FÁBULA: UM GÊNERO PERSUASIVO
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- Amélia Carreira Terra
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1 FÁBULA: UM GÊNERO PERSUASIVO Tiago Mendonça Hulshof (UFPA) Orientadora: Prof.ª Dra. Juliana Maia de Queiroz (UFPA) RESUMO: A fábula é um gênero literário amplamente conhecido, com origens anteriores à 2000 a.c. Possui uma estrutura narrativa e linguagem simples, apresenta uma moral (explícita ou não), e tem animais como personagens. Remontando as origens da fábula moderna, nota-se o grande fabulista da antiga Grécia, Esopo, era também um escravo. O encontro dessas duas características (fabulista e escravo), insinua algo além do que o gênero aparenta (afinal, é improvável termos na história da humanidade um escravo criador de histórias com cunho moral). Dessa forma, assim como um escritor famoso influencia uma massa de leitores, a fábula também o faz, dando a capacidade (ou função) ao fabulista de julgar a moral e produzir uma narrativa de fácil compreensão que convença o ouvinte-leitor de seu julgamento. Neste sentido, este artigo busca apresentar de forma sintética o caráter persuasivo da fábula, levando em conta seu percurso histórico, sua tipologia e seus elementos narrativos. Palavras-chave: Literatura. Gênero. Fábula. 1. INTRODUÇÃO Imaginar um escravo grego contar histórias não parece algo tão incomum ou surpreendente. Ele pode fazê-lo para entreter, para manter sua cultura de origem viva, pelo prazer em (re)produzir narrativas, ou por algum outro motivo aparentemente inofensivo. No entanto, quando o contador toma seu contexto para si possibilitando criticar valores, pessoas e grupos, velar o sujeito-falante e, ainda, fazer com que o ouvinte não rejeite uma ideia de imediato suas histórias não parecem tão inofensivas assim. Foi o que aconteceu com Esopo, um escravo na civilização grega, ao tornar-se um fabulista, ou melhor, o pai da fábula. Neste trabalho, não se focará nas artimanhas de Esopo para persuadir seu público ou como conseguiu sua liberdade. Objetiva-se, na verdade, observar as análises mais comuns do gênero fábula desde definições, sua estrutura e até funções textuais e aprofundá-las, levando-se em conta cada aspecto como um potencial persuasivo.
2 1.1. DEFINIÇÃO De forma bem sintática, pode-se dizer que o termo fábula, em seu percurso histórico, já abrangeu três grandes concepções: a primeira, elaborada por Aristóteles, era equivalente ao mito grego; a segunda, utilizada por volta do século XVIII, usava o vocábulo para histórias destituídas de racionalidade ; e a terceira, finalizada por Monteiro Lobato, determinou a concepção atual, destinada ao público infantil. A primeira definição de fábula encontra-se na obra A Poética de Aristóteles, pensador grego, em que tomava o termo como equivalente ao mito grego e, ainda, um importante elemento da tragédia: [...] designava, no interior do pensamento de Aristóteles, a imitação de ações, a composição de atos, ou seja, a intriga [...]. (MOISÉS, p. 184). O segundo surge num período de forças opostas: ao mesmo tempo em que a fábula se tornava popular no século XVIII, tal gênero ainda poderia ter uma conotação negativa, com a concepção atual de mito na linguagem figurada. Para ilustrar essa ideia, eis uma das definições que o Aurélio traz para o Mito: Coisa ou pessoa fictícia, irreal; fábula. (FERREIRA, P. 510). Esse desprestigiador sentido tem origem no século XVIII, como demonstra Silvestre: Os termos fábula e fabuloso, além de designarem os textos de cariz moralizante filiados na tradição greco-latina de Fedro e Esopo, tornam-se frequentes nas obras que compendiam as narrativas respeitantes aos povos orientais e africanos, muitos devido à obrigação de rotular as religiões não-católicas como paganismo (SILVESTRE, p. 1) Em resumo, o sentido do termo fábula passou a englobar, também, as histórias religiosas não-católicas, o que a associou com a heresia e o profano. Em consequência, tal gênero passou a ser tratado como narrativas ilógicas, absurdas:
3 Num discurso que se pretende inequivocadamente marcado por juízos de valores, as palavras fábula e fabuloso (e outros termos aproximáveis) são constantemente invocadas como estratégia de destituição de moralidade [...]. (SILVESTRE, p. 9). E, apesar destes conflitos que a fábula encontrou, sobreviveu até a era contemporânea, tendo como representante no Brasil do século XX o escritor Monteiro Lobato. Lobato tanto produziu fábulas originais como criou outras a partir das de Esopo, tendo o público infantil como principal alvo de suas obras. E foi graças a este autor que a fábula adquiriu o último elemento que a torna como é hoje: [...] Utiliza uma linguagem coloquial e aproxima seus leitores da cultura que lhes é própria. Seus personagens são os animais da fauna brasileira [...], e também encontra palavras de uso popular [...]. Ao lado do sentido de brasilidade estão outros ganhos tais como: a perda de certa frieza, aridez e requinte literário dos clássicos, que, muitas vezes, distancia e dificulta a leitura. Em contrapartida, emerge uma leveza, graça, humor e diversão. (UBIALI, p. 11) 1.2. CARACTERIZAÇÃO ATUAL Para uma breve introdução acerca da estrutura normalmente observada na fábula, eis uma citação de Moisés: Narrativa curta, não raro identificada com o apólogo e a parábola, em razão da moral, implícita ou explícita, que deve encerrar, e de estrutura dramática. No geral, é protagonizada por animais irracionais, cujo comportamento, preservando as características próprias, deixa transparecer uma alusão via de regra satírica ou pedagógica, aos seres humanos. (MOISÉS, p. 184) Além disse, os autores Perfeito, Nantes e Ferragini complementam:
4 O gênero fábula e construído por histórias ágeis, curtas, bastante simbólicas, falando das/criticando as atitudes humanas ou aconselhando as pessoas. Pode ser escrito em prosa ou em versos. Suas personagens [...] são típicas, isto é, representam alguma atitude/característica humana virtudes e defeitos. Textos deste gênero exibem/mostram, quase sempre, após a conclusão ou desfecho, uma moral da história. (PERFEITO; NANTES; & FERRAGINI p. 3) Em síntese, a fábula: 1. Pode ser escrita tanto em verso como em prosa; 2. Possui uma moral (implícita ou explícita); 3. É protagonizada por animais que simbolizam as virtudes e defeitos dos homens; 4. É uma narrativa curta; 5. Possui uma estrutura dramática. As fábulas eram principalmente propagadas em verso até o século XVII, e em prosa após essa data. A moral por sua vez, é normalmente explicitada no fim da narrativa, seguindo os moldes de Esopo e Fedro; La Fontaine, por outro lado, priorizava por deixar a moral da história segundo a interpretação do leitor. Os animais, por sua vez, tem um lugar importantíssimo na fábula: [...] a preferência por animais deve-se, sem dúvida, ao fato de que seus caracteres, qualidades e temperamento são sobejamente conhecidos, não sendo então necessária a prévia descrição destes animais. Isto quer dizer que, quando tratamos de certo animal nas fábulas, já se tem ligada a ele uma característica, uma representação; por exemplo, a raposa liga-se sempre a astúcia; a cobra liga-se à maldade; o leão liga-se à majestade e assim por diante. (PORTELLA apud FREIRE, p. 8-9) Logo, presume-se que as fábulas usam animais em suas histórias para obter uma maior economia no texto, poupando a necessidade de descrição. Isso, somado ao fato que as narrativas são curtas e que [...] trazem uma linguagem simples e objetiva
5 [...] (FREIRE, p. 7), leva a crer que a fábula é um gênero que prioriza a objetividade e a sintetização FUNÇÕES TEXTUAIS Apesar da tipologia predominante da fábula ser o narrar, suas funções transcendem a capacidade de criação de uma intriga verossímil. La Fontaine partilha dessa ideia quando afirma que a fábula: [...] possui duas partes distintas: o corpo e a alma, sendo a narrativa a parte sensível, o corpo dinâmico e figurativo da narração; enquanto a alma é a moralidade, implícita no corpo, embora sem ser destacada materialmente, ela opera com conceitos que revelam as verdades mais sutis. (La Fontaine apud UBIALI, p. 8) O corpo que La Fontaine aponta parece corresponder ao tipo textual narrar, enquanto que a alma a moralidade parece pertencer a uma função diferente. Então, surge a questão: para que serviria um texto moralizante? Regular o comportamento mútuo, demonstrar quais ações são mais aceitáveis socialmente. Logo, até então a fábula acumula duas funções: detalhar ações através da intriga no domínio no verossímil e regular mutuamente comportamentos. No entanto, Ubiali dá uma pista que a fábula ainda pode possuir uma terceira função, ao sugerir que Esopo Foi considerado pelo filósofo grego Aristóteles como um retórico, pois a sua fábula é uma forma de persuadir. (UBIALI, p. 6) 2. O CARÁTER PERSUASIVO Em um primeiro momento, pode-se pensar que não há modalização linguística isto é, que não há um sujeito-falante moldando seu discurso numa fábula, uma vez que Revelando preocupação com as ações humanas, esse gênero retrata valores gerais, o que faz com que ele resista ao tempo e continue pertinente em qualquer época [...]. (FARENCENA, p. 3). Nessa perspectiva, têm-se a ideia que, como o objetivo da
6 fábula é didatizar uma verdade universal, há um aparente distanciamento entre a fábula e o enunciador. Essa asserção torna-se mais forte ao relembrar que, na sua origem, a fábula era oriunda da tradição popular oral, e que Esopo não teria, em tese, as criado, mas apenas as transcrito. Porém, a realidade é outra: nenhum texto produz-se sozinho. Há sempre um emissor (termo equivalente a sujeito-falante usado neste artigo), em que produz ou reproduz uma mensagem para um destinatário com alguma intenção que, neste caso, supõe-se que seja a persuasão. Em síntese: a fábula era um meio pelo qual os Fabulistas expressariam opiniões próprias disfarçadas de histórias aparentemente inofensivas: Observando bem as fábulas no geral, percebemos que esta foi um meio encontrado de anunciar publicamente a verdade de uma determinada situação, tendo em vista que o povo ou mesmo o fabulista não tinha voz ativa na sociedade, isso é claro, feita de forma que não atinja diretamente o alvo em questão, para que ninguém precise rejeitá-la de imediato. (FREIRE, p. 8) Tal ideia permite um novo olhar sobre a fábula. Permite, por exemplo, concluir que a objetividade do texto se faz referente à clareza da informação; A protagonização feita por animais [...] faria uma crítica velada, não comprometendo o autor. (UBIALI, p. 8). Ou, ainda, que a moral é [...] uma espécie de resumo das intenções do autor. (PERFEITO; NANTES; & FERRAGINI, p. 3). Logo, pode-se dizer que há sim, certa modalização linguística, no sentido de apresentar uma proposta que, em tese, não envolve o sujeito falante, mas que permite introduzir seus pensamentos e ideias de modo a persuadir seu ouvinte-leitor. Deste modo, pela capacidade implícita de persuadir o ouvinte-leitor/receptor, a fábula pode ser considerada, também, um gênero persuasivo e/ou argumentativo.
7 Referências FARENCENA, Gessélda Somavilla. Fábulas de Esopo e Millôr Fernandes: uma análise contextual. Disponível em: < Acesso em 04 jun FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. 8 ed. Curitiba: Positivo FREIRE, Brennda Valléria do Rosário. O Gênero Discursivo Fábula: um estudo na perspectiva bakhtiniana. Disponível em: < %204.pdf>. Acesso em 04 jun MASSAUD, Moisés. Dicionário de termos literários. 12 ed. São Paulo: Cultrix PERFEITO, Maria Alba; NANTES, Eliza Adriana Sheuer; & FERRAGINI, Neluana Leuz de Oliveira. Plano de Trabalho Docente: o gênero fábula e o processo de análise linguística. Disponível em: < L),%20Eliza%20Adriana%20Sheuer%20Nantes(UEL)%20e%20Neluana%20Leuz%20 de%20oliveira%20ferragini%20(uel).pdf>. Acesso em: 29 Mai SANTOS, Henrique Caldas Sampaio. Infraestrutura e Sequência Narrativa: produzindo o gênero fábula a partir de a cigarra e a formiga. Disponível em: < Acesso em: 29 Mai SILVESTRE, João Paulo. Definição dos termos fábula e fabuloso em textos metalinguísticos no século XVIII. Disponível em: < Acesso em: 29 Mai UBIALI, Elizabeth Aranha Guimarães. Aprendendo e Divertindo: de Esopo a Lobato, o percurso histórico da fábula na história. Disponível em: < Acesso em: 05 jun
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