3. Argumentação e Filosofia
3.2. Persuasão e manipulação ou os dois usos da retórica
Aristóteles A retórica assume um estatuto diferente daquele que lhe atribuíram Sócrates e Platão. A retórica torna-se um saber entre outros, uma disciplina que não faz uso do mesmo tipo de provas que as ciências teóricas. Ocupa-se do verosímil. DOMÍNIO DA MORAL DOMÍNIO DA RETÓRICA DOMÍNIO DA VERDADE Distinguindo estes três domínios, Aristóteles pôde libertar a retórica da má reputação que a ligava à sofística. Com efeito, pode fazer-se um bom ou um mau uso da retórica; não é ela que é moral ou imoral, mas quem a utiliza e a forma como a utiliza.
Discurso argumentativo Tem por objetivo persuadir o auditório a adotar as teses do orador (persuadir vem do latim persuadere e significa levar alguém a aceitar ou a optar por determinada ação ou posição). Argumentação e persuasão são conceitos originariamente contíguos. Com o desenvolvimento das técnicas persuasivas nos domínios jornalístico, publicitário e propagandístico, o conceito de «persuasão» adquire por vezes uma conotação negativa, que o aproxima do de «manipulação» e o associa aos excessos estilísticos da retórica sofística. Manipular consiste em fazer alguém aceitar passivamente algo, sem avaliar adequadamente aquilo que está a aceitar. A argumentação/persuasão, pelo contrário, pressupõe atos de comunicação livres entre emissor e recetor, devendo permitir a posição e não a imposição.
Dois usos da retórica Manipulação Persuasão Prática abusiva do discurso abusiva na medida em que obriga o recetor a aderir a uma dada mensagem (que um dado emissor deseja impor). Prática do discurso que tem como finalidade levar alguém a mudar de ideias, mas pressupondo a livre adesão do auditório à tese que o orador pretende que seja acolhida por ele.
Manipulação Manipulação dos afetos Manipulação cognitiva Centrada no apelo à emoção e aos sentimentos do recetor. Opera por falsificação do conteúdo do discurso.
Sedução pela pessoa ou sedução demagógica Manipulação dos afetos Recurso a comportamentos e atitudes (falsas) que possam impressionar o público. O discurso demagógico típico é aquele que altera a mensagem consoante o público. Sedução pelo estilo Esteticização da mensagem Recurso ao medo Repetição da mensagem Recurso às figuras de estilo para fugir ao conteúdo do discurso e impressionar pela forma. Recurso à arte (figuras artísticas) por forma a seduzir. Cria-se uma situação de medo pelo uso abusivo da autoridade, que acaba por funcionar como condicionadora. Repetem-se palavras, ideias, sons ou imagens por forma a que aquilo que inicialmente parecia inaceitável deixe de o parecer. O estilo da clareza (ser claro, transparente e conciso) pode levar a desvirtuar a informação. É frequente, na publicidade, o recurso a figuras públicas, artistas de cinema, de televisão, etc. A manipulação das crianças é, a este propósito, um exemplo característico. Certos anúncios publicitários aparecem imensas vezes numa só noite. Hipnose e sincronização Estes processos têm por base as leis do condicionamento clássico, estudos psicanalíticos e, sobretudo, a programação neurolinguística. O auditório é como que hipnotizado pela sincronização de gestos, tom e ritmo de voz, etc. Recurso ao tato O contacto físico ou a sua sugestão podem ser utilizados com intuito de aumentar a adesão à mensagem. Em tempo de campanha eleitoral, é usual o aperto de mão aos eleitores e os beijinhos às crianças.
Manipulação cognitiva Enquadramento mentiroso Mente-se acerca dos factos ou apresentam-se os factos de uma forma que induz à distorção dos mesmos, tomando-se o falso por verdadeiro ou vice-versa. Mentir aos soldados, em tempo de guerra, dizendo que não se registaram baixas na batalha anterior. Reenquadramento abusivo Orientam-se os factos de maneira a deformar a realidade, induzindo à ilusão. Certo anúncio publicitário diz-nos que certa lixívia «lava mais branco», mas mais branco do que o quê? Enquadramento coercivo Dissimulam-se alguns factos, cria-se uma situação de aceitação de uma primeira mensagem, que não é mais do que uma armadilha para impor ao recetor a real mensagem à qual se pretende a adesão. Algumas empresas promovem os produtos atribuindo prémios a potenciais clientes. Telefonam-lhes, indicam-lhes que devem levantar o prémio na loja e só aí apresentam as contrapartidas do negócio. Amálgama Mistura da mensagem com elementos exteriores, sugerindo-se um nexo entre ambos (sem que se apresente qualquer fundamento). Na campanha publicitária da Marlboro (final dos anos 50), o seu produto aparece associado a figurantes homens de aspeto viril e ocupados em trabalhos duros (marinheiros, vaqueiros). Legenda utilizada: sabor masculino.
Manipulação Os dois usos da retórica: qual a fronteira que os separa? Persuasão Não são raras as vezes em que nos apercebemos de que estamos a ser seduzidos e que consentimos a manipulação. A manipulação constitui um perigo real quando a encontramos associada, nas sociedades modernas mediáticas, à propaganda política, às ideologias e à publicidade. Ao impor dada palavra, ao invés de permitir a sua livre circulação, a manipulação põe em causa os princípios da democracia. Ao negar a liberdade de pensamento e a sua expressão, a manipulação faz do indivíduo mero peão de um jogo manipulador, comprometendo a sua autonomia e a sua identidade.
Retórica Retórica branca Retórica negra Procura pôr a descoberto os procedimentos da retórica negra, sendo, por isso, crítica, lúcida e consciente das diferentes formas e dos diferentes problemas que envolvem a comunicação. Corresponde a um uso ilegítimo do discurso, porque visa enganar, iludir e manipular o interlocutor.
Bom uso da retórica (retórica branca) Ajuda a encontrar as armas para lutar contra a manipulação. Trata-se de aprender a argumentar e, ao mesmo tempo, de ser capaz de desmascarar a manipulação. Adquirir competência retórico-argumentativa para se poder prevenir os maus usos da retórica. A questão do mau uso ou abuso da retórica exige uma reflexão crítica sobre os efeitos que ela produz, remetendo para o domínio da ética. Necessidade de estabelecer limites à persuasão Imposição de regras que impeçam a manipulação A regra, ao estabelecer limites à persuasão, liberta o discurso da manipulação.
A possibilidade de manipulação pela palavra resulta do facto de não se proteger devidamente a liberdade de receção. Liberdade de expressão Liberdade do discurso A liberdade de palavra e do discurso tem de ser vista nas suas três componentes e na complexidade que delas resulta. Liberdade de receção Liberdade de mediação A extensão da liberdade de palavra, não somente à liberdade de expressão, mas igualmente à de mediação e, sobretudo, à de receção, corresponderia a uma fase superior da democracia e à expansão da liberdade.