EDP Energias do Brasil Contribuição à Audiência Pública ANEEL nº 63/2014: Revisão da Resolução 484, de 17 de abril de 2012, que estabelece os procedimentos a serem adotados pelas concessionárias, permissionárias e autorizadas de serviços e instalações de energia elétrica para obtenção de anuência à transferência de controle societário, e dá outras providências. Brasília, 19 de janeiro de 2015. 1
1 Introdução A Resolução Normativa nº 484/12 constituí um instrumento de grande valia para a Agência Nacional de Energia Elétrica e também para os agentes do setor elétrico, possibilitando a necessária segurança jurídica para os processos de alteração de controle societário, tão recorrentes em um setor em franca expansão, como é o setor elétrico. Não obstante os inegáveis avanços ali contidos, sempre há espaço para melhorias e inovações regulatórias que possibilitem um processo mais ágil, seguro e adequado. Neste sentido, expomos algumas noções que devem ser consideradas quando da revisão da norma. 2
2 Necessidade de Anuência Prévia Primordialmente, deve-se observar o rol de hipóteses de anuência prévia e de dispensas desta, no intuito de verificar-se a possibilidade de migração entre as duas listagens. Neste intento, o leitor depara-se com os diversos conceitos ali empregados. A submissão das delegatárias em regime de serviço público à anuência prévia é adequada e importa em relevante controle do Poder Concedente sobre tais serviços, como lhe é exigido. Associado à esta adequação, observamos a submissão das geradoras de fonte termonuclear, em função de seus rígidos controles, advindos do seu regime constitucional. Indo além, observa-se dois outros critérios para a submissão de anuência prévia. O primeiro é a fonte, tendo a hidroeletricidade sido eleita como de relevância, e portanto incluída no rol das geradoras que necessitam do crivo prévio dessa Agência. O segundo diz respeito às geradoras com participação relevante no Ambiente de Contratação Regulada ACR, correspondendo à preocupação do regulador em resguardar o controle acionário daquelas usinas que possuem impacto na produção de energia destinada ao consumidor cativo. Sobre o tema, salta aos olhos que os diferentes critérios empregados partem de princípios distintos. O controle das delegações em regime de serviço público e as geradoras de fonte termonuclear são de origem inata a seus regimes jurídicos. Por outro lado, a distinção das hidroelétricas para com as outras geradoras parte da noção de que tais serviços, ainda que na modalidade de produção independente ou autoprodução, são passíveis de reversão, e portanto, devem ser resguardados. No entanto, pode-se afirmar que não é o controle das alterações societárias que vai garantir a regular operação e manutenção desses aproveitamentos, mas sim as normas de caráter técnicooperacional, com lastro nas penalidades setoriais. Assim, a Resolução Normativa nº 484/12, nesse aspecto, torna-se uma redundância desnecessária, pois não agrega proteção aos interesses da coletividade, e cria a necessidade de tramites adicionais para a administração dessas companhias. Se for realizada a equiparação das geradoras de fonte hidroelétrica para com as outras, observamos que o critério da relevância para o ACR é mais apropriado do que a distinção por fonte. Desta forma, 3
somente os empreendimentos hidroelétrico com relevância para o ACR estariam sujeitos ao processo de anuência prévia. É sabido, no entanto, que a definição sobre a participação relevante no ACR não é tarefa trivial, e, assim, pode ser inconveniente atrelar os aproveitamentos hidrelétrico a este critério. Desta forma, entendemos ser possível a adoção de outra metodologia para definição acerca da necessidade de anuência prévia, a qual passamos a elaborar. 4
3 Dispensa de Anuência Prévia para alteração de Controle Societário Direto de geradoras Para compreender os critérios utilizados, vale-se da definição que a própria resolução traça acerca dos níveis de controle societário, a saber, direto, intermediário e indireto. Entende-se que o controle indireto é o principal definidor da política corporativa e da gestão de um empreendimento, por compreender o órgão decisório final, bem como a origem dos recursos financeiros que deverão garantir a delegação. Assim, para todas as hipóteses em que o controle do agente deve ser resguardado pelo processo de anuência, deve-se vincular o controle indireto a esta autorização. O controle intermediário, por sua vez, já se encontra, acertadamente, dispensado de submissão prévia, devendo assim permanecer, em função de sua mitigada importância nos negócios da delegação. Por fim, o controle direto é relevante para a operação e manutenção regular da companhia, sem, no entanto, ser a entidade que toma as grandes decisões e dispõe dos recursos para tal. Desta forma, a regulação deste nível de controle deve ser repensada. Deve-se, portanto, buscar a identificação dos aspectos econômicos, jurídicos, fiscais e técnicos que definem o que torna um pretenso controlar direto apto à gestão daquela companhia delegatária. Uma vez identificados quais são os parâmetros e os indicadores que apontam para a saúde financeira e econômica, regularidade fiscal e jurídica, bem como a declaração de manutenção da competência técnica regular já praticada hoje, pode-se dispensar o processo de anuência prévia para tais operações. Sobre o tema, destacamos o que foi previsto na Resolução Normativa nº 532/13, onde, em seu Inciso V, art. 3º, ocorre a dispensa de anuência prévia para dação de garantias às companhias que atendam a requisitos objetivos de endividamento. Portanto, pode-se vislumbrar a construção de uma norma semelhante, permitindo que os agentes de geração de energia elétrica, exceto os a partir de fonte termonuclear, possam realizar alterações 5
de controle direto, ou seja, dentro de seus grupos econômicos, desde que a pretensa controladora atenda a uma série de requisitos objetivos, passíveis de fiscalização pela Agência. Tal alteração tem o condão de garantir a agilidade para tais reorganizações dos grupos econômicos que atuam no setor elétrico, sem diminuir o rigor da fiscalização da Agência, o que resguarda o Poder Concedente e, assim, o interesse público. 6
4 Conclusões À guisa de conclusão, destacamos que a proposta em tela almeja dotar o processo de agilidade e segurança, com resguardas ao interesse público e às vicissitudes do processo corporativo moderno, e, portanto, merece consideração quando da revisão da Resolução Normativa 484, de 17 de abril de 2012. Assim, sintetizamos a contribuição na proposta que consiste na migração das operações de controle societário direto para o rol de dispensas de anuência prévia quando se tratarem de (i) delegatárias de geração em produção independente ou autoprodução, excetuadas as de fonte termonuclear; e (ii) as pretensas controladoras atenderem a parâmetros definidos na resolução, que garantam a regular administração das delegações. Adicionalmente, propõe-se reflexões sobre outros pontos, que suscintamente expomos: A previsão, no texto da resolução, da possibilidade de prorrogação do prazo previsto no art. 22, mediante pedido fundamentado; A possibilidade do agente atualizar as certidões de regularidade trabalhista, de falência, fiscal e/ou setorial, bem como outros documentos que venham a dispor de autenticação digital, por meio remoto (fax ou e-mail); Tal tema é objeto certo de futura Audiência Pública, a qual o Grupo EDP participará, auxiliando essa Agência no desenvolvimento das normas setoriais, e, portanto, destaca-se, por fim, a relevância do processo de consultas e audiências públicas para a transparência e eficiência do processo de atualização e evolução da regulação setorial. 7