UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ PRISCILLA BENTO E SILVA DA CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ASSISTENCIAL AO ESTRANGEIRO RESIDENTE NO BRASIL

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1 UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ PRISCILLA BENTO E SILVA DA CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ASSISTENCIAL AO ESTRANGEIRO RESIDENTE NO BRASIL CURITIBA 2013

2 PRISCILLA BENTO E SILVA DA CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ASSISTENCIAL AO ESTRANGEIRO RESIDENTE NO BRASIL Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade Tuiuti do Paraná como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito. Orientador: Professor Oswaldo Pacheco Lacerda Neto CURITIBA 2013

3 TERMO DE APROVAÇÃO PRISCILLA BENTO E SILVA DA CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ASSISTENCIAL AO ESTRANGEIRO RESIDENTE NO BRASIL Esta monografia foi julgada e aprovada para a obtenção da conclusão de grau de bacharelado do Curso de Direito da Universidade Tuiuti do Paraná. Curitiba,,, Bacharelado em Direito Universidade Tuiuti do Paraná Prof. Eduardo de Oliveira Leite Coordenador do Núcleo de Monografias do Curso de Direito da Universidade Tuiuti do Paraná Orientador: Prof. Dr. Oswaldo Pacheco Lacerda Neto Universidade Tuiuti do Paraná Prof. (a) Dr. (a) Universidade Tuiuti do Paraná Prof. (a) Dr. (a) Universidade Tuiuti do Paraná

4 Dedico esta monografia a meu marido Alessandro Roberto de Bruyn e minha família pelo apoio prestado. Aos meus amigos pelo companheirismo e a todos que, de alguma forma, contribuíram para a realização deste trabalho.

5 Agradeço ao meu marido Alessandro Roberto de Bruyn pela compreensão, companheirismo e carinho. Agradeço especialmente ao professor Oswaldo Pacheco Lacerda Neto, por ter compartilhado seus conhecimentos e gentilmente ter me orientado e cedido seu tempo, para conclusão do presente trabalho. Agradeço meus familiares, em especial minha mãe Maria Aparecida Bento, meus amigos e professores pela paciência e apoio. A todos que, de alguma forma, contribuíram para a concretização deste trabalho, registro meu sincero agradecimento.

6 A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. Franz Kafka

7 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO SEGURIDADE SOCIAL CONCEITO Ramos da Seguridade Social Assistência social Saúde Previdência social ASSISTÊNCIA SOCIAL Evolução histórica da Assistência Social no contexto da Seguridade Social no mundo Antiguidade Idade Média Estado Absolutista Estado Liberall Estado do Bem Estar Social (Welfare State) Neoliberalismo EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL NO CONTEXTO DA SEGURIDADE SOCIAL NO BRASIL Constituição Federal de Constituição Federal de Constituição Federal de Constituição Federal de Constituição Federal de Constituição Federal de Constituição Federal de OBJETIVOS PRINCÍPIOS Princípios Constitucionais explícitos Princípio da universalidade de cobertura e atendimento Princípio da seletividade e distributividade de benefícios e serviços Princípio da proteção aos indivíduos em situação de

8 vulnerabilidade ou risco social Princípio da promoção da integração à sociedade e ao mercado de trabalho Princípio da descentralização político administrativa Princípio da participação popular Princípios Constitucionais Implícitos Princípio do respeito à dignidade do cidadão Princípio da ampla divulgação de prestações programas e projetos assistenciais ORGANIZAÇÃO E GESTÃO CUSTEIO BENEFÍCIO PREVISÃO LEGAL DO BENEFÍCIO DE PRESTAÇÃO CONTINUADA LOAS REQUISITOS LEGAIS PARA A CONCESSÃO DO LOAS Critério Objetivo Comprovação de hipossuficiência Critério Subjetivo Do amparo social ao idoso Do amparo social ao portador de deficiência DA POSSIBILDIADE DE CONCESSÃO DE BENEFÍCIO ASSISTENCIAL AO ESTRANGEIRO DA REPERCURSSÃO GERAL DO PROJETO DE LEI CONCLUSÃO REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA... 59

9 RESUMO Trata da possibilidade de concessão de benefício assistencial ao estrangeiro residente no país. O presente trabalho tem como escopo abordar o direito do estrangeiro a obtenção de benefício assistencial, através da análise de aspectos econômicos, jurídicos e sociais pertinentes ao tema, tendo em vista as diversas controvérsias jurisprudenciais acerca do referido benefício assistencial. Pretende-se demonstrar a possibilidade de concessão de benefício assistencial ao estrangeiro residente no Brasil através da análise de dispositivos constitucionais e da inserção do Brasil na ordem internacional pela adesão a tratados internacionais assecuratórios de direitos humanos. Foi utilizada metodologia de pesquisa bibliográfica da doutrina previdenciária e da jurisprudência dos tribunais federais e superiores para a realização de pesquisa bibliográfica e teórica..a partir de uma breve análise da questão à luz dos princípios constitucionais, podemos deduzir a equiparação de direitos e deveres entre os nacionais e estrangeiros. A Dignidade da pessoa humana é um princípio base e orientador de qualquer Estado Democrático de Direito que tenha como objetivo o desenvolvimento humano e bem estar social. Neste contexto, a assistência social, contemplada em nosso no ordenamento jurídico, no artigo 203 da Constituição Federal de 1988, a qual é regulamentada pela Lei n.º 8.742/93 (Lei de Assistência Social), traz os requisitos para a obtenção do benefício assistencial. Palavras-chave: benefício assistencial LOAS, Lei n 8.742/93, estrangeiro residente no país.

10 9 1 INTRODUÇÃO Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil a erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais, conforme explicitado no at. 3. º da Constituição Federal. A assistência social, prevista nos art. 203 e 204 da Carta Magna é um dos instrumentos que viabiliza a consecução de tal objetivo. A assistência social tem como escopo amparar aqueles que se encontram em situação de miséria e, por conseguinte, incapazes de prover a sua própria subsistência de forma digna. O inciso V, do art. 203 da CF/88, trata de maneira clara e objetiva que a assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. Portanto, o recebimento de tal benefício independe de filiação junto a previdência social ou qualquer tipo de contribuição prévia ou período estipulado de carência. Observamos ainda, que a Constituição Federal, não faz qualquer distinção entres nacionais ou estrangeiros, tampouco faz menção à relação jurídica ou política entre o indivíduo e Estado, bastando, portanto, que o assistido preencha os requisitos estipulados em lei. De acordo com o doutrinador MASSAYUKI TSUTIYA (2008, p. 437) os critérios previstos em lei podem ser divididos em requisito subjetivo e objetivo: quais sejam, ser idoso por idoso entende-se o indivíduo com 65 anos de idade ou mais, conforme prevê o art. 34 do estatuto do idoso, Lei n / ou portador de deficiência física que não possua meios de prover à própria vida ou de tê-la provida pela sua família, cuja renda per capita seja inferior à ¼ do salário mínimo vigente (art. 3.º, parágrafo 3.º da Lei 8.742/93). Dispõe ainda o art. 34 da Lei /2003 (Estatuto do Idoso), o benefício de assistência social concedido à um outro membro familiar, não servirá de base de cálculo da renda familiar per carpita para a concessão do benefício à outras pessoas pertencentes ao mesmo grupo familiar.

11 10 O benefício não será pago quando ausentes as condições que deram origem a concessão do benefício ou pelo falecimento do beneficiário. O benefício assistencial é intransferível e, portanto, não gera direito de pensão aos dependentes. Foi regulamentado pela Lei n.º 8.742/93, denominada Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), no art. 20. O benefício visa garantir o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, insculpido no art. 1.º da Constituição Federal que assim dispõe: Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; A dignidade da pessoa humana está diretamente ligada ao provimento de condições mínimas necessárias a existência e desenvolvimento do ser humano. Não há de se falar em promoção da dignidade da pessoa pelo Estado sem a atuação direta deste, quando se faz necessário. Nesse sentido preceitua o professo Celso Ribeiro de Bastos: Embora dignidade tenha um conteúdo moral, parece que a preocupação do legislador constituinte foi mais de ordem material, ou seja, a de proporcionar às pessoas condições para uma vida digna, principalmente no que tange ao fator econômico. Por outro lado, o termo "dignidade da pessoa" visa a condenar práticas como a tortura, sob todas as suas modalidades, o racismo e outras humilhações tão comuns no dia-a-dia de nosso país. Este foi, sem dúvida, um acerto do constituinte, pois coloca pessoa humana como fim último de nossa sociedade e não como simples meio ara alcançar certos objetivos, como por exemplo econômico.(2002, páginas 248 e 249). Salienta-se ainda, o art. 5.º, parágrafo 2.º da Carta Magna, a qual prevê que direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. Senão vejamos: Art.5.º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

12 11 2.º. Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. O Brasil é signatário do Pacto de São José da Costa Rica que em seu preâmbulo discorre sobre a natureza dos direitos fundamentais reconhecendo-os como os direitos essenciais da pessoa humana que não derivam do fato de ser ela nacional de determinado Estado, mas sim do fato de ter como fundamento os atributos da pessoa humana, razão por que justificam uma proteção internacional. Ademais, todos os direitos previstos no Pacto de São José da Costa Rica, como o direito a vida, a liberdade entre outros, de uma forma ou outra, já se encontram positivados na Carta Magna. Vale ressaltar, que o artigo 32 do referido pacto prevê a solidariedade entres a humanidade. Vejamos: Artigo 32 - Correlação entre deveres e direitos: 1. Toda pessoa tem deveres para com a família, a comunidade e a humanidade. 2. Os direitos de cada pessoa são limitados pelos direitos dos demais, pela segurança de todos e pelas justas exigências do bem comum, em uma sociedade democrática. O princípio da solidariedade também é um princípio constitucional disposto no artigo 3.º, inciso I. Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; Neste viés, vislumbra-se a possibilidade de concessão de benefícios assistencial ao estrangeiro, tendo em vista o status e o respeito que os direitos humanos possuem dentro do sistema jurídico brasileiro, bem como a observância ao princípio da solidariedade que norteia nossa Constituição, não obstante ser ainda um dos objetivos do Estado Brasileiro.

13 12 2 SEGURIDADE SOCIAL 2.1 CONCEITO Seguridade social é expressão adotada pelo Constituinte de 1988, composta pelo direito à saúde, pela assistência social e pela previdência, conforme dispõe o art. 194 da CF: Art A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. A Seguridade Social decorre dos fundamentos da República pautados na cidadania e nos Princípios da Dignidade da Pessoa Humana e dos Valores Sociais do Trabalho e da Livre Iniciativa, todos insculpidos no art. 1.º da Carta Magna. Senão vejamos: Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I in omissis II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa Ademais, o art. 3.º da Constituição Federal apresenta os objetivos fundamentais da República: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. A construção de uma sociedade livre, justa e solidária, repousa na consecução dos objetivos dispostos no art. 3.º da Constituição Federal, orientando-se pelos princípios e fundamentos expostos no art. 1.º da Carta Magna.

14 13 A professora e doutrinadora Marisa Ferreira dos Santos define a conceitua seguridade social como: Trata-se de normas de proteção social, destinadas a prover o necessário para a sobrevivência com dignidade, que se concretizam quando o indivíduo, acometido de doença, invalidez, desemprego, ou outra causa, não tem condições de prover seu sustento ou de sua família (2012, pg. 35) [grifo do autor]. Já o professor e doutrinador Augusto Massayuki Tsutiya define a seguridade da seguinte forma: O constituinte determinou que responsável pela Seguridade Social composta por Saúde, Previdência e Assistência Social, é a sociedade, que conjuntamente com o Poder Público, deverá encetar diversas ações para atingir os objetivos nela colimados. (2008, pagina 25). Possui como base o primado do trabalho, e como objetivo o bem-estar e a justiça sociais, conforme dispõe o art. 193 da carta Magna. Trata-se de uma proteção social, englobando, portanto, os direitos sociais como o direito à educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade, à infância e a assistência aos desamparados, todos elencados no art. 6.º da CF/88, que assim dispõe: Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. Observa-se, desta forma, que fora traçado como objetivo precípuo a criação de um sistema protetivo, capaz de atender aos anseios e necessidades de todos os membros da comunidade como um todo, dentro da esfera social. 2.2 RAMOS DA SEGURIDADE SOCIAL Assistência Social Encontra-se positivada nos art. 203 e 204 da CF/88, por ser um dos pilares da Seguridade Social, abarcado na parte que trata da Ordem Social.

15 14 A Assistência Social tem como escopo a proteção social aos hipossuficientes, através do pagamento de benefícios assistenciais àqueles que deles necessitam, preenchidos os requisitos legais e independentemente de prévia contribuição ou cumprimento de período de carência. Encontra-se disposto no art. 203 da Constituição Federal de 1988: Art A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos: I a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; II - o amparo às crianças e adolescentes carentes; III - a promoção da integração ao mercado de trabalho; IV - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. A lei 8742/93 regulamenta o art. 203, V da CF/88. Entre os objetivos traçados pela Lei 8742/93, que dispõe sobre a Assistência Social encontram-se a proteção social, que visa à garantia da vida, à redução de danos e à prevenção da incidência de riscos, especialmente; a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; o amparo às crianças e aos adolescentes carentes; a promoção da integração ao mercado de trabalho; a habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; a garantia de 1 (um) salário-mínimo de benefício mensal à pessoa com deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê-la provida por sua família; a vigilância socioassistencial, que visa a analisar territorialmente a capacidade protetiva das famílias e nela a ocorrência de vulnerabilidades, de ameaças, de vitimizações e danos, a defesa de direitos, que visa a garantir o pleno acesso aos direitos no conjunto das provisões sócio assistenciais (art. 2.º da LOAS). Busca-se, através da referida lei, a proteção daqueles indivíduos mais desfavorecidos e, portanto, mais vulneráveis, sendo-lhes proporcionado e garantido, uma prestação assistencial, objetivando prover-lhes o mínimo necessário para uma existência digna. Logo, a assistência social visa garantir meios de subsistência às pessoas que não tenham condições de suprir o próprio sustento, dando especial atenção às crianças, velhos e deficientes, independentemente de contribuição à seguridade social.

16 Saúde Dispõe o art. 196 da Constituição Federal: Art A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Desta forma, a saúde é um dos três pilares que compõe o sistema de seguridade social. Para Massayuki Tsutiya: Trata-se de direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. É direito subjetivo público. O Estado tem obrigação de prestá-lo, independentemente de contribuição (2008, p. 25). O art. 2.º da lei 8080/90 prevê: Art. 2º A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício. O artigo de lei supracitado se coaduna com o Princípio da Dignidade Humana, no qual se insere o Princípio da Universalidade, nas suas duas dimensões (atendimento e cobertura). A saúde aqui é interpretada em sentido lato, abrangendo o bem estar físico, mental e social, conforme previsto no art. 3.º, parágrafo único da Lei 8080/90. Vejamos: Art. 3º A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País. Parágrafo único. Dizem respeito também à saúde as ações que, por força do disposto no artigo anterior, se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem-estar físico, mental e social. Nas palavras do doutrinador MASSAYUKI TSUTIYA:

17 16 Uma definição mais ampla é apresentada pela Organização Mundial de Saúde, que conceitua a saúde como a situação de completo bem-estar físico e mental do ser humano. Nessa perspectiva, o conceito de saúde depende de condicionamentos mais amplos do que o simples estado individual de estar são. São condicionamentos biológicos (sexo, idade, herança genética), o meio físico (ocupação territorial, alimentação), socioeconômico e cultural (níveis de emprego e renda, educação e lazer, liberdade etc.) (2008, p. 393). De uma forma geral, a lei 8080/90 regula em todo o território nacional, as ações e serviços de saúde, executados isolada ou conjuntamente, em caráter permanente ou eventual, por pessoas naturais ou jurídicas de direito Público ou privado (art. 1.º) Previdência Social A previdência social é um dos ramos da seguridade social. De acordo com o doutrinador AUGUTO MASSAYUKI TSUTIYA a relação jurídicoprevidenciária baseia-se no binômio evento-proteção social, tendo como fundamento a necessidade social. Nas palavras de AUGUTO MASSAYUKI TSUTIYA: Ocorrido o evento gerador do infortúnio, nasce o direito à prestação social caso o segurado ou seus dependentes se encontrem em estado de necessidade social. Com isso se desloca a questão a ser analisada em direção ao evento e não ao risco, como defende a maioria dos doutrinadores. (2.008, p. 187). Já Feijó Coimbra defende a tese de haver três categorias de normas. Segundo o doutrinador, a primeira estabelece a relação de filiação. Em suas palavras: A primeira das categorias por que se distribuem as regras de Direito Previdenciário determina a relação de vinculação ou de filiação. É a que se instaura quando tem lugar o fato da vida material a que a lei atribui força para vincular o cidadão, que dele participa, sob certa forma e em certo tempo, a um sistema estatal de proteção. Pode-se fixar seu conceito como a que liga um cidadão a uma instituição previdenciária, tornando-o segurado seu, e se instaura, de modo automático, no momento mesmo em que dito cidadão exibe as condições, na lei mencionadas como caracterizadoras dos segurados da referida instituição. (2001, p. 66).

18 17 A segunda relação jurídica é a de amparo ou de proteção, que se caracteriza pelo preenchimento dos requisitos legais para obtenção da prestação prevista em lei (2001, página 67). A terceira relação jurídica é a de custeio, ou seja, somente àqueles que contribuem podem se beneficiar desta proteção. Nas palavras de Feijó Coimbra: Finalmente, a terceira das relações jurídicas é a de custeio, expressão que preferimos à cotização, já que, como se verá oportunamente, a previdência social caminha, de modo decidido, para despegar-se das fórmulas de custeio por contribuições pessoais dos segurados, das cotas de salário, ao cabo (2001, p. 67). Assim, sendo, verifica-se que a relação jurídica entre o indivíduo e a Previdência se pauta em três requisitos: filiação à previdência, preenchimento dos requisitos legais para a concessão do benefício, assim como contribuição financeira.

19 18 3 ASSISTÊNCIA SOCIAL O art. 6.º da Constituição Federal dispõe que a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e a infância e a assistência aos desamparados constituem direitos sociais. Assevera o professor e doutrinador José Afonso da Silva : [...] os direitos sociais, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direita ou indiretamente, enunciada em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao direito de igualdade.( 2008, p. 286). Eles se subdividem em direitos sociais relativos ao trabalhador, direitos sociais relativos a seguridade, direitos sociais relativos à educação e à cultura; direitos sociais relativos à moradia; direitos sociais relativos à família, criança, adolescente e idoso e direitos sociais relativos ao meio ambiente. Neste prisma, abordaremos com mais profundidade a assistência social, que encontra-se inserida dentro dos diretos sociais relativos à seguridade social. 3.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL NO CONTEXTO DA SEGURIDADE SOCIAL NO MUNDO Antiguidade A assistência social constiui-se num dos primeiros sistemas de proteção social, desde o Código de Hamurab, do Código de Manú (Ìndia) e da Lei das XII Tábuas, passando pela Era Contemporânea por meio das famosas Poor Laws, de inspiração inglesa (TSUTIYA, 2008, p.415). Tais códigos continham preceitos de proteção às pessoas necessitadas assim como os trabalhadores, no entanto, não consistia ainda em um uma garantia propriamente dita, vez que ausentes mecanismos jurídicos capazes de coagir o Estado observar tal preceito Idade Média

20 19 Na Idade Média surgiu o sistema de proteção social denominado mutualismo. Nas palavras do doutrinador Augusto Massayuki Tsutiya: Consistia na contribuição financeira de um grupo de pessoas visando à proteção recíproca. Formavam-se fundos para socorrer membros do grupo em momentos de dificuldade.como exemplo desse sistema, citem-se os sodalitates romanos, os coleggia e heterias, as confradias, as guildas ou ligas (na Idade Média). (2008, pg. 4). A Idade Média se caracterizou pela presença de uma sociedade eminentemente estamental (clero, nobreza e povo), e pela presença de feudos, que instituíam os seus regramentos individualmente, pouco se importando com a grande maioria. No entanto, com o decorrer das transformações sociais, em especial a Revolução Industrial, que mudou as relações de trabalho assim como os fatores de risco decorrente desta relação, criou-se a necessidade de se repensar um sistema mais plural e de maior alcance, com o escopo de propiciar uma maior cobertura aos necessitados Estado Absolutista Em 1601, ao final do reinado da Rainha Elizabeth na Inglaterra, foi criada a lei dos pobres, que previa a concessão de auxilio financeiro aos necessitados, tendo se pautado nos princípios de assistência pelo trabalho, obrigatoriedade de contribuições para fins assistenciais. Ademais, atribuiu-se as paróquias a assistência de socorros e de trabalho Estado Liberal O Estado Liberal caracterizou-se pela intervenção mínima do Estado na sociedade. Surge no séc. XVIII e se pauta em valores burgueses, quais sejam, a liberdade, propriedade privada, individualismo entre outros. Buscava-se uma limitação do poder estatal de forma a facilitar as relações comerciais.

21 20 A obra A Riqueza das nações do economista Adam Smith, que abordava tais questões, foi um marco tanto no campo do pensamento econômico quanto jurídico. O acúmulo de capital, oriundo do comércio colonial, a abundância de matéria prima e mão de obra e a existência de um mercado consumidor, foi um campo fértil para a eclosão da Revolução Industrial na Inglaterra. No entanto, o crescimento social não desenvolveu- se tanto como o tecnológico e econômico, ante a total ausência de regulação das condições de trabalho que vigoravam na época. Os ideais liberais que imperavam naquele período, impediam a intervenção do Estado na economia, não havendo, portanto, nenhuma regulação estatal que equilibrasse as relações de trabalho vigentes. Nas palavras de Augusto Massayuki Tsutiya; A burguesia, acuada diante dos crescentes movimentos sociais, como sempre acontece, preferiu entregar os anéis para não perder os dedos. Para evitar tal desígnio, houve por bem instituir sistema de proteção social aos trabalhadores. (2008, p. 5). Assim, em 1886, o Chanceler Ottto Von Bismark das Alemanha, desenvolveu um projeto de proteção aos trabalhadores na forma de um seguro social, que fora base para a criação do seguro contra a velhice e a invalidez. O sistema possuía a base tríplice de custeio: empregados, empregadores e o Estado. Outros países europeus adotaram o sistema bismarckiano, como a França e a Inglaterra, tendo se universalizado a ponto de atingir a América assim como a Ásia Estado do Bem Estar Social (Welfare State) O Estado do Bem-Estar Social se caracteriza pela atenção dispensada aos setores sociais fundamentais, no que tange a garantia das condições mínimas para o desenvolvimento humano de forma digna e sadia, bem como o direito de acesso desses serviços por parte do cidadão. O modelo beveridgeano, criado no governo do então Presidente Franklin Roosevelt, prescindia de contribuição por parte do segurado, possuindo, portanto, caráter de proteção universal.

22 21 Afirma o doutrinador Augusto Massayuki Tsutiya: O Presidente Roosevelt preocupado com a questão social, colocou em prática a política do New Deal, embasado na filosofia do Welfare State (Estado do Bem Estar Social). Baseava-se no princípio de que o Estado Democrático tem o dever de assegurar a cada cidadão um nível de vida suficientemente digno e colocar acima de tudo o bem-estar social. Para sua implementação, criou-se o célebre Social Security Act, em 1935, que se tornaria a seguridade social americana. (2008, p.6). O artigo 85 da Declaração Universal dos Direitos do Homem dispõe sobre a seguridade social nos seguintes termos: Art. 85 Todo o homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos, os serviços sociais indispensáveis, o direito à seguridade social no caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice, ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora do seu controle (ONU, 1948, Declaração Universal). Desta forma, a Declaração Universal dos Direitos do Homem inclui a proteção previdenciária como um direito fundamental da pessoa humana Neoliberalismo O Neoliberalismo, suplantou de forma gradativa a o ideal de Estado Social, através de um recuo da intervenção estatal, dando maior margem de auto regulação do mercado. No Brasil tal política tem causado grandes retrocessos, principalmente no tocante às conquistas no âmbito previdenciário alcançado pela Constituição de Porém, apesar dos avanços políticos assegurados na Constituição Federal de 1988 (englobando Saúde, Previdência e Assistência Social), a lógica privatista vem se constituindo na prática, a principal característica das políticas sociais. A década de 1980 é marcada por conquistas legais, mas ao mesmo tempo inicia-se no país a partir do governo Collor ( ) e no governo de Fernando Henrique Cardoso ( ), estendendo-se ao governo atual, a construção de um projeto político de inspiração neoliberal que atendendo aos interesses internacionais, procura ajustes estruturais. Isto às custas da redução de investimentos públicos na área social, reduzindo os ganhos diretos e indiretos da classe trabalhadora, com vistas ao equacionamento da crise fiscal. Portanto, desestruturam-se conquistas sociais que constitui o legado histórico de fundamental importância para o sistema de proteção social. (ARAÚJO, 2009, p. 4).

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