RIO+10 E ERRADICAÇÃO DA POBREZA



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Transcrição:

RIO+10 E ERRADICAÇÃO DA POBREZA SUELY MARA VAZ GUIMARÃES DE ARAÚJO Consultora Legislativo da Área XI Geografia, Desenvolvimento Regional, Ecologia e Direito Ambiental, Urbanismo, Habitação, Saneamento OUTUBRO/2002

2 2002 Câmara dos Deputados. Todos os direitos reservados. Este trabalho poderá ser reproduzido ou transmitido na íntegra, desde que citados o(s) autor(es) e a Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. São vedadas a venda, a reprodução parcial e a tradução, sem autorização prévia por escrito da Câmara dos Deputados. Câmara dos Deputados Praça dos 3 Poderes Consultoria Legislativa Anexo III - Térreo Brasília - DF 2

3 ANTECEDENTES: O combate à pobreza foi um dos assuntos mais debatidos no âmbito da Rio 92. A Conferência do Rio, sem dúvida alguma, representa um marco extremamente importante no que se refere ao tratamento conceitualmente integrado dos temas pobreza e proteção do meio ambiente. A partir da Cúpula do Rio, firmou-se o consenso internacional de que as estratégias de combate à pobreza são passos essenciais para que se alcancem padrões sustentáveis de desenvolvimento. A Agenda 21, o principal documento político produzido pela Rio 92, traz um capítulo específico sobre o tema (Capítulo 3), que propõe programas de capacitação dos pobres para a obtenção de meios de subsistência sustentáveis. As atividades necessárias, segundo o documento devem, entre outros aspectos: centrar-se na atribuição de poder aos grupos locais e comunitários; conter medidas imediatas que capacitem esses grupos a mitigar a pobreza e a desenvolver sustentabilidade; conter estratégia de longo prazo voltada para o estabelecimento das melhores condições possíveis para um desenvolvimento sustentável em níveis local, regional e nacional; abranger diversos setores, especialmente nas áreas do ensino básico, do atendimento primário da saúde, do atendimento às mães e do progresso da mulher; gerar oportunidades de emprego e trabalho, integrando na economia as atividades do setor informal; proporcionar aos pobres acesso aos serviços de abastecimento de água potável e saneamento. Estimou-se, então, o custo total anual médio (1993-2000) da implementação das atividades necessárias nessa área em cerca de 30 bilhões de dólares, sendo 15 bilhões providos pela comunidade internacional em termos concessionais ou de doações, estimativa desde o início explicitada como apenas 3

4 indicativa e aproximada. Os custos reais dependeriam das estratégias e programas específicos que os governos decidissem adotar. O Sistema das Nações Unidas, consoante a Agenda 21, deve atribuir prioridade máxima à mitigação da pobreza, concretizando ações no sentido de assistir os governos na formulação e implementação de programas, promover cooperação técnica entre os países em desenvolvimento nas atividades destinadas a erradicar a pobreza, bem como a cooperação internacional para atacar as suas causas. Em 1997, realizou-se uma sessão especial da Assembléia Geral das Nações Unidas com o objetivo de avaliar os avanços alcançados desde a Rio-92. O encontro, conhecido como Rio +5, constatou a necessidade de assegurar a implementação mais eficiente dos principais compromissos assumidos na Cúpula do Rio, entre eles o da minoração da pobreza. Em 2000, a Comissão de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas sugeriu a realização de uma nova cúpula mundial, com o objetivo principal de produzir mecanismos de implementação da Agenda 21, a Rio +10. RIO +10 E ERRADICAÇÃO DA POBREZA: A Rio +10 reuniu em Johannesburgo, na África do Sul, entre 26 de agosto e 4 de setembro de 2002, representantes de 193 países, num total de 105 Chefes-de-Estado e 7.900 delegados oficiais, para negociar compromissos relacionados à implementação do desenvolvimento sustentável. Na convocação da cúpula, colocou-se como objetivo principal de sua realização a identificação de medidas adicionais com vistas a garantir o cumprimento dos compromissos assumidos no Rio em 1992. Produziram-se dois documentos, a Declaração de Johannesburgo, uma declaração política, e o Plano de Ação, com diretrizes em relação a sete temas: erradicação da pobreza; mudança de padrões de consumo e produção; proteção dos recursos naturais; globalização; saúde; situação de pequenas Estados insulares; e desenvolvimento da África. Assim como aconteceu na Rio 92, o combate à pobreza voltou a ser ponto central nas discussões do encontro, e essa preocupação está refletida nos documentos produzidos. O documento político produzido não contém metas. Com relação direta com o tema erradicação da pobreza, destaquem-se no seu conteúdo, em resumo, os seguintes pontos 1 : o objetivo maior é o de lograr dignidade humana para todos; a proteção ao meio ambiente, o desenvolvimento social e o desenvolvimento econômico constituem três pilares inseparáveis do desenvolvimento sustentável; face às grandes disparidades sociais e econômicas existentes, se nada for feito corre-se o risco de afiançar uma forma de apartheid mundial, no qual os pobres do mundo podem perder a confiança nos sistemas democráticos; um programa global destinado a estreitar as profundas brechas que dividem a sociedade entre ricos e pobres constitui uma promessa a ser cumprida; os desafios mais agudos permanecem sendo a pobreza, o subdesenvolvimento, a degradação ambiental e as desigualdades sociais e econômicas dentro e entre os países; a erradicação da pobreza, a modificação de pautas insustentáveis de produção e consumo, a proteção e gestão de recursos naturais são objetivos primordiais a serem alcançados; 4

5 a separação cada vez maior entre o mundo desenvolvido e o em desenvolvimento é uma grande ameaça à prosperidade, segurança e estabilidade mundiais; é preciso construir capacidades e prover recursos financeiros adequados junto com transferência de tecnologia para terminar com a pobreza e o sub-desenvolvimento; há consenso quanto à urgência em apressar o aporte de recursos para a assistência oficial ao desenvolvimento; reconhece-se que o peso da dívida externa que suportam em particular os países menos adiantados e os países em desenvolvimento em seu conjunto constitui um dos principais obstáculos ao alcance de um desenvolvimento sustentável. O Plano de Ação enfatiza que a erradicação da pobreza é o maior desafio mundial da atualidade e requisito essencial para o desenvolvimento sustentável, em especial nos países em desenvolvimento. Entre outras disposições, estabelece que devem ser efetivadas medidas no sentido de reduzir à metade, até o ano de 2015, a proporção de pessoas no mundo: com renda menor do que um dólar por dia; que passam fome; sem acesso a sistemas seguros de abastecimento de água potável e de esgotamento sanitário. Além disso, dispõe que, até 2020, deve ter sido atingida uma melhoria significativa nas condições de vida de, pelo menos, 100 milhões de habitantes de favelas. Em relação ao conteúdo trazido pela Agenda 21 sobre esses temas específicos, tais metas representam um avanço, se encaradas como um esforço de quantificar objetivos. Elas não constituem, todavia, uma novidade. A Declaração do Milênio das Nações Unidas, firmada em setembro de 2000, citada pelo próprio Plano de Ação aprovado na Rio +10, já estabelecia explicitamente as mesmas metas, da seguinte forma: no âmbito do objetivo erradicar a pobreza e a fome, a meta de, até 2015, reduzir para metade a percentagem de pessoas cujo rendimento é inferior a um dólar por dia e que sofrem de fome; no âmbito do objetivo garantir a sustentabilidade ambiental, as metas de, até 2015, reduzir para metade a percentagem da população que carece de acesso permanente a água potável e de, até 2020, melhorar consideravelmente a vida de pelo menos 100 milhões de habitantes de bairros degradados. No mais, as diretrizes inseridas no Plano de Ação com relação à erradicação da pobreza são absolutamente genéricas e bastante similares a outras já encontradas em documentos precedentes produzidos a partir de encontros internacionais comandados pelas Nações Unidas, em especial a Agenda 21. Enfatiza-se, por exemplo, a necessidade de ações para: desenvolver programas nacionais voltados para o desenvolvimento sustentável; garantir os direitos das mulheres, crianças e comunidades indígenas; implantar infra-estrutura e sistemas de apoio técnico nas áreas rurais; combater a desertificação e mitigar os efeitos das secas e inundações; reforçar a contribuição do setor industrial para a erradicação da pobreza e a gestão sustentável dos recursos naturais. 5

6 O principal problema no Plano de Ação é a falta de inovação não em relação às metas, mas sim em relação a medidas concretas para que elas sejam alcançadas. E, diante da magnitude das tarefas assumidas, provavelmente nenhum dos países signatários acredita que, de fato, haverá o sucesso pretendido na redução desses problemas sociais. Reafirmaram-se promessas anteriores que não estão sendo cumpridas e que todos sabem continuarão a ser quebradas. Falta no Plano de Ação, por exemplo, uma estimativa dos recursos a serem mobilizados para tanto. O documento final da conferência prevê a instituição de um novo fundo internacional, voltado à erradicação da pobreza e de desenvolvimento humano e social nos países em desenvolvimento. Destaca, todavia, que o mesmo deverá ser constituído a partir de contribuições voluntárias, ou seja, não cria quaisquer compromissos de contribuição por parte dos países signatários. A Agenda 21, não obstante a ausência de metas quantitativas, trazia no próprio capítulo sobre combate à pobreza pelo menos uma estimativa tentativa de recursos a serem alocados anualmente. O capítulo do Plano de Ação dedicado aos meios de implementação destaca o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas em relação ao desenvolvimento sustentável, explicitado em 1992 na Declaração do Rio. Clama pela observância por parte dos países desenvolvidos da meta de emprego de 0,7% do Produto Nacional Bruto (PNB) em ajuda a países em desenvolvimento (Official Development Assistence - ODA), prevista pela Agenda 21. Estima-se que, no período 1992-2002, os países desenvolvidos aplicaram apenas 0,22% do PNB em ODA. No processo de elaboração do Plano de Ação, tentou-se incluir um adicional de 0,2%, mas a proposta não passou pelo consenso final. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Tanto em relação ao tema específico erradicação da pobreza, quanto em relação aos demais temas em debate na cúpula, talvez seja errôneo afirmar que a Rio +10 foi um fracasso completo. Teria sido um fracasso, se dela se esperassem muitos resultados. Desde o seu início, no entanto, e durante todos os seus eventos preparatórios, as negociações em torno dos compromissos a serem firmados na conferência deixaram patente que não haveria progressos significativos em relação a 1992. Muito pelo contrário, o clima pró-meio ambiente que marcou a Rio 92 restava apenas em lembranças, e o cenário internacional anunciava para a possibilidade de retrocessos. O que esperar de 2012? É difícil dizer até se vai haver a cúpula de 2012, uma vez que o modelo de mega-conferências temáticas utilizado pelas Nações Unidas vem sendo fortemente questionado em praticamente todos os setores, não apenas em meio ambiente. NOTA DE REFERÊNCIA 1 Pontos extraídos do documento Informe sobre a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável, elaborado por Vitor Gomes Pinto (SESI/CNI), componente da delegação brasileira, disponível na Internet. 208573 6