HISTÓRIA DA FORMA URBANA



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História da forma urbana 1. A cidade Grega 2. A cidade Romana 3. A cidade Medieval 4. A cidade do Renascimento 5. A cidade Barroca 6. A cidade do século XIX 7. As cidades do século XX

1. A cidade Grega No século V ac, a cidade de Mileto, entretanto devastada pela guerra, é reconstruída segundo uma grelha regular desenhada por Hippodamus (para 10 000 habitantes), fornecendo o modelo para a reconstrução das cidades Gregas. Um exemplo de utilização deste modelo em territórios de difícil aplicação (relevo acidentado, que obriga à construção de terraços e plataformas) é Priene. A grelha estrutura-se em quarteirões alongados compostos pelas casas (áreas privadas) sendo interrompida por edifícios sagrados e por edifícios públicos. As parcelas que compõem cada um dos quarteirões têm uma grande diversidade de dimensões. As habitações têm normalmente um piso e organizam-se em torno de um pátio. Figura 1. Mileto e Priene (na atual Turquia).

A muralha da cidade tem uma forma extremamente irregular. O espaço urbano divide-se em três tipos: áreas privadas, áreas sagradas e áreas públicas. O tecido habitacional das cidades Gregas, de grande uniformidade, é ordenado tanto por traçados regulares - como em Mileto - como por traçados irregulares - como é o caso de Pergamon. Em Pergamon, ao contrário do que era usual, a rua adquire um valor decorativo, sendo desenhadas colunadas e pórticos. Figura 2. Pergamon (na atual Turquia).

2. A cidade Romana Orientação da cidade segundo dois eixos principais, o decumanus (nascente-poente) e o cardus (norte-sul). Nas colónias: uso repetido da quadricula (questão fundiária, facilidade de construção). Ao contrário da cidade Grega, os grandes edifícios e espaços públicos integram-se na quadricula. Em Roma: introdução de regulamentação urbanística. A Roma Imperial quase resulta num caos de grandes e monumentais edifícios ocupando o território e comprimindo-se mutuamente. (Lamas, 1993) Características: Escala monumental; habitação em altura (as insulae com até 6 pisos); as obras de arte infraestruturais (pontes, aquedutos, canais); o Circus Maximus, com 400 000 lugares. Figura 3. Timgad (na atual Argélia).

3. A cidade Medieval O traçado ortogonal Romano dá lugar ao traçado radio-concêntrico da Idade Média. Também a escala monumental Romana é abandonada. A formação da cidade Medieval corresponde a um de dois processos: i) desenvolvimento das antigas estruturas Romanas; ii) fundação de cidades novas (como as bastides francesas) organizadas segundo um novo desenho. Figura 4. Oito bastides francesas (à mesma escala e orientação): a) Ville Real; b) Lalinde; c) Castigliones; d) Eymet; e) Ville Franche du Perigord; f) Domme, g) Beaumont e h) Monlanquin (fonte: Lamas, 1993).

A importância da função comercial em complementaridade com a religião (o adro da igreja) e o poder político: a praça-mercado, com uma forma irregular, e o seu prolongamento pelas ruas comerciais o piso térreo dos edifícios, ocupado por lojas, assume uma nova importância. Ao contrário do que acontece nos quarteirões Gregos e Romanos, no quarteirão medieval os edifícios localizam-se na periferia da parcela, libertando o espaço interior para logradouro. A forma dos quarteirões medievais é determinada pela forma (mais ou menos regular) das ruas. Figura 5. Aigues Mortes, em França.

4. A cidade do Renascimento Desejo de ordem e disciplina geométrica. A conceção da cidade ideal e a valorização da forma radio-concêntrica. Numa primeira fase não há criação de cidades novas (como Palma Nuova) mas sim a transformação das cidades existentes, através de: i) construção de sistemas de fortificações (mais pesados do que as muralhas medievais); ii) abertura de praças (como a Piazza della Annunziatta, em Florença) e regularização de ruas; iii) construção de novas áreas urbanas utilizando quadriculas regulares. Figura 6. Piazza della Annunziatta, em Florença (fonte da foto aérea: Google Earth).

A rua Renascentista corresponde a um percurso retilíneo, deixando de ser apenas um percurso funcional (como era na Idade Média) sendo agora pensada como um eixo perspético unindo diferentes elementos urbanos (os edifícios singulares). A praça surge, em complementaridade com estes grandes eixos, como um dos elementos fundamentais da estrutura urbana. Por fim, surge a quadrícula, organizada entre eixos principais, como um terceiro elemento estruturador. O desenho da fachada dos edifícios (que se repete com ordem e disciplina) adquire grande importância busca pela simetria, proporção e ritmo. Muitas vezes a fachada (que cumpre uma regra de conjunto urbano) autonomiza-se relativamente ao interior do edifício. Figura 7. Palma Nuova, Itália (fonte: Google Earth).

5. A cidade Barroca Uma cidade sensorial e exuberante. A rua Barroca é um cenário, um corredor (delimitado por fachadas de edifícios) para as grandes manifestações urbanas. Do mesmo modo que no Renascimento, o quarteirão da cidade Barroca adquire grande importância. Identificam-se dois grandes tipos, com formas e dimensões diversas: i) o quarteirão irregular resultante da abertura dos grandes eixos; ii) o quarteirão regular gerador de espaço urbano por repetição. O monumento como gerador do espaço urbano. Figura 8. Piazza S. Pietro, Vaticano (fonte: Google Earth).

6. A cidade do século XIX É um século marcado pela industrialização e pelo crescimento demográfico. Em termos de forma urbana, o século XIX assenta (apesar de algumas inovações como os equipamentos públicos, as avenidas e os jardins) nos mesmo elementos utilizados em séculos anteriores. As diferenças fundamentais são ao nível da dimensão, da escala e da forma geral da cidade. A cidade deixa de ser uma entidade física delimitada por uma muralha para alastrar pelo território envolvente. É o início dos subúrbios e da organização do espaço através dos loteamentos. A muralha é entretanto demolida dando lugar, em muitas cidades, a espaços públicos de circulação e permanência, como o ring de Viena. Os problemas da cidade industrial dão origem a um conjunto de utopias sociais. Figura 9. O ring de Viena planta da cidade e edifícios.

7. As cidades do século XX 7.1. A cidade jardim As vantagens da cidade e do campo numa proposta construída como alternativa à cidade tradicional. A preocupação com o limite máximo de população. 7.2. As expansões urbanas em cidades do centro da Europa O compromisso entre os elementos de forma urbana tradicional e os elementos propostos pela cidade modernista. 7.3. A cidade modernista O fascínio pelos edifícios isolados e pelo zonamento funcional. A desvalorização da rua e da praça (como espaços do cidadão), do quarteirão e da parcela (por vezes eliminada, como em Brasília). 7.4. A cidade pós-moderna O (aparente) regresso aos elementos de forma urbana anteriores ao século XX. Uma desvalorização da regulação da função em favor da regulação da forma. Figura 10. Letchworth, Amesterdão, Brasília e Seaside.

Referências bibliográficas Lamas, J. R. G. (1993) Morfologia urbana e desenho da cidade (Fundação Calouste Gulbenkian / Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, Lisboa).