CIDADANIA: o que é isso?



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Transcrição:

CIDADANIA: o que é isso? Autora: RAFAELA DA COSTA GOMES Introdução A questão da cidadania no Brasil é um tema em permanente discussão, embora muitos autores discutam a respeito, entre eles: Ferreira (1993); Gadotti (2001); Gohn (2005), muito se tem que construir. A preocupação em aprofundar tal questão partiu inicialmente de um projeto de pesquisa que nos deu a possibilidade de conhecer a realidade da escola pública enquanto espaço de construção da cidadania. Ao longo do seu desenvolvimento foram discutidas diferentes temáticas, mas, a cidadania em específico, nos estimulou a realização de um novo estudo. Investigar a temática cidadania na perspectiva atual, em que a discussão acerca dos direitos humanos está em evidência na sociedade, é de extrema relevância. 1 O presente artigo encontra-se desenvolvido em quatro partes. No primeiro momento foi feita uma trajetória histórica com a intenção de abordar a temática cidadania em diferentes épocas e contextos. No segundo momento foram ressaltadas as concepções de alguns autores entorno do tema também e, a partir disso, no terceiro momento realizamos uma discussão mais enfática sobre a necessidade de definir cidadania amplamente. No quarto momento, finalmente, a escola se apresenta como importante aliada na luta por uma formação mais completa que valorize a compreensão da cidadania de forma globalizada. Nesse sentido buscamos identificar as concepções de cidadania que os sujeitos, com níveis distintos de escolarização, têm no seu cotidiano, assim como, discutir e relacionar tal entendimento acerca da temática à escolaridade dos entrevistados. A partir disso, perceber a compreensão do tema em debate, considerando seu percurso histórico, com ênfase no contexto atual.

Referencial Teórico Se fizermos uma retrospectiva com foco no significado da palavra cidadania, observamos que essa discussão persiste há algum tempo. A palavra cidadania vem do latim e significa civitas, que quer dizer cidade. Em Roma se usava o termo cidadania para indicar a situação política das pessoas e os direitos que elas tinham ou poderiam exercer na sociedade. A partir da concepção Romana foram adotados outros conceitos de cidadania, como por exemplo, na França no século XVIII. Nesse sentido, a cidadania sempre esteve presente em diferentes discursos e contextos. Nessa perspectiva, muitos autores se propuseram a buscar definições amplas sobre cidadania. Apesar da sua grande trajetória histórica, a sociedade brasileira passou a incorporar de forma enfática essa questão a partir dos anos 80, direcionando seu interesse não só aos direitos individuais, mas também coletivos. Quando nos referimos às mudanças positivas proporcionadas pela ampla discussão sobre essa temática a partir dessa década, notamos que o lado positivo da questão da cidadania, como afirma Gohn (2005), foi o de ter elaborado uma concepção moderna, buscando construir e/ou aprimorar canais de representação. Dessa forma, não ter se contentado com a concepção estreita de cidadania restrita ao voto, em nível político. 2 Delimitar o conceito de cidadania é muito complexo devido a grande variedade de concepções que tem emergido, assim como as diferentes circunstâncias políticas, sociais e econômicas que influenciam constantemente sua teoria e a sua prática. Para Gadotti (2001), cidadão é aquele que participa do governo e só pode participar do governo quem tiver poder, liberdade e autonomia para exercê-lo. As diversas transformações ocorridas na concepção da cidadania nos levam a refletir como os avanços sociais possibilitam mudanças na visão desta. Porém, a sociedade na qual nos inserimos deturpa essa realidade impedindo, portanto, a manifestação da cidadania em suas variadas formas, restringindo seu conceito. Nesse sentido, Gohn (2005) afirma que a cidadania não se constrói por decretos ou intervenções externas, ela se constrói como um processo interno, no interior da prática em curso, como fruto do

acúmulo das experiências produzidas. Assim, se a cidadania não representa em suma algo imposto, ela é algo em permanente construção. Não podemos ficar passivos às múltiplas decisões tomadas a nossa volta, é nossa responsabilidade intervir e participar ativamente das questões sociais, políticas, econômicas e culturais ocorridas no país. Nesse novo contexto social fica evidente que precisamos entender a cidadania na sua globalidade no sentido de não restringi-la a uma única esfera. O conceito de cidadania também é organizacional, sociológico, cultural e econômico, além de político. Compreendendo a cidadania na sua amplitude, estaremos contribuindo para um espaço mais justo e democrático, que favoreça a participação ativa do cidadão. Metodologia A pesquisa se caracterizou como qualitativa que de acordo com Mazzotti & Gewandsnajder (2002), por serem mais flexíveis que as quantitativas, não admitem regras precisas. Além disso, as investigações qualitativas diferem das demais quanto ao grau de estruturação prévia, isto é, quanto aos aspectos que podem ser definidos já no projeto. 3 Sujeitos: Os sujeitos foram 30 pessoas escolhidas em diferentes espaços sociais, tais como: ruas, praças, instituições de ensino, de acordo com os seguintes critérios: 1. Ter sido ou ser aluno de escola pública; 2. Ser de níveis diferentes de ensino: fundamental e superior; 3. Aceitar participar da investigação. Instrumentos: Utilizamos entrevistas estruturadas feitas com a participação de trinta sujeitos, dos quais, dez com ensino fundamental concluído, dez cursando o ensino fundamental e dez com o nível superior concluído. Todos os sujeitos entrevistados cursaram ou estão

cursando os níveis descritos acima em instituições públicas de ensino, tal escolha deu-se pelo fato do ensino público priorizar a formação para a cidadania em suas diretrizes. Buscamos, nesse sentido, a utilização de estratégias que não induzisse o entrevistado, mas que obtivesse dele respostas com a maior clareza possível. Fizemos uso de uma pergunta, apenas, relacionada aos objetivos. Os sujeitos foram inicialmente abordados e perguntados sobre sua escolarização, logo após, se estavam cursando ou haviam cursado o fundamental e/ou superior em uma instituição pública, posteriormente se estavam interessados em participar da investigação. A partir disso, foi feita a seguinte pergunta: o que você entende por cidadania? A pesquisa foi feita com sujeitos de níveis distintos de escolaridade, o que possibilitou visões diferenciadas sobre o tema proposto. Resultados Dessa forma concluímos que a maioria dos sujeitos com nível fundamental incompleto não souberam responder o que é cidadania. Os que foram capazes de fornecer uma definição para a temática tiveram respostas muito restritas, relacionadas apenas aos deveres de uma pessoa na sociedade. Pressupomos que os sujeitos com o fundamental completo, responderam a partir do conhecimento de mundo que possuíam, suas experiências de vida. Os entrevistados com o nível superior completo, apresentaram respostas diversificadas. Entretanto, a maior parte dos entrevistados limitou o conceito de cidadania aos direitos e deveres, mesmo com respostas mais elaboradas e estruturadas que as dos outros níveis de ensino. 4 Nesse sentido observamos que a ausência de compreensão mais ampla sobre cidadania se acentua no fundamental, principalmente entre alunos que ainda não concluíram esse nível de ensino. Supomos que ao concluir esse nível, o sujeito passa a ter um entendimento menos restrito, devido a sua atuação mais ampla na sociedade. Momento em que ele começa a relacionar cidadania às coisas e às situações experienciadas na sua rotina de vida. No trabalho, na família, com os outros sujeitos. Ao chegar à universidade, deduzimos que a discussão entorno das questões sociais se ampliam e tornam mais fácil a compreensão da cidadania, porém insuficiente ainda para

o ideal que almejamos. A concepção de cidadania se amplia entre as pessoas com o superior completo, mas ainda se mostra insatisfatória. É importante ressaltar a fala de um dos sujeitos, que ao ser perguntado sobre cidadania, afirmou que a concepção que alguém possui sobre o tema também está atrelada ao seu nível de instrução. Essa afirmação nos remete a ideia de cidadania proposta por Ferreira (1993), quando diz que o conhecimento intelectual é um dos pressupostos na formação do cidadão. Em síntese, o conhecimento intelectual aparece como suporte para a formação da cidadania. Em contrapartida, não podemos afirmar que apenas sujeitos com nível de instrução elevado são capazes de fornecer uma definição para a cidadania. Porém, como nos mostra os dados, poucos indivíduos com nível fundamental incompleto apresentaram alguma definição completa para a temática em questão. Observamos, portanto, que dos 30 sujeitos entrevistados, 8 não souberam definir cidadania, 6 deles com nível fundamental incompleto. Um quantitativo alto considerando a vasta discussão acerca do tema atualmente. 5 Considerações Finais Discutir cidadania frente à realidade social na qual estamos inseridos representa um desafio para muitos. Um país em que a manutenção de um sistema baseado na exaltação do capital e a educação de qualidade que deveria ser destinada a todos é restrita aos indivíduos com poder aquisitivo privilegiado, não poderá atuar em favor de uma concepção de cidadania que não favoreça seus principais interesses. A valorização do capital se sobrepõe à valorização humana. Nesse contexto, a escola se configura como grande aliada no processo de formação e transformação dos sujeitos que nela se inserem se for capaz de partir de uma visão menos reduzida da educação. A cidadania nas escolas geralmente é trabalhada apenas, como tema transversal, o que reforça a concepção da temática estritamente ligada aos direitos e deveres políticos do cidadão. Essa forma minimalista de conceber cidadania contribui, entretanto, para reproduzir o que já está posto. A cidadania não se restringe

aos direitos e deveres, assim como não termina após o voto. Ela deve estar sempre em construção na sociedade. Não basta apenas trabalhar ações cidadãs nas salas de aula, ou na escola como um todo. Os alunos precisam ter clareza no seu significado para que possam utilizá-la na sua própria vida e perceber que a cidadania não está longe dele. Seu cotidiano está repleto de atitudes que culminam no exercício da sua cidadania constantemente. Se ainda não chegamos a um ideal de cidadania é porque não fomos capazes de informar e formar verdadeiros cidadãos. Referências FERREIRA, Nilda Teves. Cidadania: uma questão para a educação. Rio de Janeiro: novas fronteiras, 1993. GADOTTI, Moacir. Escola cidadã. 7 ed. São Paulo: Cortez, 2001. GOHN, Maria da Gloria. Educação não-formal e cultura política. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2005. 6 MAZZOTTI, Alda Judith Alves & GERWANDZNAJDER, Fernando. O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. 2 ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.