1 A Arte Cristã Primitiva O termo arte paleocristã, ou paleocristianismo, não designa propriamente um estilo, referindo-se antes a todo o tipo de formas artisticas produzidas por ou para cristãos, durante a vigência do Império Romano do ocidente. As formas mais antigas remontam ao Século III, evoluindo posteriormente até ao Século VI d.c.. Contexto e legado artístico Após a morte de Jesus Cristo, seus discípulos passaram a divulgar seus ensinamentos. Inicialmente, essa divulgação restringiu-se à Judéia, província romana onde Jesus viveu e morreu, mas depois, a comunidade cristã começou a dispersar-se por várias regiões do Império Romano. Da produção artística dos primeiros 200 anos do cristianismo pouca informação chegou aos nossos dias. Esta aparente ausência de legado deve-se, em grande parte, à dificuldade de atribuição clara de criações desta época à arte paleocristã. Neste período de embrionagem do cristianismo, a sua arte adota muitas das tipologias formais da arte romana pagã, "escondendo" os seus novos significados e conteúdos religiosos sob elementos de uma linguagem artística já profundamente enraizada no império Romano. Também as restrições do Antigo Testamento à idolatria deverão ter tido um impacto castrador no que diz respeito à liberdade artística e às suas possibilidades expressivas. Por outro lado, a nova religião é majoritariamente representada pelas classes sociais mais desfavorecidas, sem os apoios financeiros da arte imperial, não é ainda reconhecida oficialmente e é perseguida pela figura do imperador. No ano de 64, no governo do Imperador Nero, deu-se a primeira grande perseguição aos cristãos. Num espaço de 249 anos, eles foram perseguidos mais nove vezes; a última e a mais violenta dessas perseguições ocorreu entre 303 e 305, sob o governo de Diocleciano. Imperador Nero, ainda jovem.
2 Os primeiros indícios claros na afirmação de um estilo próprio surgem em inícios do século III com as pinturas murais nas catacumbas romanas, único lugar de culto e refúgio cristãos. Bom Pastor Com o Édito de Milão de 313, Constantino, convertido ao cristianismo, reconhece a liberdade de culto à nova religião que acaba por se transformar, após finais do século IV, na religião oficial do império. Com esta oficialização dá-se um impulso na produção artística e são edificados os primeiros lugares de culto próprio. Constantino
3 É também importante referir a transição, em 324, da capital do império romano para Constantinopla a oriente (anterior Bizâncio), fator crucial que levará à cisão do cristianismo em duas grandes vertentes (catolicismo a ocidente e ortodoxa a oriente) e consequentemente à evolução de um estilo artístico diferente no Império Bizantino, a Arte Bizantina. Mais tarde, no século VIII, esta situação entre a ortodoxia e a representação de imagens pela religião cristã vai culminar na crise iconoclasta. Catacumbas Catacumba de Santa Priscila Catacumbas eram os locais que serviam de cemitério subterrâneo aos primeiros aderentes do cristianismo, para quem a fé se baseava na esperança da vida eterna após a morte. Nos primeiros 200 anos da nova religião, antes de Constantino, é provável que tenham existido vários centros com estilos artísticos próprios, como Alexandria e Antióquia, mas é em Roma que se revelam as primeiras pinturas murais em catacumbas. É nesta constante aspiração ao Paraíso que o ritual funerário do enterro, e a consequente manutenção da sepultura, vai ser o elemento chave das primeiras representações da arte cristã. Uma das catacumbas mais visitadas em todo o mundo é a de São Calisto. Fica na região central de Roma, Itália. Conta-se que vinte mil pessoas estão enterradas lá. Ela ocupa cerca de cinco andares abaixo da terra. Mais de vinte quilómetros (20Km) de corredores levam aos diversos túmulos, onde descansam os corpos de pessoas que viviam na época de Jesus Cristo. Os carros não podem circular próximo ao local por causa do perigo de desmoronamento. As catacumbas mais famosas são as de São Calisto e a de Santa Priscila.
4 Catacumba de São Calisto As catacumbas foram construídas ao longo das estradas romanas, como a via Appia, via Ostiense, via Labicana, via Tiburtina e via Nomentana. Existiram também em Roma catacumbas hebraicas, como a da Vigna Randanini e Villa Torlonia. Existem 40 catacumbas nos arredores de Roma, entre elas: Catacumba de Giordani; Catacumba de São Marcelino e Pedro; Catacumba de Comodila; Catacumba de Domitila; Catacumba de Generosa; Catacumba de Pretestato; Catacumba de Santa Priscila; Catacumba de São Calisto; Catacumba de São Lourenço; Catacumba de São Nicomede; Catacumba de São Pancrazio; Catacumba de São Sebastião; Catacumba de São Valentino; Catacumba de Santa Agnese; Catacumba de Santa Ilária; Catacumba de Santa Felicita; Catacumba de Trasone; Catacumba de Via Anapo; Catacumba de Vila Torlonia. Pinturas A pintura e afresco vão dominar essencialmente tetos num estilo ainda muito influenciado pela pintura mural romana tardia, onde vai buscar os motivos arquitetônicos para a ilusão espacial e as figuras planas de corpo proporcional. Mas este vocabulário tradicional é adaptado a uma nova mensagem onde se revelam temas bíblicos com especial preferência pela narração de milagres do Antigo Testamento (Milagre de Jonas). Alguns dos motivos da arte romana são transpostos para os novos conteúdos, como o cacho de uvas, a imagem do Bom Pastor (que surge na figura de Cristo com o seu rebanho de ovelhas) e o pavão que, assim como o peixe (que alguns autores defendem também derivar da arte romana pagã), simbolizam a esperança na ressurreição e imortalidade.
5 Mural da catacumba de São Calisto Ainda hoje algumas catacumbas estão abertas para turistas. Bom Pastor, Catacumba de Santa Priscila
6 Arquitetura Ruinas do traçado original da Basílica de S. Pedro em Roma. Até à declaração de liberdade de culto, a arte cristã não tinha uma tipologia arquitetônica própria, optando por celebrar o seu culto em lugares pouco relevantes. Com o Édito de Milão, Constantino apóia a construção de templos próprios, em Roma, Milão, Ravena, de modo a divulgar a nova religião e acolher o crescente número de convertidos. A basílica As novas igrejas, desenvolvidas a partir da basílica romana, vão revelar a base do que será a arquitetura religiosa da Europa ocidental ao longo dos séculos. A basílica clássica, um espaço amplo onde se possibilita o agrupamento de um avultado número de pessoas, pode satisfazer várias necessidades (tribunal, mercado, audiências etc), mas nunca serve o propósito de local de culto. Com a nova necessidade arquitetônica do cristianismo este espaço vai-se revelar como o indicado à nova procura de grandiosidade da nova religião e ao acolhimento dos fiéis, sem entrar em conflito com possíveis significados religiosos anteriormente atribuídos ao espaço. Observa-se o nascimento de um espaço que sintetiza em si elementos da basílica romana, da casa particular e originais.
7 Basílica de S. Paulo extra-muros, já bastante alterada. Mas embora se tenham levado a cabo várias edificações, estas foram sendo alteradas ao longo dos tempos e nenhuma se apresenta hoje com o seu traçado original. É possível, mesmo assim, formar uma ideia da sua caracterização observando a ilustração da planta original da Basílica de São Pedro, ou o interior da Basílica de São Paulo extra-muros em Roma (que apresenta já algumas alterações, mas que se manteve no seu estado original até 1823). A basílica paleocristã compõe-se, então, por uma nave central com clerestório de janelas altas, abertas em paredes assentes em arquivoltas ou em arquitraves, cujas colunas fazem a ligação a outras duas naves laterais (colaterais) de menor altura. Todo o espaço segue um eixo longitudinal e converge a oriente na ábside, onde se situa o altar, e que é emoldurada por um arco triunfal. Este arco pode estar assente numa área elevada denominada bema. Em algumas basílicas, entre as naves e a ábside, situa-se uma nave transversal, o transepto, que forma um T com a nave central. Os tetos eram de travejamento à vista, de madeira. O exterior, pouco ornamentado, oferece a entrada do recinto a ocidente através de um atrium, um pátio rodeado de arcadas, que estabelece a sua ligação à igreja através de um nártex. Escultura Detalhe de um sarcófago, provavelmente proveniente da Catacumba de Domitília, mostrando o julgamento de Pilatos
8 A escultura assume um papel secundário pela proibição à idolatria, evitando a representação da figura humana em tamanho natural, orientando-se, por isso, mais no sentido decorativo e de dimensões reduzidas. Podem-se referir, principalmente, trabalhos de relevo em sarcófagos, efetuados a partir do século III, de caráter simbólico, primando pela serenidade e artificialismo formal das figuras. Os primeiros 200 anos levantam novamente algumas dúvidas quanto à atribuição de peças a este estilo pela possível assimilação de elementos da antiguidade clássica. Somente no século III se identificam com claridade relatos bíblicos e o monograma Chi-Ro que permitem a atribuição clara ao paleocristianismo. Dípticos de marfim De herança clássica, os dípticos de marfim (duas abas com relevos no exterior em marfim e superfície de cera no interior) eram peças pessoais de trabalho decorativo requintado, que serviam de invólucro para guardar documentos ou manuscritos. Reflectindo gostos pessoais estas peças possuiam, muitas vezes, a conjugação de elementos clássicos e simbologia cristã, consoante a fé do autor da encomenda. Díptico de marfim, representando Cristo e dois apóstolos, século V.