1 Segmentos Comensuráveis e Incomensuráveis
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- Ângela Cipriano Caldas
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1 Sociedade Brasileira de Matemática Mestrado Prossional em Matemática em Rede Nacional MA11 Números e Funções Reais Unidade 4 Comensurabilidade e Números Reais 1 Segmentos Comensuráveis e Incomensuráveis Seja AB um segmento de reta. Para medi-lo, é necessário xar um segmento padrão u, chamado segmento unitário, ou unidade. Por denição, a medida do segmento u é igual a 1. Estipulamos ainda que (i) (ii) segmentos congruentes têm a mesma medida; se um segmento AB é decomposto, por n 1 pontos interiores, em n segmentos justapostos, então a medida de AB será igual à soma das medidas desses n segmentos. Portanto, se estes segmentos parciais forem todos congruentes a u, a medida de AB em relação a u (que representaremos por AB) será igual a n. Neste caso, u cabe n vezes em AB, isto, é AB é um múltiplo inteiro de u. É claro que, uma vez xado um segmento unitário u, sabemos que nem todos os demais segmentos serão múltiplos inteiros deste. Porém, se vericamos que um segmento AB não é múltiplo inteiro de u, podemos tentar subdividir u para obter uma nova unidade u em relação à qual a medida de AB será um número natural. No exemplo ilustrado na Figura 1, temos que, em relação à unidade u, a medida de AB é igual a 3, mas a medida de CD não é um número natural. Quando subdividimos a unidade em 2, obtendo uma nova unidade u tal que u = 2 u, temos que, em relação a u, a medida de AB será 6 e a medida de CD será 5. Mas, dados dois segmentos quaisquer, será que é sempre possível encontrar uma unidade comum u em relação à qual ambos terão medidas inteiras? Desde a Grécia antiga, já sabemos que a resposta é não. 1
2 A u B A u B C u D C u D Figura 1: Segmentos comensuráveis. A seguir, reproduzimos uma demonstração dos gregos antigos (adaptada para a simbologia matemática atual) para o fato de que o lado e a diagonal de um quadrado não podem ser simultaneamente expressos como múltiplos inteiros de uma unidade comum u. Seja ABCD um quadrado de lado a e diagonal d. Suponhamos, por absurdo, que existam um segmento u e m, n N tais que a = m u e d = n u. Esta suposição nos levará a uma contradição, como veremos a seguir. Traçamos um arco de circunferência com centro no vértice C e raio CB e marcamos a interseção com a diagonal AC. Obtemos assim um ponto B 1 AC tal que B 1 C = BC = a. Em seguida, marcamos um ponto C 1 AB tal que B 1 C 1 AC. Construímos desta forma um quadrado AB 1 C 1 D 1 de lado a 1 e diagonal d 1 (Figura 2). Figura 2: Segmentos incomensuráveis. 2
3 Observamos que BC = B 1 C ĈBB 1 = ĈB 1 B Ĉ 1 BB 1 = Ĉ 1 B 1 B BC 1 = B 1 C 1 = a 1. Logo, a 1 = AB 1 = AC B 1 C = AC BC = d a = (q p) u. Além disso, o triângulo CBB 1 é isósceles, por construção. Logo, ĈBB 1 = ĈB 1 B. Como os ângulos CBC 1 e CB 1 C 1 são retos, concluímos que Ĉ 1 BB 1 = Ĉ 1 B 1 B. Logo, o triângulo BC 1 B 1 também é isósceles. Então, BC 1 = B 1 C 1. Então, d 1 = AC 1 = AB BC 1 = a a 1 = (2p q) u. Portanto, a 1 e d 1 também são múltiplos inteiros de u. Além disso, como a = a 1 + d 1 e a 1 < d 1 (pois a 1 e d 1 são, respectivamente, lado e diagonal de um mesmo quadrado), tem-se que 2 a 1 < a. Aplicando a mesma construção ao quadrado AB 1 C 1 D 1, obtemos um novo quadrado AB 2 C 2 D 2, com lado a 2 e diagonal d 2 também múltiplos inteiros de u e tal que 2 a 2 < a 1. Portanto, 4 a 2 < 2 a 1 < a. Continuando este processo indenidamente, obtemos uma sequência de quadrados (A n B n C n D n ) n N, com lados a n e diagonais d n, todos múltiplos inteiros de u, tais que o lado de cada quadrado é menor que a metade do lado do quadrado anterior, isto é, 2 a n < a n 1. Portanto, 2 n a n < a = p u. Neste caso, para n sucientemente grande, a n seria menor que u, contradizendo a fato de ser seu múltiplo inteiro. Sejam AB e CD dois segmentos. Se existe um segmento u e dois números naturais m e n tais que AB = m u e CD = n u, dizemos que AB e CD são comensuráveis. Caso contrário, dizemos que AB e CD são incomensuráveis. Definição 1 3
4 A descoberta da existência de grandezas incomensuráveis remonta ao século IV a.c., quando os matemáticos gregos demonstraram a incomensurabilidade do lado e da diagonal de qualquer quadrado (por meio do argumento reproduzido acima) e de outras proporções importantes. Os gregos antigos consideravam números (arithmos) apenas os que hoje chamamos de números naturais. Podemos interpretar as grandezas comensuráveis como aquelas cuja razão pode ser representada como uma razão entre números (naturais). Por exemplo, na Figura 1, os segmentos AB e CD estão na mesma razão que os números 6 e 5. Embora os gregos conhecessem uma teoria de proporções bem fundamentada, que dava conta da comparação de grandezas comensuráveis e não comensuráveis, essas proporções não eram consideradas como números. Entretanto, podemos usar o conceito de comensurabilidade para construir o conjunto dos números reais (o que faremos na próxima seção). Podemos pensar na ideia de proporção como uma relação de equivalência entre pares de segmentos. Assim, o par de segmentos A 1 B 1, C 1 D 1 será considerado equivalente ao par de segmentos A 2 B 2, C 2 D 2 se sua medidas estiverem na mesma razão, isto é se forem proporcionais: A 1 B 1 C 1 D 1 = A 2B 2 C 2 D 2. Cada par de segmentos AB, CD xado gera uma classe de equivalência, formada por todos os pares de segmentos que estão na mesma razão que AB, CD, isto é, que são proporcionais a AB, CD. Hoje, associamos cada uma dessas classes de proporcionalidade (tanto as geradas por grandezas comensuráveis quanto aquelas por grandezas incomensuráveis) a um objeto matemático, que chamamos de número real (associação que os gregos não faziam). Essencialmente, é esta ideia que usaremos para construir o conjunto dos números reais e sua representação na reta, xando uma unidade padrão u. Contar e Medir A existência de grandezas incomensuráveis mostra que o problema da medida não pode ser reduzido ao problema da contagem. Isto é, se só existissem segmentos comensuráveis, sempre que estivéssemos lidando com um problema Para Saber Mais 4
5 envolvendo um número nito de segmentos, seria possível encontrar uma unidade comum u em relação à qual as medidas de todos seriam números naturais. Medir esses segmentos reduzir-se-ia a contar quantas vezes u caberia em cada um deles. A razão entre as medidas de quaisquer dois segmentos poderia, neste caso, ser representada por uma razão entre números naturais. Em termos atuais, isto equivale a dizer que qualquer proporção seria representada por um número racional. Portanto, os números racionais seriam sucientes para expressar as medidas de todos os segmentos existentes. Assim, as grandezas incomensuráveis mostram a necessidade da construção dos números reais para resolver o problema teórico da medida. 2 Números Reais Visando uma construção objetiva do conjunto dos números reais, a partir de agora vamos xar uma unidade padrão de referência u, em relação à qual mediremos todos os segmentos. A m de ganhar uma ideia mais concreta dos números irracionais e, em particular, situá-los em relação aos racionais, a construção a seguir consiste em associar os números reais aos pontos de uma reta. Associaremos cada ponto X desta reta a um número x, que chamaremos de abscissa de X: X x. Mas, para que esta construção esteja completa, de forma que cada ponto esteja associado a um número, e cada número esteja associado a um ponto, precisaremos inventar novos números que denominamos irracionais. Na construção que se segue, descreveremos esta associação. Vamos supor conhecidos apenas os números naturais e deniremos os demais conjuntos numéricos ao longo da construção. Tomemos uma reta, em que são xados um ponto O, chamado a origem, e um ponto A, diferente de O. Tomaremos o segmento OA como unidade de comprimento u. A reta OA será chamada a reta real, ou o eixo real. A origem O divide a reta em duas semirretas. A que contém A chama-se a semirreta positiva. A outra é a semirreta negativa. Diremos que os pontos da semirreta positiva estão à direita de O e os da semirreta negativa à esquerda 5
6 de O e, com isto, estabelecemos uma orientação para a reta real. O u A Figura 3: A reta real. Seja X um ponto qualquer na reta OA. Se o ponto X estiver à direita de O e o segmento de reta OA couber um número exato n N de vezes em OX, diremos que a abscissa de X é o número natural n. Se o segmento de reta OA couber um número exato n de vezes em OX, mas X estiver à esquerda de O, diremos que a abscissa de X é o inteiro negativo n. O conjunto Z, formado pelo número 0 e pelas abscissas dos pontos X do eixo real, tais que o segmento unitário cabe um número exato de vezes em OX, chama-se o conjunto dos números inteiros. Ele é a reunião Z = N {0} ( N), dos números naturais com 0 e o conjunto N dos números negativos O u A Figura 4: Números inteiros. Mais geralmente, se o ponto X, pertencente à reta real, é tal que o segmento OX é comensurável com o segmento unitário OA, existe algum segmento w caiba n vezes em OA e m vezes em OX. Isto é, no caso de X estar à direita da origem, temos: OA = n w e OX = m w. Neste caso, diremos que a abscissa do ponto X é m n ou m n, conforme X esteja à direita ou à esquerda da origem. O conjunto Q, formado pelas abscissas dos pontos X da reta real tais que o segmento OX é comensurável com o segmento unitário OA, chama-se o conjunto dos números racionais. Isto é, os números racionais são representados por frações m, em que m Z e n n N. Isto inclui, naturalmente, o caso em que o segmento OA cabe um número exato de vezes em OX. Neste caso, tem-se n = 1 e a abscissa de X pertence a Z. Temos portanto N Z Q. 6
7 O A X w u Figura 5: Números racionais. A Figura 5 ilustra o ponto X de abscissa 5. Temos que o segmento u não 2 cabe um número exato de vezes em OX. Mas, se dividimos u em duas partes iguais, obtendo w = 1 1 u, teremos que OX = 5 w. Portanto, OX = 5 u = u. Porém, estes pontos não esgotam a reta, uma vez que, como vimos, existem segmentos OX que são incomensuráveis com u. Para vericar este fato, basta construir um quadrado de lado OA e tomar um segmento OX congruente com a diagonal desse quadrado. Se, agora, tomarmos um ponto X na reta real de tal modo que os segmentos OX e OA sejam incomensuráveis, inventaremos um número x, que chamaremos de irracional, e diremos que x é a abscissa do ponto X. O número irracional x será considerado positivo ou negativo, conforme o ponto X esteja à direita ou à esquerda da origem, respectivamente. Quando X está à direita da origem, x é, por denição, a medida do segmento OX. Se X está à esquerda da origem, a abscissa x é essa medida precedida do sinal menos. Chamaremos de conjunto dos números reais o conjunto R, cujos elementos são os números racionais, isto é, as abscissas dos pontos X na reta real tais que OX é comensurável com u, e os números irracionais, isto é, as abscissas dos pontos X ais que OX é incomensurável com u. Isto completa a construção do conjunto R. Existe uma correspondência biunívoca entre a reta OA e o conjunto R, que associa cada ponto X dessa reta a sua abscissa, isto é, a medida do segmento OX, ou esta medida precedida do sinal menos. Dado um ponto X na reta real, três possibilidades (mutuamente excludentes) podem ocorrer: X pode estar à direita da origem, à esquerda da origem, ou coincidir com a origem. Portanto, a abscissa x X de X será um número positivo no primeiro caso, um número negativo no segundo, ou 0 (zero) no terceiro. Finalmente, temos N Z Q R. 7
8 Em resumo, dado qualquer segmento OX, este será ou não comensurável com a unidade de medida u. Em caso armativo, existirá um pequeno segmento w, cabendo n vezes em u e m vezes em OX, isto é, u = n w e OX = m w. Logo, a medida de w será a fração 1 e a medida de AB, por conseguinte, será n m vezes 1 n, ou seja, igual a m n. De forma mais geral, se os segmentos AB e CD são comensuráveis, então existem p, q N e algum segmento w tais que AB = p w e CD = q w. Neste caso, associamos a razão entre as medidas de AB e CD com o número racional p q : AB CD = p q Q. Assim, a razão entre segmentos incomensuráveis é um número irracional. Por exemplo, a incomensurabilidade entre o lado e a diagonal do quadrado se traduz, em termos atuais, no fato de que 2 Q. A demonstração para este fato, que reproduzimos acima (p. 2), traduz-se numa prova da irracionalidade de 2. Podemos dar uma prova não geométrica, baseada na decomposição em fatores primos de um número natural. Seja α = d a. Em primeiro lugar, pelo Teorema de Pitágoras, vericamos que a 2 + a 2 = d 2, logo, ( ) d 2 a = 2. Se existissem m, n N tais que α = m n, teríamos portanto, ( m ) 2 = 2, n o que implicaria em m 2 = 2 n 2. Mas, como m 2 é um número natural elevado ao quadrado, todos os fatores em sua decomposição em fatores primos são elevados a expoentes pares. O mesmo ocorre com n 2. Então, o expoente do fator 2 na decomposição de 2 n 2 é ímpar. Como concluímos que m 2 = 2 n 2, isto é uma contradição. 8
9 Comensurabilidade e Divisão de Frações Tradicionalmente, uma das maiores diculdades da Matemática do ensino básico são as operações com frações, especialmente a divisão. Estamos mais acostumados em interpretar a operação de divisão como repartição em partes iguais, em questões do tipo: Se dividimos um saco com 20 balas em 5 saquinhos com a mesma quantidade de balas cada, quantas balas haverá em cada saquinho? Entretanto, esta interpretação não se aplica quando o divisor não é um número natural. Na interpretação da divisão como repartição em partes iguais, são dados a grandeza total e o número de partes e pergunta-se o tamanho de cada parte. Em vez disso, podemos dar a grandeza total e o tamanho de cada parte e perguntar o número de partes. Por exemplo, podemos propor a questão: Se dividimos um saco com 20 balas em saquinhos com 4 balas cada, quantos saquinhos formaremos? Esta é a interpretação da operação de divisão como medida que faz sentido mesmo quando o divisor não é um número natural. Observe que a pergunta é quantas vezes 4 balas cabem em 20. Portanto, é como se usássemos o saquinho de 4 para medir o saco de 20 balas. Assim, dividir o número racional p pelo número racional q corresponde a determinar a medida de p quando q é tomado como unidade. Observe os exemplos a seguir. Na Sala de Aula Sejam p = 5 2 e q = 1. Neste caso, observamos que q cabe exatamente 10 4 vezes em p, isto é, se tomarmos o segmento de comprimento q, a medida do segmento de comprimento p será igual a 10. Assim, 5 2 = , ou = 10. Exemplo
10 No Exemplo 1, o divisor cabe um número exato de vezes no dividendo. Logo, o resultado da divisão é um número natural. No caso em que isso não ocorre, devemos buscar uma unidade comum entre o dividendo e o divisor Sejam p = 5 2 e q = 2 3. Para encontrar uma unidade w comum entre p e q, da qual ambos sejam múltiplos inteiros, devemos subdividir os segmento de comprimento 1 2 em 3 e Exemplo segmento de comprimento 1 3 em 2. Isto é, dividimos p em 15 partes iguais e q em 4 partes iguais. Portanto, como p = 15 w e w = 1 q, a medida de p em 4 relação a q será igual a w = Assim, 5 2 = , ou = w De forma geral, para dividir p = a b e q = c, podemos encontrar uma d unidade comum w, subdividindo 1 b em d partes iguais e 1 d Logo, teremos que em b partes iguais. (i) w cabe d vezes em 1 b, e 1 cabe a vezes em p, portanto w cabe a d vezes b em p, isto é, p = (a d) w ; (ii) analogamente, w cabe b vezes em 1 d, e 1 d cabe b c vezes em q, isto é, w = 1 b c q. cabe c vezes em q, portanto w Assim, considerando que w é uma subdivisão da unidade q e contanto quantas vezes w cabe em p, concluímos que a medida de p quando q é tomando 10
11 como unidade será igual a a d 1 b c = a d. Assim, chegamos a uma dedução da b c conhecida fórmula de divisão de frações: a b c d = a d b c. A interpretação da divisão como medida se aplica a qualquer divisão entre dois números reais, representados, por exemplo, por segmentos de reta. No caso dos segmentos serem incomensuráveis, não será possível encontrar uma unidade, como zemos acima, e o resultado da divisão será um número irracional. Neste caso, podemos também usar subdivisões do divisor para encontrar aproximações racionais para o resultado da divisão. Voltemos por exemplo, ao caso do lado e a diagonal do quadrado. d = m n a, isto é, d a Já sabemos que não existem m, n N tais que Q. Porém, podemos vericar que 1 < d a < 3 2, 4 3 < d a < 5 3, 5 4 < d a < 6 4, e assim por diante. Em sala de aula, essas aproximações podem ser vericadas com ajuda de uma calculadora ou computador. Comensurabilidade e Medição de Áreas Para introduzir o conceito de área no ensino fundamental, antes de mais nada, é importante deixar claro que uma unidade de medida de comprimento u determina uma unidade de medida de área u 2, representada pelo quadrado de lado u, chamado quadrado unitário. Na Sala de Aula u u 2 Se queremos medir a área de um retângulo cujos lados são ambos múltiplos inteiros de u, basta preenchê-lo com quadrados unitários e contar esses quadrados. A medida da área do retângulo, em relação à unidade u 2, será dada pelo número m de quadrados unitários que cabem no retângulo. Neste caso, a medida da área é um número natural. No exemplo abaixo, a medida da área é S = 15 u 2. 11
12 u 2 Se esses lados não são múltiplos inteiros de u, mas são comensuráveis com u, podemos encontrar um subdivisão, w = 1 u, da qual ambos sejam múltiplos k inteiros. Esta subdivisão determinará uma nova unidade de área, w 2 = 1 n u2, em que n = k 2. Basta então preencher o retângulo com quadrados de lado w e contar esses quadrados. A medida da área do retângulo, em relação a unidade u 2, será dada por m, sendo m o número de quadrados de lado w que cabem n no retângulo. Neste caso, a medida da área é um número racional. No exemplo abaixo, a medida da área é S = 176 w 2 = u2 = u2. Entretanto, se pelo menos um dos lados for incomensurável com u, não será possível encontrar uma subdivisão inteira de u que caiba um número inteiro simultaneamente em ambos os lados do retângulo. Neste caso, podemos usar subdivisões inteiras de u para determinar aproximações racionais para a medida da área do retângulo. No exemplo abaixo, vericamos que 120 w 2 < S < 144 w 2, logo u2 < S < u2. 12
13 Um Número Incomensurável? Nos meios de comunicação e em linguagem corrente, em geral, a palavra incomensurável é muitas vezes usada em frases do tipo: havia um número incomensurável de formigas em nosso piquenique. Em sala de aula, evite usar o termo com este sentido. Em Matemática, incomensurabilidade é uma relação entre duas grandezas da mesma espécie; não dá ideia de uma quantidade muito grande. Uma palavra mais adequada no caso das formigas seria incontável. Noutros casos, como uma região gigantesca, poderia ser imensurável. Uma grandeza não pode ser incomensurável por si só, apenas quando comparada com outra da mesma espécie. Para Saber Mais 3 Operações e Ordem na Reta Real O conjunto R pode ser visto como o modelo aritmético de uma reta enquanto esta, por sua vez, é o modelo geométrico de R. Esta inter-relação entre Geometria e Aritmética, entre pontos e números, é responsável por grandes progressos da Matemática atual. A interpretação dos números reais como abscissas dos pontos de uma reta fornece uma visão intuitiva bastante esclarecedora sobre a relação de ordem, a soma e também o produto de números reais. Consideremos X e Y pontos na reta real dos quais x e y, respectivamente, são as abscissas. Diz-se que x é menor do que y, e escreve-se x < y quando X está à esquerda de Y, isto é, quando o sentido de percurso de X para Y é o mesmo de O para A. Quanto à soma, x + y é a abscissa do ponto Z tal que o segmento XZ tem o mesmo comprimento e o mesmo sentido de percurso de OY (Figura 6). O produto xy dos números reais x, y pode ser denido geometricamente com 13
14 base no Teorema de Tales, quando x > 0 e y > 0, como mostra a Figura 7, Nos demais casos, é só mudar o sinal de xy convenientemente. Note que, como a determinação geométrica da soma é feita por simples justaposição, o processo depende da origem, mas não da unidade. Porém, para determinar geometricamente o produto devemos ter como referência o segmento unitário. O X Y Z OY XZ Y Z OY O XZ X Figura 6: Soma de números reais. O 1 x y x y O x 1 x y y Figura 7: Produto de números reais. É interessante vericar geometricamente, para z > 0, em algumas situações, a seguinte propriedade: x < y = x z < y z. 14
15 Referências Bibliográcas [1] Eves, Howard. An Introduction to the History of Mathematics. New York: Holt, Rinehart and Winston, [2] Figueiredo, Djairo G. Análise I Rio de Janeiro: LTC, [3] Lima, Elon Lages. Curso de Análise, Vol. 1. Rio de Janeiro: SBM, Projeto Euclides,
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