AO SENHOR NELSON JOSÉ HUBNER MOREIRA DIRETOR-GERAL DA AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA ANEEL SGAN 603, MÓDULO J, CEP: 70830-030 BRASÍLIA/DF RECOMENDAÇÃO 1. CONSIDERANDO que o Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis (art. 127 CF); 2. CONSIDERANDO que é dever do Ministério Público expedir recomendações, visando à melhoria dos serviços públicos e de relevância pública, bem como ao respeito, aos interesses, direitos e bens cuja defesa lhe cabe promover, fixando prazo razoável para a adoção das providências cabíveis, consoante dispõe o art. 6º, inciso XX, da Lei Complementar 75/93, bem como defender os interesses difusos e coletivos, movendo as medidas judiciais e extrajudiciais necessárias à sua garantia (art. 129, inciso II, da Constituição Federal); 3. CONSIDERANDO que a proteção do consumidor constitui uma garantia fundamental da República Federativa do Brasil ( art. 5º, XXXII, CF), bem como um dos princípios gerais da ordem econômica (art. 170, V, CF); 4. CONSIDERANDO que o Ministério Público deve velar pela proteção aos direitos sociais e dos consumidores (art. 6º, VII, c, XVII, e, L.C. 75/93); 1/7
5. CONSIDERANDO que a Agência Nacional de Energia Elétrica ANEEL, autarquia federal vinculada ao Ministério de Minas e Energia, tem por finalidade regular e fiscalizar a produção, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica em conformidade com as políticas e diretrizes do governo federal, nos termos do art. 2º da Lei nº 9.427/96; 6. CONSIDERANDO que dentre os objetivos da ANEEL, está o de realizar suas atividades pautadas no atendimento às necessidades dos consumidores (art. 3ª, II, do Decreto nº 2.335/97), sendo certo que sua atuação deve estar em conformidade com o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, visando à eficácia da proteção do consumidor dos serviços de energia elétrica (art. 14 do Decreto 2.335/97); 7. CONSIDERANDO o que consta dos autos do Inquérito Civil Público nº 1.34.003.000027/2011-08, instaurado para apurar possíveis irregularidades no procedimento adotado pela concessionária de energia elétrica Companhia Paulista de Força e Luz CPFL, doravante denominada apelas CPFL, para ressarcimento de danos elétricos provocados por pertubação na rede/sistema elétrico; 8. CONSIDERANDO que foi verificado que a CPFL, responsável pela distribuição de energia elétrica no interior do Estado de São Paulo, têm imposto óbices ilegais e indevidos aos pedidos de ressarcimento a que têm direito os consumidores, dificultando e impossibilitando o exercício de tal direito e, assim, eximindo-se de sua responsabilidade de zelar pela adequada prestação do serviço público de fornecimento de energia elétrica; 9. CONSIDERANDO o teor do Relatório de Acompanhamento da Fiscalização realizada pela Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo ARSESP, que 2/7
atua por delegação da Agência Nacional de Energia Elétrica ANEEL, na fiscalização das concessionárias do serviço público federal de fornecimento de energia elétrica Processo e Relatório de Fiscalização nº ARSESP/3007/2011 (25/08/25011) Auto de Infração AI nº 0343/TN2134/2011 (29/09/2011), no valor de R$ 1.758.727,35, imposto à CPFL (fls. 120/173), em razão justamente do tema aqui tratado; 10. CONSIDERANDO que da análise do citado relatório de fiscalização, verifica-se que a CPFL, têm adotado como procedimento padrão, a exigência da apresentação pelos consumidores, de laudos e orçamentos dos equipamentos danificados, para análise dos pedidos de ressarcimento; 11. CONSIDERANDO que a CPFL não vinha disponibilizando aos consumidores a opção para que os equipamentos danificados fossem inspecionados in loco, isto é, verificados por ela (CPFL) na residência/domicílio dos consumidores lesados, conforme preceituava o artigo 6º Normativa ANEEL nº 61, de 29/04/2004, que somente foi modificada pelos artigos 203 a 211 da Normativa ANEEL nº 414, de 09/09/2010, cuja aplicabilidade, contudo, tornou-se efetiva apenas após um ano da data de sua publicação, conforme estabeleceu seu artigo 226; 12. CONSIDERANDO que a Normativa ANEEL nº 414, de 09/09/2010, atualmente em vigor, ao contrário do que dispunha a Normativa ANEEL nº 61, de 29/04/2004 (art. 6º), nos casos de perturbação na rede/sistema elétrico, retirou do consumidor a opção de que seu aparelho/equipamento elétrico danificado seja inspecionado in locu (em sua residência ou domicílio), pelas Concessionárias Distribuidoras, conferindo a 3/7
estas tal faculdade da (vide art. 206), procedimento que viola princípios e direitos básicos dos consumidores, previstos na Lei nº 8.078/90 (art. 4º, I; art. 6º, VIII, artigos 24 a 25). 13. CONSIDERANDO que a mesma Normativa ANEEL nº 414, de 09/09/2010 estabelece a possibilidade da distribuidora de energia elétrica solicitar aos consumidores, orçamentos dos aparelhos danificados, sem que isso represente compromisso de ressarcir (art. 206, 3º); 14. CONSIDERANDO que esta nova e atual regulamentação ( Normativa ANEEL nº 414, de 09/09/2010) que estabelece a exigência de apresentação de laudos e orçamentos pelos consumidores, bem como a faculta somente à Concessionária de Distribuição a opção de inspeção in loco do equipamento danificado, impõem àqueles (os consumidores) ônus indevido, de comprovar a existência de causalidade entre os danos elétricos eventualmente sofridos e as falhas no fornecimento e energia elétrica ocorridas, bem como dificultam à defesa de seus direitos; 15. CONSIDERANDO que as Concessionárias de Distribuição de Energia Elétrica devem responder, independentemente da existência de culpa, pelos danos elétricos causados por falhas no fornecimento de energia elétrica, salvo se comprovada por ela (Concessionária) a inexistência de nexo causal, conforme artigo 210, parágrafo único, inciso I, da Normativa nº 414/2010, direito reafirmado pelo Código de Defesa do Consumidor, artigos 20 a 24 da Lei nº 8.078/90 16. CONSIDERANDO que nosso direito positivo expressamente reconhece a vulnerabilidade do consumidor nas relações de consumo (art. 4º, I, da Lei nº 8.078/90), 4/7
perante o fornecedor, estabelecendo ainda que tem ele o direito de ter a defesa de seus interesses facilitada (art. 6º, VIII, da Lei nº 8.078/90), sendo vedada estipulação que impossibilite, exonere ou atenue a obrigação de indenização pelo fornecedor, quando da verificação de vícios de qualidade, na prestação dos serviços, que os tornem impróprios ao consumo, assim considerados os que se mostrem inadequados para os fins que razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que não atendam as normas regulamentares de prestabilidade (arts. 20 a 25, Lei nº 8.078/90); 17. CONSIDERANDO que, sob a perspectiva do quanto aqui consignado, a redação do artigo 206, caput e parágrafo 3º, da Normativa ANEEL nº 414, de 09/09/2010, é ilegal, pois contraria preceitos expressos do Código de Defesa do Consumidor; 18. CONSIDERANDO que constitui ato de improbidade administrativa praticar ato visando fim proibido em lei ou diverso daquele previsto, bem como retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício (art. 11, incisos I e II, Lei nº 8.429/92); Complementar nº 75/93, que: RECOMENDO-LHE, com supedâneo no inciso XX do artigo 6º da Lei a) adote as medidas cabíveis a fim de suspender a aplicabilidade do que preceitua artigo 206, caput e parágrafo 3º, da Normativa ANEEL nº 414, de 09/09/2010, ante a sua manifesta ilegalidade e antijuridicidade, face às disposições do Código de Defesa do Consumidor, restabelecendo-se a aplicabilidade do que preceituava o artigo 6º da Normativa ANEEL nº 61, de 29/04/2004; 5/7
b) comunique tal decisão à CPFL, bem como à Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo ARSESP; c) adote as medidas cabíveis a fim de que seja determinado à CPFL que observe, em caso de pedido de indenização/ressarcimento por danificação de aparelhos/equipamentos elétricos em razão de perturbação na rede/sistema elétrico, que é do consumidor a opção quanto à vistoria in locu ou apresentação de orçamento, para conserto do aparelho/equipamento elétrico, conforme corretamente determinava o artigo 6º da Normativa ANEEL nº 61, de 29/04/2004; d) adote todas as medidas necessárias no sentido de providenciar a reformulação da atual regulamentação sobre o tema, notadamente o quanto disciplinado no artigo 206, caput e parágrafo 3º, da Normativa ANEEL nº 414, de 09/09/2010, para adequá-la aos princípios e preceitos do Código de Defesa do Consumidor, quanto às obrigações do fornecedor (Concessionárias de Distribuição) e aos direitos do usuário/consumidor de energia elétrica; EFICÁCIA DA RECOMENDAÇÃO: a presente medida cientifica e constitui em mora os seus destinatários acerca das providências solicitadas, ensejando a adoção de todas as medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis em caso de não atendimento, vez que as recomendações expedidas pelo Ministério Público têm o desiderato de advertir o destinatário de que a inobservância da conduta recomendada poderá resultar na propositura da ação civil ou penal à qual esteja legitimado o Ministério Público. (STF, Reclamação nº. 4907/PE, Relator Ministro Sepúlveda Pertence, DJU de 23/03/2007). 6/7
PRAZO: nos termos do artigo 6, inciso XX, da Lei Complementar n 75/93, fixa-se o prazo máximo de 30 (trinta) dias, contados do recebimento da presente, para que sejam prestadas informações acerca das providências adotadas em virtude desta recomendação, notadamente acerca do acatamento de seus termos e de eventual cronograma para atendimento do recomendado. Segue em anexo cópia da Portaria nº 06 de 03 de fevereiro de 2012, de instauração de Inquérito Civil Público em epígrafe. PEDRO ANTONIO DE OLIVEIRA MACHADO PROCURADOR DA REPÚBLICA 7/7