COMPETÊNCIA CAPÍTULO VIII 1. NOÇÕES GERAIS



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COMPETÊNCIA CAPÍTULO VIII COMPETÊNCIA SUMÁRIO 1. Noções gerais; 2. Competência territorial (ratione loci); 2.1. O lugar da infração penal como regra geral (art. 70 CPP); 2.2. O domicílio ou residência do réu como foro supletivo (art. 72 CPP); 2.3. Ação penal exclusivamente privada (art. 73 CPP); 3. Competência em razão da matéria (ratione materiae) ou pela natureza da infração (art. 74 CPP); 3.1. Competência do Tribunal do Júri; 3.2. Competência da Justiça Eleitoral; 3.3. Competência da Justiça Militar; 3.4. Competência da Justiça Federal; 4. A distribuição como alternativa à competência cumulativa supletiva (art. 75 CPP); 5. A competência por conexão e continência alteração de competência (arts. 76 e 77 CPP); 6. Foro prevalente (art. 78 CPP); 7. Separação obrigatória de processos (art. 79 CPP); 8. Separação facultativa de processos (art. 80 CPP); 9. Perpetuação da jurisdição perpetuatio jurisdictionis (art. 81 CPP); 10. Autoridade da jurisdição prevalente (art. 82 CPP); 11. A prevenção como critério residual de fixação da competência (art. 83 CPP); 12. Competência em razão da prerrogativa de foro (ratione personae); 12.1. Perpetuação da jurisdição em caso de foro privilegiado (art. 84, 1º, CPP); 12.2. Extensão do foro privilegiado às ações de improbidade administrativa (art. 84, 2º, CPP); 12.3. Exceção da verdade nos crimes contra a honra (art. 85 CPP); 13. Regras de aplicação da lei processual penal no espaço (arts. 88 a 91 CPP); 14. Questões de concursos públicos; 15. Gabarito. 1. NOÇÕES GERAIS Competência é a medida da jurisdição, espaço dentro do qual o poder jurisdicional pode ser exercido. Jurisdição todo juiz possui, mas competência não. Assim, por exemplo, o STF tem competência sobre todo território nacional, enquanto um juiz de direito tem competência apenas na comarca em que exerce as suas funções. Para melhor compreensão da matéria competência no processo penal, fundamental é o estudo dos princípios do juiz natural e do juiz imparcial, o que já foi feito no capítulo de princípios do processo penal, para onde remetemos novamente o leitor. No processo penal, a competência poderá ser absoluta ou relativa. A competência absoluta é aquela que não permite prorrogação, por envolver interesse público, podendo ser arguida a qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição, inclusive de ofício, sob pena de nulidade absoluta de todos os atos praticados no feito (decisórios ou instrutórios), segundo posicionamento doutrinário mais abalizado (embora o STF entenda que haveria nulidade apenas dos atos instrutórios, de acordo com o art. 567 do CPP). Há três hipóteses de competência absoluta: 139

140 LEONARDO BARRETO MOREIRA ALVES I. Competência em razão da matéria (ratione materiae): é aquela que leva em conta a natureza da infração a ser julgada; II. Competência por prerrogativa de função (ratione personae): é aquela que leva em conta o cargo público ocupado por determinada pessoa que cometeu a infração penal, o que implica em um foro por prerrogativa de função; III. Competência funcional: é aquela que leva em conta a distribuição dos atos processuais praticados. Ela envolve três critérios: 1) Fase do processo: quando dois juízes atuam em fases distintas do feito, a exemplo do juiz que instrui e sentencia a causa criminal e daquele responsável pela fase de execução penal, consoante o art. 65 da Lei de Execução Penal; 2) Objeto do juízo: quando há distribuição de tarefas dentro de um mesmo processo, a exemplo do que ocorre no Tribunal do Júri, em que o juiz-presidente é responsável pela resolução das questões de direito, pela prolação da sentença e pela dosimetria da pena, ao passo que compete aos jurados a votação dos quesitos; 3. Grau de jurisdição: também conhecido como competência funcional vertical, resulta no duplo grau de jurisdição, com o oferecimento de recursos, ou na competência originária dos Tribunais, em casos de foro por prerrogativa de função. Já a competência relativa permite prorrogação, caso não seja arguida a tempo a incompetência do foro, afinal de contas ela interessa sobretudo às partes. O desrespeito às normas de competência relativa, segundo posicionamento doutrinário prevalente, leva apenas à nulidade relativa dos atos decisórios (não são anulados os atos instrutórios, conforme melhor interpretação conferida ao art. 567 do CPP, apesar de o STF entender que não há nulidade de qualquer ato, instrutório ou decisório). No Processo Penal, é hipótese de competência relativa a competência territorial (ratione loci). Ressalte-se, porém, que, no Processo penal, a competência territorial pode ser reconhecida de ofício pelo juiz, motivo pelo qual a Súmula nº 33 do STJ, que apregoa que A incompetência relativa não pode ser declarada de ofício, só tem aplicabilidade no Processo Civil. Contudo, de acordo com entendimento da doutrina, o magistrado só poderá declarar-se de ofício incompetente até o momento processual que as partes dispunham para suscitar a mesma, qual seja, o prazo de apresentação da defesa preliminar, que é de dez dias (art. 396, CPP) (TÁVORA; ALENCAR, 2009, p. 219).

COMPETÊNCIA COMPETÊNCIA ABSOLUTA Envolve interesse público. Não permite prorrogação, podendo ser arguida a qualquer tempo e em qualquer grau de jurisdição, inclusive de ofício pelo juiz. O seu desrespeito implica em nulidade absoluta de todos os atos praticados no feito, decisórios ou instrutórios. Espécies: I. Competência em razão da matéria (ratione materiae); II. Competência por prerrogativa de função (ratione personae); III. Competência funcional. COMPETÊNCIA RELATIVA Envolve sobretudo interesse das partes. Permite prorrogação, caso não seja oferecida a tempo a exceção de incompetência pela parte. Pode, porém, ser reconhecida de ofício pelo juiz, até o prazo que a parte possui para o oferecimento desta exceção de incompetência. O seu desrespeito implica em nulidade relativa dos atos decisórios, não sendo anulados os atos instrutórios (art. 567 CPP). Espécie: Competência territorial (ratione loci) 2. COMPETÊNCIA TERRITORIAL (RATIONE LOCI) 2.1. O lugar da infração penal como regra geral (art. 70 CPP) Como regra geral para definição da competência territorial, adota-se o local em que ocorreu a consumação do delito ou, no caso de tentativa, o local em que foi praticado o último ato de execução (art. 70, caput, do CPP). Essa regra consagra, no âmbito do processo penal, a teoria do resultado (local do resultado). Se, porém, for incerto o limite territorial entre duas ou mais jurisdições, ou quando incerta a jurisdição por ter sido a infração consumada ou tentada nas divisas de duas ou mais jurisdições, a competência firmar-se-á pela prevenção, consoante o art. 70, 3º, do CPP, o que significa a adoção excepcional da teoria da ubiquidade ou mista ou eclética (local da ação ou omissão ou local do resultado). A competência também será definida pela prevenção no caso de infração continuada ou permanente, praticada em território de duas ou mais jurisdições, nos termos do art. 71 do CPP, resultando também na aplicação excepcional da teoria da ubiquidade. Na hipótese de crime à distância que é aquele em que a ação ou omissão ocorre em um país e o resultado em outro, há de se aplicar também, por exceção, a teoria da ubiquidade, que encontra guarida no ordenamento jurídico brasileiro no art. 6º do Código Penal, segundo o qual Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou 141

142 LEONARDO BARRETO MOREIRA ALVES em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado (como se vê, para o Direito Penal, quanto ao lugar do crime, vale, como regra geral, a teoria da ubiquidade, ao passo que, como já visto, no Processo Penal, na definição do juízo territorialmente competente, a regra geral é a teoria do resultado). Desse modo, nos casos em que se permite a aplicação da lei penal brasileira, embora para crimes cometidos no estrangeiro (extraterritorialidade da lei penal brasileira, de acordo com o art. 7º do Código Penal), em apertada síntese, pode-se afirmar que será competente o juízo do local que tocar por último o território nacional, pouco importando se é o local da ação ou omissão ou do resultado, daí porque se fala na aplicação da teoria da ubiquidade. É o exemplo de um indivíduo que envia pelos correios do Brasil uma carta-bomba dirigida ao Presidente da República que se encontra na Argentina, provocando a sua morte (art. 7º, inciso I, alínea a, do Código Penal). Nessa hipótese, incidindo-se a lei penal brasileira, aplica-se, para fins de definição do foro competente, a regra prevista no art. 70, 1º, CPP: se, iniciada a execução no território nacional, a infração se consumar fora dele, a competência será determinada pelo lugar em que tiver sido praticado, no Brasil, o último ato de execução. No exemplo fornecido, competente será o foro do local do Brasil em que o agente enviou a carta-bomba pelos correios. Ainda com relação ao crime à distância, o art. 70, 2º, CPP, determina que quando o último ato de execução for praticado fora do território nacional, será competente o juiz do lugar em que o crime, embora parcialmente, tenha produzido ou devia produzir seu resultado. Para ilustrar essa situação, basta inverter o exemplo acima fornecido. Crimes plurilocais: Embora semelhantes com os crimes à distância, os crimes plurilocais com estes não se confundem, inclusive para fins de definição do foro competente. São crimes plurilocais aqueles nos quais a ação ou omissão se dá em um lugar e o resultado em outro, desde que ambos os locais se encontrem dentro do mesmo território nacional (crimes à distância envolvem sempre países distintos, sendo que a ação ou omissão ocorre em um país e o resultado em outro). É o exemplo de um indivíduo que envia pelos correios de Belo Horizonte/MG uma carta-bomba dirigida à residência da vítima em Salvador/BA, provocando a sua morte. Para tais crimes, há de ser aplicada, em regra, a teoria do resultado prevista no art. 70, caput, do CPP. No exemplo fornecido, o foro competente seria de Salvador/BA. Registre-se, porém, que há entendimento jurisprudencial no sentido de que, no caso de homicídio, deve prevalecer o juízo da ação ou omissão (teoria da

COMPETÊNCIA atividade), como forma de privilegiar a verdade real, facilitando-se a colheita de prova, bem como para garantir uma efetiva resposta à sociedade do local em que o crime foi executado, eis que naturalmente mais interessada na sua punição. No exemplo mencionado, o foro competente seria alterado, passando a ser o de Belo Horizonte/MG. É esse o posicionamento do STJ (Informativo nº 489). Crimes preterdolosos ou qualificados pelo resultado: Para crimes desta natureza, é igualmente aplicada a regra geral prevista no art. 70, caput, do CPP (teoria do resultado), embora Guilherme de Souza Nucci (2008, p. 253) defenda o local da ação ou omissão como foro competente (teoria da atividade), como forma de privilegiar a verdade real, facilitando-se a colheita de prova. Competência em hipóteses de crimes de estelionato: No caso do crime de estelionato praticado pela emissão de cheque sem fundo (art. 171, 2º, VI, CP), o juízo competente é o do local onde houver a recusa do pagamento do cheque, conforme a Súmula nº 521 STF e a Súmula nº 244 STJ. Entretanto, na hipótese de crime de estelionato praticado mediante falsificação de cheque, a regra é diversa, sendo competente o local da obtenção da vantagem ilícita, nos termos da Súmula nº 48 STJ. Competência em crime de contrabando ou descaminho: No caso do crime de contrabando ou descaminho (art. 334, CP), o juízo competente é definido pela prevenção do Juízo Federal do lugar da apreensão dos bens, nos termos da Súmula nº 151 do STJ. Atenção: Nas infrações de menor potencial ofensivo, consoante o art. 63 da Lei nº 9.099/95, será competente para o seu julgamento o local onde foi praticada a infração, que, segundo entendimento majoritário, é o local da ação ou omissão, adotando-se, portanto, a teoria da atividade (local da ação ou omissão). Competência na lei de imprensa: Nos crimes de imprensa, consoante o art. 42 da Lei nº 5.250/67 (Lei de Imprensa), o foro competente era definido pelo local da impressão do jornal ou periódico, e pelo local onde estivesse situado o estúdio do permissionário ou concessionário do serviço de radiodifusão, bem como o da administração principal da agência noticiosa. Todavia, esse critério de fixação de competência não mais subsiste, tendo em vista que o STF, no julgamento da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 130/DF, julgou pela não recepção ou revogação de toda essa lei, daí porque, para esse caso, há de se aplicar a regra geral prevista no art. 70, caput, do CPP. 143

LEONARDO BARRETO MOREIRA ALVES 2.2. O domicílio ou residência do réu como foro supletivo (art. 72 CPP) Quando não se tem conhecimento sobre o local da consumação do crime, vale a regra supletiva do foro do domicílio ou residência do réu. Se o réu tiver mais de um domicílio ou residência, a competência será firmada pela prevenção (art. 72, 1º, do CPP). E se o réu não tiver residência certa ou for ignorado o seu paradeiro, será competente o juiz que primeiro tomar conhecimento do fato (art. 72, 2º, do CPP). 2.3. Ação penal exclusivamente privada (art. 73 CPP) No caso de ação penal exclusivamente privada (o que exclui, portanto, a hipótese de crime submetido a ação penal privada subsidiária da pública, mas inclui a ação penal privada personalíssima), mesmo que conhecido o local da infração, o querelante pode optar pelo foro do domicílio ou residência do réu. 144