Universidade Nova de Lisboa. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Departamento de História

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1 Universidade Nova de Lisboa Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Departamento de História D. Francisco de Sousa Coutinho em Angola: Reinterpretação de um Governo Dissertação de Ana Madalena Rosa Barros Trigo de Sousa para obtenção do Grau de Mestre em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa sob orientação da Professora Doutora Jill Dias Funchal / Lisboa 1996

2 1 Introdução 2 Objecto do Trabalho 2 Informação Sobre Bibliografia e Fontes 4 PARTE I - ANGOLA EM MEADOS DO SÉCULO XVIII: 9 A Situação do Território e a Dificuldade da Implantação Portuguesa 9 Capítulo I- Enquadramento Geral: O Espaço e os Homens 10 Capítulo II- O Reino de Angola em Meados do Século XVIII 15 A) A Administração do Espaço Sob Domínio Português 17 B) A Conjuntura Económica: O Tráfico de Escravos 26 C) A Sociedade 31 D) O Reino de Angola e o Mundo Africano: Uma Relação Precária? 35 PARTE II - D. FRANCISCO DE SOUSA COUTINHO EM ANGOLA: 38 Uma Acção Governativa Condenada ao Fracasso? 38 Capítulo I- D.Francisco de Sousa Coutinho: Notícia Biográfica 39 Capítulo II- Sousa Coutinho e a Região Luso-Africana 41 A) Acção Governativa em Luanda 41 B) Relacionamento Com o Mundo Africano 56 Capítulo III- Sousa Coutinho e a tentativa de "fomento industrial": A "Fábrica do Ferro" de Nova Oeiras 78 A) Estabelecimento e Funcionamento da " Fábrica do Ferro " de Nova Oeiras B) A problemática do trabalho indígena em Nova Oeiras 104 Capítulo IV- Sousa Coutinho e a Colonização do Planalto de Benguela 116 A) Um projecto de colonização? A " Angola Portuguesa " segundo o governador Sousa Coutinho 116 B) A fundação de povoações no planalto de Benguela 120 Conclusão: O Balanço do Governo de Sousa Coutinho em Angola 127 ANEXOS 130 Anexo I: Glossário - Expressões de Origem KiMbundu 131 Anexo II: Funcionalismo em Luanda no Tempo do Governador Sousa Coutinho 134 Anexo III: Capitães-Mores no Tempo do Governador Sousa Coutinho 138 Anexo IV: Sobados Identificados no Tempo do Governador Sousa Coutinho 140 Anexo V: Dembos, Potentados e Reinos no Tempo do Governador Sousa Coutinho 142 Bibliografia 143 I- Fontes Primárias Manuscritas 143 II- Fontes Primárias Impressas 143 III- Fontes Secundárias 144 IV- Estudos e Obras Críticas 145

3 2 Introdução Objecto do Trabalho É propósito deste trabalho contribuir para o desenvolvimento e aprofundamento da investigação no domínio da história de Angola numa perspectiva que pretende ressaltar o relacionamento entre os portugueses e as sociedades africanas durante o período que compreendeu o governo de D.Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho em Luanda de 1764 a Tem sido aceite de forma passiva considerar o governo de D.Francisco de Sousa Coutinho como um período crucial na história das relações entre Portugal e o território que então constituía a colónia de Angola. Em plena época pombalina e num contexto político-económico em que a coroa portuguesa pretendia reforçar os seus interesses em Luanda, o governador Sousa Coutinho, em sintonia com os pressupostos do governo de Lisboa, teria empreendido uma vasta acção quer no plano político e administrativo, quer no plano económico e social, numa tentativa de pôr termo à situação de abandono e desorganização interna que afectava o território angolano. Ao questionarmo-nos sobre os problemas que se ofereciam à presença portuguesa no espaço angolano naquela época, ficou-nos a dúvida acerca da real dimensão e alcançe da actuação de Sousa Coutinho. Essa dúvida foi o ponto de partida para o trabalho que nos propusémos efectuar. Em torno deste estudo foram várias as interrogações que se ofereceram à nossa análise. Procurámos saber em que medida é que o governo de Sousa Coutinho teria sido um período de progresso e avanço; qual ou quais as iniciativas introduzidas por este governador, o seu grau de originalidade e real impacto; como se organizava e se tentou implementar o poder português; como se organizava a vida económica; como se estruturava a sociedade colonial; qual o relacionamento entre o governo de Luanda e as

4 3 sociedades africanas. Este conjunto de problemas determinou a elaboração do presente estudo. Tendo D.Francisco de Sousa Coutinho ocupado o cargo de governador e capitão-general de Angola de 1764 a 1772, tomámos estes anos como limite cronológico. No entanto, gostaríamos de referir que o período que corresponde à governação em Angola do antecessor de Sousa Coutinho, D.António de Vasconcelos ( ), será também merecedor da nossa atenção, tendo em conta que importa compreender em que medida é que alguma ou algumas das acções de Sousa Coutinho foram ou não oriundas da actuação do seu antecessor. Da mesma forma, tornou-se para nós fundamental perceber qual a linha governativa do seu sucessor, D.António de Lencastre ( ), se de continuidade ou ruptura. Com a nossa investigação sobre o governo de Sousa Coutinho em Angola pretendemos responder ao conjunto de questões acima enunciadas, numa tentativa de compreender o que foi a presença portuguesa naquele território, tendo em consideração, de um lado, as questões de política, administração e economia coloniais; do outro, as transformações ocorridas entre os poderes e as sociedades africanas, procurando corrigir a perspectiva fortemente eurocêntrica que tem caracterizado em Portugal e até data recente, os estudos relacionados com a história da presença portuguesa em Angola. Informação Sobre Bibliografia e Fontes É extremamente escassa a bibliografia respeitante ao governo de Sousa Coutinho em Angola.

5 4 Da década de trinta até ao início da de setenta deste século, alguns autores portugueses publicaram estudos referentes ao governo de D.Francisco de Sousa Coutinho em Angola. No seu conjunto, esta produção historiográfica, surgida no contexto do Estado Novo visava o enaltecimento da presença portuguesa em Angola e a sua legitimação junto das outras nações europeias. Assim, o governo de Sousa Coutinho em Angola, enquanto objecto de análise, servia os propósitos do poder político de então dado que era tido como uma época gloriosa do passado imperial, contribuindo para justificar a actuação portuguesa da altura. O resultado imediato desta visão da história aplicada ao governo de Sousa Coutinho foi a adopção de uma perspectiva eurocêntrica em que a exaltação dos feitos portugueses constituía o único objecto digno de estudo. A bibliografia sobre o governo de D.Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho teve como autores Gastão de Sousa Dias 1, Maria Teresa Amado Neves 2, Jofre Amaral Nogueira 3, Ralph Delgado 4 e António da Silva Rego 5. Em todos os autores encontramos um discurso estruturado em torno da apologia da figura e do governo de Sousa Coutinho. Escrevendo sobre os vários aspectos da actuação do governador D.Francisco de Sousa Coutinho e sem aferir de uma forma exaustiva ou sistemática a sua originalidade ou real dimensão, Gastão de Sousa Dias, Maria Teresa Amado Neves, Jofre Amaral Nogueira e Ralph Delgado, procuraram dar uma imagem idealizada da presença deste governador em Angola 6. 1 Gastão de Sousa Dias, D.Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho. Administração Pombalina em Angola, Lisboa, Editorial Cosmos- Cadernos Coloniais, nº 27, Maria Teresa Amado Neves, " D.Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho: Aspecto moral da sua acção em Angola " in I Congresso de História da Expansão Portuguesa no Mundo 4ª Secção- Africa, Lisboa, Sociedade Nacional de Tipografia, 1938, p.p Jofre Amaral Nogueira, Angola na época pombalina. O governo de Sousa Coutinho, Lisboa, Ralph Delgado, " O governo de Sousa Coutinho em Angola " in Stvdia, VI, Julho 1960, p.p.19-56; VII, Janeiro 1961, p.p.49-86; X, Julho 1962, p.p António da Silva Rego, " A Academia Portuguesa da História e o II Centenário da Fábrica do Ferro de Nova Oeiras, Angola " in Colectânea de Estudos em Honra do Prof.Doutor Damião Peres, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1974, p.p Excepção no caso de António da Silva Rego, Ob.Cit., p.p Este autor refere com clareza o problema do fracasso do empreendimento da fábrica do ferro de Nova Oeiras e com base em

6 5 Partindo do pressuposto de que o século XVIII teria sido um período de decadência na história de Angola, pressuposto nunca confirmado, viram em Sousa Coutinho alguém que conseguira, nas palavras de Ralph Delgado " sanear o ambiente de maneira a moralizá-lo à europeia " 7. A apologia de Sousa Coutinho é algo que perpassa ao longo do discurso daqueles autores, havendo momentos em que se revela particularmente eloquente. Para Ralph Delgado, D.Francisco de Sousa Coutinho foi " o homem que melhor compreendeu o admirável futuro reservado a Angola e quem mais trabalhou a seu favor " 8. Segundo Gastão de Sousa Dias, o governador Sousa Coutinho " imaginava soldar as pedras de um grandioso império (...) que desde o princípio do estabelecimento dos portugueses em Angola constituía uma aspiração instintiva da raça (...) o ideal secular de um povo por índole criador de nações 9. Jofre Amaral Nogueira refere Sousa Coutinho como um " homem íntegro e esclarecido (...) incansavelmente devotado ao progresso da província " 10. Toda a política de Sousa Coutinho foi para Amaral Nogueira " uma genial antecipação (...) tendo contribuído para a grandiosidade da obra nacional em Africa " 11 Tal situação no tocante à bibliografia obrigou-nos a uma renovada atenção relativamente às fontes primárias com vista a preencher lacunas, a pesquisar aspectos não tratados; em suma, empreender uma reinterpretação do governo de Sousa Coutinho em Angola à luz de uma nova perspectiva. Para a concretização do nosso objectivo, pesquisámos nos principais arquivos portugueses. O principal núcleo arquivístico consultado foi o Arquivo Histórico Ultramarino, repositório de grande parte da documentação relativa à expansão ultramarina portuguesa onde abundam manuscritos referentes à documentação. Nos restantes autores, as referências bibliográficas ou documentais, quando existem, são muito escassas. 7 Ralph Delgado, Ob.Cit., ( X ) p.p Ralph Delgado, Ob.Cit., ( X ) p.46 9 Gastão de Sousa Dias, Ob.Cit., p.p Jofre Amaral Nogueira, Ob.Cit., p.p Jofre Amaral Nogueira, Ob.Cit., p.p

7 6 história administrativa, económica, militar, política e social das colónias portuguesas 12. A documentação por nós consultada, documentos avulsos nas caixas de Angola e códices do Conselho Ultramarino, é constituída, no caso dos códices, quase exclusivamente por correspondência procedente da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos e dirigida aos governadores e outros altos funcionários coloniais em Luanda. Os códices oferecem uma fonte extremamente útil no seguimento do processo legislativo colonial aplicado em Angola e das motivações que guiavam os legisladores em Lisboa. As caixas de Angola contêm, na sua maioria, correspondência procedente de Angola e dirigida à Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, designadamente cartas e ofícios do governador contendo importante e abundante informação acerca da história social, económica, política e militar de Angola. Representando apenas a versão oficial dos acontecimentos e reflectindo os problemas relacionados com o poder colonial, a documentação consultada poderá apresentar um outro tipo de limitação dado que se dedica exclusivamente a assuntos e a acontecimentos que se reportam a Luanda e ao seu hinterland. Contudo, é preciso não esquecer que Luanda era capital e sede de governo e o seu hinterland, principal núcleo económico da colónia, a área que mais preocupava os funcionários coloniais. Informação sobre outras regiões tais como o planalto de Benguela, a costa norte ou o Kongo, são muito escassas e espaçadas. Devemos ainda salientar que, pelo facto de a documentação existente ser quase maioritáriamente constituída por correspondência dirigida de Luanda para Lisboa, a informação trocada entre funcionários do governo de 12 José Curto, " A colecção de manuscritos angolanos do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa " in Revista Internacional de Estudos Africanos, 6-7, Janeiro-Dezembro 1987, p.p Este trabalho de José Curto revelou-se um bom instrumento de trabalho para o início da nossa pesquisa no Arquivo Histórico Ultramarino.

8 7 Luanda e os funcionários dos presídios do interior é em muito menor número. O mesmo se passa em relação à documentação que circulava entre o governo de Luanda e os chefes africanos. Além do importante volume de informação contido nos ofícios de Sousa Coutinho para a Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, conseguimos localizar e analisar, na secção de Reservados e Manuscritos da Biblioteca Nacional, 3 códices contendo na sua totalidade correspondência entre o governador e os funcionários dos presídios do interior, assim como alguma correspondência com os régulos africanos 13. Ainda dentro das fontes primárias manuscritas, temos de mencionar a pesquisa no Arquivo Nacional da Torre do Tombo onde encontrámos alguns elementos relevantes e complementares dos dados recolhidos no Arquivo Histórico Ultramarino e no Arquivo Histórico Militar, onde a documentação consultada relativa ao século XVIII revelou-se escassa mas bastante significativa 14. No âmbito das fontes primárias impressas, a consulta da obra Arquivos de Angola 15 revelou-se de extrema importância dado que contém alguma documentação do Arquivo Histórico de Angola e do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Luanda, arquivos que, infelizmente, não pudémos consultar. Encontrámos ainda documentação com interesse editada por Alfredo de Albuquerque Felner na obra Angola. Apontamentos sobre a colonização dos planaltos e litoral do sul de Angola, datada de José Curto, Ob.Cit., p.290. Não podemos deixar de mencionar a utilidade deste trabalho de José Curto dado que foi através dele que conseguimos localizar estes 3 códices na secção de Reservados e Manuscritos da Biblioteca Nacional. Sem ele teria sido, certamente, muito mais difícil, senão mesmo impossível. 14 Boletim do Arquivo Histórico Militar, 47, 1977, p.p Este número contém um catálogo exaustivo de toda a documentação relativa a Angola que está neste arquivo, do século XVIII ao século XX. 15 Arquivos de Angola, Luanda, Publicação Oficial Editada pela Repartição Central de Estatística Geral de 1933 a I Série nº 1 a 54, II Série nº 1 a Alfredo de Albuquerque Felner, Angola. Apontamentos sobre a colonização do sul de Angola, Lisboa, Agência Geral do Ultramar, 1940

9 8 Não podemos terminar esta introdução sem referir que nos faltaram as fontes para a elaboração da história do governo de Sousa Coutinho em Angola não baseada exclusivamente na versão oficial e eurocêntrica dos acontecimentos. Os documentos que analisámos são, na sua esmagadora maioria, correspondência dos representantes do poder colonial, poder que se assumia como superior e estando em competição com os poderes locais, e raramente reflectem, pelo menos de forma explícita a versão africana dos acontecimentos 17. Apesar das limitações apontadas, a documentação reunida no decurso da nossa pesquisa nos arquivos de Lisboa permitiu-nos, no seu conjunto, tentar caracterizar e compreender a governação de Sousa Coutinho em Angola, tarefa que dada a sua complexidade, não se esgota nesta dissertação. Esperamos num futuro próximo poder continuar o estudo da presença portuguesa em Angola e juntar aos elementos recolhidos em Lisboa, elementos dos núcleos arquivísticos de Angola, cuja consulta se impõe para a elaboração de estudos mais completos sobre a história da presença portuguesa naquele território assim como das sociedades angolanas. 17 Jan Vansina, Kingdoms of the Savanna, Madison, University of Wiscousin Press, 1966, p.p.3-6 e Beatrix Heintze, " Written sources, oral traditions and oral traditions as written sources- The steep and thorny way to early angolan history " in Paideuma, 33, 1987, p.p Estes autores colocam o problema da diversidade das fontes no domínio da história de Africa e da limitação da documentação escrita, bem como da análise crítica que deve existir aquando da sua leitura.

10 9 PARTE I - ANGOLA EM MEADOS DO SÉCULO XVIII: A Situação do Território e a Dificuldade da Implantação Portuguesa

11 10 Capítulo I- Enquadramento Geral: O Espaço e os Homens Situado no Africa Ocidental, a sul do Equador, o território angolano tem um contorno geográfico característico daquela vasta região do continente africano. Uma estreita planície costeira eleva-se, suavemente, a partir do litoral Atlântico, no norte, e mais abruptamente nos seus segmentos central e meridional até atingir o planalto de Benguela-Bié ( m ) 18 ; inúmeros rios correndo, geralmente, de leste para oeste, por entre as vertentes escarpadas dos planaltos do interior, circunstância que só permite a sua navegação práticamente junto ao litoral Atlântico. Mesmo os rios de maior dimensão como o Zaire ou o Kwanza só são navegáveis perto da costa 19. O deserto é a paisagem que marca a região sul-sudoeste, havendo uma transição gradual para norte, passando por savana seca com eufórbias, acácias e baobás até savana arborizada. A zona de Cabinda, ao norte do rio Zaire, é coberta por selva tropical 20. A precipitação vai diminuindo de norte para sul. Das chuvas periódicas na região do Kongo, chega-se a um clima quase desértico junto ao baixo Kunene 21. A planície costeira e nomeadamente a região de Luanda é bastante árida comparada com os planaltos do interior. Ao longo do litoral, as temperaturas são relativamente moderadas devido à fria corrente marítima de Benguela 22. O clima no interior, designadamente no planalto Benguela-Bié é ameno contrastando com o do litoral cujo Inverno, estação quente, húmida e sem precipitação se revela insalubre, dificultando a fixação humana Grande Enciclopédia Geográfica, Volume I, Lisboa, Verbo, 1985, p Joseph Miller, Kings and Kinsmen. Early Mbundu States in Angola, Oxford, The Clarendon Press, 1976, p Grande Enciclopédia Geográfica, Volume I, Lisboa, Verbo, 1985, p Joseph Miller, Kings and Kinsmen. Early Mbundu States in Angola, Oxford, The Clarendon Press, 1976, p Idem, Ibidem, p Idem, Ibidem, p.32

12 11 Os habitantes do espaço angolano concentram-se nas terras mais propícias à agricultura, não muito numerosas, situadas geralmente junto aos rios. Os grupos Mbundu, população cuja língua é o kimbundu, ocupam as regiões banhadas pelo rio Kwanza 24. A sua agricultura baseava-se numa variedade de safras, principalmente milho-miúdo, arroz, sorgo, inhames e óleo de palma, plantas cultivadas desde tempos antigos 25. Essa agricultura foi-se diversificando com a introdução e gradual adopção das plantas do Novo Mundo, tais como o milho-graúdo e a mandioca, proporcionando maiores e melhores rendimentos 26. Nos sistemas agrícolas dos Mbundu temos também de contar com a presença de algum gado, sobretudo nas zonas onde não havia mosca tsé-tsé 27. Actividades de recolecção como a caça no interior e a pesca no litoral devem, certamente, ter desempenhado um papel importante 28. Paralelamente, há a considerar a circulação de um conjunto de bens essenciais na vida económica destas populações como o sal, o ferro e o cobre, base de um comércio indígena de longa distância, desenvolvido muito antes do advento da presença portuguesa em Angola 29. Além do sal e dos metais, outros bens como os panos de ráfia e palma e, devido à presença portuguesa nesta época, os panos de origem europeia e asiática, além do álcool, e das armas de fogo e pólvora; conchas e missangas, eram os principais produtos usados pelos Mbundu para transacções comerciais, como adornos pessoais, marcas de estatuto social 24 David Birmingham, Central Africa to 1870, Cambridge, Cambridge University Press, 1981, p Jill Dias, Africa. Nas Vésperas do Mundo Moderno, Edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1992, p Idem, Ibidem, p Beatrix Heintze, " Angola nas garras do tráfico de escravos: As guerras do Ndongo ( ) " in Revista Internacional de Estudos Africanos, I, Janeiro-Junho 1984, p.p Beatrix Heintze, Ob.cit., p David Birmingham, " Early African Trade in Angola and its hinterland " in Pre-Colonial African Trade, ed. D.Birmingham e R.Gray, 1970, p.p

13 12 ou emblemas de poder, desempenhando um papel preponderante na sua vida económica e social 30. A maior parte dos Mbundu estava integrada em grupos corporativos parentais ou linhagens cujo chefe exercia um controlo sobre a terra onde habitavam e sobre os seus filhos 31. Este tipo de controle era justificado e legitimado pela terminologia do parentesco, expressão de laços sociais e políticos, tanto no interior dos grupos ou linhagens, como entre si, mesmo quando não exista uma relação de consanguinidade 32. Tal como em outras sociedades do continente africano, entre os Mbundu, as pessoas eram consideradas um recurso de grande valor 33 e o poder do chefe de uma linhagem traduzia-se no número de dependentes que conseguisse agregar à sua volta. Quanto maior o seu séquito, maior a sua força política e também o seu poder económico dado que era a " transacção " dos direitos que exercia sobre os seus filhos e dependentes 34 que lhe proporcionava o acesso aos bens introduzidos pelos europeus, podendo com esses bens adquirir mais dependentes junto de outras linhagens 35. Os Mbundu encontram-se no espaço que constituía, em meados do século XVIII, a área de influência portuguesa situada entre os rios Dande, a norte, e Kwanza, a sul, conhecida e encarada pela corte de Lisboa como " o reino de Angola e suas conquistas " 36. Ocupava as regiões do extinto reino do Ndongo, um estado independente e relativamente poderoso até meados do século XVII, altura em que fora derrotado pelos portugueses com o 30 Jill Dias, Africa. Nas Vésperas do Mundo Moderno, Edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1992, p Idem, Ibidem, p Idem, Ibidem, p Joseph Miller, Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade , Madison, Wisconsin University Press, Em especial ver capítulo 2 The Value of Material Goods and People in African Political Economies p.p Acerca da questão dos direitos sobre as pessoas nas sociedades africanas ver de Igor Kopytoff e Suzanne Miers " African Slavery as an Institution of Marginality " in Slavery in Africa. Historical and Anthropological Perspectives, Madison, University of Wisconsin Press, 1977, p.p A expressão " dependentes " engloba um conjunto de indivíduos que podiam ser parentes, clientela ou escravos do chefe de linhagem. Ver Joseph Miller, Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade , Madison, Wisconsin University Press, 1988, p.42 e ss 36 Idem, Ibidem, p.34

14 13 auxílio dos povos Imbangala 37, encontrando-se dividido em sobados ( ou comunidades rurais ) cujos chefes ou sobas descendiam da aristocracia do extinto reino do Ndongo 38. Em toda a área de influência portuguesa, que também incluía a sul do Kwanza o presídio de Benguela e seus arredores, a presença das comunidades Luso-Africanas, comunidades nascidas da união entre portugueses e africanas ao longo do século XVII, era uma realidade. Em meados do século XVIII, os Luso-Africanos desempenhavam um importante papel no tráfico atlântico de escravos como agentes dos mercadores de Luanda junto dos potentados africanos do interior fornecedores dos escravos, mercadoria que alimentava o principal negócio do Atlântico Sul 39. Na área exterior à influência portuguesa há a considerar o Império Lunda, situado a leste do rio Kwango; a oeste deste rio, os potentados de Kasanje, do Holo e de Nzinga-Matamba, todos ligados ao mundo português dado que são os seus fornecedores de escravos 40. O reino do Kongo e os potentados Musulu, a norte do Dande; Sonyo, junto ao rio Mbrije e os povos Mubire ou Vili na região do Loango fornecem escravos aos ingleses, franceses e holandeses, concorrentes dos portugueses e daí a difícil relação que têm com a administração de Luanda Jill Dias, Africa. Nas Vésperas do Mundo Moderno, Edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1992, p.121 e também Joseph Miller, " The Imbangala and the Chronology of Early Central African History " in The Journal of African History, Volume 13, nº4, 1972, p.p Joseph Miller, Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade , Madison, Wisconsin University Press, 1988, p Idem, Ibidem, p.245 e ss. Sobre o tema dos Luso-Africanos ver ainda de Jill Dias " Uma Questão de Identidade: Respostas Intelectuais às Transformações Económicas no Seio da Élite Crioula da Angola Portuguesa entre 1870 e 1930 " in Revista Internacional de Estudos Africanos, I, Janeiro-Junho 1984, p.p Joseph Miller, Way of Death. Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade , Madison, Wisconsin University Press, 1988, p.p Idem, Ibidem, p.p.35-37

15 14 Por último, é ainda de referir a Kisama, região de importantes salinas e refúgio de escravos em fuga 42 e, ao sul, os potentados Ovimbundu no planalto de Benguela-Bié 43. A implantação e dimensão da administração portuguesa na zona entre Dande e Kwanza e a forma como procurou sobreviver face a este complexo mapa étnico-político são as questões que nos propomos abordar no próximo capítulo da Parte I da nossa dissertação. 42 Idem, Ibidem, p Idem, Ibidem, p.28

16 Capítulo II- O Reino de Angola em Meados do Século XVIII 15 Na sequência dos contactos estabelecidos com o reino do Kongo em finais do século XV 44, os portugueses, mais concretamente os habitantes de São Tomé e Príncipe, começaram a frequentar a costa de Angola à procura de fornecimentos de escravos 45. Nesta época, o principal poder da região era um estado Mbundu conhecido na documentação portuguesa como o reino do Ndongo cujo rei se intitulava Ngola, encontrando-se situado no interior, no planalto de Luanda 46. As origens do reino do Ndongo são pouco conhecidas, embora investigação recente indique que o poder político e espiritual do Ngola residia no seu controlo de dois bens essenciais ao funcionamento da economia das populações da região- os depósitos de ferro junto ao rio Lukala e as rotas do sal da Kisama 47. Os primeiros contactos formais entre Ndongo e Portugal ocorreram em 1520, em resposta a um apelo do Ngola Inene Kiluanji, feito através do rei do Kongo, solicitando o envio de missionários cristãos 48. Com o propósito de divulgar o cristianismo junto do Ngola e seu povo, foram enviados os emissários Manuel Pacheco e Baltasar de Castro. Contudo, pouco se sabe do resultado desta primeira missão oficial portuguesa no Ndongo As caravelas portuguesas chegaram ao estuário do rio Zaire por volta de Maio de 1483, Jill Dias, " As primeiras penetrações portuguesas em Africa " in Portugal no Mundo, Volume I, Lisboa, Alfa, 1989, p.p Jean-Luc Vellut, Questions Speciales d Histoire de L Afrique, Université Nationale du Zaire- Campus de Lubumbashi, Faculté des Lettres- Département d Histoire, , p.p David Birmingham, Central Africa to 1870, Cambridge, Cambridge University Press, 1981, p.p Jill Dias, " As primeiras penetrações portuguesas em Africa " in Portugal no Mundo, Volume I, Lisboa, Alfa, 1989, p.p Idem, Ibidem, p.p Monumenta Missionária Africana, I Série- Africa Ocidental ( ), Volume I, Regimento de Manuel Pacheco e Baltasar de Castro, 16 de Fevereiro de 1520, p.p

17 16 Entretanto, os habitantes de São Tomé e Príncipe tinham intensificado os seus contactos com o Ngola, desenvolvendo-se o tráfico de escravos para aquele arquipélago, à revelia do coroa 50. Em 1559 parte de Lisboa uma nova expedição comandada por Paulo Dias de Novais, talvez com a finalidade de negociar com o Ngola uma maior participação da metrópole neste tráfico com o Ndongo. Esta segunda missão acabou por falhar devido à hostilidade do novo Ngola, Ndambi, que entretanto tinha ascendido ao poder, terminando uma fase, relativamente pacífica, de actividade portuguesa em território angolano 51. Quando Paulo Dias de Novais regressou ao Kwanza em 1575 foi como donatário de uma faixa de território junto ao litoral, dando início a uma política completamente nova em relação à Africa Ocidental a sul do Equador. Ao contrário da presença pacífica no Kongo, voltada para a missionação e para os contactos diplomáticos, em Angola assistiu-se a uma política de conquista militar e a uma tentativa de colonização do território 52. A forte oposição do Ngola à presença dos portugueses teve por consequência quase um século de conflitos, acabando o reino do Ndongo por ser derrotado na década de Os portugueses preservaram o nome " Ngola " para designar a região conquistada que passou a ser conhecida por " reino de Angola " ( uma corruptela de Ngola ) ou ainda por " colónia de Angola " Jill Dias, " As primeiras penetrações portuguesas em Africa " in Portugal no Mundo, Volume I, Lisboa, Alfa, 1989, p.p Idem, Ibidem, p.p A carta de doação outorgada a Paulo Dias de Novais pelo rei D.Sebastião em 1571 é clara quanto ao seu principal objectivo: " D.Sebastião etc Aos que esta minha carta virem faço saber que vedo e conssiderando em quanto couem a seruiço de Noso Senhor e tão bem ao meu mandar sogeitar e conquistar o Reyno d Angola " in Monumenta Missionária Africana, I Série- Africa Ocidental ( ), Volume III, p.36. É feita a Paulo Dias de Novais uma doação irrevogável de 35 léguas de terra " na costa do dito Reyno de Angola que começará no rio Quanza e agoas vertentes a elle pera o sul e etrara pella terra dentro quanto poderem entrar e for de minha conquista, da qual terra pella dita demarcação lhe asj faço doação e merce de juro e d erdade pera todo o sempre como dito he ", Idem, Ibidem, p Jill Dias, Africa. Nas vésperas do mundo moderno, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1992, p.121. Os portugueses só conseguiram derrotar o reino do Ndongo devido à aliança estabelecida com os povos Imbangala; sobre este assunto ver Joseph Miller, " The Imbangala and the chronology of early Central African history " in The Journal of African History, Volume 13, nº4, 1972, p.p José Carlos Venâncio, A economia de Luanda e hinterland no século XVIII- Um estudo de etnologia histórica, Lisboa, 1985, p.p.21-22

18 17 A) A Administração do Espaço Sob Domínio Português Em meados do século XVIII, o território angolano que estava sob administração portuguesa compreendia duas zonas. A primeira estava delimitada a norte pelo rio Dande, a sul pelo Kwanza, a leste pelo Lukala e a oeste pelo oceano Atlântico. A segunda era a zona de Benguela. Nesta extensão territorial a afirmação do poder político português era extremamente precária permitindo que até ao século XIX coexistissem várias soberanias. A portuguesa, confinada ao litoral e a alguns presídios no interior, a de diversos potentados localizados fora do reino de Angola e, por vezes, hostis ao governo de Luanda e a dos sobados, que reconhecendo o governador português, não permitiam que a sua autoridade se exercesse nos seus domínios 55. Em suma, apenas uma diminuta parcela do território se podia considerar sob jurisdição portuguesa visto que às portas de Luanda e junto aos presídios que circundavam o Kwanza, o domínio era já precário. Apesar desta difícil situação, a manutenção de Angola justificou-se no facto de o tráfico de escravos ter constituído, desde o início da presença portuguesa no território, o fulcro da sua vida económica em estreita ligação com a economia do Brasil. Enquanto fornecedor de mão-de-obre escrava, sustentáculo da economia brasileira dos séculos XVII e XVIII, Angola, assim como outros domínios da costa ocidental africana, foi considerado, na perspectiva da coroa portuguesa, um espaço vital orientado para o desenvolvimento de uma política colonial atlântica protagonizada pelo Brasil Carlos Couto, Os capitães-mores em Angola no século XVIII. Subsídio para o estudo da sua actuação, Luanda, Instituto de Investigação Científica de Angola, 1972, p Maria Luísa Esteves, " Para o estudo do tráfico de escravos de Angola ( ) " in Stvdia, nº50, 1991, p.p.79-95

19 18 Data de finais do século XVII o início da definição do contorno administrativo do território angolano que, com ligeiras alterações no século seguinte, chegou, quase incólume, ao século XIX 57. Após a fundação da vila de São Paulo de Assumpção de Luanda em 1576, elevada a cidade em , seguiu-se a conquista e tentativa de ocupação do interior orientada por três objectivos: procura de metais preciosos, nomeadamente prata que se supunha existir no sertão; difusão do cristianismo, componente essencial em toda a expansão portuguesa; e o comércio de resgate e tráfico de escravos que depressa assumiu uma importância primordial 59. Na convicção de que hipotéticas minas de prata se encontravam na região de Cambambe, a linha natural da penetração portuguesa no sertão foi o curso do rio Kwanza 60. Perante a constatação da inexistência das minas de prata de Cambambe foi para o tráfico de escravos que se voltaram as atenções. A ocupação militar do território e o alargamento do tráfico de escravos levaram ao aparecimento de povoações e à construção de fortalezas. Além de Luanda, no litoral, foram surgindo no interior, desde finais do século XVI até meados do século XVIII alguns presídios que funcionavam como postos avançados na defesa de Luanda e seu hinterland 61. Se a doação a Paulo Dias de Novais, feita nos termos das cartas de doação das capitanias brasileiras, representou uma primeira tentativa de delimitação do território, do seu reconhecimento e da exploração dos seus recursos naturais, foi a chegada, em 1592, do primeiro governador-geral que marcou, de facto, o início de uma política colonizadora assumindo-se a metrópole como orientadora exclusiva e única entidade financeira do 57 Carlos Couto, Ob.Cit., p José Carlos Venâncio, Ob.Cit., p.p Carlos Couto, Ob.Cit., p Carlos Couto, Ob.Cit., p Carlos Couto, Ob.Cit., p.104

20 19 processo de conquista militar, processo que se prolongou até finais do século XVII 62. A mesma situação observava-se no século XVIII. O governo e administração do reino de Angola estavam integralmente nas mãos da coroa, representada no terreno pelo governador e capitão-general, nomeado pelo rei por um período de 3 anos 63. Ao embarcarem para Angola, os governadores levavam o seu " regimento ", documento onde constavam os pontos fundamentais a ter em conta no exercício das suas funções 64. O regimento do governo-geral de Angola passado em 26 de Março de 1607 ao governador então nomeado, Manuel Pereira Forjaz, teria sido, porventura, o primeiro organizado em moldes gerais dele constando instruções esclarecedoras da administração pública e da evolução territorial de Angola no início do século XVII 65. No regimento do governo de Angola outorgado a Aires de Saldanha de Meneses em 1676 encontra-se definida a jurisdição atribuída ao governador enquanto primeiro magistrado do território que se apresenta válida para o século XVIII. No capítulo 43º, ao determinar-se a sua alçada no foro civil e judicial, são-lhe concedidos amplos poderes: " Hey por bem que em quanto servirdes o dito governo tenhães jurisdição no civel e no crime em toda a gente moradora e estante nese reyno e em toda a mais que a elle for (...) e nos cazos crimes vos e o dito ouvidor geral tereis jurisdição ate morte natural incluzive asim nos portugueses como christãos da terra, escravos e gentios em todos os cazos, asim para absolver como para condenar sem apelação e agravo (...) " 66. Era-lhes confiado o governo civil e militar do território assim como a presidência da Junta da Fazenda e da Junta Criminal, instituições criadas 62 Ralph Delgado, História de Angola, s.l., Edição do Banco de Angola, s.d., Volume I, p.p Marcelo Caetano, " As reformas pombalinas e post-pombalinas respeitantes ao Ultramar. O novo espírito em que são concebidas " in História da Expansão Portuguesa no Mundo, Volume III, Lisboa, Ática, 1940, p.p Carlos Couto, Ob.Cit., p.p Ralph Delgado, Ob.Cit., Volume II, p A.H.U., Angola, Códice 544, fl.1-28 v- Regimento do governo de Angola dado a Aires de Saldanha de Meneses de 12 de Fevereiro de 1676, capítulo 43º

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