Poder Judiciário Tribwza I de Justiça do Estado á (Paraíba gabinete da Desembargadora gilaria á 'Fátima Moraes Bezerra Cavarcanti Decisão 911onocrática REMESSA OFICIAL n 001.2010.006125-6/002 Campina Grande RELATOR : Dr. Alexandre Targino Gomes Falcão Juiz Convocado para substituir a Des.a Maria de Fátima Moraes Bezerra Cavalcanti AUTOR : Geová José da Silva ADVOGADO : José Alípio Bezerra de Melo (Defensor Público) RÉU : Município de Boa Vista PROCURADOR : Franklin Carvalho de Medeiros REMETENTE : Exm. Dr. Juiz de Direito da t a Vara da Fazenda Pública da Comarca da Campina Grande AGRAVO DE INSTRUMENTO CONVERSÃO EM RETIDO AUSÊNCIA DE RECURSO VOLUNTÁRIO PREJUDICIALIDADE - NÃO- CONHECIMENTO INTELIGÊNCIA DO ART. 557, CAPUT, DO CPC. Não se conhece do agravo retido, quando o processo retorna a Corte Recursal, motivado por força de remessa necessária e não por julgamento da apelação. REMESSA OFICIAL - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER - FORNECIMENTO DE PRODUTO MEDICAMENTOSO PARA TRATAMENTO DE SAÚDE DIREITO À VIDA E À SAÚDE ÔNUS DO ESTADO INTELIGÊNCIA DO ART. 196 DA CF DESPROVIMENTO DA REMESSA NECESSÁRIA INTELIGÊNCIA DO ART. 557, CAPUT, DO CPC. "É obrigação do Estado (União, Estados-membros, Distrito Federal e Municípios) assegurar às pessoas desprovidas de recursos financeiros o acesso à medicação ou congênere necessário à cura, controle ou abrandamento de suas enfermidades, sobretudo as mais graves. Sendo o SUS composto pela União, Estados-membros e Municípios, é de reconhecer-se,
em função da solidariedade, a legitimidade passiva de qualquer deles no pólo passivo da demanda". "É dever do Poder Público o fornecimento de medicamento de modo contínuo e gratuito aos portadores de enfermidade, nos termos do art. 196 da Carta Magna". Vistos, etc. Cuida-se de Remessa Oficial da sentença (ff. 126/131) proferida pelo MM. Juiz de Direito da i a Vara da Fazenda Pública da Comarca de Campina Grande, nos autos da Ação de Obrigação de Fazer promovida por Geová José da Silva em face do Município de Boa Vista, visando obter o fornecimento de medicamento pelo Estado da Paraíba, alegando o autor ser portador de Hepatopatia Crônica Criptogenética. Decidindo, o magistrado julgou procedente o pleito, determinando que o referido Município forneça ao autor o medicamento prescrito pelo médico, em quantidades necessárias para o controle da doença, "nos moldes requerido na inicial, ate o término do tratamento do paciente, " ratificando o termos da tutela antecipada anteriormente concedida: Não houve interposição de recurso voluntário, f. 133v. Remessa dos autos para o necessário reexame. Instada a se pronunciar, a Procuradoria de Justiça opinou pela manutenção do decisum, e desprovimento da remessa necessária, ff. 142/149. É o relatório. Decido: DO AGRAVO RETIDO Verifico que a despeito da existência de Agravo de Instrumento, o qual fora convertido em Agravo Retido (autos em anexo), a análise do mesmo restou prejudicada, levando-se em conta o seu regresso a esta Corte Recursal foi motivada por força de Remessa Oficial e não advindo de recurso voluntário. Em verdade, se parte pretendia que o mesmo fosse submetido a julgamento, deveria ter observado os precisos termos do art. 523, 1 do CPC. Como assim deixou de proceder, não deve ser conhecido. DA REMESSA OFICIAL: Tem-se que o autor é portador de Hepatopatia Crônica Criptogenética (CID K 74,0), carecendo, de urgêndia, das substâncias requeridas, I RESP 719716/SC, Min. Relator Castro Meira 2
sob pena de sofrer danos irreversíveis à sua saúde, acaso não dê prosseguimento ao tratamento médico prescrito. Anexou aos autos, o traslado das cópias suficientes a comprovar todo o alegado, mostrando a sua real necessidade de uso do medicamento, a saber: Ursacol 600 mg/dia. Sendo função do Município garantir à saúde de todos e, restando satisfatoriamente comprovado nos autos a indispensabilidade do medicamento, conforme receituário médico, é incumbência do ente público fornecê-lo. O pleito requerido encontra respaldo legal, ante o que dispõe o artigo 196 da Carta Magna Federal: "Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação." Na mesma linha, também estatui a Constituição Estadual: "Art. 2 São objetivos prioritários do Estado: (...) VII - garantia da educação, do ensino, da saúde e da assistência à maternidade e à infância, à velhice, à habitação, ao transporte, ao lazer e à alimentação; Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante política social, econômica e ambiental, visando à redução do risco de doença e ao acesso igualitário e universal aos serviços de sua proteção e recuperação." Outrossim, a Lei n 8.080/90 2 assim dispõe: "Art. 2. Saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. (-..) Art.3 - Omissis. Parágrafo único Dizem respeito também à saúde as ações que, por força do disposto no artigo anterior, se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico, mental e social. (--) Art.6 - Estão incluídas ainda no campo de atuação do Sistema Único de Saúde (SUS): I- a execução de ações: (-.) = Lei 8.080/90 - Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes, e dá outras providências. 3
d) de assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica; (--) VI a formulação da política de medicamentos, equipamentos imunobiológicos e outros insumos de interesse para a saúde e a participação na sua produção; Art. 7 0 - As ações e serviços públicos de saúde e os serviços privados e contratados ou conveniados que integram o Sistema Único de Saúde - SUS são desenvolvidos de acordo com as diretrizes previstas no art.198 da Constituição Federal, obedecendo ainda aos seguintes princípios: I - universalidade de acesso aos serviços à saúde em todos os níveis de assistência; IV - igualdade da assistência a saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie; (..-)". Em casos similares ao presente caso, este Tribunal firmou entendimento pela concessão da segurança, senão veja-se: ADMINISTRATIVO E CONSTITUCIONAL - Mandado de Segurança - Remessa Oficial - Fornecimento de Medicamentos - Portador de Leucemia Mielóide - Paciente sem condições financeiras de comprar medicamentos - Direito à Vida e à Saúde - Dever do Estado - Garantia Constitucional - Manutenção do decisum -Desprovimento da remessa oficial. - É dever constitucional do Estado o fornecimento de medicamentos, gratuitamente, a todo cidadão carente de recursos financeiros, que dele necessitar.' MANDADO DE SEGURANÇA. DOENÇA GRAVE. LEUCEMIA MIELC5IDE CRÔNICA. NECESSIDADE DE TRATAMENTO. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO QUE NÃO FAZ PARTE DA LISTA DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. DEVER DO ESTADO. DIREITO FUNDAMENTAL À VIDA E À SAÚDE. CONCESSÃO DO WRIT. "O direito à saúde, expressamente tutelado pela Carta de 1988, veio se integrar ao conjunto de normas e prerrogativas constitucionais que, com o status de direitos e garantias fundamentais, tem por fim assegurar o pleno funcionamento do estado democrático de direito, pautado na mais moderna concepçáo de cidadania". Pratica induvidosamente ato escoimado ilegal o Secretário de Saúde que indefere pedido formulado pelo impetrante, portador de "leucemia mielóide crônica", no sentido de que lhe fosse concedido o medicamento comprovadamente essencial ao tratamento de doença que acarreta risco de vida, ao argumento de que não faz parte da lista de medicamentos excepcionais fornecidos pelo SUS. Sistema Único de Saúde. Ordem concedida.' No mesmo sentido posiciona-se, também, os Tribunais Superiores: 3TJPB - Acórdão do processo n 20020080280023002 - Órgão (3' Câmara Cível) - Relator DR. EDUARDO JOSE DE CARVALHO SOARES - JUIZ CONVOCADO - j. Em 14/04/2009 4
PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA. FORNECIMENTO DE REMÉDIO PARA TRATAMENTO DE LEUCEMIA MIELÓIDE. 1. Ação mandamental objetivando o writ para que a autoridade forneça o medicamento necessário ao tratamento de Leucemia Mielóide Crônica. 2. O Sistema Único de Saúde-SUS visa a integralidade da assistência à saúde, seja individual ou coletiva, devendo atender aos que dela necessitem em qualquer grau de complexidade, de modo que, restando comprovado o acometimento do indivíduo ou de um grupo por determinada moléstia, necessitando de determinado medicamento para debelá-la, este deve ser fornecido, de modo a atender ao princípio maior, que é a garantia à vida digna. 3. Configurada a necessidade do impetrante de ver atendida a sua pretensão posto legitima e constitucionalmente garantida, uma vez assegurado o direito à saúde e, em última instância, à vida. A saúde, como de sabença, é direito de todos e dever do Estado. 4. Multifários precedentes da Corte: Resp 656.979, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 05/03/2005; Resp 430.526, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 28/12/2002; RESP n 212.346/RJ, Relator Min. Franciulli Netto, 2 a Turma, DJ 04/02/2002; ROMS n 11.129/PR, Relator Min. Francisco Peçanha Martins, 2a Turma, DJ 18/02/2002; RESP n 325.337/RJ, Relator Min. José Delgado, 1a Turma, DJ 03/09/2001 5. Liminar deferida. PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. ARTIGO 535 DO CPC. ARGÜIÇÃO GENÉRICA. SÚMULA 284/STF. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. ARTIGO 273 DO CPC. SÚMULA 7/STJ. SUPOSTA AFRONTA A PRECEITO LEGAL. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 211/STJ. MEDICAMENTO OU CONGÊNERE. PESSOA DESPROVIDA DE RECURSOS FINANCEIROS. FORNECIMENTO GRATUITO. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DA UNIÃO, ESTADOS- MEMBROS, DISTRITO FEDERAL E MUNICÍPIOS. (...) 5. A Lei 8.080/90, com fundamento na Constituição da República, classifica a saúde como um direito de todos e dever do Estado. 6. É obrigação do Estado (União, Estados-membros, Distrito Federal e Municípios) assegurar às pessoas desprovidas de recursos financeiros o acesso à medicação ou congênere necessário à cura, controle ou abrandamento de suas enfermidades, sobretudo as mais graves. 7. Sendo o SUS composto pela União, Estados-membros e Municípios, é de reconhecer-se, em função da solidariedade, a legitimidade passiva de quaisquer deles no pólo passivo da demanda. 8. Recurso especial conhecido em parte e improvido." 5 4(TJPB; MS 2.003.004778-3; Tribunal Pleno; Rel. Des. Jorge Ribeiro Nábrega; Julg. 18/06/2003; DJPB 26/06/2003) 5
AGRAVO REGIMENTAL. PEDIDO DE SUSPENSÃO DE LIMINAR. FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO A PORTADORA DE LEUCEMIA. ALEGADA LESÃO À' ORDEM E À ECONOMIA PÚBLICAS NÃO COMPROVADA. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. (...) O fornecimento de medicamento a uma única pessoa acometida de moléstia grave que, em razão de suas circunstâncias pessoais, necessita fazer uso urgente dele não tem, por si, o potencial de causar dano concreto e iminente aos bens jurídicos protegidos pela referida lei. Agravo regimental improvido." Precedentes jurisprudenciais do STJ: RESP 4902281RS, Relator Ministro José Arnaldo da Fonseca, DJ de 31.05.2004; AGRGRESP 4406861RS, Félix Fischer, DJ de 16.12.2002; AGRESP 554776/SP, Relator Ministro Paulo Medina, DJ de 06.10.2003; AgRgREsp 189.108/SP, Relator Ministro Gilson Dipp, DJ 02.04.2001 e AgRgAg 334.301/SP, Relator Ministro Fernando Gonçalves, DJ 05.02.2001. Ademais, é de se registrar que sendo a saúde um direito fundamental do ser humano, deve o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. Com estas considerações, aciono o dispositivo constante no art. 557, caput, do CPC, não conheço do agravo retido e desprovejo a remessa oficial por estar em confronto com a reiterada jurisprudência deste Tribunal e e dos Tribunais Superiores, fazendo prescindir de sua apreciação pelo órgão colegiado, mantendo irretocável a decisão. P. I. João Pessoa, 14.d setembro de 2011. 1 r' a /dm s 551cao uiz Convocado Relato!' 0,5 5 STJ - Resp 7197161SC - Rel. Min. Castro Meira. T2. DJ. 05.09.2005 Ó(AgRg na SLS.9511RS, Rel. Ministro CESAR ASFOR ROCHA, CORTE ESPECIAL, julgado em 03/12/2008, DJe 05/02/2009) 6
TRIBUNAL DE JUSTIÇA Coordenada ria Jndiciária Registraáo en7,2(93(--79 p2p/r