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1 Universidade Metodista de São Paulo Ciências Sociais Pólo Brasília Mulher e Sociedade Ane Cruz

2 Mulher e Sociedade A sociedade primitiva Estudos já comprovaram que nem sempre a organização da humanidade foi patriarcal e que as primeiras sociedades eram coletivas, tribais, nômades. Estas sociedades denominamos de ʺprimitivasʺ e organizavam se majoritariamente em torno da figura da mulher da mãe uma vez que desconheciam a participação masculina na reprodução. Homens e mulheres não possuíam papéis definidos e as relações sexuais não eram monogâmicas. Aos homens cabia a caça, e às mulheres, cabia o cultivo da terra e o cuidado das crianças, naturalmente. Foi somente com a descoberta da agricultura, da caça e principalmente do fogo, estas comunidades passaram a se fixar em um território e com as cercas o homem cercou os seus animais, os seus utensílios e cercou também a mulher. Era o início da opressão da mulher com o início da propriedade privada. As relações passaram a ser predominantemente monogâmicas e, portanto, foi também o início da descoberta da procriação, de que era que o ato sexual que gerava os filhos. Com o tempo, o corpo e a sexualidade das mulheres passaram a ser controlados, instituindo se então a família monogâmica, a divisão sexual e social do trabalho entre homens e mulheres. Nascia o patriarcado, uma nova ordem social centralizada pelo poder do masculino (não somente do pai) e no controle dos homens sobre as mulheres. O Patriarcado no Brasil A família como instituição teve sua origem no patriarcado e no Brasil, foi por intermédio da colonização do modelo latifundiário e escravagista que se manteve até os idos de hoje. Marilena Chauí afirma que mesmo com as diferenças regionais que o Brasil apresenta, a mentalidade patriarcal se difundiu na política e na vida brasileira, seja no coronelismo, clientelismo ou protecionismo. É importante dizer que a posição da mulher, na família e na sociedade em geral, desde a colonização até hoje, demonstra que a família patriarcal tem influências significantes para desencadear e definir os papéis de homens e mulheres em nossa sociedade. Da opressão ao acesso aos direitos Foi necessária uma expressão das mulheres para que muita coisa tivesse mudança. Era o momento de o movimento feminista nascer. Exemplos gritantes como o direito ao voto e a mudança no Código Civil Brasileiro, no qual

3 constava que a mulher casada só poderia trabalhar somente com a autorização do marido, foram fundamentais para a ampliação dos direitos da mulher. Tanto que somente em 1934, em pleno Governo Provisório de Getúlio Vargas, que uma nova constituição concedeu o direito ao voto das mulheres, assim como a regulamentação do trabalho feminino que aconteceu somente em 1941 pela consolidação das Leis Trabalhistas. Mesmo com estas conquistas, os movimentos feministas foram reprimidos durante a ditadura Vargas, e somente tiveram retomadas as suas atividades no início da Segunda Guerra Mundial. Com isso, principalmente nos países desenvolvidos, os homens obviamente engrossaram as fileiras da guerra e as mulheres tiveram que ficar com as famílias (crianças, velhos e doentes) e sustentá las. A estratégia do pós guerra em 1945 com uma política de Estado do bem estar social se concentrava no emprego masculino e na ocupação da mulher somente com o lar, colocando a no papel de mera coadjuvante das políticas sociais. Para se ter uma idéia disso, foi somente com a modificação do Código Civil em 1962 que foi permitindo que mulheres casadas pudessem trabalhar sem a autorização de seus maridos. Foi com a Constituição Federal de 1988 e o novo Código Civil Brasileiro, de 2002, que substituiu o Código Civil de 1916, foram consolidados alguns direitos femininos já existentes na sociedade. Os avanços das mulheres na sociedade brasileira Um dos maiores problemas enfrentados pelas mulheres brasileiras é a violência, a qual se constitui no fenômeno mais democrático que acomete todos os tipos de mulheres, sem distinção de credo religioso, raça/etnia ou classe social. Por outro lado, é a violência contra a mulher que se constitui em um dos maiores alavancadores de motivos para a resistência da luta dos movimentos. As primeiras conquistas dos movimentos de mulheres e feminista junto ao Estado para a implementação de políticas públicas voltadas ao combate à violência contra mulheres datam da década de 80. Foi em 1985, quando efetivamente as mulheres viviam a Década da Mulher declarada pela ONU, que aconteceu a inauguração da primeira Delegacia de Defesa da Mulher (DEAM) em São Paulo e criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), através da lei 7353/85. Já em 1986 em São Paulo, foi criada pela Secretaria de Segurança Pública a primeira Casa Abrigo do país para mulheres em situação de risco de morte. Essas foram as primeiras e as principais ações do Estado naquele momento, voltadas para a promoção de políticas públicas e acesso aos direitos das mulheres no combate e enfrentamento à violência. O Conselho Nacional de Direitos da Mulher, órgão de caráter consultivo e deliberativo da sociedade civil junto ao Governo Federal, vinculado ao

4 Ministério da Justiça naquela época, foi criado com a missão de promover políticas para assegurar condições de igualdade às mulheres. Esse Conselho era, portanto, responsável pelo monitoramento das políticas públicas de combate à violência contra as mulheres, que estavam voltadas para a criação e manutenção de Delegacias especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e de Casas Abrigo. De 1985 a 2002 os principais eixos de política pública de combate à violência contra as mulheres foram a criação de DEAMs e de Casas Abrigo, portanto, dando ênfase nas áreas de segurança pública e de assistência social. Foram esses eixos que nortearam o Programa Nacional de Combate à Violência contra a Mulher sob a gerência da Secretaria de Estado de Direitos da Mulher (SEDIM), criada no segundo semestre de 2002, então vinculada ao Ministério da Justiça. Cabe ressaltar que ainda em 1998, foi elaborada a Norma Técnica do Ministério da Saúde para prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres, isto foi uma pequena ampliação da política que somente cinco anos depois, acontece a promulgação da Lei /03 instituindo mais um novo avanço: a notificação compulsória dos casos de violência contra as mulheres atendidos nos serviços de saúde, públicos ou privados. Políticas Públicas transversais para as Mulheres Em 2003 foi criada a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres (SPM), no âmbito da Presidência da República com a missão de institucionalizar as políticas públicas para as mulheres no Brasil, de forma transversal. Portanto foi dada outra dimensão ao tema e as ações para o enfrentamento à violência contra as mulheres passam a ter um maior investimento. Assim, a política é ampliada no sentido de promover maior articulação entre os entes do Governo Federal, Estadual e Municipal. Além disso, proporcionou a criação de novos serviços (como o Centro de Referência e os Núcleos de Defensorias da Mulher), a construção de Redes de Atendimento para a assistência às mulheres em situação de violência e ainda, a criação e fortalecimento de organismos de políticas para as mulheres em todo o país (Coordenadorias, Assessoriais ou Superintendências Estaduais ou Municipais). No entanto, é em 2004, com a realização da I Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (I CNPM) resultando na construção do Plano Nacional de Políticas para Mulheres, elaborado pelo governo federal em comunhão com a sociedade civil, que se consolidam as políticas públicas, com ações e dotações orçamentárias específicas para as mulheres, para o período em vários Ministérios. A partir do I PNPM as ações das políticas para as mulheres não mais se restringem às áreas da segurança pública e assistência social, mas buscam

5 envolver diferentes setores do Estado no sentido de garantir o acesso aos direitos das mulheres a uma vida sem violência. Este primeiro Plano foi revisado já na II Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres em 2007 quando teve um aumento de ações e eixos temáticos. Neste mesmo período é lançado pelo Governo Lula o Pacto Nacional pelo Enfrentamento à violência contra a Mulher, coordenado pela SPM. E é neste episódio que a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres se consolida como principal articuladora interministerial de políticas públicas para mulheres na medida em que mais de 11 ministérios e secretarias especiais pactuam parcerias, injetando orçamento em seus PPAs (Plano Plurianual ) para a área do enfrentamento à violência para os estados e municípios brasileiros. Não obstante, devemos citar o advento da Lei Maria da Penha, Lei /06 que trouxe para as mulheres brasileiras um referencial jurídico que tipifica a violência e criminaliza o agressor. Podemos seguramente dizer que é um avanço para a luta das mulheres e da sociedade brasileira, apesar de muitos Juízes ainda consideram inconstitucional. Por que será? Conclusão Muito ainda há que ser feito para que a sociedade seja equânime nos direitos entre homens e mulheres. Um exemplo bem recente é o resultado das últimas eleições a qual não conseguiu cumprir a lei de cotas, uma vez que nenhum partido político conseguiu completar o percentual de candidaturas femininas. As candidatas eleitas neste pleito ficaram aquém dos resultados das eleições anteriores. Eis a prova de que as mulheres ainda não conquistaram espaços de poder e decisão. Mas elas tentaram! O poder ainda é masculino e o patriarcado ainda vive. Bibliografia: Chauí, M. (1989). Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil (4ª.ed.). São Paulo: Brasiliense. Engels, F. (1884). A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Buenos Aires: Clariedad (Original publicado em 1884). Muraro, R.M. (1997). A mulher no terceiro milênio: uma história da mulher através dos tempos e suas perspectivas para o futuro (4ª. ed.). Rio de Janeiro: Record, Rosa dos Tempos. II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres/Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres

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