Angústia e sexualidade masculina Palavras-chave: angústia, falo, órgão real, virilidade Sérgio Laia * Em psicanálise, a associação entre angústia e sexualidade masculina é geralmente abordada a partir da ameaça de castração. Freud, em A dissolução do complexo de Édipo, já nos permitindo remar na contracorrente da futura transformação desse complexo em uma trama restrita às preferências e conflitos do trio papai-mamãe-criança, destaca a dimensão libidinal em jogo nessa dissolução: a ameaça de castração se impõe, na forma de uma desaprovação manifestada por adultos (em geral, do sexo feminino) e referendada em uma autoridade masculina, quando se constata a satisfação auto-erótica presentificada, mais explicitamente pela masturbação infantil e, de um modo mais escamoteado, por um sintoma que, ao ser tão típico e muitas vezes pouco duradouro na infância, nem sempre é um motivo suficiente para um tratamento a enurese noturna. Não é de imediato, sustenta Freud, que essa ameaça proveniente dos adultos produz algum efeito sobre o ato praticado pela criança porque, para começar, o menino não acredita na ameaça ou não a obedece absolutamente 1. A crença na ameaça e a conseqüente obediência do menino vão se efetivar apenas quando ele se deparar com a visão dos órgãos genitais femininos e, acrescentaria, não tiver mais como sustentar, frente a essa visão, o falo como um atributo universal: a partir dessa visão, a perda de seu próprio pênis fica imaginável 2. Assim, por exemplo, em um caso relatado por Cristina Drummond 3, a cena de um filme infantil no qual uma enorme bruxa é furada pela lança de um príncipe presentifica para Júlio, não sem uma angústia que logo será transformada em uma fobia de buracos, a castração feminina. Mas é interessante notar que Júlio, como é próprio das crianças, já havia visto várias vezes aquele mesmo filme que, inclusive, era considerado seu favorito e, muito provavelmente, devido à liberdade dos costumes * Analista Praticante (AP), Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor Titular IV da Universidade FUMEC; Mestre em Filsofia e Doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 1 FREUD, S. A dissolução do Complexo de Édipo (1924). In: O ego e o id; Uma neurose demoníaca do século XVIII e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 219 (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX). 2 FREUD, S. A dissolução do Complexo de Édipo..., p. 220. 3 DRUMMOND, C. Um objeto visado. In: FUNDAÇÃO DO CAMPO FREUDIANO. A sessão analítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000, p. 116-121. 1
em nossos dias, ele também já havia se confrontado visualmente com a diferença sexual feminina. Entretanto, é apenas a partir de um determinado momento que a enorme bruxa furada passa a ser, para Júlio, a imagem da perda de seu próprio órgão. Na 13ª lição do Seminário IV, iniciada por uma menção ao texto A dissolução do complexo de Édipo, Lacan, leitor cuidadoso de Freud, destaca que a castração presentificada na gênese de uma neurose é relativa a um objeto imaginário. Ela toma como base a apreensão no real da ausência de pênis na mulher 4, mas essa ausência, precisa Lacan, é efetivamente uma privação, embora não deixe de figurar, especialmente para a subjetividade masculina, como castração. Em outros termos, a atribuição de que as mulheres são castradas é ambígua porque, na realidade, elas são privadas do órgão que por apresentar-se como destacável, como fonte de satisfação e de potência dá materialidade ao falo. E Lacan salienta-nos ainda que, se as mulheres corporificam uma tal privação, é porque, sobre o pênis que elas não portam e que lhes seria suposto como uma presença possível incide todo um tratamento simbólico na medida em que, no corpo feminino, esse órgão designa a presença de uma ausência. Assim, utilizando a terminologia lacaniana do Seminário IV, eu diria que, como objeto que pode ser castrado do corpo masculino, o pênis é um objeto imaginário e, como objeto privado do corpo feminino, o pênis é um objeto simbólico. De certo modo, a vulgata psicanalítica e mesmo um certo standard lacaniano ressaltam a dimensão imaginária e a dimensão simbólica do pênis, promovendo a célebre e não menos verdadeira proposição de que esse órgão viril não é propriamente o falo. Afinal, o falo poderá ser imajado ou simbolizado não apenas pelo pênis, mas ainda, conforme as circunstâncias, por cada elemento que se destaca em uma série de objetos capazes de atrair a libido e proporcionar satisfação: a criança, a parceria sexual, a profissão, o carro, o computador, o celular... Nesse contexto, e por uma inversão no tempo, eu diria que Freud era lacaniano quando, em A dissolução do complexo de Édipo, assinalava que o consentimento do menino com relação à desaprovação manifestada contra a satisfação extraída do próprio corpo preservou o órgão genital afastou o perigo de sua perda, efetivando a castração como relativa a um objeto imaginário porque não incide realmente sobre o corpo masculino e, quanto à menina, considerando seu temor de perder o amor dos pais, ela buscaria uma compensação de sua privação deslizando ao longo de uma equação simbólica... do pênis para o bebê 5. Freud 4 LACAN, Jacques. Le séminaire. Livre IV: la relation d objet (1956-1957). Paris: Seuil, 1994, p. 218. 5 FREUD, S. A dissolução do Complexo de Édipo..., p. 221 e 223 (grifos meus). 2
também não é menos lacaniano quando sustenta que a preservação do pênis paralizou-o removeu sua função 6 : em Lacan, a meu ver, essa paralisia e essa remoção da função do órgão viril referem-se à dimensão imaginária e à dimensão simbólica do falo porque ele se presta a se fazer figurar através de outros objetos, tem alguma incidência mortificante sobre a satisfação auto-erótica, além de ser determinante para a localização de um gozo que afeta o corpo. Entretanto, a vulgata psicanalítica e o standard lacaniano que destaca o falo como um elemento simbólico e imaginário, embora contribuam substancialmente para a elucidação da proposição psicanalítica clássica de que o pênis não é propriamente o falo, desconsideram o que se apresenta como a dimensão real que o órgão viril insiste em presentificar aquém e além de sua transmutação simbólico-imaginária como falo. Em outros termos, o pênis, uma vez falicizado, não deixa de ser um órgão vivo cuja agitação pode perturbar, não sem angústia, especialmente aqueles que o têm atrelado a seus corpos. Por conseguinte, o que perturba os homens não é apenas a angústia de castração, não é apenas o que há de imaginável como perda no próprio corpo, mas ainda a presença viva e real de um órgão cuja agitação designa a presença da libido no corpo. O que fazer com esse órgão e com a exigência libidinal evidenciada particularmente por sua agitação? eis a questão que, muitas vezes ausente nas queixas e demandas recolhidas pela clínica psicanalítica, não deixa de encontrar resposta na persistência da satisfação masturbatória, na variabilidade perturbadora das parcerias sexuais, nas traições, em manifestações da chamada ejaculação precoce e em toda uma série de outros modos de satisfação clandestina através dos quais muitos homens mantêm, muitas vezes não sem alguma perturbação e angústia, o que Lacan denominou de casamento com o falo 7. Minha hipótese, verificada em vários casos, é de que muitos homens, para não se confrontarem com o que uma tal questão lhes evoca de perturbador e mesmo de angustiante, refugiam-se em formas passivas de fazerem um uso do próprio sexo ou em demonstrações imaginárias da própria virilidade. Tanto essas formas de refúgio quanto essas demonstrações são, a meu ver, tentativas masculinas de mortificação do que há de vivo no corpo, mesmo se elas por vezes são relatadas na experiência analítica como irresistíveis e as estratégias para evitá-las são marcadas por uma certa perda do sentimento de vida. Nesse contexto, alguns impasses na experiência analítica com pacientes do sexo masculino apenas são efetivamente enfrentados quando ela lhes permite, inclusive a partir 6 FREUD, S. A dissolução do Complexo de Édipo..., p. 221. 7 Cf. aula do dia 17 de dezembro de 2005, no Seminário R.S.I., de Lacan (inédito). 3
do levantamento da questão referente ao uso do órgão viril e da satisfação que lhe é associada, tratar as respostas que suas neuroses os fazem produzir a partir não apenas da angústia de castração, mas sobretudo da angústia experimentada com relação ao órgão vivo que se destaca em seus corpos. Assim, em minha clínica, algumas formas de acting out que caracterizam os usos que os homens muitas vezes fazem de sua sexualidade só puderam ser tratados quando foi possível cingir e enfrentar os embaraços que, antes mesmo daqueles resultantes de suas atuações, já afetavam seus corpos a partir da presença real do órgão que lhes designa a virilidade. A pista que me permitiu sair dos impasses gerados pela vulgata psicanalítica ou mesmo por um certo standard lacaniano ao restringirem o falo à uma dimensão simbólico-imaginária, eu a encontrei nas passagens do Curso de Jacques-Alain Miller consagradas ao Seminário de Lacan sobre a angústia, mais especificamente na aula do dia 5 de maio de 2004 8. A perspectiva de Miller é de que, no Livro X de seu Seminário, Lacan pretende abrir um caminho para além da angústia de castração e, nesse viés, processa uma desimaginarização e uma designificantização do falo para retomar o que no Seminário IV, dedicado especialmente ao caso do pequeno Hans, era designado como o pênis real 9. Assim, no Seminário X, Lacan deixa de lado o corpo imaginário do estádio do espelho, o corpo simbólico e mortificado pela ação do significante para restituir ao corpo seus órgãos, e ele o faz porque passa a se interessar sobretudo pelo que, no corpo, toma a forma do que Freud chamava de pontos de fixação da libido 10. Segundo Miller, esses são justamente os pontos nos quais a economia de gozo de cada um não cede à falicização 11, uma vez que o gozo ao se imiscuir no que Lacan chamou de objeto a é uma função impossível de negativizar 12 e, portanto, requer um corpo não representado completamente no imaginário e não totalmente mortificado pelo simbólico. Logo, se a angústia de castração articula-se às dimensões imaginária e simbólica do falo, o Seminário X, ao tematizar uma outra forma de manifestação da angústia, aborda uma propriedade anatômica do órgão masculino inteiramente oposta a sua imaginarização de potência 13, mas também diferente 8 Para as citações presentes neste e no próximo parágrafo e que foram extraídas desse Curso de Miller, utilizei a versão digital que recebo, em francês, por internet. Entretanto, as aulas consagradas ao Seminário X já foram publicadas em português em: Opção Lacaniana, São Paulo, nº 43, maio de 2005, p. 7-81. 9 10 11 12 13 4
daquela que, ao fazer valer a presença de uma ausência, extrai, da materialidade desse órgão, o falo como um símbolo. Essa propriedade anatômica é aquela da detumescência, que atinge esse órgão no momento de seu gozo e que, no Seminário sobre a angústia, encontra-se no lugar da castração 14. Retomado em sua dimensão real de órgão, o falo está implicado como instrumento do desejo na copulação humana 15. Nesse contexto, a detumescência que evidencia o desaparecimento desse órgão-instrumento coloca sempre os homens às voltas com uma certa impotência, assim como sua excitação, corporificada pela tumescência, sempre confronta os homens com a potência desse órgão-instrumento. O órgão copulatório humano e masculino, por conseguinte, diferente daquele que encontramos em outras espécies animais, não é um gancho, um órgão de fixação e o mecanismo da tumescência e da detumescência é essencial ao orgasmo que, no caso dos seres humanos, se processa no ápice de uma situação angustiante 16. Mas se de fato o órgão viril humano, por um lado, não funciona como um gancho que, no contato com outro órgão, efetivamente o fisga, por outro lado, ao corporificar um mecanismo essencial ao gozo, não deixa de ser um ponto de fixação no qual um modo de satisfação se adere. É justamente essa aderência que encontramos nos modos pelos quais muitos homens fazem perseverar o auto-erotismo associado à presença real de um órgão atrelado a seus corpos e que Freud, embora ainda restrito à dimensão imaginária do narcisismo, já havia assinalado quando, a propósito da dissolução do complexo de Édipo no menino, localizava um triunfo do eu na decisão masculina de dar crédito à ameaça de castração para preservar o próprio corpo. Entretanto, esse crédito não é exatamente uma garantia frente à atração que a satisfação autoerótica continua fazendo pulsar no corpo masculino: a agitação do órgão viril é muitas vezes experimentada como uma cobrança que deve ser paga ou como um embaraço do qual o sujeito deve se livrar. Com Lacan, poderemos verificar que a atração masculina pela satisfação auto-erótica não se reduz ao interesse narcísico de preservação do corpo e que a identificação ao pai nem sempre funciona como um modelo de uma função de gozo. Particularmente nesses nossos tempos marcados pelo declínio do viril, a dimensão real de se ter um órgão que se destaca do corpo torna-se perturbadora para muitos homens e, de um modo clandestino e inconfessável até para 14 15 16 LACAN, Jacques. Le séminaire. Livre X: l angoisse (1962-1963). Paris: Seuil, 2004, p. 274, 275. 5
eles próprios, serve-lhes de motivo para toda uma série de besteiras que não deixam de se impôr como modos da satisfação libidinal masculina. Se a angústia advém com a certeza de que o órgão viril desvanece com o gozo, a surpreendente capacidade de ele agitar-se previamente ao desvanecimento é, muitas vezes, um acontecimento de corpo que perturba os homens. A experiência analítica concernente àqueles que se encontram no lado masculino da sexuação mostra-nos que, em vários dos percursos clandestinos da satisfação libidinal, os homens tanto procuram responder ao real de ter o falo em seus corpos, quanto tentam se livrar da angústia evidenciada por sua detumescência. Reencontrar uma via diversa da clandestinidade para a satisfação libidinal masculina pode então se configurar como uma direção do tratamento de casos nos quais os sintomas que se impõem à sexualidade masculina comprometem a virilidade com que os homens são convocados para responder ao que lhes é apresentado nos trajetos do gozo e nos circuitos do desejo. Freud insistiu na angústia de castração até que, em Análise terminável e interminável, embora perseverando nessa insistência, não deixou de destacar-nos os impasses que a castração impunha mesmo aos homens que chegavam ao final de um tratamento analítico. Muitos psicanalistas pósfreudianos tentaram fazer do amor genital uma saída madura e favorável, alcançada ao longo de uma análise, para o que, no corpo atraído pela intensidade da satisfação proporcionada pelos objetos parciais, tenta driblar os limites da castração. Se os resultados visados e/ou obtidos por esses pós-freudianos várias vezes se confundem com renúncias religiosas e com pedagogias moralizantes, talvez a insistência para um tratamento permitir um acesso ao amor genital possa ser um modo, certamente conservador, de perceber que há uma dimensão real do órgão que resiste à circunscrição do gozo realizada pela concepção freudiana da castração. Será então apenas com Lacan que o irredutível da satisfação libidinal associada ao órgão viril encontrará uma vazão diferente tanto daquela desencadeada nos usos clandestinos da virilidade, quanto daquela pretendida pelas idealizações do tipo amor genital ou ainda pelas restrições impostas a partir da angústia de castração. Assim, a localização dos embaraços vividos como acontecimentos do corpo masculino diante da agitação do órgão viril poderá dar um outro destino à angústia presentificada pela detumescência do falo. Um destino diverso daqueles da clandestinidade, da idealização e da limitação porque, na clínica lacaniana, a virilidade não se prova em uma série infindável de cenas, nem se confunde com uma espécie de amadurecimento conquistado ao longo de um tratamento, tampouco é, para um homem, aceitação ou conquista de 6
seus próprios limites. A virilidade eis o que a prática da orientação lacaniana nos ensina efetiva-se sempre que um homem pode ser capaz de se permitir colocar em jogo aquilo que tem e que inclusive se destaca no seu corpo para fazer jus ao objeto que, alhures, destacado de um corpo Outro, causa-lhe o desejo. A virilidade, assim, poderá durar toda uma vida, desde que, a cada vez, um homem se disponha a enfrentar a satisfação que lhe é presentificada, não sem angústia, na dimensão de um triz, perante a causa que ele não se permite colocar como perdida do desejo. Belo Horizonte, maio-junho de 2005 7