IVAN CORRÊA A PSICANÁLISE E SEUS PARADOXOS Seminários Clínicos CENTRO DE ESTUDOS FREUDIANOS DO RECIFE
Copyright Ivan Corrêa, 2001 Copyright Ágalma, 2001 Março, 2001 Capa e projeto gráfico da coleção Homem de Melo & Troia Design Editores de Ágalma Angela Baptista do Rio Teixeira Marcus do Rio Teixeira Comissão Editorial do C.E.F. Angela Serpa, Emília Lapa, Leticia Fonseca, Marcilene Dória, Mara de Fátima Bello, Maria Lucia Santos, Mônica Vieira e Telma Queiroz Direção desta coleção Ricardo Goldenberg Revisão a cargo de Ágalma Depósito legal Impresso no Brasil/Printed in Brazil Todos os direitos reservados Ágalma Psicanálise Editora Ltda Rua Agnelo de Brito, 187 Centro Odontomédico Henri Dunant, sala 309 40.170-100 Salvador - Bahia, Brasil Tel: (0xx) 71 332-8776 Telefax: (0xx)71 245-7883 e-mail: agalma@svn.com.br Centro de Estudos Freudiano do Recife Rua Joseph Turton, 227 Tamarineira 52051-110 Recife - Pernambuco, Brasil Tel: (0xx) 81 3268-1812 CATALOGAÇÃO NA FONTE DO DEPARTAMENTO NACIONAL DO LIVRO C824p Corrêa, Ivan. A Psicanálise e seus paradoxos; seminários clínicos / Ivan Corrêa. Salvador : Ágalma ; Recife : Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2001. 128p. ; cm. - (Discurso Psicanalítico ; 8) ISBN 85-85458-18-6 ISBN 85-86482-03-X I. Psicanálise - Discursos, ensaios, conferências. I. Título. II. Série. CDD-150.195
SUMÁRIO Prefácio - Mario Fleig, 07 Palavaras de abertura, 09 A Angústia e a falta, 11 O sujeito dividido e a ambivalência, 17 O sintoma é um paradoxo, 27 A dissimetria e o par ordenado, 40 A prática analítica e a lógica do sintoma, 46 O vazio não é falta, 55 A teoria dos conjuntos e o estágio do espelho, 60 O espelho e o narcisismo, 74 O pai, o sintoma e a transferência, 79 A teoria dos conjuntos e o Outro, 86 O par ordenado e a clínica psicanalítica, 93 Amorte, 105
PREFÁCIO Mario Fleig O filósofo vienense Wittgenstein introduziu a idéia que um problema filosófico consiste numa confusão conceitual que aparece em perguntas nas quais não se reconhece o emaranhado de idéias subjacentes. A terapêutica filosófica opera inicialmente pela explicitação da confusão conceitual e sua solução se encontra na dissolução do problema, ao desfazer-se o nó que o origina. Assim, a finalidade da atividade filosófica reside na busca da clareza e não do conhecimento. Trata-se então de uma concepção que propõe como solução de problemas filosóficos não o recurso a novos conhecimentos até então inexistentes, mas antes a análise do mesmo até a sua dissolução. Assim põe em evidência o problema de linguagem no modo como está formulado. Esta terapêutica da linguagem é comparada pelo filósofo ao trabalho psicanalítico. Surgiu-me a associação com o modelo de trabalho proposto por Wittgenstein, ao ler o texto de Ivan Corrêa, especialmente quando me surpreendi com sua interpretação do livro XI das Confi ssões de Santo Agostinho: a morte constitui um embaraço para a linguagem. Ao longo do Seminário e das discussões, o autor não faz questão de apresentar conhecimentos novos, mas antes se dedica em nos fazer penetrar na estrutura lógica de formulações clássicas, já tidas como conhecidas, assim como em material oriundo do trabalho clínico. O que poderia causar uma certa decepção um texto que fica retornando a coisas já sabidas apresenta-se como uma rigorosa 7
A PSICANÁLISE E SEUS PARADOXOS posição metodológica e uma chave em torno do estatuto da clínica e da teoria psicanalítica. Se Freud afirma que a psicanálise não é uma Weltanschauung, podemos acrescentar que também não é uma doutrina e muito menos propõe uma semântica. Ela não concorre com as teorias sobre o mundo, a vida e a sociedade, e muito menos propõe um ideal de dever-ser. Pretende apenas contribuir para a dissolução de problemas que inquietam o ser humano. E quando os problemas se dissolvem, tendem a cair no esquecimento, como aquele testemunhado pelo jovem Herbert Graf, o pequeno Hans, por ocasião de sua visita a Freud. Deste modo, proponho ao leitor que está iniciando a leitura de A Psicanálise e seus paradoxos, assim como àqueles que têm acompanhado as ricas e instigantes colocações e escritos de Ivan Corrêa, seguir sua indicação de não olhar simplesmente para a bela e frondosa árvore, com sua exuberante copa, mas buscar suas raízes. Algumas destas raízes são aqui apresentadas, como o paradoxo de Cantor e o par ordenado, que permitem apreender a lógica que organiza a ambivalência psíquica. Sabemos que outras raízes, e não menos importantes, têm sido trabalhadas pelo autor em outros lugares. Em que consiste uma análise? Como sabemos quando há um analista? Encontra-se, especialmente no final dos Seminários Clínicos, o enlace entre lógica e inconsciente, pois é na língua e mais particularmente na estrutura gramatical que a lógica encontrou o seu ponto de partida. E a lógica, como a psicanálise, põe em ação uma prática da linguagem. Se a repetição do idêntico faz a diferença, inscrevendo a heterogeneidade, há sempre o traço unário, marca fundadora que é irrepresentável e inapreensível. Deixar sempre reservado o lugar do inapreensível é o que põe em movimento o singular ímpeto de Ivan em escutar e contar para alguém, numa interlocução que diferencia e limita o afã do conhecimento e a paranóia que lhe é estrutural. E isso nós dá o indício da presença de um analista. Porto Alegre, 16 de dezembro de 2000. 8