FESP - FACULDADE DE ENSINO SUPERIOR DA PARAÍBA CURSO DE DIREITO CHRISTIANNE MARIA WANDERLEY LEITE

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1 FESP - FACULDADE DE ENSINO SUPERIOR DA PARAÍBA CURSO DE DIREITO CHRISTIANNE MARIA WANDERLEY LEITE DA TUTELA DOS INTERESSES DOS IDOSOS PELO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL NOS CASOS DE VIOLÊNCIA: A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA EM XEQUE JOÃO PESSOA 2010

2 CHRISTIANNE MARIA WANDERLEY LEITE DA TUTELA DOS INTERESSES DOS IDOSOS PELO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL NOS CASOS DE VIOLÊNCIA: A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA EM XEQUE Monografia apresentada ao Curso de Direito da Faculdade de Ensino Superior da Paraíba - FESP, como requisito parcial à obtenção do título de bacharel em Direito. Orientadora: Profª. Ms. Sheyla Barreto Braga de Queiroz Área de Concentração: Direitos Humanos João Pessoa 2010

3 L533t Leite, Christianne Maria Wanderley Da tutela dos interesses dos idosos pelo Ministério Público nos Estadual nos casos de violência: a dignidade da pessoa humana em xeque / Christianne Maria Wanderley Leite - João Pessoa, f. Orientadora: Profª. Ms. Sheyla Barreto Braga de Queiroz Monografia (Graduação em Direito) FESP Faculdades de Ensino Superior da Paraíba Idoso 2. Violência 3. Direitos humanos e fundamentais 4. Ministério Público Estadual Brasil I. Título. BC/FESP CDU (81)

4 CHRISTIANNE MARIA WANDERLEY LEITE DA TUTELA DOS INTERESSES DOS IDOSOS PELO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL NOS CASOS DE VIOLÊNCIA: A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA EM XEQUE Aprovada em: / / 2010 BANCA EXAMINADORA Prof.ª Ms. Sheyla Barreto Braga de Queiroz Orientadora Prof. Ms. Arnaldo Sobrinho de Morais Neto Membro da Banca Examinadora Profª. Esp. Ana Carolina Gondim de A. Oliveira Membro da Banca Examinadora

5 A Deus, a Jesus, a Nossa Senhora e a minha mãe Leninha por terem possibilitado a concretização de todos os meus sonhos.

6 AGRADECIMENTOS A Deus, em primeiro lugar, pelo seu amor, pela sua compreensão, pela sua dedicação, pelo seu apoio e proteção em todos os momentos da minha vida. A Jesus Misericordioso, pelas bênçãos derramadas em minha vida. A minha mãe, Maria Santíssima, pelo seu aconchego e amparo. Aos meus pais Austrilene e Amauri (in memoriam) pelo amor incondicional devotado a mim. Aos meus avós Austriclinio (in memoriam) e Eunice (in memoriam), por sua dedicação e amor. A minha irmã Andréa, e a minhas sobrinhas, Andressa e Amanda, por caminharem sempre ao meu lado. A minha orientadora Sheyla, por suas preciosas orientações, e por sua atenção, confiando sempre no meu potencial.

7 A idade não é decisiva; o que é decisivo é a inflexibilidade em ver as realidades da vida, e a capacidade de enfrentar essas realidades e corresponder a elas interiormente. Max Weber

8 RESUMO A violência praticada contra os idosos, objeto desta monografia, enfoca situações, de maus tratos contra essas pessoas. Apresenta os direitos inerentes à pessoa idosa e os instrumentos e meios jurídicos que garantirão essa defesa, bem como, da atuação do Ministério Público Estadual na tutela dos interesses da pessoa idosa nos casos de violência. A violência, de um modo geral, representa afronta aos direitos humanos e fundamentais, à dignidade da pessoa humana, além de serem empregadas em pessoas indefesas, são cometidas majoritariamente por familiares e/ou pessoas bem próximas que gozam de total confiança desse idoso. A violência institucional, por sua vez, é caracterizada, sobretudo, pela omissão do Poder Público, nos seus deveres para com os idosos. Em contrapartida sabe-se da atuação do Poder Judiciário e do Ministério Público no combate aos agressores, bem como a reparação ao agredido, em relação aos danos material e psicológico, sempre que possível. Como metodologia de trabalho, tomou-se como base pesquisas em livros jurídicos, artigos de periódicos especializados, na legislação que disciplina a temática, dicionários especializados, códigos e sites jurídicos, tendo sido escolhida a vertente qualitativa e o método dedutivo, para viabilizar o estudo e a compreensão das causas da violência contra essa população, que via de regra, deveria estar protegida de seus agressores, sendo resguardada pela família e por organismos instituídos para esse fim. Palavras-chave: Idoso. Violência. Direitos humanos e fundamentais. Ministério Público.

9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...8 CAPÍTULO 1 - DOS DIREITOS HUMANOS E FUNDAMENTAIS DOS IDOSOS Os idosos como sujeitos de direitos humanos Proteção legal dos idosos no ordenamento jurídico brasileiro Os idosos e os direitos fundamentais Conceito de Idosos Tratamento destinado as pessoa idosas nas sociedades...21 CAPIÍTULO 2 - CONCEITO DE VIOLÊNCIA Dos tipos de violências contra o idoso Violência Psicológica Violência física Violência institucional...29 CAPITULO 3 - DO MINISTÉRIO PÚBLICO O Ministério público no Brasil O Ministério público: e a defesa dos interesses individuais e sociais indisponíveis dos idosos Espécies de Direitos amparados pela a tutela individual Espécies de Direitos amparados pela a tutela coletiva Instrumentos de proteção ao idoso Medidas de proteção...44 CONSIDERAÇÕES FINAIS...47 REFERÊNCIAS...49

10 INTRODUÇÃO A velhice está chegando mais cedo, por força das políticas públicas nas áreas da saúde, previdência e saneamento básico, que impactam no aumento da expectativa de vida e na diminuição da taxa de fecundidade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o processo de envelhecimento tem início aos cinquenta e cinco anos, sendo concluído aos sessenta e cinco anos. À luz da Política Nacional do Idoso, cuja viga-mestra se encontra na Lei n.º 8.842/1994, é considerada idosa a pessoa maior de sessenta anos, idade-limite para ter seus interesses tutelados pelo Estatuto do Idoso, a famosa Lei n.º , de 1.º de outubro de No Brasil, aumenta cada vez mais a população idosa que, de acordo com dados do IBGE, no ano de 2002, era de milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Em 2020, existe a previsão de que a população idosa chegará ao assombroso percentual de 25 milhões de pessoas, o que, seguramente, passará a pressionar cada vez mais as políticas de governo (IBGE, 2010). Esse fato de per se torna necessária a investigação dos problemas enfrentados por esse segmento da sociedade, sobretudo em um país onde impera a supervalorização do jovem e a rápida mutação de conceitos e valores que tornam tudo e todos obsoletos a um piscar de olhos. Buscando mais meios de defesa da ordem jurídica, do regime democrático de direito e dos interesses fundamentais, a Carta Magna, em seu artigo 127, dotou a instituição do Ministério Público de autonomia para atuar de forma legal e legítima na defesa dos direitos fundamentais, transindividuais e coletivos, estando, por conseguinte, incluídos os direitos dos idosos. Cabe ao Ministério Público a tutela jurídica ampla, sem nenhuma restrição na defesa desses direitos, com a função essencial, atribuída pela Lei Maior, de ser uma instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.

11 9 É assente a defesa dos interesses dos idosos pelos membros do Parquet, sobremodo porque são pessoas, as mais das vezes, desprovidas de um conhecimento mínimo sobre seus direitos, alijadas do poder de decisão e até mesmo da convivência regular com seus familiares e amigos. O tema deste trabalho repousa, portanto, em matéria que, diretamente /ou indiretamente, toca a todos e tem nos Ministérios Públicos Estaduais seu guardião e defensor-mor: a tutela dos interesses dos idosos nos casos de violência física ou moral. Apresenta os direitos inerentes à pessoa idosa e os instrumentos e meios jurídicos que garantirão essa defesa. Como metodologia de trabalho, tomou-se como base pesquisas em livros jurídicos, artigos de periódicos especializados, na legislação que disciplina a temática, dicionários especializados, códigos e sites jurídicos, tendo sido escolhida a vertente qualitativa e o método dedutivo, para viabilizar o estudo e a compreensão das causas da violência contra essa população, que via de regra, deveria estar protegida de seus agressores, sendo resguardada pela família e por organismos instituídos para esse fim. Discorre sobre a atuação do Ministério Público na tutela dos interesses da pessoa idosa nos casos de violência. No decorrer desta escrita, serão apresentados os direitos inerentes à pessoa idosa e os instrumentos e meios jurídicos que garantirão essa defesa, inclusive por meio de pesquisa da legislação e por último a atuação do Ministério Público na tutela dos interesses da pessoa idosa nos casos de violência. Assim no primeiro Capítulo serão abordados os direitos humanos, como uma garantia contra a discriminação e maus tratos contra os idosos. Os Direitos Humanos constituem uma fonte primária de onde derivam as demais leis, a saber, sobretudo a Constituição e o Estatuto do Idoso e sua Política Nacional. Já no segundo capítulo, dentre os inúmeros tipos de violência iremos discorrer sobre a violência psicológica, física e institucional. São tipos de violência que muitos pensam não ser, a psicológica, por exemplo, não é por acaso que é mais comum, porque se caracteriza pelas atitudes verbais e a forma de colocação que seria simples diante de um jovem, adolescente, diante de uma pessoa idosa não é, seja por suas tradições, seja pelo atual estágio. A violência física, por sua vez, é aquele em que o agressor provoca marcas, escoriações pelo corpo da pessoa. É de fácil diagnóstico haja vista, a visibilidades das marcas e finalmente a violência

12 10 institucional, que é marcada pela falta de políticas públicas voltadas para a população idosa. No terceiro e último capítulo, foi correlacionado o papel do Ministério Público, instituição essa que participa e se destaca por ser o fiscal da lei. Desse modo, como forma de propagar a Política Nacional dos Idosos, se vale das audiências públicas em que os debates contribuem para o avanço de implementação das técnicas que os idosos necessitam para viver mais saudavelmente e, sobremodo, com respeito.

13 11 CAPÍTULO 1 - DOS DIREITOS HUMANOS E FUNDAMENTAIS DOS IDOSOS 1.1 Os idosos como sujeitos de direitos humanos A noção de que todos os homens apresentam uma mesma identidade humana e por isso devem ser tratados de maneira igual no decurso da história da humanidade não é uma constante, tendo em vista que, nas diversas culturas, inclusive na nossa, a desigualdade entre os homens parece apresentar um caráter necessário (RABENHORST, 2001, p. 9) Em sede de Direitos humanos a distinção entre desigualdades e diferenças é de vital importância, tendo em vista que quando se fala em desigualdades, um indivíduo ou mesmo um grupo apresentam-se juridicamente em condições de superioridade, constituindo uma afronta à igualdade fundamental de valor ético que deve existir entre todos que ostentem a condição humana. No tocante às diferenças, são expressas na complexidade do ser humano, nas suas diferenças biológicas, culturais ou patrimoniais, sendo a partir delas que vão surgindo as desigualdades nas sociedades (COMPARATO, 2003, p. 287). Foi a partir do estoicismo e do cristianismo que foram estabelecidas as bases do jusnaturalismo moderno, assim denominado pelos juristas, que consiste na ideia da existência de um direito natural que assegura a igualdade e a liberdade a todos, unificando a ordem jurídico-moral como o próprio desígnio do cosmo ou da natureza humana. Sendo esse Direito superior ao Direito elaborado pelos legisladores humanos, tendo sua verdade atestada tanto pela própria ordem das coisas, o estoicismo quanto pelo Divino (RABENHOST, 2001, p. 27). Passando a existir a partir desse momento a consciência de que todos são iguais e, portanto, merecem um tratamento digno. Foi a partir da concepção jusnaturalista que os direitos fundamentais contidos nas primeiras constituições escritas surgem como direitos inerentes a cada indivíduo face ao Poder do Estado, que tem sua atuação limitada, devendo abster-se de interferir na vida privada das pessoas, sendo esse momento considerado como

14 12 precursor dos chamados direitos fundamentais de primeira dimensão, os direitos civis e políticos (BARLETTA, 2010, p. 128). Quanto ao cristianismo, seguindo os ensinamentos de Ritt (apud MORAES, 2008, p. 72): Foi o cristianismo que, pela primeira vez, concebeu a ideia de uma dignidade pessoal, atribuída a cada indivíduo. O desenvolvimento cristão sobre a dignidade humana deu-se sob um duplo fundamento: o homem é um ser originado por Deus para ser o centro da criação; como ser amado por Deus, foi salvo de sua natureza originária através da noção de liberdade de escolha, que o torna capaz de tomar decisões contra o seu desejo natural. Atribui-se a Boécio, em texto que data do séc. VI, o registro que propiciou, através da matriz teológica, a transmissão da cultura greco-latina aos filósofos medievais. Foi o propósito do ministério da Trindade que Boécio ofereceu a definição de pessoa, que viria a ser adotada por São Tomás: substância individual de natureza racional. O primeiro registro escrito do nascimento dos Direitos Humanos encontra-se no artigo I da Declaração que o bom povo da Virgínia tornou pública no ano de 1776, reconhecendo que todos os homens são destinados de forma igualitária a um constante aperfeiçoamento (COMPARATTO, 2003, p. 50). De acordo com Rabenhorst (2001, p. 14): O termo dignidade, do latim dignitas, designa tudo aquilo que merece respeito, consideração, mérito ou estima. Apesar de a língua portuguesa permitir o uso tanto do substantivo dignidade como do adjetivo digno para falar das coisas (quando dizemos, por exemplo, que uma moradia é digna), a dignidade é acima de tudo uma categoria moral que se relaciona com a própria representação que fazemos da condição humana, ou seja, ela é a qualidade ou valor particular que atribuímos aos seres humanos em função da posição que eles ocupam na escala dos seres. A Organização das Nações Unidas aprovou por meio de sua Assembléia Geral um documento de sumo relevo para a defesa dos direitos humanos no mundo, que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada por quarenta e oito países em 10 de dezembro de Nela, elencam-se direitos destinados à proteção dos seres humanos de forma igualitária aí incluídos os idosos, sem quaisquer distinções de cor, credo, raça, nível econômico ou origem cultural, com recomendações para que os Estados criem meios de defesa que assegurem a todos o direito à vida, à liberdade, à segurança, à saúde e ao bem-estar e o direito a uma ação efetiva por parte do Judiciário para evitar atos que violem tais direitos.

15 13 Foi a partir dessa Declaração que se iniciou o desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos, com a adoção de vários instrumentos protetivos na seara internacional. A Declaração conferiu lastro axiológico e também uma unidade valorativa a esse ramo do Direito, enfatizando a universalidade, a indivisibilidade e a interdependência dos direitos humanos. A partir da universalização dos Direitos Humanos surgiu a possibilidade de formação de um sistema internacional de proteção desses direitos, sistema integrado por tratados internacionais de proteção fundados numa consciência ética contemporânea compartilhada pelos Estados, buscando um consenso internacional de proteção ao mínimo ético irredutível. (PIOVESAN, 2009, p. 40) Contudo, são poucos os países que garantem a proteção ao idoso, como informa Rodrigues (2009, p. 435): Apesar dessa Declaração de Direitos ser aprovada em Assembléia Geral da ONU, em 10 de dezembro de 1948, verifica-se que poucos são os países que em suas cartas estatuem garantias e proteções às pessoas idosas, uma vez que, na atualidade, 12 (doze) constituições modernas trazem em seus textos normas de proteção à velhice, ou seja, além a brasileira, as da China, Cuba, Espanha, Guiné-Bissau, Itália, México, Peru, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela. Em consonância com as diretrizes aprovadas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos a Constituição da República em seu primeiro artigo elenca os fundamentos da República Federativa do Brasil que são o direito: a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo econômico. Não permitindo nenhuma forma de discriminação, conforme assentado no artigo 3, inciso IV, em relação a origem, a raça, a sexo, a cor, a idade e quaisquer outras formas de discriminação. Sendo todos iguais na legislação pátria, cada ser humano deve ser tratado com isonomia, sem nenhuma espécie de discriminação negativa, forma de discriminação que desrespeita o próximo, sem motivos, sendo admitida, porém, no ordenamento jurídico brasileiro, apenas, a forma de discriminação positiva que considera que as diferenças entre os seres humanos devem ser respeitadas, buscando-se a adoção de medidas para ajudar as pessoas hipossuficientes, através de um olhar dotado de profundo respeito à dignidade da pessoa humana

16 Proteção legal dos idosos no ordenamento jurídico brasileiro O Valor da dignidade humana constitui-se no principio basilar da Constituição Federal da Republica Federativa do Brasil, sendo elevado a principio fundamental que irá nortear todo o ordenamento jurídico brasileiro, servindo como orientação para a interpretação e compreensão de todo texto constitucional de A Dignidade da pessoa humana e os Direitos fundamentais constituem-se, portanto, em princípios que agregam exigências de justiça e dos valores éticos, conferindo suporte axiológico para todo o ordenamento jurídico brasileiro, e, portanto, passam a ser dotados como critérios de interpretação de todas as normas do ordenamento jurídico nacional. (PIOVESAN, 2009, p.14) A Constituição Federal de 1988, já em seu Preâmbulo, assegura a todos, sem qualquer tipo de distinção, o pleno exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça para que seja garantida uma sociedade fraterna, pluralista e sem qualquer tipo de preconceito. Nesse sentido, em seu artigo 5.º, a Constituição Federal positivou os direitos e garantias fundamentais, ainda que no campo formal, assegurando, a todos, igualdade perante e na lei, não sendo admitida qualquer forma de discriminação para os brasileiros e também para os estrangeiros residentes no país. O amparo legal aos idosos está intrinsecamente vinculado ao contexto social de cada fase histórica das sociedades. No Brasil, o primeiro texto legal que demonstrou preocupação com esta camada da população foi a Lei Saraiva-Cotegipe que ficou conhecida como a Lei dos Sexagenários, nº 3.270, promulgada no dia 28 de setembro de 1885 garantindo liberdade aos escravos com mais de sessenta anos. Resultante de intensas lutas sociais preconizada por alguns jovens intelectuais, contando com apoio de alguns políticos simpatizantes da causa, a referida Lei veio com o intuito de conceder a essa parcela da população escrava a tão sonhada liberdade. Destarte, observa-se que esta liberdade estava condicionada a prestação de serviços por um período de três anos, após completarem sessenta anos, a fim de obterem a sua liberdade, conforme assenta o texto da referida Lei 10. São libertos os escravos de 60 anos de idade, completos antes e depois da data em que entrar em execução esta lei, ficando, porém,

17 15 obrigados a título de indenização pela sua alforria, a prestar serviços a seus exsenhores pelo espaço de três anos. Registre-se, por oportuno, que a tão sonhada liberdade não vinha acompanhada de garantias, tendo em vista que os idosos eram libertos sem nenhuma condição de subsistência futura, sendo, portanto, condenados a viver a margem da sociedade que ajudaram a construir através do trabalho de suas mãos. A referida Lei serviu como uma maneira de segregação de um grupo que, em virtude do avanço da idade, deixam de ter um valor econômico, o que se configura como uma realidade nas sociedades, tendo em vista, segundo Minayo (2005, p. 784), que a maioria das culturas tende a separar esses indivíduos, segregá-los e, real ou simbolicamente, a desejar a sua morte. Somente com a Constituição de 1934 passou a existir uma preocupação de preencher essas lacunas existentes, passando, efetivamente, a surgir no texto legal meios de proteção aos idosos, garantindo-lhes certas prerrogativas. Segundo Tavares, na História do Direito Constitucional brasileiro, a proteção à velhice teve início com essa Constituição. Com o advento da Constituição de 1988 os idosos passaram a gozar de um efetivo amparo legal garantido em seu texto: Art. 3º - constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A partir da Lei n /94, foi instituída a Política Nacional do Idoso que estabeleceu as diretrizes de atuação do Poder Público no atendimento dos direitos sociais da pessoa idosa. Todavia, a sua regulamentação ocorreu com o Estatuto do Idoso, que assegurou todos os direitos e garantias intrínsecos à pessoa humana, e oportunidades para um envelhecimento saudável, com qualidade e respeito. No Brasil, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, atenta à relevância da questão, lançou o Plano de Ação para o Enfrentamento da Violência contra a Pessoa Idosa, revisado em 2007, ao sabor das deliberações e conclusões da 1.ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, realizada em Esse conclave resultou na criação da Rede Nacional de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa (RENADI).

18 16 O plano parte da ideia de como deve ser tratado o idoso e do papel que cada membro da sociedade tem. É de suma importância porque nem sempre o idoso foi prioridade, tanto em termos legais, como em políticas públicas. Conforme Rodrigues e colaboradores (2007), os idosos, até pouco tempo, só foram mencionados em alguns artigos, decretos-leis, leis e portarias. Como no Código Civil, no Código Penal, no Código Eleitoral e na Lei de Foi, contudo no ano de 1982 quando a ONU realizou a Assembléia Mundial sobre o Envelhecimento que tal realidade começou a mudar, pois a assembléia pode ser considerada o marco mundial que iniciou as discussões voltadas para os idosos e contou com a participação de 124 países, incluindo o Brasil. Durante os trabalhos foi estabelecido um Plano de Ação para o Envelhecimento, o qual foi posteriormente publicado em (RODRIGUES et al., 2007). O Plano foi criado com o intuito de sensibilizar a sociedade e o poder Públicos para a urgente necessidade de criação de políticas públicas voltadas para a população idosa. Foi a partir daí o surgimento concepção de que cabe às políticas sociais prepararem as populações para os estágios mais tardios da vida, assegurando assistência integral de ordem física, psicológica, cultural, religiosa, econômica, de saúde, entre outros aspectos (RODRIGUES, 2009). Além disso, concordou-se que, os órgãos governamentais, não governamentais e todos que têm responsabilidades para com os idosos devem dispensar atenção especial aos grupos vulneráveis, particularmente os mais pobres, mulheres e residentes em áreas rurais (RODRIGUES, 2009). Logo, o Plano Nacional representa um ponto de partida, uma cartilha para que os governantes implementem as garantias de políticas públicas e nesse aspecto o Poder Judiciário tem sido bastante atuante, sobretudo por tratar-se de um direito consagrado na Constituição Federal. 1.3 Os idosos e os direitos fundamentais Os Direitos fundamentais são valores intrinsecamente ligados à dignidade da pessoa humana e à limitação do Poder, que se encontram positivados na Constituição Federal do Brasil através de suas normas constitucionais. Direitos

19 17 fundamentais são os direitos internos de cada país e devidamente positivados pelo seu ordenamento jurídico. (MARMELSTEIN, 2008, p. 27). De acordo com a Constituição Federal de 1988 no caput do seu artigo 5 o respeito a vida é o princípio fundamental que irá nortear todo o nosso ordenamento jurídico que como um Direito fundamental é um Direito inviolável. Em consonância com o supracitado artigo, o ordenamento jurídico difunde que todos são iguais perante a Lei, sem distinção de qualquer natureza, sendo homens e mulheres iguais em direitos e obrigações nos termos da constituição Federal, sendo garantidos a todos que se encontram no Brasil a inviolabilidade do Direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Sendo essa igualdade assegurada à garantia de todos os direitos fundamentais também das pessoas idosas, não sendo admitida nenhuma forma de preconceito e discriminação (RODRIGUES, 2009, p. 441). Foi, contudo, com o advento do Estatuto do Idoso, o processo natural de envelhecimento passou a ser considerado como um acontecimento jurídico, erigindo-se em Direito personalíssimo, onde sua proteção passa a constituir-se em um Direito Social. A partir dessa condição é considerado como um Direito social, tornando-se a proteção ao envelhecimento um Direito indisponível, de responsabilidade do Estado que garante, por meio de políticas públicas sociais, medidas que preservem a plenitude da saúde e da própria vida do idoso (FREITAS JÚNIOR, 2008, p. 56). Continua o autor acima referido que, ao se falar em vida, não se trata apenas de vida biológica e espiritual, mas de uma vida usufruída dignamente, respeitando-se o princípio da dignidade da pessoa humana, respeitando-se a dignidade do idoso, sendo de responsabilidade do Poder Público evitar qualquer tipo de violação a esse direito. Conforme Barletta (2010, p. 95): As oportunidades atribuídas à pessoa idosa constam do seu Estatuto como Direitos fundamentais; portanto, como alicerces em que se edifica sua proteção integral. São eles: o direito à vida, à liberdade, ao respeito e à dignidade, o direito aos alimentos, à saúde, à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer, o direito à profissionalização e ao trabalho, à previdência ou à assistência social, à habitação e ao transporte. No tocante a liberdade é uma conseqüência lógica dos princípios da dignidade da pessoa humana e do direito à vida e encontra-se assegurada na

20 18 Constituição Federal em vários artigos esparsos. O direito à liberdade significa deixar os idosos livres para alcançarem suas realizações pessoais da maneira que lhes aprouver, respeitando o seu livre-arbítrio. O artigo 10, da Lei /2003 elenca três direitos fundamentais do idoso, dentre eles, o direito à liberdade e que compreende a faculdade de ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitário, ressalvadas as restrições legais; o direito de opinião e expressão; bem como o direito a liberdade de crença e de culto religioso; a prática de esportes e diversões; a participação na vida familiar e comunitária; participação na vida política; a faculdade de buscar refúgio, auxílio e orientação (FREITAS JÚNIOR, 2008, p. 57). Sendo todos iguais na legislação pátria, cada ser humano deve ser tratado com isonomia sem nenhuma espécie de discriminação negativa, forma de discriminação que desrespeita o próximo, sem nenhum motivo, sendo admitida, no ordenamento jurídico brasileiro, apenas, a forma de discriminação positiva que considera que as diferenças entre os seres humanos devem ser respeitadas, buscando-se a adoção de medidas para ajudar as pessoas hipossuficientes, através de um olhar dotado de um profundo respeito à dignidade da pessoa humana. A cidadania é um direito fundamental inerente a toda pessoa humana, é fundamento republicano brasileiro, garantido a todos e também aos estrangeiros residentes no Brasil, incluindo-se os idosos. 1.4 Conceito de Idosos No Brasil para o reconhecimento dos direitos da pessoa idosa adota-se o critério cronológico ou etário, o mesmo critério adotado pela Organização Mundial de Saúde, porém a organização distingue a idade mínina para que uma pessoa seja considerada idosa, de acordo com o grau de avanço social de cada país. Nos países desenvolvidos em decorrência de uma maior expectativa de vida considera-se idoso a pessoa com idade igual ou superior a 65 anos, enquanto que nos países em desenvolvimento a partir de 60 anos a pessoa já é considerada idosa (CAMARANO, apud GODINHO, 2010, p. 09).

21 19 De acordo com Balletta (2010, p. 33): Ao determinar que idoso é pessoa com idade igual ou maior que sessenta anos, a legislação em comento buscou um critério uniforme, proveniente de investigações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera idosas pessoas de sessenta e cinco anos ou mais nas nações desenvolvidas e de sessenta anos ou mais nas nações em desenvolvimento. A Política do Idoso e o Estatuto pátrio seguiram tais diretrizes, já que o Brasil é considerado país em desenvolvimento. A primeira menção constitucional ao idoso refere-se aos Direitos políticos, onde faculta aos maiores de setenta anos o alistamento eleitoral e o voto. No capitulo referente à Administração Pública a Carta Magna apresenta a presunção de incapacidade da pessoa idosa, a partir do momento em que determina em seu artigo 40, 1, inciso II que, ao atingir a idade de setenta anos, o servidor público deverá ser aposentado compulsoriamente (FREITAS JÚNIOR, 2008, p. 6). Na legislação criminal brasileira, é considerado idoso a pessoa com idade igual ou superior a sessenta anos. Conforme se convencionou nas seguintes hipóteses legais (JESUS, 2010): 61, II, "h" (circunstância agravante genérica); 121, 4.º, parte final (causa de aumento de pena no homicídio doloso); 133, 3.º, III (causa de aumento de pena no abandono de incapaz); 141, IV (causa de aumento de pena na calúnia e difamação); 148, 1.º, I (qualificadora do crime de seqüestro ou cárcere privado); 159, 1.º (qualificadora do crime de extorsão mediante seqüestro); 244 (elementar do crime de abandono material). A Constituição Federal de 1988, porém, não fixou a idade ou condições para que a pessoa fosse considerada idosa, sendo feita em seu artigo 230, 2, uma concessão à gratuidade do transporte público à pessoa maior de sessenta e cinco anos (RODRIGUES, 2009, p. 438).

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