MULHERES ATLETAS DE MIXED MARTIAL ARTS: IMPACTOS NA SAÚDE, REPRESENTAÇÃO SOCIAL E FORMAÇÃO DE ATLETAS

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Transcrição:

MULHERES ATLETAS DE MIXED MARTIAL ARTS: IMPACTOS NA SAÚDE, REPRESENTAÇÃO SOCIAL E FORMAÇÃO DE ATLETAS Grasiela Oliveira Santana da Silva 1 Paula Silva 2 Angelita Alice Jaeger 3 Resumo: O estudo tem por objetivo analisar a inserção das mulheres no esporte, aqui representado através do Mixed Martial Arts (MMA), apropriando-se especificamente dos impactos que essa prática traz para a sua saúde e influencia na construção social do corpo. A pesquisa traz uma revisão sistemática qualitativa acerca dos impactos da prática de esportes de combate na saúde da mulher a partir de estudos selecionados, analisados e contidos nas bases de dados PubMed, ScieELO, Web of Knowledge, SCOPUS e SPORTDiscus. A questão do corpo e todas as suas formas de expressão também assumiram um espaço crucial nessa pesquisa. Foram analisados artefatos culturais em sites de MMA, com foco na relação entre as mulheres atletas de MMA e o seu corpo, dentro e fora do octógono. O estudo torna-se relevante ao articular e compreender os meandros das influências socioculturais na inserção e visibilidade da mulher no contexto do MMA, como também o processo de formação da mulher atleta, suas conquistas, técnicas e lutas. Palavras-chave: Mixed Martial Arts, Mulheres, Saúde, Representação Social, Corpo Introdução Durante muito tempo as atividades físicas e esportivas destinadas às mulheres deveriam ser compatíveis com determinadas características biológicas socialmente enfatizadas, preparando os seus corpos fundamentalmente para o exercício da maternidade e propagando a indissociabilidade da condição de mulher da de ser mãe. Sua inserção nos esportes era aceita à medida que demarcava sua feminilidade, identificada como meiga, gentil e materna. Esses adjetivos exerciam grande influência na delimitação das práticas esportivas socialmente aceitas e indicadas para a mulher (GOELLNER, 2003). Ao ingressar em esportes que culturalmente são atribuídos aos homens, as mulheres são consideradas desviantes do que se queria naturalizar como inerente ao feminino. São corpos que desestabilizam as imagens construídas em torno de um jeito feminino de ser e de se comportar (GOELLNER, 2006a). Não devemos esquecer que o poder sobre os corpos é legitimado por uma representatividade que produz discursos 1 CIAFEL (Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer), Doutoranda em Atividade Física e Saúde pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Portugal. 2 CIAFEL (Centro de Investigação em Atividade Física, Saúde e Lazer), Professora Doutora da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Portugal. 3 Professora Pós-Doutora da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria), Brasil.

sobre o ser homem e o ser mulher. Esses corpos que se normatizam são fruto de uma construção cultural e social em constante processo de transformação, pelo que são corpos que também se movimentam, atuam, agem e se modificam (SILVA et al, 2006). Goellner (2006b) afirma que a presença da mulher no mundo dos esportes representa uma ameaça e uma complementaridade. A ameaça advinha do fato de a mulher estar inserida em uma sociedade influenciada por valores masculinos e sua inserção esportiva colocava em perigo características que foram socialmente construídas e edificadas como da sua feminilidade. Ao mesmo tempo, a complementaridade emergia em função da parceria com os homens em hábitos sociais e atitudes que simbolizam uma nova forma civilizada e moderna de ser. O fato é que o esporte se estrutura como um terreno de legitimação do que pode e deve fazer homem/masculino e a mulher/feminino. Parte-se de uma compreensão de que as práticas esportivas de combate, por exigirem uma competitividade, virilidade, força e resistência, são impróprias às mulheres e que, portanto, são referendadas e indicadas apenas para os homens. Ao inserir-se nos esportes, e de uma forma mais evidenciada nos de combate, as mulheres precisaram encarar o preconceito social a partir de dois pontos: a compreensão de que as suas diferenças físicas as colocavam em uma condição de menor competência em relação aos homens e que a prática esportiva as masculinizava (FESTLE, 1996). Os esportes de combate demarcam e legitimam a imagem de um corpo forte e másculo, pelo que a inserção das mulheres nesses espaços promove corpos subversivos, que desestabilizam uma ordem social e reivindicam a existência de novas feminilidades. Enfrentando desigualdades e diferentes discriminações, as mulheres borram e atravessam certas fronteiras esportivas despontando em modalidades cuja prática por muito tempo lhes foi negada. Entre as modalidades proibidas, destacamos a prática dos esportes de combate e nomeadamente o Mixed Martial Arts (MMA), um esporte que vem ganhando cada vez mais adeptos e simpatizantes, e que, apesar da trajetória de conflitos, passa a adquirir uma visibilidade social através da cultura midiática. O MMA foi criado pelos irmãos Hélio e Carlos Gracie. A intenção era promover disputas entre praticantes de diversas modalidades de luta com o propósito de

demonstrar a superioridade técnica do jiu-jítsu brasileiro 4. Hoje o MMA é definido como um esporte de combate caracterizado pela combinação de técnicas de múltiplos estilos de luta 5 (muay thay, kickboxing, jiu-jítsu, caratê, entre outras) (AWI, 2012). Uma das principais estratégias de popularização do MMA foi a criação do TUF - The Ultimate Fighter 6 - em 2005, que teve como grande destaque a participação da Ronda Rousey 7 e Miesha Tate como treinadoras 8, no ano de 2013. Nesse mesmo ano, a primeira luta entre mulheres foi marcada pela disputa entre Ronda Roussey e Liz Carmouche, que oficializou a participação das mulheres no Ultimate Fighting Championship - UFC (AWI, 2012). Dessa forma, torna-se importante dirigir a atenção para a inserção das mulheres no contexto dos esportes de combate, mais especificamente no MMA e que, portanto, pode e deve ser visto como um rico espaço de investigação. O estudo tem por objetivo analisar a inserção das mulheres no esporte, aqui representado através do MMA, apropriando-se especificamente dos impactos que essa prática traz para a sua saúde, influencia na construção social do corpo e na formação da atleta profissional 9. As discussões aqui estabelecidas são olhares ainda incipientes, uma vez que os estudos aqui apresentados estão em processo de construção e, portanto, apresentam resultados parciais, mas que não descaracterizam a sua riqueza investigativa. Pensar sobre a pesquisa e os elementos que nela fazem-se necessários torna-se significativo para ampliar as nossas leituras e redescobertas em torno do objeto de estudo. Metodologia 4 As disputas travadas eram transmitidas ao vivo através do pay-per-view e captaram a atenção de empresários que criaram na década de 90 o UFC Ultimate Fighting Championship, com o slogan there are no rules, sendo até hoje a principal instituição promotora das disputas do MMA. 5 O elevado teor de violência fez com que as disputas do MMA fossem consideradas proibidas e que não houvesse mais transmissões. A retransmissão só foi permitida com a criação de regras e o processo de desportivização, caracterizada pela organização, igualdade de oportunidades entre os oponentes e cumprimento de regras (ELIAS, 1992). 6 Um reality show onde os lutadores em início de carreira passam a treinar juntos e lutar entre si obedecendo as regras a partir da sua categoria. 7 Ronda Rousey foi a primeira mulher a ser contratada pelo UFC. A partir desse momento muitas reportagens e notícias passaram a ser veiculadas não apenas acerca do desempenho nos combates, mas também sobre beleza e sexualidade das lutadoras. (http://www.foxsports.com.br/photos/4284/3-a-musaronda-rousey-agora-e-do-ufc). 8 A primeira luta entre mulheres foi realizada no dia 23 de fevereiro de 2013 em Los Angeles. Foi uma luta demonstrativa e oficializou a inserção das mulheres no UFC. 9 O objetivo apresentado faz referência aos dois primeiros estudos da tese de doutoramento (em desenvolvimento) em Atividade Física e Saúde pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

A metodologia adotada é de caráter qualitativo por trabalhar com o universo de significados que contemplam aspirações, crenças, valores e atitudes do sujeito (MINAYO, 1994). Busca-se a compreensão das ações e relações das mulheres com a prática de esportes de combate a partir dos impactos para a sua saúde e da construção social do seu corpo. O primeiro estudo consiste numa revisão sistemática qualitativa acerca dos impactos da prática dos esportes de combate na saúde das mulheres. Foram identificados, selecionados e analisados criticamente estudos contidos em bases de dados como PubMed, ScieELO, SCOPUS e SPORTDiscus. O ponto inicial para a pesquisa partiu das palavras-chave: combat sports, health e woman/women. Após uma análise do título, abstract e a leitura completa do artigo, um critério para a inclusão foi considerar os estudos que aplicaram metodologia qualitativa. Selecionados os artigos seguimos para a planificação do processo de relevância, extração das informações dos estudos selecionados e, posteriormente, os procedimentos de categorização e análise de conteúdo. No segundo estudo contempla uma coleta de reportagens em artefatos culturais que abordam a relação entre as mulheres atletas de MMA e o seu corpo, dentro e fora do octógono. Os critérios de inclusão na seleção dos sites e canais de transmissão passam pela presença de notícias sobre o MMA feminino e que fazem referência a construção social do corpo. Os sites analisados são: 1. Dama de ferro MMA é o primeiro e único site brasileiro dedicado exclusivamente ao MMA feminino. 2. MMA Space tem como conteúdo a apresentação de notícias, reportagens, entrevistas e vídeos de MMA. 3. UFC é a site oficial do Ultimate Fighting Championship, com toda a sua programação dedicada ao MMA com entrevistas e transmissão ao vivo das lutas. 4. Invicta Fighting Championship Fundada no ano de 2012, essa instituição é a única promotora de lutas exclusivamente femininas. Os textos são selecionados a partir da presença de dois temas: as questões de gênero e o corpo das mulheres no esporte. A delimitação do espaço temporal foi desde o mês de novembro de 2012, uma vez que essa data marca o início de discussões sobre a possibilidade de contratação de mulheres pela organização UFC para participar em lutas e conduzir o TUF.

Todos os dados coletados serão analisados e interpretados da forma mais apropriada, sempre buscando relacioná-los com o referencial teórico de modo a tornálos mais ricos e relevantes cientificamente. Nesse encalço, realizar-se-á uma análise de conteúdo que permite, através do processo das diversas formas de comunicação e informação, um conjunto de significações que é preciso decifrar e desvendar (LEITÃO et al, 2000). A partir da exploração do material coletado o tratamento dos resultados contará com um processo de categorização, de forma a torná-los significativos. O ponto de partida da análise de conteúdo é a mensagem recebida, estando nela presente um significado e um sentido (BARDIN, 1977). Concluída a análise interpretativa, os temas emergentes servirão como um ponto de partida para que novas indagações surjam, para que outros olhares percebam as nuances das condições sociais das mulheres no esporte, particularmente no MMA. Resultados Os dados obtidos no processo de investigação ainda representam um resultado parcial acerca da relação mulheres atletas e a prática do MMA. Com referência ao primeiro estudo foram encontrados inicialmente, a partir da pesquisa nas bases de dados, um total de 73 estudos. A partir de então foi dado prosseguimento ao processo de exclusão de acordo com os seguintes critérios: repetição de estudos, artigos não-científicos, título e abstract que não apresentam relação entre a prática de esportes de combate e a saúde da mulher. Feito isso obtivemos como resultado apenas dois estudos, sendo que os mesmos não dialogam de forma precisa com a questão de impactos na saúde de maneira geral. Pesquisas voltadas às questões de saúde das mulheres que praticam atividade física são muito restritas e, quanto mais especifico o campo de investigação, maior a dificuldade. De forma ampla e com grande significância para os estudos na área da saúde, a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte SBME publicou, no ano de 2000, um documento Oficial e de Consenso acerca da relação entre a prática de atividade física e saúde da mulher (LEITÃO et al, 2000). Esse documento do SBME apresenta que a capacidade de adaptação das mulheres ao treinamento é semelhante ao dos homens, embora apresentem um desempenho de 6 a 15% menos (LEITÃO et al, 2000).

O American College of Sports Medicine reconhece que a prática regular de esportes de combate apresenta efeitos benéficos no ganho de massa óssea durante o crescimento, principalmente em atletas de elite, independente do sexo (ITO, 2016). As atletas de elite dos esportes de combate, em muitos momentos, realizam parte dos seus treinamentos juntamente com os homens atletas, executando as mesmas atividades 10. Uma das etapas do treinamento é o sparring, simulação real da luta onde na maioria das vezes é executada contra um homem, obedecendo um critério de divisão por peso 11. O processo de regulação do peso corporal foi bastante estudado por Petterson et al (2013) e destacaram que quando aplicada em um curto espaço de tempo gera efeitos negativos na saúde dos atletas, afetando também o seu estado psicológico. Contudo, essa prática fez-se presente dentro do universo dos esportes de combate não apenas como uma estratégia física de sucesso na competição, mas traz consigo uma questão cultural de sentimento de pertencimento. Em conformidade, os esportes de combate demarcam e reafirmam elementos culturais de pertencimento, a exemplo da regulação do peso e, de normatização, ao promover uma sacralização das características masculinas. A inserção das mulheres nos esportes de combate é ainda frequentemente avaliada como o sexo frágil, que deveria ter sua presença limitada aos papeis de espectadoras ou ring girls. São corpos femininos e feminilizados, que ao entrarem em um espaço que não lhes pertence e não enriquecem o seu papel social de gênero, levantam diversas opiniões: Uma mulher deve cuidar da casa, criar os filhos e ser feminina (FEDOR EMELIANENKO, LUTADOR). 12 O MMA é um esporte que evidencia em sua essência a promulgação de corpos fortes, habilidosos e preparados para o combate. Os dados do segundo estudo suscitam uma discussão inicial, mas essencialmente significativa, de se pensar o esporte e seus usos sobre os corpos. O corpo da mulher no octógono rompe, portanto, com a barreira da limitação e condicionamento de suas práticas corporais a determinados espaços (SILVA et al, 2016). 10 Observação feita durante a pesquisa de campo para o 4º estudo da tese de doutoramento. 11 Em esportes de combate os atletas competem a partir de um critério de classificação por peso e competem frequentemente em categorias de peso 5% a 10% abaixo do seu peso normal (PETTERSON et al, 2013). 12 http://www.mmaspace.net/fedor-se-diz-contra-o-mma-feminino-mulher-deve-ser-feminina-50001/

As falas das lutadoras afirmam uma vigilância sobre os seus corpos não apenas no sentido estético heteronormativo 13, mas sobretudo uma imposição de obediência de regras e aceitação, de reconhecimento de que são capazes de estar ali. Eu odeio o estereótipo de que as mulheres que lutam querem ser igual aos homens [ ] Eu gosto de estar em forma e ainda assim parecer uma mulher. Eu não sinto como se tivesse desistido da minha feminilidade para ser uma atleta (MIESHA TATE, LUTADORA). 14 Acho que é nossa intensidade, acho que eles não esperam de nós sermos tão agressivas, técnicas e dominadoras como naturalmente somos nesses esportes de combates, então acabamos sendo uma surpresa agradável para os fãs de luta (SARA MCMANN, LUTADORA) 15 Apesar de fazer alguns anos que alguém disse que eu parecia o Wanderlei Silva de vestido, não parece fazer muito tempo que eu ouvi alguém dando conselhos sobre como cortar meu pênis me ajudaria a bater os 61,2 Kg do peso-galo mais facilmente (CRIS CYBORGE, LUTADORA) 16 Quando eu comecei a treinar foi mais difícil. Diziam que não era coisa para mulher. Sempre tem isso, é mais difícil. Mas hoje em dia a luta é muito marketing. Eles querem ver mulher lutando, mas não mulheres masculinas [ ] (LARISSA FREITAS, LUTADORA) 17 13 Estabelece regras de controle sobre os corpos e as sexualidades (GOELLNER; GRESPAN, 2014). 14 http://www.damadeferromma.com/miesha-tate-indisfarcavel/ 15 http://www.damadeferromma.com/sara-mcmann-acredita-no-sucesso-do-mma-feminino-no-ufc/ 16 http://sportv.globo.com/site/combate/noticia/2017/05/cyborg-se-defende-apos-agressao-tenho-sidovitima-de-bullying-online.html 17 http://globoesporte.globo.com/sc/noticia/2013/07/musa-trilha-caminho-do-mma-e-sonha-em-lutar-noufc-uma-estrada-longa.html

As mulheres que lutam representam para o discurso de normatização engessados de feminilidade e masculinidade, sujeitos desviantes que gerenciam os seus corpos da forma como o percebem e o descrevem. O desvio não é inerente aos atos ou indivíduos que os praticam, de outra forma, reside na representação do outro que a ele reage (GRESPAN; GOELLNER, 2014, p. 368). A representação de mulheres atletas em um reduto de afirmação masculinidade rompe com barreiras, produz novas identidades de gênero e promulga novas visibilidades de corpos reestruturados e ressignificados a partir do que cultural e hegemonicamente aceito como feminino. Considerações Finais O esporte moderno é um fenômeno que traz em si uma mistura de informações, entretenimento e cultura. Todos esses componentes contribuem de forma significativa na promulgação de novas práticas corporais e de cuidados com a saúde. Embora as mulheres fisiologicamente sejam diferentes dos homens, elas demonstram dentro do esporte um processo de adaptação ao treinamento semelhante ao deles. Poderse-ia creditar a tal fato uma justificativa para a inserção e aceitação das mulheres atletas no MMA, mas que não traz em si associados elementos essenciais como valorização e o reconhecimento. A relação que se estabelece entre o esporte e a sociedade perpassa também pelo processo de espetacularização e excitação. O excitamento agradável provocado pelo esporte caracteriza-se como uma forma de autorização para a liberação de sentimentos na apreciação dos esportes e suas disputas. Dentro dessa perspectiva, as lutas femininas no MMA ganham espaço como uma estratégia de marketing 18, utilizada pelos donos do UFC, para atrair mais público. Não são apenas corpos fisicamente treinados e habilidosos que se apresentam no octógono, mas corpos que afloram e produzem belezas e sexualidades. A construção das mulheres atletas no MMA representa uma reivindicação de novos discursos, novas visibilidades e possibilidades de se (re)pensar as configurações dos corpos femininos dentro dessas práticas corporais. Ao adentrarem no MMA as mulheres estabelecem uma tensão entre corpos e subjetividades do que foi até 18 O TUF (The Ultimate Fighter), reality show onde lutadores em início de carreira passam a treinar juntos e lutar entre si obedecendo as regras a partir da sua categoria, teve como grande destaque a participação de Ronda Rousey e Miesha Tate como treinadoras no ano de 2013 (SILVA at al, 2016).

então construído culturalmente como feminino. A imagem das mulheres atletas de MMA estão vinculadas ao que é saudável e fisicamente perfeito. Essa mesma imagem que está presente no octógono é projetada midiaticamente e adquire cada vez mais seguidoras e praticantes. A busca pela construção corporal, presentificada a partir das atletas, e a promulgação de hábitos de vida saudáveis, têm sido elementos cada vez mais presentes na vida das mulheres. Esperamos que com a realização deste estudo possamos produzir novos conhecimentos acerca da relação mulheres e o os esportes de combate. Que os holofotes utilizados nas disputas iluminem não apenas os corpos atléticos e delineados das mulheres, mas, sobretudo, suas conquistas, técnicas e lutas. Referências Bibliográficas AWI, F. Filho teu não foge à luta: como os lutadores brasileiros transformaram o MMA em um fenômeno mundial. Intrinseca, 2012. BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70. 1977. ELIAS, N. Ensaios sobre o desporto e a violência. In: A busca da excitação. Editora DIFEL. Lisboa. 1992. FRESTLE, M. J. Nice Playing: Politics and Apologies in Women's Sports. Editora C. U. Press. 1996. GOELLNER, S. V. Bela, maternal e feminina: Imagens da mulher na Revista Educação Physica. p. 165-173. 2003. GOELLNER, S. V. Entre o sexo, a beleza e a saúde: o esporte e a cultura fitness. Revista de Estudos Feministas, 2006a. GOELLNER, S. V. Mulher e esporte no Brasil: entre incentivos e interdições elas fazem história. Pensar a prática, v. 8, n. 1, p. 85-100, 2006b. GRESPAN, C. L.; GOELLNER, S. V. As mulheres no octógono: Esportes e atravessamento de fronteiras. VII Congresso Sulbrasileiro de Ciências do Esporte. 2014. ITO, I. H. et al. Prática de artes marciais e densidade mineral óssea em adolescentes de ambos os sexos. Revista Paulista de Pediatria, v. 34, n. 2. P. 210-215. 2016.

LEITÃO, M. B. et al. Posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte: atividade física e saúde na mulher. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v. 6, n. 6, p. 215-220, 2000. MINAYO, M. C. d. S. e. a. (1994). Pesquisa Social: Teoria, métdo e criatividade. Editora: Vozes, 7 ed. Petrópolis. 1994. PETTERSSON, S. et al. Practices of weight regulation among elite athletes in combat sports: a matter of mental advantage?. Journal of athletic training, v. 48, n. 1, p. 99-108, 2013. SILVA, P. et al. Gênero e desporto: a construção de feminilidades e masculinidades. 2006. SILVA, G.O.S. da; JAEGER, A.A; SILVA, P. Mulheres no Mixed Martial Arts: Corpos fora do lugar? In: Revista Portuguesa de Ciências do Desporto. Editora: FADEUP, 2016. p. 107-115. WOMEN ATHLETES OF MIXED MARTIAL ARTS: Impacts on health, social representation and training of athletes Abstract: The study aims to analyse the insertion of women in sport, represented here through Mixed Martial Arts (MMA), appropriating specifically the impacts that this practice brings to their health, influence in the social construction of the body. The research presents a qualitative systematic review about the impacts of combat sports on women's health through selected studies, analysed and contained in PubMed, ScieELO, Web of Knowledge, SCOPUS and SPORTDiscus databases. The question of the body and all its forms of expression have also taken a crucial place in this research. Cultural artifacts were analysed on MMA sites, focusing on the relationship between MMA female athletes and their body, inside and outside the octagon. The study becomes relevant in articulating and understanding the ins and outs of sociocultural influences in the insertion and visibility of women in the context of MMA, as well as the process of training women athletes, their achievements, techniques and struggles. Keywords: Mixed Mixed Martial Arts, Women, Health, Social Representation, Body