO CULTURAL I. Conceito: Corrente de pensamento que defende que a cultura é fruto de irradiação por meio do contato (comércio, guerras) entre os povos o que leva a imitação, reprodução, reelaboração (sincretismo). 109
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO F) ANTROPOLOGIA ESTRUTURALISTA I. Conceito: Defende a existência de uma estrutura simbólica, linguística, e mítica comuns a toda a humanidade. II. Autor e obra: Claude Lévi-Strauss (1908-2009) Antropologia Estrutural (1967). Defendia a existência de estruturas mentais universais. Ex. Tabu do incesto : todas as culturas apresentam algum tipo de condenação a prática do incesto (esse elemento em comum expressa uma estrutura mental). Todas as culturas operam em estruturas binárias (masculino x feminino, céu x inferno, morte x vida, frio x quente, belo x feio). G) O CULTURALISMO I. Conceito: Teoria que defende que cada cultura segue seu próprio processo evolutivo. Questionou as bases do evolucionismo cultural e significou uma crítica ao etnocentrismo, ao racismo e as formas de dominação cultural. II. Autor: Franz Boas (1859-1942). Cada cultura passa pelo seu processo evolutivo que está intimamente ligada às condições geográficas, climáticas, psicológicas e históricas. Cada cultura deve ser compreendida dentro de sua história particular. H) CULTURA TRADICIONAL, CULTURA ERUDITA E CULTURA DE MASSAS I. Cultura Tradicional Também chamada de cultura popular é aquela produzida e reproduzida pela camada dominada. 110
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA Encontra-se no folclore, nas crenças, tradições, habilidades e costumes, bem como valores morais e na linguagem. II. Cultura Erudita É aquela produzida pela camada dominante da sociedade. Caracterizada pela erudição, letramento, fundamentada na ciência e racionalidade aos moldes do pensamento iluminista. III. Cultura de Massas Absorvida por maior parte dos indivíduos de uma sociedade. Fator mercadológico, seguindo a lógica do capitalismo de mercado e do consumismo. I) CAPITAL CULTURAL E CAPITAL SIMBÓLICO I. Conceito: Elementos da cultura sendo utilizados como instrumentos de poder econômico, social e político. Ex.: Quanto mais cultura eu acumulo, mais culto sou. Quanto mais diplomas acúmulo, maior meu status. J) ANTROPOLOGIA E CULTURA NO BRASIL I. Contexto Histórico: Décadas de 1930 e 1940. Expedições do Marechal Cândido Rondon. Governo Vargas pretensão de unificar o território sob o prisma de uma única cultura nacional brasileira (índio como atrasado que precisava ser civilizado). Influência do culturalismo de Franz Boas e do estruturalismo de Claude Lévi-Strauss. II. Principais autores e obras: 1) Luís Câmara Cascudo (1898-1986) Dicionário do Folclore Brasileiro (1952) Se esforçou para registrar as práticas culturais, comidas típicas, o folclore, os mitos e lendas regionais brasileiras. 111
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO 2) Eduardo Viveiros de Castro (1951-) A inconstância da alma selvagem Estudo detalhado das manifestações culturais dos indígenas atuais. 3) Gilberto Velho (1945-2012) "A Utopia Urbana: um estudo de antropologia social" (1973) Estudou a complexa relação entre o indivíduo, sociedade e modo de vida urbano. Analisou fenômenos como violência nos grandes centros urbanos, práticas culturais dos grupos juvenis, o individualismo, o consumismo e as relações familiares. 4) Luis Eduardo Soares (1954-) Elite da Tropa (2006) Interpretou a relação entre a violência, a criminalidade, a mídia e o Estado. Nos mostra como que o próprio poder político corrompido produz e sustenta a criminalidade. Nos mostra como que a mídia ajuda a propagar a violência por intermédio do sensacionalismo. 5) Roberto DaMatta (1936-) Carnavais, malandros e heróis (1979) Estudou o carnaval e seus significados, a figura do malandro, o jeitinho brasileiro e a prática do você sabe com quem está falando? K) INTÉRPRETES DO BRASIL I. Principais autores e obras: 1) Gilberto Freyre (1900-1987) Casa grande e Senzala (1932) Estudou a formação histórica e social do Brasil desde o período colonial. Sociedade brasileira resultado da mestiçagem. 2) Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) Raízes do Brasil (1936) Conceito do homem cordial, como característica marcante da alma brasileira. O homem que valoriza mais a emoção do que a razão. Tese de que o brasileiro seria mais cordial, mais afável, amigável, submetido a paixões; tende a valorizar mais as relações familiares e afetivas; mais festivo e hospitaleiro; daria mais importância ao domínio privado do que o público. 112
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA No país da malandragem, o jeitinho brasileiro teria como tragédia maior a corrupção. 3) Darcy Ribeiro (1922-1997) O povo brasileiro (1997) Estudou a formação da sociedade brasileira a partir das três matrizes: nativo (índio), negro (africano) e o branco (europeu). Demonstra como esse caldeirão cultural foi marcado tanto por relações amistosas quanto por conflitos, violência e relação de dominação. OBS.: Ambos os autores são duramente criticados pelas explicações reducionistas e generalizantes. L) PATRIMÔNIO CULTURAL MATERIAL E IMATERIAL O Patrimônio Cultural pode ser definido como um bem (ou bens) de natureza material e imaterial considerado importante para a identidade da sociedade brasileira. Segundo Artigo 216 da Constituição Federal, configuram patrimônio "as formas de expressão; os modos de criar; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; além de conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico". O patrimônio cultural pode ser material ou imaterial. I. PATRIMÔNIO CULTURAL MATERIAL É formado por um conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e das artes aplicadas. Eles estão divididos em bens imóveis núcleos urbanos, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais e móveis coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos. II. PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL Estão relacionados aos saberes, às habilidades, às crenças, às práticas, ao modo de ser das pessoas. Ex.: Festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, a Feira de Caruaru, o Frevo, a capoeira, o modo artesanal de fazer Queijo de Minas e as matrizes do Samba no Rio de Janeiro. FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3hfsarp>. Acesso em:1 set. 2021. 113
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO A cultura traz para a sociedade conhecimento e riqueza sem igual. O acesso ao lazer, conhecimento, prazer, e diversos bens que para as pessoas tem grande relevância. Quando bem trabalhada pode se tornar algo que faça parte da vida e do cotidiano do todo. Tornando rotineiro o acesso a novas tradições e ideologias. Nosso próximo assunto abordará a relação cultura e identidade. 3 CULTURA E IDENTIDADE Em certo sentido, a identidade cultural é um conjunto híbrido e maleável (depende do momento e das peculiaridades culturais de uma determinada sociedade.) de elementos que formam a cultura identitária de um povo. É a forma de reconhecer-se enquanto agrupamento cultural que se distingue dos outros. Um dos grandes desafios para se manter a Identidade Cultural dos grupos sociais. Atualmente, é a globalização, que determina padrões culturais baseados principalmente na cultura estadunidense, que tem se tornado hegemônica no mundo. O que é a Identidade Cultural? O professor e pesquisador Porfirio (2020, s.p.) responde: A palavra identidade está associada, historicamente, ao que algo é. Na Filosofia, a essência é a definição do que algo é, ou seja, a identidade é a definição da essência. A identidade cultural não está distante da definição de identidade, pois ela é a identificação essencial da cultura de um povo. O que um povo produz linguística, religiosa, artística, científica e moralmente compõe o seu conjunto de produção cultural. Esse conjunto tende a seguir certos padrões dentro de sociedades, o que cria um aspecto identitário para as culturas de determinadas sociedades. A identidade cultural é, justamente, esse padrão que identifica uma produção cultural a certo grupo social. Por exemplo, podemos associar certos tipos de roupas e um ritmo musical específico à cultura hip hop, que surgiu nos centros urbanos a partir da década de 1980. Também identificamos algumas pinturas corporais como dos índios habitantes das aldeias indígenas brasileiras, assim como e identificamos as flautas feitas de bambu tocadas em certos ritmos com os nativos do território boliviano. A identidade cultural funciona, portanto, criando laços que ligam certos elementos a povos específicos. Qual a importância da preservação da identidade cultural no século XXI? 114
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA A importância da identidade cultural no século XXI FONTE: Adaptado de Porfirio (2020) A preservação da identidade cultural é necessária em meio à homogeneidade cultural do mundo globalizado. O século XXI vivencia o ápice da globalização. O fenômeno da globalização começou com força na década de 1960, período da Guerra Fria (quando Estados Unidos e União Soviética disputavam a hegemonia do poder político no mundo). Com o fim da União Soviética, no final da década de 1980, o capitalismo estadunidense passou a dominar as relações comerciais e políticas. Com isso, houve uma invasão da cultura norte-americana em países da América do Sul, países africanos e países orientais. Essa invasão da cultura norteamericana como modo cultural hegemônico ocasionou uma mudança de perspectiva, que colocou o hábito cultural imposto no lugar do hábito cultural tradicional. Podemos perceber, por exemplo, que o gosto musical dos brasileiros mudou ao longo dos tempos. Se até a década de 1960 os brasileiros consumiam mais uma música brasileira de origem regional, a partir dessa década, passouse a ouvir mais músicas estrangeiras. Com o fenômeno da importação de filmes e programas televisivos dos Estados Unidos e, a partir dos anos 2000, com o advento da popularização da internet, a música consumida pela população brasileira sofreu uma influência norte-americana muito maior. FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3nlmrdy>. Acesso em: 31 ago. 2021. 4 EXEMPLOS DE IDENTIDADE CULTURAL É difícil delinear exemplos claros de identidade cultural, visto que a cultura é um termo muito amplo e maleável. No entanto, alguns aspectos culturais podem ser separados e postos como exemplos de elementos identitários de determinadas culturas. Listamos a seguir, com base em Porfirio (2020), alguns exemplos de identidade cultural que são associados a algumas culturas: 115
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO Religiosidade: as diversas religiões são elementos identitários de certos grupos culturais. Cristãos (católicos, protestantes ou espíritas), judeus, muçulmanos, candomblecistas, budistas, hinduístas, ou qualquer outra denominação religiosa, compreendem grupos identitários que se relacionam a determinadas culturas. Artes plásticas: os artefatos produzidos por artistas plásticos e artesãos também são fortes elementos de identidade cultural de um povo. Os adereços corporais, a pintura e a escultura podem representar de maneira efetiva uma cultura. Música: é um elemento de identidade cultural muito eficaz. De acordo com o ritmo ou com os instrumentos utilizados, é possível estabelecer de onde a música se originou, havendo uma noção de identidade cultural implícita nessa relação. A música sertaneja composta por viola caipira, por exemplo, remete ao sertão do Brasil, enquanto os ritmos rápidos com tambores e chocalhos remetem aos ritmos africanos ou de origem africana. Culinária: forte elemento de identidade cultural. É comum associarmos as massas à culinária italiana, o bacalhau à culinária portuguesa, o sushi à culinária japonesa, a paella à culinária espanhola, a feijoada à culinária brasileira e a cerveja à culinária alemã. Os hábitos culinários dizem muito a respeito da cultura em questão. FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3nlmrdy>. Acesso em: 31 ago. 2021. Em síntese, o conceito de identidade cultural se relaciona com à construção identitária de cada indivíduo em seu contexto cultural. A identidade cultural está relacionada com a forma como vemos o mundo exterior e como nos posicionamos em relação a ele. Esse processo é contínuo e dialético, o que significa que a identidade de um sujeito está sempre sujeita a mudanças. NOTA Identidade Nacional A identidade nacional, é uma condição social, cultural e espacial. Trata-se de características que têm uma relação com um entorno político uma vez que, em geral, as nações estão associadas a um Estado (ainda que não seja sempre assim). O conceito de identidade nacional só começou a ganhar força no século XIX, quando surgiu a noção de nação. Identidade Étnica Etnia = Processo de identificação de um grupo sociocultural Resultado de fatores historicamente construídos: ancestralidade, organização social, língua e religião; IMPERIALISMOS opressão, exclusão, exploração, aculturação! 116
TÓPICO 1 CONCEITO DE CULTURA Identidade Cultural A identidade cultural se constrói de forma múltipla e dinâmica. A identidade cultural é um conjunto vivo de relações sociais e patrimônios simbólicos historicamente compartilhados que estabelece a comunhão de determinados valores entre os membros de uma sociedade. Sendo um conceito de trânsito intenso e tamanha complexidade, podemos compreender a constituição de uma identidade em manifestações que podem envolver um amplo número de situações que vão desde a fala até a participação em certos eventos. 5 CULTURA E DESCONSTRUÇÃO Historicamente, os processos de colonização ocidentais etnocêntricos, apoiados por ideologias dominantes e de extermínio étnico, constituíram abismos profundos a partir de visões de mundo daqueles que dominavam sobre aqueles que eram dominados. Dessa forma, a diversidade cultural era negada e silenciada por meio das formas mais variadas e cruéis de poder e da produção do conhecimento, alicerçadas num racionalismo positivista, discriminatório e segregador. A diferença era vista como atraso e deveria ser aniquilada ou domesticada. Nas últimas décadas, com os processos democráticos em desenvolvimento em vários contextos sociais, a diversidade cultural vem tomando visibilidade no cotidiano das lutas sociais e pelos direitos humanos. Todavia, os conflitos e tensões continuam e sinalizam que ainda estamos longe de uma utopia de igualdade e de reconhecimento desse pluralismo sociocultural que colore a vida, tanto nas instituições como nas políticas públicas e na produção do conhecimento. Assim, a diversidade não pode ser negada ou silenciada como outrora foi e era percebida como obstáculo ou resistência ao projeto de hegemonia tanto econômico como ideológico. Dessa forma, em nossa contemporaneidade, as lutas dos grupos sociais minoritários formam redes de apoio e de sustentabilidade das formas mais variadas e clamam posicionamentos políticos e identitários. O reconhecimento dessa diversidade cultural e social, a partir das agendas que os movimentos sociais perfilam, são complexos e híbridos. Justiça social e igualdade de direitos ainda são temas em diversos contextos políticos e acadêmicos que assolam movimentos e grupos minoritários no capitalismo neoliberal. A multiplicidade de manifestações culturais e saberes populares ou indígenas com a infinidade de grupos minoritários sejam eles étnicos, sexuais ou de gênero, ainda formam um conjunto de lutas e manifestações pela garantia de seus direitos civis e culturais. Um conceito se torna presente nestes tempos atuais: Desconstrução. Segundo Guidolin e Michelman (2017, s.p.), trata-se de: Conceito apropriado da filosofia, que reverbera não apenas nos ambientes universitários, mas também nas periferias e nas escolas. Desconstrução é um esforço de superação dos estereótipos e preconcei- 117
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO tos que carregamos dentro de nós. É quebrar o conjunto de barreiras morais e culturais que nos impede de aceitar o diferente, oprimindo o outro e criando um ambiente de hostilidade que gera violência velada ou explícita. Machismo, homofobia, racismo e outras formas de preconceito são desconstruídos em um processo contínuo que evolui e não necessariamente se completa. Dessa forma, a desconstrução tem um potencial transformador e pode abrir um mundo diferente conforme essa nova geração aceita esse desafio. Contudo, não podemos subestimar que novas formas de dominação e de violência preconizadas pela cultura globalizante e hegemônica por meio das mais refinadas e abrangentes promessas do individualismo narcisista contra as minorias sociais e culturais ainda presentes na atual sociedade humana. Essa configuração de manifestações e lutas constitui o hibridismo social que faz parte de nossa sociedade contemporânea, que nos obriga a revisar e reconsidera novas políticas sociais de legitimidade desse pluralismo em curso e de movimentos de desconstrução cultural de processos que envolvem a superação estereótipos e preconceitos, do racismo, do machismo, da homofobia, entre outros, e, sem sombra de dúvida, nos aponta para a necessidade da produção de um conhecimento interdisciplinar que possa nos ajudar para compreender e desejar a possível liberdade humana. 118
RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: Como ser histórico, o ser humano é um ser cultural, compreendendo e transformando a natureza ele a humaniza; reconhecendo o outro, ele se humaniza. Assim cria um mundo propriamente humano que é o mundo da cultura, o mundo histórico. Ruth Benedict escreveu em seu livro O crisântemo e a espada que a cultura é como uma lente através da qual o homem vê o mundo. Homens de culturas diferentes usam lentes diversas e, portanto, têm visões desencontradas das coisas. A nossa herança cultural, desenvolvida através de inúmeras gerações, sempre nos condicionou a reagir depreciativamente em relação ao comportamento daqueles que agem fora dos padrões aceitos pela maioria da comunidade. Em certo sentido, a identidade cultural é um conjunto híbrido e maleável (depende do momento e das peculiaridades culturais de uma determinada sociedade.) de elementos que formam a cultura identitária de um povo, é a forma de reconhecer-se enquanto agrupamento cultural que se distingue dos outros. O conceito de identidade cultural se relaciona com à construção identitária de cada indivíduo em seu contexto cultural. A identidade cultural está relacionada com a forma como vemos o mundo exterior e como nos posicionamos em relação a ele. Esse processo é contínuo e dialético, o que significa que a identidade de um sujeito está sempre sujeita a mudanças. Historicamente os processos de colonização ocidentais etnocêntricas apoiados por ideologias dominantes e de extermínio étnico, constituíram abismos profundos a partir de visões de mundo daqueles que dominavam sobre aqueles que eram dominados. Dessa forma, a diversidade cultural era negada e silenciada por meio das formas mais variadas e cruéis de poder e da produção do conhecimento, alicerçadas num racionalismo positivista, discriminatório e segregador. A diferença era vista como atraso e deveria ser aniquilada ou domesticada. Nas últimas décadas, com os processos democráticos em desenvolvimento em vários contextos sociais, a diversidade cultural vem tomando visibilidade no cotidiano das lutas sociais e pelos direitos humanos. Todavia, os conflitos e tensões continuam e sinalizam que ainda estamos longe de uma utopia de igualdade e de reconhecimento desse pluralismo sociocultural que colore a vida, tanto nas instituições como nas políticas públicas e na produção do co- 119
nhecimento. Assim, a diversidade não pode ser negada ou silenciada como outrora foi. Onde ela era percebida como obstáculo ou resistência ao projeto de hegemonia tanto econômico como ideológico. Desconstrução é um esforço de superação dos estereótipos e preconceitos que carregamos dentro de nós. É quebrar o conjunto de barreiras morais e culturais que nos impede de aceitar o diferente, oprimindo o outro e criando um ambiente de hostilidade que gera violência velada ou explícita. Machismo, homofobia, racismo e outras formas de preconceito são desconstruídos em um processo contínuo que evolui e não necessariamente se completa. Dessa forma, a desconstrução tem um potencial transformador e pode abrir um mundo diferente conforme essa nova geração aceita esse desafio (GUIDOLIN; MICHELMAN, 2017). 120
AUTOATIVIDADE 1 O fato de que o ser humano vê o mundo através de sua cultura tem como consequência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural. Tal tendência é denominada etnocentrismo. Sobre o Etnocentrismo, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Etnocentrismo é responsável em seus casos extremos pela ocorrência de numerosos conflitos sociais. b) ( ) O Etnocentrismo, de fato, é somente um fenômeno local. c) ( ) O Etnocentrismo tem lugar quando duas ou mais culturas entram em interação de uma forma horizontal e sinérgica. d) ( ) As relações entre diferentes culturas são fundamentadas no Etnocentrismo, a qual compreende vários processos de interação que contribuem para que as pessoas envolvidas cultivem ligações com base em princípios como respeito mútuo e justo julgamento. 2 Em certo sentido, a identidade cultural é um conjunto híbrido e maleável (depende do momento e das peculiaridades culturais de uma determinada sociedade) de elementos que formam a cultura identitária de um povo. É, portanto, a forma de reconhecer-se enquanto agrupamento cultural que se distingue dos outros. De acordo com o estudado sobre Identidade Cultural, analise as afirmativas a seguir: I- A identidade cultural é, justamente, esse padrão que identifica uma produção cultural a certo grupo social. II- Um exemplo de identidade cultural seria a Religiosidade. III- A identidade cultural está relacionada com a forma como vemos o mundo exterior e como nos posicionamos com relação a ele. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a afirmativa I está correta b) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. c) ( ) Somente a afirmativa II está correta. d) ( ) Somente a afirmativa III está correta. 3 Historicamente, os processos de colonização ocidentais etnocêntricas apoiados por ideologias dominantes e de extermínio étnico constituíram abismos profundos a partir de visões de mundo daqueles que dominavam sobre aqueles que eram dominados. Dessa forma, a diversidade cultural era negada e silenciada por meio das formas mais variadas e cruéis de poder e da 121
produção do conhecimento, alicerçadas num racionalismo positivista, discriminatório e segregador. Nesse sentido, é necessário desconstruir certas visões de mundo que oprimem e marginalizam determinadas culturas ou formas de vida. Referente às temáticas cultura e desconstrução, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Desconstrução é um esforço de superação dos estereótipos e preconceitos que carregamos dentro de nós. É quebrar o conjunto de barreiras morais e culturais que nos impede de aceitar o diferente, oprimindo o outro e criando um ambiente de hostilidade que gera violência velada ou explícita. ( ) Machismo, homofobia, racismo e outras formas de preconceito são desconstruídos em um processo contínuo que evolui e não necessariamente se completa. Dessa forma, a desconstrução tem um potencial transformador e pode abrir um mundo diferente conforme essa nova geração aceita esse desafio. ( ) Os processos de desconstrução são novas formas de dominação e de violência preconizadas pela cultura globalizante e hegemônica por meio das mais refinadas e abrangentes promessas do individualismo narcisista contra as minorias sociais e culturais ainda presentes na atual sociedade humana. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V V F. b) ( ) V V V. c) ( ) F F F. d) ( ) F F V. 4 Nos estudos de Sociedade, Educação e Cultura, podemos compreender que o Brasil é formado por uma sociedade plural. Neste sentido, é possível afirmar que existem "vários brasis, apontando a ampla miscigenação racial, a diversidade cultural e as peculiaridades regionais. Diante disso, disserte sobre os desafios que estas diferenças indicam aos espaços educacionais. 5 As discussões em torno do conceito e tema "cultura" e as manifestações/expressões culturais têm sido variadas. Muitas delas englobam aspectos econômicos, políticos, intelectuais e sociais da produção cultural. Contudo, as relações e as diferenças culturais entre diferentes grupos e povos têm se evidenciado nitidamente de forma excludente. Diante deste cenário, disserte sobre as contribuições que a interculturalidade pode fornecer à nossa época. 122
UNIDADE 2 TÓPICO 2 DIVERSIDADE CULTURAL 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, vamos estudar três assuntos. Em Inclusão e Cultura, você perceberá que a cultura da inclusão é possível em uma sociedade aberta ao diálogo. Para dialogar, é necessário que possamos compreender a visão de mundo do outro. A inclusão cultural define que qualquer pessoa seja incluída em diferentes espaços, independente da sua cultura. Como a inclusão social abrange essa definição para diversos aspectos, como etnia, cultura, gênero, classe social e muitas outras características, podemos dizer que a inclusão cultural está dentro desse contexto. Na questão de Gênero e Cultura, falaremos sobre o respeito e acolhimento do outro em sua singularidade e que também é um processo cultural. A identidade de gênero é a forma pela qual eu expresso o gênero com o qual uma pessoa se identifica, que pode ou não concordar com o gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento. Em Cultura e a Teoria Decolonial, você vai compreender as novas formas de construção de conhecimento alternativo, criadas contra as sociedades colonizadas pelo conhecimento eurocêntrico. A Teoria Decolonial surgiu a partir das lutas históricas dos povos indígenas e afrodescendentes que foram colonizados e não se viam representados na História e na Ciência produzidas na Europa como um modelo universal. 2 INCLUSÃO E CULTURA A exclusão cultural de um determinado grupo de pessoas ocorre quando não há igualdade na conquista por oportunidades, quando não há igualdade na representação dentre os espaços públicos ou quando os direitos desses grupos são blindados. Quando nos reportamos à identidade e inclusão, não podemos deixar de referir a importância da noção de cultura e da sua estreita relação com o pertencimento, os enraizamentos e as afetividades ao território e ao local habitado. Portanto, integração social cultural também se alcança por iniciativas em prol da realização de atividades valorizadas pelas próprias pessoas enquanto atores participantes numa comunidade. Assim, a cultura pode ser entendida como um instrumento ao serviço do alcance de graus de desenvolvimento, mas também, como um fim desejável, dando sentido à própria existência humana. 123
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO FIGURA 4 INCLUSÃO CULTURAL FONTE: <https://bit.ly/2weptwu>. Acesso em: 24 abr. 2021. A sociedade é herdeira de um conjunto de recursos culturais de natureza material e imaterial, que fazem parte da chamada memória coletiva. Assim, esses recursos culturais prefiguram sentimentos de identidade e de pertença comunitária e, por sua vez, o respeito e acolhimento (inclusão) dessas diversas formas de ver e viver o mundo se traduz em riqueza humana. A inclusão cultural define que qualquer pessoa seja incluída em diferentes espaços, independentemente da sua cultura. Como a inclusão social abrange essa definição para diversos aspectos, como etnia, cultura, gênero, classe social e muitas outras características, podemos dizer que a inclusão cultural está dentro desse contexto. Todo conjunto de ações que tem como objetivo proporcionar a participação igualitária de toda a população na sociedade é visto como uma prática de inclusão social. Logo, quando essas ações visam garantir que todas as culturas tenham seu espaço igual na sociedade, a denominação é inclusão cultural. A inclusão cultural e social é importante em uma sociedade, pois é ela que garante que todos tenham os mesmos direitos e oportunidades em diferentes áreas da vida como educação, finanças, saúde, lazer, entre outras. FONTE: Adaptado de <https://becocultural.com.br/inclusao-cultural>. Acesso em: 23 mar. 2021. A cultura de um povo é formada por vários elementos, como crenças, ideias, mitos, valores, danças, festas populares, alimentação, modo de se vestir, entre outros fatores. É uma característica muito importante de uma comunidade, pois a cultura é transmitida de geração em geração e demonstra aspectos locais de uma população. É necessário promover por atitudes e pensamentos, o sentimento de valorização cultural, além do reconhecimento e respeito das diferentes culturas, mostrando que não existe uma melhor ou mais desenvolvida que a outra. O respeito à diversidade cultural é a condição essencial para que possamos construir a nossa própria história pessoal, conferindo significados a todos os acontecimentos. Os aspectos positivos da diversidade cultural doam novas 124
TÓPICO 2 DIVERSIDADE CULTURAL aprendizagens, abertura mental e tolerância, levando-nos à descoberta de valores que deixarão todos mais ricos intelectualmente. A coexistência das diversidades culturais é um fator de progresso, sempre. Portanto, a cultura de inclusão é um conjunto de valores e atitudes acerca de como as pessoas devem ser acolhidas e tratadas na sociedade; esses valores e atitudes devem ser compartilhados e vivenciados por todos. Quando se fala de instalação de uma cultura, fica evidente, de imediato, que não se está discorrendo sobre um processo que acontece da noite para o dia. Ao contrário, culturas envolvem padrões atitudinais e comportamentais extremamente complexos, cuja modificação é lenta e gradual em qualquer indivíduo e, muito mais ainda, quando se pensa ao nível coletivo. 3 GÊNERO E CULTURA O termo gênero tem sido usado para teorizar a questão da diferença sexual, desde a década de 1970. Um conceito complexo, que abrange a ideia de que as distinções baseadas no sexo são fundamentalmente sociais, afastando-se, assim, a noção de naturalização. Além disso, explicita a assimetria nas relações entre homens e mulheres, marcadas pela hierarquização e por dimensões de poder. Você provavelmente já ouviu falar em gênero, pois muito tem se falado sobre identidade de gênero, igualdade de gênero, ideologia de gênero, entre outros temas relacionados ao termo. No entanto, afinal, qual o significado desse conceito? Acompanhe as explicações das autoras Medeiros e Moraes (2015): Para começar, vejamos o conceito de gênero. Aqui utilizamos como referência o artigo escrito por Maria Eunice Figueiredo Guedes, Gênero, o que é isso?, de 1995. Nesse artigo, ela traz diversas citações do conceito de gênero. Destacamos quatro delas a seguir: qualquer agrupamento de indivíduos, objetos, ideias, que tenham caracteres comuns. Dicionário Aurélio, 1986. uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. Gates, citada por Scott, 1995. gênero é um elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder. Scott, 1995. uma forma de entender, visualizar e referir-se à organização social da relação entre os sexos. Guedes, 1995. Muitas vezes o termo gênero é erroneamente utilizado em referência ao sexo biológico. Por isso, é importante enfatizar que o gênero diz respeito aos aspectos sociais atribuídos ao sexo, ou seja, gênero está vinculado a construções sociais, não a características naturais. 125
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO O gênero, portanto, se refere a tudo aquilo que foi definido ao longo tempo e que a nossa sociedade entende como o papel, função ou comportamento esperado de alguém com base em seu sexo biológico. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/38yevtg>. Acesso em: 31 ago. 2021. Medeiros e Moraes (2015) também identificam dois termos importantes para a compreensão do conceito de Gênero: Sexo e sexualidade. É bastante comum observar confusão com relação a esses termos. Muitas vezes eles são utilizados como sinônimo, de maneira equivocada. Para esclarecer discussões como o debate sobre igualdade de gênero, por exemplo, é fundamental compreender a distinção entre esses conceitos. Sexo O sexo diz respeito às características biológicas que diferenciam homens e mulheres. O sexo é usualmente determinado pelas genitálias. Gênero Novamente, o gênero é a construção social atribuída ao sexo. Vejamos um exemplo que nos permita entender melhor essa distinção: Muitas vezes escutamos frases como cuidar da casa é coisa de mulher. O que está por trás de frases desse tipo é justamente a questão de gênero: se o que caracteriza ser mulher são simplesmente características biológicas e anatômicas, não haveria razão para alguém atribuir uma atividade especificamente às mulheres. Afinal, qual genitália uma pessoa tem não faria diferença na hora de limpar a casa. Isso demonstra que há algum sentido a mais atribuído a ser mulher, algo que vá além do sexo biológico. Esse algo além é, justamente, o gênero. Sexualidade A sexualidade diz respeito à orientação sexual de uma pessoa, ou seja, por quais gêneros essa pessoa sente atração sexual ou romântica. Algumas das categorias atribuídas à sexualidade são: heterossexualidade (pessoa que sente atração por pessoa do gênero oposto); homossexualidade (pessoa que sente atração por pessoa do mesmo gênero); bissexualidade (pessoa que sente atração por pessoas dos dois gêneros). FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/38yevtg>. Acesso em: 31 ago. 2021. Por muito tempo as pessoas usaram a sigla "GLS" para designar e generalizar pessoas Gays, Lésbicas e "Simpatizantes", no entanto, essa é uma sigla excludente, limita muito um grupo de pessoas e gêneros e isso não condiz mais com a realidade no século XXI. Aqui temos mais informações para não deixar dúvidas. 126
TÓPICO 2 DIVERSIDADE CULTURAL LGBTQIA+ é a sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, transexuais, Queer, intersexo, Assexuais e mais(+), onde o (+) busca incluir outras variações de gênero, tais como: Pan, poli, não-binarie, omni e demi. Antes de entender o significado de cada uma das letras da sigla, precisamos entender o que é identidade de gênero, pois ela é o motivo para haver todas essas letras. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3tyz9ke>. Acesso em: 30 ago. 2021. O que é Identidade de gênero? Identidade de gênero é a percepção que um indivíduo tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou da combinação dos dois, o que independe do sexo biológico. É uma convicção íntima da pessoa se perceber homem, mulher ou nenhum dos dois e pode não estar visível para as demais pessoas. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3tyz9ke>. Acesso em: 30 ago. 2021. Tipos de Identidade de Gênero: Transgênero: trata-se do indivíduo que identifica como sendo do gênero oposto ao seu gênero de nascença. Por exemplo: uma pessoa com características masculinas, segundo seu sexo biológico, mas que se percebe como do gênero feminino; ou o indivíduo com sexo biológico feminino, mas que se percebe homem. A transgeneridade não é um distúrbio mental e qualquer insinuação de patologia representa a violação dos direitos humanos previstos pela OMS Organização Mundial da Saúde. Cisgênero: trata-se do indivíduo que se identifica com seu gênero de nascença, Por exemplo: um indivíduo que tem que o gênero de nascença definido como masculino e que tem a percepção de si como homem, assim definido como homem cisgênero. Não-Binário: também reconhecido como terceiro gênero, o indivíduo nãobinário caracteriza-se pela mistura entre os gêneros feminino e masculino ou pela completa indiferença entre ambos. O indivíduo não-binário transcende rótulos sociais atribuídos a gêneros e por isso é conhecido como o terceiro gênero. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3tyz9ke>. Acesso em: 30 ago. 2021. 127
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO O que é Orientação Sexual e Sexo Biológico? Orientação é o termo que relaciona as diferentes formas de atração, seja ela afetiva ou sexual. Esse conceito substitui a antiga ideia de "opção sexual", já que não se pode escolher a sexualidade, ou seja, a sexualidade é desenvolvida ao longo da vida de acordo com a percepção que o indivíduo tem de si e como ele se sente atraído por outros indivíduos. Heterossexual ou heteroafetivo: sente atração sexual ou afetiva pelo gênero oposto ao seu, exemplo: um homem que sente atração por mulheres; Homossexual ou homoafetivo: sente atração sexual ou afetiva por indivíduos do mesmo gênero. Nessa denominação se enquadram gays (homens que sentem atração por outros homens) e lésbicas (mulheres que sentem atração por outras mulheres); Bissexual ou biafetivo: assim é quando o indivíduo sente atração sexual ou afetiva por ambos os gêneros, masculino e feminino. Sexo Biológico: são as características físicas originadas pela combinação de cromossomos. Está basicamente relacionada com a existência dos órgãos genitais (pênis, vagina, ambos ou nenhum deles) e com o conceito de macho (homem), fêmea (Mulher) e intersexo. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3tyz9ke>. Acesso em: 23 abr. 2021. 128
TÓPICO 2 DIVERSIDADE CULTURAL Em síntese, identidade de gênero diz respeito ao gênero com o qual uma pessoa se identifica. É independente do sexo (ou seja, das características biológicas), está relacionada à identificação de uma pessoa com o gênero masculino ou feminino. Algumas pessoas se identificam com um gênero diferente do que é imposto a elas em função de seu sexo biológico. Essa identificação é o que se chama de identidade de gênero. 4 CULTURA E A TEORIA DECOLONIAL A Teoria Decolonial abrange diversas formas de crítica teórica, articuladas por várias camadas de pensamentos, que tem como principal intuito libertar o campo do conhecimento, e recentemente vem ganhando maior destaque no ideário da América Latina. No meio acadêmico, ele se manifesta pela análise da distinção de classes, dos estudos étnicos, estudos de gênero e estudos regionais. Ela surgiu a partir das lutas históricas dos povos indígenas e afrodescendentes que foram colonizados e não se viam representados na História e na Ciência produzidas na Europa como um modelo universal. Dessa forma, um grupo de intelectuais militantes latino-americanos sentiu a necessidade identitária de se contraporem epistemologicamente à hegemonia eurocêntrica do conhecimento, defendendo o protagonismo de outros modos de saber, de ser e do poder. Críticos da história única, esses pensadores elaboraram, a partir de meados da década passada, um conjunto de categorias que constituem o Pensamento Decolonial. FIGURA 5 COLONIALISMO E COLONIALIDADE FONTE: O autor. 129
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO Quijano (2010) define colonialidade como um dos elementos constitutivos e específicos do padrão mundial capitalista. Sustenta-se na imposição de uma classificação racial/étnica da população do mundo como pedra angular do referido padrão de poder e opera em casa um dos panos, meios e dimensões, materiais e subjetivos, da existência social quotidiana e a escala societal (QUIJANO, 2010, p. 84). A colonialidade se reproduz em uma tripla dimensão: a do poder, do saber e do ser. FIGURA 6 COLONIALIDADE DO PODER FONTE: O autor. NOTA A colonialidade do poder é um conceito desenvolvido originalmente por Aníbal Quijano, em 1989, e amplamente utilizado pelo grupo. Ele exprime uma constatação simples, isto é, de que as relações de colonialidade nas esferas econômica e política não findaram com a destruição do colonialismo. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3tdv3fq>. Acesso em: 23 mar. 2021. NOTA A colonialidade do ser (gênero e sexualidade) pode ser definida como uma realidade do mundo moderno colonial, que faz com que se inferiorizem pessoas, logo, uma forma de se destituir a existência humana. A Colonialidade do saber: a teoria de Quijano sobre a colonialidade propõe uma concepção da diferenciação colonial e epistêmica, onde a colonialidade se transfere do âmbito do poder para o campo do saber, construindo a colonialidade do saber que age de forma a manter a hegemonia eurocêntrica como perspectiva superior do conhecimento. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3k0m3lh>. Acesso em: 23 mar. 2021. 130
TÓPICO 2 DIVERSIDADE CULTURAL As profundas marcas produzidas pela experiência colonial na realidade cultural e territorial dos povos africanos, asiáticos e americanos operam como matriz ideológica de processos compreendidos mediante os designados estudos subalternos, cuja perspectiva de reflexão da colonialidade do poder, do ser, do saber perpassa certamente os elementos mais sutilmente imbricados na cosmovisão dos povos colonizados. Tornou-se imprescindível, consequentemente, repensar a situação colonial mediante as construções epistemológicas produzidas a partir do processo de independência. Todavia, não se trata somente de repensar a situação colonial em si. Antes, trata-se fundamentalmente de se repensar as bases epistemológicas do próprio pensamento pós-colonial, constituído sobre os alicerces da identificação das assimetrias existentes nas relações coloniais, cujos antagonismos possibilitam a reflexão referente à suposta hegemonia bélica, epistemológica, cultural e social euro centrada. Como narrativa hegemônica da modernidade, a Europa ocupa espaço privilegiado de poder que favorece a sobreposição de sua cultura em detrimento das demais referências de vida. Todavia, o pensamento decolonial não trata simplesmente de retirar o verniz imposto pela situação colonial, tampouco se refere à emancipação simplesmente em termos políticos e econômicos. Trata-se, dentre todas essas possibilidades, especialmente, de retomar a cultura autóctone dentro da sua legitimidade e autenticidade epistêmica, posto que apenas retirar o verniz imposto pelo colonizador resultaria em sociedades vazias, e não um retorno às epistemologias originárias dos povos subalternos. Um simples desnudamento da cultura euro centrada poderia inclusive legitimar o epistemicídio promovido pelo processo colonial. 131
RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: A inclusão cultural define que qualquer pessoa seja incluída em diferentes espaços, independente da sua cultura. Como a inclusão social abrange essa definição para diversos aspectos, como etnia, cultura, gênero, classe social e muitas outras características, podemos dizer que a inclusão cultural está dentro desse contexto. Todo conjunto de ações que tem como objetivo proporcionar a participação igualitária de toda a população na sociedade é visto como uma prática de inclusão social. Logo, quando essas ações visam garantir que todas as culturas tenham seu espaço igual na sociedade, a denominação é inclusão cultural. A cultura de inclusão é um conjunto de valores e atitudes acerca de como as pessoas devem ser acolhidas e tratadas na sociedade; valores e atitudes estes, que devem ser compartilhados e vivenciados por todos. Quando se fala de instalação de uma cultura, fica evidente, de imediato, que não se está discorrendo sobre um processo que acontece da noite para o dia. Ao contrário, culturas envolvem padrões atitudinais e comportamentais extremamente complexos, cuja modificação é lenta e gradual em qualquer indivíduo e, muito mais ainda, quando se pensa ao nível coletivo. O termo gênero tem sido usado para teorizar a questão da diferença sexual, desde a década de 1970. Um conceito complexo, que abrange a ideia de que as distinções baseadas no sexo são fundamentalmente sociais, afastando-se, assim, a noção de naturalização. Além disso, explicita a assimetria nas relações entre homens e mulheres, marcadas pela hierarquização e por dimensões de poder. Você provavelmente já ouviu falar em gênero, muito tem se falado sobre identidade de gênero, igualdade de gênero, ideologia de gênero, entre outros temas relacionados ao termo. Identidade de gênero é a percepção que um indivíduo tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou da combinação dos dois, o que independe do sexo biológico. É uma convicção íntima da pessoa se perceber homem, mulher ou nenhum dos dois e pode não estar visível para as demais pessoas. A Teoria Decolonial abrange diversas formas de crítica teórica, articuladas por várias camadas de pensamentos, que tem como principal intuito libertar o campo do conhecimento, e recentemente vem ganhando maior destaque no ideário da América Latina. No meio acadêmico, ele se manifesta pela análise da distinção de classes, dos estudos étnicos, estudos de gênero e estudos regionais. Ela surgiu a partir das lutas históricas dos povos indígenas e afrodescendentes que foram colonizados e não se viam representados na História e na Ciência produzidas na Europa como um modelo universal. 132
AUTOATIVIDADE 1 A exclusão cultural de um determinado grupo de pessoas ocorre quando não há igualdade na conquista por oportunidades, quando não há igualdade na representação dentre os espaços públicos ou quando os direitos desses grupos são blindados. Referente à Inclusão cultural, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A inclusão cultural define que qualquer pessoa seja incluída em diferentes espaços, independente da sua cultura. b) ( ) Os aspectos positivos da diversidade cultural doam novas aprendizagens, abertura mental e intolerância c) ( ) A cultura de inclusão é um conjunto de valores e atitudes acerca de como as pessoas devem ser acolhidas e tratadas na sociedade; valores e atitudes estes, que devem ser compartilhados e vivenciados pelas crianças. d) ( ) O respeito a diversidade cultural é a condição essencial para que possamos construir a nossa própria história financeira 2 O termo gênero tem sido usado para teorizar a questão da diferença sexual, desde a década de 1970. Um conceito complexo, que abrange a ideia de que as distinções baseadas no sexo são fundamentalmente sociais, afastando-se, assim, a noção de naturalização. A respeito da temática de gênero, analise as afirmativas a seguir: I- Muitas vezes o termo gênero é erroneamente utilizado em referência ao sexo biológico. Por isso, é importante enfatizar que o gênero diz respeito aos aspectos sociais atribuídos ao sexo, ou seja, gênero está vinculado a construções sociais, não a características naturais. II- Binário: Também reconhecido como terceiro gênero. III- Transgênero: Trata-se do indivíduo que se identifica com seu gênero de nascença. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a afirmativa II está correta. b) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. c) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. d) ( ) Somente a afirmativa I está correta. 3 É um conceito desenvolvido originalmente por Aníbal Quijano, em 1989, que exprime uma constatação simples, isto é, de que as relações de colonialidade nas esferas econômica e política não findaram com a destruição do colonialismo. Sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Colonialidade do poder. b) ( ) Colonialidade do fazer. 133
c) ( ) Colonialidade do ser. d) ( ) Colonialidade do saber. 4 A diversidade na sociedade, seja de raças, de línguas ou de níveis sociais, é algo histórico no país. Ela tem suas raízes, como já estudado, no processo colonizatório, à medida que se tomaram as terras pertencentes aos nativos aqui existentes, antes da chegada dos portugueses. Não diferentemente, houve o processo de escravização do negro. Assim sendo, houve o assujeitamento de duas etnias: a indígena e a africana. Nesse sentido, além da questão étnica, na sociedade, muitos outros fatores concorrem para a formação da diversidade: a questão religiosa, a orientação sexual etc., o que faz com que a sociedade seja plural, diversa. Por isso, fala-se que a diversidade é algo salutar, importante. Explique a importância da diversidade. 5 Para a superação das diferenças, o essencial é não somente o reconhecimento da diferença. Importante também é o questionamento dos valores humanos que podem excluir o ser humano, o diferente. Portanto, não basta somente tolerar, mas compreender como a diferença está instalada no seio da sociedade e, ao mesmo tempo, ver e compreender as relações de poder, para, assim, respeitar e admirar a diferença. Explique como poderia ser trabalhado o conceito de diversidade no ambiente escolar, a fim de promover a integração entre os diferentes. 134
UNIDADE 2 TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE 1 INTRODUÇÃO Neste tópico vamos estudar três assuntos. Em Cultura e Sustentabilidade, vamos refletir sobre um mundo onde o consumismo se faz presente é necessário o estudo de formas de preservação e sustentação do meio ambiente de qualidade, o termo sustentabilidade é apresentado como um processo cultural historicamente construído. A noção de sustentabilidade surgiu baseada no entendimento de que os recursos naturais são finitos. Portanto, a preocupação ambiental passa pelas questões econômicas, biológicas, culturais, entre outros setores e áreas do conhecimento humano e da sociedade. A sustentabilidade é uma preocupação amparada em eventos marcantes e de consequências trágicas para a humanidade e a natureza. Na abordagem da Cultura e Diálogo dos Saberes, veremos que não há saber mais ou saber menos diria Paulo Freire em seus escritos, há saberes diferentes, somente com o diálogo entre os conhecimentos, principalmente o prático e com o científico teremos um mundo mais justo e igualitário. Paulo Freire, nosso grande educador, foi um dos precursores em problematizar a temática Diálogo dos saberes, em sua obra Extensão ou Comunicação, em 1977, no sentido de orientar a relação entre o técnico e o agricultor, onde todos os sujeitos são educandos e educadores. Por último, em Culturas e o Bem Viver, destacaremos que os povos indígenas da América Latina e Caribe, possuem uma palavra que representa uma visão de mundo mais fraternos e igualitária, o bem viver. No contexto latinoamericano, nas últimas décadas do Século XX, um importante debate referente à vida plena para todos se tornou presente: a utopia indígena do Bem Viver, Sumak Kawsay, em sua expressão em quíchua, a mais conhecida no Continente. Não se trata de um tema realmente novo, mas sim de uma riqueza de sabedoria que só nos últimos anos os povos indígenas estão trazendo à luz e oferecendo-a ao mundo como sua contribuição à aventura humana. 2 CULTURA E SUSTENTABILIDADE Sustentabilidade é um conceito relacionado à conservação. No aspecto ambiental, que com frequência o termo é empregado, a sustentabilidade diz respeito, então, a um planeta sadio, no qual as pessoas possam encontrar as condições necessárias para a sua sobrevivência, de geração em geração. Como surgiu esse termo? A noção de sustentabilidade surgiu baseada no entendimento de que os recursos naturais são finitos. Portanto, a preocupação ambiental passa pelas questões econô- 135
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO micas, biológicas, culturais, entre outros setores e áreas do conhecimento humano e da sociedade. A sustentabilidade é uma preocupação amparada em eventos marcantes e de consequências trágicas para a humanidade e a natureza. O que é Sustentabilidade? Sustentabilidade refere-se ao princípio da busca pelo equilíbrio entre a disponibilidade dos recursos naturais e a exploração deles por parte da sociedade, ou seja, visa a equilibrar a preservação do meio ambiente e o que ele pode oferecer em consonância com a qualidade de vida da população. O termo sustentabilidade surge da necessidade de discussão a respeito da forma como a sociedade vem explorando e usando os recursos naturais, pensando em alternativas de preservá-lo evitando, assim, que esses recursos se esgotem na natureza. A definição de sustentabilidade está atrelada ao conceito de desenvolvimento sustentável. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3jysnyi>. Acesso em: 12 jan. 2021. FIGURA 7 DIMENSÕES SUSTENTABILIDADE FONTE: <https://bit.ly/3a0yndd>. Acesso em: 23 fev. 2021. O conceito de sustentabilidade é apresentado a partir de cinco perspectivas, cinco dimensões primordiais, sendo elas: sustentabilidade social; sustentabilidade econômica; sustentabilidade ecológica; sustentabilidade espacial (ou geográfica); sustentabilidade cultural. 136
TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE QUADRO 3 CINCO DIMENSÕES PRIMORDIAIS A sustentabilidade social é a adoção de um crescimento estável, distribuindo melhor, as riquezas, com menos desigualdades. Ela visa diminuir as diferenças sociais. A sustentabilidade econômica, tornada possível graças ao fluxo constante de inversões públicas e privadas, além da alocação e do manejo eficientes dos recursos naturais. As bases da sustentabilidade ecológica estão na utilização massificada do potencial de recursos nos diferentes ecossistemas, produzindo o mínimo de deterioração. Prevê ainda a diminuição do uso de combustíveis fósseis e a redução do volume de substâncias poluentes. Quanto à sustentabilidade geográfica, podemos dizer que a ocupação espacial desequilibrada causa problemas. Exemplo disso é a população dos grandes centros (leia-se cidades, principalmente metrópoles) continua a crescer, junto com o percentual de população residente nas áreas urbanas, bem como a diminuição demográfica das áreas rurais. Resulta disso a destruição de ecossistemas encontrados nas cidades devido à utilização de áreas não ideais para moradia. Visa o equilíbrio nos usos espaciais, bem como a proteção de áreas que não deveriam ser utilizadas (pela população que está à margem da sociedade), promovendo a melhoria na qualidade de vida da população. Já a sustentabilidade cultural se configura como a mais complexa no sentido de sua concretização. Intenta dar soluções locais, adaptadas a cada cultura e ecossistema. Uma nova consciência dos limites ecossistêmicos e de sua fragilidade, em face destas dimensões do desenvolvimento sustentável, pode ajudar a nortear as ações locais futuras, tendo em vista as mudanças globais de que tanto necessitamos para viver melhor, no sentido mais amplo que este viver melhor pode vir a ter. A responsabilidade é de todos e de cada um. À coletividade, dá-se o papel de defesa e proteção do meio ambiente. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3c2nsdo>. Acesso em: 23 fev. 2021 Um termo bastante usado atualmente nas questões ecológicas e sustentáveis é o de Desenvolvimento Sustentável. O que é desenvolvimento sustentável? Desenvolvimento sustentável refere-se ao desenvolvimento socioeconômico, político e cultural atrelado à preservação do meio ambiente. Sendo assim, as práticas capitalistas associadas ao consumo devem estar em equilíbrio com a sustentabilidade, visando aos avanços no campo social e econômico sem prejudicar a natureza. É a garantia do suprimento das necessidades da geração futura por meio da conservação dos recursos naturais. 137
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO Esse termo surgiu no relatório desenvolvido pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento apresentado em 1987, conhecido como Relatório de Brundtland ou Nosso Futuro Comum. O relatório traz a definição de desenvolvimento sustentável como: O desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3jysnyi>. Acesso em: 12 jan. 2021. A partir de diferentes momentos em que a sociedade humana, promoveu a destruição da Natureza, da indiferença do ser humano com seu semelhante, tornou-se necessário convergir esforços globais para mitigar essas profundas desigualdades e atitudes predatórias que condenam os seres e os ambientes para a acelerada destruição de todas as vidas. Desde a Conferência de Estocolmo de 1972, os debates têm insistido em como viabilizar a Sustentabilidade na vida das pessoas e como se torna um objetivo comum para a melhoria da vida, da dignidade, das relações que ocorrem entre humano e não humanos. Segundo Aquino e Garcia (2017, p.3), Essa lógica predatória de humanos e não humanos chega ao seu ponto de saturação. As pessoas precisam se tornar responsáveis pelas suas escolhas: a Sustentabilidade é a alternativa eleita para uma vida digna e na qual demanda compreensão sobre sua lógica inclusiva ou essa promessa gera apenas uma imagem cujo conteúdo se decidiu não cumprir porque não se pode entender, nem respeitar e sequer reconhecer os desafios do século XXI para além das relações humanas. Por esse motivo, a Sustentabilidade, não obstante todos os seus obstáculos, é a matriz de transformação do atual cenário mundial que se manifesta pelas diferentes experiências, inclusive cognitivas, e modifica a racionalidade humana para se criar novos projetos de utopias mais leves, dinâmicas, inclusivas. Em tempos atuais, quais ênfases conceituais e práticas de Sustentabilidade em defesa da vida em suas várias dimensões será necessário promover? Referente a esse olhar sobre a Sustentabilidade, Pavan e Castillo (2013, p. 12) citam que: Nos dias atuais, a sustentabilidade concentra-se como o assunto mais elucidado entre as mais diversas áreas e nos mais variados gêneros, lugares e formas de pensar acerca da real contemplação do que vem a ser esse fenômeno. Mudanças deverão ocorrer para que haja uma maior garantia de vida terrena. Em seus estudos, anuncia que dos lares mais modestos, e passando pelos mais diferentes ambientes sociais e de trabalho, e pelos gabinetes onde se tomam decisões acerca do destino das famílias e das cidades, até as complexas decisões concernentes ao destino da casa comum, a sustentabilidade está presente. Está na esfera da preocupação com a crise ambiental o cerne essencial do fenômeno da sustentabilidade. Como será possível o contínuo desenvolvimento sem que haja a direta agressão ao meio ambiente? Como se tornar uma sociedade sustentável? As novas tecnologias, avultando as áreas comerciais, as atitudes agressivas no comércio internacional, a crise financeira, o avanço do efeito estufa e do aquecimento global, a crescente perda da biodiversidade, a degradação dos recursos indispensáveis para a sobrevivência 138
TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE humana, o exagero no consumo e na produção. Tudo isso são fatos, são realidades que, para haver condições existenciais de vida humana, é indispensável que haja a mudança de estilo de civilização. Devese dar ênfase à preocupação no sistema desenvolvimentista social, econômico e ambiental, pois, em cada ato humano há, direta ou indiretamente, uma agressão ao meio ambiente. Assim, buscar-se-á um estudo quanto ao tema da sustentabilidade, como um fenômeno que tem por finalidade a reorganização das atitudes humanas, uma nova forma de pensar e agir diante do colapso ambiental. Esse é um meio ou o meio pelo qual os seres humanos têm a fórmula de vida terrena. Mas, diante de seus atos, em comparação a uma empresa, estar-se-ia em plena falência, pois que dilapida seu capital, o qual, em se tratando de meio ambiente, são os recursos naturais. E o faz como se esses fossem eternos, ilimitados, infindáveis, o que não é verdade, já que os recursos naturais são meios limitados, finitos. Portanto, o ser humano tem o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, sadio. O sujeito em pleno desenvolvimento tende a preocupar-se com o meio que lhe garante sua subsistência, ser sustentável é essencial para a preservação do meio ambiente. Com ações sustentáveis os recursos naturais não se esgotam, podendo ser utilizados por gerações futuras. Por isso, quando você faz a sua parte, deixa de prejudicar o meio ambiente. Por outro lado, para as empresas, ao mesmo tempo que elas contribuem na preservação ambiental, elas adquirem vantagens econômicas, em taxas e impostos e passam a serem vistas como empresas responsáveis. O Século XXI convoca os sujeitos a serem sustentáveis. 3 CULTURA E DIÁLOGO DOS SABERES O conhecimento é o conjunto de informações que o indivíduo adquire por meio da sua experiência, aprendizagem, crenças, valores e insights sobre algo no decorrer da sua trajetória. A pessoa que detêm o conhecimento é capaz de saber alguma informação ou instrução e a mesma pode mudar comportamentos e auxiliar na tomada de decisões. O conhecimento é capaz de transformar vidas e, se utilizado devidamente, contribui significativamente para a construção de um mundo melhor. Trata-se de um processamento complexo e subjetivo da informação absorvida por um indivíduo. É a interação com processos mentais lógicos e não lógicos, com experiências anteriores, compromissos e vários outros elementos que fazem parte da mente de uma pessoa. Embora o conhecimento sempre tenha sido necessário para elaborar os produtos, sua importância aumentou vertiginosamente com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, particularmente nas últimas décadas do século XX. É fundamental saber como utilizar os conhecimentos e saberes existentes. O conhecimento tradicional diz respeito às informações acumuladas ao longo do tempo por uma determinada comunidade com relação as suas práticas, seus valores, sua cultura, enfim, suas vivências e experiências. Tais conhecimentos não são permanentes nem inabaláveis, pois são gerados, modificados e reformulados pela comunidade. Diegues et al. (2000, p. 30) definem o conhecimento tradicional como o conjunto de saberes e saber-fazer a respeito do mundo natural, sobrenatural, 139
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO transmitido oralmente de geração em geração. Dickmann e Dickmann (2008, p. 70) afirmam que o saber popular é entendido como aquele adquirido nas lutas, que não está escrito nos livros, aquele que é fruto das várias experiências vividas e convividas em tempos e espaços diversos na história do povo. Alguns autores citam que existem tipos de conhecimentos, por exemplo: Filosófico, Senso Comum, Religiosos, Científico, Artístico, Popular, entre outros. No caso específico de certas pesquisas acadêmicas pesquisa investigasse também o conhecimento dito popular (tradições ancestrais e do povo em geral), que de certa forma se relaciona com o conhecimento científico. Nas palavras de Costa (2002), o conhecimento popular é a expressão máxima de determinados povos, onde se localiza o sagrado, o pertencimento à solidariedade. Para o autor, além de ser transmitido milenarmente em certas ocasiões, serve para auxiliar o povo excluído, oprimido, marginalizado, nos casos de saúde, educação, relacionamentos. Uma vertente não eurocêntrica e sim do local, da comunidade. Paulo Freire, grande educador, foi um dos precursores em problematizar a temática Diálogo dos saberes, em sua obra Extensão ou Comunicação, em 1977, no sentido de orientar a relação entre o técnico e o agricultor, onde todos os sujeitos são educandos e educadores. Numa relação de ensino-aprendizagem, Diálogo de saberes é a confluência, ou o encontro do conhecimento científico, sistematizado, comprovado, aprendido na escola com o conhecimento ou saber popular adquirido por meio da experiência de vida do agricultor nas diversas dimensões, que expressa o que faz sentido para ele, sua visão de mundo, sua identidade de agricultor. O importante no âmbito cultural e das relações existente em sociedade é de que o diálogo pressupõe troca, uma relação de sujeitos iguais, ambos educadores e educandos, ou seja, numa relação horizontal em que nenhum é melhor ou mais que o outro, e ambos são possuidores de conhecimentos, cientificamente ou apenas socialmente construído. O diálogo entre o conhecimento científico e o conhecimento popular é central para o entendimento da Popularização da Ciência. É importante que os pesquisadores deem retorno do que tem feito para a sociedade, mas também é necessário ouvir, para entender o que as pessoas desejam e precisam, bem como descobrir realidades e conhecimentos distintos dos ensinados nas universidades. Esse diálogo tem como pressuposto o reconhecimento e o respeito à cultura, aos valores étnicos, a história dos sujeitos, na medida em que se procura conhecer a realidade do sujeito ou da comunidade com a qual vai trabalhar, que vai pesquisar. É nessa realidade ou nesse contexto sócio-histórico, sob o olhar atento do pesquisador, que se pode ler valores culturais, o modo de ser e de se ver, de viver e de trabalhar, de significar seus projetos de vida. No Diálogo de saberes está implícita a construção conjunta do conhecimento ou a produção coletiva de conhecimentos, sem haver imposição de receitas, técnicas ou soluções prontas, sem invasão cultural. É uma prática que envolve a participação direta do sujeito ou da comunidade, na ação (execução), gestão; monitoramento e avaliação. É permitir que o sujeito assuma o protagonismo de seu processo histórico, tendo um papel ativo na transformação de sua realidade, buscando atuar e se corresponsabilizar pelo seu desenvolvimento, de modo cada vez mais autônomo. 140
TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE Por outro lado, o pesquisador não pode se omitir na sua relação com os sujeitos. Não pode omitir o que sabe, esconder o que sabe, esconder o que aprendeu nos domínios do conhecimento técnico-científico, esconder seus valores, suas crenças, sua visão, pois o verdadeiro aprendizado só se constrói na "síntese cultural" de sujeitos. O conceito de ser humano aqui inerente é um ser ativo, criativo, que transforma o meio produzindo cultura; um ser capaz de criar as suas próprias condições de existência atuando sobre a natureza, transformando-a e transformando-se a si próprio. O princípio não é apenas ideológico, mas também adotado na prática da pesquisa, conduzida em todos os territórios com a contribuição de um pesquisador profissional e de sujeitos envolvidos com suas práticas. Um saber tecido a muitas mãos, com contribuições das universidades, e dos sujeitos beneficiários, observando que o seu conhecimento sobre a realidade local e o saber tradicional devem estar obrigatoriamente contemplados para uma efetiva política pública. Percebe-se que os grupos sociais tradicionais têm seu dinamismo e tempos próprios. Cabe à comunidade acadêmica aceitar a legitimidade dos saberes desses grupos e trabalhar com as possibilidades que a aceitação, seguida da dialogicidade, pode propiciar. Observação, oralidade, experiência íntima e mítica com o espaço vivido e relações de trabalho são materializadas em círculos familiares e de amizade. A capacidade de aprender com a própria vivência advêm de nossas experiências do e no espaço. A observação não é um simples ato de ver, restrito a um único órgão sensorial. Na proposta de diálogo entre os saberes deve-se pensar numa epistemologia que trate a contextualização e a concepção sistêmica da vida como princípios filosóficos essenciais. 4 CULTURAS E O BEM VIVER O que é uma vida boa? Como se deve viver? O que significa viver bem? Essas perguntas podem ser interpretadas de diferentes maneiras. Poderíamos responder que para se viver bem, deveríamos ter uma vida moral impecável. Outros desejariam ter uma vida prazerosa ou ter boa saúde. Acrescentariam o conforto à prosperidade ou até mesmo muitos amigos. No contexto latino-americano, nas últimas décadas do Século XX, um importante debate referente à vida plena para todos se tornou presente: a utopia indígena do Bem Viver, Sumak Kawsay em sua expressão em quechua, a mais conhecida no Continente. Não se trata de um tema realmente novo, mas sim de uma riqueza de sabedoria que só nos últimos anos os povos indígenas estão trazendo à luz e oferecendo-a ao mundo como sua contribuição à aventura humana. Sobre o exposto, Osório (2015, p. 8) afirma: A noção de Bem Viver tem como procedência o sumak kawsay, um modo de vida de populações indígenas latino-americanas. Bem Viver provém da tradução para o castelhano (buen vivir) da expressão kichwa sumak kawsay e da expressão aymara suma qamaña. Sumak, que em kichwa, significa plenitude, e kawsay, viver. Kichwa designa um povo, uma nacionalidade e um idioma falado por cerca de 14 milhões de pessoas distribuídas entre as regiões andinas e amazônicas de Peru, 141
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO Bolívia, Equador, Chile, Colômbia e Argentina. Foi a língua oficial do Império Inca. Nesse idioma, suma significa plenitude, excelência, bem, e qamaña, viver, estar sendo. Aymara é também a designação de um povo estabelecido no Peru, Bolívia, Argentina e Chile. NOTA O Sumak Kawsay, da tradução literal, seria a vida em plenitude, excelência, o melhor, o belo. Mas já interpretada em termos políticos, é a própria vida, uma mistura de tarefas e vontade política que significam mudanças para que as pessoas não percam o pão do dia e que não haja desigualdades sociais entre homens e mulheres. O Sumak Kawsay é o sonho não só dos índios, mas também de todos os humanos. Quando falamos sobre o Sumak Kawsay, não se trata de voltar ao passado, porque não podemos dizer que isso foi perfeito, mas nós tivemos e vivemos o Sumak Kawsay (CHANCOSO, 2014). O Bem Viver deve combinar com um Bem Conviver: não vivemos bem se não convivemos bem, entendendo isso efetivamente em um sentido integral: convivência entre os humanos, convivência com as demais espécies para evitar o especismo, e convivência com toda a natureza em harmonia integral. Bem viver que não é a boa-vida não solidária, nem o viver melhor na acumulação ou progresso indefinido a qualquer custo. Bem Viver que pode levar, em boa parte, ao decrescimento, à vida natural, à sobriedade para que todos possam também viver bem. Os movimentos indígenas emergem com muita força em vários países latino-americanos, como sujeitos e não mais como objetos da política. São atores fundamentais em processos de democratização no Equador e na Bolívia, em particular. Não só sujeitos, mas também portadores de alternativas de sua própria forma de ver o mundo, pois os Povos indígenas são povos com larga memória e que podem enfrentar momentos de muita crise. São povos que oferecem opções diferentes de vida. De acordo com Acosta (2016, p. 10): Há nessa sobrevivência centenária não somente um mecanismo de defesa, mas sabedorias sofisticadas e alternativas para as crises ecológicas, sociais e políticas que atingem todo o mundo. Muitas práxis libertadoras e igualitárias de povos originários, marginalizados e periféricos da América Latina e de territórios emergentes compõem a essência da filosofia do Bem Viver. A vida de um ser humano em harmonia consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Em certo sentido, o Bem Viver seria uma cosmovisão igualitária da Sociedade em que a convivência é a referência maior. Suess (2010, p. 1) explica: O paradigma Sumak Kawsay é de origem quéchua e significa Bem Viver. Não é fácil expressar, com palavras, uma noção tão ampla e complexa como o Bem Viver, que abrange muitas dimensões e significados. Pode-se dizer que ele expressa, ao mesmo tempo, memó- 142
TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE ria e horizonte por um lado, memória pré-colonial e tradicional do mundo andino e, por outro lado, protesto e luta contra os excessos do capitalismo agroindustrial globalizado.os povos quéchua compreendem seu passado como um mundo imerso no Bem Viver, que, hoje, seria a convivência harmoniosa entre cosmo, natureza e humanidade. Saídas políticas assumidas no presente sustentam-se, muitas vezes, na memória de um tempo bom, perdido e idealizado, ao mesmo tempo mítico e histórico. Esse tempo passado pode ser e é, muitas vezes, o motor para transformações da realidade presente. Podemos destacar que o Bem Viver é uma Filosofia de Vida. Nas palavras da pesquisadora Bonim (2015, p. 1), Trata-se de uma filosofia, com reflexos muito concretos, que sustenta e dá sentido às diferentes formas de organização social de centenas de povos e culturas da América Latina. Sob os princípios da reciprocidade entre as pessoas, da amizade fraterna, da convivência com outros seres da natureza e do profundo respeito pela terra, os povos indígenas têm construído experiências realmente sustentáveis que podem orientar nossas escolhas futuras e assegurar a existência humana. Esses povos têm nos ensinado que para construir o Bem Viver as pessoas devem pensá-lo para todos. Isso significa dizer que é preciso combater as injustiças, os privilégios e todos os mecanismos que geram a desigualdade. Assim, a causa indígena se vincula com a causa dos pobres e marginalizados e, desse modo, não deve ser pensada como uma questão à parte, desvinculada dos grandes desafios do mundo contemporâneo. Quais os ensinamentos deixados pela perspectiva do Bem Viver para a Humanidade? Um dos grandes ensinamentos que os povos indígenas têm nos transmitido, desde tempos imemoriais, é o de saber conviver com a Mãe Terra, dedicando-lhe respeito, amor e profundo zelo. Na visão desses povos, a terra é mais do que simplesmente o lugar onde se vive. Ela é sagrada, é capaz de fazer germinar e de acolher plantas, animais e uma infinidade de seres vivos, além dos humanos, compondo assim ambientes onde a vida frutifica em todo o seu esplendor. Assim sendo, a terra está na base do Bem Viver. No entanto, nem todas as comunidades indígenas brasileiras podem usufruir do direito de viver em seus territórios tradicionais, ou seja, estão sem possibilidade de vivenciar a condição primordial do Bem Viver. O conceito de Bem Viver está na contramão de um modelo de desenvolvimento que considera a terra e a natureza apenas como insumos para a produção de mercadorias de rápido consumo e, mais rápido ainda, descarte. É para sustentar o modelo capitalista que os governos priorizam os mega investimentos, as grandes barragens, a exploração mineral, as monoculturas que degradam o ambiente e envenenam a terra, as águas e todos os seres vivos. O modelo capitalista promove a concentração de bens e riquezas nas mãos de poucos privilegiados que priorizam as regras da competitividade, da lucratividade e do ideal individualista de se dar bem na vida. A falta de respeito com o diferente e com todos aqueles que possuem maneiras distintas de viver e pensar é característica das elites, das quais a brasileira se destaca por ser acentuadamente conservadora (BONIM, 2015, p.1). 143
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO Como um Projeto de Vida, o Bem Viver tem alguns ensinamentos importantes para o futuro da humanidade. Em escala micro ou em uma escala macro, quais seriam essas práticas e ensinamentos que devemos ter para alcançar a Vida Plena? Para alcançarmos uma vida digna para todos é preciso diminuir o consumo, sobretudo do que é excessivo e supérfluo, e também reduzir as desigualdades sociais. Vale ressaltar que o propósito individualista de se dar bem na vida é um dos princípios desse modelo que promove a injustiça, a violência, a insegurança e a morte de seres humanos, condenados a viver em cinturões de miséria nas grandes cidades, ou em condições de trabalho desumanas nas áreas rurais. Além disso, o consumo desenfreado promove a devastação de florestas e da biodiversidade e coloca em perigo a vida de todos os seres, não apenas do homem. O Bem Viver, experienciado por centenas de comunidades e povos indígenas na América Latina, pode nos inspirar a repensar valores e práticas da cultura contemporânea. O Bem Viver das culturas indígenas pode ser reinterpretado para se tornar um projeto de vida concreto, capaz de revolucionar nossas maneiras de pensar, nossas formas de interagir com a natureza e nossas relações humanas (BONIM, 2015, p. 1). A importância da Cosmovisão ou Paradigma do Bem Viver está na realização imediata na retomada de um horizonte de um futuro com justiça e igualdade. A luta indígena pelo Bem Viver faz parte de uma ampla aliança pela preservação da vida no planeta Terra. Para pensar em Bem Viver é necessário beber da fonte ancestral, mas isso não significa fazer uma leitura utópica do passado, e sim pensá-lo como tempo que respalda a contínua produção do presente e do futuro. As próprias culturas indígenas são o melhor exemplo de que outro mundo é possível porque conseguem ainda no início deste século XXI, marcado pela desigualdade e uniformização das mercadorias, do consumo e dos desejos, construir sociedades igualitárias, sem marginalização e sem exclusão. NOTA Significado de Paradigma Paradigma é um termo com origem no grego "paradeigma" que significa modelo, padrão. No sentido lato corresponde a algo que vai servir de modelo ou exemplo a ser seguido em determinada situação. O paradigma é um princípio, teoria ou conhecimento. Uma referência inicial que servirá de modelo a ser seguido (mudança). FONTE: <https://bit.ly/3np4lfe>. Acesso em: 23 mar. 2021. Com base nos povos indígenas, o conceito de "Bem Viver" se apresenta como algo que convida a voltar a sonhar, mas de olhos abertos, a pensar possibilidades de novos mundos, mas sempre com pé no chão, entendendo os reais problemas e em qual ponto de partida nos encontramos. Somos seres em comunidade, temos que entender que somos parte da Natureza. 144
TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE Princípios do Bem Viver A aceitação de estados plurinacionais, ou seja, reconhecer que dentro do seu território existem diferentes identidades nacionais e que devem ser respeitadas por igual, além de efetivamente participativas. E Com essa visão plurinacionalista, será possível construir novas histórias, realidades, uma nova democracia, respeitando os povos originários, a diversidade e, principalmente, a Natureza. Com uma visão mais colaborativa, o Bem Viver pede um novo modelo de economia, mais pautada na solidariedade, responsabilidade, integralidade e reciprocidade, algo diferente do que se vê ou viu, do que conhecemos do capitalismo e do socialismo. Mudanças nos moldes de produção e consumo, buscando sempre uma qualidade de vida universal, e não no acúmulo de capital. Novas formas de produção, principalmente de alimentos, sendo mais locais iniciativa zero quilômetro que fortaleçam a soberania. Participação plena na política, gerando contrapoderes influentes. Fomentar a economia interna e externa ao mesmo tempo, de forma a serem complementares e não competitivas. As necessidades humanas são o motor do processo e não as metas. Repensar as organizações políticas tradicionais e os partidos, sendo a construção do Bem Viver algo autodependente e participativo. O lema é crescer menos, mas com qualidade. Redução do tempo de trabalho e distribuição do emprego, sendo o trabalho direito e dever da sociedade que busca o Bem Viver. Subtração do olhar objetificado dos seres humanos, passando de ameaça para promessa. Combate à excessiva concentração de riqueza, levando a uma convivência sem miséria, discriminação e com o mínimo de coisas necessárias. Possibilidade igualitária de escolhas para as pessoas, mesmo que com meios diferentes. FONTE: ACOSTA, A. O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Editora Autonomia Literária, 2016, p. 145
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO LEITURA COMPLEMENTAR O BEM VIVER E A RADICALIDADE DE SONHAR OUTROS MUNDOS Juliana Gonçalves O conhecimento que emerge de memórias antigas. Aprendizados fincados em práticas comunitárias. Bem Viver é um nome novo usado para conceitualizar a cosmovisão de comunidades tradicionais que se organizavam a partir do coletivo. É um modo de vida que abarca a relação entre as pessoas, a natureza e o modelo econômico em sociedades que não tinham no capitalismo o modo possível de se organizar. Enquanto conceito, nasce em berço andino, mas há correspondências do Bem Viver em muitas comunidades tradicionais e seus modos de organização antes da colonização sofrida na América Latina e no continente africano. Bem Viver é sumak kawsay em quéchua idioma falado por muitos grupos indígenas da América do Sul, é Suma Qamaña em aymara língua de povo tradicional do mesmo nome existente na Colômbia, Equador, Bolívia, entre outros países. É também o teko porã, guarani ou ainda o nhanderekó, do guarani mbya. Boaventura de Sousa Santos (2010), professor e sociólogo português, destaca que mesmo sendo um conceito nativo, o Bem Viver não é entendido pelas organizações indígenas como uma propriedade exclusiva dos indígenas, mas entendem como uma contribuição dos povos indígenas para todo conjunto das etnias presentes na América Latina. Alberto Acosta, um dos teóricos do conceito e autor de O Bem Viver Uma oportunidade para imaginar outros mundos, afirma também que há correspondência do conceito no continente africano, como na filosofia do ubuntu da África do Sul. Acosta aponta que não são ideias que foram construídas na academia, nas universidades ou partidos políticos, são ideias e valores, experiências e muitas práticas existentes em muitas comunidades. Para povos que viveram o massacre físico e epistêmico da colonização e escravidão, o Bem Viver é uma inspiração que nos permite sonhar outros mundos. O combate ao capitalismo ganha destaque dentro da teoria do Bem Viver, como coloca a socióloga feminista colombiana Magdalena León (2012), pois marca uma ruptura com a centralidade do indivíduo, a superioridade do humano e com as noções de progresso, desenvolvimento e bem-estar em chave capitalista. Dessa maneira, o Bem Viver propõe também abandonar a busca pelo desenvolvimento, porque considera que esse conceito vem carregado de violência e opressão em todas as esferas. O capitalismo exige relações calcadas nas desigualdades para se desenvolver. Essas desigualdades são construídas a partir da hierarquização dos corpos proposta pelas ideias colonizadoras e escravocratas, que carregam consigo a perda da humanidade dos povos colonizados. Sendo assim, a construção de um novo marco civilizatório passa, necessariamente, pela criação de outro modelo econômico. No entanto, não faltam críticas que apontem que esses governos usam o Bem Viver muito mais como um slogan do que pelo seu conteúdo revolucionário. 146
TÓPICO 3 CULTURA E MEIO AMBIENTE A feminista boliviana e socióloga, Silvia Rivera Cusicanqui acusa os governos de Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), de se valerem do termo sem uma implementação de fato. Falar do Bem Viver sem romper a lógica desenvolvimentista fez com que, segundo ela, ambos os presidentes apliquem a fórmula extrativista colonial que expulsa comunidades de seus territórios, destroem florestas para a exploração de petróleo e construção de rodovias, entre outras violências em nome do progresso. Além de ser debatido nesses dois países, lugares como Espanha, Alemanha e Brasil vem angariando seguidores do conceito. No Brasil, desde a grande Marcha das Mulheres Negras que ocorreu em 2015, por intermédio de uma lutadora do Pará, Nilma Bentes, as mulheres negras constroem o conceito do Bem Viver como elemento que se contrapõe ao modelo capitalista neoliberal. Na Carta das Mulheres Negras de 2015, documento divulgado pela organização da Marcha dias antes das mulheres tomarem às ruas de Brasília em 18 de novembro, traz a reivindicação da teoria do Bem Viver alinhada com o que é destacado pelos autores citados anteriormente. A sabedoria milenar que herdamos de nossas ancestrais se traduz na concepção do Bem Viver, que funda e constitui as novas concepções de gestão do coletivo e do individual; da natureza, política e da cultura, que estabelecem sentido e valor à nossa existência, calcados na utópica de viver e construir o mundo de todas(os) e para todas(os). Na condição de protagonistas oferecemos ao Estado e a Sociedade brasileiros nossas experiências como forma de construirmos coletivamente uma outra dinâmica de vida e ação política, que só é possível por meio da superação do racismo, do sexismo e de todas as formas de discriminação, responsáveis pela negação da humanidade de mulheres e homens negros. O documento aponta para a mudança estrutural proposta pela teoria do Bem Viver já que, como apresenta a intelectual feminista Bell Hooks (2013), uma sociedade balizada pela ideologia da supremacia branca, imperialista, capitalista e patriarcal nunca pode ser justa. Sendo assim, as sociedades eurocêntricas, alicerçadas nas ideais de branquitude, têm como base do seu desenvolvimento a concentração de poder, o acúmulo de riqueza, a exploração como sustento da sociedade, o domínio de outros povos e o massacre epistêmico de tudo que não é branco. Elementos que vão na contramão do Bem Viver. Vale lembrar que como um dos pontos em comum, a experiência indígena na América Latina e a de negros e negras carregam profundas cicatrizes advindas do colonialismo europeu. Segundo a intelectual feminista Lélia Gonzáles (1988), o colonialismo europeu se valeu do racismo científico para estruturar um modelo de superioridade branco europeu. Esse modelo estrutural foi internalizado pelas culturas exploradas. Essas experiências em comum foram ressignificadas por Gonzáles por meio da categoria amerifricanidade, a combinação em território latino-americano das diferentes identidades indígenas, africanas que modificam a cultura hegemônica por meio de suas vivências em comum. Os valores civilizatórios africanos e indígenas contidos no conceito de Bem Viver estão na contramão de um modelo de desenvolvimento que considera a terra e a natureza apenas como insumos para a produção de mercadorias de rápido consumo e, mais rápido ainda, descarte. O Bem Viver assim como ressalta as cosmovisões africanas e indígenas, não entende que enquanto humanos estamos apartados da 147
UNIDADE 2 CULTURA E EDUCAÇÃO natureza, pelo contrário, somos parte dela. Ao permitir sonhar outros mundos, o Bem Viver dá base para uma prática política que visa a desconstrução das opressões estruturais a partir do rompimento de práticas colonizadoras. Desse modo, o termo nada tem a ver com o viver bem, ou o viver melhor que trazem em si o consumismo, o acúmulo de riqueza ou acesso às abundâncias que o dinheiro pode comprar com base em relações exploratórias. Pelo contrário, não há Bem Viver na opressão. O conceito surge com a missão de descolonizar a democracia a partir do rompimento de práticas colonizadoras que são alicerces do capitalismo. O Bem Viver nos lembra que mudar esse sistema econômico e político não é utopia, mas sim uma necessidade. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3jz9ucg>. Acesso em: 30 ago. 2021. 148
RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: Sustentabilidade é um conceito relacionado à conservação. No aspecto ambiental, que com frequência o termo é empregado, a sustentabilidade diz respeito, então, a um planeta sadio, no qual as pessoas possam encontrar as condições necessárias para a sua sobrevivência, de geração em geração. O conceito de sustentabilidade é apresentado a partir de cinco perspectivas, cinco dimensões primordiais, sendo elas: sustentabilidade social; sustentabilidade econômica; sustentabilidade ecológica; sustentabilidade espacial (ou geográfica); sustentabilidade cultural. Desenvolvimento sustentável refere-se ao desenvolvimento socioeconômico, político e cultural atrelado à preservação do meio ambiente. Sendo assim, as práticas capitalistas associadas ao consumo devem estar em equilíbrio com a sustentabilidade, visando aos avanços no campo social e econômico sem prejudicar a natureza. É a garantia do suprimento das necessidades da geração futura por meio da conservação dos recursos naturais. Paulo Freire, nosso grande educador, foi um dos precursores em problematizar a temática Diálogo dos sabres, em sua obra Extensão ou Comunicação, em 1977, no sentido de orientar a relação entre o técnico e o agricultor, onde todos os sujeitos são educandos e educadores. Numa relação de ensino-aprendizagem, Diálogo de saberes é a confluência, ou o encontro do conhecimento científico, sistematizado, comprovado, aprendido na escola com o conhecimento ou saber popular adquirido por meio da experiência de vida do agricultor nas diversas dimensões, que expressa o que faz sentido para ele, sua visão de mundo, sua identidade de agricultor. 149
A noção de Bem Viver tem como procedência o sumak kawsay, um modo de vida de populações indígenas latino-americanas. Bem Viver provém da tradução para o castelhano (buen vivir) da expressão kichwa sumak kawsay e da expressão aymara suma qamaña. Sumak, que em kichwa, significa plenitude, e kawsay, viver. Kichwa designa um povo, uma nacionalidade e um idioma falado por cerca de 14 milhões de pessoas distribuídas entre as regiões andinas e amazônicas de Peru, Bolívia, Equador, Chile, Colômbia e Argentina. Foi a língua oficial do Império Inca. Neste idioma, suma significa plenitude, excelência, bem, e qamaña, viver, estar sendo. Aymara é também a designação de um povo estabelecido no Peru, Bolívia, Argentina e Chile (OSÓRIO, 2015: p. 8). A importância Da Cosmovisão ou Paradigma do Bem Viver está na realização imediata na retomada de um horizonte de um futuro com justiça e igualdade. A luta indígena pelo Bem Viver faz parte de uma ampla aliança pela preservação da vida no planeta Terra. Para pensar em Bem Viver é necessário beber da fonte ancestral, mas isso não significa fazer uma leitura utópica do passado, e sim pensá-lo como tempo que respalda a contínua produção do presente e do futuro. As próprias culturas indígenas são o melhor exemplo de que outro mundo é possível porque conseguem ainda no início deste século XXI, marcado pela desigualdade e uniformização das mercadorias, do consumo e dos desejos, construir sociedades igualitárias, sem marginalização e sem exclusão. CHAMADA Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. 150
AUTOATIVIDADE 1 O termo sustentabilidade surge da necessidade de discussão a respeito da forma como a sociedade vem explorando e usando os recursos naturais, pensando em alternativas de preservá-lo evitando, assim, que esses recursos se esgotem na natureza. A definição de sustentabilidade está atrelada ao conceito de desenvolvimento sustentável. Sobre a dimensão social, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) É a adoção de um crescimento estável, distribuindo melhor as riquezas, com menos desigualdades. b) ( ) Tornada possível graças ao fluxo constante de inversões públicas e privadas, além da alocação e do manejo eficientes dos recursos naturais c) ( ) Prevê ainda a diminuição do uso de combustíveis fósseis e a redução do volume de substâncias poluentes. d) ( ) Se configura como a mais complexa no sentido de sua concretização. Intenta dar soluções locais, adaptadas a cada cultura e ecossistema. 2 Paulo Freire, grande educador, foi um dos precursores em problematizar a temática Diálogo dos saberes, em sua obra Extensão ou Comunicação, em 1977, no sentido de orientar a relação entre o técnico e o agricultor, onde todos os sujeitos são educandos e educadores. Numa relação de ensino-aprendizagem, Diálogo de saberes é a confluência, ou o encontro do conhecimento científico, sistematizado, comprovado, aprendido na escola com o conhecimento ou saber popular adquirido por meio da experiência de vida do agricultor nas diversas dimensões, que expressa o que faz sentido para ele, sua visão de mundo, sua identidade de agricultor. Sobre o exposto, analise as afirmativas a seguir: I- No Diálogo de saberes está implícita a construção conjunta do conhecimento ou a produção coletiva de conhecimentos, sem haver imposição de receitas, técnicas ou soluções prontas, sem invasão cultural. II- O importante no âmbito cultural e das relações existentes em sociedade é de que o diálogo pressupõe troca, uma relação de sujeitos iguais, ambos educadores e educandos, ou seja, numa relação horizontal em que nenhum é melhor ou mais que o outro, e ambos são possuidores de conhecimentos, cientificamente ou apenas socialmente construído. III- Na proposta de diálogo entre os saberes deve-se pensar numa epistemologia que trate a contextualização e a concepção religiosa da vida como princípios filosóficos naturais. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. b) ( ) As afirmativas I e III estão corretas. 151
c) ( ) Somente a afirmativa III está correta. d) ( ) Somente a afirmativa II está correta. 3 Eles emergem com muita força em vários países latino-americanos, como sujeitos e não mais como objetos da política. São atores fundamentais em processos de democratização no Equador e na Bolívia, em particular. Não só sujeitos, mas também portadores de alternativas de sua própria forma de ver o mundo. Sobre o exposto, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Europeus. b) ( ) Trabalhadores. c) ( ) Povos marginalizados. d) ( ) Movimentos Indígenas. 4 As diferentes culturas trazem variações nas características e na formação de identidades sociais. Essas diferentes identidades se expressam num coletivo. Isso porque as pessoas convivem em ambientes diferentes e acabam desempenhando diversificados papéis, formando um complexo de características. Descreva como pode ser reconhecida essa identidade social, exemplificando. 5 Quando se deseja estabelecer um conceito de diversidade cultural e desigualdade social, percebe-se que há diferenças não só no significado da palavra, mas na constituição do próprio conceito. Diversidade possui significado diferente de desigualdade. No entanto, apesar da diferença, há uma relação entre elas, que se estabelece a partir da forma em que se constituiu a diversidade num determinado país ou região. Isto posto, disserte sobre o processo e as contribuições da diversidade étnico-cultural brasileira. 152
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UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: analisar as relações culturais e de consumo existentes em sociedade a partir das salas de aula; refletir sobre as práticas interculturais em sociedade e nas salas de aula; promover o debate e a inclusão de gênero em sala de aula com o suporte das teorias decoloniais; compreender a estrutura e aplicabilidade da BNCC em sala de aula. PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS CHAMADA Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. 159
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UNIDADE 3 TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA 1 INTRODUÇÃO Neste tópico estudaremos a multiculturalidade. O multiculturalismo pode ocorrer em escala nacional ou nas comunidades de uma nação. Pode ocorrer naturalmente por meio da imigração ou artificialmente quando jurisdições de diferentes culturas são combinadas por meio de decreto legislativo. Também abordaremos a interculturalidade. A Interculturalidade é um termo usado para indicar um conjunto de propostas de convivência democrática entre diferentes culturas, buscando a integração entre elas sem anular sua diversidade Por fim, veremos acerca das práticas interculturais em sala de aula, que englobam relações étnico-raciais, questões de gênero e sexualidade, pluralismo religioso, relações geracionais, culturas infantis e juvenis, povos tradicionais e educação diferenciada, entre outros. 2 MULTICULTURALIDADE A natureza humana resulta do aprendizado cultural e por conseguinte é a responsável pela diversidade humana, nascemos seres biológicos e o que nos torna humanos é a cultura. Os processos culturais abrangem as práticas humanas e suas manifestações, como os conhecimentos, as crenças, os valores, os costumes, as artes, a tecnologia, que podem ser analisadas como representações simbólicas. NOTA Multiculturalidade: em que há, em simultâneo, várias culturas num mesmo território, país etc.; multicultural. FONTE: <https://www.dicio.com.br/multiculturalidade/>. Acesso em: 22 maio 2021. 161
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA A noção de processo é o resultado do fato de a cultura ser dinâmica e de estar relacionada às transformações sócio-históricas em que interagem relações de causa e de consequência. Sendo assim, o que confere unidade ao ser humano (...) é a sua aptidão à variação cultural, ou seja, aquilo que os seres humanos têm em comum é a sua capacidade para se diferenciar uns dos outros, para elaborar costumes, línguas, modos de conhecimento, instituições, jogos profundamente diversos (LAPLANTINE, 1994, p. 22). Desse modo, cada sociedade, cada cultura tem sua dinâmica própria, construída historicamente dentro do seu contexto específico e único. Esse processo resulta na diversidade cultural existente, ou seja, sociedades multiculturais, que no contexto da globalização, que permitiu a aproximação das pessoas por meio do desenvolvimento das tecnologias, que abreviaram distâncias. Novas e complexas redes foram criadas, todas interdependentes, com uma economia multinacional e que não se limitava mais às barreiras das tradicionais fronteiras. Nesse cenário, a cultura passou a sofrer vários processos diferentes de produção e consumo, passando desde a homogeneização fundamentada na cultura hegemônica estadunidense, até mesmo a um reforço das culturas locais, tradicionais. Tudo isso acabou gerando um universo de grande variedade cultural. NOTA O multiculturalismo é a inter-relação de várias culturas em um mesmo ambiente. É um fenômeno social que pode ser relacionado com a globalização e as sociedades pós-modernas. Alguns países apresentam uma maior multiculturalidade. Muito devido aos diferentes grupos de imigrantes recebidos, mas também por observar outros fatores de integração e o desenvolvimento de novas culturas a partir do choque cultural. FONTE: <https://www.significados.com.brimulticulturalismo/>. Acesso em: 8 set. 2021. É necessário, então, conhecermos o multiculturalismo no contexto da globalização, que resultou em novas e complexas redes criadas, todas interdependentes, com uma economia multinacional e que não se limitava mais às barreiras das tradicionais fronteiras. Nesse cenário de globalização, a cultura passou a sofrer vários processos diferentes de produção e consumo, passando desde a homogeneização fundamentada na cultura hegemônica estadunidense, até mesmo a um reforço das culturas locais, tradicionais. Tudo isso gerou uma grande variedade cultural. Portanto, vamos conhecer melhor o multiculturalismo, suas características e seus desafios. 162
TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA O que é o multiculturalismo? Em linhas gerais, o multiculturalismo se relaciona, tanto do ponto de vista acadêmico quanto das políticas institucionais, com as questões levantadas pelo surgimento das sociedades multiculturais. Essas nada mais são do que sociedades que abrigam, em um mesmo local, povos de origens culturais diferentes. Vale dizer que a aceitação entre esses diversos grupos pode variar desde a tolerância até o conflito aberto, passando até mesmo por rejeição. Tudo vai depender de como a cultura dominante se impõe entre as demais, além das políticas públicas definidas pelo Estado e até mesmo a formação histórica daquele território. O fato é que a convivência entre culturas não é algo recente, mas se intensificou bastante nas últimas décadas, devido a muitas mudanças ocorridas no mundo atual. A principal delas é o fenômeno da globalização. Por um lado, esse ideário propagou uma forma única de ver o mundo, em que prevalece o Capitalismo neoliberal, a democracia liberal e todos os seus valores decorrentes, incluindo uma cultura massificada e um modo de vida ocidentalizado e americanizado, que passou a atingir todos os cantos do planeta. Por outro lado, várias culturas tradicionais se fortaleceram na luta para evitar justamente essa homogeneização cultural advinda do Ocidente. Isto é, apesar dessa massificação cultural, muitas comunidades locais conseguem desenvolver sua própria cultura, até mesmo se apropriando de pedaços da cultura hegemônica, produzindo algo novo e original. O rap e o funk brasileiros são alguns exemplos disso. FONTE: <https://bit.ly/3tswuym>. Acesso em: 22 abr. 2021. DICAS Para saber mais sobre o Multiculturalismo, sugiro a leitura do seguinte livro: MCLAREN, Peter. Multiculturalismo Crítico. São Paulo: Cortez, 1997. Quais as principais características do multiculturalismo? A capacidade de assimilar algo de qualquer cultura e criar novas expressões culturais, respeitando os princípios e valores fundantes das culturas em contato. É um fenômeno social que não discrimina, pois evita o desconhecimento e preconceito referente às culturas e faz o caminho inverso o da integração cultural. Entende-se que o multiculturalismo é altamente nivelado, pois deixa de lado as representações discriminatórias que são geralmente provocadas por medo ou por desconhecimento do outro. Ao mesmo tempo, o multiculturalismo 163
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA admite a existência de todas as culturas e não renega nenhuma, pois nesse aspecto todas elas podem contribuir da mesma maneira na geração de uma nova expressão cultural. Muitos consideram o multiculturalismo uma espécie de antídoto em relação ao eurocentrismo e ao imperialismo cultural estadunidense. NOTA Posturas diante da diversidade cultural. FONTE: <https://bit.ly/3dvs5hh>. Acesso em: 20 abr. 2021. Quais os desafios para o Multiculturalismo? Desafios Multiculturais Apesar de ter aumentado a sua importância neste novo século, o multiculturalismo ainda tem alguns desafios pela frente. Em primeiro lugar, é preciso superar as críticas recebidas do ponto de vista teórico. Uma das principais críticas é a ideia de que para que esse conceito possa prosperar é necessário que as identidades culturais devam deixar de existir isoladamente. 164
TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA O problema é que isso pode levar muitas culturas históricas a perderem sua essência, tirando sua originalidade e podendo causar justamente o que o multiculturalismo tenta combater: a homogeneização das culturas. Outra crítica que alguns destacam é que esse fenômeno não prevê uma integração de fato das culturas, mas o domínio de algumas em relação a outras. Há desafios também no campo prático. Embora muitos países democráticos tenham buscado aceitar e incorporar culturas distintas em seus territórios, outros negam direitos sociais e perseguem as minorias culturais. Em alguns casos, ainda que exista uma política pública favorável a esse processo, o que ocorre no dia a dia é a perseguição feita por indivíduos comuns, organizados ou não, inflamados por um nacionalismo doente que rejeita o outro. FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3tswuym>. Acesso em: 22 abr. 2021. Caro acadêmico, em sociologia, de forma ampla, o multiculturalismo descreve a maneira como uma dada sociedade lida com a diversidade cultural e com base na suposição subjacente de que membros de culturas frequentemente muito diferentes podem coexistir pacificamente, o multiculturalismo expressa a visão de que a sociedade é enriquecida preservando, respeitando e até encorajando a diversidade cultural. Na área da sociologia e filosofia política, o multiculturalismo se refere às maneiras pelas quais as sociedades optam por formular e implementar políticas oficiais que tratem do tratamento equitativo de diferentes culturas. Na implementação das políticas públicas, tendo como referencial o conceito de multiculturalismo, quais seriam as principais vantagens para a vida em sociedade? O multiculturalismo é a forma como uma sociedade lida com a diversidade cultural, tanto em nível nacional como comunitário. Sociologicamente, o multiculturalismo pressupõe que a sociedade como um todo se beneficia do aumento da diversidade por meio da coexistência harmoniosa de diferentes culturas. O multiculturalismo pode ocorrer em escala nacional ou nas comunidades de uma nação. Pode ocorrer naturalmente por meio da imigração ou artificialmente quando jurisdições de diferentes culturas são combinadas por meio de decreto legislativo. Os defensores do multiculturalismo acreditam que as pessoas devem reter pelo menos algumas características de suas culturas tradicionais. Por sua vez, os oponentes dizem que o multiculturalismo ameaça a ordem social ao diminuir a identidade e a influência da cultura predominante. Se tratando da diversidade existente nos processos sociais de relações e integração, quais seriam as principais características de uma sociedade multicultural? 165
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA Sociedades Multiculturais Sociedades multiculturais são caracterizadas por pessoas de diferentes raças, etnias e nacionalidades vivendo juntas na mesma comunidade. Em comunidades multiculturais, as pessoas mantêm, transmitem, celebram e compartilham seus modos de vida, línguas, arte, tradições e comportamentos culturais únicos. As características do multiculturalismo geralmente se espalham nas escolas públicas da comunidade, onde os currículos são elaborados para apresentar aos jovens as qualidades e benefícios da diversidade cultural. Embora às vezes criticado como uma forma de correção política, os sistemas educacionais em sociedades multiculturais enfatizam as histórias e tradições das minorias nas salas de aula e nos livros didáticos. Longe de ser um fenômeno exclusivamente norte americano, exemplos de multiculturalismo são encontrados em todo o mundo. FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/2x8okom>. Acesso em: 22 abr. 2021. Em síntese o multiculturalismo é um fenômeno extremamente típico de final do século XX e início do século XXI. Isso tem a ver com um processo de maiores alcances conhecido como globalização e que se caracteriza principalmente pelo estabelecimento de laços entre todas as regiões do mundo de maneira inevitável e indiscutível. A diversidade ocorre quando pessoas de diferentes raças, nacionalidades, religiões, etnias e filosofias se reúnem para formar uma comunidade. Uma sociedade verdadeiramente diversa é aquela que reconhece e valoriza as diferenças culturais de seu povo. Os defensores da diversidade cultural argumentam que ela torna a humanidade mais forte e pode, de fato, ser vital para sua sobrevivência a longo prazo. Ao reconhecer e aprender sobre esses vários grupos, as comunidades constroem confiança, respeito e compreensão em todas as culturas. Comunidades e organizações em todos os ambientes se beneficiam das diferentes origens, habilidades, experiências e novas formas de pensar que vêm com a diversidade cultural. 3 INTERCULTURALIDADE A interculturalidade enfoca a necessidade do diálogo, da vontade de interrelação e não de dominação. Um diálogo cujas regras, não podem ser firmadas unilateralmente e nem a priori, mas que devem ser estabelecidas no decorrer do mesmo e com a confiança mútua. Portanto, a compreensão é um elemento central na construção de relações interculturais. Uma comunicação só se torna eficaz quando se chega a um grau de compreensão aceitável para os interlocutores, isto é, a interculturalidade só ocorre quando um grupo começa a entender e assumir o sentido que as coisas e objetos têm para os outros. 166
TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA FIGURA 1 A DIFERENÇA NOS ENRIQUECE E O RESPEITO NOS UNE FONTE: <https://bit.ly/3nabpv9>. Acesso em: 22 abr. 2021. A interculturalidade tem lugar quando duas ou mais culturas entram em interação de uma forma horizontal e sinérgica. Para tal, nenhum dos grupos se deve encontrar acima de qualquer outro que seja, favorecendo, assim, a integração e a convivência das pessoas. Esses tipos de relações interculturais implicam em ter respeito pela diversidade; embora, por razões óbvias, o aparecimento de conflitos seja inevitável e imprevisível, podem ser resolvidos através do respeito, do diálogo. FIGURA 2 O VERDADEIRO DIÁLOGO FONTE: <https://bit.ly/2xiay58>. Acesso em: 19 mar. 2021. A Interculturalidade é um termo usado, nas palavras do professor e pesquisador Fleuri (2018), para indicar um conjunto de propostas de convivência democrática entre diferentes culturas, buscando a integração entre elas sem anular sua diversidade, ao contrário, fomentando o potencial criativo e vital resultante das relações entre diferentes agentes e seus respectivos contextos. O termo tem origem e vem sendo utilizado com frequência nas teorias e ações pedagógicas, mas saiu do contexto educacional e ganhou maior amplitude passando a referir- -se também às práticas culturais e políticas públicas. Esse termo diferencia-se de 167
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA outro bastante usado no estudo da diversidade cultural que é o da multiculturalidade que indica apenas a coexistência de diversos grupos culturais na mesma sociedade sem apontar para uma política de convivência. O termo interculturalidade, segundo Fleuri (2018), pode ser usado como uma forma de indicar como a cultura flui e como ela faz para se fundir com outras culturas. Pode ser visto também, como algo que está em constante mobilidade para alterar o meio no qual se vive, seja pela fusão, adição de novos elementos ou mesmo subtração deles. Sobretudo, a interculturalidade é vista como um meio de experimentar a cultura de outro indivíduo e ter interesse em conhecer mais sobre ela e sobre a pessoa também, preza por valores como respeito, cidadania, igualdade, tolerância, democracia na educação, e direitos humanos. Nos escritos do teólogo, filósofo e antropólogo Albó (2005), interculturalidade pode ser definida como qualquer relação entre pessoas ou grupos sociais de diversas culturas. A interculturalidade, segundo ele, pode ser negativa quando a relação acaba destruindo ou reduzindo o que é culturalmente distinto (etnicídio cultural) ou até mesmo quando há simplesmente a assimilação da cultura dominante pela cultura dominada ou positiva quando resulta na aceitação do que é culturalmente distinto e na troca de conhecimentos, com enriquecimento mútuo. A simples tolerância do que é culturalmente diferente, sem um verdadeiro intercâmbio enriquecedor, não chega a ser uma interculturalidade positiva. As relações de alteridade são positivas quando os dois polos o da própria identidade e o outro se fortalecem, se enriquecem e se transformam mutuamente, sem, no entanto, deixar de ser o que são. Naturalmente, alerta Albó (2005), para que esses mecanismos funcionem em ambos os sentidos, com alguma forma de mútua reciprocidade, as relações devem estar baseadas numa certa simetria, conseguida, quase sempre, por meio de longos, pacientes e, às vezes, dolorosos processos desenvolvidos nos planos interpessoal, grupal e estrutural. Apesar de a raiz fundamental da interculturalidade positiva estar nas relações interpessoais entre indivíduos isoladamente ou em grupo, não é possível trabalhar apenas nesse nível. É preciso transformar as instituições e estruturas que constituem o corpo social sistema educativo, meios de comunicação, sistema judiciário, polícia, igrejas, entre outros, mas principalmente o sistema econômico para que reflitam e facilitem as relações positivas entre os diversos grupos de pessoas. Estabelecer relações interculturais positivas, é muito mais fácil quando há culturas distintas, mas de igual posição e prestígio social. Ele lamenta, no entanto, que as relações interculturais assimétricas sejam muito mais comuns no mundo cada vez mais globalizado e injusto. Portanto, a interculturalidade enfoca a necessidade do diálogo, da vontade de inter-relação e não de dominação. Um diálogo cujas regras, não podem ser firmadas unilateralmente e nem a priori, mas que devem ser estabelecidas no decorrer do mesmo e com a confiança mútua. Portanto, a compreensão é um elemento central na construção de relações interculturais. Uma comunicação só se torna eficaz quando se chega a um grau de compreensão aceitável para os interlocutores, isto é, a interculturalidade só ocorre quando um grupo começa a entender e assumir o sentido que as coisas e objetos têm para os outros. 168
TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA Para tanto, na sociedade atual global é necessário promover valores, atitudes e comportamentos que fomentem o diálogo, a não-violência, a tolerância e a reaproximação de culturas. A Interculturalidade pode contribuir para que um pluralismo cultural assente em trocas culturais e contatos entre indivíduos e grupos de diferentes raízes culturais. O diálogo entre culturas é, portanto, um fator essencial para a construção de uma cultura de paz. Simultaneamente, tem um papel muito importante na coesão social, já que as sociedades são cada vez mais heterogêneas e possuem elementos de diferentes origens culturais. Esse fenômeno faz das sociedades um organismo extremamente rico e em constante mudança. Para além disso, a Interculturalidade contribui ainda para a riqueza das produções culturais e artísticas, já que favorece sincretismos e o surgimento de diferentes leituras e interpretações de um único bem cultural. NOTA Reinaldo Fleuri destaca a necessidade de que a interculturalidade esteja baseada numa política da diferença e não apenas da diversidade. As políticas de diversidade pressupõem que você possa categorizar os diferentes públicos socioculturais a partir de alguns padrões mais ou menos gerais. Categorizamos diferentes grupos étnicos por suas características genéricas e enquadramos os indivíduos nessas categorias. Já as políticas da diferença consideram que as diferenças se constituem na interação viva entre as próprias pessoas, os próprios grupos e que, nesse jogo de forças, cada um vai se constituindo, se posicionando, propondo contrapontos, interagindo com todos. Vão se configurando processos de identificação e, portanto, de diferenciação (FLEURI, 2018). 4 PRÁTICAS INTERCULTURAIS EM SALA DE AULA A proposta de estudo neste bloco de conteúdos sobre Práticas Interculturais em sala de aula é a partir de uma visão mais ampla do conceito sociológico de Educação e de Sala de Aula. Já estudamos que os processos culturais existentes na sociedade humana passam pelas trocas de relações entre grupos e sujeitos mediatizados pelo mundo e o mecanismo que promove cultura e a humanização é a Educação. Nosso direcionamento, portanto, é perceber e compreender o termo sala de aula nos próximos assuntos estudados como um espaço vivido e de trabalho humano. Ensinar e aprender em locais que são estabelecidas as relações de integração e troca culturais. Apresentaremos dois locais/espaços de ensinar e aprender as práticas culturais em sociedade. As salas de aula serão, Educação (Escola/ Universidade), Intercâmbios (Empresas/Pesquisa/Estudos). 169
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA Relações étnico-raciais, questões de gênero e sexualidade, pluralismo religioso, relações geracionais, culturas infantis e juvenis, povos tradicionais e educação diferenciada, entre outros, são temas fortemente presentes na sociedade na atualidade. Tais assuntos provocam debates, controvérsias e reações de intolerância e discriminação, assim como suscitam diversas iniciativas orientadas a trabalhá-las numa perspectiva direcionada à afirmação democrática, ao respeito à diferença e à construção de uma sociedade em que todos e todas possam ser plenamente cidadãos e cidadãs. A complexidade das relações sociais e a diversidade cultural atualmente requerem novas formas de se elaborar o conhecimento e a pesquisa no âmbito da Educação. A constante relação entre os fenômenos culturais e as grandes mudanças e avanços ocorridos nas ciências, atuaram e atuam como processos de desestabilização e fragmentação dos códigos culturais, ou seja, as distâncias e barreiras entre os sujeitos, as culturas e suas formas de manifestação estão cada vez mais estreitas e articulando-se por completo, tornando o mundo cada vez mais interconectado em suas novas combinações espaço-tempo. DICAS O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial (FREIRE, 1987, p. 42). É percebido que a escola e a Universidade, através de seus docentes, têm ignorado conhecimentos e experiências dos grupos cujos padrões culturais não correspondem aos impostos pela cultura ocidental hegemônica, pois a instituição educacional parece ter dificuldade em reconhecer que grande parte da população não se enquadra nos parâmetros determinados por uma concepção universalista de cultura. Por tudo, não é raro observarmos que os estudantes apresentem resistência com relação à escola ou a universidade, porque, muitas vezes, seus valores e saberes não são aceitos e nem valorizados dentro desse contexto. Por sua vez, na sociedade existe uma crescente sensibilidade para a temática das diferenças culturais que se manifesta em diversos âmbitos sociais. No entanto, no que se refere à educação escolar, é possível detectar uma sensação de impotência, de não sabermos lidar positivamente com essas questões. Para avançar na incorporação da perspectiva intercultural no cotidiano escolar e acadêmico, é importante que ela seja introduzida nos processos de formação continuada realizados coletivamente na própria escola e universidade. 170
TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA Entendendo que todas as culturas têm valor e podem contribuir para enriquecer o processo de construção do conhecimento, acredita-se que a Educação deveria assumir uma perspectiva intercultural, pois ela apresenta-se como uma possibilidade de se compreender a complexidade das interações humanas, criando condições para que haja crescimento de todos os sujeitos e grupos aos quais pertencem, promovendo mudanças profundas na educação. Podemos afirmar então, que a incorporação de uma perspectiva intercultural, "não pode ser reduzida a algumas situações e/ou atividades realizadas em momentos específicos ou por determinadas áreas curriculares, nem focalizar sua atenção a determinados grupos sociais" (CANDAU, 2000, p. 51). A partir dessa perspectiva a concepção de Educação é ampliada, passando a ser entendida, como salienta Fleuri (2003, p. 20): Como um processo construído pela relação tensa e intensa entre diferentes sujeitos, criando contextos interativos que, justamente, por se conectar dinamicamente com os diferentes contextos culturais em relação aos quais os diferentes sujeitos desenvolvem suas respectivas identidades, se torna um ambiente criativo e propriamente formativo. Uma das condições fundamentais para práticas educativas interculturais é a necessidade de uma reestruturação cultural das formas de agir, sentir e pensar o mundo, e, portanto, a Educação. Essa estruturação, de nada servirá se não implementarmos mudanças em aspectos culturais enraizados em nossas escolas e universidades, que pelas transformações constantes na sociedade, acabam não satisfazendo mais as necessidades dos sujeitos. Candau (1998) defende uma proposta de formação de professores fundamentada na perspectiva intercultural, acreditando que somente com uma formação voltada para a diversidade cultural os professores podem colaborar para desestabilizar o papel homogeneizador da cultura escolar. A formação de professores precisa ser considerada como um espaço importante para começar as mudanças, acreditarmos na necessidade de se investir na formação inicial e, principalmente continuada, para os professores em serviço, com propostas que venham sensibilizar os educadores para a diversidade cultural, o que pode significativamente contribuir para os sujeitos saírem da menoridade e construírem-se como sujeitos críticos, criativos e autônomos, buscando o esclarecimento das questões que permeiam o mundo. Outra necessidade para a promoção de diálogo e implementação de uma visão intercultural em diversos espaços e locais é o intercambio. Fazer um intercâmbio e vivenciar experiências culturas diferentes é, hoje, um dos sonhos da maioria dos estudantes ou futuros profissionais. O intercâmbio pode ser uma abertura de horizontes, uma ponte para fazer novas amizades, conhecer novas culturas, estilos de vidas, rever valores, aprender sobre respeito mútuo entre as diferentes nações do mundo. Estudar no exterior é, de fato, uma experiência internacional maravilhosa, mas ela é automaticamente intercultural? Apesar de serem usadas como sinônimo e estejam interligadas, as duas são coisas diferentes. Aliás, você sabe o que 171
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA isso significa? Uma experiência intercultural requer preparo e, quando bem-sucedida, traz enormes benefícios à sua vida. O que é e quais são os benefícios da experiência (intercâmbio) intercultural? A psicóloga Góes (2020) alerta que, a experiência internacional e intercultural, embora estejam relacionadas, não são sinônimos. Nem toda experiência internacional (de contato com um outro país, uma outra cultura) é, necessariamente, uma experiência intercultural. A experiência intercultural vai além do simples contato com outra cultura e envolve, entre outros fatores, curiosidade, troca, interesse genuíno pelo outro, reconhecimento das diferenças, respeito e aprendizado. Assim, uma experiência intercultural se torna mais enriquecedora, reconhecendo outros valores, comportamentos e visões de mundo que possam ser diferentes, além de ter um grande potencial para auxiliar na aquisição e desenvolvimento de diversas habilidades e capacidades em todas as faixas etárias. O estudante pode fazer isso de diversas formas. Dentre elas, Góes (2020) destaca: QUADRO 1 EXPERIÊNCIA INTERCULTURAL 1. Estudar o idioma do país que pretende viajar: não é preciso, necessariamente ter um nível de idioma fluente, mas sabemos que a habilidade de se expressar no idioma local está diretamente ligada a adaptação (pois impacta nos relacionamentos sociais, na vida escolar e na rotina do estudante). 2. Exercitar a curiosidade: pesquisar e conhecer mais sobre o país que pretende estudar: sua história, costumes, cultura, enfim, ter informações e conhecimento sobre o destino vai auxiliar no processo de adaptação no futuro. 3. Além de conhecer mais sobre o outro (a cultura e o país), é fundamental conhecer mais sobre si. Exercitar o autoconhecimento é compreender quais são as suas forças e qualidades, ter a clareza dos seus objetivos em estudar fora, compreender como se lida com mudanças, com o imprevisto entre outros elementos. Desbravar o mundo interno certamente auxiliará o estudante a desbravar o mundo lá fora. 4. Treinamento Intercultural: essa é uma excelente ferramenta para auxiliar no processo de preparação para uma experiência no exterior. Compreender e desenvolver ferramentas para lidar com a adaptação, o stress cultural, as diferenças culturais, os sentimentos envolvidos contribuem para que o jovem embarque mais confiante, seguro e preparado e assim esteja mais capacitado para lidar com os desafios e usufruir melhor a experiência intercultural. FONTE: <https://bit.ly/2x6hb5e>. Acesso em: 9 set. 2021. Uma experiência intercultural é um convite para se adquirir e desenvolver habilidades que serão úteis durante a vivência no exterior, e certamente fundamentais para a vida. É uma convocação para se lidar com diferenças assim como no intercâmbio diariamente. Conversar com pessoas com posicionamentos diferentes, exercitar a empatia com um vizinho e até mesmo trabalhar (presen- 172
TÓPICO 1 INTERCULTURALIDADE EM SALA DE AULA cialmente ou virtualmente) com pessoas de diversos lugares do mundo e, portanto, com valores e comportamentos diferentes. Assim, a experiência pessoal certamente ajudará e desenvolverá diariamente a continuar exercitando essas habilidades para construir relacionamentos mais saudáveis e positivos. DICAS A ideia de expansão internacional é sempre muito interessante, pois significa novas oportunidades de atuação, novos ganhos e um crescimento da importância do seu negócio em escala global. O problema é que essa guinada também envolve riscos, e é preciso estar preparado para encará-los. Uma forma de minimizá-los é investindo na experiência intercultural dos colaboradores. A experiência intercultural nada mais é do que permitir que o colaborador passe algum tempo em outra empresa que se localiza na região para a qual se quer expandir. Com essa espécie de imersão, será possível construir uma análise mais acertada do cenário que se vai encontrar. É preciso então: entender a cultura de outros países e sua legislação; adquirir experiência antes de expandir; identificar na experiência intercultural vantagens e desvantagens da expansão. FONTE: <https://bit.ly/3c1lf1b>. Acesso em: 14 maio 2021. 173
RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: Os processos culturais abrangem as práticas humanas e suas manifestações, como os conhecimentos, as crenças, os valores, os costumes, as artes, a tecnologia, que podem ser analisadas como representações simbólicas. A noção de processo é o resultado do fato de a cultura ser dinâmica e de estar relacionada às transformações sócio-históricas em que interagem relações de causa e de consequência. Em linhas gerais, o multiculturalismo se relaciona, tanto do ponto de vista acadêmico quanto das políticas institucionais, com as questões levantadas pelo surgimento das sociedades multiculturais. Essas nada mais são do que sociedades que abrigam, em um mesmo local, povos de origens culturais diferentes. O multiculturalismo é um fenômeno extremamente típico de final do século XX e início do século XXI. Isso tem a ver com um processo de maiores alcances conhecido como globalização e que se caracteriza principalmente pelo estabelecimento de laços entre todas as regiões do mundo de maneira inevitável e indiscutível. A interculturalidade enfoca a necessidade do diálogo, da vontade de inter-relação e não de dominação. Um diálogo cujas regras, não podem ser firmadas unilateralmente e nem a priori, mas que devem ser estabelecidas no decorrer desse diálogo e com a confiança mútua. Interculturalidade pode ser definida como qualquer relação entre pessoas ou grupos sociais de diversas culturas. A interculturalidade, segundo Albó (2005), pode ser negativa quando a relação acaba destruindo ou reduzindo o que é culturalmente distinto ou até mesmo quando há simplesmente a assimilação da cultura dominante pela cultura dominada ou positiva quando resulta na aceitação do que é culturalmente distinto e na troca de conhecimentos, com enriquecimento mútuo. A complexidade das relações sociais e a diversidade cultural atualmente requerem novas formas de se elaborar o conhecimento e a pesquisa. A constante relação entre os fenômenos culturais e as grandes mudanças e avanços ocorridos nas ciências, atuaram e atuam como processos de desestabilização e fragmentação dos códigos culturais, ou seja, as distâncias e barreiras entre os sujeitos, as culturas e suas formas de manifestação estão cada vez mais estreitas e articulando-se por completo, tornando o mundo cada vez mais interconectado em suas novas combinações espaço-tempo. 174
AUTOATIVIDADE 1 O debate em torno da diversidade cultural tornou-se importante para orientar a construção de políticas públicas, principalmente nas áreas da cultura, do emprego e da educação, devido à garantia das condições materiais básicas para todos. No âmbito das discussões sociológicas, tornou-se mais intensa sob quais conceitos? a) ( ) Multiculturalidade. b) ( ) Plurianual. c) ( ) Transcendência. d) ( ) Nenhuma opção apresentada. 2 As sociedades de forma geral são formadas não só por diferentes etnias, como por imigrantes de diferentes países. Além disso, as migrações colocam em contato grupos diferenciados. A convivência entre grupos diferenciados nos planos social e cultural muitas vezes é marcada pelo preconceito e pela discriminação. Com relação aos processos interculturais, analise as afirmativas a seguir: I- É necessário compreender que atitudes com relação à diversidade etnocultural, normas e valores, comportam uma dimensão social e uma dimensão religiosa que refletem os princípios assumidos pessoalmente por cada um a partir dos vários sistemas normativos que circulam na questão da fé. II- O grande desafio da sociedade humana é investir na superação da discriminação e dar a conhecer a riqueza representada pela diversidade etnocultural que compõe o patrimônio sociocultural, valorizando a trajetória particular dos grupos que compõem as diversas sociedades. III- Para viver democraticamente em uma sociedade plural é preciso respeitar os diferentes grupos e culturas que a constituem. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a afirmativa I está correta. b) ( ) Somente a afirmativa II está correta. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. 3 As práticas interculturais, no contexto das lutas sociais contra os processos crescentes de exclusão social inerentes à globalização econômica, propõem o desenvolvimento de estratégias que promovam a construção de identidades particulares e o reconhecimento das diferenças, ao mesmo tempo em que sustentem a inter-relação crítica e solidária entre diferentes grupos. Referente às práticas interculturais, assinale a alternativa CORRETA: 175
a) ( ) Uma prática intercultural encara a diversidade dos alunos como um problema e, perante ela, recorre a práticas que permitem a cada um deles conhecer melhor a si e aos outros. Para isso, transporta para a escola os saberes do cotidiano e as especificidades dos diversos grupos e trabalha-os de forma esporádica e fragmentada, mas contextualizados e vivenciados por processos interagidos. b) ( ) A prática intercultural bem conduzida permite reconhecer a identidade ao outro e, sobretudo, conhecer o outro na sua diferença e complexidade. c) ( ) A prática intercultural é um princípio subjacente a toda a atividade religiosa, e não um novo dogma d) ( ) Práticas interculturais pressupõem uma ação individual que não se esgota nos conteúdos e nas matérias selecionados para o ensino e a aprendizagem. Ao contrário, atravessam todos os aspectos da organização e gestão pessoal. 4 Não há unanimidade quanto à Pós-modernidade. Além disso, a Pós-modernidade é o nome designado para as mudanças que aconteceram por volta dos anos 1950 em diante, em diversos campos, entre eles: as ciências, as artes, avanços tecnológicos (computação, ciências cognitivas etc.). Da mesma forma, a Pós-modernidade tomou corpo por volta dos anos 1960 na arte pop e nos anos 1970 quando chega à filosofia. Disserte sobre as visões de intelectuais a respeito da Pós-modernidade 5 Não se pode negar que vivemos em um contexto e em um período de constantes mudanças e transformações. Estas mudanças abalam os mais diversos âmbitos da sociedade. Neste contexto, o mercado de trabalho não passa imune. É recorrente encontrar afirmações de que a educação/formação/qualificação é imprescindível para que os indivíduos sejam e se mantenham inseridos no mercado do trabalho. Disserte sobre as relações existente entre educação e trabalho. 176
UNIDADE 3 TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI 1 INTRODUÇÃO Neste tópico estudaremos sobre a Sociedade de Consumo e salas de aula. A sociedade de consumo é um conceito que define um modelo de reprodução social baseado no consumismo. A ideia de sociedade de consumo é empregada para designar uma sociedade cujas relações de consumo ocupam uma posição estratégica na organização social. Também veremos acerca das Sociedades Alternativas e salas de aula. Uma Sociedade Alternativa é aquela que se diferencia do modelo de Sociedade de Exclusão, que afasta e priva determinados indivíduos ou de grupos sociais e étnicos em diversos âmbitos da estrutura da sociedade. Outro ponto que será abordado neste tópico são as Salas de aulas conectadas. A humanidade vive uma transformação das interações sociais onde passam a não mais relacionar-se com outros indivíduos, mas sim a conectar-se e desconectar-se. Esse novo paradigma tecnológico, é definido por novos agrupamentos humanos que reorganizam seus significados, integrando o mundo em grandes redes local-global. Esse novo sistema de novas tecnologias apresenta cada vez mais elementos universalizantes como linguagem, sons, imagens, cultura, política, economia, identidade etc. Esses produtos culturais, estão moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldados por ela. 2 SOCIEDADE DE CONSUMO E SALAS DE AULA Sociedade de consumo é um termo bastante utilizado para representar os avanços de produção do sistema capitalista, que se intensificaram ao longo do século XX notadamente nos Estados Unidos e que, posteriormente, espalharamse e ainda vem se espalhando pelo mundo. 177
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA NOTA Significado de Sociedade de consumo: Designa o tipo de sociedade que se encontra em uma etapa avançada de desenvolvimento industrial, em que a oferta de bens e serviços quase sempre excede a procura, e em que os padrões de consumo são massificados, produzindo um tipo de cultura e comportamento característicos. FONTE: <https://www.dicio.com.br/sociedade-de-consumo/>. Acesso em: 8 set. 2021. O desenvolvimento econômico e social é pautado pelo aumento do consumo, que resulta em lucro ao comércio e às grandes empresas, gerando mais empregos, aumentando a renda, o que acarreta ainda mais consumo. Uma ruptura nesse modelo representaria uma crise, pois a renda diminuiria, o desemprego elevar-se-ia e o acesso a elementos básicos seria mais dificultado. Uma das grandes críticas ao sistema capitalista é a emergência desse modelo. Qual seria essa crítica? As críticas sobre a sociedade de consumo direcionam-se não apenas pela perspectiva econômica, mas também pelo viés ambiental. Afinal, um dos efeitos do consumismo é a ampliação da exploração dos recursos naturais para a geração de matérias-primas voltadas à fabricação de mais e mais mercadorias. Estimativas apontam que seriam necessários quatro planetas e meio para garantir os recursos naturais para a humanidade caso todos os países mantivessem o nível de consumo dos EUA. Com isso, há a devastação das florestas e o esgotamento até mesmo dos recursos renováveis, tais como a água própria para o consumo, as florestas e o solo. Além disso, os recursos não renováveis vão contando os dias para a escassez completa, tais como as reservas de petróleo e de diversos minérios utilizados para a fabricação dos mais diferentes produtos utilizados pela sociedade. FONTE: <https://bit.ly/3nnk3eg>. Acesso em: 13 maio 2021. 178
TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI FIGURA 3 MUDANÇAS DE HÁBITOS FONTE: <https://bit.ly/3l805ko>. Acesso em: 23 maio 2021. Existe uma grande crítica referente à produção de mercadorias rapidamente descartadas. Confira no trecho a seguir. Um dos aspectos mais criticados no que se refere à sociedade de consumo é a obsolescência programada ou obsolescência planejada, que consiste na produção de mercadorias previamente elaboradas para serem rapidamente descartadas, fazendo com que o consumidor compre um novo produto em breve. Assim, aumenta-se o consumo, mas também aumenta a demanda por recursos naturais e maximiza a produção de lixo, elevando ainda mais a problemática ambiental decorrente desse processo. Com isso, além da adoção de políticas sociais de controle ao consumismo exagerado, é preciso encontrar meios econômicos alternativos ao desenvolvimento pautado no consumo. Não obstante, faz-se necessária também a promoção de políticas de reciclagem, além da reutilização ou reaproveitamento dos produtos não mais utilizados, contendo, assim, a geração de lixo e a demanda desenfreada por matérias-primas. FONTE: <https://bit.ly/3nnk3eg>. Acesso em: 13 maio 2021. Para Bauman (2008), a sociedade de consumo representa o tipo de sociedade que promove, encoraja ou reforça a escolha de um estilo de vida e uma estratégia existencial consumistas, e rejeita todas as opções culturais alternativas. Ele fala ainda que na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito 179
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA sem primeiro virar mercadoria, ou seja, para que uma pessoa possa consumir nos moldes da sociedade de consumo, ela precisa vender sua própria força de trabalho. Assim, ela é também uma mercadoria no sistema da sociedade de consumo. Em síntese, a sociedade de consumo é um conceito que define um modelo de reprodução social baseado no consumismo. A ideia de sociedade de consumo é empregada para designar uma sociedade cujas relações de consumo ocupam uma posição estratégica na organização social. Ela é uma sociedade onde são criados inúmeros bens de consumo para comercialização e onde o marketing tem um papel fundamental na construção dos desejos de consumo da população, sobretudo pela propaganda. Na sociedade de consumo, o consumo é intensificado pela criação de necessidades de consumo. Todas as pessoas se tornam consumidores em potencial e muitas compras são realizadas para satisfazer essas vontades impulsivas e motivadas por fatores que excedem a necessidade material real. NOTA A história das coisas O vídeo A história das coisas é um dos vídeos mais interessantes para entender as etapas que formam uma sociedade de consumo. Acesse em: https://bit.ly/2yfl3zp. Diálogos com Zygmunt Bauman O vídeo Diálogos com Zygmunt Bauman ajuda a compreender um pouco mais sobre as principais ideias do Sociólogo polonês. Acesse em: https://bit.ly/3k2jqgy. Sociedade de Consumo O vídeo Sociedade de Consumo (by Steve Cutts) ajuda a compreender as consequências socioambientais de um modelo de desenvolvimento consumista, bem como a ação humana predatória sobre o meio. O conceito de sociedade de consumo extrapola produtos meramente materiais. Atinge não só os bens materiais como torna expressões culturais em mercadorias. Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=qbhvssdy56a. 3 SOCIEDADE ALTERNATIVAS E SALAS DE AULA Uma Sociedade Alternativa é aquela que se diferencia do modelo de Sociedade de Exclusão, que afasta e priva determinados indivíduos ou de grupos sociais e étnicos em diversos âmbitos da estrutura da sociedade. A busca por essa sociedade alternativa se configurara a partir dos Movimentos Sociais que criticam os sistemas de exclusões sociais. Os movimentos sociais são formados por grupos de indivíduos que defendem, demandam e/ou lutam por uma causa social e política. É uma forma da população se organizar, expressar os seus desejos e exigir os seus direitos. São fenômenos históricos, que resultam de lutas sociais, que vão transformando e 180
TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI introduzindo mudanças estruturais nas sociedades buscando alternativas sociais onde a equidade e a justiça são as bases de sustentação da sociedade reivindicada, por meio de ações coletivas são usadas como forma de manifestação, como: passeatas, greves, marchas, entre outros. Os movimentos sociais podem ser divididos em dois tipos: Conjuntural: movimento que surge devido uma demanda específica e tem curto prazo (por exemplo as manifestações sobre o preço da passagem). Estrutural: movimento que quer conquistar coisas a longo prazo (por exemplo os movimentos que lutam pelo fim do racismo). IMPORTANTE Um fato importante é que movimentos sociais podem ser favoráveis ao governo vigente, basta apoiarem as mesmas lutas com as quais o governo se identifica. O movimento social é diferente de manifestação espontânea! Manifestações espontâneas acontecem, por exemplo, em estádios de futebol. Quando um grupo grande de pessoas está reunido por um objetivo comum, mas não se conhecem e não defendem os mesmos ideais. Quais os principais Movimentos Sociais contemporâneos no Brasil que apresentam uma agenda ou pauta de reivindicações de alternativas de mudanças? Movimentos Sociais Movimento Negro Apesar de já ser um movimento presente desde a época da escravidão, os negros ainda precisam lutar contra a discriminação étnica e racial. Movimento Estudantil Responsáveis por organizar a Passeata dos Cem Mil na década de 1960, os estudantes dispunham de várias organizações representativas, como por exemplo a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a UEE (Uniões Estaduais dos Estudantes. Também estiveram presentes nas manifestações em oposição ao governo Collor e mais recentemente na Mobilização estudantil de 2016. A luta dos estudantes se concentra em garantir um ensino público de qualidade e não permitir cortes de verbas destinadas a educação. 181
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA Movimento Feminista Pode ser dividido em três ondas : A primeira onda, que podemos localizar temporalmente do fim do século XIX até meados do século XX, foi caracterizada pela reivindicação, por parte das mulheres, dos diversos direitos que já estavam sendo debatidos e conquistados por homens de seu tempo. A segunda onda tem seu início em meados dos anos de 1950 e se estende até meados dos anos 1990 do século XX. Foi nessa época que foram iniciados uma série de estudos focados na condição da mulher, onde começou-se a construir uma teoria-base sobre a opressão feminina. Geralmente, o início da terceira onda é associado ao surgimento de movimentos punk femininos, cuja ideologia girava em torno da negação a corporativismos e da defesa do faça você mesmo (do it yourself), ou seja, o movimento feminista luta pelos direitos das mulheres e pela igualdade de gênero. Movimento LGBTQIA+ O movimento LGBTQIA+ (sigla que significa: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Queer, Intersexo e Assexual e mais), mais conhecido pela sociedade como Movimento LGBT, age em busca da igualdade social e de direitos e contra o preconceito. Uma das ações mais conhecidas do movimento é a Parada do orgulho LGBT de São Paulo, que acontece anualmente na Avenida Paulista e atrai turistas de todo o mundo. O objetivo principal da Parada é a luta contra a LGBTfobia. Movimento Ecológico Concentram-se nos projetos voltados a estudar o impacto do capitalismo no meio ambiente, reivindicando medidas de proteção ambiental. Visa a conscientização da população e a fiscalização dos órgãos governamentais responsáveis por tratar dos assuntos ligados ao meio ambiente. FONTE: <https://bit.ly/3nlij01>. Acesso em: 22 abr. 2021. Na Sociedade pós-moderna, uma onda de ódio se alastra pela rede, denominada de Discurso de Ódio. O discurso de ódio é uma das mais prolíferas formas de intolerâncias e de xenofobia, sobretudo on-line: a internet é frequentemente palco de abusos por parte de quem quer espalhar propaganda e difamar grupos ou pessoas diferentes. Cada vez mais no discurso político dominante, vemos uma mistura tóxica de discurso de ódio, notícias falsas, e factos alternativos que são uma ameaça real à liberdade e à Democracia. Uma forma de combater o discurso de ódio nas redes sociais, foi criado pelo Conselho dos Direitos Humanos Europeu, com o nome de Movimento Contra o Discurso de Ódio, a primeira campanha on-line do Conselho da Europa foi lançada em 22 de março de 2013. A campanha tornou-se um movimento presente em 45 países, uma co- 182
TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI munidade internacional de ativistas on-line e uma infinidade de parceiros, tendo sido a primeira iniciativa internacional ampla a abordar o discurso de ódio e a abordá-lo como uma questão importante de Direitos Humanos. O Movimento aborda temáticas específicas, tais como: discurso de ódio sexista, racismo, apoio às pessoas refugiadas, solidariedade com as vítimas de crimes de ódio, islamofobia e intolerância religiosa, antissemitismo, homofobia etc. A campanha foi enraizada no entendimento de que a Internet é um serviço público, um espaço comum onde os Direitos Humanos se devem aplicar a todos e todas, e onde a dignidade humana deve vir em primeiro lugar. Através da conscientização e educação para os Direitos Humanos a campanha promoveu a liberdade de expressão e a participação plena dos cidadãos na sociedade, tanto on-line como off-line. DICAS Movimento contra o discurso de ódio. Para saber mais sobre o Movimento, acesse o site: http://www.odionao.com.pt/. Outras formas de discriminação e de preconceito, como anticiganismo, cristianofobia, islamofobia, misoginia, sexismo e discriminação com base na orientação sexual e na identidade de gênero estão claramente dentro do âmbito do discurso de ódio. O discurso de ódio on-line é um fenômeno particularmente preocupante. Caro acadêmico, o discurso de ódio não é um fenômeno do passado, continua a ser um perigo real. Como podemos definir o compreender esse fenômeno? O discurso de ódio, cobre todas as formas de expressão que propaguem, incitem, promovam ou justifiquem ódio racial, xenofobia, antissemitismo e outras formas de ódio baseado na intolerância, incluindo intolerância expressa por nacionalismo ou etnocentrismo agressivo, discriminação e hostilidade contra minorias, migrantes e pessoas de origem migrante (LATOUR, 2017, p. 9). A internet criou outros espaços de comunicação e de interação com poucos limites: quem utiliza a internet pode esconder-se através do anonimato e da distância para expressar ódio contra outras pessoas. Para além disso, o ódio pode ser propagando e partilhado facilmente, através de comentários ou partilhas, ganhando uma vida própria, independente da publicação original. Os efeitos podem ser devastadores para o alvo do discurso de ódio, mas podem também afetar a sociedade como um todo. A internet é um campo de construção de narrativas, que é uma descrição e interpretação lógica e internamente coerente de eventos ou informações relacionadas, que fazem sentido para quem a escuta ou lê. Quando uma narrativa é apresentada como a única e como normal, negando alternativas ou, em casos 183
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA extremos, incitando à violência contra quem a questiona, o problema começa a ser mais sério no caso de narrativas violentas e extremistas, incluindo o discurso de ódio. Uma solução para diminuir ou extinguir o discurso de ódio na internet seria a criação de contranarrativas ou de narrativas alternativas. As contranarrativas e as narrativas alternativas combatem o discurso de ódio ao desacreditarem ou desconstruírem as narrativas nas quais se baseia. Também propõem narrativas (alternativas) que se baseiam nos Direitos Humanos e nos valores democráticos como a tolerância, o respeito pela diferença, a liberdade e a igualdade. Essas narrativas podem fazê-lo através de informação alternativa e detalhada, mostrando que há várias perspectivas e visões (LATOUR, 2017, p. 17). Pensar em sociedades alternativas frente ao discurso de ódio virtual, tem como fundamento a aceitação das narrativas alternativas. O termo contranarrativas é muitas vezes usado no contexto do trabalho contra extremismo e terrorismo violento, enfatizando a necessidade de desconstruir e enfraquecer as narrativas violentas que podem parecer atrativas, especialmente aos e às jovens. O uso do termo narrativas alternativas sublinha a importância de mostrar várias perspectivas, enfatizando alternativas positivas que ultrapassam a imagem negativa das narrativas que pretendem combater, sem as reforçar ao focarem-se nelas. A divisão entre esses dois termos é muitas vezes ténue na prática, uma vez que a contranarrativa pressupõe ou se refere implicitamente a uma narrativa alternativa (LATOUR, 2017, p. 19). É importante propor, desenvolver e disseminar narrativas alternativas, não discriminatórias e com base nos Direitos Humanos. Toda e qualquer contranarrativa ou narrativa alternativa deve basear-se em duas ideias centrais: Os Direitos Humanos são a base das narrativas que combatem o discurso de ódio. As narrativas que se baseiam nos Direitos Humanos têm um papel fundamental nas estratégias transformadoras e emancipadoras para os e as jovens, e sobretudo para quem é alvo direto ou para quem é agente do discurso de ódio. NOTA Tecnologia como aliada: os movimentos sociais em rede A internet surgiu como uma construção de um novo espaço para debate. Compartilhando conteúdo, informação e conhecimento, a internet tornou-se um espaço social, onde ideias e pontos de vista podem ser disseminados a todo instante. Um terreno fértil para os movimentos sociais se organizarem e atingirem mais militantes. Apesar de os movimentos sociais parecerem muito ligados com a nação a qual pertencem, você sabia que existem movimentos sociais que são transnacionais? É o caso do Fórum Social Mundial, um evento que é organizado por diferentes movimentos sociais pelo mundo e tem o objetivo de apresentar soluções para problemas contemporâneos de transformação social global, formando uma rede de globalização. 184
TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI 4 SALAS DE AULAS CONECTADAS Atualmente se tem notado que a distância no aspecto geográfico não é mais considerada, mas sim a do ponto de vista cultural, econômico, da educação continuada, das diferentes formas de pensar e sentir, do acesso e domínio, ou não, das tecnologias da comunicação. O que mais está em evidência é a IN- TERNET, e essa se faz, atualmente, muito presente na educação no mundo do trabalho. Escolas, universidades e empresas estão cada vez mais em busca desse recurso para não ficarem atrasadas em relação às demais. Portanto, O uso de Novas Tecnologias coloca o profissional diante de algumas situações que precisam ser trabalhadas em sua formação. NOTA 10 profissões que surgiram com a Tecnologia: 1. cientista de Dados; 2. desenvolvedor de aplicativos; 3. analista de Marketing Digital; 4. especialista de Mídias Sociais; 5. tecnologia da Informação (TI); 6. desenvolvedor de Jogos; 7. desenvolvedor Web; 8. engenheiro de Software; 9. especialista em e-commerce; 10. influenciadores digitais. FONTE: <https://bit.ly/3c3aihx>. Acesso em: 13 maio 2021. Os computadores estão cada vez mais ultrassofisticados; a Internet está cada vez mais rápida, dinâmica e inclusa em todas as ferramentas utilizadas como celulares, os tablets e até na televisão; o cinema está proporcionando um avanço tão profundo que pode se experenciar um tipo de aproximação com a realidade virtual. Os seres humanos estão conectados, seja a outro ser ou objetos. Com o advento da internet e das novas tecnologias, Santos (2008, p.15) afirma que: A internet torna-se gradativamente, um meio comum de trocas de informações, de acesso de especialista, de crianças e jovens, de formação de equipes de trabalho, de construção de relações de amizades, independente da distância geográfica. Diferente das tecnologias surgidas nos últimos anos, a internet rompe não só as barreiras geográficas, mas também de tempo e espaço, permitindo que as informações sejam em tempo real e este novo cenário social, tecnológico e cultural está cada vez mais familiar para todos. 185
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA Cada vez mais as novas tecnologias e a virtualidade fazem parte da socialização humana enquanto indivíduos racionais pertencentes à sociedade. A humanidade vive uma transformação das interações sociais onde passam a não mais relacionar-se com outros indivíduos, mas sim a conectar-se e desconectar-se. Esse novo paradigma tecnológico é definido por novos agrupamentos humanos que reorganizam seus significados, integrando o mundo em grandes redes local- -global. Esse novo sistema de novas tecnologias apresenta cada vez mais elementos universalizantes como linguagem, sons, imagens, cultura, política, economia, identidade etc. Esses produtos culturais, estão moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldado por ela (CASTELLS, 2002, p. 22). A sociedade contemporânea vive conectada à mídia, o que acarreta uma mudança considerável na velocidade da propagação da informação, da mesma forma que colabora para a criação de ambientes virtuais e de um novo espaço de comunicação, onde podemos citar, por exemplo, aqueles em que os sujeitos se comunicam através de redes sociais e jogos eletrônicos. As novas tecnologias são, então, o novo modo de vida da contemporaneidade e que reconfigura a sociedade, resultando em novas formas de organização social. No conjunto da sociedade da informação, a Internet é a ferramenta que ganha maior importância para o mundo do cotidiano social. O uso da internet proporciona um contato com vários aspectos da vida social, e as altera significativamente como a nova economia, as atividades políticas, as identidades culturais, a sociabilidade, a educação etc. A tecnologia é um grande motor de mudança. Não há dúvidas de que o surgimento de novas ferramentas e dispositivos alterou profundamente a forma como as pessoas vivem e o modo como as empresas operam. Vale lembrar, entretanto, que a transformação gerada pela era digital é ainda mais profunda e atinge todos os indivíduos em suas mais diversas atribuições: as relações de trabalho, por exemplo, tiveram que se adaptar à disruptura tecnológica, a fim de enfrentar desafios iminentes e encarar novas oportunidades. Você sabe como as relações de trabalho na era digital desafiam o profissional? A tecnologia afeta as relações de trabalho Em uma empresa, quando os equipamentos são modernos e as engrenagens estão ajustadas, o rendimento da fábrica é alto e o faturamento do negócio cresce. Com a tecnologia e as relações de trabalho: quando há sinergia entre a capacidade técnica humana e o aparato tecnológico, os resultados são cada vez mais expressivos e consistentes. Ao negligenciar o poder das inovações, os profissionais perdem a chance de se antecipar à demanda do mercado e, claro, de corresponder às novas exigências do trabalho. Em vez de se empenharem em uma operação manual, é necessário que saibam administrar tecnologias automatizadas, tais como softwares e equipamentos de última geração. 186
TÓPICO 2 SALA DE AULA NO SÉCULO XXI O impacto da tecnologia nas profissões Em geral, o impacto da era digital é profundo e irrevogável. Não dá para retroceder e eliminar tudo o que a tecnologia fez (e continuará fazendo) pelo mercado e pelas profissões. Cabe ao profissional, portanto, a iniciativa de imergir no novo contexto e, de lá, tirar expertises relevantes às empresas tecnológicas. Nas últimas décadas houve um significativo avanço tecnológico com profissionais qualificados e preparados, aptos a pensar fora da caixa e a fazer acontecer. Portanto, todas as profissões passam por mudanças extraordinárias e cabe a cada um, no desejo de galgar novas posições e desafios, a missão de mergulhar no paradigma tecnológico da atualidade. O preparo para um cenário de mudanças constantes A resposta é direta e depende exclusivamente do profissional: aprimorando-se. Somente ao buscar atualização constante, desvendando os mistérios e as potencialidades das tecnologias emergentes, é possível reunir as competências que um mercado altamente dinâmico exige. Importante é recorrer a formações robustas tais como pós-graduações e cursos livres, capazes de transmitir conhecimentos atualizados sobre temas que estão em evidência. Lembrar que o impacto da tecnologia não se restringe somente a uma forma de produção ou trabalho humano: na educação, as metodologias EAD garantem um aprendizado ágil, cômodo e eficiente. Vale investir! O cenário de transformação digital se modificou na pandemia Com as medidas de isolamento social impostas no enfrentamento da Covid-19, a primeira saída que as empresas tiveram para manter seus negócios funcionando de maneira relativamente tranquila foi lançar mão imediatamente de iniciativas de transformação digital, como é o caso do trabalho remoto. Isso causou completa alteração nos processos internos e de negócios, os quais já vinham dando sinais de uma possível aceleração advinda da era digital. No entanto, a surpresa da pandemia não deu alternativa às organizações, senão repensarem seus modelos de negócio para continuarem operando. Em um curto espaço de tempo, as empresas foram forçadas a modificar processos e implantar novas iniciativas de negócio, os quais certamente perdurarão após a pandemia. Como as tecnologias digitais extinguiram fronteiras, tornou-se essencial estreitar o relacionamento entre todos os envolvidos na organização, dos colaboradores aos clientes. Essa rápida evolução provou como é possível ter uma ótima experiência com a empresa e alcançar um dinamismo 187
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA organizacional pouco visto até então. Com esse pensamento, as empresas que aproveitarem o legado deixado pela transformação digital na pandemia terão condições de enfrentar muito mais facilmente a fase de recuperação e de posicionar-se à frente da concorrência. Esse pensamento e ação foi replicado em diversos setores da Sociedade, a Educação foi um deles. FONTE: <https://bit.ly/2yfnqsn>. Acesso em: 12 maio 2021. Lembrando que a concepção de sala de aula neste tópico foi a partir de diversos espaços de aprendizagens dos sujeitos envolvidos nos processos de ensinar e aprender, portanto, os locais que refletimos foi em espaços socialmente construídos, que no dia a dia é composto de uma infinidade de relações e interações entre os sujeitos. Escolas, academias, igrejas, escritórios, oficinais. O século XXI e sua característica de um mundo fundamentado na virtualidade e Novas Tecnologias, cria novas formas de ver, de ser, de produzir, de convier, de existir e o resultado são novas formas de compreender a realidade que vivemos e assim, novas formas de aprender e ensinar. 188
RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: Sociedade de consumo é um termo bastante utilizado para representar os avanços de produção do sistema capitalista, que se intensificaram ao longo do século XX notadamente nos Estados Unidos e que, posteriormente, espalharam-se e ainda vem se espalhando pelo mundo. A sociedade de consumo representa o tipo de sociedade que promove, encoraja ou reforça a escolha de um estilo de vida e uma estratégia existencial consumista, e rejeita todas as opções culturais alternativas. Uma Sociedade Alternativa é aquela que se diferencia do modelo de Sociedade de Exclusão, que afasta e priva determinados indivíduos ou de grupos sociais e étnicos em diversos âmbitos da estrutura da sociedade. Na Sociedade pós-moderna, uma onda de ódio se alastra pela rede, denominada de Discurso de Ódio, o discurso de ódio é uma das mais prolíferas formas de intolerâncias e de xenofobia, sobretudo on-line: a internet é frequentemente palco de abusos por parte de quem quer espalhar propaganda e difamar grupos ou pessoas diferentes. Cada vez mais no discurso político dominante, vemos uma mistura tóxica de discurso de ódio, notícias falsas, e factos alternativos que são uma ameaça real à liberdade e à Democracia. Uma forma de combater o discurso de ódio nas redes sociais, foi criado pelo Conselho dos Direitos Humanos Europeu, com o nome de Movimento Contra o Discurso de Ódio, a primeira campanha on-line do Conselho da Europa foi lançado em 22 de março de 2013. A campanha tornou-se um movimento presente em 45 países, uma comunidade internacional de ativistas on-line e uma infinidade de parceiros, tendo sido a primeira iniciativa internacional ampla a abordar o discurso de ódio e a abordá-lo como uma questão importante de Direitos Humanos. Atualmente, se tem notado que a distância no aspecto geográfico não é mais considerada, mas sim a do ponto de vista cultural, econômico, da educação continuada, das diferentes formas de pensar e sentir, do acesso e domínio, ou não, das tecnologias da comunicação. O que mais está em evidência é a INTERNET, e essa se faz, atualmente, muito presente na educação, no mundo do trabalho. Escolas, universidades, empresas estão cada vez mais em busca desse recurso, para não ficar atrasada com relação às demais. Portanto, O uso de Novas Tecnologias coloca o profissional diante de algumas situações que precisam ser trabalhadas em sua formação. 189
AUTOATIVIDADE 1 A sociedade de consumo é um termo bastante utilizado para representar os avanços de produção do sistema capitalista, que se intensificaram ao longo do século XX notadamente nos Estados Unidos e que, posteriormente, espalharam-se e ainda vem se espalhando pelo mundo. A ideia de sociedade de consumo é empregada para designar uma sociedade cujas relações de consumo ocupam uma posição estratégica na organização social. Ela é uma sociedade onde são criados inúmeros bens de consumo para comercialização e onde o marketing tem um papel fundamental na construção dos desejos de consumo da população, sobretudo pela propaganda. Referente à Sociedade de Consumo, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) A sociedade do consumo é aquela que possibilita que indivíduos satisfaçam plenamente suas necessidades. b) ( ) A sociedade de consumo é um conceito que define um modelo de reprodução social baseado no consumismo. c) ( ) O consumo de mercadorias não visa apenas à satisfação de necessidades básicas dos indivíduos; visa também a suas necessidades simbólicas de diferenciação social e promoção da autonomia do ser. d) ( ) A sociedade de consumo não é nada além de uma sociedade do excesso e da fartura e, portanto, da redundância e da valorização ética e moral do ser humano. 2 Os movimentos sociais são ações coletivas mantidas por grupos organizados da sociedade que visam lutar por alguma causa social. Em geral, as pautas levantadas pelos movimentos sociais representam a voz de pessoas excluídas do processo democrático, que buscam ocupar os espaços de direito na sociedade. Sobre a temática Movimentos Sociais, analise as afirmativas a seguir: I- Os movimentos sociais são de extrema importância para a formação de uma sociedade democrática ao tentarem possibilitar a inserção de cada vez mais pessoas na sociedade de direitos. II- Os movimentos sociais são formados por grupos de indivíduos que defendem, demandam e/ou lutam por uma causa social e política. É uma forma da população se organizar, expressar os seus desejos e exigir os seus direitos. III- Os participantes dos grupos sociais se unem para promover mudanças específicas e de acordo com os anseios, alterações religiosas e políticas que desejam conquistar. Assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Somente a afirmativa I está correta. b) ( ) As afirmativas I e II estão corretas. c) ( ) As afirmativas II e III estão corretas. d) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas. 190
3 Uma sociedade conectada é aquela em que o uso da tecnologia da informação e telecomunicação serve para a sociedade se interagir, compartilhar ideias e conhecimentos. É a estrutura social organizada através da rede de informações processadas eletronicamente. Referente à relação tecnologias e sociedade, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Cada vez mais as novas tecnologias e a virtualidade fazem parte da socialização humana enquanto indivíduos religiosos pertencentes à sociedade. b) ( ) A sociedade contemporânea vive conectada à mídia, o que acarreta uma mudança considerável na velocidade da propagação da informação, da mesma forma que colabora para a criação de ambientes virtuais e de um novo espaço de comunicação, onde podemos citar, por exemplo, o que acontece em que os sujeitos se comunicam através de redes sociais e jogos eletrônicos. c) ( ) No conjunto da sociedade da informação, a Internet é a ferramenta que ganha maior importância para o mundo do cotidiano social. No entanto, o uso da internet sempre dificulta o contato com vários aspectos da vida social, e as altera significativamente como a nova economia, as atividades políticas, as identidades culturais, a sociabilidade, a educação etc. d) ( ) A tecnologia é um grande motor de mudança. Contudo, o surgimento de novas ferramentas e dispositivos, não alterou a forma como as pessoas vivem e o modo como as empresas operam. 4 O ser humano promove o desmatamento por uma série de razões, por exemplo, na retirada de madeira para construir estradas e moradias. O tema desmatamento é interessante de ser abordado na escola, pois sua abrangência envolve diversos aspectos sociais e ambientais. Disserte sobre pelo menos três aspectos relacionados com o desmatamento. 5 Vivemos em um mundo marcado por diversas lutas, como a do movimento indígena e negro. Também grupos como os judeus e muçulmanos lutam por respeito na sociedade ocidental. Um dos conceitos que auxiliam na compreensão dessas lutas político-sociais é o de diversidade cultural. Neste sentido, pergunta-se: o que se pode compreender por diversidade cultural? 191
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UNIDADE 3 TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, estudaremos sobre a estrutura da BNCC. A BNCC é sigla para Base Nacional Comum Curricular, um documento que integra a política nacional da Educação Básica, contribuindo para o alinhamento de outras políticas e ações, em âmbito federal, estadual e municipal. Ele se refere à formação de professores, à avaliação, à elaboração de materiais educacionais e aos critérios para a oferta de infraestrutura para o desenvolvimento da educação. Também abordaremos a BNCC e a Educação Básica. Como primeira etapa da Educação Básica, a Educação Infantil é o início e o fundamento do processo educacional. O Ensino Fundamental, com nove anos de duração, é a etapa mais longa da Educação Básica, atendendo estudantes entre 6 e 14 anos. O Ensino Médio é a etapa final da Educação Básica, direito público subjetivo de todo cidadão brasileiro. Todavia, a realidade educacional do País tem mostrado que essa etapa representa um gargalo na garantia do direito à educação. Por fim, veremos que a BNCC da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas integrada por Filosofia, Geografia, História e Sociologia propõe a ampliação e o aprofundamento das aprendizagens essenciais desenvolvidas no Ensino Fundamental, sempre orientada para uma formação ética. 2 ESTRUTURA DA BNCC A BNCC, sigla para Base Nacional Comum Curricular, é um documento normativo previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Básica (BRASIL, 1996) que busca definir o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica. Isso é feito para assegurar os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, em conformidade com o que estabelece o Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2014). Esse documento integra a política nacional da Educação Básica, contribuindo para o alinhamento de outras políticas e ações, em âmbito federal, estadual e municipal. Ele se refere à formação de professores, à avaliação, à elaboração de materiais educacionais e aos critérios para a oferta de infraestrutura para o desenvolvimento da educação. 193
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA Caro acadêmico, a BNCC da Educação Infantil e do Ensino Fundamental foi homologada em 20 de dezembro de 2017. Já a do Ensino Médio foi homologada em 2018. Ela é de vital importância devido justamente a ser uma das bases na formação humana e social do sujeito. O ser, o estar, o conviver, o fazer humano está inserido nesse documento. Dito de outra maneira, a Educação processo cultural que humaniza o ser humano, por meio da concepção de trabalho, as relações estabelecidas entre os seres humanos, entre a natureza e a cultura produzida, cria a sociedade humana, cria o mundo do trabalho, cria as relações e interações sociais. Todos os setores e profissões da sociedade de forma direta ou indireta são influenciados por esse documento, por isso a necessidade de estudá-lo e compreendê-lo. A BNCC define as aprendizagens essenciais que devem ser desenvolvidas ao longo de toda a Educação Básica. Isso significa que a elaboração dos currículos nacionais deve ser norteada pela BNCC, a fim de garantir a todos os estudantes uma formação integral que os prepare para enfrentar os desafios da vida. Trata-se de um documento extenso e complexo, que tem despertado diversas dúvidas entre os educadores. Nesse contexto, a estrutura da Base como um todo e para cada segmento é um dos aspectos que tem gerado muitas perguntas. Divide-se em competências e habilidades que o aluno deve desenvolver ao longo de toda a Educação Básica. As definições desses conceitos são apresentadas no próprio documento: a competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL, 2018, p. 9). Por sua vez, as habilidades expressam as aprendizagens essenciais que devem ser asseguradas aos alunos nos diferentes contextos escolares (BRASIL, 2018, p. 9). Dessa forma, a escola deve pensar práticas pedagógicas com o objetivo de desenvolver as habilidades dos estudantes. A evolução das competências será fruto da mobilização dessas habilidades com o objetivo de resolver problemas e desafios. No documento, é determinado um conjunto de dez competências gerais que sumarizam os direitos de aprendizagem e de desenvolvimento dos estudantes. Essas competências devem ser trabalhadas ao longo de toda a Educação Básica e compreendem todas as dimensões do indivíduo: não apenas a cognitiva, mas também as dimensões física, social, emocional e cultural. Essas competências devem ser trabalhadas de forma integrada, uma vez que se relacionam de diversas maneiras, e seu desenvolvimento deve ser articulado com as habilidades dos componentes curriculares. Além disso, elas devem ser trabalhadas e estimuladas não apenas em sala de aula, mas em todo o espaço escolar, na relação com o outro e com o ambiente. 194
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS FIGURA 4 DEZ COMPETÊNCIAS GERAIS 195
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA FONTE: Adaptada de BNCC (BRASIL, 2018, p. 9-10) Vamos conhecer um pouco mais sobre as 10 competências Gerais da BNCC: 1. Conhecimento: essa competência se refere a desenvolver um repertório sobre o mundo a partir dos conhecimentos que a humanidade já produziu. Envolve conhecer o mundo físico e digital, as ciências humanas e exatas, e utilizar essas informações para entender e explicar a realidade. 2. Pensamento científico, crítico e criativo: essa competência busca promover o pensamento científico, ou seja, a capacidade de elaborar hipóteses, construir teses e investigar. Além disso, refere-se ao pensamento crítico, pretendendo que os alunos sejam capazes de argumentar sobre experimentos, e usar a criatividade para que os estudantes pensem em novas alternativas para resolver problemas já propostos. 3. Repertório cultural: conhecer e participar de produções artísticas deve ser valorizado como parte do currículo escolar. Por meio das experiências artísticas, o aluno poderá ser capaz de se expressar e atuar, além de explorar as relações entre culturas, sociedades e artes. 4. Comunicação: essa competência busca formar alunos capazes de utilizarem diferentes linguagens (verbal, corporal, visual, sonora e digital) para uma comunicação objetiva e partilhar informações com os outros. Trata-se 196
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS de algo essencial para todas as fases da vida e que contribuirá também para que o aluno desenvolva tanto a escuta como a capacidade de expressar ideias, opiniões e emoções. 5. Cultura digital: o ensino deve englobar o uso dos recursos digitais de forma ética, crítica e significativa, desenvolvendo no aluno a compreensão do uso responsável da tecnologia, seja como consumidor dela ou como produtor de conteúdos digitais. 6. Trabalho e projeto de vida: o foco dessa competência é capacitar o aluno a gerir a própria vida, tanto no âmbito profissional, como no pessoal. Ela propõe o desenvolvimento de habilidades como estabelecimento de metas, disciplina e resiliência. 7. Argumentação: essa competência não aborda somente a prática da formulação, negociação e defesa de ideias, mas também ressalta a importância do embasamento dessas opiniões e pontos de vista. Isso deve ser feito tendo em vista aspectos como os direitos humanos, por exemplo. 8. Autoconhecimento e autocuidado: as competências da BNCC também abordam o bem-estar do aluno, tanto físico quanto mental. Na de número oito, o foco está no cuidado com a saúde, conhecimento das emoções, autocrítica e apreciação de si próprio. Essa competência também visa contribuir para a construção de valores e de uma identidade. 9. Empatia e cooperação: essa competência trabalha o desenvolvimento social dos alunos, para que eles conheçam o mundo em que vivem e sejam agentes de transformação, com respeito à diversidade e aos direitos humanos, e foca em exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de problemas e a cooperação. 10. Responsabilidade e cidadania: a última das competências da BNCC se concentra nos princípios éticos, democráticos, inclusivos e sustentáveis de uma sociedade. Envolve o foco em contribuir para que o aluno desenvolva suas habilidades pensando nesses elementos. FONTE: Adaptada de <https://bit.ly/3i3znig >. Acesso em: 8 set. 2021. Portanto, tendo em vista cada uma das competências da BNCC, fica clara a intenção de buscar uma formação mais completa para os alunos. Não é mais o suficiente se limitar a transmitir um conteúdo teórico a ser decorado, mas sim contribuir para que o estudante se desenvolva de maneira integral. A BNCC busca nortear os currículos e propostas pedagógicas de todas as escolas, públicas e privadas, do Brasil. 3 BNCC E A EDUCAÇÃO BÁSICA Como primeira etapa da Educação Básica, a Educação Infantil é o início e o fundamento do processo educacional. A entrada na creche ou na pré-escola significa, na maioria das vezes, a primeira separação das crianças dos seus vínculos afetivos familiares para se incorporarem a uma situação de socialização estruturada. Nas últimas décadas, vem se consolidando, na Educação Infantil, a concepção que 197
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA vincula educar e cuidar, entendendo o cuidado como algo indissociável do processo educativo. Nesse contexto, as creches e pré-escolas, ao acolher as vivências e os conhecimentos construídos pelas crianças no ambiente da família e no contexto de sua comunidade, e articulá-los em suas propostas pedagógicas, têm o objetivo de ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades dessas crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens, atuando de maneira complementar à educação familiar especialmente quando se trata da educação dos bebês e das crianças bem pequenas, que envolve aprendizagens muito próximas aos dois contextos (familiar e escolar), como a socialização, a autonomia e a comunicação. Nessa direção, e para potencializar as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças, a prática do diálogo e o compartilhamento de responsabilidades entre a instituição de Educação Infantil e a família. Como se constitui o desenvolvimento e aprendizagem das crianças na Educação Infantil? A BNCC (BRASIL, 2018, p. 38) descreve da seguinte forma: Conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas. Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais. Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando. Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia. Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens. Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário. Conviver, brincar, participar da vida comunitária, se expressar por sentimentos e emoções, dialogar, construir e conhecer sua identidade. A reflexão em torno da infância na BNCC vai muito além da sala de aula, pois aponta para uma formação onde os espaços e processos culturais que a criança vive estejam incorporados no ensino e aprendizagens das escolas e consequentemente no desenvolvimento social dessa criança e a mudança de modelos de sociedades, pois o conhecimento criado, trabalhado, assimilado proporciona novas formas de ser e estar no mundo. 198
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS FIGURA 5 ESTRUTURA BNCC EDUCAÇÃO INFANTIL FONTE: Adaptada de BNCC (BRASIL, 2018, p. 25) O Ensino Fundamental, com nove anos de duração, é a etapa mais longa da Educação Básica, atendendo estudantes entre seis e 14 anos. Há, portanto, crianças e adolescentes que, ao longo desse período, passam por uma série de mudanças relacionadas a aspectos físicos, cognitivos, afetivos, sociais, emocionais, entre outros. Essas mudanças impõem desafios à elaboração de currículos para essa etapa de escolarização, de modo a superar as rupturas que ocorrem na passagem não somente entre as etapas da Educação Básica, mas também entre as duas fases do Ensino Fundamental: Anos Iniciais e Anos Finais. Ao longo do Ensino Fundamental Anos Iniciais, a progressão do conhecimento ocorre pela consolidação das aprendizagens anteriores e pela ampliação das práticas de linguagem e da experiência estética e intercultural das crianças, considerando tanto seus interesses e suas expectativas quanto o que ainda precisam aprender. Ampliam-se a autonomia intelectual, a compreensão de normas e os interesses pela vida social, o que lhes possibilita lidar com sistemas mais amplos, que dizem respeito às relações dos sujeitos entre si, com a natureza, com a história, com a cultura, com as tecnologias e com o ambiente. No Ensino Fundamental Anos Finais, os estudantes se deparam com desafios de maior complexidade, sobretudo, devido à necessidade de se apropriarem das diferentes lógicas de organização dos conhecimentos relacionados às áreas. Tendo em vista essa maior especialização, é importante, nos vários componentes 199
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA curriculares, retomar e ressignificar as aprendizagens do Ensino Fundamental Anos Iniciais no contexto das diferentes áreas, visando ao aprofundamento e à ampliação de repertórios dos estudantes. Nesse sentido, também é importante fortalecer a autonomia desses adolescentes, oferecendo-lhes condições e ferramentas para acessar e interagir criticamente com diferentes conhecimentos e fontes de informação. Os estudantes dessa fase inserem-se em uma faixa etária que corresponde à transição entre infância e adolescência, marcada por intensas mudanças decorrentes de transformações biológicas, psicológicas, sociais e emocionais. FIGURA 6 ESTRUTURA DA BNCC ENSINO FUNDAMENTAL FONTE: Adaptada de BNCC (BRASIL, 2018, p. 27-28) O Ensino Médio é a etapa final da Educação Básica, direito público subjetivo de todo cidadão brasileiro. Todavia, a realidade educacional do País tem mostrado que essa etapa representa um gargalo na garantia do direito à educação. Para além da necessidade de universalizar o atendimento, tem-se mostrado crucial garantir a permanência e as aprendizagens dos estudantes, respondendo às suas demandas e aspirações presentes e futuras. 200
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS Com a perspectiva de um imenso contingente de adolescentes, jovens e adultos que se diferenciam por condições de existência e perspectivas de futuro desiguais, é que o Ensino Médio deve trabalhar. Está em jogo a recriação da escola que, embora não possa por si só resolver as desigualdades sociais, pode ampliar as condições de inclusão social, ao possibilitar o acesso à ciência, à tecnologia, à cultura e ao trabalho Para responder a essa necessidade de recriação da escola, mostra-se imprescindível reconhecer que as rápidas transformações na dinâmica social contemporânea nacional e internacional, em grande parte decorrentes do desenvolvimento tecnológico, atingem diretamente as populações jovens e, portanto, suas demandas de formação. Nesse cenário cada vez mais complexo, dinâmico e fluido, as incertezas relativas às mudanças no mundo do trabalho e nas relações sociais como um todo representam um grande desafio para a formulação de políticas e propostas de organização curriculares para a Educação Básica, em geral, e para o Ensino Médio, em particular. Na direção de atender às expectativas dos estudantes e às demandas da sociedade contemporânea para a formação no Ensino Médio, a necessidade de não caracterizar o público dessa etapa constituído predominantemente por adolescentes e jovens, como um grupo homogêneo, nem conceber a juventude como mero rito de passagem da infância à maturidade. Ao contrário, defendem ser fundamental reconhecer a juventude como condição sócio-histórico-cultural de uma categoria de sujeitos que necessita ser considerada em suas múltiplas dimensões, com especificidades próprias que não estão restritas às dimensões biológica e etária, mas que se encontram articuladas com uma multiplicidade de atravessamentos sociais e culturais, produzindo múltiplas culturas juvenis ou muitas juventudes Adotar essa noção ampliada e plural de juventudes significa, portanto, entender as culturas juvenis em sua singularidade. Significa não apenas compreendê-las como diversas e dinâmicas, como também reconhecer os jovens como participantes ativos das sociedades nas quais estão inseridos, sociedades essas também tão dinâmicas e diversas. Considerar que há muitas juventudes implica organizar uma escola que acolha as diversidades, promovendo, de modo intencional e permanente, o respeito à pessoa humana e aos seus direitos e que garanta aos estudantes ser protagonistas de seu próprio processo de escolarização, reconhecendo-os como interlocutores legítimos sobre currículo, ensino e aprendizagem. Significa, nesse sentido, assegurar-lhes uma formação que, em sintonia com seus percursos e histórias, permita-lhes definir seu projeto de vida, tanto no que diz respeito ao estudo e ao trabalho como também no que concerne às escolhas de estilos de vida saudáveis, sustentáveis e éticos. Para formar esses jovens como sujeitos críticos, criativos, autônomos e responsáveis, cabe às escolas de Ensino Médio proporcionar experiências e processos que lhes garantam as aprendizagens necessárias para a leitura da realidade, o enfrentamento dos novos desafios da contemporaneidade (sociais, econômicos e ambientais) e a tomada de decisões éticas e fundamentadas. 201
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA O mundo deve lhes ser apresentado como campo aberto para investigação e intervenção quanto a seus aspectos políticos, sociais, produtivos, ambientais e culturais, de modo que se sintam estimulados a equacionar e resolver questões legadas pelas gerações anteriores e que se refletem nos contextos atuais, abrindose criativamente para o novo. Quais seriam as finalidades do Ensino Médio no Mundo Contemporâneo? A dinâmica social contemporânea nacional e internacional, marcada especialmente pelas rápidas transformações decorrentes do desenvolvimento tecnológico, impõe desafios ao Ensino Médio. Para atender às necessidades de formação geral, indispensáveis ao exercício da cidadania e à inserção no mundo do trabalho, e responder à diversidade de expectativas dos jovens quanto à sua formação, a escola que acolhe as juventudes tem de estar comprometida com a educação integral dos estudantes e com a construção de seu projeto de vida (BRASIL, 2018, p. 462). Para orientar essa atuação, torna-se imprescindível, a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos; a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores; o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico; a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina. Garantir a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental é essencial nessa etapa final da Educação Básica. Além de possibilitar o prosseguimento dos estudos a todos aqueles que assim o desejarem, o Ensino Médio deve atender às necessidades de formação geral indispensáveis ao exercício da cidadania e construir aprendizagens sintonizadas com as necessidades, as possibilidades e os interesses dos estudantes e, também, com os desafios da sociedade contemporânea. Para atingir essa finalidade, é necessário, em primeiro lugar, assumir a firme convicção de que todos os estudantes podem aprender e alcançar seus objetivos, independentemente de suas características pessoais, seus percursos e suas histórias. Com base nesse compromisso, a escola que acolhe as juventudes deve: favorecer a atribuição de sentido às aprendizagens, por sua vinculação aos desafios da realidade e pela explicitação dos contextos de produção e circulação dos conhecimentos; garantir o protagonismo dos estudantes em sua aprendizagem e o desenvolvimento de suas capacidades de abstração, reflexão, interpretação, proposição e ação, essenciais à sua autonomia pessoal, profissional, intelectual e política; valorizar os papéis sociais desempenhados pelos jovens, para além de sua condição de estudante, e qualificar os processos de construção de sua(s) identidade(s) e de seu projeto de vida; 202
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS assegurar tempos e espaços para que os estudantes reflitam sobre suas experiências e aprendizagens individuais e interpessoais, de modo a valorizarem o conhecimento, confiarem em sua capacidade de aprender, e identificarem e utilizarem estratégias mais eficientes a seu aprendizado; promover a aprendizagem colaborativa, desenvolvendo nos estudantes a capacidade de trabalharem em equipe e aprenderem com seus pares; e estimular atitudes cooperativas e propositivas para o enfrentamento dos desafios da comunidade, do mundo do trabalho e da sociedade em geral, alicerçadas no conhecimento e na inovação. Essas experiências, como apontado, favorecem a preparação básica para o trabalho e a cidadania, o que não significa a profissionalização precoce ou precária dos jovens ou o atendimento das necessidades imediatas do mercado de trabalho. Ao contrário, supõe o desenvolvimento de competências que possibilitem aos estudantes inserir-se de forma ativa, crítica, criativa e responsável em um mundo do trabalho cada vez mais complexo e imprevisível, criando possibilidades para viabilizar seu projeto de vida e continuar aprendendo, de modo a serem capazes de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores. Para tanto, a escola que acolhe as juventudes precisa se estruturar de maneira a: garantir a contextualização dos conhecimentos, articulando as dimensões do trabalho, da ciência, da tecnologia e da cultura; viabilizar o acesso dos estudantes às bases científicas e tecnológicas dos processos de produção do mundo contemporâneo, relacionando teoria e prática ou o conhecimento teórico à resolução de problemas da realidade social, cultural ou natural; revelar os contextos nos quais as diferentes formas de produção e de trabalho ocorrem, sua constante modificação e atualização nas sociedades contemporâneas e, em especial, no Brasil; proporcionar uma cultura favorável ao desenvolvimento de atitudes, capacidades e valores que promovam o empreendedorismo (criatividade, inovação, organização, planejamento, responsabilidade, liderança, colaboração, visão de futuro, assunção de riscos, resiliência e curiosidade científica, entre outros), entendido como competência essencial ao desenvolvimento pessoal, à cidadania ativa, à inclusão social e à empregabilidade; prever o suporte aos jovens para que reconheçam suas potencialidades e vocações, identifiquem perspectivas e possibilidades, construam aspirações e metas de formação e inserção profissional presentes e/ou futuras, e desenvolvam uma postura empreendedora, ética e responsável para transitar no mundo do trabalho e na sociedade em geral. Nessa mesma direção, é também finalidade do Ensino Médio o aprimoramento do educando como pessoa humana, considerando sua formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. Tendo em vista a construção de uma sociedade mais justa, ética, democrática, inclusiva, sustentável e solidária, a escola que acolhe as juventudes deve ser um espaço que permita aos estudantes: 203
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA conhecer-se e lidar melhor com seu corpo, seus sentimentos, suas emoções e suas relações interpessoais, fazendo-se respeitar e respeitando os demais; compreender que a sociedade é formada por pessoas que pertencem a grupos étnico-raciais distintos, que possuem cultura e história próprias, igualmente valiosas, e que em conjunto constroem, na nação brasileira, sua história; promover o diálogo, o entendimento, a solução não violenta de conflitos, possibilitando a manifestação de opiniões e pontos de vista diferentes, divergentes ou opostos; combater estereótipos, discriminações de qualquer natureza e violações de direitos de pessoas ou grupos sociais, favorecendo o convívio com a diferença; valorizar sua participação política e social e a dos outros, respeitando as liberdades civis garantidas no estado democrático de direito; e construir projetos pessoais e coletivos baseados na liberdade, na justiça social, na solidariedade, na cooperação e na sustentabilidade. Subjacente a todas essas finalidades, o Ensino Médio deve garantir aos estudantes a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática. Para tanto, a escola que acolhe as juventudes, por meio da articulação entre diferentes áreas do conhecimento, deve possibilitar aos estudantes: compreender e utilizar os conceitos e teorias que compõem a base do conhecimento científico-tecnológico, bem como os procedimentos metodológicos e suas lógicas; conscientizar-se quanto à necessidade de continuar aprendendo e aprimorando seus conhecimentos; apropriar-se das linguagens científicas e utilizá-las na comunicação e na disseminação desses conhecimentos; e apropriar-se das linguagens das tecnologias digitais e tornar-se fluentes em sua utilização. Para atender a todas essas demandas de formação no Ensino Médio, mostra-se imperativo repensar a organização curricular vigente para essa etapa da Educação Básica, que apresenta excesso de componentes curriculares e abordagens pedagógicas distantes das culturas juvenis, do mundo do trabalho e das dinâmicas e questões sociais contemporâneas. Na direção de substituir o modelo único de currículo do Ensino Médio por um modelo diversificado e flexível, a Lei nº 13.415/2017 (BRASIL, 2017) alterou a LDB, estabelecendo que o currículo do ensino médio será composto pela Base Nacional Comum Curricular e por itinerários formativos, que deverão ser organizados por meio da oferta de diferentes arranjos curriculares, conforme a relevância para o contexto local e a possibilidade dos sistemas de ensino, a saber: I- linguagens e suas tecnologias; II- matemática e suas tecnologias; III- ciências da natureza e suas tecnologias; IV- ciências humanas e sociais aplicadas; V- formação técnica e profissional (BRASIL, 2017). 204
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS Essa nova estrutura do Ensino Médio, além de ratificar a organização por áreas do conhecimento sem desconsiderar, mas também sem fazer referência direta a todos os componentes que compunham o currículo dessa etapa, prevê a oferta de variados itinerários formativos, seja para o aprofundamento acadêmico em uma ou mais áreas do conhecimento, seja para a formação técnica e profissional. Essa estrutura adota a flexibilidade como princípio de organização curricular, o que permite a construção de currículos e propostas pedagógicas que atendam mais adequadamente às especificidades locais e à multiplicidade de interesses dos estudantes, estimulando o exercício do protagonismo juvenil e fortalecendo o desenvolvimento de seus projetos de vida. FIGURA 7 A BNCC DO ENSINO MÉDIO FONTE: Adaptada de BNCC (BRASIL, 2018, p. 32-33) 205
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA FIGURA 8 ITINERÁRIOS FORMATIVOS FONTE: Adaptada de BNCC (BRASIL, 2018, p. 469) A oferta de diferentes itinerários formativos pelas escolas deve considerar a realidade local, os anseios da comunidade escolar e os recursos físicos, materiais e humanos das redes e instituições escolares de forma a propiciar aos estudantes possibilidades efetivas para construir e desenvolver seus projetos de vida e se integrar de forma consciente e autônoma na vida cidadã e no mundo do trabalho. Para tanto, os itinerários devem garantir a apropriação de procedimentos cognitivos e o uso de metodologias que favoreçam o protagonismo juvenil. 206
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS FIGURA 9 CONCEPÇÃO DE ITINERÁRIOS FONTE: Adaptada de BNCC (BRASIL, 2018, p. 477-478) 4 BNCC: HUMANIDADE E SOCIEDADE A BNCC da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas integrada por Filosofia, Geografia, História e Sociologia propõe a ampliação e o aprofundamento das aprendizagens essenciais desenvolvidas no Ensino Fundamental, sempre orientada para uma formação ética. Tal compromisso educativo tem como base as ideias de justiça, solidariedade, autonomia, liberdade de pensamento e de escolha, ou seja, a compreensão e o reconhecimento das diferenças, o respeito aos direitos humanos e à interculturalidade, e o combate aos preconceitos de qualquer natureza. No Ensino Fundamental, a BNCC se concentra nos processos de tomada de consciência do Eu, do Outro e do Nós, das diferenças em relação ao Outro e das diversas formas de organização da família e da sociedade em diferentes espaços e épocas históricas. Para tanto, prevê que os estudantes explorem conhecimentos próprios da Geografia e da História: temporalidade, espacialidade, ambiente e diversidade (de raça, religião, tradições étnicas etc.), modos de organização da sociedade e relações de produção, trabalho e poder, sem deixar de lado o processo de transformação de cada indivíduo, da escola, da comunidade e do mundo. A exploração dessas questões sob uma perspectiva mais complexa torna-se possível no Ensino Médio dada a maior capacidade cognitiva dos jovens, que lhes permite ampliar seu repertório conceitual e sua capacidade de 207
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA articular informações e conhecimentos. O desenvolvimento das capacidades de observação, memória e abstração permite percepções mais acuradas da realidade e raciocínios mais complexos com base em um número maior de variáveis, além de um domínio maior sobre diferentes linguagens, o que favorece os processos de simbolização e de abstração. Portanto, no Ensino Médio, a BNCC da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas propõe que os estudantes desenvolvam a capacidade de estabelecer diálogos entre indivíduos, grupos sociais e cidadãos de diversas nacionalidades, saberes e culturas distintas, elemento essencial para a aceitação da alteridade e a adoção de uma conduta ética em sociedade. Para tanto, define habilidades relativas ao domínio de conceitos e metodologias próprios dessa área. As operações de identificação, seleção, organização, comparação, análise, interpretação e compreensão de um dado objeto de conhecimento são procedimentos responsáveis pela construção e desconstrução dos significados do que foi selecionado, organizado e conceituado por um determinado sujeito ou grupo social, inserido em um tempo, um lugar e uma circunstância específicos. De posse desses instrumentos, espera-se que os jovens elaborem hipóteses e argumentos com base na seleção e na sistematização de dados, obtidos em fontes confiáveis e sólidas. A elaboração de uma hipótese é um passo importante tanto para a construção do diálogo como para a investigação científica, pois coloca em prática a dúvida sistemática entendida como questionamento e autoquestionamento, conduta contrária à crença em verdades absolutas. Nessa direção, a BNCC da área de Ciências Humanas prevê que, no Ensino Médio, sejam enfatizadas as aprendizagens dos estudantes relativas ao desafio de dialogar com o outro e com as novas tecnologias. Considerando que as novas tecnologias exercem influência, às vezes negativa, outras vezes positiva, no conjunto das relações sociais, é necessário assegurar aos estudantes a análise e o uso consciente e crítico dessas tecnologias, observando seus objetivos circunstanciais e suas finalidades a médio e longo prazos, explorando suas potencialidades e evidenciando seus limites na configuração do mundo contemporâneo. É necessário, ainda, que a Área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas favoreça o protagonismo juvenil investindo para que os estudantes sejam capazes de mobilizar diferentes linguagens (textuais, imagéticas, artísticas, gestuais, digitais, tecnológicas, gráficas, cartográficas etc.), valorizar os trabalhos de campo (entrevistas, observações, consultas a acervos históricos etc.), recorrer a diferentes formas de registros e engajar-se em práticas cooperativas, para a formulação e resolução de problemas. Considerando as aprendizagens a ser garantidas aos jovens no Ensino Médio, a BNCC da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas está organizada de modo a tematizar e problematizar algumas categorias da área, fundamentais à formação dos estudantes: Tempo e Espaço; Territórios e Fronteiras; Indivíduo, Natureza, Sociedade, Cultura e Ética; e Política e Trabalho. Cada uma delas pode ser desdobrada em outras ou ainda analisada à luz das especificidades de cada região brasileira, de seu território, da sua história e da sua cultura. 208
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS Tempo e Espaço explicam os fenômenos nas Ciências Humanas porque permitem identificar contextos, sendo categorias difíceis de se dissociar. No Ensino Médio, a análise de acontecimentos ocorridos em circunstâncias variadas torna possível compará-los, observar suas semelhanças e diferenças, assim como compreender processos marcados pela continuidade, por mudanças e por rupturas. Nomear o que é semelhante ou diferente em cada cultura é relativamente simples. Bem mais complexo é explicar as razões e os motivos (materiais e imateriais) responsáveis pela formação de uma sociedade, de sua língua, seus usos e costumes. É simples enunciar a diferença. Complexo é explicar a lógica que produz a diversidade. Portanto, analisar, comparar e compreender diferentes sociedades, sua cultura material, sua formação e desenvolvimento no tempo e no espaço, a natureza de suas instituições, as razões das desigualdades, os conflitos, em maior ou menor escala, e as relações de poder no interior da sociedade ou no contexto mundial são algumas das aprendizagens propostas pela área para o Ensino Médio. Definir o que seria o tempo é um desafio sobre o qual se debruçaram e se debruçam grandes pensadores de diversas áreas do conhecimento. O tempo é matéria de reflexão na Filosofia, na Física, na Matemática, na Biologia, na História, na Sociologia e em outras áreas do saber. Na História, o tempo assume significados e importância variadas. O fundamental é compreender que não existe uma única noção de tempo e que ele não é nem homogêneo nem linear, ou seja, ele expressa diferentes significados. Assim, no Ensino Médio, os estudantes precisam desenvolver noções de tempo que ultrapassem a dimensão cronológica, ganhando diferentes dimensões, tanto simbólicas como abstratas, destacando as noções de tempo em diferentes sociedades. Na história, o acontecimento, quando narrado, permite-nos ver nele tanto o tempo transcorrido como o tempo constituído na narrativa sobre o narrado. A compreensão do espaço deve contemplar suas dimensões histórica e cultural, ultrapassando suas representações cartográficas. Espaço está associado aos arranjos dos objetos de diversas naturezas e, também, às movimentações de diferentes grupos, povos e sociedades, nas quais ocorrem eventos, disputas, conflitos, ocupações (ordenadas ou desordenadas) ou dominações. No espaço (em um lugar) se dá a produção, a distribuição e o consumo de mercadorias. Nele são realizados fluxos de diversas naturezas (pessoas e objetos) e são desenvolvidas relações de trabalho, com ritmos e velocidades variados. Território e Fronteira, por sua vez, são categorias cuja utilização, na área de Ciências Humanas, é bastante ampla. Território é uma categoria usualmente associada a uma porção da superfície terrestre sob domínio de um grupo e suporte para nações, estados, países. É dele que provêm alimento, segurança, identidade e refúgio. Engloba as noções de lugar, região, fronteira e, especialmente, os limites políticos e administrativos de cidades, estados e países, sendo, portanto, 209
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA esquemas abstratos de organização da realidade. Associa-se território também à ideia de poder, jurisdição, administração e soberania, dimensões que expressam a diversidade das relações sociais e permitem juízos analíticos. Fronteira também é uma categoria construída historicamente. Ao expressar uma cultura, povos definem fronteiras, formas de organização social e, por vezes, áreas de confronto com outros grupos. A conformação dos impérios coloniais, a formação dos Estados Nacionais e os processos de globalização problematizam a discussão sobre limites culturais e fronteiras nacionais. Os limites, por exemplo, entre civilização e barbárie geraram, não raro, a destruição daqueles indivíduos considerados bárbaros. Temos aí uma fronteira sangrenta. Povos com culturas e saberes distintos em muitos casos foram separados ou reagrupados de forma a resolver ou agravar conflitos, facilitar ou dificultar deslocamentos humanos, favorecer ou impedir a integração territorial de populações com identidades semelhantes. Para além das marcações tradicionais do território, as cidades são repletas de territorialidades marcadas por fronteiras econômicas, sociais e culturais. As músicas, as festas e o lazer podem aproximar, mas podem também separar, criar grupos com culturas específicas ou circuitos culturais ou de poder. As fronteiras culturais são porosas, móveis e nem sempre circunscritas a um território específico. Também há fronteiras de saberes, que envolvem, entre outros elementos, conhecimentos e práticas de diferentes sociedades. Caçar ou pescar, por exemplo, são atividades que demandam habilidades nem sempre conhecidas e desenvolvidas por populações das grandes cidades. Plantar e colher exigem competências e habilidades experimentadas no dia a dia por populações dedicadas ao trabalho agrícola, desenhando fronteiras, frutos de diversas formas de produção, usos do solo e transformação na natureza. Assim, no Ensino Médio, o estudo dessas categorias deve possibilitar aos estudantes compreender os processos identitários marcados por territorialidades e fronteiras em históricas disputas de diversas naturezas, mobilizar a curiosidade investigativa sobre o seu lugar no mundo, possibilitando a sua transformação e a do lugar em que vivem, enunciar aproximações e reconhecer diferenças. A discussão a respeito das categorias Indivíduo, Natureza, Sociedade, Cultura e Ética, bem como de suas relações, marca a constituição das chamadas Ciências Humanas. O esclarecimento teórico dessas categorias tem como base a resposta à questão que a tradição socrática, nas origens do pensamento grego, introduziu: o que é o ser humano? Na busca da unidade, de uma natureza (physis), os primeiros pensadores gregos sistematizaram questões e se indagaram sobre as finalidades da existência, sobre o que era comum a todos os seres da mesma espécie, produzindo uma visão essencializada e metafísica sobre os seres humanos. A identificação da condição humana como animal político e animal social significa que, 210
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS independentemente da singularidade de cada um, as pessoas são essencialmente capazes de se organizar para uma vida em comum e de se governar, ou seja, os seres humanos têm uma necessidade vital da convivência coletiva. Todavia, os humanos têm, também, necessidades relacionadas à sua subsistência. Nesse sentido, exercem atividades que implicam relações com a natureza, agindo sobre ela de maneira deliberada e consciente, transformando-a. Esse processo contribui para que o indivíduo se produza como ser social. A sociedade, da qual faz parte o indivíduo, consiste em um grupo humano, ocupante de um território, com uma forma de organização baseada em tradições, práticas, hábitos, costumes, modos de ser e valores, responsáveis por sua especificidade cultural. Na construção de sua vida em sociedade, o indivíduo estabelece relações e interações sociais com outros indivíduos, constrói sua percepção de mundo, atribui significados ao mundo ao seu redor, interfere na natureza e a transforma, produz conhecimento e saberes, com base em alguns procedimentos cognitivos próprios, fruto de suas tradições tanto físico-materiais como simbólico-culturais. A forma como diferentes povos e sociedades estruturam e organizam o espaço físico-territorial e suas atividades econômicas permite, por exemplo, reconhecer a influência que esses aspectos exercem sobre os diversos modos como esses grupos estabelecem suas relações com a natureza, incluindo-se os problemas ambientais resultantes dessas interferências. As relações que uma sociedade tem com a natureza também são influenciadas pela importância atribuída a ela em sua cultura, pelos valores sociais como um todo e pela informação e consciência que se tem da importância da natureza para a sustentabilidade do planeta. As transformações geradas por cada indivíduo são mediadas pela cultura. Em sua etimologia latina, a cultura remete à ação de cultivar saberes, práticas e costumes em um determinado grupo. Na tradição metafísica, a cultura foi apresentada em oposição à natureza. Atualmente, as Ciências Humanas compreendem a cultura a partir de contribuições de diferentes campos do saber. O caráter polissêmico da cultura permite compreender o modo como ela se apresenta a partir de códigos de comunicação e comportamento, de símbolos e artefatos, como parte da produção, da circulação e do consumo de sistemas culturais que se manifestam na vida social. Os indivíduos estão inseridos em culturas (urbanas, rurais, eruditas, de massas, populares, regionais, locais etc.) e, dessa forma, são produtores e produto das transformações culturais e sociais de seu tempo. Na modernidade, a noção de indivíduo se tornou mais complexa em razão das transformações ocorridas no âmbito das relações sociais marcadas por novos códigos culturais, concepções de individualidade e formas de organização política no mundo ocidental. Em meio às mudanças, foram criadas condições para o debate a respeito da natureza dos seres humanos, seu papel em diferentes culturas, suas instituições e sua capacidade para a autodeterminação. A sociedade capitalista, por exemplo, ao mesmo tempo em que propõe a centralidade de sujeitos iguais, constrói relações econômicas que produzem e reproduzem desigualdades no corpo social. 211
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA As diferenças e semelhanças entre os indivíduos e as sociedades foram sedimentadas ao longo do tempo e em múltiplos espaços e circunstâncias. Procurar identificar essas diferenças e semelhanças tanto em seu grupo social (familiar, escolar, bairro, cidade, país, etnia, religião etc.) quanto em outros povos e sociedades constitui uma aprendizagem a ser garantida aos estudantes na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Para além dessa identificação, o exercício de deslocamento para outros pontos de vista e o reconhecimento de diferentes demandas políticas é central para a formação das juventudes no Ensino Médio, na medida em que ajuda a superar posturas baseadas na reiteração das referências de seu próprio grupo para avaliar os demais. Seguindo essa atitude inquiridora da realidade, é preciso que os estudantes percebam que a pretensão da validade e a aceitação de princípios universais têm sido questionadas por diversos campos das Ciências Humanas, visto que a legitimação dos saberes envolve um conjunto de códigos produzidos em diferentes épocas e sociedades. A razão e a experiência, por exemplo, são paradigmas da sociedade moderna ocidental e dificilmente servirão para analisar sociedades fundadas em outras lógicas, produto de outras histórias e outros contextos. O entrelaçamento entre questões sociais, culturais e individuais permite aprofundar, no Ensino Médio, a discussão sobre a ética. Para tanto, os estudantes devem dialogar sobre noções básicas como o respeito, a convivência e o bem comum em situações concretas. A ética pressupõe a compreensão da importância dos direitos humanos e de se aderir a eles de forma ativa no cotidiano, a identificação do bem comum e o estímulo ao respeito e ao acolhimento às diferenças entre pessoas e povos, tendo em vista a promoção do convívio social e o respeito universal às pessoas, ao bem público e à coletividade. Em suma, o conhecimento do outro, da outra cultura, depende da capacidade de se indagar para indagar o outro, atitude fundamental a ser desenvolvida na área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Esse é o primeiro passo para a formação de sujeitos protagonistas tanto no processo de construção do conhecimento como da ação ética diante do mundo real e virtual, marcado por uma multiplicidade de culturas. As categorias Política e Trabalho também ocupam posição de centralidade nas Ciências Humanas. A vida em sociedade pressupõe ações individuais e coletivas que são mediadas pela política e pelo trabalho. A política é entendida enquanto ação e inserção do indivíduo na pólis, na sociedade e no mundo, incluindo o viver coletivo e a cidadania. As discussões em torno do bem comum e do público, dos regimes políticos e das formas de organização em sociedade, as lógicas de poder estabelecidas em diferentes grupos, a micropolítica, as teorias em torno do Estado e suas estratégias de legitimação e a tecnologia interferindo nas formas de organização da sociedade são alguns dos temas que estimulam a produção de saberes nessa área. 212
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS A política está na origem do pensamento filosófico. Na Grécia Antiga, o exercício da argumentação e a discussão sobre os destinos das cidades e suas leis estimularam a retórica e a abstração como práticas necessárias para o debate em torno do bem comum. Esse exercício permitiu ao cidadão da pólis compreender a política como produção humana capaz de favorecer as relações entre pessoas e povos e, ao mesmo tempo, desenvolver a crítica a mecanismos políticos como a demagogia e a manipulação do interesse público. A política, em sua origem grega, foi o instrumento utilizado para combater os autoritarismos, as tiranias, os terrores, as violências e as múltiplas formas de destruição da vida pública. No mundo contemporâneo, essas questões observadas tanto em escala local como global ganham maior visibilidade na Geopolítica, pois ela enuncia os conflitos planetários entre pessoas, grupos, países e blocos transnacionais, desafio importante de ser conhecido e analisado pelos estudantes. As discussões sobre formas de organização do Estado, de governo e do poder são temáticas enunciadas no Ensino Fundamental e aprofundadas no Ensino Médio, especialmente em sua dimensão formal e como sistemas jurídicos complexos. Essas temáticas apresentadas de forma ampla na BNCC fornecem alguns elementos capazes de agregar diversos temas de ordem econômica, social, política, cultural e ambiental e permitem, sobretudo, a discussão dos conceitos veiculados por diferentes sociedades e culturas. A categoria trabalho, por sua vez, comporta diferentes dimensões filosófica, econômica, sociológica ou histórica: como virtude; como forma de produzir riqueza, de dominar e de transformar a natureza; como mercadoria; ou como forma de alienação. Ainda é possível falar de trabalho como categoria pensada por diferentes autores: trabalho como valor (Karl Marx); como racionalidade capitalista (Max Weber); ou como elemento de interação do indivíduo na sociedade em suas dimensões tanto corporativa como de integração social (Émile Durkheim). Seja qual for o caminho ou os caminhos escolhidos para tratar do tema, é importante destacar a relação sujeito/trabalho e toda a sua rede de relações sociais. Atualmente, as transformações na sociedade são grandes, especialmente em razão do uso de novas tecnologias. Observamos transformações nas formas de participação dos trabalhadores nos diversos setores da produção, a diversificação das relações de trabalho, a oscilação nas taxas de ocupação, emprego e desemprego, o uso do trabalho intermitente, a desconcentração dos locais de trabalho, e o aumento global da riqueza, suas diferentes formas de concentração e distribuição, e seus efeitos sobre as desigualdades sociais. Há hoje mais espaço para o empreendedorismo individual, em todas as classes sociais, e cresce a importância da educação financeira e da compreensão do sistema monetário contemporâneo nacional e mundial, imprescindíveis para uma inserção crítica e consciente no mundo atual. Diante desse cenário, impõem-se novos desafios às Ciências Humanas, incluindo a compreensão dos impactos das inovações tecnológicas nas relações de produção, trabalho e consumo. 213
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA Como apontado, o estudo das categorias Política e Trabalho no Ensino Médio deve permitir aos estudantes compreender e analisar a diversidade de papéis dos múltiplos sujeitos e seus mecanismos de atuação e identificar os projetos políticos e econômicos em disputa nas diferentes sociedades. No tratamento dessas categorias no Ensino Médio, a heterogeneidade de visões de mundo e a convivência com as diferenças favorecem o desenvolvimento da sensibilidade, da autocrítica e da criatividade, nas situações da vida, em geral, e nas produções escolares, em particular. Essa ampliação da visão de mundo dos estudantes resulta em ganhos éticos relacionados à autonomia das decisões e ao comprometimento com valores como liberdade, justiça social, pluralidade, solidariedade e sustentabilidade. Por fim, para garantir as aprendizagens essenciais definidas para a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, é imprescindível que os jovens aprendam a provocar suas consciências para a descoberta da transitoriedade do conhecimento, para a crítica e para a busca constante da ética em toda ação social. Considerando esses pressupostos, e em articulação com as competências gerais da Educação Básica e com as da área de Ciências Humanas do Ensino Fundamental, no Ensino Médio, a área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas deve garantir aos estudantes o desenvolvimento de competências específicas. Relacionadas a cada uma delas, são indicadas, posteriormente, habilidades a ser alcançadas nessa etapa. 4.1 COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS APLICADAS AO ENSINO MÉDIO 1. Analisar processos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais nos âmbitos local, regional, nacional e mundial em diferentes tempos, a partir da pluralidade de procedimentos epistemológicos, científicos e tecnológicos, de modo a compreender e posicionar-se criticamente em relação a eles, considerando diferentes pontos de vista e tomando decisões baseadas em argumentos e fontes de natureza científica. 2. Analisar a formação de territórios e fronteiras em diferentes tempos e espaços, mediante a compreensão das relações de poder que determinam as territorialidades e o papel geopolítico dos Estados-nações. 3. Analisar e avaliar criticamente as relações de diferentes grupos, povos e sociedades com a natureza (produção, distribuição e consumo) e seus impactos econômicos e socioambientais, com vistas à proposição de alternativas que respeitem e promovam a consciência, a ética socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional, nacional e global. 4. Analisar as relações de produção, capital e trabalho em diferentes territórios, contextos e culturas, discutindo o papel dessas relações na construção, consolidação e transformação das sociedades. 5. Identificar e combater as diversas formas de injustiça, preconceito e violência, adotando princípios éticos, democráticos, inclusivos e solidários, e respeitando os Direitos Humanos. 214
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS 6. Participar do debate público de forma crítica, respeitando diferentes posições e fazendo escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. Na BNCC, o protagonismo e a autoria estimulados no Ensino Fundamental traduzem-se, no Ensino Médio, como suporte para a construção e viabilização do projeto de vida dos estudantes, eixo central em torno do qual a escola pode organizar suas práticas. Ao se orientar para a construção do projeto de vida, a escola que acolhe as juventudes assume o compromisso com a formação integral dos estudantes, uma vez que promove seu desenvolvimento pessoal e social, por meio da consolidação e construção de conhecimentos, representações e valores que incidirão sobre seus processos de tomada de decisão ao longo da vida. Dessa maneira, o projeto de vida é o que os estudantes almejam, projetam e redefinem para si ao longo de sua trajetória, uma construção que acompanha o desenvolvimento da(s) identidade(s), em contextos atravessados por uma cultura e por demandas sociais que se articulam, ora para promover, ora para constranger seus desejos (BRASIL, 2018). Logo, é papel da escola auxiliar os estudantes a aprender a se reconhecer como sujeitos, considerando suas potencialidades e a relevância dos modos de participação e intervenção social na concretização de seu projeto de vida. É, também, no ambiente escolar que os jovens podem experimentar, de forma mediada e intencional, as interações com o outro, com o mundo, e vislumbrar, na valorização da diversidade, oportunidades de crescimento para seu presente e futuro. 215
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA LEITURA COMPLEMENTAR DEZ NOVAS COMPETÊNCIAS PARA UMA NOVA PROFISSÃO 216 Philippe Perrenoud É preciso reconhecer que os professores não possuem apenas saberes, mas também competências profissionais que não se reduzem ao domínio dos conteúdos a serem ensinados, e aceitar a ideia de que a evolução exige que todos os professores possuam competências antes reservadas aos inovadores ou àqueles que precisavam lidar com públicos difíceis. Existe hoje um referencial que identifica cerca de 50 competências cruciais na profissão de educador. Algumas delas são novas ou adquiriram uma crescente importância nos dias de hoje em função das transformações dos sistemas educativos, bem como da profissão e das condições de trabalho dos professores. Essas competências dividem-se em 10 grandes "famílias": 1. Organizar e estimular situações de aprendizagem. 2. Gerar a progressão das aprendizagens. 3. Conceber e fazer com que os dispositivos de diferenciação evoluam. 4. Envolver os alunos em suas aprendizagens e no trabalho. 5. Trabalhar em equipe. 6. Participar da gestão da escola. 7. Informar e envolver os pais. 8. Utilizar as novas tecnologias. 9. Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão. 10. Gerar sua própria formação contínua. Será que essas competências são realmente "novas"? Elas definem a "nova profissão", esboçada por Meirieu (1990) há mais de 10 anos? Representam uma ruptura ou são "eternas" no seio da profissão de educador? Em algumas profissões que dependem totalmente das tecnologias, a renovação das competências é evidente. No entanto, isto não acontece na educação escolar: nem o vídeo, nem o computador, nem a multimídia, até hoje, fizeram com que a profissão de professor mudasse. Desse ponto de vista, a aparente continuidade provoca a ruptura. Se surgissem novas competências, não seria para responder a novas possibilidades técnicas, mas devido à transformação da visão ou das condições de exercício da profissão. As representações e as novas práticas pedagógicas desenvolvem-se de forma progressiva. Em primeiro lugar, são aplicadas em escolas e classes atípicas, muito antes de serem reconhecidas e adotadas pela instituição e pela profissão, ainda que, em cada momento da história de um sistema educativo, observe-se um amplo leque de práticas; e, portanto, de competências; que vão das mais tradicionais às mais inovadoras. Desse modo, seria exa-
TÓPICO 3 BNCC: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS gerado falar de novas competências se isto sugerisse uma "mutação". Assistimos mais a uma progressiva recomposição do leque de competências de que os professores necessitam para exercer seu ofício de forma eficaz e equitativa. Algumas formas de "dar aula" desaparecem lentamente, enquanto outras assumem uma crescente importância. Algumas delas, que eram parte integrante da profissão, agora pertencem à tradição, ao passo que outras, reservadas aos militantes, integram-se pouco a pouco à identidade e aos recursos do professor da base. É bastante difícil perceber a novidade, pois as palavras utilizadas para designar as grandes famílias de competências criam uma impressão de familiaridade e, por isso, diversos professores podem, com boa-fé, afirmar que essas competências não lhes são estranhas, que já as possuem, embora nem sempre as dominem bem nem as apliquem no dia a dia. Por exemplo, que professor confessaria que não sabe organizar e estimular situações de aprendizagem? Uma parte do sentimento de familiaridade nasce do fato de que essas questões estão presentes no discurso "moderno" que acompanha as reformas escolares ou que está enraizado nos movimentos pedagógicos e nas ciências da educação. Assim, essas ideias fazem parte da "paisagem pedagógica" e todos "veem mais ou menos" o que é evocado quando se fala de avaliação formativa, de contrato didático, de pedagogia diferenciada. Se levarmos a sério todas essas competências, poderemos medir melhor o desvio existente entre o fato de saber ministrar um curso frontal ou "lições"; habilidade pedagógica muito comum, porém bastante pobre; e controlar uma ampla gama de situações e procedimentos de aprendizagem, levando em conta a diversidade dos aprendizes. Essas últimas práticas exigem competências muito mais apuradas, provenientes tanto da didática quanto da gestão de classe. Ante todas as listagens apresentadas como definitivas e fechadas, o movimento espontâneo de um leitor é a resistência, o questionamento da incrível pretensão do autor à exaustividade e ao ordenamento. No entanto, essa resistência, salutar, deixa de lado o mecanismo principal: pensar nas principais evoluções da profissão. Paradoxalmente, embora seja apresentado como uma ferramenta de análise, um referencial também cumpre uma função de síntese. Considerado em seu conjunto, deixa entrever uma profissão e talvez seu movimento histórico. É nesse nível que se impõe o debate. Para entrar na matéria, parece-me importante colocar e admitir duas considerações prévias, que serão examinadas a seguir. É importante: reconhecer que os professores não possuem apenas saberes, mas também competências profissionais que não se reduzem ao domínio dos conteúdos a serem ensinados; aceitar a ideia de que a profissão muda e sua evolução exige atualmente que todos os professores possuam novas competências, antes reservadas aos inovadores ou aos professores que precisavam lidar com os públicos mais difíceis. NOVAS COMPETÊNCIAS: PARA QUE TODOS APRENDAM Na análise dos motivos para lutar pela profissionalização da profissão de professor, deparamo-nos com dois tipos de fatores: por um lado, transformações das condições de exercício da profissão e, por outro, crescentes ambições dos sistemas 217
UNIDADE 3 EDUCAÇÃO, CULTURA E SOCIEDADE EM SALA DE AULA educativos. O ensino nunca foi uma profissão tranquila. Sempre teve de confrontar o outro, sua resistência, sua opacidade, suas ambivalências. Entretanto, devido às suas múltiplas transformações, parece cada vez mais difícil ensinar e, sobretudo, fazer aprender. Ao mesmo tempo, o nível de conhecimento e de competência das novas gerações torna-se um mecanismo político e econômico da maior importância. Mecanismo econômico porque o "capital humano" continua sendo um trunfo decisivo para o desenvolvimento e a sobrevivência na concorrência internacional. E também um mecanismo político porque, embora sem garantir a generosidade e o altruísmo, e menos ainda a liberdade, a igualdade e a fraternidade, a instrução é uma condição necessária da democracia e da capacidade de construir uma ordem negociada, de não aumentar a violência ou o fanatismo quando a sociedade é rompida por crises. Logo, espera-se uma maior eficácia dos sistemas educativos, ao mesmo tempo em que os orçamentos diminuem e as condições de trabalho e os públicos tornam-se mais difíceis. A escola não tem mais direito ao fracasso, não pode mais rejeitar os que "não querem trabalhar". Não é mais suficiente fazer progredir os que trabalham e compreendem de forma espontânea o sentido desse investimento; é preciso aderir à causa da instrução dos alunos para os quais "a vida está em outro lugar". Por isso, as novas competências exigidas estão relacionadas tanto a didáticas pontuais, baseadas nas ciências cognitivas, quanto a enfoques transversais que aliam a psicanálise e a sociologia, que visam a criar ou a manter; e, portanto, a explicar e a compreender; o desejo de aprender, o sentido dos saberes, o envolvimento do sujeito na relação pedagógica e a construção de um projeto. DEZ FAMÍLIAS DE COMPETÊNCIAS MAIS UMA Não podemos dissociar as competências da relação com a profissão. Para formar professores mais competentes, aliando uma postura reflexiva e uma forte implicação crítica para o desenvolvimento da sociedade, é necessário desenvolver a profissionalização do professor. A palavra está na moda, mas a ideia assusta. Provavelmente, todos desejariam beneficiar-se com o nível de especialização que é associado a uma profissão, ao prestígio, ao poder e a uma boa remuneração. No entanto, os atores hesitam em assumir a parcela de autonomia e responsabilidade que está ligada ao exercício de uma profissão. As autoridades querem conservar seu controle sobre os professores e os estabelecimentos. Por outro lado, esses últimos não desejam prestar contas. Daí a importância, para gerar a transição, de uma décima primeira família de competências, da qual dependerão a outras. Essas competências não se relacionam ao trabalho com os alunos, mas à capacidade de os professores agirem como um ator coletivo no sistema e de direcionar o movimento rumo à profissionalização e à prática reflexiva, assim como para o domínio das inovações. Isso está relacionado à evolução do sindicalismo, aos projetos de estabelecimento e à participação dos professores na elaboração das reformas escolares, desde que seja negociado. Significa que a profissionalização exige uma vontade comum dos professores, dos diretores e dos políticos. FONTE: Adaptado de <https://bit.ly/3nqqyhr>. Acesso em: 20 maio 2021. 218
RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: A BNCC, sigla para Base Nacional Comum Curricular, é um documento normativo previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Básica (BRASIL, 1996), que busca definir o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica. Isso é feito para assegurar os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, em conformidade com o que estabelece o Plano Nacional de Educação (BRASIL, 2014). No documento (BNCC) é determinado um conjunto de dez competências gerais que sumarizam os direitos de aprendizagem e de desenvolvimento dos estudantes. Essas competências devem ser trabalhadas ao longo de toda a Educação Básica e compreendem todas as dimensões do indivíduo: não apenas a cognitiva, mas também as dimensões física, social, emocional e cultural. Essas competências devem ser trabalhadas de forma integrada, uma vez que se relacionam de diversas maneiras, e seu desenvolvimento deve ser articulado com as habilidades dos componentes curriculares. Além disso, elas devem ser trabalhadas e estimuladas não apenas em sala de aula, mas em todo o espaço escolar, na relação com o outro e com o ambiente. Como primeira etapa da Educação Básica, a Educação Infantil é o início e o fundamento do processo educacional. A entrada na creche ou na pré-escola significa, na maioria das vezes, a primeira separação das crianças dos seus vínculos afetivos familiares para se incorporarem a uma situação de socialização estruturada. Nas últimas décadas, vem se consolidando, na Educação Infantil, a concepção que vincula educar e cuidar, entendendo o cuidado como algo indissociável do processo educativo. O Ensino Fundamental, com nove anos de duração, é a etapa mais longa da Educação Básica, atendendo estudantes entre 6 e 14 anos. Há, portanto, crianças e adolescentes que, ao longo desse período, passam por uma série de mudanças relacionadas a aspectos físicos, cognitivos, afetivos, sociais, emocionais, entre outros. 219
O Ensino Médio é a etapa final da Educação Básica, direito público subjetivo de todo cidadão brasileiro. Todavia, a realidade educacional do País tem mostrado que essa etapa representa um gargalo na garantia do direito à educação. Para além da necessidade de universalizar o atendimento, tem-se mostrado crucial garantir a permanência e as aprendizagens dos estudantes, respondendo às suas demandas e aspirações presentes e futuras. A BNCC da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas integrada por Filosofia, Geografia, História e Sociologia propõe a ampliação e o aprofundamento das aprendizagens essenciais desenvolvidas no Ensino Fundamental, sempre orientada para uma formação ética. Tal compromisso educativo tem como base as ideias de justiça, solidariedade, autonomia, liberdade de pensamento e de escolha, ou seja, a compreensão e o reconhecimento das diferenças, o respeito aos direitos humanos e à interculturalidade, e o combate aos preconceitos de qualquer natureza. CHAMADA Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. 220
AUTOATIVIDADE 1 Na BNCC, a evolução das competências é fruto da mobilização dessas habilidades com o objetivo de resolver problemas e desafios. No documento é determinado um conjunto de dez competências gerais que sumarizam os direitos de aprendizagem e de desenvolvimento dos estudantes. Essas competências devem ser trabalhadas ao longo de toda a Educação Básica e compreendem todas as dimensões do indivíduo: não apenas a cognitiva, mas também as dimensões física, social, emocional e cultural. Sobre as 10 competências, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Conhecimento: essa competência se refere a desenvolver um repertório sobre o mundo a partir dos conhecimentos que a humanidade já produziu. Envolve conhecer o mundo físico e digital, as ciências humanas e exatas, e utilizar essas informações para entender e explicar a realidade. ( ) Repertório cultural: conhecer e participar de produções artísticas deve ser valorizado como parte do currículo escolar. Por meio das experiências artísticas, o aluno poderá ser capaz de se expressar e atuar, além de explorar as relações entre culturas, sociedades e artes. ( ) Cultura digital: o ensino deve englobar o uso dos recursos digitais de forma ética, crítica e significativa, desenvolvendo no aluno a compreensão do uso responsável da tecnologia, seja como consumidor dela ou como produtor de conteúdos digitais. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V V F. b) ( ) F F F. c) ( ) V V V. d) ( ) F F V. 2 Para formar esses jovens como sujeitos críticos, criativos, autônomos e responsáveis, cabe às escolas de Ensino Médio proporcionar experiências e processos que lhes garantam as aprendizagens necessárias para a leitura da realidade, o enfrentamento dos novos desafios da contemporaneidade (sociais, econômicos e ambientais) e a tomada de decisões éticas e fundamentadas. Partindo do estudo Ensino Médio e com relação ao mundo, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O mundo deve lhes ser apresentado como campo aberto para investigação e intervenção quanto a seus aspectos políticos, sociais, produtivos, ambientais e culturais, de modo que se sintam estimulados a equacionar e resolver questões legadas pelas gerações anteriores e que se refletem nos contextos atuais, abrindo-se criativamente para o novo. 221
b) ( ) A dinâmica social contemporânea nacional e internacional, marcada especialmente pelas transformações decorrentes do desenvolvimento teológico, impõe desafios ao Ensino Médio. Para atender às necessidades de formação geral, indispensáveis ao exercício da cidadania e à inserção no mundo do trabalho, e responder à diversidade de expectativas dos jovens quanto à sua formação c) ( ) Para atender a todas essas demandas de formação no Ensino Médio, mostra-se imperativo repensar a organização curricular vigente para essa etapa da Educação Básica, que apresenta homogeneidade de componentes curriculares e abordagens pedagógicas distantes das culturas religiosas, do mundo do trabalho e das dinâmicas e questões sociais contemporâneas. d) ( ) Essa nova estrutura do Ensino Médio, além de ratificar a organização por áreas do conhecimento sem desconsiderar, mas também sem fazer referência direta a todos os componentes que compunham o currículo dessa etapa, prevê a oferta de variados itinerários formativos, seja para o aprofundamento acadêmico em uma ou mais áreas do conhecimento, seja para a formação teológica e profissional. 3 No Ensino Médio, a BNCC da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas propõe que os estudantes desenvolvam a capacidade de estabelecer diálogos entre indivíduos, grupos sociais e cidadãos de diversas nacionalidades, saberes e culturas distintas. No que essa capacidade resulta? a) ( ) Aceitação da alteridade e a adoção de uma conduta ética em sociedade. b) ( ) Aceitação da diversidade e a adoção de uma conduta moralista em sociedade. c) ( ) Aceitação da diversidade e a adoção de uma conduta homogenia em sociedade. d) ( ) Aceitação da alteridade e a adoção de uma conduta de prevenção em sociedade. 4 A BNCC procura desempenhar um papel de apontar aquilo que todos os alunos devem desenvolver de maneira que a igualdade educacional permita, também, que as singularidades de cada um sejam consideradas. A BNCC veio exatamente com o desejo de acabar com o foco conteudista e permitir uma formação mais ampla de maneira a preparar o aluno para os desafios da vida e do mercado de trabalho. Referente à BNCC, disserte sobre a importância dela para a sociedade brasileira. 5 As competências gerais propostas pela BNCC são aquelas que norteiam o documento, desdobrando-se em tudo o que é definido para cada etapa do ensino. Essas competências gerais preveem o desenvolvimento integral do aluno, tanto em termos cognitivos quanto socioemocionais. A Base tem como objetivo criar cidadãos capazes de ter sucesso no século XXI. Portanto, essas características socioemocionais são tão importantes quanto as cognitivas. Disserte sobre as competências gerais da BNCC. 222
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