Complexos recicláveis Em função da realização dos próximos megaeventos esportivos mundiais por aqui Copa de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016, grandes obras de arquitetura voltada para os esportes (estádios, complexos esportivos, velódromos, parques aquáticos, vilas olímpicas) serão construídas, nos próximos anos, na cidade e no país. E um imenso volume de recursos econômicos e logísticos será empregado nessas construções, que devem atender às exigências e normas da FIFA e do COI. Mas, infelizmente, quase todos esses novos edifícios tendem a ficar ociosos depois desses eventos e, devido ao seu alto custo de manutenção, acabar entregues à própria sorte. Alguns estádios com capacidade para 70 mil pessoas serão construídos em cidades cuja média de público em dias de jogo (dois dias por semana, se tanto) é de, aproximadamente, dois mil pagantes. Assim como os novos elefantes brancos sul-africanos, legados da última copa, construções monumentais ociosas estão se espalhando por todo o planeta nas cidades e países que sediaram, ou sediarão eventos esportivos mundiais por duas ou quatro semanas. Abandonados (porque obsoletos ou inviáveis) e degradados, estádios vêm sendo derrubados para a construção de condomínios e shopping-centers, na maioria das vezes em processos extremamente dispendiosos e poluentes. Os mesmos que serão empregados em um grande número de demolições e construções ao longo dos próximos anos. Por isso mesmo, esta é uma oportunidade única para se pensar no conceito de reciclagem de forma ampliada. Se a cidade vai virar um canteiro de obras, e se o que se vai construir mexerá com a sua imagem e o seu ambiente, que se aproveite a ocasião para incorporar métodos de construção mais eficientes e menos danosos ao entorno e à população. Primeiramente, deve-se buscar a reciclagem de tudo o que pode ser reaproveitado na própria construção. Os processos de reciclagem de resíduos da construção e demolição (RCD) estão atualmente em um estágio bastante avançado, em termos de tecnologia e eficiência, para que possam ser implantados em larga escala. Faltam ainda políticas públicas, municipais e estaduais, com investimentos em infra-estrutura, incentivos econômicos e parâmetros ambientais estabelecidos pelo(s) governo(s), para uma transformação da cultura do setor da construção civil (também) por parte da iniciativa privada. O estágio inicial de pesquisa e experimentação foi cumprido com sucesso e a reciclagem de materiais na construção deve nortear todas as novas edificações
no município e no estado do Rio de Janeiro. Usinas de reciclagem podem ser construídas e exploradas por empresas do setor, que são as produtoras da própria matéria-prima, contando com um incentivo governamental pelo investimento ambientalmente responsável. Programas e projetos de lei nesse sentido têm sido implantados e aprovados em diversas cidades, no país e no exterior, estabelecendo regras e parâmetros para o processamento, a produção e o emprego de agregados reciclados na construção civil. Em São José do Rio Preto (SP), por exemplo, já se atingiu 93% de captação correta de resíduos e 70% de reciclagem na pavimentação viária e na produção de blocos e dutos de agregado reciclado. Usinas de reciclagem de resíduos nas próprias áreas a serem edificadas e urbanizadas podem reduzir significativamente custos, danos ambientais e desperdício de material, energia e tempo. Mapeando-se as construções e demolições projetadas para os próximos anos, podem ser definidas as áreas de maior incidência de obras e, consequentemente, os locais para o estabelecimento das usinas. Cada usina atendendo, preferencialmente, à própria área a ser definida de acordo com a capacidade de processamento e a demanda projetada para as futuras construções. Essas usinas poderão ser transferidas após a urbanização e edificação da área, ou quando a matéria-prima (RCD) e a demanda (novas construções) se encontrarem a grande distância rodoviária. A gestão ambientalmente responsável sobre todo o processo de reciclagem é fundamental ao longo de suas etapas: desde a demolição e a separação de resíduos até o emprego dos materiais reciclados. Soluções para os problemas acarretados pelo próprio processo de reciclagem têm sido desenvolvidas visando à redução de danos para os trabalhadores e o meio ambiente. Os efeitos da poeira resultante do transporte, estocagem e trituração do concreto, por exemplo, são minimizados com a hidratação dos resíduos, a utilização de caçambas e esteiras cobertas, máscaras e vestimentas adequadas para os trabalhadores, cabines fechadas para operadores de máquinas (ver imagens). E métodos relativamente simples como a filtragem antes da trituração e o aproveitamento do produto em diferentes estágios de processamento para usos diversos aterro, pavimentação, produção de agregados podem aumentar a produtividade, e reduzir a poluição, significativamente. Somada ao benefício da matéria residual reaproveitada como matéria-prima, a reciclagem primária (do resíduo reprocessado para o mesmo fim) ou secundária (do resíduo reprocessado para outro fim) é capaz de promover uma economia de custos diretos e indiretos, que passam, muitas vezes, despercebidos. Todo o
transporte utilizado para a retirada e o despejo de entulho, e para o recebimento de material de construção, acarreta em gastos e desperdício de combustível, energia, mão-de-obra, e tempo com o agravo da poluição e dos danos às vias públicas, não pavimentadas para a circulação pesada constante, que implicam em novas obras para conserto e remendo, e então mais trânsito e poluição (aérea, sonora e visual). Outros custos aliados à falta de prevenção contra danos ambientais tendem a ser encobertos sob a ocorrência de doenças do trabalho e consequentes faltas, licenças e tratamentos médicos, bem como de multas e processos jurídicos. Assim é que os efeitos prejudiciais de demolições e construções não voltadas para a reciclagem e a redução de danos, além de afetarem as próprias empresas, se alastram sem que percebamos os motivos de situações críticas (engarrafamentos, poluição, buracos) que afetam a cidade e o cidadão, diariamente. Situações estas que, seguramente, se intensificarão nos próximos anos. Por isso, é preciso pensar também na reciclagem das próprias construções que serão erguidas; uma vez que o público e a estrutura de uma copa do mundo e uma olimpíada são evidentemente excessivos, tais edificações não conseguirão se manter após estes eventos. É aí que se deve prever e projetar o reaproveitamento de grandes instalações esportivas para outros fins. Um estádio, ou um parque esportivo que, terminado o evento, ficaria ocioso, subaproveitado, com algumas alterações pode virar um condomínio, um shoppingcenter, um hotel temático estando essa transformação já prevista no projeto original. Projeto este que, além de poder aproveitar o próprio campo, quadras e pistas como atrativos para as suas instalações, deveria estar alinhado com os novos modelos de sustentabilidade (captação e tratamento de água, energia solar e eólica, resíduos). Desta forma, empresas poderiam participar do empreendimento, com a incorporação ou a compra para posterior adaptação e exploração comercial da edificação. Naturalmente, reformas terão que ser feitas para uma mudança de finalidade; o que se propõe aqui é que essas transformações sejam projetadas previamente e que, na sua execução, sejam incorporadas novas tecnologias de construção, visando à redução de custos, desperdício e transtornos, imediatos e futuros, para o ambiente, a cidade e os seus habitantes. Ricardo Tamm
Imagens de apresentações de: Tarcisio Pinto, e Gabriëlla Janssen na conferência RCD como Material de Construção, realizada pela Escola Politécnica da USP, em abri de 2008.
Imagens ilustrativas da semelhança formal e dimensional entre projetos de estádios, condomínios e shoppingcenters.