O CADÁVER Roteiro e arte: MIKE MIGNOLA Cores: MATTHEW HOLLINGSWORTH HÁ CERCA DE 20 ANOS, descobri um conto folclórico irlandês intitulado Teig O Kane e o Cadáver. Imediatamente, decidi que algum dia faria uma adaptação em quadrinhos daquela história. Foi mais ou menos o que aconteceu. Em 1995, alguém na Dark Horse me procurou, sugerindo que eu produzisse uma aventura do Hellboy para publicação, de duas em duas páginas, no catálogo Advance Comics, da loja Capital City. Duas páginas? Como é que a gente faz uma coisa dessas? O maior desafio era bolar uma história na qual acontecesse alguma coisa nova e bizarra a cada duas páginas. Logo desencavei da minha mente Teig O Kane (pensando nos três incidentes diferentes em cemitérios), acrescentei alguns elementos de outros mitos ingleses e irlandeses (o Suplente, a pedra saltitante, Jenny Greenteeth etc.), e pronto. Diversas pessoas que eu respeito e admiro consideram esta a minha melhor história com o Hellboy. Acho que até concordo, mas, na época em que produzi O Cadáver, eu tinha certeza de que era a pior que eu havia produzido em toda a minha vida. Só não me lembro do motivo disso. Ah, que se dane BOTAS DE FERRO Roteiro e arte: MIKE MIGNOLA Cores: JAMES SINCLAIR QUANDO CHEGOU A ÉPOCA de republicar O Cadáver em uma edição especial com a história completa, eu me deparei com um problema: ela não era longa o bastante pra fechar uma revista convencional. Apesar de ter incluído uma nova página de abertura (com o título), não me senti nem um pouco a fim de esticar a trama com mais páginas de quadrinhos. A essa altura, eu já gostava dela e não queria estragá-la, então preferi completar o gibi com a breve e inédita história Botas de Ferro. Afinal, achei que um título como O Cadáver e Botas de Ferro ficaria bem legal. Sou o primeiro a admitir que esta não é realmente uma história, apenas um incidente bizarro, mas não faz mal. Gostei de usar os peritos em ocultismo como forma de transmitir um pouco de folclore ao leitor. É um truquezinho que pretendo repetir qualquer dia desses. Nota do Editor: A edição especial O Cadáver e Botas de Ferro (Hellboy: The Corpse and The Iron Shoes) foi publicada originalmente em janeiro de 1996. Hellboy_vol_3_Caixão_Acorrentado_2014_008a039.indd 8 30/07/2014 07:08:27
O CADÁVER No topo das montanhas geladas, Abaixo, no vale profundo e extenso, Não ousamos empreender caçadas Onde o povo miniatura nos impõe um medo imenso, Do poema As Fadas, de William Allingham (1) Tradução livre (*) (*) As referências mitológicas e a outras edições estão no Glossário Arcano das páginas 6 e 7. / FB Mulder Hellboy_vol_3_Caixão_Acorrentado_2014_008a039.indd 9 30/07/2014 07:08:32
irlanda, 1959. o que vocês fizeram com meu bebê?! favor! favor! favor não façam mal a ela. só tragam de volta a minha filhinha. margaret! encontrei alguém que pode nos ajudar. olá, senhora. aquela aquela coisa ali n-não é minha alice! eu sei que não é! eu sei! quando meu marido não está em casa, a peste zomba de mim e me diz coisas eles levaram nossa pequena alice! horríveis. vamos ver o que eu posso fazer. 10 Hellboy_vol_3_Caixão_Acorrentado_2014_008a039.indd 10 30/07/2014 07:08:35
hmm não sei, não. pra mim, você parece normal. perfeita. sua velha e malvada mamãe é louca? deve ser, né? eu trouxe um presente pra você. o que os nenês adoram? todo nenê adora ferro. uaaaaaaah! fui descoberto! responde logo, nanico: cadê o bebê? para! para! aagh! estou queimandoooo! vais me mataaar! 11 Hellboy_vol_3_Caixão_Acorrentado_2014_008a039.indd 11 30/07/2014 07:08:39
cadê o bebê? não estou pra brincadeiras, macaquinho. desembucha logo ou trago o padre nolan pra soar a sineta e cantar umas ave-marias. urgh! afasta de mim esse ferro! é só responder onde está o nenê, e eu te deixo partir. squiiiii! nããão! tenhas piedade da minha pobre e mirrada forma! fale! estejas na encruzilhada, sob a árvore do cadáver, quando soar a meia-noite. procures três disformes homenzinhos e faças o que te mandarem. nada mais posso dizer. piedade! agh! quente! 12 Hellboy_vol_3_Caixão_Acorrentado_2014_008a039.indd 12 30/07/2014 07:08:42