Fundamentos Filosóficos da Educação



Documentos relacionados
Questão (1) - Questão (2) - A origem da palavra FILOSOFIA é: Questão (3) -

LISTA DE EXERCÍCIOS RECUPERAÇÃO. 1. Quais foram as principais características da escolástica? Cite alguns de seus pensadores.

dóxa e epistéme. sensível e inteligível. fé e razaão.

Estudo Dirigido - RECUPERAÇÃO FINAL

4ª. Apostila de Filosofia História da Filosofia: Filosofia Grega: Período Helenístico Filosofia Medieval. Introdução

A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO PEDAGÓGICO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES

AGOSTINHO, TEMPO E MEMÓRIA

UNIDADE I OS PRIMEIROS PASSOS PARA O SURGIMENTO DO PENSAMENTO FILOSÓFICO.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO - IED AULAS ABRIL E MAIO

A FILOSOFIA HELENÍSTICA A FILOSOFIA APÓS A CONQUISTA DA GRÉCIA PELA MACEDÔNIA

ZENUN, Katsue Hamada e; MARKUNAS, Mônica. Tudo que é sólido se desmancha no ar. In:. Cadernos de Sociologia 1: trabalho. Brasília: Cisbrasil-CIB,

Revisão geral de conteúdo Avaliação do 1º trimestre Roteiro de Estudos. Colégio Cenecista Dr. José Ferreira Professor Danilo Borges

f r a n c i s c o d e Viver com atenção c a m i n h o Herança espiritual da Congregação das Irmãs Franciscanas de Oirschot

O estudante de Pedagogia deve gostar muito de ler e possuir boa capacidade de concentração porque receberá muitos textos teóricos para estudar.

DATA: VALOR: 20 PONTOS NOME COMPLETO:

Roteiro 31. FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita Programa Filosofia e Ciência Espíritas

Filosofia na Antiguidade Clássica Sócrates, Platão e Aristóteles. Profa. Ms. Luciana Codognoto

ESPIRITUALIDADE E EDUCAÇÃO

Aula 4 - Teorias políticas da Idade Média. (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino) Cap 23, pag 292 a 295 (Itens 7 a 10)

Para a grande maioria das. fazer o que desejo fazer, ou o que eu tenho vontade, sem sentir nenhum tipo de peso ou condenação por aquilo.

A ESPERANÇA QUE VEM DO ALTO. Romanos 15:13

Os encontros de Jesus. sede de Deus

Processo Seletivo Filosofia

MISSÕES - A ESTRATÉGIA DE CRISTO PARA A SUA IGREJA

Katia Luciana Sales Ribeiro Keila de Souza Almeida José Nailton Silveira de Pinho. Resenha: Marx (Um Toque de Clássicos)

LIDERANÇA, ÉTICA, RESPEITO, CONFIANÇA

Breve Histórico do Raciocínio Lógico

Se você acredita que as escolas são o único e provável destino dos profissionais formados em Pedagogia, então, está na hora de abrir os olhos

No princípio era aquele que é a Palavra... João 1.1 UMA IGREJA COM PROPÓSITOS. Pr. Cristiano Nickel Junior

CONTEÚDO - Recuperação 2º Semestre

Caracterização Cronológica

O trabalho voluntário é uma atitude, e esta, numa visão transdisciplinar é:

A Busca. Capítulo 01 Uma Saga Entre Muitas Sagas. Não é interessante como nas inúmeras sagas que nos são apresentadas. encontrar uma trama em comum?

FORMAÇÃO PLENA PARA OS PROFESSORES

Processo Seletivo/UFU - julho ª Prova Comum FILOSOFIA QUESTÃO 01

Atividade de Aprendizagem 1 Aquífero Guarani Eixo(s) temático(s) Tema Conteúdos Usos / objetivos Voltadas para procedimentos e atitudes Competências

FILHOS UMA NECESSIDADE? PROTESTO!

Roteiro VcPodMais#005

LEGADOS / CONTRIBUIÇÕES. Democracia Cidadão democracia direta Olimpíadas Ideal de beleza Filosofia História Matemática

Nº 3 - Nov/14 TRABALHO COMUNITÁRIO

GRITO PELA EDUCAÇÃO PÚBLICA NO ESTADO DE SÃO PAULO

Colégio Cenecista Dr. José Ferreira

Lógica Indutiva. Aula 4. Prof. André Martins

Respostas dos alunos para perguntas do Ciclo de Debates

Todos Batizados em um Espírito

SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E VIDA MORAL. Monise F. Gomes; Pâmela de Almeida; Patrícia de Abreu.

Filosofia - Introdução à Reflexão Filosófica

ESTADO DE GOIÁS PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTA BÁRBARA DE GOIÁS SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO SANTA BÁRBARA DE GOIÁS. O Mascote da Turma

AGOSTINHO DE HIPONA E TOMÁS DE AQUINO (3ª SÉRIE, REVISÃO TESTÃO)

John Locke ( ) Colégio Anglo de Sete Lagoas - Professor: Ronaldo - (31)

SIMULADO 4 JORNAL EXTRA ESCOLAS TÉCNICAS HISTÓRIA

3ª Filosofia Antiga (Pensadores antigos)

FILOSOFIA. 1. TURNO: Vespertino HABILITAÇÃO: Licenciatura. PRAZO PARA CONCLUSÃO: Mínimo = 4 anos


Pesquisa com Professores de Escolas e com Alunos da Graduação em Matemática

MATERIAL DE DIVULGAÇÃO DA EDITORA MODERNA

RELATIVISMO MORAL CERTO E ERRADO: QUEM DECIDE? Organizadores: Artur Bezzi Günther, Márcia Luísa Tomazzoni e Mateus Rocha da Silva.

Oração. u m a c o n v e r s a d a a l m a

ABCEducatio entrevista Sílvio Bock

Entrevista com Heloísa Lück

GRUPO IV 2 o BIMESTRE PROVA A

Um forte elemento utilizado para evitar as tendências desagregadoras das sociedades modernas é:

A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA CIENTÍFICA

E quem garante que a História é uma carroça abandonada numa beira de estrada? (Hollanda, C. B; Milanes, P. Canción por la unidad latinoamericana.

Ética & Mitos Corporativos

EXERCÍCIOS SOBRE RENASCIMENTO

1º ano. 1º Bimestre. 2º Bimestre. 3º Bimestre. Capítulo 26: Todos os itens O campo da Sociologia. Capítulo 26: Item 5 Senso Crítico e senso comum.

1.3. Planejamento: concepções

Sociologia Organizacional. Aula 1. Contextualização. Organização da Disciplina. Aula 1. Contexto histórico do aparecimento da sociologia

OS CONHECIMENTOS DE ACADÊMICOS DE EDUCAÇÃO FÍSICA E SUA IMPLICAÇÃO PARA A PRÁTICA DOCENTE

GRUPO I Escolha múltipla (6 x 10 pontos) (circunda a letra correspondente à afirmação correcta)

Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Grupo de Pesquisa em Interação, Tecnologias Digitais e Sociedade - GITS

OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES

Avaliação de História 6º ano FAF *Obrigatório

O relacionamento amoroso em «ARRET»

OS PARADIGMAS E METÁFORAS DA PSICOLOGIA SOCIAL

Tomada de Decisão uma arte a ser estudada Por: Arthur Diniz

O RENASCIMENTO FOI UM MOVIMENTO CULTURAL, OCORRIDO NO INÍCIO DA IDADE MODERNA E QUE FEZ RENASCER A CULTURA GRECO-ROMANA

Docente: Gilberto Abreu de Oliveira (Mestrando em Educação UEMS/UUP) Turma 2012/

Nº 8 - Mar/15. PRESTA atenção RELIGIÃO BÍBLIA SAGRADA

A origem dos filósofos e suas filosofias

DISCURSO SOBRE LEVANTAMENTO DA PASTORAL DO MIGRANTE FEITO NO ESTADO DO AMAZONAS REVELANDO QUE OS MIGRANTES PROCURAM O ESTADO DO AMAZONAS EM BUSCA DE

Os desafios do Bradesco nas redes sociais

Por uma pedagogia da juventude

2015 O ANO DE COLHER ABRIL - 1 A RUA E O CAMINHO

8. O OBJETO DE ESTUDO DA DIDÁTICA: O PROCESSO ENSINO APRENDIZAGEM

THEREZINHA OLIVEIRA REENCARNAÇÃO É ASSIM. 3 a ed.

INSTITUTOS SUPERIORES DE ENSINO DO CENSA PROGRAMA INSTITUCIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA PROVIC PROGRAMA VOLUNTÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA

COMO PARTICIPAR EM UMA RODADA DE NEGÓCIOS: Sugestões para as comunidades e associações

A Sociologia de Weber

A IMPORTÂNCIA DAS DISCIPLINAS DE MATEMÁTICA E FÍSICA NO ENEM: PERCEPÇÃO DOS ALUNOS DO CURSO PRÉ- UNIVERSITÁRIO DA UFPB LITORAL NORTE

Rousseau e educação: fundamentos educacionais infantil.

Unidade 3: A Teoria da Ação Social de Max Weber. Professor Igor Assaf Mendes Sociologia Geral - Psicologia

Lev Semenovich Vygotsky, nasce em 17 de novembro de 1896, na cidade de Orsha, em Bielarus. Morre em 11 de junho de 1934.

Para onde vou Senhor?

ENCONTRO TEMÁTICO 2009 A criança e o meio ambiente: cuidados para um futuro sustentável. Educação Infantil

A QUESTÃO DO CONHECIMENTO NA MODERNIDADE

Material: Uma copia do fundo para escrever a cartinha pra mamãe (quebragelo) Uma copia do cartão para cada criança.

Marketing Turístico e Hoteleiro

Márcio Ronaldo de Assis 1

Transcrição:

Fundamentos Filosóficos da Educação Autores Ivo José Triches Cláudio Joaquim Rezende Luciano D. da Silva Natalina Triches Wanderley Machado 2009

2002-2007 IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. T837 Triches, Ivo José. / Fundamentos Filosóficos da Educação. / Triches, Ivo José; Rezende, Cláudio Joaquim; Silva, Luciano D. da; Triches, Natalina; Machado, Wanderley. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2009. 96 p. ISBN: 978-85-387-0242-9 1. Filosofia. 2. Educação. I. Título. CDD 370.15 Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: IESDE Brasil S.A. Todos os direitos reservados. IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482 Batel 80730-200 Curitiba PR www.iesde.com.br

Sumário Convite à Filosofia...5 Etimologia da palavra Filosofia...5 A atitude filosófica...5 Para que Filosofia?...6 A Filosofia e o senso comum...7 Filosofia: nem dogmatismo nem ceticismo...8 O contexto de Sócrates e o nascimento da moral ocidental...9 Visão panorâmica da História da Filosofia...9 O apogeu da Filosofia grega...10 Platão e o nascimento da razão ocidental...13 Aspectos da vida e obra de Platão...13 A influência de sua obra no processo ensino-aprendizagem...14 Aristóteles e a Filosofia como totalidade dos saberes...17 Aspectos gerais da vida e obra de Aristóteles...17 Somente o individual é real...18 A importância da lógica formal...19 Teoria das Quatro Causas...19 Visão do homem, da ética e da política...20 De Aristóteles à Renascença...25 O Período Helenístico...25 A Filosofia na Idade Média...26 O Renascimento cultural...27 O pensamento de Baruch Espinoza...29 Aspectos gerais de sua vida a diáspora...29 Os conflitos na comunidade...29 A sua Filosofia...30 Racionalismo absoluto...31 A virtude da alma é pensar...32 A Ética da alegria e da liberdade...33 Direito Natural e estado de natureza...33 O Iluminismo e o Século das Luzes...35 A relação do Iluminismo com os outros dois grandes acontecimentos do século XVIII...35 Os iluministas como ideólogos da burguesia...36 Os principais representantes...37 As consequências do Iluminismo...37 A presença do pensamento iluminista em nossa realidade...38 Immanuel Kant e o idealismo alemão...39 Aspectos gerais de sua vida...39 O racionalismo e o empirismo do século XVII...40 A revolução copernicana proposta por Kant...41 A ética kantiana...44 Contribuição de Kant na Educação...44

A dialética idealista e materialista de Hegel e Marx...47 Breve histórico...47 Dialética idealista...49 A lógica tradicional e a dialética idealista...50 O movimento dialético idealista...50 A dialética materialista...51 O movimento dialético materialista...53 Schopenhauer: o mundo como representação...55 Aspectos gerais de sua vida...55 Sua relação com Hegel...55 O mundo é representação minha...56 O mundo como vontade...56 Contribuição de Schopenhauer para a Educação...57 O positivismo e o desenvolvimento da ciência...59 Lineamentos gerais...59 Auguste Comte e a Lei dos Três Estados...61 Nietzsche e o fortalecimento do sujeito (1844-1900)...63 Aspectos gerais de sua vida...63 O desmistificador dos falsos valores...64 O predomínio do espírito apolíneo...64 O projeto filosófico de Nietzsche educador...65 A Escola de Frankfurt...67 Um pouco de sua história...67 Em que consistiu a teoria crítica?...67 Duas correntes filosóficas: o pragmatismo e o existencialismo...71 O pragmatismo...71 O existencialismo de Jean-Paul Sartre...72 Filosofia e Educação...75 A Filosofia da Educação...75 O ato de educar...76 Ética e Educação...79 Conceito de valor...79 A diferença entre Ética, Moral e Moralismo...80 Ética, Educação e algumas características da pós-modernidade...81 Filosofia e a formação humana na escola...85 As três dimensões da existência humana...85 Conceito de interseção...86 A crise da modernidade e a questão da Educação...86 O processo do filosofar na Educação Infantil...89 Por que Filosofia para crianças?...89 Algumas sugestões metodológicas...90 Referências...93

De Aristóteles à Renascença Ivo José Triches Começar um estudo, acerca de um determinado tema, a partir de uma visão panorâmica, é sempre mais didático. O nosso objetivo consiste em apresentarmos as principais ideias que marcaram os seguintes períodos: Helenístico, Idade Média e início da Idade Moderna com o Renascimento. O aprofundamento teórico sobre cada um dos temas apresentados fica em forma de convite para que você, possa fazê-lo. Somos partidários de um provérbio latino que diz: nulla die sine linea 1. Para os escritores latinos, o processo de acumulação de conhecimento seria obtido por meio da leitura diária. Isso significa que, se nosso propósito é conseguirmos fazer um bom trabalho, necessitamos estar constantemente nos atualizando. Por isso, somente conseguiremos tal feito se nossa vontade estiver conectada com a leitura. O Período Helenístico 2 A civilização helenística resultou do entrelaçamento da cultura helênica 3 com as culturas dos povos do Oriente Médio. Entre esses povos, destacaram-se os persas e os egípcios. Os macedônicos iniciaram esse processo de difusão da cultura grega por meio de seu principal líder, Alexandre Magno, que conquistou os gregos. Esse povo tinha origem ariana e vivia ao norte da Grécia. Eram considerados bárbaros por natureza pelos gregos, ou seja, incapazes de cultura e de atividade livre e, em consequência, escravos por natureza 4. Como geograficamente estavam isolados, eles estabeleciam relações comerciais com os gregos para poderem vender seus produtos, que eram basicamente de origem agrária. Utilizavam o porto grego de Olimpo para estabelecer relações com outros povos. Na verdade, esse perío do representa a decadência do mundo grego. A época do helenismo foi um período marcado, entre outras coisas, pelo rompimento dessa visão da existência de escravos por natureza. Epicuro filósofo desse tempo tinha, entre os participantes de seus ensinamentos, escravos. Considerava-os como membros de sua família. Isso evidencia que as concepções de mundo que temos podem ser superadas. Uma das características de alguém que deseja ter uma postura filosófica frente ao mundo é acreditar que ele é movimento e, por isso, que cada um pode mudar as representações sobre as coisas. Desse modo, nossas convicções não podem ser consideradas com cláusulas pétreas, que jamais mudaram. Tudo é movimento, porque o mundo é movimento. Nem um só dia sem 1 uma linha é a tradução literal. Na mitologia grega, Helena 2era uma princesa célebre por sua beleza. Ela era filha de Leda. Seus irmãos eram Castor e Pólux. Casou-se com Menelau. Quando casada, foi raptada por Páris, homem troiano. Por essa razão, os gregos organizaram-se e decidiram ir a Tróia para resgatá-la. Assim, temos a noção de que o helenismo cor responde à expansão da cultura grega para além de suas fronteiras. Cultura grega. 3 A maior contradição des- forma de pensar dos 4sa gregos está relacionada ao fato de terem sido vítimas do próprio domínio dos macedônicos. O próprio Aristóteles defendia a teoria da existência de escravos, por natureza. Isso mostra que ninguém está livre da prática dos preconceitos.

Fundamentos Filosóficos da Educação Os movimentos principais que marcaram essa época foram: o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo. Existe um fio condutor que marcou esses movimentos, qual seja, a preocupação com as questões relacionadas aos aspectos morais dos atores sociais 5. Compreende-se assim que o pensamento helenístico se tenha concentrado sobretudo nos problemas morais, que se impunham a todos os homens. E, propondo os grandes problemas da vida e algumas soluções para eles, os filósofos dessa época criaram algo de verdadeiramente grandioso e excepcional, o cinismo, o epicurismo e o estoicismo, propondo modelos de vida nos quais os homens continuaram a inspirar-se ainda durante outro meio milênio e que, ademais, se tornaram paradigmas espirituais, verdadeira conquista para todo o sempre. (REALE; ANTISERI, 1990, p. 230) A partir das afirmações contidas no texto acima, fica a indicação de que, se alguém pretende dedicar-se ao estudo acerca das questões que envolvem o tema Ética, torna-se fundamental aprofundar seus conhecimentos sobre esse período. Principalmente, no estoicismo e no epicurismo. 26 Atores sociais é um con- utilizado pela Socio- 5ceito logia. Cada ciência ou setores da sociedade, quando vão referir-se ao outro, utilizam denominações diferentes. É somente observarmos: como, numa loja comercial, referimonos ao outro? Por cliente. E se for um médico, como ele se refere ao outro? Por paciente. Por isso, na Filosofia, utiliza-se a expressão homem, na Sociologia, atores sociais, na Psicologia, indivíduo, e assim por diante. A Filosofia na Idade Média A discussão se houve ou não produção filosófica durante o período medie val é uma questão que continua latente até hoje. Certamente, não seremos nós, nesta geração, que daremos por encerrada essa polêmica. Afirmamos isso, porque até hoje existem aqueles que denominam essa época de idade das trevas ou período do obscurantismo filosófico. Como essa questão não está fechada e nosso objetivo é apresentar uma visão panorâmica do tema, vamos indicar algumas características que marcaram esse período. No nosso trabalho em sala da aula, dizíamos que a máxima desse período era crer para compreender e compreender para crer ; muitos daqueles que dizem que não houve produção filosófica argumentam que, se eu afirmo que é preciso crer para compreender, então, a razão fica subordinada à fé. Como não há coisa alguma sobre a qual a Filosofia não possa debruçar-se, a própria fé pode ser objeto de investigação filosófica. Como isso não podia ser objeto de investigação, então, o processo do filosofar ficou comprometido. Porém, existem aqueles que defendem exatamente o contrário, ou seja, que a fé pode ajudar-nos a confiar na razão. Nos séculos IV e V d.c., a confiança na razão estava em baixa. Santo Agostinho foi quem contribuiu para restaurar a crença na razão. Criticando os céticos, que afirmavam a impossibilidade de chegarmos ao conhecimento da verdade, ele dizia que a maior prova da possibilidade do conhecimento verdadeiro eram as demonstrações no campo da matemática e da lógica. Dessa forma, vemos que: o homem e seu intelecto, mutáveis e perecíveis, não podem ser os avalistas do conhecimento, pois a verdade deve ser eterna. Assim, a verdade somente pode ser assegurada por algo que se coloque acima dos homens e das coisas: Deus. Se a razão, na busca de sua certeza, depara com a fé em Deus, é também a fé que permite resgatar a dignidade da razão: crer para compreender e compreender para crer. (ABRÃO, 1999, p. 98-99)

De Aristóteles à Renascença Os dois movimentos que mais se destacaram durante a Idade Média foram a Patrística 6, durante a Alta Idade Média, e a Escolástica 7, na Baixa Idade Média. Cabe ainda destacar que não há como ignorar as realizações culturais dessa época. A Igreja, que foi acusada pelos retrocessos no campo da cultura em geral, foi responsável pela conservação de muitos aspectos da cultura clássica. A retomada da cultura greco-romana no período seguinte é prova disso. Num mundo em que o cenário predominante é a relação senhor versus servo, a economia é, basicamente, de subsistência. A existência dos mosteiros constituiu um espaço privilegiado para a sobrevivência da cultura. Foi nesse ambiente que os monges se dedicavam ao trabalho no campo, à oração e à compilação dos livros, assim como à tradução, para o latim, dos textos da antiguidade. O Renascimento cultural A expressão idade das trevas foi uma referência dos renascentistas ao que ocorreu durante o período medieval. A primeira questão relevante sobre esse tema é: renascimento do quê? O que desejavam os pensadores que criticavam a máxima da Idade Média 8? O quadro a seguir serve para ilustrar bem que, para a cada característica do período medieval, surgiu um movimento de oposição. As características desse período Idade Média misticismo coletivismo antinaturalismo teocentrismo Renascimento racionalismo individualismo naturalismo antropocentrismo geocentrismo heliocentrismo Assim, o Renascimento Cultural representou a possibilidade de o homem europeu ter novas representações acerca do mundo e da própria religião. Novos valores passaram a afirmar-se, o que significou a consolidação de uma nova classe social emergente dessa época: a burguesia. No contexto do Renascimento, já um pouco mais adiante, no século XVII, pensadores como Francis Bacon e Descartes divergiam no tocante a que método devia ser utilizado para ter a garantia de que o conhecimento era verdadeiro ou não. Francis Bacon seguiu o caminho da experiência. É a partir dessa premissa que devemos partir se quisermos, de fato, conhecer as coisas. Já Descartes partiu de um outro pressuposto. Segundo ele, a razão é o instrumento principal para obter-se a garantia do conhecimento da verdade. Essa problemática foi levada adiante por outros pensadores. Vários levantaram-se para defender um ou outro lado. Quem fez, no século seguinte, uma verdadeira revolução nesse campo foi Immanuel Kant. Como o próprio nome 6sugere, esse foi um movimento dos padres da igreja, em que a Filosofia contribuiu na elaboração dos fundamentos da teologia cristã. O principal representante dessa corrente filosófica foi Santo Agostinho. O nome Escolástica está 7associado ao nascimento das primeiras universidades nos séc. XI e XII, na Europa, e que eram controladas pela igreja. Se coube a Santo Agostinho o papel de cristianizar Platão, na Escolástica, o papel de cristianizar Aristóteles coube a São Tomás de Aquino. A máxima era: crer para 8compreender e compreender para crer. 27

Fundamentos Filosóficos da Educação Como sugestão de leitura complementar ao tema, indicamos livros de história do Ensino Médio. Para aqueles que pretendem aprofundar-se nesse assunto, um bom livro é História da riqueza do homem, de Leo Huberman, da Editora LTC. 28