Topologia e espaços métricos
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- Ana Laura Bicalho Mendonça
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1 Topologia e espaços métricos Roberto Imbuzeiro Oliveira 7 de Fevereiro de 2014 Conteúdo 1 Preliminares sobre conjuntos 2 2 Introdução aos espaços métricos Definição Exemplos A reta real O espaço Euclideano de d dimensões A métrica discreta Restrições Sequências, limites e completude Continuidade Introdução à topologia: abertos, fechados e companhia Uniões e interseções Caracterizando os fechados via limites Continuidade, abertos e fechados Fechos, interiores e pontos de acumulação Como são os abertos de R? Mais exercícios Conjuntos conexos Conexidade e funções contínuas Os conjuntos conexos de R são os intervalos Aplicações IMPA, Rio de Janeiro, RJ, Brazil,
2 5 Conjuntos compactos Compactos são completos Compactos são totalmente limitados O critério das subsequências convergentes Compactos de R d : o teorema de Heine-Borel Critérios topológicos para a compacidade Continuidade uniforme Conjuntos perfeitos Estas notas serão atualizadas ao longo das próximas aulas. 1 Preliminares sobre conjuntos Aqui observamos alguns fatos sobre conjuntos que não havíamos observado antes. Em primeiro lugar, é possível falar de uniões e interseções de um número arbitrário de conjuntos. Mais exatamente: suponha que I é um conjunto e a cada i I está associado um conjunto A i 1. (Neste caso dizemos que {A i } i I é uma família de conjuntos indexada por I). Definimos as uniões i I A i e interseções i I A i pelas regras: x : x i I A i i I : x A i. x : x i I A i i I : x A i. Em segundo lugar, observamos que, se todos os A i estão contidos num mesmo conjunto X, podemos falar do complemento A c i := X\A i de cada A i com relação a X. Notamos que a operação de tomar complementos é idempotente ((A c ) c = A) e troca interseção por união: ( ) c A c i = A i. i I 1 A maneira correta de pensar nisso seria imaginar que temos uma função f : I A, onde A é um conjunto cujos elementos são conjuntos. Sendo assim, A i seria um sinônimo de f(i). i I 2
3 2 Introdução aos espaços métricos Neste trecho do curso estudaremos um pouco da teoria de espaços métricos, com ênfase em problemas topológicos, isto é, relacionados a conjuntos abertos e fechados e a funções contínuas. 2.1 Definição Definição 1 Um espaço métrico é um conjunto X munido de uma função d : X X [0, + ), chamada de métrica sobre X, com as seguintes propriedades. 1. d é não-negativa e separa pontos distintos: para quaisquer a, b X, d(a, b) = 0 se e somente se a = b; 2. d é simétrica: para qualquer par (a, b) X X, d(a, b) = d(b, a); 3. d satisfaz a desigualdade triangular: para quaisquer a, b, c X, d(a, b) d(a, c) + d(c, b). Todas as propriedades de métrica acima têm uma interpretação intuitiva se pensamos em d como uma noção de distância. A propriedade 1 diz que a distância de um lugar a ele mesmo é nula, mas que qualquer outro lugar está a distância positiva. A segunda propriedade afirma que ir de a a b não é mais fácil ou difícil que ir de b a a. A terceira propriedade afirma que ir de a para c e depois para b não pode resultar em um caminho mais curto que a rota direta de a para b. 2.2 Exemplos Veremos abaixo os principais exemplos de espaços métricos que serão recorrentes no curso. Ocasionalmente usaremos a convenção de denotar por d X a métrica de X; isto será útil quando tratarmos muitos espaços métricos de uma única vez A reta real X = R com a métrica d(a, b) := a b ((a, b) R 2 ). As duas primeiras propriedades da definição de métrica são triviais. A terceira é consequência de x + y x + y aplicada a x = a c e y = c b. Em todas estas notas tomaremos esta métrica como a métrica padrão sobre R, a não ser quando o contrário for dito. 3
4 2.2.2 O espaço Euclideano de d dimensões Nossa segunda classe mais importante de exemplos é dada por X = R d com d N. Os elementos deste conjunto serão representados na forma x R d, com as d coordenadas de x escritas como x[1], x[2],..., x[d]. Às vezes usaremos as seguintes operações: Soma e diferença: dados x, y R d, definimos x ± y R d como o vetor de coordenadas x[i] ± y[i] (1 i d). Multiplicação por escalar: se x R d e λ R, λ x é o vetor de coordenadas λ x[i] (1 i d). A métrica que normalmente usaremos sobre R n será a Euclideana. Para defini-la, vamos primeiro fixar a norma Euclideana: x := d x[i] 2 (x R d ) i=1 e então definir d(a, b) := a b para (a, b) R n R n (aqui definimos a soma e subtração de vetores coordenada a coordenada). Provaremos abaixo que d tem as três propriedades pedidas de uma métrica. 1. Veja que x 0 sempre, com igualdade se e somente se todas as coordenadas de x são nulas. A propriedade segue quando se aplica isto a x = a b. 2. Vem do fato que x = x, onde x é o vetor de coordenadas x[i] (com i [n]), uma vez que se aplica isto a x = a b. 3. Como no caso de X = R, vamos tomar x = a c e y = c b e argumentar que x + y x + y. De fato, como a função que leva t 0 em t 2 é crescente, basta provar que x + y 2 = n (x[i] + y[i]) 2 i=1 é menor ou igual a ( x + y ) 2. Para isto expandimos os quadrados acima. n n n x + y 2 = x[i] 2 + y[i] x[i]y[i]. i=1 i=1 i=1 4
5 Veja que a primeira soma do lado direito é x 2, a segunda é y 2 e a terceira pode ser cotada superiormente por x y (isto é precisamente a desigualdade de Cauchy Schwartz!). Portanto, temos x+y 2 = x 2 + y 2 +2 n x[i]y[i]. x 2 + y 2 +2 x y = ( x + y ) 2. i=1 Em todas estas notas tomaremos esta métrica como a métrica padrão sobre R d, a não ser quando o contrário for dito. No entanto, outras métricas são possíveis. Exercício 1 (Distância do máximo) Defina x := max{ x[1],..., x[d] } (x R d ). Prove que x R d : x x d x. Mostre que pode haver igualdade tanto na desigualdade inferior quanto na superior. Mostre ainda que define outra métrica sobre R d A métrica discreta d(a, b) := a b ((a, b) R d R d ) Os exemplos acima podem passar a impressão de que todo espaço métrico é agradável e que a métrica sempre tem uma boa interpretação como distância. Há, no entanto, um exemplo simples de métrica que não tem qualquer interpretação clara. Esta métrica chamada de métrica discreta sobre X tem a seguinte forma: { 1 se a b d(a, b) := ((a, b) X 2 ) 0 se não. Embora esquisita, esta métrica serve para treinar os conceitos que veremos abaixo. Não custa lembrar: qualquer resultado que queiramos provar para qualquer espaço métrico tem de valer para esta classe estranha! Restrições Nossa última classe de exemplos é obtida por restrições: se Y X não é vazio, a restrição de uma métrica d X sobre X define uma métrica d Y sobre Y [exercício]. Por exemplo, Y = Q, ou Y = [0, 1] também podem ser tomado como espaços métricos com a métrica d Y (a, b) = a b ((a, b) Y 2 ). 5
6 2.3 Sequências, limites e completude Fixo um espaço métrico (X, d X ), podemos falar de sequências {x n } n N X. Assim como no caso de sequências reais, isto é apenas uma forma de escrever uma função de N em X, que trataremos como uma sucessão de termos em X. Não é difícil adaptar as definições da reta R para este caso. Definição 2 Uma sequência {x n } n N X converge (segundo a métrica d X ) a um x X se para todo ε > 0 existe um n 0 N tal que: n N : n n 0 d(x n, x) < ε. Como no caso de números, trocar < ε por ε na definição não muda nada. Definição 3 Uma sequência {x n } n N X é Cauchy (segundo a métrica d X ) se para todo ε > 0 existe um n 0 N tal que: m, n N : m, n n 0 d(x n, x m ) < ε. (X, d X ) é dito completo se toda sequência de Cauchy no espaço converge. A prova de que convergente Cauchy no caso real se adapta perfeitamente ao caso de espaços métricos gerais. A recíproca nem sempre é verdadeira, pois nem todo espaço métrico é completo. Vejamos isto em alguns exemplos. Exemplo 1 (R, d R ) é completo, mas (Q, d Q ) não é. Exemplo 2 (R 2, d R 2) é completo. De fato, suponha que {x n } n R 2 é Cauchy. O exercício 1 acima implica tanto a primeira quanto a segunda coordenadas de x n formam sequências de Cauchy, que portanto têm limites x[1], x[2]. O mesmo exercício nos permite concluir que x n converge ao vetor x com estas coordenadas. O raciocínio é o mesmo para dimensões d = 3, 4, 5,... Exercício 2 Prove mais formalmente que {x n } n N R d converge a x R d se e somente se x n [i] x[i] para cada coordenada 1 i d. Exercício 3 Calcule o limite dos vetores cujas coordenadas são n/n!, n 2 /n!,..., n d /n! (com n N). 6
7 Exemplo 3 Suponha que x X é discreto, isto é, que existe um r > 0 tal que x X e y X\{x}, d(x, y) r. Neste caso x n é Cauchyse e somente se existe um n 0 tal que x n = x n0 para todo n n 0 (de fato, basta tomar o n 0 correspondendo à escolha de ε = r). Mais ainda: quando isto acontece, lim x n = x n0. Segue disto que todo conjunto vira um espaço métrico completo com a métrica dscreta. Exercício 4 Prove que x n x se e somente se d X (x n, x) 0 (note que d X (x n, x) é sequência de números reais). 2.4 Continuidade Vamos definir logo de cara um dos conceitos mais importantes do curso. Definição 4 Sejam (X, d X ), (Y, d Y ) espaços métricos e f : X Y uma função. Dizemos que f é contínua em x X se para toda sequência {x n } n N X com x n x, temos f(x n ) f(x). f é dita contínua se é contínua em todo x X. Exemplo 4 Se X = Y = R vemos claramente que as funções f(x) = a x+b (com a e b contantes), f(x) = x k (k N),... são contínuas, por causa das regras sobre limites de produtos. A função f(x) = 1/x é contínua em X = R\{0}. A soma e o produto de funções contínuas também é contínua. Exercício 5 Enuncie de forma precisa e prove a afirmação de que a composição de funções contínuas é contínua. Exemplo 5 Se X = R d e Y = R, qualquer função que seja um polinômio nas variáveis x[1],..., x[d] é contínua. Se P é um destes polinômios, 1/P (x) é contínua quando tomamos como domínio o conjunto X := {x X : P (x) 0}. Proposição 1 Seja d a métrica discreta sobre X, um conjunto com dois ou mais pontos. Então: qualquer função f : X R é contínua, mas uma função f : R X só pode ser contínua se é constante. A primeira parte vem do fato que, em X, x n x se e somente se x n x para todo n grande. A segunda parte será evidente quando falarmos de conexidade. 7
8 Exercício 6 Dado L > 0, suponha que f : X Y é L-Lipschitz, isto é, temos d Y (f(x), f(x )) L d X (x, x ) para quaisquer x, x X. Mostre que f é contínua. Exercício 7 Fixo x 0 X, defina f : X R com f(x) := d X (x, x 0 ) (x X). Mostre que f é 1-Lipshitz e portanto contínua. Exercício 8 Fixe S X, S. 1. Mostre que, para qualquer x X, o conjunto tem um ínfimo. {d X (x, s) : s S} 2. Prove que d X (x, S) := inf{d X (x, s) : s S} é função 1-Lipschitz (e portanto contínua) de X em R. Nas seções seguintes seguintes faremos a relação entre continuidade e conceitos topológicos. 3 Introdução à topologia: abertos, fechados e companhia Nesta seção (X, d X ) é um espaço métrico dado. Dados x X e r 0, denotamos por B X (x, r) ou apenas B(x, r) a chamada bola aberta de raio r ao redor de x: B(x, r) := {y X : d(x, y) < r}. Também definimos a bola fechada B X [x, r] ou B[x, r] como B[x, r] := {y X : d(x, y) r}. Exercício 9 Mostre que, dados 0 r < r, B(x, 0) = B[x, 0] = {x} B[x, r ] B(x, r) B[x, r]. Mostre que B[x, 0] = B[x, 1/2] = B(x, 1) se a métrica é discreta. Definição 5 A X é dito aberto (segundo a métrica d X ) se para todo x X existe um δ > 0 tal que B X (x, δ) A. F X é dito fechado se X\F é aberto. 8
9 Exemplo 6 Todos os subconjuntos são abertos e fechados se a métrica é discreta. Exemplo 7 Considere uma bola aberta B(x, r). Afirmamos que ela é um conjunto aberto. Para isto precisamos mostrar que, dado qualquer y B(y, r), temos B(y, δ) B(x, r) para algum δ > 0. De fato, dado y B(x, r), temos r := d(x, y) < r. Tomando δ := r r, que é positivo, vemos que z B(y, δ) : d(z, x) d(z, y) + d(x, y) < δ + r = r. Portanto todo z B(y, δ) também está em B(x, r), ou seja, B(y, δ) B(x, r) CQD. Exemplo 8 De forma semelhante, podemos provar que B[x, r] é fechado para todo r 0 (isto inclui o caso de {x} = B[x, 0]). Para fazer isto mostraremos que X\B[x, r] é aberto. De fato, para qualquer y X\B[x, r] temos d(y, x) =: r > r, portanto, se δ := r r, temos z B(y, δ) : d(z, x) d(y, x) d(z, y) > r δ = r, o que implica B(y, δ) X\B[x, r]. Como δ > 0 e podemos encontrar o δ para qualquer y X\B[x, r], deduzimos que X\B[x, r] é aberto, de modo que B[x, r] é fechado. Exercício 10 Prove que e X são ambos abertos e fechados. Exercício 11 Prove que todos os subconjuntos de X são abertos se usamos a métrica discreta. Exercício 12 Prove que os intervalos abertos e fechados de R são mesmo abertos e fechados. 3.1 Uniões e interseções Um dos fatos básicos sobre abertos é que qualquer união de abertos é aberta. Isto inclui uniões de um número infinito de conjuntos. Proposição 2 Seja A uma família de subconjuntos abertos de X. Então a união A A A é aberta. Prova: Suponha que a A A A. Devemos provar que existe δ > 0 tal que B(a, δ) A A A. Para isto basta tomar um A tal que a A (tem de existir, pois a pertence à união) e observar que, como este A é aberto, tem de existir δ > 0 com B(a, δ) A. Como A A A A, isto também implica B(a, δ) A A A, 9
10 Não pode valer um resultado análogo para interseções de um número infinito de abertos. Por exemplo, em R, a família A := {( t, t) : t > 0} tem interseção {0}, que não é aberto. No entanto, vale que a interseção de um número finito de abertos é aberta. Proposição 3 Sejam A 1,..., A m X abertos. Então m i=1 A i é aberto. Prova: Se a m i=1 A i, temos que a A i para cada i. Como estes conjuntos são abertos, existem δ 1,..., δ m > 0 tais que B(a, δ i ) A i, 1 i m. Mas então δ := min{δ 1,..., δ i } > 0 é tal que o que implica B(a, δ)] m i=1 A i. 1 i m : B(a, δ) A i, Nos exercícios a seguir, é bom lembrar que um conjunto é fechado se e somente se tem complementar aberto. Exercício 13 Mostre que qualquer interseção de conjuntos fechados é fechada. Prove ainda que a união de um número finito de conjuntos fechados resulta em outro conjunto fechado. 3.2 Caracterizando os fechados via limites Nas definições acima definimos fechado em função de aberto. Grosso modo, chamaremos de topológicos todos os resultados e definições que forem feitos a partir dos conjuntos abertos. Deste modo, a própria definição de fechado é topológica. A nossa definição de aberto é métrica (isto é, depende de d); damos abaixo uma formulação métrica para os conjuntos fechados. Proposição 4 F X é fechado se e somente se lim n x n F para toda sequência convergente {x n } n N F. Prova: Como a definição de fechado é em função da de aberto, temos de recorrer a A := X\F. O que a proposição diz é: A é aberto toda seq. convergente {x n } n X\A tem limite em X\A. 10
11 Vamos provar primeiro a direção. Supondo que A é aberto, seja {x n } n qualquer sequência convergente contida em X\A e seja x = lim n x n. Fixando y A, mostraremos que x y; o fato de que y pode ser qualquer elemento de A implica x A, como desejado. Fixe então y A. Como A é aberto, r > 0 : B(y, r) A. Por outro lado, como x n A para todo n, temos: n N : x n B(y, r), isto é, d(x n, y) r. O exercício 7 nos mostra que a função d X (, y) é contínua. Como x n x, isto implica que d(x n, y) d(x, y). Pelas propriedades do limite de números reais, isto nos diz que d(x, y) r > 0. Para terminar a prova, mostraremos que, se A não é aberto, então {x n } F com lim n x n A. De fato, se A não é aberto, então existe z A com B(z, r) A para todo r > 0. Isto quer dizer que a bola aberta B(z, r) sempre tem pelo menos um elemento de F = X\A. Em particular, para cada n N podemos escolher um elemento x n F B(z, 1/n). Afirmamos que a sequência {x n } converge a z. De fato, para provar isto, basta mostrar que d(x n, z) 0 (ver exercício 4). Para isto, observe que, para cada n N, d(x n, z) a n := 0 e d(x n, z) b n := 1/n, já que x n B(z, 1/n). Portanto, a sequência {d(x n, z)} n N está sanduichada entre duas sequências a n, b n 0, o que significa d(x n, z) 0. Vamos agora concluir a prova observando o que fizemos. Nossa missão era provar que, se A não é aberto, existe uma sequência {x n } n F convergindo a z F. Veja que, de fato, a sequência {x n } n que acabamos de construir só tem elementos de F ; por outro lado, z = lim n x n A = X\F ; portanto, missão cumprida. 3.3 Continuidade, abertos e fechados Nosso objetivo nesta seção é apresentar a ideia de continuidade de forma topológica, ao invés da forma métrica (via limites) que já mostramos acima. Na prova da equivalência a seguir, veremos ainda uma outra definição métrica de continuidade. Recorreremos a uma notação que será muito usada no que segue: dados f : X Y e S Y, f 1 (S) := {x X : f(x) S}. 11
12 Exercício 14 Mostre que f 1 (S R) = f 1 (S) f 1 (R), f 1 (S R) = f 1 (S) f 1 (R) e f 1 (S\R) = f 1 (S)\f 1 (R). Teorema 1 Sejam (X, d X ) e (Y, d Y ) espaços métricos. Dada f : X Y, as seguintes afirmações são equivalentes. 1. f é contínua, isto é, se {x n } n {x} X e x n x (segundo a métrica d X ), então f(x n ) f(x) (segundo a métrica d Y ). 2. Para qualquer F Y fechado em Y, f 1 (F ) X é fechado em X. 3. Para qualquer A Y aberto, f 1 (A) X é aberto. 4. Para todos x X e ε > 0, existe δ > 0 tal que: x X : d X (x, x ) < δ d Y (f(x), f(x )) < ε. Prova: Passo 1 2. Tome f contínua e F Y fechado. Tome uma sequência convergente {x n } n N f 1 (F ) com limite x X; nosso objetivo é provar que x f 1 (F ), ou seja, que f(x) F. Mas isto é simples, já que f(x n ) f(x) (por continuidade), {f(x n )} n N F (já que x n f 1 (F ) para cada n) e F é fechado (de modo que o limite de qualquer sequência convergente em F também está em F ). Passo 2 3. Vem do exercício anterior à prova juntamente com o fato de que A é aberto se e somente se X\A é fechado. Passo 3 4. Fixos ε > 0 e x X, vamos encontrar o δ desejado. Para fazer isto observe que a bola B Y (f(x), ε) Y é um aberto de Y, de modo que (pelo item 3) f 1 (B(f(x), ε)) é aberto. Como f(x) B(f(x), ε), x é um elemento do aberto f 1 (B(f(x), ε)); pela definição de aberto, isto implica que δ > 0 tal que B X (x, δ) f 1 (B(f(y), ε)). Isto quer dizer que, para todo x B(x, δ) ou seja, todo x X com d X (x, x ) < δ temos f(x ) B(f(x), ε) ou seja, d Y (f(x), f(x )) < ε. Em outras palavras, o δ que apresentamos é precisamente o que tínhamos de encontrar. Passo 4 1. Suponha que x n x em X; nosso objetivo é provar que lim n f(x n ) = f(x), ou seja, que dado ε > 0 existe um n 0 N tal que 12
13 d Y (f(x n ), f(x)) < ε se n n 0. Para isto, fixamos ε > 0 e achamos o n 0 correspondente. Pelo item 4 podemos encontrar δ > 0 tal que d X (x, x) < δ implica d Y (f(x ), f(x)) < ε. Como x n x, existe n 0 N tal que d X (x n, x) < δ sempre que n n 0. Mas então temos d Y (f(x n ), f(x)) < ε sempre que n n 0. Ou seja, este n 0 assegura a propriedade desejada. 3.4 Fechos, interiores e pontos de acumulação Vamos definir aqui algumas outras noções topológicas e fazer alguns comentários sobre elas. Novamente (X, d) é um espaço métrico. Definição 6 O interior de S X, denotado por S o, é definido por: S o := A. O fecho de S é: S := A S : A aberto F S : F fechado Note que o interior é um aberto (proposição 2) e o fecho é um fechado (exercício 13). Propriedades sinples de conjuntos mostram o seguinte. Exercício 15 Mostre que o complementar do fecho de S é o interior do complementar de S. Exercício 16 Prove que x S o se e somente se B(x, δ) S para algum δ > 0. Proposição 5 Se S, S = {x X : d(x, S) = 0}. Prova: Defina F = {x X : d(x, S) = 0}. Recorde que x d(x, S) é função contínua. Portanto, a pré imagem de {0}, que é precisamente F, é fechada, já que {0} R é fechado. Como S está contido em qualquer fechado contendo S, e ainda S F claramente, temos S F. Por outro lado, se x satisfaz d(x, S) = δ > 0 (ou seja, x F ), isto quer dizer que a bola B(x, δ/2) não pode interceptar S. Desta forma vemos que x F e S F, onde F := X\B(x, δ/2) é fechado. Deduzimos que, F. x F F fechado, F S com x F. Como F S, isso quer dizer que x F x S. x : x S x F, ou seja, S = F. Isto quer dizer que 13
14 Definição 7 O conjunto de pontos de acumulação de S X, denotado por S é o conjunto que contem como elementos os x X tais que, para todo r > 0, B(x, r) S contem um elemento diferente de x. Exercício 17 Mostre que N = e Q = R (como subconjuntos de R). 3.5 Como são os abertos de R? Em princípio é impossível dar uma cara aos abertos de um espaço métrico. Apesar desta dificuldade geral, o teorema a seguir mostra que em R é possível descrever os abetos de forma bastante direta. Teorema 2 Todo conjunto aberto de R que não é vazio pode ser escrito como a união de um número enumerável de intervalos abertos disjutos. Observe que esta é uma caracterização completa, já que os intervalos abertos são mesmo abertos e toda união de abertos é aberta. Prova: A ideia da prova será, em primeiro lugar, achar pra cada q A racional, o maior intervalo aberto I q tal que q I q A. Depois veremos que cada x A está em um destes intervalos. Depois disto teremos de mostrar que podemos selecionar intevalos disjuntos entre eles. Passo 1 - construção dos intervalos. Dado q Q A, definimos I q como a união de todos os intervalos abertos contidos em A que têm q como elemento. Mais exatamente, definimos I q := {I A : q I, I intervalo aberto } e I q := I I q I. Note que a família I q contem pelo menos um intervalo ao redor de q porque q A e A é aberto. Já vimos no primeiro teste que a união de intervalos contidos em [0, 1] com interseção não vazia é intervalo; a mesma prova funciona se os intervalos são ilimitados, contanto que permitamos sup e inf infinitos. Deste modo, I q é um intervalo. Além disto, como I q é a união de conjuntos abertos, ele também é aberto. Portanto, I q é um intervalo aberto que está contido em A. Passo 2 - intervalos disjuntos.considere a família de intervalo V := {I q : q A Q}. Esta família é enumerável porque pode ser escrita como a união enumerável dos conjuntos unitários {I q } (a união é enumerável porque Q é). Afirmamos 14
15 que quaisquer intervalos distintos nesta família são disjuntos. De fato, considere I q, I r V com I q I r. O argumento já usado no passo anterior nos diz que I q I r é intervalo aberto. Ao mesmo tempo, I q I r A (pois cada intervalo está contido em A) e q I q I r. Portanto I q I r é um intervalo da coleção I q definida acima. Segue que: I q I r I I q I = I q. Como claramente I q I q I r, temos I q = I q I r. Do mesmo modo podemos concluir que I r = I q I r e portanto I q = I r. Passo 3 - fim da prova. Falta apenas mostrar que a união dos I q s é A. De fato, como cada I q A, a união está contida em A, e falta mostrar que A Iq VI q. Isto é, precisamos mostrar que cada x A está num dos I q s. Mas isto é simples, pois sabemos que um dado x A está num intervalo J = (x δ, x + δ) A. Necessariamente J contem um elemento q Q, que pertence a A porque q J e J A. Vemos então que J I q, de modo que J I Iq I = I q, logo x I q. 3.6 Mais exercícios Exercício 18 (Acrescentado em 28/01/2014) Seja (X, d X ) um espaço métrico completo e considere um subconjunto Y X, Y. Prove que Y é fechado se e somente se é um espaço métrico completo com a métrica d Y obtida por restrição de d X. 4 Conjuntos conexos Nesta seção (X, d X ) é um espaço métrico fixo. Intuitivamente, um conjunto em um espaço métrico é conexo se não há nenhuma maneira de dividir seus elementos em dois conjuntos dicotômicos e bem separados. A definição abaixo é uma maneira formal de desenvolver esta ideia. Definição 8 Dado Y X, uma cisão de Y é um par de conjuntos L, R X com Y = L R, L R = e R L =. Esta cisão é dita trivial se L = ( e portanto R = Y ) ou R = (e então L = Y ). Dizemos que Y é conexo se as únicas cisões possíveis de Y são triviais. Y é desconexo se não é conexo. No final desta seção, veremos que esta definição tem a ver com o comportamento de funções contínuas sobre Y. Mais precisamente, mostraremos 15
16 que Y é conexo se e somente se a imagem de Y por qualquer função contínua f : Y R é um intervalo. Isto é típico de resultados topológicos: eles nos dão uma informação relevante sobre funções contínuas gerais, sem especificar exatamente como cada função se comporta. Exercício 19 Considerando o caso particular em que Y = X, mostre que, em qualquer cisão temos L = L e R = R, de modo que L e R são simultaneamente abertos e fechados em X. Deduza que X é conexo se e somente se os únicos conjuntos simultaneamente abertos e fechados em X são e o próprio X. Esta é uma definição topológica. Observe que nossas condições implicam L R = ; as condições sobre o fecho implicam que os conjuntos L e R são separados. O estudo das propriedades da conexidade usará a seguinte propriedade. Proposição 6 Dados conjuntos L, R X, L R = se e somente se toda sequência {x n } n com x n x R tem a propriedade de que n 0 N com x n L para todo n n 0. Prova: Seja A := X\L. Como L é fechado, A é aberto. Veja que L R = se e somente se R A. Portanto, se x n x R A, podemos encontrar δ > 0 com B X (x, δ) A e então tem de existir n 0 N tal que n n 0 : d X (x n, x) < δ, isto é, x n B X (x, δ) A. Por outro lado, suponha que toda sequência {x n } n com x n x R tem a propriedade de que n 0 N com x n L para todo n n 0. Como os elementos do fecho são precisamente aqueles que são limites de sequências contidas em L, vemos que nenhum R pode pertencer ao fecho de L, isto é, R L =. 4.1 Conexidade e funções contínuas Imagine que Y é conexo e pintamos seus elementos com duas cores. Intuitivamente, como Y é conexo, os conjuntos com as duas cores não podem ser bem divididos: tem de existir uma região de fronteira onde há uma passagem abrupta de uma cor a outra. Dito de outro modo, a função que atribui cada ponto a sua cor tem de ser discontínua. A única forma de evitar este problema seria não utilizar uma das cores. O teorema a seguir transforma isto num critério para conexidade que aplicaremos algumas vezes a seguir. 16
17 Teorema 3 Y X, Y é conexo se e somente se toda função contínua f : Y {0, 1} é constante. (Usamos a métrica discreta em {0, 1}.) Prova: A ideia é que há uma correspondência 1 a 1 entre as funções conínuas f : Y {0, 1} e as cisões Y = L R; basta tomar L = f 1 ({0}) e R = f 1 ({1}) e vice-versa. De fato, vamos ver que se f : Y {0, 1} é uma função dada, f é contínua se e somente se L := f 1 ({0}), R := f 1 ({1}) é cisão. Para provar isto, lembramos que: f é contínua {x n } n {x} Y, x n x implica f(x n ) f(x) No entanto, a métrica no contradomínio de f é discreta, de modo que f(x n ) f(x) se e somente se f(x n ) = f(x) para todo n grande. Isto é, f é contínua {x n } n {x} Y, x n x implica n 0 N, n n 0 f(x n ) = f(x). Traduzindo em termos de L e R, pedir que f seja contínua equivale a pedir que, se x R, então x n R para todo n n 0 enquanto que, se x L, então x n L para todo n n 0. A Proposição 6 mostra que isto ocorre se e somente se L R é uma cisão. Para terminar a prova, notamos que a função f é constante se e somente se a cisão correspondente L, R é trivial (ou seja, um dos conjuntos é vazio). Uma aplicação muito importante do Teorema é que a imagem de conjuntos conexos por funções contínuas é sempre conexa. Proposição 7 Sejam (X, d X ) e (Z, d Z ) espaços métricos. Se f : X Z é contínua e Y X é conexo, então f(y ) é conexa. Prova: Chame de S a imagem de f. Considere uma função g : S {0, 1} contínua. Como f é contínua e Y é conexo, g f é constante sobre Y. Ou seja: x, x Y : g(f(x)) = g(f(x )). Os elementos de S são precisamente os pontos da forma f(x) com x X. Deduzimos que: s, s S : g(s) = g(s ) ou seja, toda função contínua g : S {0, 1} é constante. também é conexo. Portanto S 17
18 O teorema também dá condições suficientes para que uma união de conjuntos seja conexa. Intuitivamente é claro que, quando unimos conjuntos conexos S, R, só é possível produzir um conjunto desconexo se não há um ponto comum de S e R. O Lema a seguir mostra uma versão mais geral disto. Lema 1 Considere um espaço métrico (X, d X ) e uma família F de subconjuntos de X que não são vazios. Suponha que V W para quaisquer V, W F. Então S := V F V é conexo. Prova: Seja f : S {0, 1} uma função contínua. Nosso objetivo é provar que f é constante. Para este fim, notamos primeiramente que a restrição de f a cada conjunto V F função contínua. Em particular, como cada V é conexo (por hipótese), f V é constante. Isto é, para todo V F existe um b V {0, 1} tal que f(x) = b V para todo x V. Vamos provar que todos os b V s são iguais. De fato, se tomamos V W elementos de F, sabemos (por hipótese) que existe um elemento x V W ; portanto b V = b W = f(x). O que concluímos é que f é constante em cada conjunto V F e que os valores tomados por f nestes conjuntos são todos iguais. Isto implica que f é constante sobre todo S = V F V. Exercício 20 Prove que, no teorema anterior, podemos pedir apenas que F seja irredutível, o que quer dizer que, se A F é uma subfamília com A, F, então existem A A, B F\A com A B. 4.2 Os conjuntos conexos de R são os intervalos A seguir será extremamente importante termos uma caracterização dos conjuntos conexos de R. Por sorte, esta não é uma tarefa difícil. Teorema 4 Os subconjuntos conexos de R que não são vazios são precisamente os intervalos. Este teorema terá algumas consequências importantes, que veremos mais adiante. Prova: Lembre que E R, E é intervalo se e somente se (inf E, sup E) E. 18
19 Não é intervalo não é conexo. Vamos supôr primeiramente que E não é intervalo e provar que ele tem uma cisão que não é trivial. Como E não é intervalo, existe x 0 (inf E, sup E) que não pertence a E. Podemos tomar L = E (, x) e R = E (x, + ) e observar que: L R = porque L (, x] e R (, x] =. Um argumento semelhante mostra que R L =. Além disto, E tem de conter elementos em [inf E, x) e (x, sup E], portanto L, R. Deduzimos que L, R é uma cisão de E que não é trivial. É intervalo é conexo. Observe que todo intervalo é união de intervalos fechados limitados que contêm um ponto em comum [exercício]. Portanto, basta provar este resultado no caso em que E = [a, b] com < a b < + (v. Lema 1). Para isto vamos tomar uma f : [a, b] {0, 1} contínua e supôr (para chegar a uma contradição) que que f não é constante. Tome então a x 1 < y 1 b com f(x 1 ) f(y 1 ). Vamos definir x 2, y 2, x 3, y 3,... com a x 1 x 2 x 3..., b y 1 y 2 y 3... e f(x n ) f(y n ) para todo n, mas y n x n 0. Faremos isto usando o velho truque de dividir o intervalo [x n, y n ] em 2 e notar que o ponto médio do intervalo tem valor de f diferente de um dos dois extremos. Disto poderemos deduzir que: x n x (pois é não descrescente e limitada); y n x (pois y n x n = y n x n 0; mas f(y n ) f(x n ) = 1 para todo n, pois f(x n ), f(y n ) {0, 1} e f(x n ) f(y n ). O resultado será que 0 = f(x) f(x) = lim n f(x n ) f(y n ), o que contradiz a premissa de que f não é constante. O argumento é bem simples. Já definimos x 1 e y 1 acima. Suponha que x 1, y 1,..., x n, y n já foram definidos de forma que x i y i, y i x i = 2 1 i (y 1 x 1 ) e f(y i ) f(x i ) para cada 1 i n. Note que o ponto médio z n = (x n + y n )/2 pertence a [a, b] e uma das possibilidades abaixo vale: 1. f(z n ) f(x n ). Neste caso tomamos x n+1 = x n, y n+1 = z n. 2. f(z n ) = f(x n ). Como f(x n f(y n ), temos f(z n ) f(y n ) e podemos tomar x n+1 = z n, y n+1 = y n. Claramente, f(x n+1 ) f(y n+1 ), x n x n+1 y n+1 y n e y n+1 x n+1 = (y n x n )/2. É fácil deduzir disto que valem as propriedades desejadas. 19
20 4.3 Aplicações O teorema a seguir é um dos mais importantes de todo o cálculo. Teorema 5 (Teorema do valor intermediário) Seja I um intervalo de R. Então a imagem de I por f é intervalo. Em particular a, b I com f(a) f(b), c [f(a), f(b)] x I : f(x) = c. O em particular é consequência do fato que f(a), f(b) f(i) e que f(i) é intervalo, logo todo ponto c [f(a), f(b)] está na imagem de I. Note que este teorema segue da Proposição 7 combinada com o Teorema 4. Também podemos provar este teorema diretamente a partir do argumento de bisseção de intervalo usado na prova do Teorema. De qualquer modo, o que já vimos permite provar resultados muito mais gerais. Definição 9 Dado (X, d X ), Y X é dito conexo por caminhos se dados quaisquer a, b Y existe uma função contínua γ : [0, 1] Y (uma curva ) com γ(0) = a e γ(1) = b. Exercício 21 Mostre que qualquer bola aberta ou fechada em R d é conexa por caminhos. Exercício 22 Suponha que C R d é convexo, isto é, x, y C e 0 < t < 1 temos que t x + (1 t) y C. Prove que C é conexo por caminhos. Teorema 6 Um conjunto conexo por caminhos é conexo. Qualquer imagem de um conjunto conexo por caminhos por uma função contínua é também conexa por caminhos, logo conexa. Prova: Suponha que (X, d X ) é dado e Y X é conexo por caminhos. Vamos mostrar que Y é conexo tomando uma f : Y {0, 1} contínua e mostrando que f é constante. Se a, b Y e γ : [0, 1] Y é uma curva ligando γ(0) = a a γ(1) = b, vemos que f γ : [0, 1] {0, 1} é contínua. Como [0, 1] é intervalo (logo conexo), f γ é constante, emm partcular f(a) = f(γ(0)) = f(γ(1)) = f(b). Como quaisquer a, b Y são ligados por uma curva, deduzimos que f(a) = f(b) para todos a, b Y, portanto f é constante. O fato de que a imagem de conexo por caminhos também é conexo por caminhos é um exercício. 20
21 Exercício 23 Prove que Y X, Y é conexo se e somente se f(y ) é intervalo para toda f : Y R conínua. [Dica: o somente se já está provado. O se resulta do fato de que um intervalo I {0, 1} só pode conter um ponto.] 5 Conjuntos compactos Esta parte ainda vai passar por alterações bem grandes. Muitos problemas em Matemática Pura e Aplicada podem ser postos na forma de problemas de minimização. Dado um conjunto S e uma função f : S R, encontre s S tal que f(s ) f(s) para todo s S. Por exemplo: os problemas de achar o mínimo de uma função f : R d R, de achar a curva de menor comprimento ligando dois pontos em uma superfície e de achar uma superfície mínima para um contorno dado têm todos esta forma. Nem todo problema desta forma tem solução. Por exemplo, a função f(x) = 1/x não atinge um valor mínimo no domínio S = (0, + ). Definiremos um conjunto como compacto se este problema não ocorre quando f é contínua. Definição 10 Um espaço métrico (K, d K ) é dito compacto se para toda f : K R contínua existe um x K tal que f(x ) = inf x K f(x). Se K X, dizemos que K é compacto (e escrevemos K X) se K é compacto (na acepção anterior) com a métrica induzida por X. Veremos nesta seção que os espaçcompactos têm uma teoria extremamente rica tanto do ponto de vista métrico quanto do ponto de vista topológico. 5.1 Compactos são completos Começamos com o fato de que todo compacto é completo do ponto de vista métrico. Teorema 7 Se (K, d K ) é compacto, ele é um espaço métrico completo. 21
22 Antes da prova, observe que o teorema implica que todo K X é subconjunto fechado de X (v. exercício 18). Prova: Vamos provar que se K não é completo, então não é compacto. Suponha então que existe {x n } n K que é Cauchy, mas não converge (em K). Nossa intuição é de que existe em algum universo maior um limite para esta sequência, dado por um x K. A função f : K R dada por f(x) = d(x, x ) é contínua e sempre positiva (já que x K), mas toma valores arbitrariamente pequenos ao longo da sequência. Isto quer dizer que inf x K f(x) = 0, mas não há ponto atingindo este valor. Evidentemente, o que descrevemos acima é só intuição. A rigor o x não existe. No entanto, se ele existisse, teríamos d(x, x ) = lim d(x, x n ) para todo n. Mostraremos que este limite faz sentido de qualquer forma e o usaremos para definir uma f contínua que não atinge seu ínfimo. Eis os passos formais. Passo 1 - definindo uma f. Notamos primeiramente que para todo x K existe o limite: f(x) := lim n d K (x n, x) R. Isto segue do fato que {d K (x n, x)} n N R é Cauchy, que provamos a seguir. Veja primeiramente que, pela desigualdade triangular, m, n N, x K : d K (x n, x) d K (x m, x) d K (x n, x m ) O fato que {x n } n é Cauchy implica que para todo ε > 0 existe n 0 tal que o lado direito acima é < ε para n, m n 0. Deste modo, dado ε > 0 existe um n 0 tal que m, n n 0 x K : d K (x n, x) d K (x m, x) < ε. Isto é precisamente a afirmação de que {d K (x n, x)} n é Cauchy para todo x. Passo 2 - o ínfimo de f é 0, mas f(x) > 0 para todo x. Veja primeiramente que f(x) > 0 para todo x K. De fato, f é sempre não negativa (pois é limite de termos não negativos) e f(x) = 0 implicaria d(x n, x) 0, ou seja, x n x (contradição com o fato de que x n não converge). Falta mostrar que inf x K f(x) = 0. Para isso primeiro fixamos ε > 0. Vamos observar que, tomando n 0 como acima: m, n n 0 : d(x m, x n ) < ε. 22
23 Tomando o limite quando m + vemos que f(x n ) ε para todo n n 0. Logo inf x K f(x) ε. Como ε > 0 é arbitrário, isto quer dizer que inf x K f(x) 0. Como já vimos, f nunca toma valores negativos, e disto deduzimos inf x K f(x) = 0. Passo 3 - f é contínua. Observe que este passo termina a prova pois ele implica que f é contínua e f(z) inf x K f(x) para todo z K, o que mostra que K não é compacto pela nossa definição. Vamos provar na verdade que f é 1-Lipschitz (v. exercício 6). Isto é bastante dieto: dados x, x K, a desigualdade triangular nos diz que e tomando limites obtemos n Nd(x, x n ) d(x, x n ) + d(x, x ) f(x) f(x ) + d(x, x ). Trocando os papeis de x e x descobrimos que f(x) f(x ) d(x, x ). Como x, x K são arbitrários, isto nos dá o resultado desejado. 5.2 Compactos são totalmente limitados Vimos acima que todo conjunto compacto é completo. A recíproca não é verdadeira, como mostra, por exemplo, o caso K = R (com a métrica usual). Nesta seção mostraremos que há uma propriedade extra que um compacto tem de satisfazer. De fato, vamos ver a seguir que ela é equivalente a compacidade se K é completo. Definição 11 Considere um espaço métrico (X, d X ). Um conjunto S X é separado se existe um δ > 0 tal que d X (s, s ) δ para todos s, s S, s s. Dizemos que (X, d X ) é totalmente limitado se ele não contem um conjunto infinito que é separado. Esta definição tem uma reformulação equivalente que será importante mais adiante. Proposição 8 Um espaço métrico (X, d X ) é totalmente limitado se e somente se vale a seguinte propriedade: para todo ε > 0 existe uma coleção finita de bolas abertas B X (x i, ε), 1 i k, com X = k i=1 B X(x i, ε). 23
24 Prova: Vamos provar primeiro que a existência da coleção de bolas implica que X é totalmente limitado. Fixe δ > 0 e tome ε = δ/2. Supondo X k i=1 B X(x i, ε), qualquer conjunto infinito S X tem de conter infinitos elementos em pelo menos uma das bolas B X (x i, ε) (isto é o caso infinito do Princípio das Casas dos Pombos). Em particular, usando a desigualdade triangular, vemos que S obrigatoriamente possui infinitos pares de elementos a distância < δ; de fato, dados s, s S B X (x i, ε) d X (s, s ) d X (x i, s) + d X (x i, s ) < δ. Como δ > 0 é arbirtrário, deduzimos que qualquer conjunto infinito S X não é separado e portanto X é totalmente limitado. Vamos provar agora a direção contrária. Fixe ε > 0. Supondo que não existe uma coleção finita de bolas de raio ε > 0 cobrindo X, vamos construir um conjunto separado infinito S X. A construção é recursiva. 1. Escolha x 1 X arbitrariamente. 2. Dados x 1,..., x n X, escolha x n+1 de modo que d X (x n+1, x i ) ε para todo 1 i n. Note que esta recursão faz sentido: sob a nossa hipótese, temos que para todo n N as bolas B(x 1, ε),..., B(x n, ε) não cobrem X, portanto existe um x n+1 X que não está em qualquer uma das bolas. É fácil verificar que o conjunto S := {x n : n N} é separado, já que a recursão garante d X (x i, x j ) ε quando 1 i < j. Lema 2 Todo espaço métrico compacto é totalmente limitado. Prova: Vamos mostrar que um espaço métrico (X, d X ) que não é totalmente limitado não pode ser compacto. Para isto partimos de um conjunto S X que é infinito e separado: d(s, s ) δ para quaisquer elementos distintos s, s S. Sem perda de generalidade, suporemos que S é enumerável e escreveremos S = {s j : j N}. Nosso objetivo será construir uma função contínua f : X R com sup{f(x) : x S} = +. isto implica que X não é compacto porque a função contínua f não atinge seu ínfimo sobre X. Defina r := δ/4 > 0. Vamos começar a prova com a seguinte observação. Dado x X, existe no máximo um índice j = j(x) N com d(x, s j ) < 2r. 24
25 A razão para isto é que, se houvesse outro índice k N com d(x, s k ) < 2r, a desigualdade triangular implicaria d(s j, s k ) d(x, s j ) + d(x, s k ) < 4r = δ, o que contraria o fato de que a distância mínima entre elementos de S é δ. Continuando, definimos, para cada j N, uma função contínua f j : X R da seguinte forma: f j (x) := j max{r d(s j, x), 0} (x X). Exercício 24 Prove que f j é mesmo contínua. [Dica: Primeiro prove que x max{x, 0} é função contínua de R em R e depois aplique composições.] Agora vamos definir uma função f : X R da seguinte forma. { fj (x) se j N é o único índice tal que d(x, s f(x) := j ) < 2r; 0 se não há s j com d(x, s j ) < 2r Veja que f é ilimitada: de fato, para todo j N temos f(s j ) = f j (s j ) = j.r + (pois r > 0). Portanto sup{f(x) : x X} = +. Falta mostrar que ela é contínua. Para isto, fixamos {x n } n {x} X com x n x; vamos provar que f(x n ) f(x). Consideraremos dois casos. d(x, s j ) 3r/2 para todo j. Neste caso f(x) = 0, pois f j (x) = 0 sempre que d(x, s j ) r. Por outro lado, observe que existe n 0 N tal que para todo n n 0, d(x, x n ) < r/2, o que implica que d(x n, s j ) > r para todo n n 0. Neste caso também f j (x n ) = 0 para todo j N, donde segue que f(x n ) = 0 para n n 0. Ou seja, f(x n ) 0 neste caso. d(x, s j ) < 3r/2 para algum j. Neste caso, como observamos acima, j = j(x) N é o único índice com d(x, s j ) < 2r; além disto, f(x) = f j (x). Observe que existe n 0 N tal que n n 0 vale d(x, x n ) < r/2, de modo que d(x n, s j ) < 2r para todo n n 0. Usando a definição de f, deduzimos n n 0 f(x n ) = f j (x n ). Como f j é contínua, f j (x n ) f j (x) = f(x). A implicação acima nos diz que f(x n ) f(x) neste caso. 25
26 5.3 O critério das subsequências convergentes Nesta seção vamos mostrar que a compacidade de um espaço métrico pode ser avaliada a partir de subsequências. Definição 12 Dados um conjunto infinito N N e uma sequência {x n } n N, a subsequência {x n } n N é definida da forma { x j } j N com x j := {x nj }, onde n 1 < n 2 < n 3 <... é a única enumeração crescente dos elementos de N. Também escrevemos {x nj } j N diretamente. Falamos que lim n N x n = x se x nj x quando j +. Exercício 25 Mostre que x n x implica x nj x. A propriedade 3 do teorema é muitas vezes tomada como ponto de partida da definição de compacidade em espaços métricos. Como veremos abaixo, ela implica facilmente a nossa definição de compacidade (=funções contínuas atingem o ínfimo). Antes disto, veremos um exemplo de aplicação. Teorema 8 Considere um espaço métrico (K, d K ). As seguintes propriedades são equivalentes. 1. (K, d K ) é compacto. 2. (K, d K ) é completo e totalmente limitado. 3. Toda sequência em K possui uma subsequência convergente. Prova: [do Teorema 8] A implicação 1 2 foi vista no Lema 2 acima. Vamos ver agora que 3 1 e 2 3. Prova de 3 1. Seja f : X R contínua. Vamos primeiramente supôr que l := inf{f(x) : x K} >. Neste caso sabemos que para cara n N há um x n K com l f(x n ) l + 1/n; deste modo, f(x n ) l quando n +. Agora observe que, pela propriedade 3, a sequência {x n } n N tem uma subsequência convergente {x n } n N com limite x K. Por continuidade, f(x ) = lim n N f(x n ). Mas veja que {f(x n )} n N é subsequência de {f(x n )} n N, logo lim f(x n) = lim f(x n ) = l = inf{f(x) : x K}. n N n N Portanto f(x ) = inf. Falta mostrar que não é possível ter l =. Para provar isto, vamos supôr que l =. Neste caso, podemos construir x n com f(x n ) < n para 26
27 todo n N, de modo que lim n f(x n ) =. Um argumento semelhante ao que demos acima nos mostraria que uma subsequência dos x n converge a um x K; mas então f(x ) = lim n N f(x n ), o que contradiz o fato de que f(x n ). Prova de que 2 3. Seja {x n } n N K. Nosso objetivo será provar que {x n } n N possui uma subsequência de Cauchy. Como (K, d K ) é completo, isto basta para provar que sempre há uma subsequência convergente. Não é muito simples achar esta subsequência, então vamos começar com o resultado mais fraco que apenas garante o seguinte: sempre há uma subsequência apertadinha. Afirmação 1 Dado qualquer r > 0 existe uma subsequência {x n } n N que m, n N, d K (x m, x n ) < r. tal De fato, como estamos supondo que K é totalmente limitado, a Proposição 8 nos diz que podemos cobrir K por um número finito de bolas de raio r/2. Como o número de bolas é finito, uma das bolas, que chamaremos de B(z, r/2), é tal que o conjunto N := {n N : x n B(z, r/2)} é infinito, e um argumento simples mostra que {x n } n N tem a propriedade desejada. O que vem a seguir é uma espécie de truque diagonal que mostra como esta afirmação pode ser usada para achar uma subsequência convergente. A primeira ideia deste truque diagonal é que, aplicando a afirmação infinitas vezes, podemos encontrar subsequências encaixadas e cada vez mais apertadas. Mais precisamente: 1. A afirmação implica que existe N 1 N infinito tal que d K (x n, x m ) < 1/2 para todos n, m N Suponha (recursivamente) que existem conjuntos infinitos N 1 N 2 N k, todos contidos em N, tais que, para qualquer 1 i k e quaisquer n, m N i, vale a desigualdade d K (x n, x m ) < 2 i. Vamos mostrar como construir um conjunto N k+1 de forma a estender por mais um passo esta construção. Para isto, aplicaremos a afirmação à sequência {x nj } j N onde {n j : j N} = N k. com r = 2 k 1. Isto nos dá um conjunto N e podemos definir N k+1 := {n j : j N}, de modo a termos as propriedades desejadas. 27
28 Nossa tarefa final é extrair destas subsequências encaixadas e cada vez mais apertadas uma subsequência de Cauchy. Uma tentativa poderia ser definir {x n } n N com N := k N k, mas isto não pode funcionar em geral: afinal, n, m N k N, n, m N k k N, d K (x n, x m ) 2 k x n = x m. Portanto N não pode ser um conjunto infinito (a não ser que a sequência original tenha infinitos termos iguais). A segunda ideia do truque diagonal é uma maneira diagonal de selecionar um subconjunto infinito N de modo que N N k quase vale, isto é, N N k tem apenas um número finito de termos. Vamos escrever N := {n 1 < n 2 < n 3 <... } onde os n k são definidos recursivamente. 1. Em primeiro lugar, definimos n 1 = min N 1 (isto é válido porque N 1 é subconjunto dos naturais). 2. Definidos n 1 < < n k, observamos que, como N k+1 é infinito, N k+1 \[n k ]. Como ele também é subconjunto dos naturais, podemos definir n k+1 := min(n k+1 \[n k ]) e observamos que n k+1 [n k ], de modo que n k+1 > n k. Pela construção temos n 1 < n 2 <.... Além disto, para k, r N com k < r, temos que n k N k, n r N r N k e como d K (x n, x m ) < 2 k para n, m N k, isto implica k, r N : k < r d K (x nk, x nr ) < 2 k. Exercício 26 Para terminar a prova, deduza disto que {x nk } k N é Cauchy. Exercício 27 Use o critério das subsequências para mostrar que todo subconjunto fechado de um compacto é ele próprio compacto. 28
29 5.4 Compactos de R d : o teorema de Heine-Borel Teorema 9 (Heine Borel) Um subconjunto K R d é compacto se e somente se é fechado e limitado. Prova: [de Heine Borel]Compactos são fechados (v. exercício 18) e totalmente limitados, e vice-versa. Basta provar então que um conjunto em R d é limitado se e somente se é totalmente limitado. Mas isto é simples: Se K é totalmente limitado, K m i=1 B(x i, δ). Mas então a desigualdade triangular mostra que d(0, x) max{d(0, x i )} 1 i n +δ para todo x K, ou seja, K é limitado. Se K R d é limitado, temos que K [ n, n] d para algum n N. Dividindo cada intervalo [ n, n] em intervalos de comprimento < δ/ d, vemos que [ n, n] d é dividido em um número finito de cubos tais que x x < δ para quaisquer dois elementos no mesmo cubo. Tomando um ponto x i em cada cubo, vemos que K [ n, n] d m i=1 B(x i, δ) para uma certa coleção finita de pontos. Deste modo, K é totalmente limitado. Exercício 28 Mostre que um espaço métrico com a métrica discreta e com um número infinito de pontos não é totalmente limitado, apesar de ser fechado (completo) e limitado. 5.5 Critérios topológicos para a compacidade Vimos acima que a compacidade o fato de que funções contínuas sempre atingem o ínfimo-- tem várias expressões em termos de métricas. Agora veremos uma versão topológica destes critérios. Teorema 10 Dado um espaço métrico (K, d K ), são equivalentes: 1. K é compacto. 2. Toda coleção de abertos A de K com A A A = K tem uma subcoleção finita C A com A C A = K. (Normalmente abrevia-se este enunciado dizendo que toda cobertura de K por abertos tem uma subcobertura finita.) 29
30 3. Toda coleção de fechados F de K com F F F = possui uma subcoleção finita P F com F P F =. Prova: Veja que 2 3 segue se escrevemos A := {X\F : F F} e notamos que F F F = se e somente se A A A = K. Provaremos que 3 1 e 1 2 a seguir. Prova de que 3 1. Seja f : K R contínua e chame de l = inf{f(x) : x K} (em princípio permitimos l = ). Vamos mostrar que existe um x K com f(x ) = l. Para isto notamos que, se t R e t > l, tem de existir um x K com f(x) t. Portanto, os conjuntos F t := {x K : f(x) t} = f 1 ((, t]) são fechados e não são vazios. Afirmamos que t>l F t. Para isto, o item 3 nos diz que basta checar que qualquer coleção finita dos conjuntos F t tem interseção não-vazia. Tome, então conjuntos F t1,..., F tk com t 1,..., t k > l e verifique que: k F ti = i=1 k i=1 f 1 ((, t i ]) = f 1 ((, min 1 i k t i]) já que min t i > l quando t 1,,t k > l. Pelo item 3, isto implica que F t. t>l Veja que qualquer x t>l F t tem l f(x ) (pois l é ínfimo) e f(x ) t para todo t l, logo f(x) = l e (a fortiori) l. Prova de que 1 2. Seja A como no item 2. Observe que todo x K pertence a algum aberto A A. Portanto existe um δ > 0 com B(x, δ) A para algum A A. Reduzindo δ se necessário, podemos tomar δ < 1. Isto nos permite definir uma função r : K (0, + ) da seguinte forma: r(x) := sup{0 < δ < 1 : existe A A tal que B(x, δ) A} (x K). Afirmação 2 r é contínua. Prova: [da Afirmação]Vamos mostrar que r é 1-Lipschitz, o que implica que r é contínua. Para isto basta mostrar que: Objetivo: x, x X : r(x) r(x ) d X (x, x ). (1) 30
31 De fato, se temos isto, podemos trocar os papeis de x, x e mostrar que também vale r(x ) r(x) d X (x, x ), de modo que r(x ) r(x) d X (x, x ) para todos x, x X. Para provar nosso objetivo, tome qualquer 0 < r < r(x) e um conjunto A A com B(x, r) A. Note que B(x, r d X (x, x )) B(x, r); afinal, y B(x, r d X (x, x )) : d X (y, x) d X (y, x ) + d X (x, x ) < r. Portanto também temos B(x, r d X (x, x )) A A e isto implica r(x ) r d X (x, x ). Tomando o supremo em r, vemos que r(x ) r(x) d X (x, x ), como queríamos demonstrar. [Fim da prova da afirmação.] Com esta afirmação podemos provar que δ > 0 : x K, A A com B(x, δ) A. De fato, basta tomar δ := inf{r(x) : x K}/2 e notar que: δ > 0 porque r( ) contínua e K é compacto implicam que inf{r(x) : x K} = r(x ) para algum x K, de modo que r(x ) > 0 porque r é positiva em todo ponto. Dado x X, r(x) > δ. Pela definição de r(x) como supremo, existem r (δ, r(x)] e A A com B(x, δ) B(x, r) A. Vamos agora terminar a prova. Já vimos no Teorema 8 que K compacto implica que K é totalmente limitado. Pela Proposição 8, isto quer dizer que K k i=1 B(x i, δ) para alguma escolha de x 1,..., x n K. Mas então escolhemos, para cada 1 i k, um aberto A i A com B(x i, δ) A i, e observamos que K k i=1 A i. Deste modo, C := {A i : 1 i k} é uma subcoleção finita que cobre K. Observação 1 Um dado importante que surgiu na prova acima é que, se K é compacto, então toda cobertura A de K por abertos possui um número de Lebesgue, isto é, um δ > 0 tal que, se x, x K e d K (x, x ) < δ, então x, x A para algum A A. Isto é, se d K (x, x ) < δ, x, x pertencem ao mesmo aberto da cobertura. Usaremos isto mais adiante. 31
32 5.6 Continuidade uniforme Vamos mostrar no restante desta seção que uma função contínua em um compacto é sempre uniformemente contínua. Definição 13 Dizemos que f : X Z é uniformemente contínua se para qualquer ε > 0 existe um δ > 0 tal que, se x, x X e d X (x, x ) < δ, então d Z (f(x), f(x )) < ε. Note que isto é diferente da definição de continuidade via ε/δ, que é: ε > 0 x X δ > 0 x X : d X (x, x ) < δ d Z (f(x), f(x )) < ε. Já continuidade uniforme pede que: ( ) ε > 0 δ > 0 x, x X : d X (x, x ) < δ d Z (f(x), f(x )) < ε. Ou seja: dado ε, temos que achar um δ que serve para todos os x simultaneamente. Exercício 29 Toda função Lipschitz é uniformemente contínua. Por outro lado, f : R R dada por f(x) = x 2 não é uniformemente contínua. De fato,vemos que: n N, h > 0 : f(n + h) f(n) > 2n.h. Portanto, fixo ε > 0, vemos que δ > 0 existe um n N e um 0 < h < δ (de fato, 2h = δ/n basta) com h < δ mas f(n + h) f(n) δ. O teorema a seguir mostra que este fenômeno não pode acontecer se o domínio da função f é compacto. Teorema 11 Se (X, d X ) é compacto, então toda função f : X Z que é contínua é uniformemente contínua. Prova: Seja f : X Z contínua e fixe ε > 0. Mostraremos que existe um δ > 0 satisfazendo ( ). Pela definição ε/δ de continuidade, para qualquer ε > 0 e qualquer x X existe um δ(x) > 0 tal que x X : d X (x, x ) < δ d Z (f(x), f(x )) < ε 2. 32
33 A desigualdade triangular implica que: Observe que x X, x, x B X (x, δ(x)) : d Z (f(x ), f(x )) < ε. (2) A := {B X (x, δ(x)) : x X} é uma coleção de abertos que cobre X. A Observação 1 implica que existe um número de Lebesgue δ > 0 tal que, se a, b X e d X (a, b) < δ, então a, b ambos pertencem a um mesmo aberto desta coleção. Isto é: d X (a, b) < δ x X a, b B X (x, δ(x)) d Z (f(a), f(b)) < ε (por (2)). Concluímos que o número de Lebesgue δ tem exatamente a propriedade que procurávamos. Exercício 30 Construa uma prova alternativa da continuidade uniforme baseada no seguinte argumento. 1. Primeiro mostre que f é uniformemente contínua se e somente se vale a seguinte propriedade: {x n } n N, {y n } n N X : d X (x n, y n ) 0 d Z (f(x n ), f(y n )) Agora suponha (para chegar a uma contradição) que existem {x n } n, {y n } n com d X (f(x n ), f(y n )) 0, mas d Z (f(x n ), f(y n )) 0. Observe que, se x n converge a algum x, y n também converge a x e portanto d X (f(x n ), f(y n )) 0, contradição. Depois note que, mesmo que x n não convirja, é sempre possível achar uma subsequência convergente, e isto já basta para fazer valer a prova. 5.7 Conjuntos perfeitos Nesta seção concluímos as notas sobre topologia falando de certos conjuntos em que todo ponto pode ser bem aproximado por outros pontos. Definição 14 Seja (X, d X ) um espaço métrico. P X é perfeito se todo x P é ponto de acumulação de P, isto é: p P, δ > 0 : (B X (p, δ)\{p}) P. Exercício 31 Mostre que P é perfeito se e somente se para cada p P existe uma sequência {p n } n P \{p} que converge a p. 33
34 Exercício 32 Mostre que R, Q e R\Q são subconjuntos perfeitos de R. Exercício 33 Mostre que existem conjuntos perfeitos enumeráveis. Provaremos abaixo um resultado que mostra que não há conjuntos compactos, perfeitos e enumeráveis. Teorema 12 Se P X é compacto e perfeito, P é não enumerável. Veja que a hipótese de que P é compacto não pode ser descartada. Prova: Na prova vamos supôr sem perda de generalidade que X = P. Tome uma f : N P qualquer; vamos mostrar que ela não é sobrejetiva. A demonstração será bastante parecida com a que usamos para provar que R não era enumerável. O que faremos será construir irecursivamente bolas fechadas encaixadas P F 1 F 2 F 3... de modo que: 1. O raio de cada F n é positivo. 2. f(n) F n para todo n N. Antes de embarcar na construção, vamos explicar porque ela basta para provar nossa tese. Veja que F := {F 1, F 2, F 3,... } é família de subconjuntos fechados de P tal que, para qualquer subfamília finita {F n1,..., F nk }, k F ni = F max{n1,...,n k } ; i=1 portanto, o fato de que P é compacto implicará que: n F n. Por fim, notamos que n F n, que não é vazio, não tem elementos em comum com a imagem de f (afinal, f(j) F j para todo j), portanto f não pode ser sobrejetiva. Agora vamos partir para a construção. Para definir F 1, fixe primeiramente um x 1 f(1) e defina r 1 := d X (f(1), x 1 )/2. Tomamos F 1 := B X [x 1, r 1 ] e notamos que f(1) F 1, F 1. 34
35 Suponha agora que F 1,..., F n já foram definidas; vamos construir F n+1 a seguir. Sabemos que F n := B[x n, r n ] com x n P e r n > 0. Agora usaremos fortemente a hipótese de que P é perfeito para notar que B(x n, r n /2)\{x n } não é vazio, de modo que podemos tomar y n P com 0 < d X (x n, y n ) < r n /2. Vamos construir F n+1 considerando dois casos. Se f(n + 1) x n, podemos tomar { F n+1 := B[x n, r n+1 ] com r n+1 := min r n, d } X(f(n + 1), x n ). 2 Veja que F n+1 F n porque o centro da bola se manteve e o raio não pode aumentar. Além disto, como d X (f(n + 1), x n ) > 0 e r n > 0 (por hipótese da recursão), o raio de F n+1 é positivo. Finalmente, f(n + 1) F n+1 porque a distância entre x n e f(n + 1) é maior do que o raio da bola F n+1. Resta decidir o que fazer no caso em que f(n + 1) = x n. Neste caso, tomaremos uma bola ao redor de y n { rn F n+1 := B[y n, r n+1 ] com r n+1 := min 2, d } X(f(n + 1), y n ). 2 Veja que f(n + 1) F n+1 porque o raio da bola é menor do que a distância de f(n + 1) ao centro da bola. Além disto, o raio é positivo porque tanto esta distância quanto o r n > 0 são positivos. Finalmente, F n+1 F n porque d X (y n, x n ) + r n+1 r n B[y n, r n+1 ] B[x n, r n ]. Isto mostra que podemos definir F n+1 com as propriedades desejadas. 35
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