Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça

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1 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça Nº Convencional: JSTJ Relator: SILVA PAIXÃO Descritores: PROMESSA DE COMPRA E VENDA EXECUÇÃO ESPECÍFICA PROVIDÊNCIA CAUTELAR NÃO ESPECIFICADA Nº do Documento: SJ Data do Acórdão: Votação: UNANIMIDADE Referência de Publicação: BMJ N471 ANO1997 PAG304 Sumário: Como providência cautelar não especificada, o promitente-comprador, com direito de execução específica, pode pedir que o promitente-vendedor seja proibido de vender a coisa a terceiro. Decisão Texto Integral: Acordam no Supremo Tribunal de Justiça: 1. A instaurou, em 14 de Maio de 1996, no Tribunal Judicial de Portimão, providência cautelar não especificada contra B e mulher C, pedindo, nomeadamente, que estes fossem proibidos de alienar o prédio misto, sito em Presa de Moura, Lagoa, objecto de contrato-promessa de compra e venda celebrado 1

2 entre o Requerente, como promitente comprador, e os Requeridos, como promitentes vendedores. Produzidas as provas, o Excelentíssimo Juiz, por decisão de 7 de Junho de 1996, decretou a providência. 2. Inconformados com tal decisão, dela agravaram os Requeridos. Com êxito, diga-se, pois a Relação de Évora, por Acórdão de 10 de Abril de 1997, julgou a providência improcedente, com esta sintetizada fundamentação: "O que o requerente da providência tem em vista é (...) a execução específica do referido contrato-promessa". "Seria pois esse o meio a que teria de deitar mão, nos termos do artigo 830 do Código Civil. "Daqui resulta que não lhe é lícito recorrer à providência a que recorreu, pois o seu objectivo não se enquadra com o fim desta". "Em princípio, todas as acções admitem uma providência cautelar, mas o que não admitem, como no caso presente, é que se procure alcançar através da 1.ª o fim que se tem em vista com a segunda". 3. Inconformado, o Requerente recorreu para este Supremo Tribunal, pugnando pela revogação do Acórdão, com fundamento na violação dos artigos 384.º, n.º 1 e 399.º do Código de Processo Civil, tendo culminado a sua alegação com as conclusões assim resumidas: I - "Tendo o contrato-promessa dos autos eficácia meramente obrigacional, a não impedir-se a venda a terceiros, poderá o promitente comprador ver frustrada, de forma definitiva e irremediável, a sua expectativa e o seu direito à outorga do contrato prometido, ainda que por efeito à execução específica". II "A presente providência tem como fim acautelar o fim útil da acção de que depende, visando impedir que, durante a pendência desta, a situação de facto se altere de modo a que a sentença, sendo favorável, perca a eficácia ou pelo menos, parte dela". III "Não se pretende dotar o contrato da eficácia real, mas acautelar e garantir o cumprimento futuro do contrato". IV "O fim útil de providência é impedir que os promitentes vendedores fiquem impossibilitados de vir a cumprir o contrato", por forma a que "não possam perder a legitimidade para o contrato prometido". V "O fim da providência é totalmente distinto do fim da acção de execução específica do contrato-promessa", pelo que, "no caso presente, não se procura alcançar, através da primeira o fim que se tem em vista com a segunda". 4. Em contra-alegações, os Requeridos bateram-se pela confirmação do julgado. Colhidos os vistos, cumpre decidir. 5. Eis, antes de mais, os factos considerados indiciariamente provados pelas instâncias: a) O Requerente como promitente comprador e os Requeridos como promitentes vendedores celebraram, em 2 de Fevereiro de 1994, contrato-promessa de compra e venda do prédio misto, sito em 2

3 Presa de Moura, freguesia de Estômbar, concelho de Lagoa, descrito na Conservatória do Registo Predial de Lagoa sob o n Secção AE e urbano 2233, contrato esse titulado pelo documento fotocopiado a folha 69. b) Ficou acordado o preço de escudos, a pagar por fases, conforme o estipulado no referido contrato. c) Na sequência desse contrato, o Requerente já pagou ao Requerido quantia não inferior a escudos, faltando pagar, apenas, pouco mais de 7500 contos. d) A partir da celebração do contrato, o Requerente começou a proceder a obras de restauração do imóvel, nomeadamente do seu interior e telhado. e) Através da carta fotocopiada a folha 53, datada de 23 de Fevereiro de 1996, o Requerido veio comunicar ao Requerente a "rescisão" do contrato-promessa de compra e venda, impedindo o Requerente de continuar com as obras de restauro que vinha efectuando. f) Na sequência dessa carta de "rescisão", o Requerido tem vindo a encetar negociações com outros possíveis adquirentes, no sentido da alienação do prédio que foi objecto do referido contrato-promessa. g) Mais tarde, o Requerido manifestou o desejo de cumprir novamente o contrato-promessa, desde que o Requerente aceitasse o aumento do preço da aquisição na ordem dos contos. h) O Requerente continua interessado no cumprimento do contrato-promessa de compra e venda. 6. A questão única que importa dilucidar, no âmbito do presente recurso, é esta: O promitente-comprador, em providência cautelar não especificada instaurada contra o promitente vendedor, poderá pedir que este seja proibido de vender a terceiro o prédio misto relativamente ao qual haviam celebrado contrato-promessa? Respondemos, desde já, afirmativamente. Vejamos. 7. O procedimento cautelar é sempre dependente de uma causa que tenha por fundamento o direito acautelado, podendo ser instaurado como preliminar ou como incidente "da acção". Requerido antes da propositura da acção, "deve o procedimento ser apensado ao processo desta logo que seja intentada" (artigo 384.º, n. os 1 e 2 do Código de Processo Civil; são deste Diploma - na redacção anterior à última reforma, aplicável por imperativo do artigo 16 do Decreto-Lei n. 329-A/95, de 12 de Dezembro, com as alterações do Decreto-Lei n. 180/96, de 25 de Setembro - todos os preceitos que se citarem sem menção de proveniência). Dentre os procedimentos cautelares, contam-se as "providências cautelares não especificadas". Com efeito, segundo o artigo 399.º, "quando alguém mostra fundado receio de que outrem, antes de a acção ser proposta ou na pendência dela, cause lesão grave e dificilmente reparável ao seu direito", pode requerer, se ao caso não convier nenhum dos procedimentos regulados nos artigos 388.º a 398.º e 402.º a 427.º, "as providências adequadas à situação", nomeadamente, "a intimação para que o réu se abstenha de certa conduta". E o artigo 401.º acrescenta no seu n.º 1 que "a providência é decretada, desde que as provas produzidas revelem uma probabilidade séria da existência do direito e mostrem ser fundado o receio da sua lesão, salvo se o prejuízo resultante da providência exceder o dano que com ela se quer evitar". 3

4 O decretamento de uma providência cautelar não especificada caso em apreço depende, assim, da verificação cumulativa dos seguintes requisitos: - a aparência de um direito e a possibilidade séria da sua existência; - o fundado receio de que esse direito sofra lesão grave e de difícil reparação; - a inaplicabilidade de qualquer um dos procedimentos cautelares típicos; - a adequação da providência requerida à remoção do periculum in mora concretamente verificado, assegurando a efectividade do direito ameaçado; e - a insusceptibilidade de tal providência implica um prejuízo superior ao dano que com ela se pretende evitar. 8. O contrato-promessa, como se sabe, é "a convenção pela qual ambas as partes, ou apenas uma delas, se obrigam, dentro de certo prazo ou verificados certos pressupostos, a celebrar determinado contrato" - o contrato prometido (cfr. Antunes Varela, "Das Obrigações em Geral", volume I, 9. edição, página 317). Numa promessa de compra e venda (situação que aqui nos interessa considerar), a prestação a que os pactuantes se vinculam traduz-se em outorgarem no futuro contrato, correspondentemente, como comprador e como vendedor. O promitente comprador fica apenas com o direito de exigir ao promitente vendedor uma prestação de facere: a realização do contrato prometido ou, mais rigorosamente, a emissão da declaração negocial de venda, imprescindível à celebração do contrato. Em regra, o contrato-promessa produz meros efeitos obrigacionais, restritos às partes contratantes, a menos que elas lhe tenham atribuído eficácia real (artigo 4131 do Código Civil). Quando o contrato-promessa tem eficácia meramente obrigacional, os efeitos que dele nascem não valem contra terceiros. Realça-se, entretanto, que, se alguém se tiver obrigado a celebrar um contrato de compra e venda de edifício e não cumprir a promessa, pode a outra parte, mesmo havendo convenção em contrário, "obter sentença que produza os efeitos da declaração negocial do faltoso, sempre que a isso não se oponha a natureza da obrigação assumida" (artigos 410.º, n.º 3 e 830.º n. os 1 e 3 do referido Código). O modo como, na prática, o tribunal supra a declaração negocial do faltoso é o de considerar como realizado o contrato prometido, por força da sentença, ou seja, "é o de decretar directamente o efeito fundamental do contrato prometido, como se o requerente e o demandado o tivessem celebrado". No aspecto funcional, a denominada execução específica de promessa de contratar não visa o exercício de qualquer direito potestativo do autor, "mas antes a realização coerciva da prestação devida pelo demandado" (cf. Antunes Varela, op. e vol. cits., página 344, e Rev. de Leg. e de Jurisp., 117, página 181). 9. É claro que o tribunal só pode substituir-se ao devedor faltoso no caso de este se recusar a celebrar o contrato prometido, podendo embora fazê-lo. As partes não podem conseguir, pois, através do recurso ao tribunal, um efeito contratual que não pudessem elas próprias levar a cabo. Assim, se o promitente "não pode validamente celebrar o contrato prometido", também o tribunal não pode "suprir a sua omissão, mediante uma sentença produtora de efeitos iguais. Não é 4

5 possível ao tribunal substituir-se ao faltoso para fazer, em vez dele, o que ele não tem legitimidade para realizar". Por isso, se o promitente vendedor aliena a coisa, objecto do contrato prometido, a terceiro, fica constituído, em regra, na impossibilidade de cumprir o contrato-promessa, tornando inviável, portanto, a sua execução específica. De facto, um dos efeitos essenciais da compra e venda é a "transmissão da propriedade da coisa" (artigos 408.º, n.º 1, 874.º e 879.º, alínea a), do Código Civil). Ora, vendida a coisa a terceiro, o promitente vendedor já não pode vendê-la, segunda vez, ao promitente comprador, pois ela deixou de ser sua. E a sentença que viesse a ser proferida em execução específica do contrato-promessa "traduzir-se-ia numa venda de coisa alheia" (cfr. Mota Pinto, "Parecer", in C.J., X, 3., página 41; Galvão Telles, "Direito das Obrigações", 6. edição, páginas 127/128; Almeida Costa, "Contrato-Promessa", 4. edição, página 74; e Acórdão da Relação de Lisboa de 6 de Julho de 1995, C.J., XX, 4., página 78). 10. Expostos os procedentes princípios jurídicos, revertamos ao caso ajuizado, tendo por pano de fundo a factualidade inventariada em 5. Ao celebrar o contrato-promessa, com eficácia meramente obrigacional, o Requerente, como promitente-comprador ficou com o direito de exigir dos Requeridos, como promitentes vendedores, a emissão de correspondente declaração negocial de venda. E, perante a irrelevância, por falta dos pressupostos justificativos, da declaração de "rescisão, do contrato-promessa e a recusa dos Requeridos em celebrarem o contrato prometido pelo preço acordado, há a possibilidade séria de assistir ao Requerente o direito de recorrer ao tribunal para obter a execução específica do contrato-promessa, mediante sentença que produza os efeitos da declaração negocial dos faltosos. Simplesmente, enquanto os Requeridos estiverem em condições de vender a outrem o prédio a que respeita o contrato-promessa, existe o fundado receio de que o direito do Requerente à sua execução específica sofra lesão grave e de difícil reparação. É que, se os Requeridos consumarem o propósito de venderem o prédio a terceiro na sequência das negociações que têm vindo a encetar, a execução específica do contrato-promessa tornar-se-á inviável, como vimos. O que significa que, se os Requeridos não forem, entretanto, impedidos de vender o prédio a outrem, o Requerente poderá ver frustrado, definitiva e irremediavelmente, o seu direito à celebração do contrato de compra e venda. Conclusão inevitável: Tal como ficou decidido na 1.ª instância, justificava-se a decretação da providência requerida, proibindo-se os Réus de alienarem o prédio misto em causa. Daí que o Acórdão recorrido não possa subsistir. 5

6 11. Consequentemente, dando-se provimento ao agravo, revoga-se o Acórdão impugnado, para ficar a prevalecer o decido na 1.ª instância. Custas neste Supremo e na Relação pelos Requeridos. Lisboa, 11 de Novembro de Silva Paixão, Fernando Fabião, César Marques. Decisões impugnadas: I Tribunal Judicial de Portimão 1.ª Secção Processo n.º 125-A/96; II Tribunal da Relação de Évora 2.ª Secção Processo n.º 407/96. 6

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