ANÁLISE DO DISCURSO AULA 01: CARACTERIZAÇÃO INICIAL DA ANÁLISE DO DISCURSO TÓPICO 01: O QUE É A ANÁLISE DO DISCURSO MULTIMÍDIA Ligue o som do seu computador! OBS.: Alguns recursos de multimídia utilizados em nossas aulas, como vídeos legendados e animações, requerem a instalação da versão mais atualizada do programa Adobe Flash Player. Para baixar a versão mais recente do programa Adobe Flash Player, clique aqui! [1] Utilizaremos, para nos aproximarmos de uma definição da Análise do Discurso, de princípios e procedimentos da própria disciplina: a. Como qualquer outra disciplina, ela será encarada como um discurso, ou seja, um dizer e uma ação sobre o real. Numa palavra: uma prática. Não se pretende uma verdade sobre a realidade discursiva, mas uma interpretação desta realidade sob óculos peculiares. Por outro lado, esta realidade, tal como a realidade não-discursiva, não é um mundo estável, estanque e imune à própria discursividade produzida pela Análise do Discurso. b. Partindo do princípio de que o advento de qualquer discurso só existe se posicionando em um campo já habitado, procuraremos indicar em que a disciplina se aproxima e se diferencia de outras conforme suas diversas dimensões. c. Supondo que os títulos das disciplinas não são nem inteiramente transparentes ao objeto das mesmas nem rótulos inocentes e alheios a seus modos de dizer e fazer, iremos submeter a expressão Análise do Discurso a uma análise discursiva. As múltiplas dimensões da Análise do Discurso e sua relação com disciplinas concorrentes Podemos dizer que a Análise do Discurso tem múltiplas dimensões. De um lado trata-se de uma disciplina que se dedica a um modo de leitura de textos. Nesse sentido, ela se filia a uma linhagem de disciplinas que historicamente vêm se dedicando a essa prática, como a Hermenêutica, a Filologia e a Teoria Literária. Hermenêutica: (do grego ermēneutikē ), trata-se de disciplina que tem por fim a interpretação correta e objetiva de textos religiosos ou filosóficos, especialmente das Sagradas Escrituras. Hermes, deus grego da comunicação e do entendimento humano, é o patrono da hermenêutica. A FILOLOGIA (do grego antigo Φιλολογία, amor ao estudo, à instrução ) disciplina que estuda a língua, a literatura e a cultura de
um povo numa perspectiva histórica a partir de documentos escritos. Por vezes, o termo pode também denominar o estudo científico da história de uma língua ou família linguística, porém esse estudo é mais apropriadamente chamado hoje de Linguística Histórica. Assim, os filólogos propriamente ditos se dedicam ao estudo material e crítico dos textos. São ramos da filologia a Ecdótica (arte de descobrir e corrigir os erros de um documento escrito, preparando-lhe uma edição em que se procura estabelecer o texto perfeito), a Crítica Textual (estudo dos textos antigos e da sua preservação ou corrupção ao longo do tempo), a Crítica Genética (investiga a gênese da obra literária através do estudo dos mecanismos de produção e caminhos seguidos pelo escritor na preparação dos originais de sua(s) edição(ões)), Paleografia (estuda textos manuscritos antigos e medievais; estuda também a origem, a forma e a evolução da escrita) e a Epigrafia (estuda as inscrições antigas, ou epígrafos, gravados em material sólido visando decifrar, interpretar e classificar as inscrições. Teoria Literária: Disciplina que tem como objeto o texto literário, que vai ser estudado ao nível das suas propriedades, da sua ligação com outros textos similares, do papel do autor e do gênero. A Teoria Literária ou Teoria da Literatura trabalha em conjunto com a História da Literatura tentando integrar os diversos textos numa corrente literária. Enquanto ciência, deve produzir conceitos, hipóteses explicativas, métodos e instrumentos de análise que vão lhe permitir obter um conhecimento profundo sobre uma obra, tendo em conta o gênero, a corrente e a linguagem literária em que se insere. Quanto à Hermenêutica, entendida como disciplina preocupada com a leitura correta dos textos ou com o estabelecimento da melhor interpretação de um texto, a distância se dá pelo fato de AD não pretender a busca do Sentido, isto é, a revelação do verdadeiro sentido de um texto. Ao contrário, a Análise do Discurso pretende liberar os múltiplos sentidos de um texto porque segundo seus princípios, conforme veremos adiante, todo texto é sempre legível de múltiplas formas. Embora a AD pretenda, sim, efetuar uma interpretação de textos, interpretação que se pretende rigorosa, na medida em que amparada em sua materialidade, esta não se pretende o desvelamento do Sentido do texto. Um ponto crucial, portanto, marca o distanciamento entre as duas disciplinas: uma vez que não considera o texto como uma unidade fechada, mas sempre aberta a múltiplas interpretações, a AD está sempre atenta à possibilidade de que o sentido pode ser sempre outro. VERSÃO TEXTUAL Como qualquer disciplina do campo da cientificidade, a AD deve rejeitar uma leitura normativa, se recusando a tentar responder questões como "qual a melhor maneira de se descobrir o que realmente este texto quis dizer?", "como atingir o real sentido de um
texto?", etc. Interessa para a AD o que de fato foi dito, os múltiplos sentidos liberados, o como foi dito... Quanto à Filologia, podemos dizer que não se trata para a AD de ler o texto com o pretexto de estabelecer ou compreender seu contexto cultural. Isso pressuporia uma visão do contexto de um texto como uma moldura, numa relação de exterioridade, como se o contexto de um texto fosse uma realidade constante, muda, indiferente e pré-existente ao texto. Veremos que, para a AD, todo texto supõe seu contexto. Ele tem sempre marcas desse contexto e nele interfere diretamente. VERSÃO TEXTUAL Embora muitos analistas estabeleçam objetivos diversos para a análise e, de algum modo, um certo finalismo tenha marcado a própria origem da disciplina, a AD deve rejeitar a ideia de pretexto, pois esta supõe uma secundarização da análise em função de fins ou objetos supostamente mais nobres. À Teoria Literária a AD deve bastante... Esta disciplina tem grande influência nas práticas de leitura e interpretação de textos em ambiente escolar, sendo praticamente, hoje em dia, no Brasil, a responsável quase isolada pelas práticas analíticas voltadas para o texto e para o discurso com as quais os usuários leigos da língua têm contato durante a infância e a adolescência. O estudo dos textos literários historicamente desenvolveu importantes conceitos hoje apropriados pela Análise do Discurso, como gênero, intertextualidade e posicionamento. É clara, no entanto, a diferença entre as duas disciplinas em diversos aspectos. Em primeiro lugar, a apreensão da AD pretende-se muito mais abrangente, podendo inclusive tomar o próprio discurso da Teoria Literária e seu objeto como objetos de análise. No entanto, e este é o segundo lugar, a abordagem discursiva, mesmo a de textos literários, não será estética. Ou seja, sem pretender substituir e sem que o aspecto estético seja negligenciado, o texto literário não será examinado com o objetivo de apreender sua literariedade, não será julgado em suas qualidades artísticas através de conceitos como belo ou bom gosto, mas como uma enunciação (como tantas outras) que funciona ligada a uma instituição discursiva específica. Por outro lado, a Análise do Discurso é uma disciplina preocupada com a formulação de uma teoria geral da linguagem, uma vez que a prática de leitura que realiza pressupõe um modo de conceber o processo que tornou possíveis os textos de que se ocupa. E aí, por esse aspecto, a Análise do Discurso é também uma teoria do discurso, o que a aproxima das disciplinas científicas voltadas para a compreensão teórica da linguagem, como a Linguística (Linguística: Setor das Ciências Humanas cujo objetivo é descrever e explicar cientificamente as línguas naturais humanas, tanto do ponto de vista dos sistemas subjacentes (mentais ou sociais) quanto do ponto de vista dos processos históricos que
conduzem à mudança desses sistemas. Pode também investigar os processos de aprendizagem, produção, processamento e transposição material e variação social da linguagem verbal humana. (http://pt.wikipedia.org/wiki/semi%c3%b3tica)) e a Semiótica (Semiótica: (do grego semeiotiké ou a arte dos sinais ) - ciência geral dos signos, estuda os fenômenos culturais como se fossem sistemas sígnicos, isto é, sistemas de significação. Ocupa-se do estudo do processo de significação ou representação, na natureza e na cultura, do conceito ou da ideia. Mais abrangente que a Linguística, a qual se restringe ao estudo dos signos linguísticos, ou seja, do sistema sígnico da linguagem verbal, esta ciência tem por objeto qualquer sistema sígnico.(http://pt.wikipedia.org/wiki/semi% C3%B3tica)). Sem entrar na questão do modo como compreendem a linguagem e o discurso, podemos afirmar que a AD comunga com esses campos de saber no sentido não abrir mão de princípios universais de cientificidade tais como a busca da universalidade, a validação prática de suas descobertas, crenças e criações, a investigação metódica, etc. Diferentemente dessas disciplinas, porém, na medida em que a AD pretende, mais do que propor modelos de análise, verificar os condicionamentos sóciohistóricos da produção linguística concreta, ou ainda, investigar os nexos que condicionam as formas linguísticas, ela esclarece e contribui para a emancipação crítica do falante-ouvinte. Além do mais, a AD não separa o produto do processo de produção. Para ela, a exterioridade é constitutiva do texto, isto é, o falante (escritor), o ouvinte (leitor) e o contexto social e histórico no qual estão inseridos, bem como as próprias formulações linguísticas fixadas na memória discursiva, são levados em conta na sua prática. Dessa forma, ela procura evitar tanto o distanciamento presente nas ciências, quanto o pragmatismo inerente ao senso comum, procurando descrever, explicitar e problematizar a discursividade. Diante desta, o procedimento da AD é, portanto, de reflexão crítica, pois procura problematizar continuamente as evidências e explicitar seu caráter políticoideológico (ORLANDI, 1987). Note-se que a AD não se pretende colocar como uma alternativa para a Linguística e a Semiótica - ciências positivas que pretendem descrever e explicar a linguagem verbal humana, mas como proposta crítica que pretende problematizar as formas de reflexão estabelecidas (ORLANDI, op. cit.). Um aspecto importante dessa diferença entre a Análise do Discurso e as outras perspectivas elencadas diz respeito à forma de encarar o objeto linguagem. A AD olha seu objeto como parte da totalidade social e histórica, procurando articular aquilo que a olho nu aparece como desarticulado: a linguagem, a história, a sociedade, os sujeitos. Daí o caráter interdisciplinar da Análise do Discurso que não hesita em buscar de outras áreas do saber elementos para tentar compreender a linguagem. De outra parte, consideramos que a Análise do Discurso se aproxima do saber filosófico acerca da linguagem. Naturalmente que essa aproximação tem grande relação com o fato de serem filósofos alguns de seus precursores como Mikhail Bakhtin, Louis Althusser e Michel Foucault, além de ser filósofo seu próprio fundador oficial, Michel Pêcheux. Mas seria redutor creditar unicamente a esse fato, certamente relevante, a aura filosófica da
Análise do Discurso. Pensamos que isso tem a ver com uma postura reflexiva, crítica e de não-neutralidade, a nosso ver irredutível, diante de seu objeto e do mundo. Diante, por exemplo, da descoberta de estratégias de manipulação do leitor/ouvinte ou de mascaramento de determinados mecanismos de poder, o analista não pode deixar de se posicionar e de denunciar. Mas não apenas isso. Além dessa dimensão ética, pensamos que outra herança do discurso filosófico incorporado pela AD compõe um aspecto de seu instrumental metodológico baseado na reflexão sobre seu objeto em oposição a uma linguagem meramente descritiva, que se pretenderia transparente, reflexo do real. Mais do que desvendar a realidade discursiva, o discurso da Análise do Discurso pretende problematizá-la. Essa problematização passa por um uso da linguagem que problematiza ela própria a linguagem comum das ciências positivas da linguagem. Daí o uso de metáforas, alegorias, aparentes paradoxos, construções inusitadas, de um código de linguagem aberto à visita da subjetividade, mas sempre preso ao rigor e avesso à especulação. QUADRO COM SÍNTESE FONTES DAS IMAGENS 1. http://www.adobe.com/products/flashplayer/ 2. http://www.adobe.com/go/getflashplayer 3. http://www.adobe.com/go/getflashplayer Responsável: Professor Nelson Barros da Costa Universidade Federal do Ceará - Instituto UFC Virtual