01) POEMAS ESCOLHIDOS - GREGÓRIO DE MATOS

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1 01) POEMAS ESCOLHIDOS - GREGÓRIO DE MATOS Gregório de Matos Guerra, advogado e poeta, nasceu na então capital do Brasil, Salvador, BA, em 7 de abril de 1623, numa época de grande efervescência social, e faleceu em Recife, PE, em O universo barroco com todas suas implicações teve como um produto, que merece cuidadosa atenção, as obras literárias de Gregório de Mattos e Guerra ( ). Gregório atuou em todos os setores da poesia: na sátira, na lírica profana e religiosa, na encomiástica, explorando todas as possibilidades da versificação. Para compreender sua produção é necessário considerar a retórica que dominava a época, a doutrina em que ele, assim como seus contemporâneos, encontrava-se imerso, o Barroco. Época marcada pela contradição e tensão, pelo conflito e dualismo: mistura de religiosidade e sensualismo, de misticismo e erotismo, de valores terrenos e carnais e de aspirações espirituais. O homem barroco e sua visão de mundo são altamente dialéticos, levando essa dualidade para dentro de suas obras, que passam pela provocação dos contrários para convergir a um ponto que une. Representante de um estilo de vida, sujeito ao caráter dilemático e contraditório da época, Gregório constitui na Bahia a expressão mais forte da poesia barroca da Colônia. Sua obra poética reflete influências clássicas e, sobretudo, influências dos poetas espanhóis Gôngora e Quevedo. No entanto, é uma das obras poéticas mais originais da língua portuguesa no séc. XVII. Caracteriza-se por possuir aspectos tipicamente barrocos. Assim, ela se compõe de elementos opostos como é próprio do barroco. De um lado, há os poemas líricos, de fundo religioso, moral e amoroso. De outro lado, há os poemas satíricos, sendo alguns eróticos e outros até mesmo pornográficos. Por esse lado satírico, Gregório de Matos Guerra era chamado de "Boca do Inferno". Em suas sátiras ridicularizou e atacou violentamente o clero e toda a sociedade baiana da época, os dirigentes do reino, ricos e pobres, nobres e comerciantes, pretos, mulatos e brancos. Nesses poemas encontra-se uma verdadeira crônica da vida colonial brasileira no séc. XVII. Dos poemas atribuídos a Gregório de Matos Guerra, até hoje não se sabe com exatidão quais os verdadeiros e quais os falsos, nem sua cronologia. Foram preservados através de vários códices copiados por outros autores. Esses códices se encontram guardados em bibliotecas portuguesas e brasileiras, como a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na contraditória diversidade dos temas que desenvolveu em sua obra: a. poesia sacra (temática religiosa) b. lírica amorosa c. poesia satírica d. poesia burlesca I. Poesia sacra Como autor barroco, não poderia faltar a poesia, religiosa em sua obra. Essa temática abrange um amplo conjunto, desde os poemas circunstanciais em comemoração a festas de santos até os poemas de contrição e de reflexão moral: Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, Da vossa piedade me despido, Porque quanto mais tenho delinquido, Vós tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto um pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido, Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida, e já cobrada Gloria tal, e prazer tão repentino vos deu, como afirmais na Sacra História: Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada Cobrai-a, e não queirais, Pastor divino, Perder na vossa ovelha a vossa glória Esse soneto de contrição é um dos mais conhecidos poemas de Gregório e segue o modelo conceptista de Quevedo. II- Lírica amorosa A lírica amorosa na obra de Gregório de Matos abrange um amplo leque temático. Às vezes é a mais pura idealização do amor: Quem a primeira vez chegou a ver-vos, Nise, e logo se pôs a contemplar-vos, Bem merece morrer por conversar-vos E não poder viver sem merecer-vos. Outras, uma requintada exploração da psicologia amorosa, como, por exemplo, na expressão da timidez do amante, temeroso do desprezo da amada: Largo em sentir, em respirar sucinto, Peno, e calo, tão fino, e tão atento, Que fazendo disfarce do tormento, Mostro que o não padeço, e sei que o sinto.

2 Chega também, frequentemente, a um realismo irônico, quase cínico, como nos seguintes versos em que busca definir o amor: Isto, que o Amor se chama, este, que vidas enterra, este, que alvedrios prostra, este, que em palácios entra: [...] este, que o ouro despreza, faz liberal o avarento, é assunto dos poetas: [...] Arre lá com tal amor! isto é amor? é quimera, que faz de um homem prudente converter-se logo em besta. Segundo historiadores, o poeta teve uma paixão não correspondida pela filha de um senhor engenhoso, D. Ângela de Sousa Paredes Rabelo organizou um ciclo dos poemas que seriam expressão desse caso amoroso. Entre eles estão alguns dos mais belos da obra de Gregório de Matos. O soneto a seguir é o sétimo poema do ciclo "Ângela": Anjo no nome, Angélica na cara. Isso é ser flor, e Anjo juntamente, Ser Angélica flor, e Anjo florente, em quem, senão em vós se uniformara? Quem veria uma flor, que a não cortara De verde pé, de rama florescente? E quem um Anjo vira tão luzente, Que por seu Deus, o não idolatrara? Se como Anjo sois dos meus altares, Fôreis o meu custódio, e minha guarda, Livrara eu de diabólicos azares. Mas vejo, que tão bela, e tão galharda, Posto que os Anjos nunca dão pesares, Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda. Observe que o nome da amada sugere as duas imagens em torno das quais se organiza toda a expressão poética. III- Poesia satírica O "Boca do Inferno" não perdoava ninguém: ricos e pobres, negros, brancos e mulatos, padres, freiras, autoridades civis e religiosas, amigos e inimigos, todos, enfim, eram objeto de sua "lira maldizente". O governador Câmara Coutinho, por exemplo, foi assim retratado: Nariz de embono com tal sacada, que entra na escada duas horas primeiro que seu dono. Contudo, o melhor de sua sátira não é esse tipo de zombaria, engraçada e maldosa, mas a crítica de cunho geral aos vícios da sociedade. Sua vasta galeria de tipos humanos contribui para construir sua maior e principal personagem - a cidade da Bahia: Senhora Dona Bahia, nobre e opulenta cidade, madrasta dos naturais, e dos estrangeiros madre. A cidade é assim descrita num poema: Terra que não aparece neste mapa universal com outra; ou são ruins todas, ou ela somente é má.

3 Mas nem sempre o poeta é rancoroso com sua cidade. No famoso soneto "Triste Bahia", já musicado por Caetano Veloso, Gregório identifica-se com ela, ao comparar a situação de decadência em que ambos vivem. O poema abandona o tom de zombaria das sátiras para tornar-se um quase lamento: Triste Bahia! ó quão dessemelhante Estás e estou do nosso antigo estado! Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado, Rica te vi eu já, tu a mim abundante. Depreende-se desse texto que as sátiras de Gregório de Matos desagradavam a muita gente. Por isso ele defende seu direito. É fácil e rápido. de escrevê-las. Aos vícios Eu sou aquele, que os passados anos cantei na minha lira maldizente torpezas do Brasil, vícios e enganos. [...] De que pode servir, calar, quem cala, Nunca se há de falar, o que se sente? Sempre se há de sentir, o que se fala? Qual homem pode haver tão paciente, Que vendo o triste estado da Bahia, Não chore, não suspire, e não lamente? [...] Não criou Deus os naturais diversos, Um só Adão formou, e esse de nada. Todos somos ruins, todos perversos, Só nos distingue o vício, e a virtude, De que uns são comensais outros adversos. Quem maior a tiver, do que eu ter pude, Esse só me censure, esse me note, calem-se os mais, chitom, e haja saúde. Poesia burlesca É a poesia mais circunstancial de Gregório de Matos. De modo sempre galhofeiro, o poeta registra em versos sempre pequenos acontecimentos da vida cotidiana da cidade e dos engenhos. Segundo James Amado, a poesia burlesca é a crônica do viver baiano seiscentista. A maior parte foi escrita na última fase da vida do poeta, período de decadência pessoal e profissional. O doutor deixara de advogar e perambulava pelos engenhos do Recôncavo, levando sua viola de cabaça, frequentando festas de amigos e namorando as mulatas, muitas delas prostitutas, com tom brincalhão podem frequentemente tornar-se obscenos. Daí, o populismo chulo que irrompe às vezes e, longe de significar uma atitude aristocrática, nada mais é que válvula de escape para velhas obsessões sexuais ou arma para ferir os poderosos invejados. Texto I: Décimas Quita, como vos achais com esta troca tão rica? eu vos troco por Anica, vós por Nico me deixais: vós de mim não vos queixais, eu, Quita, de vós me queixo, e pondo a cousa em seu eixo, a mim com razão me tem, pois me deixais por ninguém, e eu por Arnica vos deixo. Vós por um Dom Patarata trocais um Doutor em Leis, e eu troco, como sabeis, uma por outra Mulata: vós fostes comigo ingrata com a grosseira ingratidão, eu não fui ingrato não, e quem troca odre por odre, um deles há de ser podre,

4 e eu sou na troca odre são. Eu com Anica querida me remexo como posso, vós co Patarata vosso estarei bem remexida: nesta desigual partida leve o diabo o enganado, porque eu acho no trocado, que me vim a melhorar mas na Moça por soldar, que vós no Moço soldado Se bem vos não vai na troca pela antiga benquerença, que farei logo a destroca: porém se Amor vos provoca a dar-me outros novos zelos, hemos de lançar os pêlos ao ar por seguridade, e eu sei, que a vossa amizade há de custar-me os cabelos. Texto II: Soneto bem conhecido A cada canto um grande conselheiro Que nos quer governar cabana e vinha, Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um frequentado olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha, Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha Para a levar à Praça, e ao Terreiro. Muitos mulatos desavergonhados, Trazidos pelos pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia. Estupendas usuras nos mercados, Todos, os que não furtam, muito pobres, e eis aqui a cidade da Bahia Apesar de ter feito linda poesia sacra e lírica, foi como poeta satírico que o "Boca do Inferno" se destacou. Em seus sonetos (2 quartetos e 2 tercetos), oitavas (estrofes de 8 versos), décimas (estrofes de 10 versos) e poemas de diversas formas, Gregório de Matos não perdoa ninguém, rico ou pobre, homem ou mulher, inimigo ou não. Assim, o poeta "abrasileirou" a linguagem inserindo em suas poesias palavras nativas e palavrões chulos, usando sempre o estilo barroco de mostrar uma visão de mundo conflituosa com antíteses, hipérboles, paradoxos, metáforas e simbolismo. 2) Inocência - de Visconde de Taunay. 1 - O REGIONALISMO DE VISCONDE DE TAUNAY Foi um dos primeiros prosadores brasileiros a emprestar a linguagem coloquial regional em suas obras. Taunay tinha um agudo senso de observação e análise, aliado a uma vivência riquíssima da paisagem e da História do Brasil. Foi um ator não denominado pelo sentimentalismo, que soube conjugar as características fundamentais da estética romântica com grande acuidade na construção de tipos e na descrição das paisagens brasileiras. Focalizou os usos e costumes do interior do pais, em narrativas pitorescas. É notável como o narrador nos apresenta o choque de duas concepções de mundo extremamente diversas. Pereira, homem do sertão, preso a padrões estritos de comportamento, mantém sua bela filha Inocência reclusa. 2. EM INOCÊNCIA: 1. Taunay conta com franqueza seu relacionamento com uma jovem que conheceu no Mato Grosso, a partir dai percebemos a origem mais íntima da personagem-título de lnocência, protótipo da mulher sertaneja imaginada pelo autor. 2. Taunay foi um autor além da maioria dos romancistas, entre os quais se incluíam alguns que, embora também usassem temas sertanistas, não tinham realmente muita experiência do interior brasileiro. Taunay, ao contrário, escrevia sobre o que conhecera. Aliás

5 o próprio Taunay se manifestou sobre isso, embora não diminuísse de modo algum a importância e o valor dos outros romancistas. 3. Nesse romance, o rigor do observador militar que percorreu os sertões mistura-se à capacidade imaginativa do ficcionista. O resultado é um belo equilíbrio entre a ficção e a realidade, raramente alcançado na literatura brasileira até então. 4. Elabora diálogos com a coloquialidade graciosa e natural do novo sertanejo "Nocência", "Por que se tocou assim no quarto", "é bom não se canhar assim", "sestiando", "Nhor-sim", "quer mecê", mas também utiliza a linguagem culta. 5. Reforça-se uma das principais características do Romantismo europeu: a concepção de um único e idealizado amor, cuja impossibilidade de realização leva os protagonistas à morte. (Inocência, era fiel ao seu princípio amoroso, foi capaz de morrer de tristeza em face da ausência definitiva do amado. 6. Faz um retrato acurado de usos e hábitos do sertão mato-grossense, que são identificados desde elementos do vocabulário até a indicação dos hábitos que o texto apresenta, na paisagem, nos tipos humanos e na linguagem. 7. Deixa claro que considera "injuriosa" a opinião que os sertanejos têm sobre as mulheres. 8. Deixa bem claro que Cirino não era um homem do sertão, o que nos faz perceber a diferença marcante entre o noivo e o homem por quem Inocência morre. 9. No período da obra, o romantismo brasileiro entrava em declínio e o Realismo se aproximava, portanto, esta obra é de transição para o Naturalismo por causa de uma grande e infalível característica o homem é produto do meio ou seja, as pessoas agem de acordo com o tipo de vida que levam. 10. Predomina a emoção sobre a razão, além da supervalorização do amor. 3. ANÁLISE PSICOLÓGICA DOS PERSONAGENS INOCÊNCIA: Tem uma grande beleza e delicadeza de traços, nem parece moça do sertão. Isso vai ser fundamental no despertar da paixão entre ela e Cirino e também na compreensão da atitude que ela irá tomar posteriormente, afinal, de alguma forma, ela não era uma típica moça do sertão. Essas características são importantes para a compreensão do desenrolar da história. MANECÃO: Homem rude, mas decente, trabalhador, sério e acumulou fortuna, era dotado também de uma certa macheza. PEREIRA: Condensa em si desconfiança e ingenuidade, além de ser durão e conservador. TICO: Anão que vivia na fazenda, mudo, mas que foi capaz de entregar lnocência ao pai. Ele a vigiava e detinha profundo respeito e admiração pela mesma. MEYER: Um naturalista, que teve a sinceridade de elogiar Inocência, acabou por ser vigiado por Pereira, mas era muito dedicado a profissão que exercia, portanto viajava muito. PADRINHO: Aparece no romance com a desculpa de ajudar, mas não chega a tempo de salvar Cirino, era a única pessoa que poderia ter feito algo para ajudar o casal de apaixonados. 5. RESUMO "Pensando por vezes e sempre com saudades daquela época, quer parecer-me que essa ingênua índia foi das mulheres a quem mais amei." Visconde de Taunay O romance é ambientado na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Órfã de mãe desde o nascimento, Inocência é criada pelo pai, Pereira, um mineiro afetuoso, um sujeito conservador, durão, para quem os valores da palavra, da honra estão acima de tudo, até da felicidade da filha que ele ama. Pereira decide casar Inocência com Manecão Doca, homem honrado, trabalhador, rude e que acumulou fortuna.\a história conta sobre Cirino, um prático de enfermagem que se apresentava como médico (curandeiro) que errava pelo sertão e acaba na casa de Pereira. Ele cura Inocência, filha deste, de malária e apaixona-se. Cirino foi o primeiro homem a despertar realmente as emoções do amor, criando nela uma grande perturbação íntima, pois estava prometida a Manecão. Aparece depois Meyer, um naturalista alemão, que viajava em busca de insetos, que após inocentemente elogiar a beleza de Inocência, passa a ser vigiado incessantemente por Pereira, dando oportunidade a Cirino de comunicar-se mais facilmente com a moça. Meyer fica por lá por que trazia uma carta de recomendação de Francisco (Chico) irmão de Pereira e sai mais tarde de volta a Saxônia para apresentar uma nova espécie de rara beleza que encontrou, à qual dá o nome de Papilio lnnocentia (uma borboleta). Tinha também o anão Tico, espécie de cão de guarda de Inocência. Com a partida de Meyer, as coisas se complicam, aumentando o medo de Inocência, que teme uma reação violenta do pai caso venha a saber do romance. A jovem instrui Cirino a procurar seu padrinho para que ele convença Pereira a concordar com o rompimento do compromisso com Manecão. Inocência herdeira da teimosia do pai, não abre mão de seu amor, então comunica ao pai a intenção de não se casar, inventa que sonhou com a mãe e esta lhe disse que o casamento não deveria se realizar. A jovem quase consegue atingir seus objetivos, quando derruba sua história. Ela, não conheceu a mãe, portanto não sabia que ela tinha um sinal no rosto, então ela pede desculpas ao pai, que declara que prefere vê-la morta a vê-la desonrada. Na ausência de Cirino, porém, o romance é descoberto através de Tico. Enquanto Cirino está fora Inocência e Manecão, se encontram e ela se recusa a viver com ele. A suposta desonra leva Manecão a perseguir e matar Cirino, que morrendo encontra o padrinho de Inocência que vinha lhe ajudar. Inocência também morre, só que de tristeza em face da ausência definitiva do amado. 3) Lucíola, de José de Alencar Análise

6 Lucíola é o quinto romance de Alencar e o primeiro da trilogia que ele denominou de "perfis de mulheres" (Lucíola, Diva e Senhora). Situa-se entre seus romances urbanos que representam um levantamento da nossa vida burguesa do século passado. A obra, publicada em 1862, é um romance de amor bem ao sabor do Romantismo, muito embora uma ou outra manifestação do estilo Realista aí se faça presente. Trata-se de um romance de "primeira pessoa", ou seja, o narrador da história é um personagem importante da mesma, Paulo Silva. E ele a narra em cartas dirigidas a uma senhora, G. M. (pseudônimo de Alencar), que as publica em livro com o título de Lucíola. Fixam o Rio de Janeiro da época, com a sua fisionomia burguesa e tradicional, com uma sociedade endinheirada que frequentava o Teatro Lírico, passeava à tarde na Rua do Ouvidor e à noite no Passeio Público, morava no Flamengo, em Botafogo ou Santa Teresa e era protagonista de dramas de amor que iam do simples namoro à paixão desvairada. Em todos os romances urbanos, Alencar aborda o amor como tema central. Ou, para ser mais exato, "aborda a situação social e familiar da mulher, em face do casamento e do amor". Mas o amor como o entendia a mentalidade romântica da época, um amor sublimado, idealizado, capaz de renúncias, de sacrifícios, de heroísmos e até de crimes, mas redimindo-se pela própria força acrisoladora de sua intensidade e de sua paixão. Subjetivismo - O mundo do romântico gira em torno de seu "eu": do que ele sente, do que ele pensa, do que ele quer. Por isso o poeta e o personagem na ficção romântica estão em contínua desarmonia com os valores e imposições da sociedade e/ou da família. Em Lucíola encontram-se pelo menos duas grande manifestações desse subjetivismo romântico. A primeira grande manifestação de subjetivismo está na própria estrutura narrativa do romance. Trata-se de um romance de "primeira pessoa", em que a história é narrada do ponto de vista de uma só pessoa. No caso, Paulo. Tudo gira em torno do que ele viu, pensou, sentiu junto a Lúcia. Tudo, portanto, muito individual. Já no capítulo I, Paulo esclarece que escreveu essas páginas para se justificar perante uma senhora que estranhou "a minha (dele) excessiva indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagância." Para isso, "escrevi as páginas que lhe envio, as quais a senhora dará um título e o destino que merecerem. É um "perfil de mulher" apenas esboçado." A segunda considerável manifestação de subjetivismo está na oposição indivíduo x sociedade. No romance, Paulo e Lúcia ora se insurgem contra as convenções sociais: "Que me importa o que pensam a meu respeito?", ora satisfazem essas mesmas convenções, embora sempre reafirmando o próprio "eu" e fazendo a sua personalidade. - "... Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és um celebridade pela beleza. O público, em troca do favor e admiração e que cerca os sue ídolos, pede-lhes conta de todas as sua ações. Quer saber por que agora andas tão retirada." - "Ah! esquecia que uma mulher como eu não se pertence; é uma coisa pública, um carro de praça que não pode recusar quem chega..." Exaltação do amor - Em Lucíola, a temática central está exatamente na exaltação do amor como força purificadora, capaz de transformar uma prostituta numa amante sincera e fiel. "- o amor purifica e dá sempre um novo encanto ao prazer. Há' mulheres que amam toda a vida; e o seu coração, em vez de gastar-se e envelhecer, remoça como natureza quando volta a primavera." "Tive força para sacrificar-lhes outrora o meu corpo virgem; hoje depois de cinco anos de infâmia, sinto que não teria a coragem de profanar a castidade de minha alma. Não sei o que sou, sei que começo a viver, que ressuscitei agora., disse Lúcia após sentir a afeição de Paulo." E o romance termina com esta patética exaltação do amor, balbuciada por uma prostituta regenerada por esse mesmo amor, momentos antes de sua morte: "Eu te amei desde o momento em que te vi! Eu te amei por séculos nestes poucos dias que passamos juntos na terra. Agora que a minha vida se conta por instantes, amo-te em cada momento por uma existência inteira. Amo-te ao mesmo tempo com todas as afeições que se pode ter neste mundo. Vou te amar enfim por toda a eternidade." Amor e morte - O romance é impregnado da ideia de morte pois Lúcia está continuamente a se queixar de uma doença misteriosa que Paulo não compreende nem aceita, supondo-se tratar-se de refinada desculpa para não se entregar a ele sexualmente. Lúcia não acredita nem admite que uma mulher como ela possa usufruir das alegrias e gozos do amor conjugal, dando ao esposo "o mesmo corpo que tantos outros tiveram". Seria uma profanação do verdadeiro amor. "O amor!... o amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe! Mas o verdadeiro amor d'alma." Diante, portanto, da impossibilidade de realização de um amor puro, só resta a Lúcia, como personagem de um romance genuinamente romântico, uma saída: a morte. Nem mesmo um filho ela merece, pois seria o fruto de um amor vilipendiado. "Um filho, se Deus mo desse, seria o perdão da minha culpa! Mas sinto que ele não poderia viver no meu seio!" E, numa atitude típica de heroína romântica, Lúcia anseia morrer nos braços do homem amado: "Ainda quando soubesse que morreria nos seus braços... Que morte mais doce podia eu desejar!" "... desejava que fosse possível morrermos assim um no outro... uma só vida extinguindo-se num só corpo!". E assim se fez. Morreu ao lado do ser amado, dizendo-lhe: "vou te amar enfim por toda a eternidade. (...) Recebe-me... Paulo!" Sentimentalismo melancólico - Em Lucíola um mínimo contratempo é o suficiente para lançar Lúcia ou Paulo na mais profunda tristeza. Numerosas passagens do romance colocam o leitor diante de quadros profundamente melancólicos. Como esta: "Foi terrível. Meu pai, minha mãe, meus manos, todos caíram doentes: só havia em pé minha tia e eu. Uma vizinha que viera acudirnos, adoecera à noite e não amanheceu. Ninguém mais se animou a fazer-nos companhia. Estávamos na penúria; algum dinheiro que nos tinham emprestado mal chegara para a botica. O médico, que nos fazia a esmola de tratar, dera uma queda de cavalo e estava

7 mal. Para cúmulo de desespero, minha tia uma manhã não se pôde erguer da cama; estava também com a febre. Fiquei só! Uma menina de 14 anos para tratar de seis doentes graves, e achar recursos onde os não havia. Não sei como não enlouqueci." E esta outra, onde Lúcia se fez passar por uma amiga morta para aliviar o sofrimento dos pais: "Lúcia morreu tísica; quando veio o médico passar o atestado, troquei os nosso nomes., Meu pai leu no jornal o óbito de sua filha; e muitas vezes o encontrei junto dessa sepultura onde ele ia rezar por mim, e eu pela única amiga que tive neste mundo. Morri pois para o mundo e para minha família. Meus pais choravam sua filha morta; mas já não se envergonhavam de sua filha prostituída." Muitas das atitudes tomadas por Paulo ou Lúcia são próprias de pessoas que se deixam guiar pelo sentimento. Esta, por exemplo, esquisita e inexplicável de Lúcia "- Iremos juntos!... murmurou descaindo inerte sobre as almofadas do leito. Sua mãe lhe servirá de túmulo." Enfim, o romance todo, do início ao fim, está impregnado de uma atmosfera melancólico-sentimental. Ilogismo - Os paradoxos, o comportamento ora excêntrico ora dúbio de Lúcia, ora virtuoso, ora pecaminoso que vai lançando Paulo numa dúvida angustiante: a própria duplicidade comportamental de Paulo, generoso e mesquinho, compreensivo e intransigente, correto e pilantra; tudo isso dá à intriga do romance um atrativo todo especial que, por sua vez, ora atrai ora aborrece o leitor. Há ainda outras manifestações de Romantismo no romance, tais como, imaginação e fantasia, culto da natureza, senso do mistério, exagero. Mas são de importância secundária. Lirismo - Há um lirismo bem bucólico nesta passagem de Lucíola: "Sentamo-nos sobre a relva coberta d flores e à borda de um pequeno tanque natural, cujas águas límpidas espelhavam a doce serenidade do céu azul. Lúcia tirou do bolso seu crochê e o novelo de torçal, e continuou uma gravata que estava fazendo para mim. Enquanto ela trabalhava, eu arrancava as flores silvestres para enfeitar-lhe os cabelos; ou arrastava-me pela relva para beijar-lhe a ponta da botina que aparecia sob a orla do vestido." E nesta outra há graça, ternura, sentimento: "Toquei com os lábios a raiz daqueles cabelos sedosos que ondulavam com o sopro de minha respiração. Ana teve um estremecimento íntimo; e banhou-se na onda de púrpura que descendo-lhe da fronte, derramou-se pelas espáduas roseando a branca escumilha." Gosto pela descrição - Em Lucíola, de quando em quando aparece a natureza como a aliviar o leitor das tensões dos dramas humanos. Quanto à descrição dos personagens, Alencar parece se preocupar antes com o aspecto externo para depois chegar ao temperamento. Antes mesmo de o leitor saber quem era ela, já Alencar lhe mostrou o retrato de Lúcia no capítulo II: "Admirei-lhe do primeiro olhar um talhe esbelto e de suprema elegância. O vestido que o moldava era cinzento com orlas de veludo castanho e dava esquisito realce a um desses rostos suaves, puros e diáfanos, que parecem vão desfazer-se ao menor sopro, como os tênues vapores da alvorada. Ressumbrava na sua muda contemplação doce melancolia e não sei que laivos de tão ingênua castidade, que o meu olhar repousou calmo e sereno na mimosa aparição." Na passagem seguinte Alencar como que nos conduz do exterior ao interior de Lúcia: "O rosto suave e harmonioso, o colo e as espáduas nuas, nadavam como cisnes naquele mar de leite, que ondeava sobre formas divinas. A expressão angélica de sua fisionomia naquele instante, a atitude modesta e quase íntima, e a singeleza das vestes níveas e transparentes, davam-lhe frescor e viço de infância, que devia influir pensamentos calmos, senão puros." No que concerne ao vestuário feminino é inegável a influência que Balzac exerceu em Alencar: "Lúcia fitou-se por muito tempo, e chegou-se ao espelho para dar os últimos toques ao seu traje, que se compunha de um vestido escarlate com largos folhos de renda preta, bastante decotado para deixar ver suas belas espáduas, de um filó alvo e transparente que flutuava-lhe pelo seio cingindo o colo, e de uma profusão de brilhantes magníficos capaz de tentar Eva, se ela tivesse resistido ao fruto proibido. Uma grinalda de espigas de trigo, cingia-lhe a fronte e caía sobre os ombros com a vasta madeixa de cabelos, misturando os louros cachos aos negros anéis que brincavam." Comparações - As comparações de Alencar, geralmente, referem-se aos personagens, ora em seus detalhes físicos, ora em seus estados de alma, ora em seus atributos morais. O segundo termo da comparação é colhido, na esmagadora maioria das vezes, de elementos da natureza: reino vegetal, animal ou mineral. Uma confirmação do que se disse está neste pequeno trecho: "Como as aves de arribação, que tornando ao ninho abandonado, trazem ainda nas asas o aroma das árvores exóticas em que pousaram nas remotas regiões, Lúcia conservava do mundo a elegância e a distinção que se tinham por assim dizer impresso e gravado na sua pessoa." Desarmonias - Em Lucíola, a luxúria do velho Couto, e mais tarde a prática do vício, torcem a personalidade de Lúcia. A forma refinada desse sentimento da discordância é certa preocupação com o desvio do equilíbrio fisiológico ou psíquico. Relembre-se a depravação com que Lúcia se estimula e castiga ao mesmo tempo, e cujo momento culminante é a orgia promovida por Sá - orgia espetacular, com tapetes de pelúcia escarlate, quadros vivos obscenos, flores e meia luz, ultrapassando o realismo qualquer outra cena em nossa literatura séria. Dentre muitos exemplos que se poderiam dar de "desarmonia" de situações, está o contraste entre Maria da Glória e Lúcia: aquela, pobre, simples, escondida; esta, rica, caprichosa, pública. Mas isso já é um conflito entre o passado e o presente.. Porém, os contrastes mais importantes na técnica narrativa do livro são aqueles relacionados com pessoas e sentimentos. De Paulo e Lúcia, naturalmente. A mesma Lúcia que compôs recatadamente o roupão ante os olhos ávidos e voluptosos de Paulo que vislumbravam o simples

8 contorno de um seio foi capaz de desfilar nua na ceia em casa do Sá. Ela é assim: contraditória. Ama e odeia. Atira-se ao vício e tende para a virtude, segundo suas próprias palavras: "Eis a minha vida... deixara-me arrastar ao mais profundo abismo da depravação; contudo, quando entrava em mim, na solidão de minha vida íntima, sentia que eu não era uma cortesã como aquelas que me cercavam. Ficaram gravados no meu coração certos germes de virtudes..." Também Paulo apresenta um comportamento paradoxal. Ora ele deseja violentamente Lúcia ora promete respeitá-la. Ofende-a e pedelhe perdão; dá-lhe liberdade e a quer só para si; despreza-a e sente dela pungente ciúme; vê nela uma prostituta refinada e uma menina de quinze anos, pura e cândida. Também Paulo é contraditório: vil e magnânimo, como todo bípede implume e social chamado homem. Técnica narrativa - Lucíola é um romance de primeira pessoa, ou seja, quem narra a história não é Alencar diretamente. Ele o faz por meio de um personagem que viveu os episódios. No caso, esse personagem narrador é Paulo, que em cartas dirigidas a uma senhora (por quem o autor se faz passar) conta uma história de amor acontecida há seis anos entre ele e Lúcia. A senhora reuniu as cartas e delas fez o livro. No capítulo I, o narrador explica a razão das cartas: "A senhora estranhou, na última vez que estivemos juntos, a minha excessiva indulgência pelas criaturas infelizes, que escandalizam a sociedade com a ostentação do seu luxo e extravagâncias". Na estrutura narrativa de Lucíola, portanto, pode-se observar o seguinte: 1. há um autor real, José de Alencar; 2. um autor fictício, a senhora G. M., destinatária das cartas de Paulo. 3. Um narrador, Paulo, com a incumbência e o privilégio de ordenar os fatos, comentá-los e tirar-lhes conclusões. À medida que transmite os fatos, vai fornecendo ao leitor elementos para a análise de Lúcia e dele mesmo. No romance os fatos são apresentados sob dois pontos de vista, dois ângulos diferentes: o de Paulo/personagem que transmite ao leitor as sensações vividas com Lúcia e o de Paulo/narrador que, por vezes, interrompe a narrativa fazendo reflexões ou dirigindo-se à destinatária de suas cartas. O enredo abrange um período de aproximadamente seis meses. Foi o que durou o namoro do par romântico. Às vezes, o autor avança a narrativa com soluções bem simples: "Essa vida calma e tranquila, remanso de uma existência tão agitada, durava cerca de um mês." Em outras, retarda-a: dedicou três capítulos para a ceia em casa de Sá (capítulos VI, VII e VIII). Ação - Gira em torno de uma história entre Paulo e Lúcia, com todos os ingredientes de um romance romântico: heróis e vilões, heroínas incompreendidas, virgens pálidas e meigas e cortesãs depravadas, a morte como única saída para um amor verdadeiro porém impossível, etc. Em Lucíola, o núcleo central da narrativa se concentra em Paulo e Lúcia, ora como duas individualidades com passado e presente próprios, ora como o "par romântico". E se concentra com tal intensidade, (afinal o narrador é exatamente Paulo - o herói, o mocinho - que ama a Lúcia - a heroína) que os episódios envolvendo os demais personagens ficam totalmente ofuscados. Tempo "A primeira vez que vim ao Rio de Janeiro foi em 1855". Numa leitura atenta, o leitor percebe no livro o Rio de Janeiro da época de D. Pedro II, com seus salões, sua burguesia, suas vitrinas chiques na Rua do Ouvidor com mercadorias elegantes vindas de Paris ou Londres, seus tílburis, seu vestuário, etc. Como tempo narrativo, ele é eminentemente "cronológico". Ou seja, em Lucíola os acontecimentos se sucedem numa ordem quase normal, com uma sequência natural de horas, dias, meses, anos. Só há um momento em que o fluxo narrativo retroage: quando Lúcia narra a Paulo seu passado. (Cap. XVIII e XIX). E em dois momentos ele avança: o capítulo I e o finalzinho do último revelam o estado de alma de Paulo seis anos após a morte de sua querida Lúcia: "Terminei ontem este manuscrito, que lhe envio ainda úmido de minhas lágrimas. (...) Hás seis anos que ela me deixou; mas eu recebi a sua alma, que me acompanhará eternamente." Lugar - O cenário onde se desenrola a ação é o Rio de Janeiro. Há referências de seus bairros (Santa Teresa), ruas (das Mangueiras), população, festas (a da Glória), teatros, lojas elegantes, etc. É curiosa a relação entre os locais e o comportamento amoroso-sexual de Paulo e Lúcia, agindo aqueles no sentido de aproximação ou afastamento, de maior ou menor realização do casal. O quarto de Lúcia é um local de luxúria: "... e fazendo correr com um movimento brusco a cortina de seda, desvendou de repente uma alcova elegante e primorosamente ornada." Das várias vezes que eles se uniram sexualmente neste luxuoso aposento, nenhuma, parece, satisfez de fato o casal. A primeira delas terminou assim: "Ao delírio sucedera prostração absoluta, orgasmo da constituição violentamente abalada. Vendo então este corpo inerte e pasmo, com os olhos vítreos e as mãos crispadas, tive dó." O segundo encontro já foi totalmente diferente, em local e desfecho. Foi nos jardins da casa do Dr. Sá, onde Lúcia desfilara nua perante os convidados. O cenário é bem ao gosto do romantismo: a natureza. O leito é bucólico: "Fomos através das árvores até um berço de relva coberto por espesso dossel de jasmineiros em flor. Lúcia está vibrando: "- Sim! Esqueça tudo, e nem se lembre que já me visse! Seja agora a primeira vez!... Os beijos que lhe guardei, ninguém os teve nunca! Esse, acredite, são puros!" E o clímax foi aquele que só um par enamorado consegue haurir do sexo: "Não fui eu que possuí essa mulher; e sim ela que me possuiu todo, e tanto, que não me resta daquela noite mais do que uma longa sensação de imenso deleite, na qual me sentia afogar num mar de volúpia."

9 Quando Lúcia passou a morar numa casa pequena e pobre, em Santa Teresa, em companhia de sua irmã Ana, menina inocente, não mais houve união carnal entre eles. É que os dois já estavam unidos por um amor espiritual. Uma afeição muito pura unia aquelas duas almas. E tanto a simplicidade do local que "lembra o espaço feliz de sua infância em São Domingos" quanto a inocência da menina não comportava mais a depravação do sexo. O seu beijo quase de irmã apenas de longe em longe bafejava-me a fronte." Personagens - Em Lucíola uma personagem apresenta grande complexidade psicológica, a par do idealismo romântico com que foi concebida: Lúcia - Sua principal característica é a contradição. Como cortesã era a mais depravada. Basta que se lembre da orgia romana em casa de Sá. No entanto, a prostituição era-lhe um tormento constante, já que não se entregava totalmente a ela. E os atos libidinosos constituíam para ela verdadeira autopunição aliada à angustiante sentimento de culpa. Coexistem nela duas pessoas: Maria da Glória, a menina inocente e simples, e Lúcia, a cortesã sedutora e caprichosa. No livro, sobressai a Lúcia, Lúcifer, onde aparece 348 vezes contra 10 vezes como Maria da Glória, anjo. Tal disparidade realça o motivo do romance: à proporção que Lúcia vai amando e sendo amada por Paulo, ela vai assumindo a Maria da Glória, sua verdadeira personalidade. E reencontra assim, através dele, a dignidade e inocência perdidas. Pode-se expressar essa duplicidade da seguinte maneira: Lúcia, mulher, depravação, luxúria, sentimento de culpa, prostituição, caprichosa, excêntrica, rejeita o amor, demônio. Maria da Graça, menina, pureza, ingenuidade, dignidade, inocência, simples, meiga, tende para o amor, anjo. Perdida a virgindade física, Lúcia, por meio da compreensão e amor de Paulo, tende para a virgindade do espírito. "Elas não sabem, como tu, que eu tenho outra virgindade, a virgindade do coração!" Para isso renuncia a qualquer amor sensual. Mesmo ao de Paulo, de quem fora amante e a quem passou a negar um simples beijo. Depois que ela o conheceu, não se entregou a nenhum outro homem. É por isso que não cria no amor de Margarida, de A Dama das Camélias, porque ela não negou ao seu amado Armando o corpo que tantos já haviam comprado. E Lúcia recupera aos 19 anos a Maria da Glória que perdera aos 14. "Nada perturbava a serenidade de Lúcia. Parecia realmente que sua alma cândida, muito tempo adormecida na crisálida, acordara por fim, e continuara a mocidade interrompida por um longo e profundo letargo. (...) Ninguém diria que essa moça vivera algum tempo numa sociedade livre." Mas essa transformação completa custou-lhe penosos sacrifícios e sobretudo muita incompreensão inicial por parte de Paulo. "Incompreensível mulher! (...) Compreendo hoje as rápidas transições que se operavam nessa mulher; mas naquela ocasião, como podia adivinhar a causa ignota que transfigurava de repente a cortesã depravada na menina ingênua, ou na amante apaixonada!" Seus traços físicos: cabelos e olhos pretos, a pele pálida. Sua expressão, contudo, lembra ao leitor sua dualidade de caráter: o olhar ora é "eloquente, raio voluptuoso", ora é límpido, raio de luz de sua alma". É bem o ideal de beleza romântica, "com sua virgindade de alma tão pura e tão absoluta, que a não tisnaram os pecados do corpo. Por isso, mesmo nas horas em que mais lhe esplende a glória de cortesã, o romancista a veste simbolicamente de branco." Se algum leitor não entender bem a complexidade da personagem Lúcia, como o fez Paulo no início do romance, não é de se estranhar, pois afinal ela mesma se auto-definiu: "É difícil conhecer-me; mais difícil do que pensa. Eu mesma, sei o que às vezes se passa em mim? Não repare nestas esquisitices!" Paulo - É um provinciano de Pernambuco, 25 anos, que veio tentar se estabelecer no Rio de Janeiro. O romance não esclarece se ele é ou não formado. Sugere apenas. É o narrador da história e como tal faz desviar a atenção do leitor para Lúcia e outros aspectos, não revelando certas informações suas. Os detalhes físico, por exemplo. Coisa, aliás, rara em José de Alencar, tratando-se de personagem central. Traçando o perfil de Lúcia, ele acaba por revelar também os eu: espírito observador e sensível, foi o único a compreender o estranho caráter de Lúcia. Seu temperamento é reservado sem ser tímido: "... é hábito meu, desde que entrei no mundo, não admitir os estranhos à intimidade de minha vida, ainda mesmo quando se trata de objetos sem consequência. Só dispo a minha alma entre amigos". E como ele não possui reais amigos no Rio, nuances de sua personalidade conhecem-se por deduções. Suas reações psicológicas são expressas em suas reflexões: "Que miserável animalidade havia em mim naquela noite! Quando essa pobre mulher atingia o sublime do heroísmo e da abnegação, eu descia até a estupidez e à brutalidade!" Ou nessa: "Não conheço mais estúpido animal do que seja o bípede implume e social, que chamam homem civilizado." A sua caminhada em direção ao amor pela heroína foi lenta. No início, o que o impelia para ela era atração sexual. Paulo, então, não a entende e transmite ao leitor suas incertezas e desconfianças. "Se eu amasse essa mulher... mas tinha apenas sede de prazer; fazia dessa moça uma ideia talvez falsa... " Tais desconfianças, por vezes, eram-lhe inoculadas pela sociedade através de alguns representantes - Dr. Sá, Sr. Couto, Cunha. "Cunha tinha razão, pensei eu; a cupidez e a avareza são as molas ocultas que movem este belo autômato de carne." E chega mesmo a ser violento e sádico com ela. Isto se deduz de várias passagens, como: "Esta noite a senhora não se pertence: é um objeto, um bem do homem que a vestiu, que a enfeitou e cobriu de joias, para mostrar ao público a sua riqueza e generosidade." Outras vezes, sentiu foi dó: "Sentia profunda compaixão por essa mulher. O seu pranto me enterneceu; chorei com ela." Houve um período em que a afeição de ambos se arrefeceu. Paulo já a admira e dedica-lhe grande respeito e amizade: "Entramos então numa nova fase de nossa mútua existência, fase original e curiosa que me faria rir quinze dias antes. Com efeito, quem poderia julgar possível uma amizade fraternal e pura entre duas criaturas que meses antes trocavam as mais ardentes expansões da sensualidade?" Para no final devotar-lhe sincero amor a ponto de vibrar com um possível filho de ambos: " -Um filho! Mas é um novo laço e mais forte que nos prende um ao outro. Serás mãe, minha querida Maria?"

10 É um ingênuo personagem romântico. Apesar de se declarar pobre e até se vexar por isso, vive byronicamente, de sonhos, de amor. Os demais personagens são secundários face aos dois protagonistas. Dr. Sá e Cunha - Amigos de Paulo, sendo aquele desde a infância. Encarnam a moral burguesa e suas máscaras: austera com os outros, benigna consigo. Não possuem personalidade bem delineada no livro. Ambos veem em Lúcia apenas a prostituta. Couto e Rochina - O primeiro é um velho dado a jovem galante. Encarna a obsessão sexual e a velhice. Representa a sociedade que explora e corrompe. Foi quem aproveitou a necessidade e inocência de Lúcia. O segundo é um jovem de 17 anos, tez amarrotada, profundas olheiras, velho prematuro. Libertino precoce. Eles aparecem assim no romance: "O contraste do vício que apresentavam aqueles dois indivíduos: o velho galanteador, fazendo-se criança com receio de que o supusessem caduco; e o moço devasso, esforçando-se por parecer decrépito, para que não o tratassem de menino; essa antítese vivia devia oferece ao espectador cenas grotescas." Laura e Nina - São meretrizes, como Lúcia, mas sem sua duplicidade de caráter. Não são capazes de "descer tão baixo" porém, não possuem a "nobreza e altivez" da protagonista. Jesuína e Jacinto - Aquela, é mulher de 50 anos, seca e já encarquilhada. Foi quem recolheu Lúcia quando seu pai a expulsou de casa e a iniciou na prostituição. Este, é um homem de 45 anos, e "vive da prostituição das mulheres pobres e da devassidão dos homens ricos". Por seu intermédio Lúcia vendia as joias ricas que ganhava e enviava o dinheiro à família pobre. É quem mantém a ligação misteriosa no livro, entre Lúcia e Ana. Enfim, é quem cuida dos negócios dela. Ana - É a irmã de Lúcia, que a fez educar num colégio até os doze anos como se fosse sua filha. "Era o retrato de Lúcia, com a única diferença de ter uns longos e de louro cinzento nos cabelos anelados. Ana já conhecia a irmã e a amava ignorando os laços de sangue que existiam entre ambas." Lúcia tenta casá-la com Paulo para ser uma espécie de perpetuação e concretização de seu amor por ele: "Ana te darias os castos prazeres que não posso dar-te; e recebendo-os dela, ainda os receberias de mim. Que podia eu mais desejar neste mundo?" Problemática apresentada - Paulo quer Lúcia, mas ele possui impedimento de aproximação; Lúcia quer Paulo, mas também possui impedimentos. É fácil, agora, entender como se arma o conflito do romance: Paulo x Lúcia - Há motivos de aproximação e de afastamento entre ambos. E do jogo aproximação-afastamento. Chegamos a uma composição final. A composição é desejada por ambos, mas é preciso que antes muitas arestas sejam aparadas. Não é graciosamente que o ser humano se completa a se acha, mas através de muita luta e muito erro (penitência para superação dos defeitos). Esta colocação do foco narrativo do romance vem confirmar ideias anteriores, onde se mostrou que a história de Paulo e Lúcia está vazada de situações desarmônicas. Tais situações podem ser mais bem entendidas quando sintetizadas em algumas oposições que parecem predominar na obra como ideias centrais. Tais como: O desnível da situação social - Em Lucíola os conflitos das personagens e entre personagens são determinados pelo confronto do indivíduo com essa sociedade. Há um desnível enorme entre a situação social de Paulo e Lúcia. Esta é prostituta e como tal é vista e rejeitada por todos, inclusive por Paulo, no início. Trata-se de um impedimento sério na aproximação de ambos. Tão sério que acaba por impedir a concretização social (casamento, geração de filhos) do amor do casal. Lúcia errou e deve pagar por isso perante a sociedade. As convenções da moralidade burguesa e da Escola Romântica assim o exigem. O casamento com final feliz do romance romântico não se realiza. Lúcia deve morrer. Uma das problemáticas centrais levantadas no livro, parece, portanto, esta: a imposição das convenções sociais, criando obstáculos ao par amoroso, sacrificando-lhe a realização de um amor que não se adequava aos seus padrões rigorosos, se bem que por vezes hipocritamente condescendentes. O conflito entre o bem e o mal - Das muitas oposições enfocadas no livro, esta é a mais importante, agindo como base do enredo e do foco narrativo. Trata-se de um tendência própria do Romantismo que se traduz na "desarmonia" de situações e sentimentos. Há uma dualidade no caráter de Lúcia: de um lado a mulher, meretriz, depravada, desprezada pela sociedade, encarnação do MAL; de outro, a menina inocente que ainda teima em substituir nela por mais terríveis que tenham sido os imperativos do vício naquela alma. É a permanência do BEM. "Havia no meu coração certos germes de virtude que eu não podia arrancar, e que ainda nos excessos do vício não me deixavam cometer uma ação vil." E durante todo o tempo, pretende o autor convencer o leitor da "criatura angélica" que habita o corpo da pecadora, da "mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d'alma". E é essa Lúcia de "coração virgem", purificada, que renasce nos últimos capítulos graças ao amor de Paulo. A vitória do amor - E chega-se, afinal, à temática básica de Lucíola. A intriga é calcada em assunto romântico: A situação social da mulher em face do amor. Do "amor" como o concebe o Romantismo: sublimado, capaz de renúncias, de sacrifícios, de heroísmos, que está acima dos fatores socioeconômicos, que triunfa apesar das convenções sociais. Em Lucíola, o triunfo do amor não foi na linha do final feliz. Lúcia passará por um processo de transformação, ou renascimento, que fará desabrochar a adolescente pura e ingênua que fora um dia, ao mesmo tempo que irá eliminando a cortesã impudica. E a protagonista alcança, portanto, a purificação através do amor espiritual, que não pode ser contaminado e profanado pela mais leve sombra de desejo físico. É a vitória do amor, numa outra perspectiva. É a temática central do romance: o amor como força regeneradora.

11 O romance, na sua intriga e temática, bem como no posicionamento das personagens, pode ser visualizado graficamente assim: na busca mútua de Lúcia e Paulo, há personagens que se posicionam como obstáculos, no sentido de impedir o surgimento do amor dos dois: Couto, Sá, Cunha, Rochinha. Outros são basicamente neutros: Jesuína, Jacinto, Laura e Nina. E há uma, Ana, que se coloca no sentido de aproximar o par romântico, a tal ponto de, conforme o desejo de Lúcia, ser um símbolo de perpetuação, na terra, do amor do casal. Enredo Paulo Silva, o personagem-narrador, é um rapaz de 25 anos, pernambucano, recém-chegado ao Rio de Janeiro, em 1855, com a intenção de aí se estabelecer. No dia mesmo de sua chegada à corte (Rio de Janeiro), após o jantar, sai em companhia de um amigo para conhecer a cidade. Na rua das Mangueiras vê passar em um carro uma jovem muito bela. Um imprevisto faz parar o carro, dando a Paulo a oportunidade de repará-la melhor. Dia após, em companhia de outro amigo, o Dr. Sá, Paulo participa da festa de N. Senhora da Glória, quando lhe aparece a linda moça. Informando-se do amigo, fica sabendo tratar-se de Lúcia, a prostituta mais bela, requintada e disputada da cidade. Mas ele se impressiona com a "expressão cândida do rosto e a graciosa modéstia do gesto, ainda mesmo quando os lábios dessa mulher revelam a cortesã franca e impudente." Mais ou menos um mês após sua chegada, Paulo vai à procura de Lúcia, levado, é claro pelo desejo de possuir aquela linda mulher. Após longa e agradável conversa, acaba se surpreendendo com o "casto e ingênuo perfume que respirava de toda a sua pessoa". A um mínimo lance de seus seios, "ela se enrubesceu como uma menina e fechou o roupão" discretamente. E ele, que fora quente de desejos, agora, na rua, se acha ridículo por não haver ousado mais. Além do que, o Dr. Sá lhe confirmara que "Lúcia é a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância." No dia seguinte Paulo está de volta à casa da heroína. Ao seu primeiro ataque, Lúcia se opõe com duas lágrima nos olhos. Supondo ser fingimento, mostra-se aborrecido e ela reage atirando-se completamente nua em seus braços, já que era isso que Paulo queria. Mas no auge do prazer do sexo, Paulo percebe algo diferente nas carícias de Lúcia: mesmo no clímax do gozo, parece que ela sofria. Sente, na hora, um imenso dó, ao que ela corresponde cinicamente: "- Que importa? Contanto que tenha gozado de minha mocidade! De que serve a velhice às mulheres como eu?" Ele quer pagar-lhe, ela rejeita com um meigo aperto de mão. E ele retira-se realmente confuso com "a singularidade daquela cortesã, que ora levava a impudência até o cinismo, ora esquecia-se do seu papel no simples e modesto recato de uma senhora". E as informações que lhe chegam a seu respeito são as piores. O Cunha diz que ela é "a mais bonita mulher do Rio e também a mais caprichosa e excêntrica. Ninguém a compreende. "Nunca fica muito tempo com o mesmo amante, "pois não admite que ninguém adquira direitos sobre ela." Além do mais, é avarenta. Vende tudo o que ganha. Até roupas. Para Paulo, no entanto, ela parece ser ao contrário de tudo isso. Afinal, ela finge para ele ou já o ama? Paulo fica em dúvida atroz. Por aqueles dias, numa ceia em casa do Sá, com pessoas (Lúcia, Paulo, Sr. Couto, Laura, Nina, Rochinha, etc...) maldosamente convidadas para transformar a ceia em bacanal, Lúcia desfila toda nua, imitando as poses lascivas dos quadros que estavam nas paredes, ante os olhares voluptuosos dos presentes. Depois, em lágrimas, nos jardins da casa, ela se explica a Paulo. Fez aquilo por desespero, pois ele havia zombado dela momentos antes: "se o Senhor não zombasse de mim, não o teria feito por coisa alguma deste mundo..."e depois porque teria sido uma decepção total, afinal o que Sá pretendia era mostrar a seu amigo Paulo quem era Lúcia. "Não foi para isso que se deu essa ceia?! - explicou Lúcia. E os dois se amaram profundamente, lá mesmo no jardim, á luz da lua, até de madrugada. Decorridos alguns dias, Paulo de certo modo passa a morar com Lúcia, e, apesar das prevenções e restrições, mais e mais se liga a ela por afeto. Lúcia, por sua vez, já ama Paulo e se entrega e ele como a um dono e senhor. Há momentos de atritos entre ambos. Passageiros, e todos causados pelo egoísmo e incompreensão de Paulo que não entende as profundas transformações que o seu afeto operou nela. E a tal ponto, que ela não suportaria mais a ideia de se lhe entregar na cama, pois sente por ele um amor muito puro e profundo. E ele, levado mais por desejo que por afeto, não consegue aceitar esse comportamento sublime. As más línguas já comentam que Paulo, além de viver à custa de Lúcia, ainda a proíbe de frequentar a sociedade. Lúcia que já então procurava viver mais retraída dispõe-se a voltar à vida mundana apenas para salvar-lhe a reputação. Mas Paulo - complicado, sádico, estúpido e chato - não compreende. Lúcia já não vibra como outrora. Mesmo quando excitada por Paulo. É a doença que já se faz sentir. Paulo não entende essa frieza e por vezes se exaspera. Ela sofre calada pois reconhece que "o amor para uma mulher como eu seria a mais terrível punição que Deus poderia infligir-lhe!". O grande sentimento que os unia, arrefece, dando lugar a uma amizade simplesmente. O comportamento de Lúcia é cada vez mais sublime e heroico. Já não existe mais nada da antiga cortesã. E Paulo, por fim, entende essa nobreza de caráter e compreende o porquê das suas recusas. Ela lhe recusava o corpo porque o amava em espírito. E também porque já está doente. Paulo promete respeitá-la de ora em diante. Lúcia um dia lhe revela todo o seu passado. Chamava-se Maria da Glória. Era uma menina feliz de 14 anos e morava com os pais, quando, em 1850, sobreveio a terrível febre amarela. Seus pais, os três irmãos, uma tia caíram de cama, Ela ficou só. No auge do desespero, resolveu pedir ajuda a um vizinho rico, Sr. Couto, que em troca de algumas moedas de ouro tirou-lhe a inocência. "o dinheiro ganho com a minha vergonha salvou a vida de meu pai e trouxe-nos um raio de esperança." Seu pai, porém, sabendo da

12 origem do dinheiro, e supondo ter a filha um amante, a expulsou de casa. Sozinha, sem ter aonde ir, foi acolhida por uma mulher, Jesuína, que, quinze dias depois, à conduziu à prostituição, estipulando pela beleza de seu corpo um alto preço. O dinheiro, ela o usava para cuidar do que restava da família: "e eu tive o supremo alívio de comprar com a minha desgraça a vida de meus pais e de minha irmã". Uma colega de infortúnio foi morar com ela. Chamava-se Lúcia. Tornaram-se amigas. Lúcia morreu pouco depois. No atestado de óbito, a heroína fez constar que a falecida se chamava Maria da Glória, adotando para si o nome da amiga morta. "Morri pois para o mundo e para minha família. Meus pais choravam sua filha morta; mas já não se envergonhavam de sua filha prostituída." E todo dinheiro que ganhava, destinava-o à preparação de um dote para sua irmã, Ana, a qual passou a manter num colégio interno depois da morte dos pais. Agora Paulo compreende ainda melhor as atitudes misteriosas e contraditórias que Lúcia tomava como cortesã. É que esse gênero de vida lhe parecia sórdido e abjeto. Ela suportava como a um martírio, uma autopunição, uma maneira de reparar o seu pecado. Conhecido se passado heroico, ele passa a sentir por Lúcia uma grande ternura e um amor sincero. Seguem-se dias tranquilos. Lúcia muda-se para uma casinha modesta e Ana mora com ela. "isto não pode durar muito! É impossível!" É o pressentimento da morte. Lúcia tenta convencer Paulo a se casar com Ana, que já o ama também. Seria uma maneira de perpetuar o amor de ambos, já que ela se julga indigna do puro amor conjugal. Paulo rejeita com veemência em nome do amor que não sente por Ana. Lúcia aborta o filho que esperava de Paulo. Ela se recusa a tomar remédio para expelir o feto morto, dizendo "Sua mãe lhe servirá de túmulo". E já no leito de morte, recebe o juramento de Paulo prometendo-lhe cuidar de Ana como sua filha. E morre docemente nos braços de seu amado, indo amá-lo por toda a eternidade. 4) O Bom Crioulo - ADOLFO CAMINHA Os aspectos cruéis de uma fria realidade. Considerado um dos mais perfeitos exemplos do Naturalismo nas letras brasileiras, O Bom Crioulo em tudo defende a tese determinista, segundo a qual o homem deve ser retratado dentro de um ambiente pernicioso e podre, decorrendo daí seu caráter enfraquecido e perverso, sua falta de travas morais, sua perversão, principalmente sexual, causadora de sequelas irreversíveis como a bestialização, a insanidade mental, a histeria ou a degradação. Nesse romance, pela primeira vez na Literatura Brasileira, é tratado o tema do homossexualismo, tendo como foco a vida dos marinheiros, retratada, às vezes, com requintes descritivos que chegam às raias da fotografia. Narrado em terceira pessoa, esse romance, datado de 1895, tem como protagonista o jovem Amaro, negro escravo, homem forte e de boa índole, mas de espírito fraco que foge da escravidão e se embrenha na Marinha. Aí conhece Aleixo, grumete que atrai o bom crioulo por ser exatamente o oposto, branco e frágil. A narrativa transcorre linear, e gradativamente o autor deixa o leitor conhecer um vasto painel dos fatos que envolvem o caso amoroso de Aleixo e Amaro. No entanto, Aleixo também é o ponto máximo do amor da portuguesa Carolina, prostituta, mulher excessivamente carente, que nunca havia conhecido o amor desinteressado e é atraída pelo espírito infantil do rapaz branco, pelos olhos azuis e puros. Na terra, envolve-o pelo amor carnal e passa a ser sua amante, mãe, amiga e transpõe para Aleixo todo seu coração reprimido pelas cruezas da vida, ama-o como mulher e como mãe, uma vez que ela não tivera a oportunidade de gerar filhos. O ciúme interfere nesse singular triângulo amoroso, fazendo Amaro agir irracionalmente, como um animal diante do instinto selvagem, destruindo a sua única razão de ser e de viver. Ambientado preferencialmente no mar, o romance de Adolfo Caminha é a síntese da perversão sexual, descrita de modo ousado e chocante com a arte e a técnica de um artista que soube captar com fidelidade os aspectos cruéis de uma fria realidade. A narrativa concisa, além da elaboração da linguagem, são elementos que conferem a Bom-Crioulo um lugar de destaque em nossa literatura. No entanto, seu maior mérito é conseguir alargar nosso campo de visão, primeiro por mostrar que o Naturalismo não está só nas mãos de Aluísio Azevedo. Em segundo lugar, por possibilitar uma discussão interessante no que se refere ao Determinismo e como o homem age em relação ao seu destino. À primeira vista, esse debate poderia ser inspirado pelo que mais chama a atenção em sua história: o homossexualismo. No entanto, o autor não resvala por dois dos aspectos mais comuns desse assunto. Não há a questão de se levantar ou se esconder a bandeira da condição sexual. Além disso, não há a crise de identidade tão comum em tantas obras de mesma temática. Muito pelo contrário a descoberta da preferência sexual deu ao protagonista mais força de viver. Cabe aqui uma observação. Constantemente se diz que o homossexualismo é tratado nessa obra de forma crua e imparcial. De fato, o primeiro adjetivo pode estar correto, pois o sexo, na obra, faz-se de forma carnal, não havendo sublimação, o que é típico do Naturalismo, escola que apresenta o homem como animalizado, prisioneiro dos próprios instintos. No entanto, imparcialidade é um conceito questionável, pois a maneira como o narrador se refere aos atos íntimos de suas personagens atentado contra a natureza por si constitui um juízo negativo de valor. No entanto, o homossexualismo não é a pedra de toque do romance, mas uma ponte para que se reflita sobre algo maior: até que ponto somos livres para decidir sobre nossa vida? Praticamente tudo na narrativa inspira essa questão. De início, deve-se lembrar que Amaro, personagem principal, é escravo fugido. Quer ser dono de seu próprio destino. Até que num golpe de sorte (nem lhe perguntam sua procedência) é aceito como marinheiro, o que ampliará os horizontes. A possibilidade de viajar, conhecer mundo, faz com que alcance sua bem-aventurança, tanto que recebe o apelido de Bom-Crioulo, graças à sua benevolência que contrasta com seu porte físico sempre descrito, é importante notar, como algo olímpico, superior ao físico dos brancos. No entanto, a disciplina a que está submetido é outra prisão, que só vai ser percebida quando o protagonista conhece Aleixo, adolescente que trabalha como grumete na mesma corveta em que está Amaro.

13 Interessante é ter em mente que o protagonista ganha identidade graças ao outro. Entende por que suas duas experiências com mulheres foram fracassadas. Entende o que é ao descobrir do que gosta, o que o faz desencantar-se do meio em que está. Deixa de ser o marinheiro submisso. Tanto que o livro inicia-se com o relato das chibatadas que Amaro recebeu, justo por ter arranjado briga em defesa do menino. Detalhe: com essa técnica de sedução, o que Amaro consegue é mais gratidão do que amor. Com a necessidade de reforma da corveta em que trabalham, os dois marinheiros são autorizados a descer no Rio de Janeiro. Amaro arranja um quarto na pensão de D.Carolina, antiga prostituta e que também colhe pelo protagonista uma enorme gratidão ele a havia salvado de uma tentativa de assalto. Revela-se, mais uma vez, o espírito bondoso do Bom-Crioulo. Aqui cabe mais uma observação. Não há reprovação nenhuma por parte da mulher quanto ao relacionamento que vê diante de si, ainda mais por Amaro ter mais de 30 e Aleixo pouco mais de 15. Ela entra no mesmo esquema do livro: não faz julgamentos nítidos. Tudo se passa meio torto, pela observação tangencial, indireta, do narrador sobre o que outras personagens falam. As questões morais não estão no cerne da obra. Esse mesmo toque tangente é visto no que se refere a sexo. Tem-se a coragem pelo menos para os padrões da época de se citar o que está ocorrendo, mas na hora de relatar, descrever, narrar o que de fato acontece, corre-se uma cortina de reticências. Enfim, é criada uma estabilidade matrimonial efêmera. É digno de nota o que acontece entre os dois, quando se fecham no sujo quartinho de pensão. Amaro mais se delicia em admira o corpo do seu amado do que com o prazer sexual. Parece que o menino, além de dar ao protagonista identidade, dá também um sublime senso estético, ou algo próximo disso. É uma evolução, de certa forma. Como já se disse, o equilíbrio da união é temporário. Em primeiro lugar, já se notam indícios de que não há amor, ou mesmo atração, mas gratidão de Aleixo por Amaro. Talvez isso justifique a impaciência do menino com a rotina do Bom-Crioulo admirar seu corpinho branco. Além disso, Amaro é transferido de navio, cujo capitão, extremamente rígido, só lhe dá folga uma vez por semana, ocasionando horários desencontrados entre os amantes não se veem mais, pois. E, para piorar, D. Carolina determina, como último capricho de senhora, seduzir o rapazinho, no que é vitoriosa. Estabelece-se, dessa forma, o mais estranho triângulo amoroso de nossa literatura, pois o elemento desestabilizador é uma mulher, que rompe justo a união de dois homens. Insatisfeito, Amaro chega a beber, o que altera sua personalidade é o único ingrediente que o faz radicalmente deixar de ser o Bom- Crioulo. Desequilibrado, arranja confusão e por causa disso recebe uma quantidade inominável de chibatadas. Baixa, portanto, a um hospital-prisão, em que mergulha no tédio da recuperação e do abandono. Chega a mandar um bilhete, pedindo a visita de seu amado, mas D.Carolina inutiliza-o. Solitário e frustrado, Amaro começa a ficar inquieto quando sabe, por meio de um companheiro que passa pelo hospital, que Aleixo estava de caso novo. Realiza, pois, mais uma fuga sempre o tema da busca da liberdade em direção da pensão. No caminho, a verdade é completada, o que o deixa mais furibundo, aspecto que se agrava pelo fato de já estar bebendo. Então, o desfecho. De forma extremamente rápida, em meio à multidão, Amaro encontra Aleixo, mata-o e acaba sendo levado preso. O interessante é observar, neste momento, a movimentação da coletividade, acompanhando com curiosidade sórdida a cena para depois cair na apatia. Uma tragédia que mergulhava na anestesia do esquecimento. Características naturalistas encontradas no livro: A causa dos problemas são fatores naturais (meio raça momento); O determinismo expressa-se no romance de forma clara e evidente, conduzindo seus personagens ao destino que lhes pertence. Analisando os personagens Amaro De raça negra, era escravo em uma fazenda, e nesta época, o momento não o ajudava, pois, o Brasil ainda era um país adepto da escravatura. Sendo negro, não tinha chances de obter uma promoção na marinha, além é claro, de cargos em que a força física é superior. Condenado por sua raça, Amaro via-se em um meio miserável, primeiro a caravela onde servia, com pessoas também na miséria, baixa qualidade de vida... Em terra o que sobrava para Amaro, eram lugares baixos, vis e nojentos, povoados por pessoas sem escrúpulos, prostitutas e mendigos. No mar esses fatores, principalmente o meio, levaram-no a caminhar em direção ao homossexualismo. E que para ele, um caminho sem volta. Aleixo De raça branca, não o impediu de conviver num meio deprimente. Sendo ingênuo, e a isso seu momento não era favorável, pois ainda moço, desconhecia as maldades da vida. Influenciado pela "esperteza" de Bom-Crioulo, foi levado para o Homossexualismo. Nota-se que o assunto era tratado com naturalidade pelas pessoas que conviviam naquele meio. Por ser o oposto de Bom-Crioulo, Aleixo, distante dele, consegue livrar-se do homossexualismo, e mantêm uma relação amorosa com uma mulher, assim que muda, um pouco de meio. Então, suas atitudes eram decorrentes do meio, tratado como um deslize, e longe do meio em que estava, mudara. Conclui-se que, o determinismo, era favorável para Aleixo e completamente desfavorável para Amaro. Visão cientificista do Homem: Homem ligado ao animal, guiado por instintos, comparando-o com animais, dando-lhes qualidades dos mesmos. Sempre comparando o homem com um animal, o romance segue a risca este pensamento. Amaro domina Aleixo em todo o livro, associando que: o mais forte domina o mais fraco. E assim é e, toda obra. Outro fator, é que, os personagens são movidos por instintos incontroláveis, que regem suas vidas, como animais que agem por instintos, quando encurralados, atacados, etc. O homem é comparado ao animal em suas ações, prevalecendo o instinto à razão. "Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar!" (pág. 47) "Trabalhara brutalmente; não havia resistir à fadiga. Momentos há em que os próprios animais caem extenuados..." (pág. 33) Não faz seleção do que vai falar: O narrador não seleciona um assunto determinado, nem segue uma rota para sua narrativa, vai descrevendo e narrando os fatos, contando fatos sem muita importância. Enfoca a classe miserável: Os personagens, a linguagem, o local, a cultura, tudo gira em torno de um meio miserável. "As unhas metiam náusea, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente. (pág.12) Intenção de analisar a patologia social: Estudos dos vícios da sociedade.

14 "Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em, descanso, o instrumento de castigo: era o guardião Agostinho o célebre guardião Agostinho, especialista consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardiães, e cujo zelo em cousas de "patescaria" tornara-se proverbial." (pág. 12) Psicopatologia: Trata-se do estudo das doenças psicológicas humanas (taras, vícios, etc. ). Expressada no livro de várias formas, destacando: A tara em que o carrasco tinha em chicotear aqueles que sofriam a punição. O principal exemplo, ocorre com os personagens centrais da história, o homossexualismo, onde Amaro é impulsionado pelo seu instinto e por forças incontroláveis quando estava diante de Aleixo. O narrador interessa-se por fatores patológicos: Tenta provar e analisar a patologia humana. "D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de "certa ordem", gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. Vivia de sua casa, de seus cômodos, do aluguelzinho por mês, ou por hora. Tinha o seu homem, lá isso pra que negar? Mas, independente dele e de outros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a vida com um emprego certo, um emprego mais ou menos rendoso para garantia do futuro. Isso de homens não há que fiar: hoje com Deus, amanhã com o diabo Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na Rua da Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem ela se incomodar. Uma fortuna de ouro e brilhante! Já era gorducha, então: chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, invenção da rua.. Depois esteve muito doente, saíram-lhe feridas pelo corpo, julgou não escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pôde reerguer-se, chegando, por desgraça, ao ponto de empenhar joias e tudo, porque ninguém a procurava, porque ninguém a queria - pobre cadela sem dono... Passou misérias! até quis entrar para um teatro como qualquer cousa, como criada mesmo. Foi nessa época, num dia de carnaval (lembrava-se bem!), que começou a melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe alguns mil-réis para ela fazer de Vênus, no alto de um carro triunfal. Foi um escândalo, um "sucesso": atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas, muita palma, presentes - o diabo! Durante quase um ano só se falou na Carola, nas pernas da Carola, na portuguesa da Rua do Núncio." (pág35) "Ele ali se achava também, no seu posto, à espera de um sinal para descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania..." (pág. 13) Denunciar a degradação humana: Mostra a queda moral e social humana. "Por vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo, estimulando-lhe o organismo; mas o pequeno fazia-se esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. Deixe disso, Bom-Crioulo, porte-se sério! Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou vencer ou morrer! - Ou o pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as relações. As nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente... Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roliço, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contatos impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. Claridade não chegava sequer á meia distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores. Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom- Crioulo, conchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de murmurar uma palavra.... Uma sensação de ventura infinita espalhava-se-lhe em todo o corpo. Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se- lhe para o que ele quisesse - uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade... - Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se. E consumou-se o delito contra a natureza." (pág. 30) O romance gira em torna da relação instintiva homem mulher: No livro, Aleixo é visto por Amaro como uma mulher, inclusive o narrador, refere-se a ele como uma mulher que desperta atração em Amaro. "Gabando-se de conhecer "o mundo", Bom-Crioulo cuidou primeiro em lisonjear a vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio de Janeiro "para que ele visse quanto era bonito". pequeno mirou-se e... sorriu, baixando o olhar. Que bonito o quê!... Uma cara de carneiro mocho! - Mas não abandonou o trastezinho, guardando-o com zelo no fundo da trincheira, como quem guarda um objeto querido, uma preciosidade rara, e todas as manhãs ia ver-se, deitando a língua fora, examinando-se cuidadosamente, depois de ter lavado o rosto.... E a camisa! - Oh, a camisa devia ser um bocadinho aberta para mostrar a debaixo, a de meia. O hábito faz o monge. O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem procurar a razão de todo esse esmero. Via marinheiros imundos, mal vestidos, cheirando a suor, mas eram poucos. Havia os que até usavam essências no lenço e óleo no cabelo. No fim de alguns dias Aleixo estava outro e Bom- Crioulo contemplava-o com esse orgulho de mestre que assiste ao desenvolvimento do discípulo. Um belo domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme branco, segundo a tabela, o grumete foi o último a subir para a mostra. Vinha irrepreensível na sua toilette de sol, a gola azul dura de goma, calças boca-de-sino, boné de um lado, coturnos lustrosos. Bom-Crioulo, que já estava em cima, na tolda, assim que o viu naquela pompa, ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu corpo. - Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje. Estava mesmo apto! Então o espelhinho sempre servira, hein? E com um gesto rápido, nervoso, disfarçando a concupiscência: - Bonitinho! O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d'alto a baixo, risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra." (pág. 24) Aspectos formais, linguagem vulgar, grotesca e repugnante: "... que os pariu!" Personagem anti-herói, indivíduo cujo comportamento é dominado por forças incontroláveis.

15 Amaro, força física em contraste com sua fraqueza moral, seu comportamento dominado por forças incontroláveis. Ele faz suas vontades utilizando suas impressões físicas que causam intimidação. "Bom-Crioulo começou a frequentar o sobradinho, aonde iam outros marinheiros, e daí a grande amizade da portuguesa por ele, não que houvesse outra intenção: ela sabia que o negro não era homem para mulheres..." (pág.36) "Muita cautela com Amaro (Bom- Crioulo). É um praça irrepreensível quando não bebe, mas em chupando seu copito, guarda debaixo! Faz um salseiro dos diabos."(pág. 48) Homossexualismo como tema: um inusitado triângulo amoroso A originalidade de Bom-Crioulo se manifesta no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta. Tradicionalmente, um triângulo amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas mulheres que disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo, Amaro e Aleixo são marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam, favorecendo a anulação das diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do negro fugido, mas pelo rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do mesmo sistema e do vício. Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que atua como homem, pois conquista Aleixo em vez de ser conquistada. O triângulo altera substancialmente a função dos participantes, mas respeitando as leis de verossimilhança. Ou seja, o insólito reside na novidade do triângulo e não em sua falta de veracidade: mais uma vez, Adolfo Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como oficial da marinha, o material do romance. Manifesta na macroestrutura do triângulo amoroso, bem como nos ingredientes, a lei da verossimilhança ainda se impõe na construção do romance. O Bom-Crioulo se fragmenta em três partes: a preparação, que ocupa os nove capítulos iniciais, o anticlímax, nos episódios subsequentes e o desenlace ou clímax no último. Escrita em câmera-lenta, comum aos romances naturalistas, visto que a tese adotada reclamava a disposição silogística da narrativa, figurando os primeiros capítulos como premissas da conclusão que deflagra no episódio final. O tema do romance, o homossexualismo, manifesto na construção do triângulo amoroso, é tratado com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido: Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria! O fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais interessante é que aquilo ameaçava ir longe para mal de seus pecados... Não havia jeito senão ter paciência, uma vez que a natureza impunha-lhe esse castigo. Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem té os trinta anos, passando vergonhas que ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de que se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana... O homossexualismo, encarado no romance como vício ou perversão, é tratado, portanto, através de um olhar naturalista e, consequentemente, limitado: não há o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama de consciência ou mesmo drama moral). Há uma resposta mecânica, instintiva aos fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua força e valor literário. Por tratar de um tema tão forte como o homossexualismo, sobretudo em sua época, alguns críticos consideraram esse livro de Adolfo Caminha uma defesa da causa homossexual; outros viram o contrário. No entanto, o narrador se mantém na posição de observador: não defende, nem condena. Mais do que isso, o livro também possui um forte caráter de denúncia sobre um ambiente cruel e brutal que homens enfrentavam na Marinha - ambiente que Caminha conheceu bem. Também há uma forte denúncia social, pois retrata um trecho da vida urbana do Rio de Janeiro e a vida miserável de seus habitantes excluídos por uma estrutura social perversa. Em suma, o livro discute, acima de tudo, a questão da liberdade de homens presos por correntes invisíveis, fruto do meio em que vivem, de seu momento histórico e de suas tendências físicas e morais. A falta de liberdade não será só social, mas também biológica, conforme diziam as correntes deterministas em vigor nessa época. Daí o tom de pessimismo que há no livro: não há saída possível das mazelas humanas. 5) URUPÊS MONTEIRO LOBATO Publicado em 1918, Urupês é basicamente uma série de 14 contos, tendo como ênfase a vida quotidiana e mundana do caboclo, através de seus costumes, crenças e tradições. Monteiro Lobato reuniu na obra alguns contos que a experiência de fazendeiro do Vale do Paraíba lhe proporcionou. É a obra de estreia de Monteiro Lobato. Urupês não contém uma única história, mas vários contos e um artigo, quase todos passados na cidadezinha de Itaoca, no interior de SP, com várias histórias, geralmente de final trágico e algum elemento cômico. O último conto, Urupês, apresenta a figura de Jeca Tatu, o caboclo típico e preguiçoso, no seu comportamento típico. No mais, as histórias contam de pessoas típicas da região, suas venturas e desventuras, com seu linguajar e costumes. Para uma melhor compreensão da temática da obra, o próprio escritor nos dá pistas ao citar, em um dos seus contos, Meu Conto de Maupassant. De fato, sua literatura vai pela mesma rota do literato francês, já que se baseia em ações extremas e patéticas norteadas pelo amor e pela morte. O tom exagerado também se manifesta em sua linguagem. Além dos traços expressionistas (na descrição das personagens Lobato utiliza técnicas expressionistas que as deformam, quando se dedica a caracterizar a natureza passa a vazar metáforas de bela plasticidade que em vários pontos lembra a idealização romântica. Afasta-se, no entanto, dessa escola literária por utilizar uma linguagem mais simples, arejada, moderna) usados nas descrições das personagens, Lobato utiliza constantemente a ironia, o que

16 revela uma emotividade extremamente carregada, fruto de um misto de indignação, impaciência e até intolerância ao enxergar os problemas brasileiros e como eles são provocados pela lassidão, fraqueza e indolência do caráter de nosso povo. A linguagem lobateana ainda inspira alguns comentários interessantes. É fácil perceber como antecipa o Modernismo, já que não apresenta a elaboração rebuscada então vigente em sua época (Monteiro Lobato criticou ferozmente a moda parnasianista de elaboração preciosista e purista da linguagem. Suas ideias combativas aparecem até mesmo em trechos que podem ser entendidos como pequenas digressões dentro das narrativas de diversos contos de Urupês). Defensor de um estilo mais simples, prático, direto, sem elucubrações linguísticas, chega até mesmo a aproveitar o andamento coloquial brasileiro dentro de sua narrativa, o que o torna embrião de feitos vistos em obras importantíssimas do Primeiro Tempo Modernista, como Macunaíma, Memórias Sentimentais de João Miramar, Brás, Bexiga e Barra Funda e Libertinagem. É só notar expressões como Filho homem só tinha o José Benedito, d apelido Pernambi, um passarico desta alturinha ou E a prova foi roncarem logo p r ali como dois gambás, dois exemplos tirados a esmo do conto A Vingança da Peroba. Outro aspecto moderno é a construção de uma metaforização nova, em certos aspectos inusitada, se comparada ao padrão parnasianista então em moda, mas mais comum no movimento que surgiria praticamente meia década depois desse livro de Lobato. Enredo Os Faroleiros O narrador, em meio a um bate-papo, propõe-se a contar uma história surpreendente. Relata que, seduzido pelo ar solitário e isolado de um farol, consegue realizar seu sonho passando uns dias nesse local. É quando conhece duas figuras misteriosas que não se conversam: Gerebita e Cabrea. O primeiro defende a ideia, insistentemente confessada para o narrador, de que o segundo está louco. Pergunta então se seria crime se defender de um ataque de um maluco matando-o. É uma premonição, além de deixar nas entrelinhas que o que está para ocorrer tinha sido premeditado. Pouco depois, os dois mergulham num duelo sangrento, em que Gerebita consegue matar o seu oponente com dentadas na jugular. Quando o narrador abandona o farol, massacrado por experiências tão carregadas, toma conhecimento dos motivos que levaram a essa tragédia. Gerebita fora casado com uma mulher chamada Maria Rita, que o trocou por Cabrea, que também é trocado por outro homem. Tempos depois o destino fez com que os dois fossem nomeados para trabalhar no mesmo farol, passando a estabelecer uma convivência de tensão surda. Não deixe de notar que a narrativa várias vezes se abre para que haja comentários dos ouvintes com o enunciador. É uma maneira de o texto não ficar pesado, cansativo. Além disso, deve-se observar as técnicas expressionistas (o exagero que beira o grotesco) e naturalistas (preferência pelos aspectos escabrosos do comportamento humano). Finalmente, não se deve perder de vista que este conto foge ao padrão de Monteiro Lobato, já que não é regionalista. Passa-se no litoral, ou seja, bem longe do seu conhecido Vale do Paraíba. O Engraçado Arrependido - Trata-se da história de Pontes, um típico piadista, que consegue arrancar risos nos atos mais simples. Até que um dia resolve ser sério, desejo que não consegue realizar, pois sempre imaginam que é mais uma peça que está pregando. Tenciona, pois, arranjar um cargo no funcionalismo público, o que só obterá se surgir uma vaga, conforme avisa seu padrinho. Resolve, de forma maquiavélica, atacar Major Antônio, homem extremamente sério e que sofre de um aneurisma prestes a estourar por qualquer esforço. Seu plano, pois, é matá-lo com suas piadas e assim ficar com o seu emprego. No começo parece difícil, devido ao caráter circunspeto do doente. Até que, depois de muitas pesquisas sobre o gosto humorístico da vítima, consegue dar o golpe fatal. Mergulha, a partir de então, no remorso, isolando-se de todos. Semanas depois, recuperado, volta à ativa, mas descobre que havia perdido a vaga, pois a demora provocada por seu sumiço forçara a nomeação de outra pessoa. O protagonista enforca-se com uma ceroula, o que para a cidade acaba sendo visto como mais uma piada. Note como neste conto o psicológico acaba se resvalando para o patológico, para o anormal, o patético, o exagerado. Observe, também, que ainda não é aqui que se manifesta o caráter regionalista do autor. A Colcha de Retalhos Neste conto já se manifesta a temática que tanto consagrou o seu autor: a crítica à decadência da zona rural. O narrador faz uma visita a Zé para propor-lhe negócios. No entanto, este recusa, o que revela sua indolência. Esse seu caráter é responsável pela decadência e atraso em que se encontra sua fazenda, reforçada pelo desânimo de sua esposa e pelo caráter arredio de sua filha, Pingo ou Maria das Dores. A única firme, forte, é uma velha, verdadeira matriarca. Mas é por pouco tempo. Anos depois surge a notícia de que Pingo, verdadeiro bicho do mato, havia fugido com um homem para manter uma relação desonrosa. É a derrocada final. A mãe da moça morre, o pai mergulha mais ainda na decadência e a matriarca já não encontra mais motivos para sua existência. O momento mais tocante é quando ela passa a descrever para o narrador a colcha que estava costurando durante anos, toda composta de peças de roupa que Pingo ia usando e dispensando desde recém-nascida. O último pedaço estava reservado para um retalho do vestido de noiva, que não chegou a existir. Note como a decadência em que a menina mergulha é um símbolo da decadência rural. Note também o colorido da linguagem do contista, que retrata com fidelidade o andamento do registro oral de suas personagens, como no trecho Des que caí daquela amaldiçoada ponte, entre tantos outros. A Vingança da Peroba Mais um conto que critica a decadência rural provocada pela indolência dos fazendeiros. Há aqui uma oposição entre duas famílias, os Porunga, fortes e de vida bem estabelecida, graças à força de vontade de suas ações, e os Nunes, mergulhados na preguiça, desorganização e cachaça. Os dois clãs desentendem-se por causa de uma paca, há muito desejada pelo Nunes, mas que acabou sendo caçada por um Porunga. Movido por uma mistura de rivalidade e de inveja, Nunes resolve finalmente investir em suas terras. Seus esforços têm fruto, gerando uma boa colheita de milho. Resolve então construir um monjolo, pois não quer ficar atrás do seu vizinho em desenvolvimento. Corta uma peroba imensa, que estava na divisa das duas terras. Já há aqui motivo de desentendimento, que arrefece quando os Porunga resolvem não brigar mais pela árvore. Semelhante ao conto Faroleiros,

17 há o emprego da premonição no meio da narrativa. Um aleijado, que havia sido contratado por Nunes para ajudar na construção do engenho, conta uma história de que certas árvores se vingam por terem sido cortadas. O fato é que o monjolo é construído, mas todo torto, produzindo mais barulho do que outra coisa, o que justifica o seu apelido: Ronqueira. Decepcionado e envergonhado, mergulha na cachaça. Um dia, depois que ele e seu filhinho se embebedaram, acaba adormecendo na rede. Acorda com a gritaria das mulheres de sua casa: o engenho havia esmagado a cabeça da criança no pilão. Irado, Nunes destrói a machadadas a máquina assassina. Um Suplício Moderno Este conto apresenta o estafeta, uma espécie de carteiro, como o tipo mais humilhado das cidades do interior. Trata-se da história de Biriba, um pobre coitado que acaba se tornando o burro de carga de todas as pessoas de Itaoca, que ainda cometem o desatino de reclamar dos favores que faz para elas. Sua paciência esgota-se a ponto de pedir demissão, mas não o deixam levar adiante seu plano. Era interesse de todos ter alguém tão submisso. É quando resolve se vingar, traindo Fidêncio, seu superior. Recebe um pacote muito importante para as eleições. Não o entrega, sumindo com ele por dias. É o motivo da queda do maioral, provocando a subida do inimigo, Evandro, que não poupa quase ninguém do antigo governo, apenas o pobre Biriba, recebido de forma bastante atenciosa. Provavelmente desconfiando que tudo iria continuar como antes, mudados apenas os personagens, some de Itaoca. Meu Conto de Maupassant Essa narrativa é norteada pelos temas do amor e da morte, comuns em Maupassant e grandes elementos vitais de Lobato. O narrador, ao passar de trem diante de uma árvore, um saguaraji, lembra-se de um crime ocorrido há muito. Tudo havia começado com o aparecimento, nas redondezas daquele vegetal, do cadáver decapitado de uma velha. Investigações são feitas e tem-se como principal suspeito um italiano, que consegue se safar, já que não havia provas. Os anos passaram-se e novos indícios surgem sobre o caso, levando o italiano, que havia sumido no Brás, a ser mais uma vez conduzido para a justiça. Durante toda a viagem de trem, o acusado não deu trabalho algum, mostrando-se por demais submisso. Até o momento em que o veículo passa diante do saguaraji. É quando o sujeito se atira para fora do transporte, sendo depois encontrado morto junto à árvore. Fica a ideia, por muito tempo, de que o remorso pelo crime cometido o havia conduzido ao suicídio, no entanto, tudo é desfeito quando o filho da assassinada confessa o delito. Mergulha-se, pois, no clima de mistério à Maupassant. Pollice Verso Narra-se a história de Inácio, alguém que já de criança mostrava um gênio negativo ao gostar de dissecar pássaros. Seu pai, homem dotado de linguagem empolada (o que o tornava uma ilha em seu meio tão pobre intelectualmente) via nesse costume, no entanto, uma tendência para a Medicina e dedica todas as suas forças em ver seu filho seguindo essa carreira. O rapaz acaba realizando o sonho do pai, mas torna-se um pelintra, mais preocupado em se exibir e conseguir o mais rápido possível dinheiro para voltar aos braços da amante francesa, Yvonne, que havia conhecido nos tempos da faculdade. Seu bilhete de loteria é conseguir cuidar de um ricaço, Mendanha. Sua intenção não é curá-lo, pois não seria tão lucrativo quanto a morte, que lhe possibilitaria cobrar uma quantia exorbitante. Com o falecimento do paciente, a família recebe a conta, que acha exorbitante, levando a questão ao tribunal. Ali, Inácio conta com o corporativismo, já que os outros médicos (tão menosprezados pelo recém-formado) dão-lhe parecer favorável. Viaja, pois, para Paris, enganando a todos, dizendo que tinha se estabelecido na carreira e estava em contato com gente do alto quilate da medicina. Estava mais era curtindo a vida. Bucólica Outro conto regionalista que critica a lassidão infinita da zona rural. Narra-se o atraso em que vivem Veva e seu marido, Pedro Suão. Os dois têm uma filha, Anica, deficiente. Esse é o motivo que faz sua mãe tratar-lhe mal, desejando a morte da pequena, já que não vê utilidade em sua existência quase paralítica. O clímax, temperado a doses de crueldade absurda, está no relato que Libória, a empregada do casal, faz ao narrador. A menina havia morrido de sede, pois a mãe havia-lhe negado água, mesmo sabendo que a coitada estava com febre. O mais trágico é que a única que atendia às vontades da enferma era a criada, que naquele momento estava retida fora da casa graças a uma chuva torrencial que aparecera. O funesto está no fato de a mocinha ter se arrastado até o pote d água, morrendo ao pé deste. Note como o título do conto estabelece uma gigantesca ironia com relação ao seu conteúdo. O Mata-Pau A história deste conto é introduzida por meio da simbologia do mata-pau, planta que surge discretamente numa árvore, mas que com o tempo cresce a ponto de sugar-lhe toda a seiva. Estabelece-se, pois, relação com Elesbão e Rosa, que há muito queriam um filho, mas não conseguiam. Até que no meio de uma noite surge uma criança na terra deles. Adotam-na, batizando-a de Manuel Aparecido. Quando cresce, acaba tendo um caso com a madrasta. Dominado por sentimento malignamente possessivo, mata o padrasto e depois consegue fazer com que Rosa passe a fazenda para o nome dele. Vende tudo e some com o dinheiro, não sem antes trancar a ex-amante em casa, que incendeia. A sorte dela é que, além de conseguir escapar, enlouquece, o que é-lhe um alívio, pois não tem noção da miséria em que caiu a sua vida. Bocatorta Conto carregado de elementos macabros e expressionistas. É a história de Bocatorta, uma figura hedionda e deficiente que vive isolado no meio do mato. Sua biografia é relatada numa reunião familiar, o que desperta a curiosidade em vê-lo. Uma das meninas, Cristina, fica com medo, mas acaba indo, encorajada pelo noivo. Assolada pelo medo e fragilizada pela mudança de clima que ocorre durante a viagem, fica doente, terminando por morrer. Mais tarde, um rapaz que gostava muito dela percebe algo estranho no cemitério e corre para pedir ajuda. Quando todos chegam lá, descobrem Bocatorta violando o cadáver da moça, em pleno ato de necrofilia. Acaba sendo perseguido, morrendo afogado num atoleiro que existia lá por perto. O Comprador de Fazendas Quase como para aliviar a leitura depois de dois textos tão pesados, este conto mostra-se mais jocoso. É a história de Moreira, dono da fazenda decadente mais uma vez esse tema! Espiga, que não consegue ser vendida, assim como sua filha Zilda não consegue arranjar casamento. Até que surge Trancoso, sujeito bem afeiçoado e que se mostra interessado em comprar a propriedade. Surpreendentemente, é o primeiro que se mostra a elogiar tudo, o que faz com que seja bem tratado, podendo até cortejar Zilda. Parte, prometendo fechar negócio em uma semana. Com a demora da resposta, Moreira faz pesquisas, descobrindo que o indivíduo ganhava a vida andando de fazenda em fazenda, sempre se mostrando interessado em comprar, o que lhe garantia casa e

18 comida por alguns dias. O proprietário, frustrado, fica irado. Tempos depois, Trancoso ganha na loteria e retorna à Espiga, dessa vez para comprá-la realmente, mas é recebido com uma surra de rabo de tatu. Vai-se, aí, o sonho de vender a fazenda e de casar Zilda. O Estigma Bruno, narrador, conta a história de seu amigo, Fausto, que se casou praticamente interessado em dinheiro, já que o relacionamento era o que se chamava face noruega", ou seja, semelhante ao lado de uma vegetação em que não bate sol. Tudo se complica quando o marido se envolve com uma prima, Laurita, muito mais jovem do que a sua esposa. Até que a mocinha aparece morta com um tiro no peito. Suspeita-se que tenha se suicidado e o narrador chega a pensar que de remorso por manter um relacionamento adulterino. Tempos depois, o filho de Fausto nasce, apresentando uma marca no peito, na mesma região que Laura havia atingido para pôr fim a vida. Desenvolve então a teoria de que aquela criança, quando feto, fora a única testemunha do crime cometido por sua mãe. Em outras palavras, não houve suicídio, mas um crime passional e a criança veio ao mundo para denunciar sua progenitora. Assim que vê esse sinal, mostra para a esposa, dizendo: Olha, mulher, quem te denuncia!. Em pouco tempo está morta. O narrador, que visita a personagem muitos anos depois, pôde ver o sinal e descobrir que era tudo ilusão, pois não havia como a marca presente no peito da criança provar ou mesmo denunciar qualquer coisa. Prefácio da 2ª Edição de Urupês Explica-se aqui o que levou Lobato a produzir seus textos sobre a indolência do caipira. Tudo havia começado com um comentário para o jornal em linguagem vazada de emotividade e estilo, o que despertou nos leitores um desejo por mais textos do mesmo quilate. Velha Praga O artigo que transformou um fazendeirinho em literato disserta, de forma indignada e irônica, sobre o atraso do comportamento do caboclo, que praticamente põe toda a validade do solo e da agricultura a perder por causa de seu costume bárbaro de realizar queimadas. Urupês Este é um dos mais famosos textos de Monteiro Lobato. Nele, desanca uma crítica das mais ferozes que já se fez sobre qualquer tipo nacional. O alvo de seu ataque é o caboclo. Derrubando uma tradição cara, inaugurada por José de Alencar, que apontava como a mestiçagem do índio com o branco como geradora de uma nação forte, Lobato crê no contrário. Sua teoria institui a tese do caboclismo, ou seja, a mistura de raças gera um tipo fraco, indolente, preguiçoso, passivo. Sua religião manifesta-se por meio das mais primitivas formas de superstição e magia. Sua medicina é mais rala ainda. Sua política é inexistente, já que vota sem consciência, conduzido pelo maioral das terras em que mora. Seu mobiliário é o mais escasso possível, havendo, no máximo, apenas um banquinho (de três pernas, o que poupa o trabalho de nivelamento) para as visitas. Não tem sequer senso estético, coisa que até o homem das cavernas possuía. E quanto à produção, dedica-se apenas a colher o que a natureza oferece. É, portanto, o protótipo de tudo quanto há de atrasado no país. 6) ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA CECILIA MEIRELES Considerações Gerais Como o nome sugere, romanceiro é uma coleção de romances. Romance deve ser entendido, nesse caso, como um gênero de origem medieval, muito característico na península Ibérica, constituído de narrativas breves, sob forma de poemas épico-líricos, que originalmente eram cantados ao som de um instrumento, celebrando as aventuras e proezas de um herói de cavalaria ou fatos da nacionalidade de um povo. Preservadas pela memória popular, oralizados de forma fragmentária pelo povo, algumas ações mudavam de natureza e tomavam vida independente: ao lado das imagens objetivas e da narração, peculiares ao gênero épico-lírico, no qual se impõem notas de emoção e subjetividade, e o gênero dramático-lírico, no qual predominam os diálogos. Etimologicamente, o termo origina-se do latim romanice, ou seja, as narrativas eram feitas no loqui romanice (falar à maneira de Roma). Segundo Cecília Meireles, anos depois da publicação do Romanceiro, em Ouro Preto, no I Festival da cidade onde se deu a Inconfidência: "Muitas vezes me perguntei porque não teria existido um escritor do século XVIII - e houve tantos, em Minas! - que pudesse por escrito essa grandiosa e comovente história. Mas há duzentos anos de distância pode-se entender por que isso não aconteceu, principalmente se levarmos em conta o traumatismo provocado por um episódio desses, em tempos de duros castigos, severas perseguições, lutas sangrentas pela transformação do mundo, em grande parte estruturada por instituições secretas, de invioláveis arquivos. Também muitas vezes me perguntei se devia obedecer a esse apelo dos meus fantasmas, e tomar o encargo de narrar a estranha história de que haviam participado e de que me obrigaram a participar também, tantos anos depois, de modo tão diferente, porém, com a mesma, ou talvez maior, intensidade. Sem sombra de pessimismo, posso, no entanto, confirmar por experiência a verdade de que somos sempre e cada vez mais governados pelos mortos. No decorrer das minhas incertezas e dos meus escrúpulos em aproximar-me de tema tão grave, os fantasmas começaram a repetir suas próprias palavras de outrora: as palavras registradas no depoimento do processo, ou na memória tradicional, vinham muitas vezes e inesperadamente, já metrificadas.(...) Até os nomes de alguns personagens foram versos perfeitos: "To/más/An/tô/nio/Gon/za/ga" "Do/na/Bár/ba/ra E/lio/do/ra"

19 "Joa/quim/Jo/sé/da/Sil/va/Xa/vi/er" Assim, a primeira tentação diante do tema insigne, e conhecendo-se, tanto quanto possível, através dos documentos do tempo, seus pensamentos e sua fala, seria reconstituir a tragédia na forma dramática em que foi vivida, redistribuindo a cada figura o seu verdadeiro papel. Mas se isso bastasse, os documentos oficiais com seus interrogatórios e respostas, suas cartas, sentenças e defesas realizariam a obra de arte ambicionada, e os fantasmas sossegariam, satisfeitos. Os "Cenários", os "Romances" e as "Falas" Há três estruturas que se alternam no poema: os romances, os cenários e as falas. Os romances, em número de oitenta e cinco, reconstituem a história, compondo o fio narrativo; os cenários situam os ambientes, marcando as mudanças de atmosfera e localizando os acontecimentos; e as falas representam uma intervenção do poeta-narrador, tecendo comentários e convidando o leitor a refletir sobre os fatos revividos no relato. Os romances não são dispostos na sequência cronológica dos acontecimentos; ora aparecem isolados, ora constituem-se em verdadeiros ciclos (o de Chica da Silva, o do Alferes, o de Gonzaga, o da Morte de Tiradentes, o de Gonzaga no exílio, o de Bárbara Heliodora, o da Rainha D. Maria). Características do Romanceiro a) A herança simbolista e o espiritualismo: um ar de mistério, de crença no imaterial, no extraterreno, perpassa todo o poema. O culto do etéreo, das palavras aéreas marca a ânsia de dar forma ao informe. Expressões como: atroz labirinto de esquecimento, mistério, esquema sobre-humano, silenciosas vertentes, inexplicáveis torrentes instauram um halo espiritualista de crença no imaterial. b) A utilização do redondilho maior (verso heptassilábico), sem rimas externas regulares (versos brancos), e a exploração da camada sonora, através de aliterações e assonâncias, conferem à Fala Inicial um tom enfático, declaratório, reforçado pelas exclamações e interrogações. c) O tom evocativo: o mergulho no passado, no atroz labirinto do tempo, nas ressonâncias incansáveis de Vila Rica revela a ânsia da procura de um significado para os fatos: Ó meio-dia confuso / ó vinte-e-um de abril sinistro, / que intrigas de ouro e de sonho / houve em tua formação? / Quem condena, julga e pune? Quem é culpado e inocente?. É como se a poetisa, evocando Tiradentes na força, questionasse a casa do martírio. Foi a ambição do ouro? Foi o sonho de liberdade que iluminou aquela gente? d) O tom inquiridor: o clima de mistério e ansiedade, as lacunas históricas incontornáveis e a busca de um sentido para os fatos projetam-se nas interrogativas que surgem a cada momento. Revelando o mistério que envolve até hoje o "embuçado" e a morte de Cláudio Manuel da Costa, o Romance XXXVIII é composto só de interrogações. O embuçado teria sido um mensageiro mascarado, disfarçado, que viera para tentar salvar Cláudio Manuel da Costa: Homem ou mulher? Quem soube? / Veio por si? Foi mandado? / A que horas foi? De que noite? / Visto ou sonhado?. e) A dualidade: reflete a ambivalência ou ambiguidade que caracterizam as ações do homem - herói e traidor, ódio e amor, punhal e flor, bons e maus, riqueza e miséria. Observe, na Fala Inicial: amores x ódios (v.4); intrigas de outo e de sonho; (v.19); culpado x inocente (v.22); castigo x perdão (v.24), coroas x machados (v.31); mentira x verdade (v.32); ruínas x exaltação (v.43). Ganham relevo as passagens que refletem a dualidade entre a justiça e a tirania, entre a liberdade e a opressão: Em baixo e em cima da terra o ouro um dia vai secar. Toda vez que um justo grita, um carrasco o vem calar. Quem sabe não presta, fica vivo, quem é bom, mandam matar. (Romance V) Ai, terras negras d África, portos de desespero... - quem parte, já vai cativo; - quem chega, vem por desterro. (Romance LXVII) Resumo Podemos dividir os fatos que compõem o Romanceiro em três partes ou ciclos: a) ciclo do ouro; b) ciclo do diamante; c) ciclo da liberdade ou inconfidência com sua ascensão e queda. Aí parece haver uma gradação proposital: ouro/diamante/liberdade. Como o ouro e o diamante, a liberdade brilhou intensamente nas Minas Gerais, mas como o ouro e o diamante, a liberdade só trouxe desgraças, masmorras e mortes... a) Ciclo do ouro O cenário colocado para o ciclo do ouro prenuncia também o ciclo da liberdade, no qual "a mão do Alferes de longe acena" como a querer dizer: Adeus! que trabalhar vou para todos!... Mas essa mão que acena à liberdade e ao homem livre será enforcada mais tarde. Por enquanto, vejamos o alvorecer do ouro que vai brilhar intensamente nas Minas Gerais, despertando a cobiça e ganância dos homens e, quem sabe, o sonho de liberdade dos inconfidentes que nasceria também do ouro da terra. Descobre-se o ouro e, por causa dele, o homem vai matando animais, pessoas, florestas e tudo que lhe atravessa o caminho. Desbravase a mata. Surgem montanhas douradas de ouro e de cobiça que despertam uma verdadeira alucinação: Selvas, montanhas e rios estão transidos de pasmo.

20 É que avançam, terra adentro, os homens alucinados. (Romance I) E gerações e mais gerações de netos afundariam nesse abismo: Que a sede de ouro é sem cura, e, por ela subjugados, os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos. (ib.ib) Como o ouro que brota da terra, brotam também "as sinistras rivalidades", ladrões e contrabandistas, - um clima de intranquilidade: todos pedem ouro e prata, e estendem punhos severos, mas vão sendo fabricadas muitas algemas de ferro. (Romance II) E por amor, pelo ouro, uma donzela é assassinada pela mão de seu pai. O ouro não permitia que a donzela acenasse a enasse a um amor "de condição desigual" o seu lencinho" de sonho e sal" Surge Felipe dos Santos, que assanha a fúria do Conde de Assumar. É morto e esquartejado, mas o herói que tomba no Arraial do Ouro Podre ficará como exemplo perene de força e de coragem para os que virão. O tirano conde haveria de chorar porque quem ri, chora também. O Brasil ainda era criança - um "menino" apenas. Nasceriam outros como Felipe dos Santos: Dorme, meu menino, dorme, - que Deus te ensine a lição dos que sofrerem neste mundo violência e perseguição Morreu Felipe dos Santos; outros, porém, nascerão. (Romance V) Cria-se o quinto do ouro, cobrado a ferro e fogo: a Coroa precisava de ouro. Há logros: D. Rodrigo César e Sebastião Fernandes enviam para a coroa caixotes selados com "grãos de chumbo" em vez de grãos de ouro. Ai, que o Monarca procura os que vão ser castigados. E o "quinto falsificado" se tornaria o décuplo de forcas e degredos para a dourada colônia! Pela madrugada fria, rompe o canto do negro no serviço de catar o ouro, enquanto o patrão dorme e sonha. O negro pena e chora, canta e ri na saudade da serra, na imensidão da terra. E na sua vida escrava, ele erra sem terra, sem serra, sem nada: (Deus do céu, como é possível! penar tanto e não ter nada!) (Romance VII) O ouro lhe tiraria o "t" da terra e o "s" da serra e ele erra cativo, sem liberdade, com os elos de ferro da escravidão... Mas o ouro que brotava da terra não cativara apenas o preto, como Chico, que também já fora rei "lá na banda em que corre o Congo": também os brancos foram atirados naquela lama que alimentava a ganância de reis e rainhas: Hoje, os brancos também, meu povo, são tristes cativos. (Romance VIII) Santa Ifigênia, princesa núbia, protetora dos negros, desce às minas "vira-e-sai", depois de amenizar o sofrimento deles. As pessoas, por causa do ouro, iam-se embrutecendo: movido pelo ódio, um contratador, quase assassinou um ouvidor, dentro de uma igreja, porque este, enamorado, arremessara uma flor a uma donzela. Os filhos do almotacé (inspetor de pesos e medidas), sete crianças, rezam diante de Nossa Senhora da Ajuda. Joaquim José é uma delas. As crianças pedem à Virgem que o salve "do triste destino que vai padecer". Será em vão. A virgem não poderá atendê-los, mesmo sendo crianças. Mais forte do que um pedido de criança é o destino traçado para um homem! Mesmo sendo seis e irmãos do sentenciado! (Lá vai um menino entre seis irmãos. Senhora da Ajuda, pelo vosso nome, estendei-lhe as mãos!) (Romance XII), O pedido agora (entre parênteses) é da poetisa à Virgem. Não será atendida: mais forte do que o pedido de um poeta é o destino traçado para um homem! Mas, por enquanto, reina a bonança: "os tempos são de ouro". A tempestade virá depois, em 1792, com a execução. Antes de chegar a forca, porém, outro metal brilhará intensamente nas Minas Gerais: os diamantes do Tejuco, depois Diamantina. b) Ciclo do diamante Continua a corrida alucinante. Agora é a vez do diamante nas regiões do Serro Frio e do Tejuco, onde vive o contratador João Fernandes, "dono da terra opulenta". Chega às suas terras, com o fim de persegui-lo, o Conde de Valadares, homem enganoso e fingido. Hospeda na casa de João, que lhe abre a casa e o coração das mulatas, menos o de Chica da Silva. Sua riqueza é imensa e o fingido conde suspira de cobiça: Deste tejuco não volto sem ter metade das lavras,

21 metade das lavras de ouro, mais outro tanto das catas; sem meu cofre de diamantes, todos estrelas sem jaça, - que para os nobres do Reino é que este povo trabalha! (Romances XIII) O romance XIV apresenta Chica da Silva no seu império de luxo, resplandecente de ouro e diamante. Comparada à rainha de Sabá, ela tinha mais brilho que Santa Ifigênia, a princesa núbia, em dias de festa: (Coisa igual nunca se viu. Dom João Quinto, rei famoso, não teve mulher assim!) Vendo o conde tão interessado pelo João, Chica cisma nessa falsa amizade e previne a João Fernandes: Hoje, todo o mundo corre, Senhor, atrás de riqueza. (Romance XV) Dito e feito: o conde, traindo a hospedagem de João Fernandes, leva-o preso, como Chica da Silva pressentira. É a ambição do ouro (ou do diamante, que é sempre a mesma coisa) que a todos embriaga e corrói: Maldito o conde, e maldito esse ouro que faz escravos, esse ouro que faz algemas, que levanta densos muros para as grades das cadeias, que arma nas praças as forças, lavra as injustas sentenças, arrasta pelos caminhos vítimas que se esquartejam! (Romance XVII) Os velhos do Tejuco, na sua experiência, pensam com a amargura na "febre que corta o Serro Frio". João Fernandes, que até então era senhor opulento, fora levado num navio "igual a um negro fugido", o que dá margem a esta reflexão da autora: (Que tudo acaba! Quem diz que montanha de ouro não desaba?) (Romance XVIII) Acabara-se o tempo de João Fernandes e de Chica da Silva, cravejada de brilhantes. Mas: Sobre o tempo vem mais tempo. mandam sempre os que são grandes: e é grandeza de ministros roubar hoje como dantes vão-se as minas nos navios... Pela terra despojada, ficam lágrimas e sangue. (Romance XIX) Mas o ouro e o diamante, que brilharam tão intensamente nas Minas Gerais, eram apenas prenúncio de um brilho maior. Um sonho milenar, um ideal de um sol que despertaria - o sol da liberdade que a todos iluminaria e que nem rei nem rainha, por mais despóticos que sejam, podem tirar do homem! Não importa que haja eclipses de vez em quando: o sol sempre volta a brilhar depois de um eclipse... c) Ciclo da liberdade A poesia apresenta o cenário onde vão se desenrolar os fatos: enumeração, sobretudo, dos lugares e fixação na névoa que chega às ruas, move a ilusão de tempo e figuras e que trará, fatalmente, o pranto e a saudade: A névoa que se adensa e vai formando nublados reinos de saudade e pranto. O "país da Arcádia", sediado na Vila Rica de outrora (Ouro Preto), com seus pastores e rebanhos, Nises, Marílias e Glauceste não passou de um ideal na literatura. Pelos céus, nuvens negras de ódio e ambições ameaçam a doutorada terra de Ouro Preto: uma "nuvem de lágrimas" está prestes a desabar sobre "o país da Arcádia" - a "pastoral dourada": O país da Arcádia, súbito, escurece, em nuvem de lágrimas. Acabou-se a alegre pastoral dourada: pelas nuvens baixas, a tormenta cresce. (Romance XX) E a Arcádia serena ficava cada vez mais carregada: agitação, correrias, ódio, ambições, países que se libertam, "a Europa a ferver em guerras". Portugal com uma rainha louca: - um imenso tumulto humano. As ideias fervilhavam as mentes de padres e poetas. Mas, por trás das janelas, ouvidos que escutam...

22 O país da Arcádia estava carregado de "ideias". Um príncipe que morre, filho de D. MariaI, a rainha louca, em 1788, é também uma esperança que morre. Nas exéquias do príncipe, muita agitação. Alguma coisa está sendo tramada - "já ninguém quer ser vassalo" e: A palavra Liberdade vive na boca de todos: quem não a proclama aos gritos, murmura-a em tímido sopro. (Romance XXIII) Com pouco mais surgirá a bandeira da liberdade... "Atrás de portas fechadas", os líderes de "fardas e casacas (= militares, poetas), junto com batinas pretas" discutem e planejam a inconfidência. A bandeira com seu lema é escolhida e há um sobressalto, quando se fala em liberdade: E os seus tristes inventores já são réus - pois se atreveram a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja), Liberdade - essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda!) (Romance XXIV) Por causa dessa palavra - espinha dorsal do homem de todos os tempos - um rio de sangue está iminente: uma carta anônima que se recebeu "fala de rios propínquos / rios de lágrimas e sangue / que vão correr por aqui". E na "semana santa de 1789", enquanto na França a liberdade rompia os grilhões da Bastilha, nas terras douradas de Minas, a mesma ideia se fermentava para ser depois enforcada, na pessoa de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes: Deus, no céu revolto, seu destino escreve. Em baixo, na terra, ninguém o protege; é o talpídeo, o louco, - o animoso Alferes. (Romance XXVII) Mas "no grande espelho do tempo", a poetisa vê também "o impostor caloteiro" Joaquim Silvério: (quem em tremendos labirintos prende os homens indefesos e beija os pés dos ministros!) (Romance XXVIII) No "riso dos tropeiros" está colocado um aspecto de Tiradentes que a tradição confirma (inclusive um lira de Gonzaga), a loucura, pois: falava contra o governo, contra as leis de Portugal. (Romance XXX) Sem dúvida, essa loucura deve ser entendida de outra forma: a audácia de um homem que se levanta, sem força e sem armas, contra um governo despótico e tirânico. É o que parece querer dizer a poetisa, no Romance XXXI: (Pobre daquele que sonha fazer bem - grande ousadia - quando não passa de Alferes de cavalaria!) É certamente por isso que "o povo todo seria", porque o povo nunca ri sem razão... Aliás, neste sentido, é preciso também o depoimento do "cigano que viu chegar o Alferes", quando diz no Romance XXXIII: (Fala e pensa como um vivo, mas deve estar condenado. Tem qualquer coisa no juízo, mas em ser um desvairado.) o Romance XXXIV, confrontando o delator Joaquim Silvério com Judas, a escritora conclui que aquele levou a melhor, pois ele (Judas) encontra remorso / coisa que não te (= a Silvério) acontece. Fechando o romance, entre parênteses, há uma reflexão poética profunda, quando fala da "força de vermes", ou seja, dos delatores, dos maus, enquanto os bons apenas "sonham". (Pelos caminhos do mundo, nenhum destino se perde: há os grandes sonhos dos homens e a surda força dos vermes.) Aliás, é o que ocorre também no romance "do suspiroso Alferes", onde há, igualmente, um lamento profundo sobre o comodismo do homem face à situação que o envolve: (Todos querem liberdade, mas quem por ela trabalha?) (O humano resgate custa pesadas carnificinas!

23 Quem more, para dar vida? Quem quer arriscar seu sangue?) E é exatamente esse comodismo, dos bons que é a força dos maus, dos traidores, dos déspotas da liberdade: Mas os traidores labutam nas funestas oficinas: vão e vêm as sentinelas passam cartas de denúncia... Na "noite escura" de 10 de maio de 1789, prenderam o Tiradentes com seus pensamentos de liberdade. Há um lamento profundo de desespero e dor por estar sozinho na luta pela liberdade: Minas da minha esperança, Minas do meu desespero! Agarram-me os soldados, como qualquer bandoleiro. Vim trabalhar para todos, e abandonado me vejo. Todos tremem. Todos fogem. A quem dediquei meu zelo? (Romance XXXXVII) E o medo e a ansiedade se espalham por toda Minas Gerais. No fim do mesmo maio, prendem os outros suspeitos: Andam as quatro comarcas em grande desassossego: vão soldados, vêm soldados; tremem os brancos e os negros. Se já levaram Gonzaga e Alvarenga, mas Toledo! Se a Cláudio mandam recados para que se esconda a tempo! Outros implicados menores vão sendo presos. Há "conversas indignadas" - há também "testemunha falsa". Há até mesmo um "embuçado" envolto em panos e mistério que pretende salvar o poeta Cláudio Manuel da Costa. Mas todos terão seu fim. O padre Rolim, famoso por suas safadezas, estava na iminência de ser preso. O problema era determinar o seu crime, já que, além da suspeita de inconfidente, era culpado também, segundo o falatório: por ter arrombado a mesa de um juiz, em certa devassa; por extravio de pedras; por causa de uma mulata; por causa de uma donzela; por uma mulher casada. (Romance XLV) Mas o padre, que não era nada bobo, enquanto as autoridades discutiam a sua prisão, "pulando cercas e muros", fugiu, levando consigo os seus sete pecados ou setenta-e sete... Nos "sequestros" das casas e bens, "tudo é visto e resolvido" pelos executores da lei, havia de tudo, até mesmo: as sugestões perigosas de França e Estados Unidos Mably, Voltaire e outros tantos, que são todos libertinos... (Romance XLVII) Antes de prosseguir no trabalho de dar fim aos inconfidentes, a autora interrompe a narrativa para fazer uma belíssima reflexão na Fala aos Pusilânimes, na qual condena os que não tiveram a coragem, a audácia de acender o pavio da chama da liberdade; os que sonharam e deixaram que seus sonhos fossem pelos espaços infindos, como bolhas etéreas... Mas o fenômeno é eterno e universal - a estirpe dos pusilânimes sempre existiu e existirá na face da terra: - só por serdes os pusilânimes, os da pusilânime estirpe, que atravessa a história do mundo em todas as datas e raças, como veia de sangue impuro queimando as puras primaveras, enfraquecendo o sonho humano quando as auroras desabrocham! E a liberdade que foi traída pela pusilanimidade dos que sonhavam com ela ficará gravada nos "céus eternos" como um eco sombrio que chama ao ajuste de contas e à condenação eterna: O vós, que não sabeis do Inferno, olhai, vinde vê-lo, o seu nome é só - PULSILANIMIDADE. mistério paira sobre o fim do poeta Cláudio, que é também a versão da história. Suicídio? Fuga? Rapto? - As dúvidas parecem justificáveis: Cláudio era secretário do governo e afilhado de João Fernandes. Daí o interesse por livrá-lo da masmorra e do desterro. De qualquer modo paira o mistério:

24 Entre esta porta e esta ponte, fica o mistério parado. Aqui, Glauceste Satúrnio, morto, ou vivo disfarçado, deixou de existir no mundo em fábula arrebatado. (Romance XLIX) Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu da Marília, também tem fim sombrio na masmorra da Ilha das Cobras, interrompendo, assim, o enxoval de Maria Dorotéia (Marília) de quem era noivo. Depois foi desterrado para as terras da África negra (Moçambique), onde se casa com Juliana Mascarenhas, deixando do outro lado do mar e da vida a pobre e inconsolável Marília a quem celebrara em inúmeras e ardentes liras de amor, em Marília de Dirceu. Enfim, em questões amorosas, o homem é sempre um pombo enigmático... Há dúvidas quanto à sua real participação na Inconfidência como procura demostrar Rodrigues Lapa em estudo a seu respeito. Aliás, o próprio Gonzaga em uma das liras de Marília de Dirceu procura se inocentar junto ao Visconde de Barbacena. Cecília Meireles também deixa transparecer a mesma dúvida, ao indagar: Inocente, culpado? Enganoso? Sincero? (Romance LV) Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado a 21 de abril de 1792, três anos depois de ser preso. Como atestam diversas passagens do Romantismo, era considerado louco por causa das ideias que tinha. Depois de morto, virou herói: Que os heróis chegam à gloria só depois de degolados. Antes, recebem apenas ou compaixão ou desdém. (Romance XLIV) A passos lentos, ele caminha sereno para o cadafalso onde o espera, um tanto aflito, o negro Capitania, que o executará. E diz o mártir: Ò, permita que te beije os pés e as mãos...nem te importe arrancar-me este vestido... Pois também na cruz, despido morreu quem salva da morte! E o negro Capitania lamenta a sua sorte de carrasco oficial do grande sonho humano - a liberdade: Vede o carrasco ajoelhado, todo em lágrimas lavado, lamentar a sua sorte! (Romance LVIII) Só um carrasco lavou-se em lágrimas! Os outros seriam lavados com o sangue daquele mártir que tombava... O cenário agora era desolador e triste: nada mais restava dos sonhos e ideais pretéritos. Tudo fora destruído pelas mãos dos delatores da vida, porque a vida está na liberdade. Tudo agora estava reduzido a "um chão sem ouro nem diamante". Nada mais brilhava nas terras douradas de Minas Gerais! Também os tiranos tiveram o seu fim. A rainha D. Maria I, que mandara executar os inconfidentes da sua coroa, acaba se tornando prisioneira do seu próprio destino: ela que executava tantos, com masmorras, desterros, forcas, torna-se prisioneira da loucura que é pior que qualquer masmorra, desterro ou morte de forca. O destino agora se voltava contra a grande déspota da liberdade! Ai, que a filha da Marianinha jaz em cárcere verdadeiro, sem grade por onde se aviste esperança, tempo, luzeiro... prisão perpétua, exílio estranho, sem juiz, sentença ou carcereiro... Terras de Angola e Moçambique, mais doce é vosso cativeiro! (Romance LXXIV) Pela "comarca do Rio das Mortes (= S.João Del-Rei), Dona Bárbara Eliodora, "a estrela do norte" do poeta Alvarenga Peixoto, naufragava em lágrimas e mágoas: seu doce Alceu também fora desterrado para as longínquas terras d África, em Angola (Ambaca). Agora as amenas colinas de outrora, onde o gado pastava, onde as flores sorriam, onde os regatos corriam, onde os pássaros cantavam, eram um montão de ruínas e desolação ante o olhar magoado e amargurado da rica e poética Eliodora. Pela "comarca do Rio das Mortes" também dormia o padre Toledo, "paulista de grande raça / mação, conforme o seu tempo". Pela "comarca do Rio das Mortes" também passara e se fora Maria Ifigênia, fruto primaveril do casal Bárbara - Alvarenga: Vai ver sua mãe demente Vai ver seu pai degredado... (Romance LXXVII) Também Marília se desfigurou pelo tempo e pela Inconfidência. O seu retrato agora é o de uma mulher macerada pela dor: já não pertence mais à terra: é só na morte que está viva

25 Agora, tudo jaz em silêncio: amor, inveja, ódio, inocência, no imenso tempo se estão lavando, declara a poetisa na Fala aos inconfidentes mortos. No horizonte eterno há de ficar sempre o anseio de liberdade, e só o purgatório do tempo está apto às ações vis e nobres dos homens da terra: Quais os que tombam, em crimes exaustos, quais os que sobem, purificados? 7) SÃO BERNARDO - Graciliano Ramos Graciliano Ramos, um dos maiores romancistas brasileiros, próximo a Machado de Assis, pela perfeição artística, nasceu em Quebrangulo (AL) aos 27 de outubro de QUANTO AO ESTILO, destaca-se em Graciliano Ramos a capacidade de síntese, ou seja, a habilidade de dizer o essencial em poucas palavras. Graciliano reescrevia seus livros varias vezes com o intuito de retirar deles tudo o que era desnecessário. Desse cuidado resulta o seu estilo enxuto, que é considerado um exemplo de elegância e de elaboração. Em suas obras o substantivo é muito privilegiado, o que não ocorre da mesma forma com o adjetivo. Apesar de Graciliano centrar o tema de suas obras na região nordestina, a análise que o autor faz da condição humana faz com que sua obra universalize-se. Graças a esse estilo, Graciliano Ramos é considerado pela critica literária como um dos maiores romancistas brasileiro, ficando atrás apenas de Machado de Assis. Os temas mais comuns na obra de Graciliano Ramos são os grandes latifundiários; a opressão sofrida pelo sertanejo e a seca e suas consequências dramáticas. O social e o psicológico se fundem em São Bernardo para criar uma obra de profunda análise das relações humanas. Este é, sem dúvida, um dos romances mais densos da literatura brasileira. Uma das obras-primas de Graciliano, é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório, que se propõem a contar sua dura vida em retrospectiva, de guia de cego a proprietário da Fazenda São Bernardo. Ele sente uma estranha necessidade de escrever, numa tentativa de compreender, pelas palavras, não só os fatos de sua vida como também a esposa, suas atitudes e seu modo de ver o mundo. A linguagem é seca e reduzida ao essencial. SÃO BERNARDO PERSONAGENS: Paulo Honório: um dos protagonista da obra, é um capitalista tacanho, ou seja o homem que faz por si mesmo; Madalena: a outra protagonista, delicada e instruída; Luis Padilha: proprietário do São Bernardo, filho do ex-patrão de Paulo Honório; D. Gloria: tia de Madalena; Casemiro:capanga que ajudou Paulo a matar Mendonça, o velho da fazenda ao lado; João Nogueira:o advogado; Ribeiro:o guarda-livros; Silvestre:o padre; Gondim:o jornalista; Resumo Paulo Honório, protagonista de São Bernardo, inicia a narrativa recordando-se de quando convidara alguns de seus amigos para escreverem o livro de sua vida. "Padre Silveira ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro." Homem de dinamismo e objetividade fortemente acentuados, antevê uma empreitada de sucesso ao pensar na venda de mil exemplares após os elogios na Gazeta. Não entrando em acordo com os possíveis colaboradores, resolve ele mesmo escrever a sua história. Continua com a seguinte auto-apresentação: "Declaro que me chamo Paulo Honório, peso oitenta e nove quilos e completei cinquenta anos pelo São Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, este rosto vermelho e cabeludo têm-me rendido muita consideração." Segue narrando a difícil infância que teve e da qual mal se lembra, a não ser da preta velha que vendia doces, e hoje acolhe em sua fazenda, e do cego de quem foi guia. De forma fragmentária e em tom regionalista, os fatos de sua vida sucedem uns aos outros desde a mocidade. Esteve preso por esfaquear João Fagundes por causa da Germana, antiga amante sua que virou prostituta. Foi na cadeia que aprendeu a ler. Fez biscates viajando pelo sertão, comercializando miudezas e sofrendo intempéries, fome e sede. Prosseguiu sem descanso na luta pelo capital, pois seu objetivo na vida era adquirir a fazenda de São Bernardo e vê-la produtiva. Acerta contas com o Pereira, agiota e político, tirando-lhe tudo. Contrata capangas, entre os quais Casimiro Lopes, para

26 cobrar do Dr. Sampaio o que este lhe devia. Casimiro Lopes segue-o por toda a vida. É um caboclo ignorante e rude. Na opinião de Paulo Honório, "um bicho do mato e fiel feito um cão de guarda". Decide fixar-se em Viçosa (AL), onde nascera. Trava amizade com Luís Padilha, filho de Salustiano Padilha, já falecido e antigo proprietário de São Bernardo. Quando criança Paulo Honório fora lavrador na fazenda. Luís Padilha, um tipo franzino, entregara-se ao jogo e à bebida. A fazenda encontrava-se em lastimável estado de abandono. Paulo Honório negocia com Padilha a compra da propriedade por uma bagatela. "Não tenho remorsos." São suas palavras ao término da negociação. De posse de São Bernardo, tem início uma disputa velada pela demarcação da propriedade entre Paulo Honório e Mendonça, antigo inimigo de Salustiano Padilha. Mendonça seu vizinho, avançara para as terras de São Bernardo. Mendonça é morto enquanto Paulo Honório está na cidade conversando com Padre Silveira sobre a construção de uma capela na fazenda. Na noite anterior Paulo Honório e Casimiro viram um empregado de Mendonça rondando a casa. Conhece seu Ribeiro na Gazeta, na qual exerce a função de gerente. Convida-o para ser contador e guarda-livros em São Bernardo. Seu Ribeiro, homem letrado de nobre caráter, resolvia os problemas de toda a gente em sua terra natal antes da chegada do progresso. Depois passou por grandes privações. Paulo Honório progride muito em cinco anos. Invade terras vizinhas, desenvolve a pomicultura e a avicultura, constrói estrada de rodagem para transportar os produtos produzidos em São Bernardo, constrói açude e capela. Costa Brito elogia seus feitos na Gazeta em troca de paga. A fazenda possui serraria e descaroçador. A mamona e o algodão lhe rendem bons lucros. Mantém um rebanho regular. Faz negociações com o governo; João Nogueira é seu intermediador e advogado. Constrói escola na fazenda em troca de favores. Visando sempre a produção da propriedade, acaba por estabelecer relação de extremo autoritarismo com os empregados. As condições de vida destes são lastimáveis: alimentam-se mal, sofrem moléstias e vivem em barracos úmidos. Espanca-os quando julga necessário. Frequentam a casa de Paulo Honório: João Nogueira, Gondim, Padilha, Padre Silvestre, Dr. Magalhães. Há sempre influência da classe dominante sobre os negócios. O Dr. Magalhães, juiz, foi o único poupado quando Paulo Honório invadiu as terras circunvizinhas a São Bernardo. A determinada altura, com a fazenda já sob controle, Paulo Honório decide casar-se. "Amanheci um dia pensando em casar. Não me preocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu que mulher é bicho esquisito, difícil de governar. (...) o que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de São Bernardo." Com o firme propósito de casar-se, idealiza uma mulher morena, forte e saudável, com trinta anos. Pensa em todas as mulheres disponíveis que conhece e chega a conclusão de que Marcela, a filha do juiz, está mais de acordo com sua fantasia. Vai à casa do juiz e lá conhece uma mocinha loura, delicada loura, delicada, de lindos olhos azuis, o oposto da mulher que imaginara. Compara Marcela com a loura e decide-se por esta. Paulo Honório vai embora pensando na moça. Passado um mês da visita ao juiz, após ter resolvido uma desavença com o Brito por tê-lo difamado no jornal, e tendo ido à cidade em função deste problema, reconhece D. Glória que senta-se ao seu lado, no bonde, de regresso a São Bernardo. Tratava-se da senhora que acompanhara a mocinha loura, na ocasião da visita ao Dr. Magalhães, e por quem Paulo Honório sentira-se enamorado. No percurso mantiveram longa conversa. D. Glória revelou-lhe ser tia da tal moça. Ao chegarem à Estação, D. Glória apresentou-lhe a sobrinha, que se chamava Madalena. Convidou-as a passarem um tempo em São Bernardo. Através do Gondim, Paulo Honório obtém informações sobre Madalena: é excelente professora, estudou em colégio normal. Moça muito culta e politizada. Trabalha no Cruzeiro. Após tê-las convidado para jantarem em sua casa e já ter adquirido certa intimidade com as duas mulheres, Paulo Honório resolve contar à D. Glória sobre a sua intenção de casar-se com Madalena. Não obtendo aprovação da tia, vai diretamente à sobrinha tratar do assunto. Madalena pede um tempo para pensar, o que Paulo Honório considera um desperdício. Acabam por se entender e Madalena aceita o pedido. Depois de oito dias casados começam os desentendimentos. Madalena, mulher humanitária e de opinião própria, não concorda com o modo como o marido trata os empregados. Paga-lhes muito pouco, são explorados. Paulo Honório enfurece-se com as opiniões da mulher e com a demasiada generosidade dispendida por ela aos "necessitados" que trabalham em São Bernardo. Remédios, comida, roupas... um absurdo, um desperdício. Mal consegue conter-se; está possesso. Madalena tornara-se um ultraje a sua autoridade de proprietário. As conversas na fazenda giram em torno de negócios e política partidária. A revolução está prestes a estourar. Padilha, sendo um socialista convicto, prega ideias revolucionárias tanto na escola em São Bernardo, onde é professor, quanto no jantar servido na casa da fazenda. Padre Silveira mostra-se insatisfeito com os governantes atuais e simpatiza com a oposição. Madalena também é a favor da justiça social. D. Glória chora com medo do comunismo. Paulo Honório começa a achar que Madalena é comunista e, portanto, não tem religião, e mulher sem religião é capaz de tudo. Vê em Padilha um possível amante de Madalena, pois ambos são comunistas. Passa a ver todos os homens que frequentam a casa, e até os empregados, como possíveis amantes da mulher. Paulo Honório está obcecado de ciúme por Madalena. As brigas entre o casal não cessam. Ele avilta-lhe a correspondência, vigia-a diariamente, acorda sobressaltado à noite, vê amantes por todos os lados. Madalena esvai-se em lágrimas e emagrece dia a dia. Algumas vezes, enredados no drama familiar, tentaram reconciliar-se. Nessas vezes Paulo Honório admitia que a esposa era boa demais, uma alma sensível; e ele, um bruto. Em vão. As cismas retornam e culpa a mulher por também não ligar para o filho pequeno que chora abandonado pelos cômodos da casa. Admite que nem ele próprio, o pai, tem apego à criança. Uma noite Paulo Honório encontra parte de uma carta escrita por Madalena e vai tomar-lhe satisfação. Está crente de que a carta é para outro homem. Vai à Capela e surpreende-se com a esposa rezando. Ela que vivera às voltas com o trabalho, ajudando seu Ribeiro, que nunca mostrara interesse por assuntos religiosos, conta-lhe que o motivo foi ter passado a vida inteira sobre os livros, estudando. A pobre tia fazendo de tudo para que se formasse e pudessem ter uma vida mais digna. Madalena diz a Paulo que a carta que tem nas mãos, escreveu-a para ele, e a outra parte está sobre a bancada, no escritório. Retira-se. Paulo Honório permanece ali, inerte, durante horas. Houve um tiro. Volta correndo para casa. Madalena suicidou-se. É acometido por imenso vazio depois da morte da esposa. Sua imagem o persegue. As lembranças persistem em seus pensamentos. D. Glória, com quem Paulo Honório sempre implicara, resolve partir apesar da insistência dele para que fique. Em seguida seu Ribeiro demite-se, fazendo-o lastimar a perda de excelente homem. Padilha junta-se ao exército revolucionário. Uns dez empregados o seguem. Os amigos já não frequentam mais a casa. O governo, com a revolução, está acuado. Cai o partido de Paulo Honório. Fregueses quebram. Inimigos antigos voltam a ocupar-se com a questão da demarcação das terras de São Bernardo. A crise é geral. A fazenda está decadente. Paulo Honório sabe que pode tentar reerguê-la mas se pergunta: para quê? Escrever a história de sua vida, a casa vazia, e a completa solidão em que vive, o faz refletir sobre si mesmo e considerar o erro que

27 cometeu, tomando o rumo que tomou. "Julgo que desnorteei numa errada." É capaz de compreender agora em que homem mesquinho se tornou. E Madalena, repleta de bons sentimentos, foi de encontro à aridez dele próprio. Fatalista diante da impossibilidade de mudança, sente-se enclausurado em si mesmo. "Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes." E finaliza: "Eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste à mesa e descanse uns minutos." 8) Felicidade clandestina - de Clarice Lispector Este livro nasceu de um convite feito a Clarice Lispector, em 1967, para escrever semanalmente no Jornal do Brasil. Seriam crônicas, mas ela mesma declarou: Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gêneros. Gêneros não me interessam mais. No entanto, a obra é considerada como livro de contos. Além dos publicados no Jornal do Brasil, acrescentaram-se outros escritos em épocas diversas da vida da autora. Neles há muito de autobiográfico: recordações da infância (a filha do livreiro de Felicidade Clandestina existiu; o professor de Desastres de Sofia percebeu o tesouro da futura escritora.). Escritas em primeira pessoa, neste que poderia ser considerado um dos livros de cunho mais autobiográfico da autora, as narrativas resgatam, de uma perspectiva memorialista da mulher adulta, a arguta ingenuidade de seus pensamentos e sentimentos aos oito e nove anos de idade, quando moradora da cidade do Recife, por cujas ruas perambulava, aos saltos, enchendo-as da memória da sua passagem. Esse material, buscado a uma época tenra de sua história pessoal, é utilizado para suas reflexões sobre a vida, a atividade literária e o exercício de um feminismo místico que se torna a marca de seu estilo. Esta obra reúne 25 contos que tematizam a adolescência, a infância, e a família, sem deixar, em momento algum de se referir as angústias da alma, tal como é próprio da autora. Os textos não diferem da orientação geral da ficção de Clarice Lispector. Ela pratica a exacerbação do momento interior dos personagens, a ponto de a própria subjetividade entrar em crise. O espírito deles viaja nas asas da memória e da autoanálise. Não se trata, porém, de sondagens psicológicas sentimentais egocêntricas. A inquietação íntima dos personagens se concentra na busca da própria identificação num cotidiano monótono e vazio. As camadas mais profundas da consciência humana são removidas pela autora em busca do significado da existência. Há portanto o encontro da psicologia com a metafísica: conhecer-se para ser. Clarice Lispector emprega o processo narrativo do fluxo da consciência, que é o rompimento dos limites de espaço e de tempo. O pensamento fica solto. Pequenos fatos exteriores provocam uma longa viagem abstrata das ideias, sem se basear numa estrutura sequencial da narração. Ela faz os personagens viverem o processo chamado de epifania, ou seja, revelação. Em outras palavras, de repente, diante de ocorrências mínimas, o personagem se descobre e vê revelada uma realidade mais profunda. Muitas vezes, ele mesmo não consegue perceber com clareza que realidade é essa, porém sua vida ou sua visão mudam. Exemplos dessas situações epifânicas: a menina que se torna amante do livro; os dois amigos que se separam para avivarem a amizade sincera; o menino míope que descobre a paixão no amor; a menina que se sente valorizada quando o folião lhe entorna confete na cabeça; a mulher que percebe sua real situação pisando num rato morto; a menina ruiva que sente o peso da solidão quando o cachorro se vai; a contemplação de um ovo que faz a narrador refletir sobre o mistério profundo da vida; a menina formal que se vê criança diante de um pintinho e reage matando-o; a mulher que, olhando o dente quebrado, confirma a falta de sentido da vida; a visão do inseto esperança que leva a mulher a se questionar sobre o nada; a macaquinha que induz o filho a perceber seu amor pela mãe; a menina que faz o professor sorrir e, assim, descobre sua falta de importância; a criada que é oportunidade de a patroa entender um ser humano; os adolescentes que diante da casa velha concluem não serem pessoas especiais; o menino que se descobre homem ao beijar a estátua da mulher-chafariz... Os voos metafísicos de Clarice Lispector partem, geralmente, de cenas domésticas ou, na visão estereotipada masculina, sem importância. Sua condição de mulher a faz muito sensível aos problemas das pessoas carentes. A marca registrada de seus personagens é serem tipos sem relevância aos olhos da sociedade (meninas, velhas, adolescentes) mas ricos em sua interioridade. Ainda integra a característica de mulher-autora a visão do nascimento da mulher na menina. São numerosas as personagens-meninas que, de uma forma ou de outra, se tornam adultas a partir de experiências aparentemente corriqueiras. Toda essa exaustiva pesquisa do interior do ser humano a subjetividade procurando se orientar envolvida pela objetividade pode passar despercebida ao leitor desatento. Isso porque os textos são muito pobres de fatos, aliás, propositalmente pobres. Cenas comuns, desenhadas sem rebuscamentos, mas com bastante precisão de detalhes, podem esconder a profundidade do conteúdo analítico. As palavras não são raras, os aspectos descritos e narrados parecem irrelevantes, a sintaxe não se complica. O campo da linguagem fica livre para o leitor acompanhar os pensamentos que movem as intenções dos personagens à procura de se ajustarem com eles mesmos. ENREDOS

28 FELICIDADE CLANDESTINA A narradora recorda sua infância no Recife. Ela gostava de ler. Sua situação financeira não era suficiente para comprar livros. Por isso, ela vivia pedindo-os emprestados a uma colega filha de dono de livraria. Essa colega não valorizava a leitura e inconscientemente se sentia inferior às outras, sobretudo à narradora. Certo dia, a filha do livreiro informou à narradora que podia emprestar-lhe As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, mas que fosse buscá-lo em casa. A menina passou a sonhar com o livro. Mal sabia a ingênua menina que a colega queria vingar-se: todos os dias, invariavelmente, ela passava na casa e o livro não aparecia, sob a alegação de que já fora emprestado. Esse suplício durou muito tempo. Até que, certo dia, a mãe da colega cruel interveio na conversa das duas e percebeu a atitude da filha; então, emprestou o livro à sonhadora por tanto tempo quanto desejasse. Essa foi a felicidade clandestina da menina. Fazia questão de esquecer que estava com o livro para depois ter a surpresa de achálo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante. UMA AMIZADE SINCERA O narrador conheceu um colega de escola no último ano de estudo. Desde então, tornaram-se amigos inseparáveis. Quando não estavam conversando pessoalmente, falavam-se pelo telefone. A partir de certo momento, os assuntos começaram a faltar. Às vezes, marcavam encontro e, juntos, não tinham sobre o que conversar. Calados, logo logo se despediam e, ao chegar cada qual em sua casa, a solidão batia mais forte. A família do narrador mudou-se para S. Paulo e ele, então, ficou no apartamento dos pais. O amigo morava sozinho, pois seus parentes ficaram no Piauí. A convite do outro, dividiram o mesmo apartamento. Ficaram alegres, porém instalou-se a falta de assunto. Só tinham amizade e mais nada. Tentaram organizar umas farras no apartamento, contudo a vizinhança reclamou. As férias foram angustiantes. A solidão de um ao lado do outro era incômoda demais. Quando o amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura, o narrador fez disso pretexto para uma intensa movimentação, assumiu cuidar de toda a documentação exigida. No fim do dia os dois tinham assunto, pois exageravam as palavras no comentário de detalhes de pouca importância. Foi então que o narrador entendeu por que os namorados se presenteiam, por que marido e mulher cuidam um do outro e por que as mães multiplicam o zelo pelos filhos. É para terem oportunidade de ceder a alma um ao outro. Resolvida a questão com a Prefeitura, os dois arrumaram falsas justificativas de viajarem sós para estar com as respectivas famílias. Sabiam que nunca mais se reveriam. Mais que isso conclui o narrador que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros. MIOPIA PROGRESSIVA O menino era tido como inteligente e astuto em casa. O que ele dizia provocava olhares mútuos de confirmação de sua superioridade. Então ele começou a compreender que dependia dele a boa convivência dos membros da família. Quando não era ele o centro das atenções, eles se desentendiam. Para apoderar-se da chave de sua inteligência, o menino costumava repetir seus ditos; mas ninguém prestava mais atenção. Essa instabilidade dos familiares passou para ele, que adquiriu, então, um hábito mantido o resto da vida: pestanejava e franzia o nariz, deslocando os óculos que usava por causa da miopia. Toda vez que desenvolvia esse cacoete, era sinal de que estava interiormente tendo noção de sua instabilidade. Certa vez, disseram-lhe que passaria o dia inteiro na casa de uma prima casada, sem filhos, que adorava crianças. Ali, pressentiu ele, não haveria instabilidade: o tempo todo seria julgado o mesmo menino. Na semana que antecedeu a esperada visita, a cabeça do menino ferveu: como se apresentaria diante da prima? Inteligente? Bem comportado? Quem sabe até como palhaço? Triste talvez? Sentia até aperto no estômago quando antecipava a situação de que ia ser amado sem seleção, sem escolha, o que representava uma estabilidade ameaçadora. Aos poucos, suas preocupações passaram a ser outras: que elementos ele daria à prima para ela ter certeza de quem ele era? Como encararia o amor que ela nutria por ele? Ao entrar na casa da prima, duas surpresas o desnortearam (ele se desnorteava com surpresas): a prima tinha um dente de ouro no lado esquerdo da boca; ela o recebeu com naturalidade, sem evidenciar amá-lo. Já que suas previsões foram por terra, resolveu brincar de não ser nada. No entanto, à medida que o dia avançava, o amor da prima se evidenciou. Era um amor sem gravidez: ela queria que ele tivesse nascido dela; por isso demonstrava o amor estável, a estabilidade do desejo irrealizável. Amor que incluía paixão, a paixão pelo impossível. Quando o menino descobriu o ingrediente da paixão no amor, ele perdeu a miopia e viu o mundo claramente. Foi como se ele tivesse tirado os óculos e a própria miopia o fizesse enxergar. Desde então, talvez, ele adquiriu o novo hábito de tirar os óculos a pretexto de limpá-los e, sem óculos, fitava o interlocutor com uma fixidez reverberada de cego. RESTOS DO CARNAVAL

29 A menininha de Recife gostava de carnaval. Entretanto, a atenção da família se concentrava na doença da mãe; por isso, se permitia pouca participação da menina na folia: ficava até onze horas da noite, ao pé da escada do sobrado onde morava, olhando os outros se divertirem. Passava o carnaval inteiro economizando o lança-perfume e o saco de confetes que ganhava. Ela não se fantasiava; porém, cheia de felicidade, se assustava com os mascarados e até conversava com alguns deles. Aos oito anos, houve um carnaval diferente. A mãe de uma amiguinha fantasiou a filha de rosa, usando papel crepom; com as sobras, fez a mesma fantasia para ela. Os cabelos ficariam enrolados e lhe passariam baton e rouge. Desde cedo, ela viveu a expectativa do momento de vestir a fantasia; a euforia era tanta que até superou o orgulho ferido de ganhar um presente porque sobrou papel. Quase na hora de ser fantasiada, a mãe dela subitamente piorou de saúde. Coube à menina, sem os cabelos enrolados e sem maquiagem, correr pela rua para buscar remédio. Mais tarde, acalmada a crise da mãe, ela saiu com a fantasia completa, contudo o encantamento já não existia mais. Como poderia ela se divertir, se a mãe estava mal? Só horas depois veio a compensação: um garoto de doze anos encheu a cabeça dela de confetes. Considerei pelo resto da noite que alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa. O GRANDE PASSEIO Uma velhinha pobre andava pelas ruas. Era apelidada de Mocinha. Havia sido casada, tivera dois filhos: todos morreram e ela ficou sozinha. Depois de dormir em vários lugares, Mocinha acabou, não se sabia por que, passando a dormir sempre nos fundos de uma casa grande no bairro Botafogo. Cedinho ela saía passeando. Na maior parte do tempo, a família moradora da casa se esquecia dela. Certo dia, a família achou que Mocinha já estava lá por muito tempo. Resolveram levá-la para Petrópolis, entregá-la na casa de uma cunhada alemã. Um filho da casa, com a namorada e as duas irmãs, foi passar um fim-de-semana lá e levou Mocinha. Na noite anterior, a velhinha não dormiu, ansiosa por causa do passeio e da mudança de vida. Como se fossem flashes descontínuos, vinham-lhe à cabeça pedaços de recordações de sua vida no Maranhão: a morte do filho Rafael atropelado por um bonde; a morte da filha Maria Rosa, de parto; o marido, contínuo de uma repartição, sempre em manga de camisa ela não conseguia se lembrar do paletó... Só conseguiu dormir de madrugada. Acordaram-na cedo e a acomodaram no carro. A viagem transcorreu para Mocinha entre cochilos e novos flashes de memória com cenas entrecortadas da vida passada. Foi deixada perto da casa do irmão do rapaz que dirigia, Arnaldo; indicaram-lhe o caminho e recomendaram que dissesse que não podia mais ficar na outra casa, que Arnaldo a recebesse, que ela poderia até tomar conta do filho... A alemã, mulher de Arnaldo, estava dando comida ao filho; deixou Mocinha sentada sem lhe oferecer alimento, aguardando o marido. Este veio, confabulou com a mulher e disse a Mocinha que não poderia ficar com ela. Deu-lhe um pouco de dinheiro para que tomasse um trem e voltasse para a casa de Botafogo. Ela agradeceu e saiu pela rua. Parou para tomar um pouco de água num chafariz e continuou andando, sentindo um peso no estômago e alguns reflexos pelo corpo, como se fossem luzes. A estrada subia muito. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco de árvore e morreu. COME, MEU FILHO A mãe dá comida ao filho Paulinho e ele fica puxando conversa para evitar ter que comer. Os assuntos que ele traz são desconexos, simples pretextos para não comer. Por exemplo: o mundo é chato e não redondo; o pepino parece inreal, faz barulho de vidro quando a gente mastiga; quem teria inventado o feijão com arroz; o sorvete é bom quando o gosto é igual à cor... A mãe, paciente, vai respondendo laconicamente e insistindo em que Paulinho não converse tanto e coma. No fim, ele pergunta se é verdade que adivinhou que ela o olha daquele jeito não é para ele comer, mas porque gosta dele. A mãe diz que ele adivinhou sim, mas torna a insistir em que ele coma. Paulinho retruca: Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece. PERDOANDO DEUS Andando pela Avenida Copacabana, a narradora teve uma sensação inédita: sentiu-se a mãe de Deus, o qual era a própria Terra, o mundo. Teve um carinho maternal por Deus. Foi quando ela pisou num rato morto. Encheu-se de susto e pavor como uma criança. Então revoltou-se contra Deus. Por que num momento de tanta beleza interior ela tinha topado exatamente com um rato? Teve vontade de negar que Deus existisse como Deus... Mas percebeu que esse pensamento é a vingança dos fracos quando tomam consciência de sua fraqueza.

30 Concluiu que a sensação tão solene que tivera era falsa, estivera amando um mundo que não existe ( no fundo eu quero amar o que eu amaria e não o que é. E porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele.(...) Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza? ) Finalmente, ficou esclarecido na mente dela que estava querendo amar a um Deus só porque ela não se aceitava. Ela estaria amando um Deus que seria seu contraste, esse Deus seria apenas um modo de ela se acusar. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe. TENTAÇÃO À tarde, sentada nos degraus de uma escada, em rua deserta do Grajaú, a menininha pobre, ruiva, solitária estava com um soluço seco a incomodá-la. Nisso, veio passando um cachorro basset ruivo. Parou diante da menina, sem latir. Fitaram-se mudamente. Sem emitir som, eles se pediam: um solucionaria o problema de solidão do outro. O cachorro foi embora. Incrédula, os olhos da menina acompanharam-no até vê-lo dobrar a outra esquina. Mas ele foi mais forte do que ela. Nem uma só vez olhou para trás. O OVO E A GALINHA O ovo é a própria existência real, objetiva, em si mesma. A galinha é nossa visão de vida interior; ela só existe por causa do ovo. Sem o ovo, a galinha não tem sentido. Ela é o meio de transporte para o ovo, tonta, desocupada e míope. O ovo é sempre o mesmo, isto é, a vida; a galinha é sempre a tragédia de cada época. O ovo tem sua forma definida; a galinha continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha.(...) O seu destino é o ovo, a sua vida pessoal não nos interessa. A galinha prejudicial ao ovo é aquela que só pensa em si, que não quer sacrificar sua vida. Os homens são os agentes da vida. Os que têm amor são os que participam um pouco mais da vida. Mas, como o amor é a desilusão de tudo o mais, poucos amam, porque a maioria não suporta perder as outras ilusões. Inclusive amor é a desilusão do que se pensava que era amor. Os homens existem para que o ovo se faça. Aqueles que não entendem isso, suicidam-se ou são eliminados. Estes não entendem o nosso mistério: somos apenas um meio e não um fim. Os que não aceitam o mistério procuram eliminar os que o aceitam. Então eles mandam que estes falem. Enquanto falam, o ovo é esquecido. CEM ANOS DE PERDÃO A menina e sua colega olhavam para os palacetes e disputavam a posse imaginária deles. Um dia, a menina viu uma rosa e apanhou-a, tomando cuidado para não ser vista. Enquanto ela colhia as rosas a fim de levar para casa, a colega vigiava. As duas, usando dessa estratégia uma colhia, a outra vigiava passaram a furtar rosas com frequência. Além de rosas, furtavam também pitangas. Ladrão de rosas e pitangas têm cem anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem pra ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens. A LEGIÃO ESTRANGEIRA A narradora recebeu, às vésperas do Natal, um pinto de presente, vindo de uma família que fora vizinha dela e sumira inexplicavelmente. Então, ela se lembrou de Ofélia, a filha de oito anos dessa família. Eram pessoas que bloqueavam qualquer intimidade. Mas Ofélia adquiriu o hábito de visitar a narradora todos os dias. Enquanto esta ficava à máquina de escrever, trabalhando em sua profissão de copiar o arquivo de um escritório, Ofélia sentava-se, olhava para ela e dava conselhos, muito formal, como se fosse uma adulta cheia de sabedoria. A narradora ouvia, dificilmente falava, sempre a última palavra era da menina, numa postura antipática. Certo dia, a narradora comprou na feira um pinto para os filhos, ainda pequenos, brincarem. Quando Ofélia chegou para a visita habitual, ouviu o piar do pinto, pediu para vê-lo e pegá-lo. Nesse instante, perdeu a pose de adulta e se tornou uma criança brincando com o pintinho. Depois deixou-o na cozinha, despediu-se e voltou para a casa dela. Seguindo uma intuição, a narradora, logo após a saída da menina, foi à cozinha e encontrou o pinto morto. O pinto recebido hoje estremece embaixo da mesa. Como na Páscoa nos é prometido, em dezembro ele volta. Ofélia é que não voltou: cresceu. Foi ser a princesa hindu por quem no deserto sua tribo esperava. OS OBEDIENTES

31 Um casal viveu muitos anos junto. Sua harmonia conjugal era aparentemente perfeita. Mas não tinham emoções. Cumpriam com perfeição a rotina, totalmente obedientes ao que se convencionou chamar de realidade de um casal, inclusive quanto à fidelidade. Nem individualmente nem em comum faziam ou diziam algo de inconveniente. Já ultrapassada a idade de 50 anos, ambos começaram a ter alguns sonhos. Cada um pensava timidamente em seu interior sem falar: ele imaginava que muitas aventuras amorosas significariam vida; ela, que outro homem a salvaria. Certo dia, ela estava comendo uma maçã e sentiu quebrar-se um dente da frente. Olhou-se no espelho do banheiro, viu uma cara pálida, de meia-idade, com um dente quebrado, e os próprios olhos... Então, jogou-se pela janela. O marido continuou existindo; seco inesperadamente o leito do rio, andava perplexo e sem perigo sobre o fundo com uma lepidez de quem vai cair de bruços mais adiante. A REPARTIÇÃO DOS PÃES Os convidados para um almoço de sábado compareceram à casa da anfitriã. Todos vieram por obrigação. Ficaram constrangidos e incomunicáveis antes de serem convidados para a sala do almoço, considerando a anfitriã uma ingênua, por tirar cada um da sua maneira própria de viver o sábado. Quando, porém, os convidados entraram na sala do almoço, surpreenderam-se com o requinte da refeição: uma quantidade excessiva de legumes e frutas, leite, vinho! Todos comeram em nome de nada, era hora de comer e, à medida que comiam, veio a fome. Estabeleceu-se uma cordialidade rude: ninguém falou de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. A comida dizia: come, come e reparte. Assim se expressa a narradora: Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E termina: Nós somos fortes e comemos. Pão é amor entre estranhos. UMA ESPERANÇA Uma esperança um inseto que se chama esperança pousou na parede da casa da narradora. Ela e os filhos ficaram observando a esperança andar, sem voar ( Ela esqueceu que pode voar, mamãe. ) Uma aranha saiu de trás do quadro e avançou em direção à esperança. Embora dê azar matar aranha, ela foi morta por um dos filhos. A narradora se espanta de não ter pego a esperança, ela que gosta de pegar nas coisas. Lembrou-se de certa vez que uma esperança pousou no seu braço. Em verdade nada fiz. Fiquei extremamente quieta como se uma flor tivesse nascido em mim. Depois não me lembro mais o que aconteceu. E, acho que não aconteceu nada. MACACOS Perto do Ano-Novo, a família ganhou um mico de presente. Era um macacão ainda não crescido, que não dava sossego a ninguém. A dona da casa-narradora estava exausta. Uma amiga entendeu o sofrimento dela e chamou uns meninos do morro. Eles levaram o macaco. Um ano depois, a narradora comprou uma macaquinha nas mãos de um vendedor em Copacabana. Era delicada e recebeu o nome de Lisette. Vestiram-na de mulher e ela encantava a todos. Três dias depois, Lisette estava na área de serviço sendo admirada pela família. Ela encantava sobretudo pela doçura. Só que não era doçura, era a morte chegando. Levaram-na rapidamente para o veterinário, enfrentando um trânsito difícil. Ela estava tendo falta de oxigênio. Deixaram-na na clínica. No dia seguinte, morreu. Uma semana depois, o filho mais velho disse para a mãe: Você parece tanto com Lisette! Eu também gosto de você, respondi. OS DESASTRES DE SOFIA A narradora recorda o que lhe aconteceu quando tinha nove anos. Ela gostava do professor gordo, grande, silencioso, feio. Era atraída por ele. Mas infernizava as aulas. A menina fazia este jogo: amava-o atormentando-o. Não estudava nem aprendia nada. Um dia, o professor deu como tema de redação uma história em que certo homem pobre saiu atrás de um tesouro e não conseguiu encontrá-lo. Então ele voltou para sua casinha e começou a plantar no seu diminuto quintal. Tanto plantou, tanto colheu, tanto vendeu, que ficou rico. A menina fez um redação rápida, doida para ir correr no pátio do colégio que era enorme, cheio de árvores. No final da composição ela tirou uma lição de moral oposta ao espírito da história: há um tesouro disfarçado, que está onde menos se espera. Entregou logo o caderno e foi correr no pátio. Mas, certo tempo depois, ela se lembrou de ir procurar algo que estava na sala. Lá ele encontrou o

32 professor sozinho. Pela primeira vez, ficou frente a frente com ele, paralisada de medo e de confusão nos seus sentimentos. O professor mandou que apanhasse o caderno e ela não conseguiu, tamanha foi a sua perturbação. Pela primeira vez, ele riu e disse que ela era engraçada e doidinha: onde tinha tirado aquela ideia de tesouro disfarçado? A redação estava bonita. A menina teve a sensação de ele ter-se deixado enganar : havia acreditado nela. Pensou que um homem adulto acreditava, como ela, nas grandes mentiras. Sem pegar o caderno, a menina voltou correndo para o recreio e correu tanto no parque até ficar exausta. Era uma maneira quase desesperada de se defrontar com a perturbação que a tomou. Naquele momento, perdeu a fé nos adultos, pois acreditava na sua futura bondade, superando a fase má infantil. No entanto, o amargo ídolo havia caído na armadilha de uma criança safadinha, confusa, sem candura; deixara-se guiar pela sua diabólica inocência... Quem sabe ele estaria pensando que ela era um tesouro disfarçado? O professor agora destruía meu amor por ele e por mim (...) Aquele homem também era eu. A menina foi subitamente forçada a amadurecer, a descobrir que ela conseguira atingir o coração do professor. E foi assim que no grande parque do colégio lentamente comecei a aprender a ser amada, suportando o sacrifício de não merecer, apenas para suavizar a dor de quem ama. A CRIADA Eremita era uma empregada doméstica que nada mais apresentava a não ser o perfil de um criada: nem bonita nem feia, cumpria seus deveres sem competência e sem desleixo; mas, por trás da figura-padrão e das frases convencionais pronunciadas convencionalmente, escondia-se um mundo interior indecifrável para qualquer pessoa, inclusive para ela mesma. De vez em quando, se interiorizava, se desligava; quando retornava desse passeio por sua floresta íntima, estava mais calma e ia consolidando a sua doçura próxima das lágrimas. Nada em Eremita denunciava perigo, a não ser uma maneira rápida de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecia sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera em suas florestas. A MENSAGEM Um rapaz de dezesseis anos e uma moça de dezessete, colegas de escola sem amizade, um dia se sentiram ligados um ao outro porque ela disse que sentia angústia e ele também. A partir de então se tornaram íntimos. Intimidade que não significava sexo nem amor. Eles se sentiram ligados porque ambos queriam ser autênticos, sinceros, diferentes dos outros. Não se viam como homem e mulher, mas como dois seres angustiados, à procura de algo que eles não sabiam o que fosse. Vagamente, confusamente, achavam-se portadores de uma mensagem. Mas o que era isso? Saindo do colégio no último dia letivo, os dois caminhavam numa rua próxima do Cemitério S. João Batista, no Rio. A calçada era estreita e os ônibus passavam rentes. De repente, os dois se viram colados a uma casa velha. Pararam diante dela, olharam para a fachada. Em seu íntimo cada um foi se descobrindo ali, parados: ele era apenas um rapaz e ela, uma moça. Não tinham mais o que se dizer e por que continuarem juntos. Ela despediu-se, correu para um ônibus que estava parado. Entrou subindo como se fosse um macaco, pensou ele, vendo-a acomodarse lá dentro. A moça saíra envergonhada por se sentir mulher; o rapaz tinha acabado de nascer homem. Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para quê? (...) para não esquecer que eram feitos da mesma carne, essa carne podre da qual, ao subir no ônibus, como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal. O que estava acontecendo a ele naquele momento em que viu a moça entrar no ônibus daquele jeito? Nada! Apenas um instante de fraqueza e vacilação. Só que agora ele se sentia fraco para resistir ao que os outros tentavam ensinar-lhe para ser homem. Mas e a mensagem?! a mensagem esfarelada na poeira que o vento arrastava para as grades do esgoto. Mamãe, disse ele. MENINO A BICO DE PENA Um menino, que ainda não fala nem anda direito, está sentado no chão. Tenta dar alguns passos, cai; engatinha, baba. Depois a mãe o toma no colo, o faz dormir, troca a fralda dele e o ouve dar os primeiros sinais da fala. UMA HISTÓRIA DE TANTO AMOR Uma menina de Minas Gerais tinha duas galinhas, Pedrina e Petronilha. Cuidava delas como se fossem pessoas. Certa vez, foi passar o dia fora e, quando voltou, Petronilha tinha sido comida pela família. Ficou contrariada. Mas a mãe lhe disse que foi pena as duas ela e a filha não terem comido algum pedaço de Petronilha, pois, quando a gente come os bichos, eles ficam parecidos com a gente, assim dentro de nós. Pedrina morreu naturalmente. Morte apressada pela menina que, ao vê-la doente, colocou-a embrulhada num pano escuro, em cima de um fogão de tijolos.

33 Um pouco maiorzinha, a menina teve outra galinha, a Eponina. Esta foi comida ao molho pardo por toda a família, inclusive pela menina que, embora sem fome, quis que Eponina se incorporasse nela e se tornasse mais dela morta do que em vida. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens. AS ÁGUAS DO MUNDO Às seis horas da manhã, a mulher entra no mar: este, o mais ininteligível das existências não humanas; ela, o mais ininteligível dos seres vivos. Ela vai entrando, cumprindo uma coragem. Avançando, abre o mar pelo meio. Ela brinca com a água. Com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes. E era isso o que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma. Mergulha de novo, de novo bebe mais água. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, não recebe transmissões. Depois caminha na água e volta à praia. Agora, pisa na areia. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de um náufrago. Porque sabe sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano. A QUINTA HISTÓRIA A narradora conta que se queixou a uma vizinha de que subiam no seu apartamento as baratas que vinham do térreo. Então a vizinha lhe deu a seguinte receita para matar as baratas: misturar em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de-dentro delas. Assim foi feito e as baratas morreram. Então a narradora conta a mesma história com cinco versões: Como matar baratas (exatamente a história acima); O Assassinato ( em que são acrescentados pormenores do estado de espírito rancoroso da narradora); Estátuas (em que se destaca a visão das baratas mortas); na quarta versão, a narradora opta por dedetizar a casa; a quinta história só tem o título: Leibnitz e a Transcendência do Amor na Polinésia. ENCARNAÇÃO INVOLUNTÁRIA A narradora tem o hábito de, quando vê uma pessoa que nunca viu, observá-la e encarnar-se nela, para poder conhecê-la. Certa vez, num avião encarnou-se numa missionária. Durante toda a viagem e alguns dias em terra, assumiu o ar de sofrimentosuperado-pela-paz-de-se-ter-uma missão. A narradora levanta a hipótese de nunca ter sido ela mesma senão no momento de nascer, e o resto tinha sido encarnações. Depois ela afirma que não, que ela é uma pessoa. E quando o fantasma de mim mesmo me toma então é um encontro de alegria, uma tal festa, que a modo de dizer choramos uma no ombro da outra. Uma vez, também em viagem, ela encontrou uma prostituta perfumadíssima que fumava entrefechando o olhos e estes ao mesmo tempo olhavam um homem que já estava sendo hipnotizado. Então, a narradora fez o mesmo. Mas o homem gordo que eu olhava para experimentar e ter a alma da prostituta, o gordo estava mergulhado no New York Times. E meu perfume era discreto demais. Falhou tudo. DUAS HISTÓRIAS A MEU MODO A narradora relembra duas histórias, que ela escrevera para se divertir, dando ao autor imaginário o nome de Marcel Aymé. Félicien era um vinicultor francês que produzia o melhor vinho da região, mas não gostava de vinho. Ele e a mulher Leontina escondiam de todos esse fato. Félicien costumava até fingir-se de alcoolizado para esconder que não bebia vinho. Outra história: Etienne Duvilé, funcionário estadual em Paris, gostava de vinho, mas não o tinha. Sua realidade era uma família grande que sonhava com mesa farta e ele, com vinho. Depois do sonho de uma noite de sábado, a sede de vinho piorou. Ele passou, acordado, a querer não só beber vinho mas beber todo o mundo. Até hoje ele está internado num hospício, tratado com água mineral que estanca sedes pequenas e não a grande. O PRIMEIRO BEIJO Um rapaz conta para sua namorada que já havia beijado outra mulher. Numa excursão de ônibus escolar, ele estava com muita sede. Quando houve uma parada perto de um chafariz, ele foi o primeiro a chegar para beber. Colou a boca no orifício de onde jorrava a água. Depois que se saciou, abriu os olhos e viu que o orifício era a boca de uma estátua de mulher nua. Afastou-se, ficou olhando para a estátua. Fora seu primeiro beijo. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva. (...) Ele se tornara um homem.

34 9) Anjo Negro, de Nelson Rodrigues Anjo Negro, peça teatral de Nelson Rodrigues, foi escrita em O autor ao perceber o preconceito de que o negro é alvo na sociedade brasileira e a existência de preconceito no negro em relação a outro da mesma cor, resolveu escrevê-la. Naquela época, o Brasil encontrava-se em um período de grandes modificações na organização do estado brasileiro, saindo de um período de bastante restrição ideológica e entrando num período onde reinava a esperança em um país desenvolvido e livre. Tem-se uma modificação evidente, um período conturbado na esfera social, modificações na maneira de governar. Um outra razão de Nelson Rodrigues escrever Anjo Negro foi porque achava um absurdo o negro ser representando no teatro apenas como o moleque gaiato das comédias de costumes ou por tipos folclorizados. Por isso, criou um personagem Ismael de classe média, inteligente, mas também com paixões e ódios, ou seja, um homem, com dignidade dramática, enredado em situações proféticas e míticas. O autor, em várias ocasiões, afirma ter escrito o personagem para seu amigo Abdias representar, pois, segundo ele, era o único negro do Brasil. O protagonista de Anjo negro, Ismael, é audacioso, Nelson não faz concessões. Sem paternalismo, concebe um personagem na contramão dos personagens negros que geralmente se conhece: não é moleque, malandro ou empregado subalterno, trata-se aqui de um homem cheio de ressentimentos e paixões, mas também de orgulho e sensibilidade, um vencedor, bem-sucedido, arquiteto do seu destino. A questão racial é tratada de forma radical. Numa sociedade dominada pelo branco, a única estratégia possível de inserção é a adoção da ética branca, dominadora e autoritária. Repudiando sua cor e origem, Ismael desfruta dos privilégios do branco: dinheiro, status, prestígio e uma mulher também branca. A peça é apresentada em três atos. Em sua primeira encenação o cenário apresentou-se sem nenhum caráter realista: um pequeno caixão de seda branca ocupava o andar térreo da casa onde dez senhoras pretas se postaram em semicírculo e formaram um coro, como no teatro grego. No segundo andar, duas camas, uma delas quebrada, ajudavam a compor o cenário. No primeiro andar, Ismael, o negro que representa o anjo, vestia um terno branco, engomadíssimo, e calçava sapatos de verniz. No andar de cima, Virgínia, sua esposa, branca, trajava luto. A casa não tem teto, para que a noite possa entrar e possuir os moradores. Ao fundo, grandes muros que crescem à medida que aumenta a solidão do negro (p.125). É nesse cenário que se inscreve o drama, que também reproduziu cenas da infância do autor em Aldeia Campestre, Rio de Janeiro, onde morou. Quando criança, Nelson não perdia velórios. O drama humano o instigava: ora curioso por capturar o desespero de mães que choravam a perda dos filhos, ora curioso para perceber a sinceridade ou não das viúvas que choravam a morte dos maridos. O espaço onde, concentradamente, desenrola-se Anjo Negro é, pois, um espaço marcadamente diferenciado. A entrada de pessoas no lar é completamente restrita e coordenada pelo dono, o negro, o anjo negro, Ismael. Brancos não podiam se aproximar. Na trama de Anjo Negro, pulula a violência, nas suas mais diversas formas, das mais variadas naturezas, em constantes situações. As personagens são violentas entre si, sofrem a violência, vivem-na. Há vinganças recíprocas e intermináveis. Há ódio dissimulado no amor. Amor dissimulado no ódio. Ou somente um desejo, que gera violência. A história de Anjo Negro apresenta-se, assim, como uma rede truncada de muita violência. Apesar de ser formalmente bem mais semelhante à tragédia clássica, é difícil organizar Anjo Negro dentro dos padrões trágicos. Ismael também é movido por amor, e esse exagero de amor o faz incorrer em erros ainda mais graves, como o assassinato da filha; mas seu maior erro é o preconceito com sua cor. Se tratar-se Virgínia como heroína, teríamos uma estrutura semelhante à de seu marido; seu erro seria o mesmo, é o preconceito da cor, mas depois do casamento, ele se torna repugnante a ela que, por ódio, mata seus filhos. Mas eles não cometem seus erros sem ter consciência de que os estão cometendo, é eticamente inadequado discriminar alguém por sua cor e eles sabem disso; contudo é difícil considerá-los personagens maus, por que a sociedade em que estão inseridos é fortemente racista o que quase os impele para o erro. Então volta-se a ter o dilaceramento entre o individual e o social. O indivíduo, no caso Ismael, sabe que tem a mesma capacidade que os brancos, mas a sociedade não acredita nisso. Ismael se embate nesse conflito e para provar que é capaz, se forma em medicina, mas para se valorizar não busca a valorização de sua cor, mas a negação dela; ele passa a sentir branco e agir como tal discriminando os negros; desta forma ele nega o individual para dar lugar ao social. Essa estrutura formal provoca um estranhamento grande, pois não se formam duas forças de igual valor moral; uma é o funcionamento normal e equivocado da sociedade; outro é a valorização de uma cor tão boa quanto todas as outras. O destaque que Ismael recebe também reforça esse estranhamento, mostra o quanto ele é capaz, mas mesmo assim discriminado por ser negro. A presença do coro de mulheres negras que amaldiçoam o negro que casou com a branca também mostra que há discriminação pelos dois lados, as duas cores tentam desvalorizar a outra a fim de valorizar a sua, isso fica evidente quando o coro afirma que Virgínia tem o útero fraco. Todavia, Nelson Rodrigues usa muitos aspectos formais clássicos, como o uso do coro, com a função de trazer para o palco a opinião do senso comum sobre a situação apresentada; nesta peça ele é feito por um grupo de senhoras negras, como já visto, que rezam no velório dos filhos do casal. Também tem-se a perfeita unidade de espaço, só existe a casa de Ismael e Virgínia, não há mundo exterior. O tempo já é mais extenso, tem-se o nascimento e crescimento de Ana Maria, que não é totalmente apresentado, isso faz com que se perca também a unidade de ação; obviamente, sem que isso prejudique a qualidade da peça. A condição de Ismael enquanto homem superior é bastante delicada, ele é um excelente médico o que lhe garante grande prestígio social, também é esforçado, venceu por meio de seus próprios esforços às adversidades que a vida lhe trouxe, mas renegou a família e

35 faz de sua esposa uma prisioneira, além de ser cruel com todos à sua volta. Também não tem uma posição de liderança, ele só se impõe à esposa. Mas o seu erro também foi o motivo que lhe trouxe prestígio. Ele erra por ter vergonha de sua cor, mas ele também se esforça e vence na vida por isso mesmo. Ele quer compensar sua cor com qualidades que quase só os brancos têm neste momento histórico. Ele tem a trajetória do herói trágico, durante a peça, passa da fortuna ao infortúnio. Na morte do filho, no primeiro ato, ele é um homem de prestígio apesar de marcado pela tristeza da perda de todos os filhos. Já no final acabam só ele e a esposa partindo para uma morte em vida, após os dois terem matado seus filhos; ela, os meninos e ele, a menina. Virgínia, sua esposa, assassina por afogamento, um a um os filhos que trazem em si a marca da mestiçagem e odeia a filha, fruto do adultério com o cunhado Elias. Ela não quer que haja descendência do negro, seu marido. Ismael é testemunha dos crimes da mulher e acreditava que esses crimes os uniam ainda mais. Isso fica claro quando, próximo ao final da peça, Ismael diz a Virgínia saber ser ela a assassina dos filhos e que, mesmo assim, nada fez para impedir o ato. Ambos recusavam a mestiçagem, os traços negros na pele. Tal qual na tragédia grega, a maldição atinge a descendência. A mãe de Ismael o teria amaldiçoado por este repudiar a própria cor e ele a culpa por ser negro, problema que tentou disfarçar tornando-se um médico competente e rico. Acreditava que, alcançado status, poderia encobrir o fato de ter a pele negra. Ismael, por sua vez, rejeita sua cor. A inveja que sentia de seu irmão branco, de criação, Elias, leva-o a cegar Elias, ainda na infância, através de uma engendrada troca de remédios. É também pelas mãos de Ismael que Elias morre, num ato de vingança pela traição sofrida, uma vez que Elias cedeu à sedução de Virginia. A singularidade Ismael contrasta com a grande galeria de homens e mulheres rodriguianos, onde, em determinado momento da ação, os personagens retiram as máscaras e se apresentam, inesperadamente, na mais completa nudez psíquica. O que faz uma pessoa renegar a própria cor? Este é o questionamento rodrigueano expresso pela voz de Elias. Decidido a "se tornar branco", Ismael executa, com êxito e sem remorso, sua estratégia. Com formação superior, era um "médico de mão cheia, de muita competência, o melhor de todos"; casou-se com uma mulher branca e muita linda e renegou a mãe negra, causadora de sua desgraça. Vestia-se sempre de branco, impecável. Quando a peça começa, Virgínia e Ismael estão casados, tiveram três filhos negros, mas todos foram mortos por ela. Tendo sido violentada por Ismael, obrigada a se casar com ele e encarcerada dentro de casa, Virgínia aguarda o momento da vingança definitiva, gerar um filho branco. Enquanto transcorre o velório do terceiro filho, chega à casa Elias, o irmão de criação de Ismael, branco e cego, trazendo a maldição da mãe negra. Seduzido por Virgínia, Elias é em seguida morto por Ismael. Ela engravida e dá a luz uma menina branca. Ismael, durante meses, se debruça sobre o berço para que a menina não esqueça sua cor e, completando seu plano, um dia pinga ácido nos olhos dela, cegando-a. Assim, Ana Maria jamais saberia que o pai é negro. Pai e filha desenvolvem uma paixão desmedida. Ela acredita que o pai é branco e que todos os outros homens são negros e perversos. Dezessete anos depois, Ismael constrói um mausoléu para viver com a filha, onde nenhum desejo de branco pudesse alcançá-la, mas Virgínia enlouquece vendo-se substituída pela filha e consegue convencer Ismael a abandonar Ana Maria sozinha no túmulo de vidro. Juntos continuam, Virgínia e Ismael, a gerar filhos negros que serão mortos. O negro também cega, em bebê, Ana Maria, filha do único relacionamento entre Virginia e Elias, para que ela, impossibilitada de comprovar a verdade, acredite ser Ismael o único branco do mundo. Com isso, fomenta na enteada o amor e a admiração não alcançados com a esposa. Os três infanticídios, os dois cegamentos, o assassinato, a impressão de Virginia de estar sendo violentada ao ter relações sexuais com o marido, além do confinamento de Ana Maria num mausoléu engendrado por Virginia e Ismael ao final da peça delineiam a trama de Anjo Negro. Ismael não consegue disfarçar nem superar as contradições de um corpo marcado insistentemente pelo efeito da voz que, em seu ato complexo de vocação e invocação, reproduz o efeito do olhar, inscrito historicamente por um passado escravista. Paralisado, ele não consegue alçar à condição de desejante, sujeito este capaz de sustentar suas escolhas, com todas as particularidades que uma posição assim nos revela e nos exige em termos de renúncia. O que, na peça, é fadado ao silêncio? O que não pode ser mostrado e, ao mesmo tempo, é explicitado no texto? Nelson aponta para a problemática racial em que, certamente, se articulam os subsídios para uma teoria social do Brasil, onde se destaca a violência como fator de base dos fundamentos estruturais do modelo étnico-social brasileiro. A peça explicita a vivência de amor/ódio num casal inter-racial e a ambiguidade diante de sua linhagem mestiça. O estilo poético-realista de Nelson Rodrigues revela, de maneira perturbadora, temas adormecidos no inconsciente. Ele revolve esse universo profundo do espectador trazendo à consciência o recalcado e utiliza-se da tragédia para falar do racismo. Assim, remete-nos ao drama grego: a tragédia, pois somente o trágico daria conta de desvendar essa realidade brasileira relegada às trevas o racismo. Algo da ordem do trágico, tal qual é explicitado no drama grego, pode estar muito próximo de nós, se considerarmos que, enquanto humanos, vivenciamos as emoções que o perpassam. 10) Novas Diretrizes em Tempos de Paz Bosco Brasil Novas Diretrizes em Tempos de Paz é uma peça teatral escrita por Bosco Brasil. O texto, cuja ação se passa durante a ditadura de Getúlio Vargas, já no final da Segunda Guerra Mundial, narra a história de um judeu polonês, refugiado de guerra. Tentando conseguir seu visto de entrada no Brasil, acaba interrogado por um agente alfandegário e ex-torturador da polícia política de Vargas na sala de imigração do porto do Rio de Janeiro em abril de 1945, gerando um grande embate ideológico que discute a condição humana e os horrores do preconceito político e racial, onde cada oponente procura buscar e negar suas diversas identidades. Esta peça foi adaptada para o cinema em 2009 sob a direção de Daniel Filho e lançada no Brasil com o título Tempos de Paz.

36 Acho que vale a pena ler o texto completo (não é longo)

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