Acerca da Luta Armada



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Transcrição:

VALOR E VIOLÊNCIA Acerca da Luta Armada Conferência Pronunciada no Anfiteatro de História da USP em 2011 Wilson do Nascimento Barbosa Professor Titular de História Econômica na USP Boa noite! Direi em poucas palavras a diferença das táticas e estratégias da luta armada. Serei breve, para guardar a maior parte do tempo para o debate. O debate é que tem importância. Também analisar com objetividade as concepções daquele período 1962-1972, onde se criaram e tentaram aplicar todas as táticas da Esquerda armada. Vou dividir em dois tópicos: (1) a natureza da crise naquela sociedade, segundo a Esquerda então hegemônica; e (2) as propostas de estratégia e tática associadas à luta para derrubar a Ditadura. 1. A crise na Sociedade dos sessenta e setenta No período 1945-1964, dezenove anos, portanto, houve 11 golpes e tentativas de golpes no Brasil: a queda de Vargas (1945); tentativa de impedir a posse de Vargas, eleito (1950); a República do Galeão (1954); queda e suicídio de Vargas (1954); revolta de Jacarèacanga (fev 1956); revolta de Aragarças (dez 1959); queda de Jânio (1961); tentativa de impedir a posse de Jango (1961), o golpe do parlamentarismo (1961); atentado a bomba na feira de São Cristóvão (1962); o golpe do 1º de abril (1964). Diante da quantidade de agressões à ordem realizadas pela Direita organizada, falar em projeto de golpe da Esquerda é uma verdadeira piada.

A profunda crise social e política então vivida pelo país era interpretada pela Esquerda como uma crise permanente, sem saída, a menos que ocorresse uma profunda transformação do sistema de poder, que chamavam uma revolução democrática. Seria preciso mais poder para o povo, para que o mesmo, ao organizar-se, criasse soluções novas. A base econômica da crise permanente era entendida como produto de uma burguesia local dividida, e de seu setor mais dinâmico como incapaz de promover um desenvolvimento independente. O nível de investimento era insuficiente para uma revolução industrial interna ou para pagar o pesado custo do investimento externo, que levava muito lucro, ou dos equipamentos importados. Para tal, havia sempre escassez de divisas. A revolução industrial importada expressava as necessidades da divisão internacional do trabalho e introduzia, portanto, novas distorções na economia local. Após a remessa dos direitos externos em capital (lucros, juros e royalties) a capacidade local para investir tornava-se insuficiente. Havia poucos recursos para: (a) compra ou produção de inovação substitutiva; (b) obter redução progressiva do endividamento externo. Isso caracterizava para a Esquerda a burguesia como: (I) dependente; e (II) uma criatura do imperialismo. Com uma taxa de lucros obtida pela redução crua dos salários, a burguesia local tinha por limite da taxa de lucro a mais-valia que exportava todo ano. Dava-se assim um mecanismo, subalterno ao exterior, de ciclo econômico, com períodos decenais. Houve crises em 1943-45; 1953-55; 1963-65; 1973-75 e 1981-83. Com o golpe de 1964, foram rapidamente eliminadas as hipóteses de liberdades públicas e jogo político, com violação de direitos, violência aberta contra os movimentos populares, tortura pelo Estado, assassinato de opositores etc. Isso colocou para uma parte da Esquerda a perspectiva de organizar uma resistência armada contra a Ditadura. 2. Estratégia e Táticas da Luta Armada Há uma importante diferença a marcar, que escapa a pessoas que não viveram nas organizações de Esquerda, nos anos 1950 a 1970. Todas as organizações daquela época admitiam as teses de choques de classe, idas e contravindas devido a golpes-de-estado, lutas de rua etc. Isto porque, como organizações de Esquerda, baseavamse na experiência histórica da luta de classes no capitalismo, que

demonstrava a violência armada dos latifundiários e da burguesia contra os trabalhadores. Os militantes de Esquerda estudavam as grandes revoluções e não tinham ilusões quanto a isto. Havia, no entanto, duas discordâncias no plano teórico: (I) os leninistas seguiam o chamado plano de forças, que não era adotado por outras correntes; e (II) os antiestalinistas ou kruchovistas tinham uma tese de mudança de correlação de forças no plano internacional, segundo a qual havia a possibilidade histórica de uma transição pacífica, nas condições dos anos 1960; citavam para tal o caso de Cuba e alguns países africanos. No plano prático, é evidente que nenhuma organização de Esquerda preconizava antecipar-se a um golpe de Direita, desencadeando uma luta armada. Isso era uma invencionice da Direita, fabricada para justificar suas sucessivas tentativas de golpe. Como no período 1956-1964 a Esquerda ganhasse força, através de uma política de frentes, na luta política, a Direita apelou abertamente para a violência, o crime de rua e o golpismo militar, para recuperar o que perdia nas urnas. Com o estabelecimento da Ditadura e o avanço dos métodos repressivos, a Esquerda cada vez viu-se obrigada a adotar táticas de resistência, que levaram é óbvio à elaboração de estratégias de luta armada. Ou seja, a tática levou à estratégia e não como se resolve teoricamente o problema. Havia quatro grupos sociais de Esquerda interessados em não arriar as bandeiras patrióticas e sociais só porque havia se instalado uma ditadura sanguinária: (a) quadros do movimento militar, impedidos em seus direitos e até expulsos da força; (b) quadros do movimento estudantil; (c) militantes revolucionários de prestígio; (d) quadros do movimento operário e camponês. Através de diversas instâncias partidárias ou novas organizações, estes grupos conspiraram e ativaram uma certa escala de movimento de massas, no período 1965-68. Quando a Ditadura apelou para o AI-5, havia clima para uma tentativa de implantar a luta armada, numa tentativa de optar por uma formade-luta que derrotasse a Ditadura, obrigando-a a tomar formas mais democráticas ou a destruí-la. Grosso modo, pode-se reconhecer três estratégias naquele período: (1) Guerra de Longo Prazo; (2) Luta Prolongada; e (3) Estratégia Guerrilheira. Dito em poucas palavras, tais estratégias significavam:

1) Guerra de Longo Prazo Dever-se-iam utilizar as formas pacíficas de luta e táticas de enfrentamento, caracterizando a chamada defesa ativa do movimento de massas, mas tal não bastaria para derrotar a Ditadura. Pelo apoio externo, a luta se arrastaria por décadas, como havia sido na China. Um partido revolucionário de quadros, pequeno e ágil, deveria organizar e coordenar diversas frentes e organizações armadas. 2) A Luta Prolongada Os partidários desta tese visualizavam uma luta demorada, sangrenta, com altos e baixos, fases de choques armados e outras fases não. Não haveria um predomínio da luta rural ou da luta urbana. As cidades certamente seriam o cenário principal. Greves generalizadas, choques armados locais e desobediência civil levariam ao colapso da Ditadura. O essencial era construir um novo partido revolucionário e articular frentes de resistência. 3) Estratégia Guerrilheira Para esta corrente de opinião, a propaganda armada através de núcleos guerrilheiros, organizados em colunas rurais, para outros não, era o caminho para liquidar a ditadura. Dentro da luta surgiria uma hegemonia operária e um novo tipo de democracia. A luta armada criaria um divisor de águas ideológico. Redes de resistência, com organizações político-militares (OPMs) seriam o germe desta transformação. Passados 44 anos do auge dessas estratégias, com boa vontade pode-se opinar sem partidarismos. A previsão de um futuro requer o trabalho de construí-lo. Tornar a burguesia mais macia ou mais negociadora depende só (!) da força que se deseja ou se pode empregar para isso. A força da Esquerda naquela época só dava para, no longo prazo, obrigar a burguesia a voltar para uma democracia burguesa, de liberdades públicas bem discutíveis. Isso foi o que ocorreu. Nesse sentido, a estratégia de luta armada foi bem sucedida. Ela desmoralizou a Ditadura enquanto suposta força patriótica ou pró-desenvolvimento. Ela mostrou o que o poder era: quadrilhas de ladrões e assassinos. Com o fim do apoio externo para tais quadrilhas, a situação ficou insustentável. Teve-se o hiato do governo Sarney, mas tudo ficou na mesma com a recuperação da Mídia e a eleição de Collor de Mello. Não houve qualquer mudança importante. O Brasil continuou sendo o que é, um chiclete do imperialismo.

O erro dos partidários da luta armada foi o seu idealismo. Primeiro, não se pode derrotar um inimigo grande sem apoio externo. A luta armada não teve apoio externo. Não tinha efetivos para substituir suas perdas. É óbvio que Cuba não podia fazer muito pela América Latina. Talvez o apoio moral e um certo apoio político. Cuba não tinha recursos materiais para tanto. Para a burguesia latino-americana, com os cofres públicos na mão, nunca faltaram quadros nem apoio externo. A luta era desigual demais.