UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS Departamento de Museologia e Conservação e Restauro Bacharelado em Conservação e Restauro de Bens Móveis ICONOGRAFIA MAÇÔNICA NAS CARRUAGENS FÚNEBRES DE PELOTAS LUCIANE PACIFICO DOS SANTOS MACHADO Pelotas - 2011
LUCIANE PACIFICO DOS SANTOS MACHADO ICONOGRAFIA MAÇÔNICA NAS CARRUAGENS FÚNEBRES DE PELOTAS Trabalho acadêmico apresentado ao Curso de Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Pelotas, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis. Professor Orientador: Profª Drª Luiza Fabiana Neitzke de Carvalho/UFPEL Pelotas - 2011
Data de aprovação: BANCA EXAMINADORA Professores: Assinatura Profª Drª Andréa Lacerda Bachetini - UFPel Profª Drª Luiza Fabiana Neitzke de Carvalho UFPel (Orientadora) PELOTAS/ 2011
Em memória de Praxedes Cabral, querida avó e de Moacir, amado pai.
AGRADECIMENTOS Primeiro de tudo agradeço a Deus, pela graça de estar viva e com saúde. Agradeço ao meu marido Luís Henrique, por todo amor e compreensão que ele dedicou a mim durante todo o processo de conclusão deste trabalho e ao longo de todo o curso. Aos meus filhos Naia, Ayan e Laura sou imensamente grata, pois aceitaram e entenderam todas as minhas ausências em vários momentos de suas vidas. Sou profundamente agradecida à professora Andréa Bachettini por tão gratificante e apaixonante sugestão. A qual mostrou ser ao mesmo tempo instigante e muito reveladora sobre hábitos e costumes, dos tempos áureos de nossa cidade. Agradeço também a minha orientadora Luiza Fabiana, por sua paciência com meus muitos erros, e por estar sempre pronta a mostrar-me o caminho certo. Sua confiança e amizade foram primordiais para a conclusão deste trabalho. Sou extremamente agradecida a todas as pessoas que me auxiliaram de uma forma ou de outra. Agradeço aos professores, Maria Letícia Mazzucchi, Roberto Heiden, Jaime Mujica, Pedro Sanches, Daniele Fonseca, Francisca Michelon, em fim todos que partilharam seus conhecimentos comigo. A todos os funcionários do Curso de Conservação e Restauro, especialmente ao Jeferson e a tia Keli, por estarem sempre prontos para ajudar e esclarecer as dúvidas que foram surgindo ao longo de toda a trajetória do curso.
6 Dedico um sincero e profundo muito obrigado a todos aqueles, que em hora oportuna criticaram o meu trabalho, pois suas criticas tiveram o efeito de me incentivarem para fazer um trabalho com a dignidade, que acredito que MEUS objetos de pesquisa mereçam. Agradeço a atenção e a generosidade da diretora do Museu Municipal Parque da Baronesa Annelise Montone. Por ultimo, mas não menos importante agradeço a todos meus amigos que me incentivaram e me apoiaram nessa vida acadêmica. Entre os amigos dedico um especial muito obrigado ao professor Antonio Décio, que dedicou seu precioso tempo para me dar dicas que foram fundamentais para a conclusão deste trabalho. Um muito obrigado ao amigo Everton Sena, aos meus cunhados Ruth e Bruno e os sobrinhos Renata e Guilherme. Meus eternos e sinceros agradecimentos a todos!
Que o teu trabalho seja perfeito. Para que, mesmo depois da tua Morte, ele permaneça. Leonardo da Vinci
RESUMO Iconografia Maçônica nas Carruagens Fúnebres de Pelotas O presente trabalho irá analisar a simbologia existente nas Carruagens Fúnebres de Pelotas, e a influência que a Maçonaria exerceu em sua confecção. Serão estudados os significados iconográficos dos símbolos do conjunto alegórico das carruagens, tendo como base um dos princípios da Maçonaria, que adota o símbolo como importante difusor de seus ideais. As Carruagens Fúnebres construídas nos anos de 1854 e 1865 pertenciam a frota de veículos funerários da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, elas fizeram o translado dos restos mortais da população para o Campo Santo, até a década de 1970, e após esse período, foram doadas à Prefeitura Municipal de Pelotas. Sendo recolhido como acervo do Museu Municipal Parque da Baronesa, por falta de espaço físico no Museu, esse patrimônio encontra-se atualmente em um deposito do Município. O trabalho norteou-se por leituras e interpretação das imagens, que foram inventariadas e catalogadas. Cada escultura foi analisada separadamente, e o conjunto destas analises traçaram o quadro para a leitura iconográfica. Usando para isso o método descrito por Panofsky que define que A Iconografia é, portanto, a descrição e classificação das imagens. Palavras chave: Carruagens Fúnebres. Iconografia. Maçonaria.
ABSTRACT Masonic Funeral Coaches in the Iconography This paper will analyze the existing symbols of Funeral Coaches in Pelotas, and the influence that Freemasonry exercised in making it. Will be studied iconographic meanings of all symbols of all the allegorical carriages, one based on the principles of Freemasonry, which adopts the diffuser as an important symbol of their ideals. The Funeral Chariots built in the years 1854 and 1865 belonged to the fleet of hearses, Santa Casa of Misericódia of Pelotas, they made the transfer of the remains of the population to the city of Pelotas. Being collected as Municipal Park Museum s is currently in a warehouse in the city. The work was guided by readings and interpretation of images, which have been inventoried and cataloged. Each sculpture was analyzed separately, and all these analysis outlined the frame work for the iconographic reading. Using for this the method described by Panofsky hat defines that Iconography is, therefore, the description and classification of images. Key words: FUNERAL COACHES. ICONOGRAPHY. FREEMASONRY.
SUMÁRIO INTRODUÇÃO... 14 Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 RITOS DE PASSAGEM... 17 GALA NOS CORTEJOS FÚNEBRES... 24 SÍMBOLOS E SEUS SEGREDOS... 34 SIGNIFICADOS ICONOLÓGICOS... 54 Colunas arquitetônicas... 54 Mãos entrelaçadas... 55 Estrela de cinco pontas... 55 Balança... 56 Cruz... 56 Galho de carvalho... 56 Galho de oliveira... 56 Foice ou gadanha... 57 Palma... 57 Cálice... 57 Âncora... 57 Ampulheta... 57 Tocha decorada com harpias... 57 Livro aberto com Hera entrelaçada... 57 Anjo... 58 CONCLUSÕES... 59 GLOSSÁRIO... 62 BIBLIOGRAFIA.... 63
ANEXOS... 65 11
LISTA DE FIGURAS Figura 1 Debret. Enterros no interior das igrejas.... 17 2 Debret enterro negro.... 20 3 Debret gravura de um cortejo fúnebre no Brasil... 20 4 Coche do Embaixador. (viagens-na-maionese.blogspot.com)... 26 5 Coche da Coroação de Lisboa, detalhe da parte traseira.... 27 6 Carruagem pertencente ao Rei Sol, Luis XIV.... 28 7 Carruagem de gala de D. Pedro II, pertencente ao acervo do Museu Imperial de Petrópolis. Fonte: Ana Beatriz.... 29 8 Carruagem de luxo, responsável pelo transporte dos restos mortais de pessoa da elite de Pelotas.... 30 9 Carruagem de Anjinhos.... 31 10 Cortejo Fúnebre do Coronel Pedro Osório... 33 11 Adorno Carruagem de luxo.... 36 12 Anjo Carruagem de Luxo.... 39 13 Fragmento anjo Carruagem de Luxo.... 39 14 Adorno principal, Carruagem de Luxo.... 40 15 Fragmento anjo Carruagem de Luxo.... 40 16 Detalhe do anjo da parte da frente da Carruagem de Luxo.... 41 17 Detalhe adorno parte dianteira da lateral, Carruagem de Luxo... 41 18 Detalhe de uma das Coluna Compósita.... 42 19 Detalhe do ornato com livro aberto.... 43 20 Detalhe da parte de trás do ornato.... 43 21 Ornamento da lateral.... 44 22 Concha de Vieira. Fonte: Autora... 44
13 23 Detalhe do acrotério.... 45 24 Adorno solto.... 45 25 Detalhe do adorno de uma das extremidades.... 46 26 Detalhe da extremidade da tampa da urna.... 46 27 Lateral da tampa da urna funerária.... 47 28 Detalhe de uma das extremidades da urna. Fonte: Autora.... 47 29 Lateral da urna.... 48 30 Detalhe dos pés da urna.... 48 31 Extremidade da urna.... 49 32 Coroa de Palmas.... 49 33 Detalhe da decoração do adorno do objeto.... 50 34 Detalhe do escudo que orna o adorno.... 50 35 Detalhe da lateral da Carruagem de Anjinhos.... 51 36 Detalhe do ornato da parte da frente da Carruagem.... 52 37 Coluna Jônica. Fonte: Autora.... 52 38 Adorno solto da Carruagem de Anjinhos.... 53 39 Acrotério da parte superior da Carruagem de Anjinhos.... 53
LISTA DE TABELA Tabela 1: Índice Iconográfico e Iconológico. Fonte: H. F.Ullmann.... 37 Tabela 2: Significados dos símbolos Maçônicos, (Dicionário de Maçonaria), Sinais e símbolos... 61
INTRODUÇÃO A presente monografia é resultado do trabalho de conclusão de curso, da graduação do Bacharelado em Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis do Instituto de Ciências Humanas vinculado a Universidade Federal de Pelotas. O trabalho teve como objetivo principal a análise dos símbolos iconográficos que compõem o conjunto escultórico ornamental das Carruagens Fúnebres de Pelotas. Essa pesquisa inventariou e catalogou os símbolos imagéticos das Carruagens Fúnebres, para identificá-los como sendo pertencentes ao repertório da iconografia da Maçônica. Utilizando como base um dos princípios da maçonaria, (que teve forte atuação no desenvolvimento intelectual e cultural do Brasil e de Pelotas no século XVIII), que se vale da simbologia como um método de autoconhecimento, com os quais os membros da irmandade se identificam e reconhecem as mensagens secretas da confraria. Esse trabalho é parte integrante do projeto de restauro do acervo sacro do Museu Municipal Parque da Baronesa. Para a Maçonaria; - O símbolo faz partes dos segredos maçônicos, e ao maçom cabe lê-lo e interpretá-lo, retirando do mesmo o aprendizado. Por isso, o símbolo tem valor autodidático. Desta forma o símbolo constitui, para o maçom, parte de uma doutrina que ele deve seguir se quiser emergir da escuridão da ignorância para a luz da sabedoria. (Dullius, Peretti 2008, 191). A Maçonaria esteve presente na história do Brasil desde os tempos coloniais. Seus membros mostraram força política ao assumirem um posicionamento anti-colonialista, o que culminou com a Independência do Brasil. A história do país, se confunde com a história da Maçonaria no Brasil. Essa sociedade que já
16 desempenhava um papel importante, nos acontecimentos históricos brasileiros, encontrou em Pelotas, solo fértil, para seus ideais de progresso positivistas. A atuação da Maçonaria, via de regra esteve voltada para os interesses e necessidades de cada época. No Brasil os Maçons participaram de vários movimentos que envolveram a formação de nossa Nacionalidade (...). Em Pelotas não foi diferente. A Maçonaria, desde a criação das primeiras Lojas, envolveu-se ativamente não só com os problemas nacionais, mas também com as aspirações e necessidades da comunidade ( Amaral, 1999,48). A Maçonaria esteve representada em diferentes setores da sociedade no século XIX, seus membros eram comerciantes, militares, artistas, professores, estancieiros, médicos, advogados, farmacêuticos, políticos, industriais, magistrados, entre outros. Baseados no lema da fraternidade a Maçonaria pelotense criou ou participou da criação de diversos órgãos de assistência social e educacional na cidade. Os Maçons tiveram importante atuação na fundação e na construção do Hospital Santa Casa de Misericórdia, fundaram também o Asilo de Órfãs (hoje Instituto Nossa Senhora da Conceição), e o Ginásio Municipal Pelotense entre outras instituições. Dentre essas instituições assistenciais que tiveram atuação da Maçonaria, destacamos a Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, que foi criada nos moldes da Irmandade fundada em Lisboa a 348 antes (Nascimento. 1987). Tal como nas Irmandades européias era de responsabilidade da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas a administração do Cemitério Municipal e o transporte dos restos mortais da população para a necrópole. Com a cidade vivenciando seu apogeu econômico, a mesa administrativa da Santa Casa empenhou-se em angariar fundos para aquisição de carroças e carruagens que transportariam os cadáveres dos moradores da cidade para o local de sua última morada. O primeiro veículo comprado foi uma Carruagem Fúnebre (1857) ricamente ornamentada, com iconografia variada, na cor preta com detalhes dourados. A compra foi realizada com donativos do Sr. Custódio Vieira de Araujo, veículo era conhecido como carro de luxo. Essa carruagem servia para realizar o cortejo das pessoas de posses para o local de suas sepulturas. No ano de 1861 a instituição adquiriu uma carruagem destinada ao transporte de crianças, virgens e
17 rapazes (até 18 anos), de cor branca com adornos na cor dourada. Veículo mais sóbrio em seus adereços decorativos, devido à crença que esses eram livres de pecados, e com sua morte eles iam direto para o paraíso, sem ter que sofrer expiações no purgatório. O trabalho baseou-se em documentação histórica, como livros de atas e ofícios da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, livro tombo do acervo do Museu Municipal Parque da Baronesa, periódicos da cidade de Pelotas, em documentação fotográfica e bibliografia, que trata dos hábitos e costumes diante da Morte do século XVIII ao início do século XX. Tempo em que as Carruagens Fúnebres desfilavam imponentes pelas ruas de Pelotas, fazendo com que os transeuntes que por elas cruzassem, demonstrassem respeito e reverência, para aquele ser que fez sua passagem para o Além. A pesquisa tem como objetivo maior fomentar na sociedade pelotense o reconhecimento das Carruagens Fúnebres, como testemunhos de um passado de glórias e pompas que nossa cidade viveu. Esse testemunho não pode ficar guardado em depósitos empoeirados, longe dos olhos das novas gerações, que desconhecem os rituais que envolviam a morte no passado de Pelotas. Esses objetos merecem lugar de destaque na memória do povo de nossa cidade. Porque é fundamental para a História de uma sociedade todos os fatos serem contados em sua totalidade, sem que nenhuma parte seja omitida ou esquecida. E os rituais que envolvem a morte fazem parte do conjunto de fatos da história de qualquer Nação, mesmo que para alguns esse assunto seja um Tabu, pois atualmente esse tema é um assunto relegado a um plano secundário. Os ritos fúnebres ajudam a compor o quadro social e cultural de qualquer Nação, assim como os objetos empregados nesses rituais. Para a realização do trabalho, os ícones do conjunto imagético das carruagens foram fotografados e catalogados. Com base nessas fotografias, os símbolos foram identificados, e foi feita uma interpretação iconográfica e iconológica dos mesmos.
CAPÍTULO 1 RITOS DA PASSAGEM No século XVIII, os funerais deixaram de ser somente de cunho familiar devido à mudança de hábitos e costumes, em tempos passados, em torno do século XIII, o moribundo cumpria o ato cerimonial tradicional, que era composto das despedidas dos amigos e familiares e do ato eclesiástico da extrema unção 1. O costume europeu mudou devido à mudança dos rituais fúnebres usados na época, que abandonava os corpos para a igreja, a esta cabia o cuidado com os restos mortais. Figura 1. Debret. Enterros no interior das igrejas. Fonte:brasiliana.usp.br (02/11/11)
19 Os sepultamentos passaram a ser vistos como um ato de caridade, assim estes foram estendidos, à população em geral, independente de seu status social. Os cultos funerários da Antiguidade, mesmo, aqueles com alguns traços remanescentes no folclore haviam seguramente desaparecido. cristianismo livrara-se dos corpos abandonando-os à igreja, onde eram esquecidos. Foi no fim do século XVIII que uma nova sensibilidade não mais tolerou a indiferença tradicional, e que uma devoção foi inventada tendo se popularizada e difundida na época romântica que acreditaramna imemorial (ÁRIES. 17, 2003). Nessa época o sentimento deixou de ser estritamente de fórum íntimo e passou a ser uma ação popular onde clérigos e pobres juntaram-se aos cortejos, passando assim a dramatização do ato fúnebre. Com muitos círios, tochas, choro, flores, e sobre tudo missas. Segundo Philippe Ariés, desde o período medieval, a morte esteve presente no cotidiano da sociedade ocidental. Acreditando que cada indivíduo teria um julgamento celeste particular e acreditando na possibilidade do padecimento eterno no inferno, a preocupação com a morte tornou-se uma constante. Por esse motivo foram adotadas estratégias, para garantir um bom destino e a salvação da alma, após a morte. Com isso os cerimoniais fúnebres revestiram-se de um caráter emocional e solene, os ritos tornaram-se então, espetáculos públicos. Os costumes que envolviam a morte não mudaram até o século XVI, quando a Igreja Católica elegeu o estilo Barroco como elemento artístico da Contra reforma. A pratica cristã, da boa morte, associada à cultura barroca, foi responsável pelos rituais funerários da comunidade ibérica e de suas colônias. Os grandes responsáveis pela difusão destas práticas e rituais foram as irmandades religiosas, que vieram para as colônias. As diferenças das classes sociais ficaram salientadas com esses rituais e praticas, onde quanto mais alta a posição social no mundo dos vivos, mais belo o ritual mortuário. Com a crescente pomposidade nos ritos fúnebres, aumentava a disparidade entre ricos e pobres.
20 (...) Os ricos, nobres, inspirados na morte dos soberanos, faziam de seus funerais e missas fúnebres um espetáculo de profusão barroca (...). O funeral barroco se caracteriza pela pompa: o luxo dos caixões, dos panos funerários, a quantidade de velas queimadas, o numero de participantes no cortejo _ padres, pobres, confrarias, músicos, autoridades, convidados_, a solenidade e o numero de missas de corpo presente, a decoração da igreja, o prestígio do local escolhido para sepultura ( REIS. 74, 1999). Para assegurar a todos uma boa morte, as irmandades assumiram o serviço de assistência funerária, desta forma, estendendo os mesmos rituais a todos, ricos e pobres. Com a criação e a difusão das Casas de Misericórdia em Lisboa, no ano de 1498, abriu-se caminho para a proliferação destas irmandades. Não só em Portugal como também na colônia brasileira. Essa sociedade tornou-se uma das principais instituições de assistência social, ao longo dos tempos. As Santas Casas tinham como ideal a renovação do espírito, por isso a prática de sepultamentos e a oração por vivos e mortos ganharam uma grande significação. O enterro era tido por algumas destas instituições como um dos principais compromissos de misericórdia. Estes rituais de solidariedade estavam associados aos princípios de que a boa morte nunca seria uma ação solitária e que precisava do auxílio de todos, ajudando a alma a fortalecer-se perante a presença de Deus, isso que ocorria servia para o espírito, no que dizia respeito ao âmbito material as Casas de Misericórdias tiveram de cobrar taxas para a realização dos serviços de sepultamento. No tempo do Brasil Império os rituais fúnebres mantiveram-se inalterados em relação aos mesmos que ocorriam na Europa. Pelo fato do Brasil ter sido uma colônia portuguesa, os rituais fúnebres eram mantidos da mesma forma. A morte era observada como um rompimento do cotidiano e para restabelecer a rotina, os rituais fúnebres serviam para colocar a vida dos vivos em harmonia, tal como a vivida antes, da perda do ente querido. As pompas fúnebres evidenciavam o poderio econômico da família do finado. Isso era mostrado com o grande numero de clérigos, pobres e desafortunados fisicamente. Quanto mais pomposo fosse o cortejo maior o prestígio social do defunto.
21 Figura 2:Debret enterro negro. Fonte: brasiliana.usp.br (02/11/11). Os escravos e os menos abastados financeiramente garantiam uma boa morte filiando-se às confrarias e irmandades, pois essas impunham regras aos seus filiados, sendo sua presença obrigatória nos funerais dos membros falecidos. O não comparecimento nos velórios dos irmãos era a transgressão desta regra, e também considerado como um mau presságio, pois essa falta equivalia a não ter um acompanhamento no próprio sepultamento. Mas não eram todos os escravos que se associavam a confrarias, alguns mantinham o ritual funerário nos moldes africanos. Os rituais africanos resistiram à proibição da igreja católica, mantendo-se fiéis ao modelo trazido pelos seus antepassados, mesmo incorporando algum sincretismo cristão, a essência dos rituais manteve-se a mesma. Os ritos fúnebres serviam apenas como uma forma de extravasar os sentimentos. Com seus atos pomposos visavam restabelecer o seu cotidiano, unindo vida e morte, desta forma então exaltando a passagem do outro ao além. Figura 3: Debret gravura de um cortejo fúnebre no Brasil. Fonte: brasiliana.usp.br (02/11/11).
22 E assim, parentes e amigos dos mortos, a própria igreja e até o Estado terminavam por definir mais do que os mortos o feitio dos funerais. Estes pertenciam aos vivos, que neles projetavam sua dor, insegurança e culpa, mas também seus valores culturais, hierarquias sociais, ideologias políticas e religiosas. As famílias enlutadas faziam desses enterros uma oportunidade de demonstrar seu prestigio, proporcionando aos convidados um espetáculo fúnebre equivalente, ou se possível superior a sua posição social (REIS, 159. 1999). A perda é inerente a vida. O homem vive muitas perdas ao longo de sua vida: ele perde a juventude, perde as ilusões, sofre a perda das ambições, saúde, e infelizmente ele sofre a perda de entes queridos. Essa perda demanda nos dias de hoje, assim como no século XVIII, uma série de procedimentos. O primeiro é a preparação do corpo, em seguida a preparação dos rituais (escolha da urna, escolha da mortalha, escolha do local da sepultura), cuidados são demandados também com o transporte do corpo. O modo do ser humano encarar a morte passa por diferentes estágios, o primeiro deles é a negação, depois vem a revolta e por último a aceitação. Antigamente, as pessoas acreditavam que para ter uma boa morte deviam organizar-se. E para isso redigiam testamentos, deixando assim sua morte determinada. Segundo esses testadores acreditavam que esse procedimento seria um salvo-conduto para um bom lugar no além. A fundação da Santa Casa de Misericórdia, em 1848, fez com que as pompas fúnebres fossem instituídas em nossa sociedade nos moldes europeus. Em Pelotas a preparação das cerimônias da morte, ocorria com os testamentos que elencavam as vontades do moribundo. Continham descrições detalhadas de como deveriam ser todos os procedimentos, que vão desde a preparação do corpo (vestimenta), a forma dos cortejos, o local de sepultamento, e sobre tudo a quantidade de missas que deveriam ser realizadas em nome do testador e dos Santos de devoção do mesmo. No testamento estava estipulado o valor que o mesmo pagaria para a realização destas missas e os donativos distribuídos aos pobres, que acompanhavam seu cortejo, as esmolas para as instituições de caridade também estavam contidas nesse documento.
23 Podemos então nos reportar ao trabalho de Denise Ognibeni, que apresenta os testamentos deixados por pessoas de nossa comunidade, preocupadas em garantir uma boa morte, em conformidade com os hábitos e as leis da época. O Visconde de Jaguary, Domingos de Castro Antiqueira, foi o testamenteiro que mais fez disposições sobre sua morte, redigindo um longo discurso voltado, entre outras coisas, para seus santos protetores, para os quais dirigia suas palavras. Primeiramente encomendo minha alma a Santíssima Trindade que o creio e rogo ao seu filho queira recebê-la na sua eterna glória e pessoa Nossa Senhora há de me valer e socorrer na hora da morte, que por mim queira interceder e rogar ao anjo da minha guarda e ao santo do meu nome com todos os santos da corte do céu e os quais pretendo viver e morrer na santa fé católica como fiel cristão que sou. Para seu enterro o Visconde determinou que seu corpo fosse (...) envolto no hábito do seráfico padre São Francisco com a minha dignidade e a permitir acompanhado pelas minhas Irmandades com todos os sacerdotes que se acharem no lugar onde for sepultado, tudo à mais de meu enterro deixo à determinação de meu testamenteiro que evitará todo o fausto.(92, 2005). Segundo ela os testadores mais abastados não querendo ostentações pediam nos seus documentos que não houvesse pompas nas suas exéquias, mas na verdade desejavam todos esses rituais que envolviam a boa morte. Os testadores mais abastados, buscando a salvação de suas almas procuravam mostrar seu desprendimento dos bens materiais e das aparências mundanas pedindo invariavelmente a seus testamenteiros que seu enterro fosse feito sem pompa, com decência, decente, mas sem ostentação, sem fausto nem grandeza ou o mais simples possível. No entanto, apesar destes pedidos logo se deixava entrever o desejo do moribundo de que seu enterro fosse mais um momento onde ele demonstraria publicamente suas qualidades de bom cristão. (92, 2005). Os testadores em seus documentos também detalhavam os valores que seriam pagos, para as missas de intenção de sua alma. Os testadores determinavam o número de missas que seriam rezadas após sua morte podendo variar de 5 a 2000 missas, celebradas em várias igrejas e locais diferentes até mesmo no Rio de Janeiro ou outras localidades distantes onde tinham negócios ou parentes. Os padres eram remunerados pelas missas encomendadas e em geral era determinado nos testamentos que fosse pago por elas a esmola de costume ou pelos seus preços correntes, ou seja, o valor estabelecido na época. No entanto alguns testadores indicaram o valor a ser pago por suas missas variando de 2#000 a 4#000 réis ou também de 1 a 2 patacas. Aos pobres ou menos afortunados restava solicitar um número reduzido de missas.(95, 2005)
24 Para que os sofrimentos no pós morte, fossem abreviados, os indivíduos desta época pagavam sufrágios (missas, preces e esmolas), tudo isso com o objetivo de abreviar suas penas e expiações na vida no Além. As pompas nas missas fúnebres segundo Reis (218, 1999). As missas, principalmente as de corpo presente, podiam ser muitas e ocasião de grande pompa, medida por sua solenidade, inclusive o numero de padres celebrantes. As missas mais opulentas eram cantadas, acompanhadas por orquestra, e para seu brilho, concorriam também a decoração da igreja, o luxo da urna funerária e a posição do cadáver neste cenário. A maneira de tratar os restos mortais de um ente querido na atualidade, é quase da mesma maneira que se tratava os mortos no início da Idade Média essa época os cadáveres eram relegados as igrejas, e nos dias de hoje o doente é relegado aos hospitais, e em caso de óbito, o corpo é recolhido pelas funerárias e o sepultamento é o ato final da sociedade para com aquele individuo. O luto só é vivido pelos familiares, mais íntimos (esposa, filhos e pais...). Os rituais fúnebres perderam a pomposidade e sua significação na sociedade capitalista, pois o homem é encarado como parte de uma grande engrenagem na unidade produtora, que é a sociedade moderna. O falecimento de um indivíduo desta engrenagem é visto como uma ruptura na cadeia de valores na escala produtiva. Atualmente a morte é um assunto tabu, pois tudo referente a ela está escondido ou simplesmente relegado a um plano secundário. Os rituais fúnebres reduziram-se ao mínimo decente, os procedimentos destinados a fazer desaparecer aquele elo quebrado, na cadeia produtiva. A sociedade em geral, amigos e crianças não devem aperceber-se que aquela pessoa morreu. As cerimônias fúnebres tornaram-se acontecimentos discretos.
CAPÍTULO 2 GALA NOS CORTEJOS FÚNEBRES Os cortejos fúnebres eram acontecimentos sociais no século XVIII e XIX, destinados a mostrar ou reafirmar o status, dos indivíduos. Após a morte, os familiares começam os rituais religiosos da morte: O velório, onde acedem velas, fecham janelas, cobrem espelhos, param relógios, e preparam o corpo do defunto (...). Finalmente, vem o enterro, e o cortejo, acompanhado por familiares, amigos e conhecidos. O trajeto segue pelo espaço no qual vivera, passa obrigatoriamente pela igreja, onde recebe os ritos de purificação para entrar em outro mundo. Da igreja, segue para o cemitério, sua ultima morada, onde ser preservada a sua memória (PICANÇO. 18, 2004). Os sepultamentos nos cemitérios foram uma tarefa árdua que médicos sanitaristas, sacerdotes mais esclarecidos e intelectuais iluministas, tiveram que empreender. A população acreditava que ao serem enterrados nas igrejas ou em seu entorno, os mortos estariam automaticamente, colocados em um bom lugar no além. Esse hábito perdurou por vários séculos, mas acabou mudando em meados do século XVIII, sob a alegação, segundo João J. Reis que (...) os cadáveres humanos contavam entre as principais causas de formação de miasmas mefíticos 2, e afetavam com particular virulência a saúde dos vivos, porque eram depositados em igrejas e cemitérios paroquiais dos centros urbanos. Foram feitas leis que proibiam os sepultamentos nas igrejas, conventos e mosteiros, os cemitérios deveriam ser afastados das cidades. A população resistiu o máximo que pode as mudanças previstas em lei. Mesmo havendo proibições a
26 população seguia fazendo sepultamentos nas igrejas, isso só mudou no momento que as autoridades exerceram uma vigilância rigorosa e uma fiscalização efetiva. A partir deste momento, os cortejos, fazem-se da seguinte maneira: de casa para igreja, onde são realizadas as missas e a purificação do defunto, e finalmente para o cemitério. Em Pelotas a Santa Casa de Misericórdia detinha o monopólio do Cemitério Municipal, que foi criado no ano de 1855, devido às leis que exigiam que os sepultamentos, teriam de ser realizados em locais afastados da zona urbana. Para que a lei fosse cumprida, o governo da Província desapropriou o terreno, para esse fim, mas a Irmandade adiava a construção do mesmo, alegando falta de recursos financeiros. Com o aparecimento da epidemia do Cólera, a Instituição, não pode mais adiar a construção do cemitério. Com a distância maior que os cortejos percorriam até o cemitério, afastados dos centros urbanos, o transporte do corpo tornava-se muito penoso para aqueles que acompanham o féretro 3, é nesse contexto que surgem os veículos usados para realizar o translado dos restos mortais. Como um meio de facilitar o transporte dos mortos foram usadas redes, (que consistiam de um tecido com as extremidades fixas em uma haste que era conduzida por pessoas, que acompanhavam os cortejos), após vieram os carros de bois, e finalmente as, carroças e as carruagens, destinadas para esse fim. As carruagens tem sua história contada por militares, nobres e soberanos. Surgiram inicialmente no século XIII a.c, com o uso militar e posteriormente elas apareceram na Roma antiga. Nessa época elas só podiam circular durante a noite devido ao grande fluxo de pessoas e animais que lotavam o centro da cidade em outros horários, e esses veículos também eram destinados ao transporte de mercadorias e objetos. Após a queda do Império Romano do Ocidente, o modo de se construir carruagens desaparece, ressurgindo no século XVI, como veículos usados pela nobreza. Os veículos de tração animal receberam designação de Coches por volta do século XV. Essa designação foi dada ao carro que tinha a sua caixa suspensa, por correntes e correias de couro. Todos os veículos usados até então eram
27 compostos por caixas ligadas diretamente aos eixos dos rodados, o que tornava o transporte nesses veículos muito incômodos. Quando foi inventada a suspensão, esses veículos tornaram-se o meio de transporte mais valorizado da antiguidade. Por esse motivo ele foi eleito por reis e soberanos como seu meio de locomoção preferido. Com a invenção da suspensão, provavelmente originário na Hungria, deu-se início a uma profunda alteração no domínio dos transportes terrestres, valorizando o carro como um meio de deslocamento quotidiano e promovendo a sua utilização como transporte próprio de reis, contribuindo para a substituição do ideário medieval do cavaleiro como figura de representação máxima do poder aristocrático (BESSONE, 35, 2010). Seu uso foi difundido no século XVI, e por serem veículos usados por reis, nobres, chefes de Estado e pessoas de alto poder aquisitivo, ligadas a nobreza. Os veículos encomendados por essas pessoas tinham símbolos que espelhavam seu status na sociedade, esses símbolos representavam seus cargos políticos, ou suas conquistas territoriais, seus brasões de família, suas armas, etc. Figura 4: Coche do Embaixador. Fonte: www.museudoscoches.pt, (02/11/11) Deste momento em diante os construtores começam a competir entre si para fazer as melhores e mais bonitas carruagens. A eles juntaram-se carpinteiros, pintores, entalhadores, douradores, envernizadores e vidraceiros, que juntos construíam os mais variados tipos de carruagens destinados aos mais variados tipos de cerimônias da nobreza.
28 As carruagens recebiam adornos conforme o cargo de seu proprietário ou conforme a finalidade a qual essa se destinava. Os suntuosos coches eram decorados com hieróglifos e outros símbolos, representando as várias regiões subordinadas a Sua Majestade portuguesa; o primeiro coche foi decorado por Gimac com dois grandes cavalos marinhos em homenagem ao titulo do Rei, Senhor da Navegação, da qual este Monarca se sente extremamente orgulhoso. O chão do coche era decorado na moda dos marchetados, com fitas embutidas de ébano e marfim, como tributo do Rei a uma das suas províncias marítimas, o Brasil; O primeiro dos quatro coches estava todo decorado com belos galões e delicados bordados e franjas em ouro. (BESSONE, 80, 2010). Figura 5: Coche da Coroação de Lisboa. Fonte: www.museudoscoches.pt( 02/11/11). As carruagens foram inseridas nos cortejos como peças - chaves para as demonstrações de prestígio e riqueza, da nobreza. Comuns desde a antiguidade como forma de enaltecer a importância de uma vitória militar, ou o poder e grandeza de uma corte, os cortejos, geralmente acompanhados de grandes festejos, eram, além de tudo, uma forma entusiasticamente participada de quebrar a monotonia da vida das aldeias e cidades por onde passavam.(...) Os cortejos ganharam um maior aparato e transformam-se em grandiosas manifestações de opulência consagrando a imagem do Poder Real. A corte portuguesa não fugiu à regra.(bessone, 113, 2010).
29
30 Figura 7: Carruagem de gala de D. Pedro II, pertencente ao acervo do Museu Imperial de Petrópolis. Fonte: Ana Beatriz (02/11/11). Como ter ou usar carruagens traduzia-se em ter poder e status, nada mais lógico que essa opulência fosse levada para os veículos que participavam dos cortejos fúnebres, e foi por esse motivo que começaram a ser confeccionadas carruagens ricamente adornadas com iconografia representativa da morte. As Carruagens Fúnebres tinham a finalidade de conduzir o individuo em seu ultimo desfile de glória. (...) na sociedade hierarquizada do fim da Idade Média, os ritos das exéquias respeitavam e prolongavam o estado que Deus havia imposto ao defunto desde seu nascimento. Cabia a cada um, como um dever, manter durante sua vida, e também após sua morte, o devido lugar e a devida dignidade (ARIÉS,133, 2003). Como no Brasil as Santas Casas detinham o monopólio dos funerais e dos sepultamentos, foi a promulgação da Constituição de 1891 que deu fim ao monopólio desta Irmandade sobre os cemitérios, assim como ao transporte dos cadáveres. Devido a esse monopólio as Casas de Misericórdia, foram as principais proprietárias de veículos funerários, o que lhes garantia a principal receita da Instituição.
31 Os veículos eram comprados com donativos angariados junto a comunidade. Um exemplo deste fato é o caso do veículo comprado pela Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, adquirido com donativo de seiscentos mil réis, doados pelo Sr. Custódio Manoel Vieira de Araujo. O carro funerário foi encomendado no Rio de Janeiro e chegou à Pelotas em agosto de 1854. Esse veículo ficou conhecido na cidade de Pelotas como Carruagem Nobre ou simplesmente como Carro dos Ricos, por ser uma das carruagens mais luxuosas da Irmandade. Era usada para o transporte dos restos mortais de pessoas da chamada classe alta: charqueadores, banqueiros, donos de fábricas, comerciantes e lojistas, ou pessoas que tivessem dinheiro para pagar os serviços de Pompas Fúnebres, que a Instituição disponibilizava. Dentre esses serviços que a instituição oferecia, a distinção do poder aquisitivo estava demonstrada até mesmo pela quantidade de cavalos e seus luxuosos paramentos, diferenciando assim o status social do finado. Figura 8: Carruagem de luxo, responsável pelo transporte dos restos mortais de pessoa da elite de Pelotas. Fonte: Andréa Bachettini. A Carruagem Fúnebre, ricamente ornamentada, com entalhes alusivos a morte e a fé, é um carro de cor preta com detalhes dourados. Dentre todos os veículos pertencentes a instituição, essa era carruagem que mais se destacava pela faustosa ornamentação.
32 A mesa administrativa da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas adquiriu um veículo destinado ao transporte de anjinhos, pois entendia que o mesmo aumentaria a receita da instituição. O veículo foi encomendado em outubro de 1861, mas o mesmo não havia sido entregue em janeiro de 1865, segundo o livro de Registros de Ofícios da Administração (número de acervo ASCP 1 B 01, referentes aos anos de 1847 a 1870). Em reunião nessa mesma data, a mesa mandou um ofício ao Sr. Porfírio Ferreira Nunes, pedindo que esse intercedesse junto ao Sr. Caetano Ribeiro, para que agilizasse a entrega do referido veículo. Cuja demora era vista pela mesa como um sério prejuízo financeiro para a Irmandade. Não foi possível determinar com precisão a data que em esse veículo passou a integrar a frota de carros fúnebres de Pelotas.
33 esse conhecido pela população como Bate- Bate, que atendia os pobres de graça. O carro conhecido como Bate- Bate era uma carroça cuja caixa era assentada diretamente sobre os eixos, o que gerava barulho quando a mesma circulava pela cidade, e deriva-se daí a alcunha popular. Sobre a origem destes outros carros existe pouca documentação, mas nenhuma que de uma localização da sua procedência, e o destino destes veículos após a desativação dos serviços fúnebres pela Irmandade. As carruagens fúnebres foram atuantes nos cortejos de Pelotas, até a década de 1970, quando foram substituídas por veículos automotores. As carruagens fúnebres davam aos féretros uma aura de distinção e realeza, durante a condução dos restos mortais para o campo santo. Em Pelotas esse hábito de transportar os cadáveres para a tumba com pompas fúnebres nos cortejos perdurou até essa época. Um dos últimos cortejos com exéquias fúnebres realizado a bordo de uma carruagem em Pelotas foi o do Coronel Pedro Osório (28 de fevereiro de 1931). Figura 10: Cortejo Fúnebre do Coronel Pedro Osório Fonte: Acervo Nelson Nobre. Os dois veículos que resistiram ao descaso e ao abandono foram aqueles que a Santa Casa de Misericórdia doou ao Município de Pelotas no ano de 1989. Conforme carta de doação da Irmandade ao Museu Municipal Parque da Baronesa *. *Carta de doação em anexo.
34 Esses dois exemplares estão registrados no livro tombo do Museu sobre o número Carruagem Branca Nº MMPB 2618, e a Carruagem "Preta recebe o Nº MMPB 2619.
CAPÍTULO 3 SÍMBOLOS E SEUS SEGREDOS A raça humana sempre se utilizou de símbolos para transmitir suas idéias, seus costumes e suas crenças. Por esse motivo encontramos símbolos dos mais diversos tipos e nos mais diferentes locais. O simbolismo é um dos elementos de comunicação mais antigo usado pela humanidade. O simbolismo é uma forma de linguagem antiga e universal, que se define como catalítica e que estimula uma série intricada de idéias e de associações, ao mesmo tempo que pretende veicular informações e ser sugestiva, freqüentemente com base numa simples observação. Esta é uma forma de comunicação internacional que transcende as barreiras lingüísticas, nacionais históricas, culturais e religiosas. (H.F.ULLMANN 07,2001). O ícone é um símbolo portador de uma mensagem. Um bom exemplo do uso de ícones para transmitir mensagens são os símbolos usados nas placas de trânsito. Com um pequeno conhecimento prévio, é possível saber que uma placa quer dizer quando é proibido estacionar em um determinado local, quando estamos próximos de uma escola, quando há obras na pista... Esse método é usado nas mais variadas situações da vida diária, situações que vão desde as mais corriqueiras do dia-a-dia, até aquelas que são de cunho religioso. Em se tratando de religiões, foram essas que mais se utilizaram dos ícones e símbolos para transmitir suas mensagens de fé, e isso vem sendo usado desde a mais remota antiguidade. Esses símbolos são conhecidos nos dias de hoje como
36 símbolos de uma religiosidade católica, mas na verdade muitos deles são símbolos pagãos que foram incorporados à cultura da fé. Muitos símbolos pagãos que foram incorporados às diversas culturas receberam nova significação. Outros mantiveram seu significado original. A Maçonaria é um bom exemplo de uma cultura que se apropriou de símbolos e deram nova significação a esses. Os símbolos são um método de ensino, dos mais antigos que a humanidade conhece. Neste capitulo iremos fazer a leitura iconográfica e iconológica do conjunto imagético que compõem as Carruagens Fúnebres de Pelotas, mas antes se faz necessário conhecermos o método empregado para realizar essa leitura. Para tanto usaremos as definições de Erwin Panofsky (1991), que diz que: iconografia é o estudo dos ícones que compõem a obra de arte. Para exemplificar o que é uma leitura iconográfica usaremos a imagem da Cruz com Rosas entrelaçadas. Figura 11: Adorno da urna Carruagem de luxo. Fonte: Autora
37 Já a iconologia estuda o significado das imagens da obra de arte. Para facilitar o entendimento do que seja iconografia e iconologia, fizemos uma tabela com os significados da imagem acima. Tabela 1: Índice Iconográfico e Iconológico. Fonte significados: H. F. Ullmann. ICONOGRAFIA. ICONOLOGIA. CRUZ LATINA. SÍMBOLO DE FÉ CRISTÃ. FÈ NO AMOR DIVINO ROSA. EMBLEMA DE AMOR. Nas Carruagens Fúnebres de Pelotas o conjunto imagético foi confeccionado em madeira entalhada, os quais têm seus significados ligados à iconografia da morte e da fé, em um bom lugar no além. As Carruagens são veículos de tração animal de quatro rodas, compostas por bases e tetos que são sustentados por oito colunas em cada um dos carros, o que acaba tomando o formato de uma caixa. Nas caixas de ambos os veículos é onde se encontram os adornos. O conjunto decorativo da Carruagem de Luxo é composto de: Na base de ambos os lados, os elementos decorativos se repetem. Temos (figura 14) foices, galhos de carvalho, galhos de louro, balanças, estrelas, laços de três pontas e a cruz latina, tudo isso rodeado de arabescos e folhas de acanto. Esses elementos serão denominados de adornos principais. No lado esquerdo da carruagem aparece um anjo com asas abertas, essa escultura é fixa a base da
38 Carruagem por dobradiças 1, esse adorno, apresenta além do anjo (figura 12) uma concha de videira e folha de acanto. 1 O adorno correspondente encontra-se destacado da base do entalhe principal ( figura 13). Esse adorno está fragmentado em duas partes, (as quais foram recolhidas, na Secretária Municipal de Cultura (SECULT) e levadas para reserva técnica do Museu Municipal Parque da Baronesa).
39 Figura 12: Anjo Carruagem de Luxo. Fonte: Autora Figura 13: Fragmento anjo Carruagem de Luxo. Fonte: Autora
40 Na parte lateral, mais a frente, ainda temos representados lâmpada suspensa, laço, cruz latina, cetro (figura 15). Figura 14: Adorno principal, Carruagem de Luxo. Fonte: Autora Figura 15: Detalhe adorno parte dianteira da lateral, Carruagem de Luxo. Fonte: Autora.
41 Na parte da frente, da Carruagem de Luxo, temos representados um anjo de asas aberta (figura 16), como os das laterais, e sobre esse aparecem duas mãos entrelaçadas, arrematadas por uma representação de tecido com franjas (figura 17). Figura16: Detalhe do anjo da parte da frente da Carruagem de Luxo. Fonte: Autora. Figura17: Detalhe adorno da parte da frente Carruagem de Luxo. Fonte: Autora.
42 Sustentando o teto da Carruagem Preta temos quatro colunas compósitas de cada lado, da Carruagem. Essas colunas trazem elementos como espirais, flores entre outros (figura 18). Figura18: Detalhe de uma das Coluna Compósita. Fonte:Autora Entre as colunas existem ornatos, como uma coluna menor que tem um livro aberto sobre ela, onde folhas de hera e flores se entrelaçam sobre o mesmo (figura 19 e 20). Existe também um ornato composto de concha de vieira e folhas de acanto (figura 22), outros dois ornatos que representam chamas, cuja base esta decorada com harpias de asas abertas e a representação de um tecido que o rodeia acabando em franjas nas laterais (figura 21).
43 Figura19: Detalhe do ornato com livro aberto. Fonte: Autora Figura 20: Detalhe da parte de trás do ornato. Fonte: Autora
44 Figura 21: Ornamento da lateral. Fonte: Autora Figura 22: Concha de Vieira. Fonte: Autora Na Carruagem de Luxo encontramos acrotérios * nos cantos do teto, que na representação aparecem com espigas de milho na composição (figura 23). Temos ainda nessa Carruagem alguns ornamentos que estão soltos, como é o caso do adorno que tem na sua representação dois archotes que ladeiam um escudo.neste aparece uma ancora e uma cruz latina e um coração, essas representações têm sobre elas uma talha que representa um tecido (figura 24).
45 Figura 23: Detalhe do acrotério. Fonte: Autora. Figura 24: Adorno solto. Fonte: Autora. No interior da Carruagem Preta temos também uma urna funerária decorada com elementos variados. Esses elementos representam a iconografia da morte e da
46 fé. Na tampa da urna na extremidade inferior temos a cruz grega rodeada de folhas de palma (figura 25), já na extremidade superior temos a representação de mãos entrelaçadas sobre folhas de palma (figura 26). Nas laterais da tampa o que encontramos são folhas de palma unidas por um laço (figura 27). Figura 25: Detalhe do adorno de uma das extremidades. Fonte: Autora. Figura 26: Detalhe da extremidade da tampa da urna. Fonte: Autora.
47 Figura 27: Lateral da tampa da urna funerária. Fonte: Autora. Na urna funerária os elementos decorativos são: Cruz latina com rosas entrelaçadas na extremidade superior, nas laterais temos as coroa de flores circundada por ramos de louro unidos por um laço (figura 29), na outra extremidade existe uma coroa de flores e palmas (figura 31). A urna esta sustentada por quatro patas de leão (figura 30). Figura 28: Detalhe de uma das extremidades da urna. Fonte: Autora.
48 Figura 29: Lateral da urna. Fonte: Autora. Figura 30: Detalhe dos pés da urna. Fonte: Autora.
49 Figura 31: Extremidade da urna. Fonte: Autora. Na Carruagem Nobre encontramos ainda um objeto composto de três partes (que se assemelha à um biombo), e em cada uma das suas partes, existem elementos decorativos variados. Esses adornos são compostos de coroas de palmas unidas por laço e rosa (figura 32),que se repetem. Na parte do meio deste objeto temos a representação de um cálice, uma cruz latina e uma ancora (figura 33), circundadas por galhos de carvalho e unidas por um laço. Todos esses elementos estão rodeados por quatro escudos encimados por uma cruz grega, tendo ao redor folhas de acanto (figura 34). Figura 32: Coroa de Palmas. Fonte: Autora.
50 Figura 33: Detalhe da decoração do adorno do objeto. Fonte: Autora. Figura 34: Detalhe do escudo que orna o adorno. Fonte: Autora.
51 O Carro de Anjinhos é um veículo de quatro rodas, de tração animal, de cor branca. Na Carruagem de Anjinhos existem poucos elementos decorativos, devido à crença que crianças e virgens eram puras e livres de pecados, assim sendo eles já teriam um bom lugar no Além. O veículo de Anjinhos tem elementos decorativos, representativos da morte. Esses elementos são o archote e a foice (figura36), tais símbolos encontram-se cruzados e são unidos por um laço, que completa a composição. Nas laterais desta carruagem existem ampulhetas com asas (figura 35) circundadas por arabescos compostos de folhas de acanto. Esse veículo tem uma cobertura que é sustentada por oito colunas jônicas estilizadas (figura37). No teto deste carro verificamos a presença de acrotérios (figura 39). No interior desta carruagem encontram-se algumas partes decorativas que estão soltas. Esses adornos são decorados com archotes, escudo com cruzes latinas e folhas de acanto (figura 38). Figura 35: Detalhe da lateral da Carruagem de Anjinhos. Fonte: Autora.
52 Figura 36: Detalhe do ornato da parte da frente da Carruagem. Fonte: Autora. Figura 37: Coluna Jônica. Fonte: Autora.
53 Figura 38: Adorno solto da Carruagem de Anjinhos. Fonte: Autora. Figura 39: Acrotério da parte superior da Carruagem de Anjinhos. Fonte: Autora.
54 O conjunto ornamental de ambas as carruagens tem relação direta com os elementos da arte cemiterial. Essa arte representa o desejo de salvação do espírito no além, sua elevação moral, e o desejo dos familiares de que o finado vença todos os obstáculos que o separa da salvação. Para exemplificar o desejo de salvação no Além, faremos uma leitura iconológica de alguns ornamentos, isso se deve ao grande número de símbolos do grupo imagético das Carruagens. A leitura será baseada nos fundamentos da Maçonaria que acredita no símbolo como fonte didática. (...) os símbolos maçônicos podem ser comparados aos caracteres elementares da língua chinesa, cada um deles denotando uma idéia; ou, ainda melhor, aos hieróglifos dos antigos egípcios, nos quais um objeto é completamente representado por outro que continha alguma relação subjetiva com ele, como vento foi representado pelas asas de um pássaro, ou a coragem pela cabeça e os ombros de um leão. É dessa mesma forma que na Maçonaria o Prumo representa retidão, o Nível, a igualdade humana, e a Trolha, a concórdia ou a harmonia. Cada um é, em si mesmo, independente, cada um expressa uma única idéia elementar. (Mackey. 92, 2008). O método de aprendizado que usa símbolos como forma didática, é um método que a humanidade usa desde seus primórdios. E para cada símbolo corresponde um significado. SIGNIFICADOS ICONOLOGICOS Colunas arquitetônicas: começaremos vendo o significado que os Maçons têm para as colunas, das ordens arquitetônicas. São cinco as ordens arquitetônicas jônica, dórica, coríntia, essas ordens têm sua origem na Grécia. A compósita e ainda toscana, são de origem italiana. Desde a Antiguidade até os dias de hoje, as colunas são usadas como elementos de sustentação e ornamentação nas edificações. Nos Templos Maçônicos ou Lojas, as colunas possuem um grande significado seja na ornamentação ou na ritualística. Vejamos: A Loja Maçônica é sustentada pelas três grandes ordens de colunas gregas. A sabedoria é representada pela ordem arquitetônica jônica. E o seu representante
55 no Templo Maçom é o Venerável. A força é representada pela ordem arquitetônica dórica, no ritual, o seu equivalente é o Primeiro Vigilante. A beleza corresponde à ordem coríntia, e na ritualística maçônica o responsável por essa coluna é o Segundo Vigilante. Segundo Figueiredo (106,2009). A Sabedoria nos guia em todas as nossas iniciativas, a Força nos sustém em todas as nossas dificuldades, e a Beleza adorna o homem interno. O Universo é o templo da Divindade a Quem servimos; a Sabedoria, a Força e a Beleza rodeiam o Seu Trono como colunas de Suas obras, porque Sua Sabedoria é infinita, Sua Força é onipotente, e Sua Beleza resplandece na simetria e ordem de toda a criação. A ordem compósita ou composta, como indica seu nome, se vale dos capitéis das colunas jônicas e coríntia. A ordem da coluna compósita é representada dentro do Templo pelo Orador. cada indivíduo. As colunas são sustentáculos da construção moral do Templo interior de Mãos Entrelaçadas: Para os Maçons o aperto de mãos é um símbolo de reconhecimento universal, onde um Maçom reconhece o outro mesmo sem as palavras. Esse gesto representa também o desejo da Confraria, de que exista na Terra uma fraternidade profunda e permanente, que os homens se unam pelas suas virtudes. As mãos entrelaçadas são símbolo da amizade e da solidariedade. Figueiredo (249, 2009) diz que: As mãos entrelaçadas: São símbolo pitagórico para representar o sagrado número dez, considerado o número perfeito, de significação côsmica. Posteriormente, o símbolo das mãos entrelaçadas passou a ser de amizade perfeita e de união da mente com o coração, a qual produz o equilíbrio e harmonia interiores. Estrela de cinco pontas: Simboliza o homem perfeito, Deus manifestando-se plenamente no homem. O homem é constituído de cinco partes: Físico, Emocional, Mental, Institucional e Espiritual; Quando todos esses elementos constitutivos do homem estão perfeitamente desenvolvidos, ele se torna um ser perfeito. (Figueiredo. 148, 2009). Para a Maçonaria a estrela de cinco pontas é um símbolo de magia, presente em diversos ritos da confraria.
56 A estrela de cinco pontas designa também o homem espiritual, o individuo que traz no seu interior a fagulha do GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO. A ponta superior da estrela corresponde à cabeça humana, a mente. As demais pontas representam os membros superiores e os membros inferiores deste homem. Essa estrela que representa o homem lembra ao Maçom o dever, de conhecer-se a si mesmo, para atingir a perfeição. As pontas da estrela fazem alusão também aos cinco sentidos (paladar, olfato, visão, tato, audição) que estabelecem a comunicação da alma com o mundo material. Nas Lojas Maçônicas a estrela de cinco pontas recebe o nome de Estrela do Oriente ou Estrela da Iniciação. No Templo Maçônico, essa estrela está colocada no Oriente da Loja atrás do trono do Venerável. Balança: Símbolo do equilíbrio entre vícios e virtudes. Emblema da retidão de caráter e da justiça. Cruz: Símbolo Universal do amor Divino. A cruz é considerada pela Maçonaria como a escada para ascensão da alma, através da qual essa pode alcançar Deus. na vida eterna. A cruz significa o sacrifício redentor de Jesus, a ressurreição e a esperança A cruz que tem os braços de igual tamanho é chamada de Cruz grega, essa também pode ser chamada de cruz de Salomão, simboliza a vida do Espírito Santo (Figueiredo. 116, 2009). Galho de Carvalho: Simboliza tanto a força moral como a força física. O carvalho simboliza a força, a imortalidade. Devido a sua longa vida, essa árvore tornou-se símbolo de vida eterna. Elemento que simboliza a fé inabalável em Cristo. Galho de Oliveira: Símbolo de paz. Na loja Maçônica o Venerável usa um malhete e uma coroa de oliveira e de louro para a admissão do Mestre Secreto. Esse também é um símbolo da vida e da prosperidade.
57 Foice ou Gadanha: Símbolo universal da morte. Esse também é um atributo do tempo. Cristo. Palma: Emblema do triunfo e vitória sobre a morte. Símbolo do Martírio de Cálice: É geralmente um símbolo da Alma aberta ao fluxo da vida, como a flor à luz solar, para em seu interior verter-se o extasiante Vinho da espiritualidade. (Figueiredo.93, 2009). O cálice representa a caridade, significa o amor fraternal que o Maçom deve dedicar ao seu semelhante. Âncora: Emblema da esperança. Esse símbolo sugere aos Maçons a segurança com que se pode alcançar os verdadeiros ideais da vida. Esse símbolo aparece em muitas cerimônias no Templo Maçônico. Virtude necessária para o verdadeiro aperfeiçoamento espiritual. Ampulheta: Instrumento que mede o tempo, sua simbologia recorda ao Maçom a transitoriedade da vida humana. O escoar das areias da ampulheta, lembra ao Maçom que o tempo deve ser gasto com ações edificantes, pois esses grãos de tempo se unirão na eternidade. Tocha decorada com Harpias. Tocha: símbolo da luz eterna e da Divindade. Luz que ilumina o caminho para o Além. Harpias: mensageiras do mundo subterrâneo, para onde as almas dos mortos são transportadas. Símbolo da morte. Livro aberto com Hera entrelaçada. Livro: símbolo do conhecimento Sagrado, Livro da Lei (esse livro pode ser a Tora, a Bíblia, o evangelho, ou outro livro que represente as escrituras Sagradas).
58 Hera: planta que simboliza a imortalidade da alma humana e a Santíssima trindade, por possuir três pontas em cada folha. Anjo: Simboliza o condutor espiritual que acompanha o homem em sua jornada para o Além. Mensageiro dos desígnios de Deus. A leitura dos índices iconológicos das Carruagens Fúnebres de Pelotas revelou que o rito fúnebre é uma ação teatralizada e derradeira da sociedade para com o morto. Os símbolos representados nas Carruagens servem para assegurar ao finado um bom acompanhamento em sua jornada para o além.
CONCLUSÕES A morte sempre fez parte dos ritos que acompanham o homem desde os primórdios da antiguidade. Esses ritos refletem de várias maneiras os hábitos e o modo de pensar do homem ao longo dos vários períodos históricos da humanidade. Os rituais da morte revestem-se de diversos símbolos e sinais para assegurar a esse indivíduo uma passagem perfeita para o além, e essas cerimônias também servem de consolo aos entes queridos do finado. A ritualística da morte tomou amplas formas e diferentes significações ao longo dos tempos, para a realização desses rituais foram empregados objetos que foram passados para as novas gerações, como é o caso das Carruagens Fúnebres de Pelotas. Veículos que fizeram parte das práticas funerárias, de um tempo onde os Cortejos eram o ponto alto do ato fúnebre. Esses veículos são testemunhos físicos dos rituais que envolviam a morte no século XVIII, tempo onde as Pompas Fúnebres eram sinônimos de poder e riqueza. As Carruagens foram adquiridas por uma Irmandade da Santa Casa de Misericórdia que tinha uma forte influência da Maçonaria, pois muitos de seus membros ou bem feitores eram integrantes dessa sociedade.(ver Amaral,2009). O presente trabalho baseou-se nesses fatos para tentar identificar no conjunto ornamental dos veículos funerários uma simbologia Maçônica. Essa pesquisa foi baseada nos fundamentos da Confraria, que se define como: Um sistema de moral, velado em alegorias e ilustrado por símbolos, alicerçada na
60 prática de todas as virtudes morais e sociais, em busca da Verdade e da Justiça. (Neto. 92, 2009). O estudo revelou que em ambas as Carruagens Fúnebres existem elementos da simbologia Maçônica. A Maçonaria, ao longo de sua tragetória, tem se apropriado de vários ícones de outras culturas, muitas vezes mudando o significado original, para que esse melhor se adequasse a ritualística da confraria, outras vezes mantendo o significado original, por esse estar em conformidade com os objetivos autodidatas da simbologia que a Maçonaria adota. Um exemplo desta afirmação é o símbolo do Olho da Providência (denominação cristã), esse símbolo já foi usado pelos egípcios, com a denominação de Olho de Osíris, na Índia esse símbolo era conhecido como Olho de Shiva e nos dias atuais esse emblema foi incorporado pela Maçonaria, com a designação de Olho de Deus ou Olho que Tudo Vê. Nos Mistérios antigos simbolizava a visão que anula o tempo e o espaço. É, teoricamente, o emblema da clarividência mais elevada, que o Mestre perfeito sempre possuía. Na Índia o chamam Olho de Shiva. Os egípcios representavam Osíris com o símbolo de um olho aberto, e desenhavam este hieróglifo em todos os seus Templos. Na Loja Maçônica representa a onisciência do Grande Arquiteto do Universo (Deus): o Olho que jamais dorme. Igualmente pode simbolizar a visão superior, como nos Mistérios antigos. (Figueiredo.307,2009). Esse símbolo exemplifica a complexidade envolvida na leitura da simbologia Maçônica. Para facilitar o entendimento desta afirmação segue abaixo uma tabela onde os mesmos símbolos serão interpretados com os significados maçônicos e os significados não maçônicos.
61 Tabela 2: Significados dos símbolos Maçônicos, (Dicionário de Maçonaria), e Sinais e símbolos. Fonte: Autora. SÍMBOLOS SIGNIFICADO MAÇÔNICOS SIGNIFICADO NÃO MAÇÔNICOS Mãos Entrelaçadas Símbolo da amizade perfeita e de união da mente com o coração, a qual produz o equilíbrio e harmonia interiores. Símbolo da união fraternal. Estrela de Cinco Pontas Balança Cruz Latina Galho de Carvalho Simboliza o homem perfeito, Deus manifestando-se plenamente no homem. Símbolo da retidão de caráter, e justiça. Símbolo universal, do Amor Divino. Simboliza tanto a força moral como a força física. Símbolo cristão que representa a luz que atravessa as trevas. Esse símbolo também representa as cinco chagas de Cristo. Símbolo da justiça e da igualdade. Emblema da fé cristã. Símbolo da imortalidade e da santidade. Representa ressurreição e vida eterna. Signo da força. Árvore símbolo da luz e do conhecimento. Galho de oliveira Símbolo de paz. Emblema da honra e imortalidade. Foice ou Gadanha Folhas de Palma Cálice Símbolo universal da morte. Emblema do triunfo, vitória. É geralmente um símbolo da Alma aberta ao fluxo da vida, para em seu interior verter-se o extasiante Vinho espiritualidade. Símbolo do tempo e da morte. Simboliza também a esperança de renovação e do renascimento. Símbolo da vitória e da glória. Para os cristãos é o símbolo da Eucaristia. Âncora Emblema da esperança. Símbolo da segurança, da esperança e da salvação.
62 GLOSSÁRIO 1- Extrema unção: Sacramento mediante o qual os enfermos ou moribundos são ungidos com óleos bentos. 2- Miasma Mefítico: Vapores insalubres, cheiro pestilento. 3- Féretro: caixão, esquife ou ataúde. 4- Acrotérios: Adornos das extremidades dos frontões.
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