MICRONUTRIENTES EM ALGODÃO Ciro A. Rosolem (Faculdade de Ciências Agronômicas, UNESP, Botucatu. E-mail: rosolem@fca.unesp.br) Abstract Among the micronutrient deficiencies in cotton, Boron deficiency has been the most common. In sandy soils with low organic matter contents, where lime and macronutrients are applied as fertilizers, zinc deficiency can sometimes be observed, and with an even lower frequency Mn deficiency may occur. Mn toxicity can impair cotton yields in low ph soils. Copper, Iron and Molybdenum deficiencies are not expected to occur in Brazil. For B, soil analysis, using hot water as B extractor, is an important tool in recommending fertilizers and preventing deficiencies. B fertilization in cotton must be applied to the soil. As regarding Zn, one application of 4-5 kg ha -1 has shown to be enough to prevent deficiency and warrant high yields. This fertilization has shown a residual for more than 5 years. For Mn, considering that the deficiency is very rare, foliar ferlitization may be recommended as visual symptoms are noticed. On the other hand, liming is the best tool to deal with Mn toxicities in some Brazilian regions. Key words: boron, manganese, zinc Resumo Para a cultura do algodão, a deficiência de boro é a mais comum dentre os micronutrientes. Em solos arenosos, pobres em matéria orgânica, que recebem calagem e são bem adubados com macronutrientes, existe a possibilidade de ocorrência de deficiência de zinco e, com menor probabilidade, de manganês. A toxicidade de manganês pode prejudicar a produtividade do algodoeiro em solos com ph baixo. Deficiências de cloro, de cobre, de ferro e de molibdênio dificilmente ocorrerão no Brasil. Para o B a análise de terra, usando a água quente como extrator, tem sido eficiente na previsão de resposta e recomendação de adubação, que deve ser feita via solo. No caso do zinco, uma aplicação de doses da ordem de 4 a 5 kg ha -1, de forma corretiva, tem poder residual por mais de 5 anos, não havendo necessidade de reposição antes disso. Para o manganês, uma vez que a deficiência é muito rara, pode ser empregada a adubação foliar, que tem apresentado bons resultados em outras espécies, como a soja. Por outro lado, a calagem tem sido a melhor ferramenta para evitar a toxidez de Mn em algumas regiões do Brasil. Palavras-chave: boro, manganês, zinco Introdução O presente trabalho foi elaborado com base na revisão apresentada por Rosolem et al. (2001), complementada com a adaptação e interpretação de resultados originais de pesquisa obtidos pela Fundação MT (Zancanaro et al., 2002)
Boro Dependendo da severidade da deficiência de B em algodão, não há crescimento, os pecíolos ficam retorcidos e o limbo foliar se deforma, adquirindo aspecto semelhante ao pé de pato causado por toxicidade do herbicida 2,4 D. Pode haver morte da gema apical, com brotamento das gemas laterais. Quando a deficiência não é tão severa, os sintomas manifestam-se a partir do florescimento, com o aparecimento de brácteas cloróticas, corolas atrofiadas e queda excessiva de botões florais. Os frutos, atrofiados, apresentam necrose interna na base e caem. Nos pecíolos de folhas bem formadas, na parte superior da planta, aparecem anéis verde-escuros, com pilosidade mais intensa e necrose interna da medula. As folhas mais novas podem apresentar clorose e enrugamento. Teores de boro acima de 16 mg kg -1 nas folhas recém-maduras podem ser considerados suficientes para um bom crescimento e produção, embora tenha sido indicada como adequada a faixa de 30 a 50 mg kg -1 de B no limbo da quinta folha a partir do ápice, em amostragem feita em pleno florescimento. No Mato Grosso, teores de B na folha do algodoeiro da ordem de 30 mg kg -1 ou mais foram suficientes para a máxima produtividade. Por outro lado, teores de até 100 mg kg -1 não foram suficientes para diminuir a produtividade. Com relação ao comportamento diferencial de cultivares, não se notou diferenças entre IAC 20, IAC 22 e Deltapine ITA-90 quanto à resposta ao boro em solução nutritiva, embora ITA 90 tenha se mostrado mais exigente. Por outro lado, Fibermax 966 parece ser menos responsiva ao boro. O algodoeiro tem respondido à aplicação de boro, principalmente em solos arenosos, pobres em matéria orgânica, com acidez corrigida e bem adubados com nitrogênio, fósforo e potássio. Com a calagem aumenta o potencial de resposta ao fertilizante, fazendo com que a cultura suporte doses de boro um pouco maiores. É importante notar que doses acima das adequadas podem ser fitotóxicas ao algodoeiro. Desta forma, o uso indiscriminado de fórmulas contendo boro pode prejudicar mais do que auxiliar na produtividade da cultura. A adubação adequada regulariza o ciclo e o tamanho das plantas, aumenta o peso médio dos capulhos e das sementes e melhora certas qualidades da fibra, como o comprimento e a maturidade. Em condições de deficiência moderada a baixa, quando, freqüentemente, não se evidenciam os sintomas de carência, a aplicação de pequenas doses de boro (entre 0,3 e 0,8 kg ha -1 ) no solo, por ocasião da semeadura, tem se mostrado eficiente, sem apresentar qualquer risco de toxicidade. A aplicação em cobertura, por ocasião do desbaste, de doses até maiores (1,0 kg ha -1 de B) poderia substituir a adubação de semeadura mencionada. Aplicações foliares de boro, apesar de muito efetivas para aumentar o teor do nutriente nas folhas, resultam em menor produtividade que a aplicação em cobertura, junto com a adubação nitrogenada, enquanto que aplicações no sulco de semeadura, ou metade no sulco, metade em cobertura, proporcionam as melhores respostas. Se recomenda aplicar, na adubação de semeadura, pelo menos 0,5 kg ha -1 de B, em solos corrigidos e freqüentemente adubados com NPK, se o teor do elemento no solo for inferior a 0,6 mg dm -3. Em solos arenosos, pobres em matéria orgânica, com teores de boro inferiores a 0,21 mg dm -3, é recomendada a aplicação de até 2,0 kg ha -1 do nutriente, aumentando esta quantidade para 2,5 kg ha -1 caso algum sintoma de deficiência já se tenha evidenciado. Em faixa intermediária, de 0,21 a 0,60 mg dm -3 de B no solo, a recomendação é para aplicar de 0,5 a 2,0 kg ha -1 de B na mistura de adubos aplicada na semeadura. No Mato Grosso, a aplicação de até 10 kg ha -1 de B não foi suficiente para evidenciar sintomas de fitotoxicidade.
Com relação à fonte de boro a ser utilizada, bórax (110 g kg -1 de B) e ácido bórico (170 g kg -1 de B) são as mais comuns; fritas (20-60 g kg -1 de B) ou colemanita (170 g kg -1 de B) têm sido utilizadas em solos arenosos, visando contornar possíveis problemas de lixiviação de boro. Manganês O algodoeiro acumula de 260 a 450 g ha -1 do nutriente. Ao final do ciclo, em média, 56% está nas folhas, 20% nas hastes, 18% nos capulhos e 6% nas sementes. Plantas deficientes em manganês apresentam uma leve clorose marginal e internerval nas folhas mais novas, as quais têm o limbo com bordas voltadas para baixo. A toxicidade de manganês em algodão se caracteriza por enrugamento das folhas mais novas e pontuações negras entre as nervuras, que evoluem para necrose. Além disso, plantas cultivadas em níveis mais altos de manganês apresentaram menor número de maçãs. Embora existam indicações de que a produtividade do algodoeiro somente seria afetada pela deficiência de manganês quando os teores nas folhas recém-maduras estivessem abaixo de 20 ou 30 mg kg -1. No Mato Grosso, quando o solo tinha 6,0 mg dm -3 de Mn (extraído com Melich), e as folhas tinham mais do que 20 mg kg -1 de Mn, não foi observada resposta ao nutriente. Por outro lado, as variedades Deltapine 90 e Coodetec 401 mostraram-se menos sensíveis à toxicidez de manganês do que a variedade IAC 22. Como o comportamento do manganês na planta é muito variável em função das condições do meio, a diagnose foliar não é uma ferramenta muito útil. Assim, para o manganês, a diagnose visual é mais importante. Considerando que é possível a ocorrência de toxidez de Mn, dependendo da variedade empregada e da região do País, e considerando ainda que, no cerrado, o algodão somente vem sendo cultivado em solos previamente corrigidos, a aplicação de Mn deve ser muito criteriosa. Por exemplo, seria interessante esperar a manifestação inicial do sintomas nas folhas e então proceder a correção via aplicação foliar, que tem se mostrado bem eficiente para outras espécies, tal como a soja. Zinco O algodoeiro absorve de 103 a 184 g ha -1 de Zn, sendo que 23% do total encontram-se nas folhas, 18% nas hastes, 11% nos capulhos e 48% nas sementes. A deficiência de zinco se manifesta por clorose marginal e internerval das folhas mais novas. Algumas folhas mostram manchas cloróticas com formas e contornos irregulares. Quando a deficiência se desenvolve tardiamente, o porte é normal, mas os frutos não se desenvolvem a contento. Dependendo da severidade da deficiência, há diminuição do número de nós, que resulta em menor altura de plantas, assim como menor número de botões. Os teores de zinco na quinta folha do algodoeiro, a partir do ápice, no florescimento, considerados como adequados estão na faixa de 25 a 200 mg kg -1. No Mato Grosso, foi verificada resposta do algodoeiro a Zn, apenas no primeiro ano do experimento, quando as plantas apresentavam menos que 40 mg kg -1 de Zn. Assim, o limite de 25 mg kg -1 pode ser um pouco baixo para as condições brasileiras. Em solo ácido, corrigido por calagem e adubação mineral, a omissão do micronutriente chegou a diminuir em 28% a produção. Se recomenda, na fase de correção de solos de cerrado, aplicar 3 kg ha -1 de Zn se o teor no solo for inferior a 0,6 mg dm -3 (extrator DTPA), visando evitar o aparecimento de
eventuais sintomas de deficiência. No Mato Grosso, foi observada resposta do algodoeiro ao Zn, no primeiro ano do experimento, quando o solo tinha menos que 3,0 mg dm -3 de Zn, extraído por Melich. Outros micronutrientes As plantas deficientes em cobre apresentam um reticulado fino com leve clorose, principalmente nas segundas folhas a partir do ápice. Teores de cobre acima de 8 mg kg -1 na matéria seca de folhas recém-maduras podem ser considerados suficientes. Por outro lado, um teor de 100 mg kg -1 é tóxico ao algodoeiro. No Brasil, não se tem notícia de resposta do algodoeiro à aplicação de cobre. No Mato Grosso, quando o solo tinha mais que 0,8 mg dm -3 de Cu e as folhas, mais que 6,5 mg kg -1 de Cu não foi observada resposta do algodoeiro ao micronutriente. A deficiência de ferro se manifesta nas folhas mais novas da planta, caracterizando-se por forte clorose do limbo foliar. As nervuras principais e secundárias permanecem verde-claras. Teores de ferro menores do que 50 mg kg -1 nas folhas recém-maduras do algodoeiro podem ser considerados deficientes. Não se espera a ocorrência de deficiência de ferro na cultura do algodão no Brasil. Plantas de algodão deficientes em molibdênio desenvolvem clorose internerval, com as margens das folhas viradas para baixo. As plantas deficientes em molibdênio têm menor número de maçãs e são mais altas, com entrenós mais longos. Os limites de teores de molibdênio nas folhas, associados à deficiência e toxicidade são, respectivamente, 3 e 900 mg kg -1. Como a disponibilidade de molibdênio aumenta com a elevação do ph e o algodoeiro é uma planta sensível à acidez do solo, não se espera a ocorrência de deficiência deste nutriente em lavouras algodoeiras que receberam calagem. Conclusões Tendo em vista as pesquisas realizadas até o presente no mundo e no Brasil, pode-se concluir que, normalmente, é necessária a adubação boratada do algodoeiro. Entretanto, existe método de análise de terra confiável para a previsão da probabilidade de resposta e recomendação da dose do nutriente a ser aplicada. Em solos de uso mais recente, pode ser necessária a aplicação de Zn, que, por sua vez, apresenta poder residual longo, dispensando a aplicação anual. No caso do manganês, considerando que a deficiência, nas condições em que o algodão é cultivado no Brasil, é muito pouco provável, é recomendável que não seja prevista adubação com este micronutriente, a não ser via foliar, visando corrigir uma eventual deficiência que tenha aparecido. Com relação ao cloro, cobre, ferro e molibdênio, não existe a mínima evidência que justifique sua recomendação para a cultura do algodão no Brasil.
Referências Rosolem, C.A.; Quaggio, J.A. e Silva, N.M. Algodão, Amendoim e Soja. In: Ferreira, M.E., Cruz, M.C.P., Raij, B., Abreu, C.A., p. 319-354, Micronutrientes e elementos tóxicos na agricultura. Jaboticabal: CNPq, Fapesp, Potafós. 2001. Zancanaro, L., Hillsheim, J., Tessaro, L.C. Calibração dos teores de Mn, Zn, Cu e B no solo e nas folhas da cultura do algodão cultivado em solo com condições de acidez variável. Relatório técnico parcial encaminhado ao FACUAL. 2002. Micronutrientes em algodão...rosolem.doc