A efetividade das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos no Brasil

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1 IX Salão de Iniciação Científica PUCRS A efetividade das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos no Brasil Gabriela Bratkowski Pereira, Elias Grossmann (orientador) Faculdade de Direito, PUCRS Resumo O presente trabalho discorre sobre a efetividade das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Esta Corte é órgão integrante do Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos que, juntamente com o Sistema Europeu e o Sistema Africano de Proteção dos Direitos Humanos, formam o Sistema Internacional de Proteção dos Direitos Humanos no âmbito regional. O Sistema Interamericano tem funcionamento no domínio da Organização dos Estados Americanos e conta com dois órgãos de fiscalização e julgamento, intitulados Comissão Interamericana de Direitos Humanos e Corte Interamericana de Direitos Humanos, assim disposto na Convenção Americana de Direitos Humanos, instrumento de maior importância do Sistema Interamericano. A Comissão Interamericana é o órgão responsável pelos trâmites de denúncias individuais e pelo monitoramento do cumprimento das obrigações dos Estados-membros em matéria de Direitos Humanos. A Corte Interamericana, por sua vez, é o órgão jurisdicional do Sistema Interamericano, e exerce sua competência no plano consultivo, através de opiniões consultivas, e no plano contencioso, julgando os casos submetidos perante a mesma. O Brasil é signatário da Convenção Americana e aceitou a competência da Corte Interamericana em 1998, e desde então, foi julgado duas vezes perante a Corte, nos casos conhecidos como Damião Ximenes Lopes e Gilson Nogueira de Carvalho. No caso Damião Ximenes Lopes, o Brasil foi responsabilizado por violar os direitos à vida, à integridade pessoal, à proteção judicial e às garantias judiciais. Na sentença foi então condenado a pagar às vítimas, em caráter de indenização, valor de, aproximadamente, U$

2 ,00 (cento e vinte e cinco mil dólares americanos), além de a promover uma mudança no Sistema Único de Saúde. No caso Gilson Nogueira de Carvalho, o Brasil não foi responsabilizado por violar os direitos à vida, às garantias judiciais e à proteção judicial, visto não ter sido apresentado suporte fático suficiente para comprovar as alegações. Das mais de 150 sentenças proferidas pela Corte Interamericana desde sua criação até 28 de novembro de 2006, data da sentença, esta foi apenas a segunda sentença a eximir o Estado-réu das acusações. Observa-se que no caso Damião Ximenes Lopes o Brasil foi condenado ao pagamento de indenização, efetuado quase um ano após a sentença, e a promover alterações no Sistema Único de Saúde, através de programas de capacitação e formação de médicos, enfermeiros e outras pessoas envolvidas na área da saúde. No entanto, esta parte da sentença não foi cumprida até a presente data, colocando em questionamento a efetividade das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos, a qual se propõe estudar o presente trabalho. Introdução A internacionalização dos direitos humanos é um evento recente, ocorrido após a segunda guerra mundial, com o advento da Declaração Universal dos Direitos Humanos de Esta é uma temática de extrema importância, visto se tratar dos direitos mais básicos e necessários à vida do ser humano, especialmente em uma época como a em que vivemos, onde casos de desrespeito ao ser humano são cada vez mais comuns. De fato, a importância de tal tema exige que a responsabilidade de vigiar a observância dos direito humanos em dado território não seja exclusiva do Estado. Assim, surgem os sistemas internacionais de proteção, como garantia adicional quando o Estado se mostra omisso. Esta pesquisa teve a finalidade de analisar a abrangência da proteção internacional aos direitos humanos, em especial o Sistema Interamericano, e, através do exame dos casos em que o Brasil foi submetido à competência da Corte Internacional, verificar a sua efetividade. O estudo da Declaração Universal dos Direitos Humanos, no âmbito do Sistema Global, e da Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e da Convenção Americana de Direitos Humanos, no âmbito do Sistema Regional Interamericano, entre outros tratados e convenções importantes, se faz necessário para uma melhor compreensão da abrangência dos sistemas de proteção. A doutrina, por sua vez, traz grandes autores, em especial Antônio Augusto Cançado Trindade, que abrange os fundamentos da proteção e os instrumentos existentes em seu livro

3 A Proteção dos Direitos Humanos Fundamentos Jurídicos e Instrumentos Básicos 1, e que trata das normas internacionais frente ao direito interno no livro A incorporação das normas internacionais de proteção dos direitos humanos no direito brasileiro 2. Outro autor de grande importância doutrinária é Flávia Piovesan que, juntamente com Luiz Flávio Gomes, coordenou o livro O Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos e o Direito Brasileiro 3, que trata da formação e divisão do Sistema Interamericano, bem como seu impacto no direito brasileiro. Da mesma autora, o livro Direitos Humanos e Justiça Internacional 4, trata do crescente processo de justiça dos direitos humanos no âmbito internacional, em especial nos sistemas regionais. Ademais, se faz necessário, ainda, o estudo das sentenças proferidas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos em que o Brasil figurou como parte, como no caso Damião Ximenes Lopes, morto em 1999 em uma clínica de repouso no Ceará. Este caso foi submetido à corte pela Comissão Interamericana em outubro de 2004 para que fosse decidido se o estado brasileiro era responsável pela violação do direito à vida, à integridade pessoal, às garantias judiciais e à proteção judicial. E também do caso Gilson Nogueira de Carvalho, morto em outubro de 1996 no Rio Grande do Norte, também submetido pela Comissão para que se apurasse a responsabilidade do Estado na violação do direito às garantias judiciais e à proteção judicial. A análise aprofundada destas sentenças facilita a compreensão da teoria estudada anteriormente bem como o exame da sua aplicação na prática. Metodologia O presente estudo foi realizado através da leitura de diversos livros sobre os sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos e das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos referentes a dois casos de violação dos direitos humanos ocorridos no Brasil. Dessa forma, o método escolhido foi o monográfico, ou estudo de caso, ao analisar, primeiramente, os procedimentos adotados pelo Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos e, posteriormente, os casos. 1 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A Proteção dos Direitos Humanos Fundamentos Jurídicos e Instrumentos Básicos. São Paulo: Saraiva, TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A incorporação das normas internacionais de proteção dos direitos humanos no direito brasileiro. São José: IIDH, GOMES, Luiz Flávio (Coord.). O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e justiça internacional. São Paulo: Saraiva, 2006.

4 Resultados (ou Resultados e Discussão) Os resultados obtidos estão relacionados com os efeitos gerados pelas sentenças da Corte Interamericana, bem como com as mudanças sugeridas para que este sistema atinja maior nível de efetividade. Desse modo, entre os efeitos gerados pelas sentenças, percebeu-se que os Estados-réus em geral, cumprem a sentença no que tange ao pagamento das indenizações. Entretanto, a parte da sentença que objetiva alcançar alterações no ordenamento interno, evitando, assim, a reincidência de violações aos direitos humanos, muitas vezes não são cumpridas. Destarte, é de extrema importância que algumas mudanças ocorram no Sistema Interamericano, com a finalidade de dá-lo maior efetividade. Dentre as mudanças, vislumbrase a possibilidade de se dar pleno locus standi aos indivíduos na Corte Interamericana, que, hoje, aceita denúncias originadas dos Estados ou da Comissão, apenas. E, ainda, a criação de um órgão para fiscalizar o devido cumprimento das sentenças, nos moldes do que ocorre no Sistema Europeu. Conclusão Os sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos surgiram no pós-guerra e são, portanto, relativamente recentes, estando ainda em processo de desenvolvimento e consolidação. O Sistema Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos evoluiu consideravelmente desde sua criação e observa-se que suas decisões e opiniões consultivas têm gerado mudanças nas leis internas dos países signatários da Convenção Americana, inclusive no Brasil. No entanto, as sentenças proferidas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos não obtiveram o mesmo êxito, na medida em que os países, em geral, efetuam o pagamento da indenização devida, porém não efetuam as mudanças internas a que são condenados, parte importante da sentença, visto que impedem que outras violações venham a ocorrer. Diversas são as mudanças sugeridas, e mesmo intentadas por renomados juristas, com o objetivo de dar maior eficácia ao Sistema Interamericano. A garantia de pleno locus standi aos indivíduos, que não mais precisariam que a Comissão Interamericana ou o Estado-parte promovesse ação perante a Corte Interamericana, daria maior legitimidade ao sistema.

5 Da mesma forma, no que tange as sentenças da Corte Interamericana, a criação de um órgão responsável pela fiscalização da execução das sentenças poderia garantir a efetividade buscada pelas vítimas, que teriam o seu direito garantido de fato e não apenas declarado, como, por vezes, ocorre. Referências GOMES, Luiz Flávio (Coord.). O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, LEÃO, Renato Zerbini Ribeiro (Coord.). Os rumos do Direito Internacional dos Direitos Humanos: ensaios em homenagem ao professor Antônio Augusto Cançado Trindade. 6 Volumes. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, PIOVESAN, Flávia. Direitos humanos e o direito constitucional internacional. São Paulo: Max Limonad, Direitos humanos e justiça internacional: um estudo comparativo dos sistemas regionais europeu, interamericano e africano. São Paulo: Saraiva, STEINER, Henry J. International human rights in context: law, politics, morals. Oxford: Oxford University Press, TRINDADE, Antônio Augusto Cançado. A humanização do Direito Internacional. Belo Horizonte: Del Rey, Tratado de Direito Internacional dos Direitos Humanos. 3 Volumes. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, A incorporação das normas internacionais de proteção dos direitos humanos no direito brasileiro. San José: IIDH, A proteção internacional dos direitos humanos: fundamentos jurídicos e instrumentos básicos. São Paulo: Saraiva, 1991.

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