CAPÍTULO I UM TRÁGICO E DESNECESSÁRIO CONFLITO Está prestes a completar-se um século sobre o início do primeiro conflito mundial a Grande Guerra, como então foi designado e o princípio do fim da predominância europeia a nível global. A eclosão de um novo conflito mundial, em 1939, levou a generalidade dos historiadores a designar a Grande Guerra de 1914-1918 como 1.ª Guerra Mundial, batizando o mais recente como 2.ª Guerra Mundial. A verdade é que a resolução do primeiro conflito foi tão pouco conseguida que é consensual a ideia de que a paz verificada entre 1918 e 1939 não foi mais do que um armistício, 1 retomando-se o mesmo conflito até 1945. As duas guerras, de 1914 a 1945, seriam, assim, apenas uma, a Guerra dos Trinta Anos do nosso século, conforme a classificou Charles de Gaulle. E, nessa hipótese, mereceria, ainda mais, a designação de Grande Guerra. Na sua grandeza e importância na caracterização do século XX, não haverá, provavelmente, outra guerra que a história registe cuja motivação e processo de desencadeamento, associada à absurda conduta das operações militares, proporcione críticas tão severas sobre a sanidade mental de quem por ela foi responsável, política e militarmente. Numa das obras mais credenciadas sobre a Grande Guerra, John Keegan inicia mesmo o seu texto com esta significativa anotação: Foi o que considerou o marechal Foch, em 1920, referindo-se ao Tratado de Versalhes.
24 ORIGENS DA GRANDE GUERRA «A Primeira Guerra Mundial foi um trágico e desnecessário conflito. Desnecessário, porque a sucessão de acontecimentos que levaram à sua eclosão podia ter sido travada em qualquer momento das cinco semanas que precederam o início dos combates, bastando, para tal, que fosse dada voz à prudência ou ao senso comum; trágico, porque as consequências do primeiro embate roubaram a vida a dez milhões de seres humanos, dilaceraram as vidas de muitos outros milhões, destruíram a cultura benevolente e otimista do Continente Europeu e deixaram, quando os canhões finalmente se calaram, quatro anos depois, um legado de rancor político e ódio racial tão intensos que nenhuma explicação das causas da Segunda Guerra Mundial pode ser considerada sem referência a estas raízes.» 1 Os três Quadros com que iniciámos este estudo, pertencendo ao período inicial da guerra, constituem como que o pano de fundo sobre o qual decorre toda a evocação que aqui vai ser feita: o absurdo das táticas empregues, o choque anímico provocado por uma guerra que não se assemelhava à preparação que as tropas haviam recebido, a ilusão de uma guerra curta rapidamente transformada numa interminável guerra de trincheiras e a impreparação dos chefes militares para um tipo de guerra que muitos deles não haviam antecipado. Para além destes aspetos de natureza essencialmente militar, o adjetivo absurdo tem cabimento em muitos outros, que procuraremos recordar através de uma vasta gama de registos e documentos da época. No campo diplomático, a guerra acabaria por eclodir num momento de clara distensão internacional, quando fora possível, em tempos não muito recuados, superar crises bem piores sem o recurso à confrontação armada. Em 14 de novembro de 1914, já com a guerra em curso, Lloyd George haveria mesmo de afirmar que, «quando rebentou esta guerra, estávamos nas melhores relações com a Alemanha dos últimos quinze anos. Não havia um só membro do governo que pensasse que a guerra com a Alemanha fosse uma possibilidade nas condições de então.» 2 KEEGAN, John, The first world war, p. 3. (2) REID, Robert (The Earl Loreburn), How the war came, p. 95.
UM TRÁGICO E DESNECESSÁRIO CONFLITO 25 Se, a todas estas considerações, acrescentarmos que algumas das principais figuras políticas europeias envolvidas nos esforços diplomáticos de julho de 1914 eram notórios adeptos da paz Asquith, Lloyd George, Edward Grey, Bethmann-Hollweg, Gottlieb von Jagow, Sazonov, o acumulado de absurdos não podem deixar de dar razão a Jean-Baptiste Duroselle (1917-1994), quando, na última obra que escreveu sobre a Grande Guerra, afirmou que «quanto mais nos aproximamos do século XXI mais a primeira guerra mundial nos parece incompreensível». 1 O estudo desse sentimento de incompreensão no sentido de não ser facilmente entendível o porquê de tantos acontecimentos e perspetivas que marcaram os anos anteriores à guerra se terem revelado tão flagrantemente inadequados constitui, no essencial, o assunto principal do presente ensaio, excluindo propositadamente a apreciação do posterior desenvolvimento do conflito. A questão da culpabilidade da guerra não constituiu objetivo principal deste trabalho. No entanto, constam do texto algumas considerações pontuais a esse respeito feitas sob a forma de comentários, da iniciativa do autor ou mediante citação de comentários de outros autores. De resto, o leitor encontrará no texto abundantes elementos documentais que lhe permitirão fazer um juízo, ainda que incompleto, sobre tal matéria. É preciso reconhecer que as falsidades e violências dos Alemães aquando da invasão da Bélgica, os termos do Tratado de Versalhes e os ecos da 2.ª Guerra Mundial levaram a uma leitura pouco equitativa sobre as origens da Grande Guerra. É com esta advertência que convém dispor o espírito para uma análise independente dos documentos disponíveis. Sobre estes, importa sublinhar a surpreendente abundância de documentos diplomáticos e militares postos à disposição dos investigadores num curto espaço de tempo após o termo da guerra. Também nesse aspeto e, aqui, felizmente, as expectativas foram largamente ultrapassadas. Para minorarmos, nos dias de hoje, essa dificuldade em compreender muitas das opiniões e decisões que responsáveis políticos e militares expressaram ou tomaram nos anos que antecederam a Grande Guerra, é indispensável ter em conta que, tal como atualmente, no contexto da União Europeia, o receio de uma guerra é prati- DUROSELLE, Jean-Baptiste, La Grande Guerre des Français 1914-1918, p. 11.
26 ORIGENS DA GRANDE GUERRA camente nulo, na Europa do final do século XIX e princípios do século XX tudo se passava de maneira substancialmente diferente. Devido ao acumulado de suspeições mais do que devido a disputas concretas, gerara-se uma generalizada certeza de que ia haver uma guerra europeia envolvendo as principais potências França, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia, Grã-Bretanha e Itália, só faltando saber quando seria. Esta «certeza» deve ser vista como uma decisiva condicionante de toda a política da época, tanto no plano diplomático como nas medidas de aperfeiçoamento e reforço dos sistemas militares. A própria «ideia de guerra», sendo já combatida na Europa por movimentos de índole pacifista, ainda tinha respeitáveis defensores, que nela viam indiscutíveis benefícios. Pouco mais de trinta anos antes do início da Grande Guerra, um intelectual da envergadura de Émile Zola ia mesmo ao ponto de afirmar: «Não seria o fim da guerra o fim da humanidade? A guerra é a própria vida. Nada existe na natureza, nada se cria, nada se desenvolve ou se multiplica senão através do combate. Temos de destruir e ser destruídos para que o mundo possa viver. Só as nações guerreiras têm prosperado: uma nação morre logo que se desarma. A guerra é a escola da disciplina, do sacrifício e da coragem.» 1 Iniciada a guerra na Europa e reportando-nos somente ao teatro de operações que ficou conhecido por Frente Ocidental, às operações móveis, iniciadas no mês de agosto de 1914, seguiu-se, a curto prazo, um impasse estratégico que atiraria milhões de homens para uma interminável guerra de trincheiras. Incapazes de manobrar debaixo de uma intensidade de fogos que não souberam prever, as tropas de ambos os lados enterraram-se ao longo de uma autêntica fronteira da guerra que se estendia, desde o canal da Mancha até à fronteira suíça, ao longo de cerca de 765 km. Milhões de homens ali permaneceram, durante quatro longos anos, matando-se ingloriamente como se estivessem num cerco interminável. Esses acontecimentos bélicos foram vistos, pela maioria dos responsáveis, como algo de surpreendente e completamente fora do que era humanamente expectável. A generalidade dos generais seriam seguramente os primeiros a JOLL, James, The origins of the first world war, p. 216.
UM TRÁGICO E DESNECESSÁRIO CONFLITO 27 pugnar pela recusa de tal guerra se imaginassem que ela iria desenvolver-se como de facto se desenvolveu. A história das quatro décadas que antecederam o conflito muito marcada pela generalizada crença de que essa tal guerra aconteceria mais tarde ou mais cedo é rica de ensinamentos sobre os sucessos e erros então cometidos, todos eles convergindo para o desastre político, social e militar em que a Grande Guerra se converteu. É esse percurso político-militar no qual, sempre que possível, procuraremos realçar as expectativas que nos propomos evocar e analisar no texto que se segue.