Professora Me. Jaqueline Cappellari
Contexto histórico-cultural Os poemas foram escritos entre 1943 e 1945. Os horrores da Segunda Guerra Mundial angustiavam a humanidade e o exército nazista recuava, especialmente na extinta União Soviética. O confronto capitalismo x comunismo, que se desenhara desde 1917 estava momentaneamente estagnado para unir forças contra o nazismo. Simultaneamente, no Brasil, o governo de Getúlio Vargas perdia o apoio entre as classes médias e as elites intelectuais que aspiravam a um regime democrático. Nesse universo de conflitos, o foco poético de CDA (Carlos Drummond de Andrade), antes centrado mais na subjetividade e no individualismo, deslocou-se para uma ênfase no histórico-social. Anos depois, o autor explicou esta tendência de A rosa do povo como uma tradução daquela época sombria.
Uma obra inovadora É a mais extensa de todas de CDA, composta por 55 poemas, de grande variedade técnica e temática. Quase todos os poemas têm uma dimensão metafórica, apesar da linguagem aparentemente clara. A rosa do povo representa para a produção de CDA uma tensão entre a participação política e a adesão às políticas esquerdistas de um lado, e a visão cética e desencantada de outro. É uma obra de vários significados, há em alguns poemas, por exemplo a presença da esperança, já, em outros, o pessimismo, pois, como é possível perceber, para CDA, a realidade tem várias faces. O poeta mistura a norma culta com o coloquial, provocando um estilo mesclado entre uma linguagem mais elevada e uma mais coloquial. Os versos são mais longos que os das obras anteriores. Predomina o verso livre (métrica irregular) e o verso branco (sem rimas). O humor das obras anteriores desparece e um tom mais solene passa a fazer parte de sua poesia. As inquietações sociais são representadas pelas várias referências ao cotidiano.
Temas básicos 1. Poesia social 2. Reflexão existencial 3. Poesia sobre a própria poesia 4. O passado 5. O amor 6. O cotidiano 7. A celebração dos amigos
1. A poesia social Há poemas em que a angústia subjetiva do poeta transforma-se em engajamento e compromisso com a humanidade. Assim, percebemos: a culpa e a responsabilidade moral - há uma repulsa ao egocentrismo (ver poemas Carrego comigo e Movimento da espada) o registro puro e simples de uma ordem política injusta (ver poema O medo, no qual se percebe um dos textos mais opressivos de toda obra de CDA. O medo traduz o contexto da época (ditadura, prisão, tortura, guerra, massacres) e vai impedindo os seres de pensar, protestar e agir. a passagem da náusea à perspectiva de uma nova sociedade (em termos concretos e em termos abstratos) ver dois dos mais importantes poemas da obra: A flor e a náusea e Nosso tempo, neles o sentimento de culpa é substituído pela noção de náusea a celebração de uma nova ordem, pois percebe-se em poemas como Carta a Stalingrado, Com o russo em Berlim, Visão 1944, Cidade prevista, Mas viveremos e Telegrama de Moscou que CDA parece assumir três compromissos: o moral, o humanista e o ideológico.
2. Poesia de reflexão existencial Um dos temas mais presentes em toda obra de CDA. Principais motivos: solidão, angústia e incomunicabilidade (ver poema Anoitecer); o fluir do tempo (ver o poema Desfile); balanços da existência (ver os poemas Resíduo, Consolo na praia e Passagem do ano); a morte; há a consciência da progressiva destruição operada pelo tempo (ver poema Morte no avião).
3. A poesia sobre a poesia A reflexão metapoética (ou metalinguagem) também é uma das vertentes constantes de CDA. A própria poesia é tematizada, assim, nos poemas sobre poemas, discute-se o ofício de escrever, a construção do texto, a linguagem lírica, etc. Ver poemas Consideração do poema e Procura da poesia.
4. Poesia sobre o passado Ideia do passado e suas infinitas recordações. São experiências pessoais, familiares e históricas. Ver poemas Como um presente, No país dos Andrades e Retrato de família. O passado é apresentado da seguinte forma: 1. Por meio de um registro realista (do quadro formal e sociocultural do interior rural mineiro de fins do século XIX e início do século XX estritamente pessoal, ou seja, fatos, palavras e sentimentos que atingiram subjetivamente o menino e/ou jovem CDA. 2. A projeção do passado (pessoal, familiar, social) no presente, fazendo com que toda a indagação daquilo que ficou para trás seja também uma indagação da identidade atual do poeta.
5. Poesia sobre o amor Em A rosa do povo a questão amorosa ocupa um espaço mínimo. Apenas o poema O mito é de assunto estritamente sentimental. Porém, é possível verificar esse elemento presente também em O caso do vestido, embora esteja mais enquadrado em o tratamento dado pelo poeta ao cotidiano.
6. A poesia do cotidiano Os poemas que tratam do cotidiano têm uma visão explicitamente engajada. Nesses poemas, CDA fixa cenas ou narra histórias sem a intervenção do eu quase como um repórter de linguagem apurada. Há críticos que definem como dramas do cotidiano. Em geral são poemas de leitura mais acessível como A morte do leiteiro e Caso do vestido.
7. Celebração de amigos CDA realiza uma louvação a personalidades que marcaram sua existência seja pela amizade, seja pela obra que produziram. Exemplos: Mario de Andrade desce aos infernos Canto ao homem do povo, Charlie Chaplin