SUSTENTABILIDADE NO ABATE E PROCESSAMENTO DE AVES

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Transcrição:

SUSTENTABILIDADE NO ABATE E PROCESSAMENTO DE AVES Luiz Carlos Unfried (Especialista -SENAI) luiz_unfried@hotmail.com Cássia Valéria Hungaro Yoshi (Mestre - FACESI / UNIFIL / SENAI) cassia.yoshi@hotmail.com Resumo Este artigo discute a sustentabilidade ambiental em uma indústria avícola, suas possibilidades e limitações. A pesquisa segue uma abordagem qualitativa, utilizando como metodologia a revisão bibliográfica e entrevistas em profundidade. Os resultados da pesquisa demonstram que o ramo industrial dedicado ao abate e processamento de aves utiliza grandes quantidades de recursos e insumos em seus processos, gerando resíduos potencialmente poluentes e recursos energéticos que podem ser reaproveitados no processo, minimizando seu impacto ambiental e mesmo reduzindo custos operacionais. Conclui-se também que apesar dos grandes avanços já realizados em busca da sustentabilidade muito ainda há por se fazer no tão desejado equilíbrio econômico-ambiental. Palavras chave: Sustentabilidade. Avicultura. Reaproveitamento energético. 1 INTRODUÇÃO O padrão produtivo atual extrai do meio ambiente os recursos necessários para a produção de alimentos e bens de consumo, gerando em contrapartida, resíduos e poluentes, que quando não tratados corretamente levam a poluição e mesmo a degradação dos recursos naturais. O caráter finito dos recursos naturais e os impactos de resíduos dos processos industriais, apontados por Severo, Delgado e Pedrozo (2006), resultaram em um processo de desenvolvimento econômico pouco responsável com o meio ambiente. As indústrias assumem papel determinante neste sentido, onde sem o envolvimento, a consciência e investimento de recursos por parte deste segmento, o uso sustentável dos recursos a longo prazo não será possível. Inseridas neste contexto, empresas industriais buscam se adequar a esta nova realidade, incluindo em suas estratégias políticas ambientais, buscando um relacionamento saudável com a comunidade, redução de custos e riscos ambientais e mesmo atender a exigências impostas por mercados potenciais ao negócio. (CORAL, 2002). Um dos segmentos industriais de destaque na economia brasileira é a produção de alimentos, na qual o ramo de abate e processamento de aves ocupa lugar importante neste contexto. O crescente consumo per capita no mercado interno, os crescentes volumes de exportações, o impacto social da atividade representada no número de pessoas empregadas neste segmento industrial e seu potencial prejuízo ao meio ambiente fazem deste tipo de indústria alvo importante de discussões acerca de suas ações. Desta forma, o objetivo deste trabalho é descrever a sustentabilidade ambiental de um setor produtivo em específico, a agroindústria avícola. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Sustentabilidade Grande parte dos problemas ambientais vivenciados pela sociedade são gerados por padrões de produção, exploração e consumo despreocupados com a questão ambiental. As organizações industriais estão diretamente inseridas neste contexto, motivo este que evidencia

a necessidade de incorporarem em suas políticas de gestão o paradigma da sustentabilidade. (FERNANDES, 2004). O conceito atual de sustentabilidade provem do desenvolvimento sustentável definido pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), órgão da Organização das Nações Unidades (ONU), sendo definido como suficiente ao atendimento das gerações presentes, sem, entretanto comprometer a necessidade das gerações futuras. (CARVALHO, 2006). De acordo com Araújo (2006), o conceito de desenvolvimento sustentável e sustentabilidade podem ser analisados sob dois vieses. O primeiro que trata do desenvolvimento sustentável, é normalmente associado à expectativa de uma nação que entra em uma fase de crescimento contínuo ao longo do tempo. O segundo trata da sustentabilidade como a capacidade de se auto sustentar. Um empreendimento sustentável é aquele capaz de se manter por um longo período, de forma a não esgotar-se. Quando este conceito é aplicado ao mundo corporativo, sustentabilidade é um conceito relativamente recente. Associa-se que uma imagem ambientalmente e socialmente correta agrega valor a empresa. Neste sentido, sustentabilidade empresarial pressupõe que o empreendimento gere resultados econômicos capazes de fazer o negócio crescer e se manter ao longo do tempo, enquanto ao mesmo tempo também faça sua parte no desenvolvimento da gestão socioambiental. Este é um conceito teoricamente simples, mas de difícil implementação nas empresas. 2.2 Motivações e obstáculos da implantação dos conceitos de sustentabilidade nas empresas A sustentabilidade não pode ser traduzida na implantação de algumas ações pontuais. Deve ser um conceito mais abrangente, uma política que serve de pano de fundo para todas as ações e processos da empresa. Requer uma quebra de paradigmas na cultura organizacional, um alinhamento com as estratégias da empresa, almejando continuidade do negócio. (OUCHI, 2006) Alterar o modo convencional predominante, com ênfase na gestão econômica a qualquer custo, sem medir os impactos no ambiente, para uma visão sustentável certamente não é uma tarefa simples. (SETTHASAKKO, 2007) De acordo com autor supracitado, a literatura disponível revela que o foco tem sido a demonstração dos aspectos positivos da responsabilidade ambiental, como melhoria de imagem junto a clientes, imagem positiva da corporação e redução de custos, e pouco tem agregado na identificação das reais barreiras para o desenvolvimento da sustentabilidade corporativa. Um estudo de Ouchi (2006), realizado com cinco empresas do ramo de papel e celulose demonstra que os fatores motivacionais mais importantes para a sustentabilidade são os stakeholders, clientes, acionistas, órgãos de regulamentação ambiental, Organizações não governamentais (ONGs) e comunidades circunvizinhas. Masullo (2004) cita que, além das exigências por parte do governo e consumidores estarem crescendo, maior atenção tem sido dispensada à questão ambiental, pois os acionistas estão preocupados com o desenvolvimento sustentável para a continuidade do negócio, em outras palavras preocupar-se com a questão ambiental significa menores riscos e perdas à empresa. Já quanto ao grau de importância dedicada aos fatores ambientais pelas diferentes empresas, a autora citada, encontrou em seu estudo que empresas maiores e a mais tempo constituídas tendem a investir mais nas questões ambientais, o mesmo ocorre com aquelas que possuem uma maior inserção internacional. Quanto ao setor, os potencialmente mais poluentes tendem a estar mais atentos às questões ambientais. Quanto à localização, quanto

maior for a pressão da comunidade local maior é a tendência da empresa em preocupar-se com as questões ambientais. Fato é que as questões ambientais estão cada vez mais presente nas estratégias das empresas, seja devido ao surgimento de consumidores e investidores mais atentos a esta questão, seja devido aos movimentos ambientalistas ou ao aumento de competitividade. Este novo cenário representa um desafio, mas também novas oportunidades de negócio. (MAIMON, 1994). 2.3 A Avicultura e a sustentabilidade A atividade avícola no Brasil teve seu inicio na década de 50 e desde então tem se desenvolvido constantemente e isso pode ser comprovado pelos números do setor, como se pode observar na Figura 1, na qual o volume de produção e o consumo per capita crescem de maneira constante nos últimos anos. A carne de frango ocupa atualmente o segundo tipo de carne mais consumida a nível mundial, ficando atrás da carne suína. Este desempenho pode ser explicado através de quatro fatores: preço acessível quando comparado a outras proteínas animais, imagem de produto saudável perante o consumidor, vasta aceitação pela maioria das culturas e religiões e a mais variada opção de produtos à base de frango. (INSTITUTO PARANAENSE DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL, 2002). A disponibilidade de recursos naturais, com destaque para a água, bem como a condição climática é propícia para a atividade. O Brasil dispõe de 12% da água doce do mundo. Entretanto também possuí índices de desperdício altíssimos, com perdas de 40% entre captação, tratamento e distribuição, sendo que a média mundialmente aceita de 25%. (PALHARES, 2005). Tem-se observado nos últimos anos, por diversos segmentos da sociedade, questionamentos quanto aos passivos ambientais dos sistemas de produção de aves. Todavia na avicultura, estes questionamentos ainda são pouco intensos. (PALHARES, 2004). Esta característica gera uma falta de comprometimento do setor em relação aos seus impactos ambientais. Prova disso é que no setor avícola existe apenas uma unidade certificada pela norma ISO 14.000, muito diferente de outros ramos industriais onde está certificação é bastante comum. (FERNANDES, 2004). Produção Nacional de Carne de Frango (em milhões de toneladas) Consumo Nacional de Carne de Frango (em quilos por habitante) 14.000 12.000 10.000 8.000 6.000 4.000 2.000-2007 2008 2009 2010 2011 Exportações Merc. Interno 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Fonte: Uba União Brasileira de Avicultura (2011) Figura 1 Evolução da Produção e Consumo da Carne de Frango

Os problemas provenientes do processamento industrial de aves ao meio ambiente podem ser o tratamento inadequado dos resíduos gerados, podendo ocasionar graves problemas ao ecossistema. Todas as etapas do processamento industrial geram cargas de resíduos potencialmente poluentes ao meio ambiente. Os resíduos mais comuns são: sangue, vísceras, penas, carnes, gorduras, detergentes, entre outros. (BNDES, 1995, apud FERNANDES, 2004). Outro fator impactante no processamento industrial de aves diz respeito ao elevado consumo de água em praticamente todas as etapas do processo. A disponibilidade de água é limitada e depende da sua preservação e do seu uso sustentável. 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS O atendimento dos objetivos deste trabalho foi realizado através de uma pesquisa exploratória qualitativa. O estudo do tema foi fundamentado em: a) Pesquisa bibliográfica: utilizou-se inicialmente a pesquisa bibliográfica, realizada através de um levantamento teórico documental, em livros, artigos e revistas do ramo. b) Entrevista: a técnica de entrevista em profundidade é considerada uma metodologia não estruturada, sendo realizada pessoalmente na qual o pesquisador explora o problema de pesquisa através do contato direto com o entrevistado (MALHOTRA, 2001). As entrevistas foram realizadas em um frigorífico avícola na região norte do estado do Paraná, escolhido por conveniência, pois ofereceu condições e abertura total para a realização da pesquisa. Entre novembro de 2011 e janeiro de 2012, foram entrevistados, o engenheiro ambiental responsável pela questão ambiental no frigorífico, o gerente de manutenção, responsável pela operação dos sistemas de tratamento de água e efluentes, caldeiras e refrigeração, e o supervisor responsável pela operação da Fábrica de Farinhas e Óleo, onde os resíduos sólidos provenientes do abate de aves são processados. Todas as entrevistas foram gravadas com o consentimento dos entrevistados, sendo posteriormente transcritas e analisadas, recebendo tratamento estritamente qualitativo. As variáveis de pesquisa selecionadas foram baseadas no trabalho de Araújo (2006), que estudou a implantação da sustentabilidade em um frigorífico bovino. Para este trabalho foram utilizadas as variáveis da dimensão ambiental da sustentabilidade. 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 4.1 Caracterizações do frigorífico estudado O abatedouro estudado atua no mercado há 25 anos e está localizado na região norte do estado do Paraná. Sua cadeia produtiva é parcialmente verticalizada, iniciando-se com a aquisição de pintainhos de 1 (um) dia de incubatório terceirizado, passando às granjas de engorda, fábrica de ração, cerealista para recebimento e processamento de matérias primas utilizadas na ração, abatedouro, fábrica de farinhas e óleo para processamentos de resíduos industriais e finalmente a distribuição ao mercado consumidor. Com um abate de 80.000 aves/dia e produção de 4.200 toneladas de produtos acabados/mês, oferece mais de 50 itens em seu mix de produtos, atendendo os mercados de varejo, atacado e internacional, neste último com destaque ao mercado do Oriente Médio. Em termos econômicos a empresa assume um importante papel na cidade onde está inserida, gerando 700 empregos diretos e cerca de 2.800 empregos indiretos. A organização passa atualmente por uma reestruturação profunda em seu organograma gerencial, a diretoria composta por dois sócios proprietários está formatando uma nova

Litros/ave FACESI EM REVISTA política e missão para a organização. Ainda não existe uma política formalizada para a questão ambiental, entretanto, muitas ações que inicialmente tinham por objetivo racionalizar custos industriais, indiretamente beneficiaram a questão ambiental. Atualmente existem projetos de adequação do tratamento de efluentes que visam fazer frente ao projeto de ampliação da produção previsto para o ano de 2013, onde a empresa projeta operar em dois turnos. 4.2 Consumo e tratamento de água Um dos impactos ambientais ocasionados pela produção avícola diz respeito ao elevado consumo de água. Este consumo é muito variável para cada abatedouro, porém costuma-se utilizar como base de cálculo de 25 a 50 litros de água por cabeça abatida (CETESB, 2003 apud DORS, 2006). A empresa vem realizando trabalho contínuo de racionalização deste recurso, conforme pode ser visto na Figura 2. Consumo de Água 25 23 21 19 17 15 Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro 2011 Fonte: Autores (2012) Figura 2 Evolução do consumo de água (litros/cabeça abatida) Observa-se que há uma tendência acentuada de redução no consumo de água por ave abatida, chegando a 17,6 litros de água por ave abatida no mês de dezembro, consumo que fica abaixo do que se costuma utilizar como padrão, conforme cita Dors (2006). A água utilizada no processo industrial e nas áreas de apoio pode provir de duas fontes, poços artesianos ou de captação de rio. Neste último caso a água deve passar por tratamento adequado antes de ser utilizado, o processo se inicia com o bombeamento do local de captação até a estação de tratamento de água (ETA), ao chegar à estação a água bruta recebe a dosagem de barrilha para correção do ph, na seqüência faz-se a dosagem de sulfato de alumínio, agente que acelera o processo de floculação, a mistura destes agentes à água se faz na própria tubulação. A água segue para os tanques de coagulação onde ocorre a reação com os agentes dosados, na seqüência a água segue para o tanque de floculação onde ocorre a aglutinação dos sólidos em pequenos flocos, a etapa seguinte consiste em decantar o material floculado, este material é freqüentemente drenado dos decantadores, para não comprometer seu funcionamento, na seqüência a água passa pelos filtros, equipamento composto por diversas camadas de material filtrante, seu objetivo é reter qualquer partícula que ainda tenha passado pelo processo de decantação. O processo é concluído adicionando-se cloro no tanque

de contato, atuando como agente bactericida, depois desta adição a água fica estocada em cisternas até a utilização nos processos industriais, o processo pode ser visto na Figura 3. Após a utilização da água no processamento industrial a mesma deve ser tratada antes de ser devolvida a natureza. Este processo é realizado em Estações de Tratamento de Efluentes (ETE). O processo atual de tratamento de águas provenientes do processo industrial é realizado subdividindo-se o efluente em dois grupos de acordo com suas características e procedência: linha vermelha e linha verde. Água Bruta Tanque de Coagulação Tanque de Floculação Barrilha (Correção de ph) Sulfato de Alumínio (Coagulador) Hipoclorito de Sódio (Bactericida) Tanque de Decantação Filtros Tanque de Contato Cisterna Fonte: Autores (2012) Figura 3 Fluxograma de Tratamento de Água A Linha Vermelha compreende o efluente proveniente das linhas de evisceração, sangria e higienização. Esta água carrega grande carga de material orgânico. O tratamento deste grupo realiza-se através de uma etapa inicial de gradeamento em peneira rotativa, onde ocorre a separação dos materiais sólidos, após o gradeamento o efluente é enviado a tanques de equalização que tem por objetivo absorver variações qualitativas e quantitativas no efluente. Na etapa seguinte o efluente é enviado ao equipamento denominado flotador, neste equipamento ocorrem as dosagens de corretor de ph caso necessário, agente floculante e polímeros que potencializam o processo de separação da gordura, juntamente com as dosagens de produtos ocorre a injeção de micro bolhas de ar que auxiliam o processo de flotação, que consiste em agrupar partículas de gordura e material orgânico suspenso em flocos elevando-os à superfície da água, o que ocorre naturalmente devido a densidade deste ser menor do que a da água, uma vez que o material esteja separado o sobrenadante é raspado da superfície da água e enviado a tanques onde seguirá para o processo seguinte e a água é enviada às lagoas de tratamento, o processo de flotação, se bem operado tem a capacidade de reduzir a carga poluidora em 85%. Após a separação o lodo úmido como é denominado o material proveniente do flotador é aquecido a 90 C e enviado a equipamento de separação chamado Tridecanter, este equipamento permite separar o lodo em três fases:

a) Óleo: matéria prima para fabricação de rações pet ou mesmo para ração de aves, retornando ao processo; b) Água: porção liquida que também seguirá para as lagoas de tratamento; c) Lodo: porção sólida contendo ainda alta umidade (60%), essa ultima porção ainda possui características potenciais para ser utilizada como combustível, desta forma este material ainda passará por processo térmico para secagem e redução da umidade (13%) permitindo assim a sua utilização como combustível para queima nas caldeiras. O processo de tratamento do efluente proveniente da linha vermelha apresenta-se na Figura 4. A Linha Verde compreende o efluente proveniente da higienização de gaiolas, de caminhões e recepção de aves. Esta água carrega grande quantidade de material inerte, e com alta contaminação microbiológica por se tratar de fezes das aves. O tratamento deste efluente é relativamente fácil, utilizando-se peneiras estáticas para separação do material sólido da porção líquida, sendo o material sólido separado enviado para compostagem e posteriormente para utilização como adubo e porção líquida para as lagoas de tratamento. Após o tratamento primário, os efluentes provenientes da linha vermelha e linha verde são enviados às lagoas de tratamento. Neste local ocorre o polimento e degradação final do material orgânico não retirado no processo físico-químico. Após a última lagoa, o efluente é lançado na microbacia hidrográfica do Ribeirão Ema, devendo atender a resolução do CONAMA n 357/05 (BRASIL, 2005) que dispõe sobre os parâmetros máximos permissíveis no efluente tratado. Efluente Bruto Tanque de Equalização Flotador Hidróxido de Sódio (Correção de ph) Cloreto Férrico (Coagulador) Polímeros Catiônicos e Aniônicos Microbolhas Lagoa Anaeróbia Tanque de Lodo Úmido Lagoade Polimento Água Tridecanter Óleo Fábrica de Farinhas e Óleo Lodo Corpo receptor Depósito de Lodo Secador de Lodo Caldeira

Fonte: Autores (2012) Figura 4 Fluxograma de Tratamento de Efluentes da Linha Vermelha 4.3 Consumo de energia elétrica A energia elétrica é a principal fonte de energia produtiva, representando um custo de extrema relevância dentro do processamento de aves. Além de acionar equipamentos utilizados no processo de produção propriamente dito, a energia elétrica é grandemente utilizada no processo de resfriamento, congelamento e conservação de produtos, pois o frio é fator determinante na conservação dos produtos acabados, sendo necessário para que a proliferação microbiológica nos produtos se mantenha inativa. Desta forma o processo de maior relevância em termos de consumo de energia elétrica é a refrigeração e esta pode ser dividida em: a) Água gelada e gelo: após a etapa de escalda e evisceração das carcaças se faz necessário o resfriamento imediato. Para tanto, se utiliza tanques denominados chillers, equipamentos que são abastecidos e continuamente renovados com solução de água gelada e gelo. A produção destes insumos é realizada em equipamentos trocadores de calor onde a troca térmica é realizada utilizando-se a amônia como fluido refrigerante; b) Ar para refrigeração de ambientes: todos os ambientes após o resfriamento das carcaças são mantidos refrigerados à temperatura nunca superior a 12 C, a medida visa manter a proliferação microbiológica sob controle; c) Ar para congelamento e manutenção de produtos congelados: após o processamento os produtos são enviados a ambiente cuja temperatura de operação é de -35 C, denominado Túnel de Retenção Variável. O produto fica neste equipamento por pelo menos 24 h, tempo necessário para o completo congelamento do mesmo a -18 C e, após o congelamento, o produto ficará armazenado em câmaras de estocagem, sendo este ambiente mantido a -18 C. Como medidas de economia de energia elétrica a empresa emprega a reutilização da água gelada descartada no processo de resfriamento de carcaças, processo que consiste em passagem da água gelada através de um trocador de calor a placas, enquanto no lado oposto ocorre a passagem de água que posteriormente será utilizada nos tanques de resfriamento de carcaças. O processo transfere cerca de 3 C de temperatura, o que representa economia significativa de energia elétrica. Ainda como medida de controle no consumo de energia elétrica a empresa dispõe de software que gerencia a demanda deste recurso. A solução permite, através de parametrização, escolher qual equipamento deve ser desligado em caso de risco eminente de ultrapassagem do limite de energia contratada com a concessionária evitando assim multas e gastos desnecessários. 4.4 Consumo de lenha O consumo de lenha na atividade avícola é substancial sendo necessária para geração de vapor utilizada para aquecimento de água e processamento de resíduos sólidos provenientes do abate, sendo: a) Escalda: o processo de escaldagem das aves após o abate se faz necessário para a retirada das penas através da ação mecânica de dedos de borracha acionados por discos e polias; a água utilizada neste processo deve ser aquecida a cerca de 60 C. Da mesma forma, os pés antes de serem reaproveitados também são submetidos ao processo de escalda em tanque

especifico, sendo utilizada para este fim água aquecida a cerca de 75 C. Além desses dois regimes de operação (temperatura), ainda se utilizada águas a temperaturas de 85 C como coadjuvantes nos processos de depenagem em locais específicos como sambiquira e pontas das asas, regiões estas que demandam maior temperatura para completa retirada das penas; b) Higienização: o processamento de alimentos demanda uma higienização eficiente, qualquer substrato não devidamente removido pode ser fonte de proliferação microbiológica, que pode comprometer a inocuidade do produto acabado, colocando em risco a saúde do consumidor. Aliado a isso, o processamento de aves gera quantidade elevada de gorduras que ficam aderidas aos equipamentos utilizados no processo, a higienização utilizando-se água aquecida auxilia de sobremaneira a transposição destas dificuldades, além de reduzir a necessidade de utilização de produtos químicos auxiliares na remoção e efetividade da limpeza das superfícies. Para esta utilização costuma-se usar água aquecida a 50 C; c) Caldeira: a reutilização de água pré-aquecida e dos condensados que retornam do processo de cozimento nos digestores contribui grandemente para economia de lenha para aquecimento e geração de vapor nas caldeiras. A caldeira ainda utiliza-se de recurso denominado pré-ar, através deste sistema o ar insuflado para dentro da fornalha para a queima do combustível (lenha) troca calor com os gases provenientes da queima, desta forma o ar já entra previamente aquecido na fornalha, reduzindo o consumo de lenha. Para aquecimento da água utilizada no processo de produção a empresa adotou medida de reaproveitamento de gases provenientes do processamento de vísceras, penas e sangue, o processo consiste na instalação de serpentinas no interior das chaminés dos digestores, os gases ao atravessar os dutos da chaminé trocam calor com a água que circula no interior dos tubos da serpentina, o processo transfere calor a água e ao mesmo tempo resfria os gases que são jogados na atmosfera, a água aquecida é enviada a tanques que alimentam cada regime de operação, onde então se realiza a mistura com água ou complementação final com vapor de forma que seja atendida a temperatura necessária a cada processo conforme descrito acima. As emissões de gases provenientes das caldeiras o equipamento dispõe de dispositivo denominado lavador de gases, onde os gases passam através de um chuveiro com água que tem o objetivo de reter possíveis fuligens vindas da fornalha da caldeira. Anualmente a empresa faz o monitoramento dos gases emitidos pelas caldeiras, em atendimento as resoluções do CONAMA n 003/90 (BRASIL, 1990) e SEMA n 054/06 (PARANA, 2006), sendo que os parâmetros encontrados estão dentro dos limites estabelecidos pela legislação. A lenha utilizada nas caldeiras provém exclusivamente de fornecedores aprovados pelo Sistema Estadual de Reposição Florestal Obrigatória (Serflor) que dispõe que todos os consumidores de matéria prima de origem florestal efetuem a reposição florestal em quantidade equivalente ao volume consumido. A empresa estuda a viabilidade de adaptação da caldeira para a queima de outros materiais como cavaco de madeira e bagaço de cana substituindo total ou parcialmente a utilização de lenha. 4.5 Tratamento de resíduos sólidos (subprodutos) O processamento dos resíduos e vísceras não comestíveis provenientes do abate e processamento de aves é realizado na Fábrica de Farinhas e Óleo, o processo pode ser dividido em duas linhas: processamento de vísceras e processamento de penas. a) Processamento de vísceras: os resíduos de abate chegam à fábrica de farinhas e óleo juntamente com a água utilizada no processo. O primeiro processo consiste em separá-los

utilizando uma peneira rotativa. Neste ponto a água já é enviada ao tanque de equalização, onde se inicia o tratamento dos efluentes, os resíduos sólidos são enviados ao depósito de vísceras onde aguardarão o processamento nos digestores e neste depósito também são recebidos os resíduos de ossos provenientes da etapa de cortes e desossa. O processamento nos digestores consiste em cozinhar os resíduos sólidos até atingir 120 C, ao final do cozimento a farinha contém aproximadamente 40% de óleo. Para a separação deste óleo, a farinha passa por duas etapas, primeiramente o percolador, equipamento onde ocorre a separação por decantação, na sequência a farinha passa pela prensa onde o residual de óleo é separado da farinha, nesta fase o óleo é enviado para centrifuga onde serão separados quaisquer tipos de sólidos remanescentes sendo na sequência estocados para posterior utilização. A farinha de vísceras ainda passará pelo moinho para redução do tamanho das partículas sendo posteriormente estocada em sacos ou em silo para posterior utilização; b) Processamento de penas: da mesma forma, as penas vindas do abate também chegam à fábrica de farinhas e óleo carregadas pela água utilizada no processo de escalda e depenagem das aves. A separação da fase líquida ocorre em duas etapas: primeiramente através de uma peneira estática e na seqüência em equipamento denominado prensa penas. Depois de seca a pena é processada em digestores, este processo difere do processamento de vísceras pois se realiza sob pressão, condição necessária para ocorrer a hidrólise do material, o que melhora a digestibilidade do mesmo quando utilizada em rações. No processamento também se utiliza a adição de sangue oriundo do processo de abate, necessário para a hidratação e auxilio no processo de hidrólise. Após o término do cozimento, a farinha vai para um percolador onde será continuamente dosado no secador de farinha de penas, reduzindo sua umidade a níveis aceitáveis, sendo na sequência estocado em sacos ou silos para posterior utilização. O processo de produção de farinhas e óleo pode ser visto na Figura 5. É importante ressaltar que as farinhas de vísceras e penas e o óleo de vísceras representam importante fonte de recursos para empresa, sendo comercializados para indústria de rações pet ou mesmo utilizando-se na ração das próprias aves.

Resíduos Sólidos (Visceras, Penas, Ossos e Sangue) Vísceras Ossos e resíduosde CMS Penas Sangue Peneira Rotativa Água Peneira Estática Depósito de Sangue Água Transporte Pneumático Prensa Penas Depósito de Visceras Depósito de Penas Digestor de Visceras Digestor de Penas Percolador Percolador Óleo Prensa Depósito de Óleo em Processo Secador de Farinha de Penas Moinho Centrífuga de Óleo Silo de Estocagem Silo de Estocagem Depósito de Óleo Acabado Tratamento de Efluentes Fonte: Autores (2012) Figura 5 Fluxograma de Produção de Farinhas e Óleo 4.5.1 Tratamento de resíduos sólidos O processamento de aves requer a utilização de grande quantidade de material de embalagem, tanto sacos plásticos, denominados embalagem primária (por entrar em contato direto com o produto acabado), quanto de papelão e outros filmes plásticos, denominados embalagem secundária (por conterem produto já embalado). O material sólido atualmente é segregado e vendido diretamente a empresa de reciclagem do próprio município. Existe trabalho de mapeamento de todos os resíduos sólidos gerados no processo, bem como o custo de seu tratamento e possível receita com sua venda. Este mapeamento pode ser visto no Quadro 1:

DESTINAÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS E LÍQUIDOS / Dezembro 2011. TIPO MATERIAL MÉDIA MENSAL EMPRESA/ DESTINO UNIT. RECEITAS DESPESAS 1 BOTAS DE PVC 80 CENTRI RECICLAVEIS 0,50 40,00 1 FACAS VELHAS 260 ALMOXARIFADO/DESCARTE 1 ÓLEO VEGETAL REFEITORIO 82 NUTRIFAGO 1 PAPELÃO 3.290 C - LEANDRO 0,10 329,00 1 PLÁSTICOS 6.140 C - LEANDRO 0,04 245,60 1 RODOS VELHOS METAL 65 C - LEANDRO 0,04 2,60 1 TAMBOR/BOMBONAS 150 PÉROLA 0,75 112,50 2 BORRAS ÓLEOS A CADA 60 DIAS TABORDA AMBIENTAL 950,00 2 EMBALAGENS ÓLEO LUBRIF.A CADA 60 DIAS TABORDA AMBIENTAL 1,40 2 LÂMPADAS 218 RECICLAGEM 0,60 130,80 3 LIXO ORGANICO REFEITORIO 330 KG LAVAGEIRO 3 UNIFORMES RASGADOS 112 REFORMA 1,317 147,50 729,70 1.228,30 Autores (2012) Quadro 1 Geração mensal de resíduos diversos Fonte: 5 CONCLUSÕES Diante da discussão teórica e da análise dos dados coletados, algumas considerações podem ser feitas de modo a consolidar o objetivo que norteou a pesquisa. A primeira consideração é que, a organização pesquisada apesar de já atuar em frentes ambientais ainda precisa estabelecer sua política ambiental e divulgá-la a todos os funcionários. A pesquisa demonstra que as ações que impactaram na questão ambiental foram benefícios secundários, sendo o objetivo inicial a redução de custos e/ou recuperação de recursos energéticos, o que demonstra falta de foco para o assunto. Entretanto a pesquisa também mostra que a empresa está se reestruturando e pretende incluir em suas estratégias a questão ambiental, seja pela questão mercadológica, seja pela necessidade de se adequar à legislação uma vez que quer ampliar sua produção. Este artigo teve como objetivo elaborar um diagnóstico da questão ambiental de um frigorífico avícola, bem como suas limitações e possibilidades. A partir disso, pode-se concluir que a principal limitação da empresa quanto à sua sustentabilidade ambiental é a falta de definição clara dos objetivos relacionados ao meio ambiente. Atualmente não existe pressão dos Stakeholders quanto à questão ambiental na empresa, entretanto a empresa deveria aprimorar sua política ambiental rapidamente já que o entorno da indústria está sendo rapidamente povoado, o mercado externo em que a empresa atualmente atua ainda não exigem qualquer tipo de certificação quanto ao atendimento da questão ambiental, todavia existe a expectativa de que a empresa passe a atender mercados consumidores mais exigentes a este assunto, como o mercado europeu. Desta forma com a implantação de uma gestão ambiental juntamente a outras ações, poderá possibilitar à empresa a abertura de novos mercados para exportação que, no médio prazo, pode ser um importante fator para a sua competitividade. A revisão bibliográfica realizada revelou que poucos estudos enfocam a questão ambiental nas atividades avícolas, portanto estudos futuros poderiam estender as pesquisas para toda a cadeia produtiva e em outros setores econômicos. Este artigo trouxe contribuição acadêmica, na medida em que acrescenta discussões na área ambiental do setor avícola. Trouxe também, implicações gerenciais, pois possibilitou ao

frigorífico estudado um diagnóstico da sua situação ambiental, bem como suas limitações e possibilidades. REFERÊNCIAS ARAÚJO, G. C. O processo de implantação da sustentabilidade em frigoríficos: estudo de caso no frigorífico independência. 2006. Dissertação (Mestrado Programa de Pós- Graduação Multiinstitucional em Agronegócios) - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2006. Disponível em: <http://www.cbc.ufms.br/tedesimplificado/tde_arquivos/7/tde-2007-02- 12T062432Z-97/Publico/Geraldino%20DEA.pdf>. Acesso em: 10 dez. 2011. BRASIL, Resolução N 003 de 28 de junho 1990. Diretrizes sobre padrões de qualidade do ar. Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), Ministério do Meio Ambiente (MMA), 1990. BRASIL. Resolução N 357 de 17 de março de 2005. Diretrizes ambientais para enquadramento dos corpos de águas superficiais e padrões de lançamento de efluentes. Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), Ministério do Meio Ambiente (MMA), 2005. PARANA (Estado), Resolução N 54 de 22 de dezembro de 2006. Critérios para controle de qualidade do ar. Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMA), Instituto Ambiental do Paraná (IAP), 2006. CARVALHO, D. N. Gestão e sustentabilidade: um estudo multicasos em ONGs ambientalistas em Minas Gerais. 2006. Dissertação (Mestrado - Centro de Pós-Graduação e Pesquisas em Administração). Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2006. Disponível em: <http://www.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/66833_7564.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2011. CORAL, E. Modelo de planejamento estratégico para a sustentabilidade empresarial. 2002. 282f. Tese (Doutorado em Engenharia da Produção) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2002. DORS, G. Hidrólise enzimática e biodigestão de efluentes da indústria de produtos avícolas. 2006. Dissertação (Mestrado - Programa de Pós- Graduação em Engenharia Química). Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. Disponível em: <http://www2.enq.ufsc.br/teses/m158.pdf>. Acesso em: 05 jan. 2012. FERNANDES, M. A. Avaliação de desempenho de um frigorífico avícola quanto aos princípios da produção sustentável. 2004. Dissertação (Mestrado - Programa de Pós- Graduação em Administração). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. Disponível em: <http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/5586>. Acesso em: 09 dez. 2011. INSTITUTO PARANAENSE DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (IPARDES). Análise da competitividade da cadeia agroindustrial de carne de frango no Estado do Paraná. Curitiba, 2002. Disponível em: <http://www.ipardes.gov.br/webisis.docs/cadeia_agroindustrial_aves_sumario_executivo.pdf >. Acesso em: 12 jan. 2012. MAIMON, D. Eco-estratégia nas empresas brasileiras: realidade ou discurso? RAE Revista de Administração de Empresas, v. 34, n. 4, p. 119-30, jul./ago. 1994.

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