Entrevista Jornal Zero Hora (RS)



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Transcrição:

Entrevista Jornal Zero Hora (RS) ZH: Grifes europeias estariam voltando seus olhos para emergentes como o Brasil em razão da crise em seus países de origem. Vamos ver abrir mais lojas de produtos de luxo no Brasil? Cláudio Diniz: Com a crise da Europa e Estados Unidos, em 2008, as marcas de luxo voltaram seus olhos para os mercados emergentes como alternativa para o consumo de seus produtos. Os europeus, por exemplo, seguram o consumo em situações de crise, enquanto nos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) isso não ocorre. O mercado brasileiro tem singularidades evidentes nesse contexto. Por um lado, uma população economicamente ativa maior do que as populações de crianças e idosos e, por outro aspecto, o fator de o nosso mercado de luxo ser ainda muito recente.temos apenas 20 anos de mercado de luxo. Além do que, no mesmo ano em que houve a crise internacional, 2008, as agências globais de classificação de risco conferiram ao Brasil o selo grau de investimento seguro. Assim, as empresas pararam de investir na Europa e Estados Unidos e passaram a investir aqui. Sem contar que no nosso País temos a possibilidade de parcelar compras em muitas vezes, o que facilita o consumo de produtos de luxo, e é outra singularidade do mercado nacional. No Brasil, a singularidade de a pirâmide econômica ter a fatia de pessoas economicamente ativas maior do que a das crianças e dos idosos, ambos dependentes, confere ao País melhores condições de consumo e impulsiona a nossa economia. Esse fenômeno ocorre apenas uma vez na História de um país e o Brasil vive este momento desde 2008 e deve durar até, pelo menos 2018. Se traçarmos uma linha do tempo, temos três grandes momentos do mercado de luxo no País. O primeiro data de 1808 com a chegada da família real e os bens de consumo trazidos da Europa. O segundo é marcado pela abertura às importações, em 1992, e o terceiro é o momento atual e as características econômicas que estamos vivendo.

Economia estável, Brasil classificado como seguro para investimentos internacionais, classe média emergente e inclusão de milhões de pessoas na classe C, população economicamente ativa maior do que as de dependentes. Assim, marcas internacionalmente reconhecidas pela produção de produtos luxo e premium, como Chanel, estão abrindo lojas no Brasil. No caso específico dessa grife, a primeira loja foi aberta em 2010, dois anos depois, já estão na terceira e com projeto de abrir novos cinco pontos de venda no País. Todas as lojas Chanel, até o momento, estão em shoppings de luxo de São Paulo. Mas, este mercado não ficará concentrado apenas em São Paulo. Rio de Janeiro, Recife e Curitiba, já estão inaugurando shoppings específicos para grifes de luxo. Outra questão que beneficia o Brasil no contexto regional latino-americano é a crise na Argentina. Buenos Aires, que era tradicionalmente a capital das grifes de luxo na América Latina, está perdendo espaço para o Brasil. Temos como exemplo a Hermes, que sempre teve operação própria em Buenos Aires e, agora, pela situação daquele país, está migrando essa operação para o Brasil, onde até o momento não tinha operação própria da marca. Outra peculiaridade nossa é não termos a tradição de lojas de departamentos com as marcas de luxo operando nelas, nem os tradicionais Duty Free. No Brasil, para operar as empresas deste segmento tem de montar operação própria. O mercado de cosméticos tem o Brasil como terceiro maior mercado consumidor do mundo. Aqui, ele movimenta US$ 50 bilhões por ano. Ou seja, sim veremos muitas novas marcas de luxo abrir negócios no Brasil em vários setores e em diferentes cidades do país. Com os grandes eventos internacionais, como Copa do Mundo e Olimpíadas, os setores de gastronomia e hotelaria estão crescendo muito. No setor automotivo e náutico idem. O Brasil é quarto país consumidor de automóveis luxo e premium. Já no setor náutico ainda temos um universo para

explorar, uma vez que ele está em pleno desenvolvimento no País e com muitas lacunas de infraestrutura e produtos. Essa expansão reflete em inúmeros setores de bens de consumo. 2) Dizer que a classe C é que está ajudando a impulsionar o mercado de luxo no Brasil não é um certo exagero? Cláudio Diniz: Não é exagero dizer que a classe C impulsiona o mercado de luxo no Brasil. Temos 35 milhões de pessoas que entraram para esta fatia econômica no Brasil, nos últimos cinco anos. Eles podem não comprar a bolsa Chanel, que custa muito para seu poder aquisitivo, mas compram o perfume da Chanel e, assim, participam do mercado de luxo e de seu crescimento. Embora não haja uma mensuração exata e confiável do crescimento do mercado de luxo no Brasil, sabe-se que ele cresce. Digo, não há exata porque as agências internacionais diferem nos dados, mas todas apontam crescimento. A empresa GfK aponta movimento de R$ 20 bilhões reais para o mercado de luxo por ano no Brasil, enquanto a Merrill Lynch fala em 3,5 bilhões de euros e a Bain and Company em 5 bilhões de euros. Ou seja, os números ainda que não fechem convergem ao citar o crescimento do setor. Temos que ter um olhar diferenciado para a classe C e para os novos milionários brasileiros, esses têm comportamento diferente dos tradicionais milionários. Primeiro, ficam chocados com os valores e, logo, passam a comprar esses produtos luxo e Premium. O grande desafio é saber como atraí-los e como fazê-los comprar. Só em 2012, o Brasil teve 76 novos bilionários, a maioria vinda dos setores agropecuário, do futebol e das celebridades. Sabia que a cada dia 30 pessoas ficam milionárias no Brasil? Ou seja, a cada 50 minutos temos um novo milionário no País. Empresas como Merylink e Bain Comphany apontam que em 2017 o Brasil vai ter mais milionários do que a China. Serão 675 mil

milionários aqui, contra 508 mil milionários na China. O que fortalece ainda mais o mercado de luxo no Brasil. 3) O que o Sr. pensa quando vê alguém na rua com uma bolsa de grife falsificada? Cláudio Diniz: Temos que analisar que o Brasil não é um país de falsificação. A China fabrica tanto produtos falsificados quando não falsificados. O Brasil não tem esta característica. Aqui, a Polícia Federal é muito ativa contra esta situação e não propicia a falsificação. Os produtos entram no Brasil vindos da China, de Hong Kong e da Coreia. Quando olhamos uma pessoa com algum produto falsificado, temos que analisar o seguinte: as pessoas usam porque querem este status social. Embora, muitas vezes aqueles que convivem com essas pessoas que usam produtos falsificados saibam que ela não teria condições econômicas para comprar um produto original daquela marca. Não importa para eles, o que querem é usar também a marca de luxo. E a falsificação já está disseminada. Embora o Brasil tenha uma cultura contra essa situação, não tem como barrar a entrada destes produtos. Há também aqueles brasileiros que viajam e se dão ao direito de comprar produtos falsificados. Há um fator psicológico de que as pessoas ao viajarem se permitirem viver determinadas experiências. Pessoas com poder aquisitivo, compram falsificações no exterior, ainda que produtos falsificados, mas do exterior. O mundo está mudando. Mês passado houve uma movimentação interessante em Paris em relação às falsificações. As pessoas estavam vestindo bolsas escrito fake. Estamos num momento em que se pode fazer o que quiser. Está na moda na Europa dizer que o produto é falsificado, daqui a pouco esta onda chega ao Brasil. Além do que, as pessoas misturam produtos verdadeiros e falsos.. Eu não uso e sou consciente que se você usar produtos falsificados estar contribuindo com as máfias. No Brasil, você estaria financiando a máfia do tráfico de drogas, já na Europa a máfia do terrorismo, na China a da mão de obra escrava. É uma questão de

consciência. Esta cadeia de produção de falsificação é mafiosa, mas a s pessoas muitas vezes não têm consciência dessa realidade. Se tem, acredito que não compram. Usar uma grife também é aderir a um estilo de vida. O consumidor ativo que sabe disso, tem consciência que ao usar uma Osklen está aderindo a uma marca que valoriza o meio ambiente e assim por diante. Esse consumidor ativo tem e busca o acesso a valores com os quais compactua e que sabem que as marcas seguem e trabalham ativamente para isso através de seus produtos.