+ Da prática do ato infracional

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Transcrição:

ECA Questões Penais (Reverencio a obra de Guilherme Freire de Melo Barros sobre a temática, que muito me ajudou na exposição das noções sobre o exposto). 24.05.2017

Da prática do ato infracional Capitulo I Disposições Gerais Art. 103. Considera-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal. 1. Ato infracional: após disciplinar as medida de proteção aplicáveis a crianças e adolescentes em situação de risco, o Estatuto passa a tratar da prática do ato infracional pelo adolescente, no qual serão examinados seus direitos individuais, suas garantias processuais e as medidas socioeducativas que lhe são aplicáveis.

PRESSUPOSTO Crime é o ato típico, antijurídico e culpável Essa é a definição majoritária na doutrina (dentre os autores, Cezar Roberto Bittencourt e Rogério Greco). Um dos elementos que compõem a culpabilidade é a imputabilidade, ou seja, uma pessoa inimputável (que não possui imputabilidade) não comete crime. Nosso sistema jurídico estabelece que o menor de 18 anos é inimputável e está sujeito à legislação especial, precisamente o Estatuto da Criança e do Adolescente. É o que determina a Constituição da República (art. 228), sendo seguida pelas normas infraconstitucionais do Código Penal (art. 27) e do próprio Estatuto (art. 104). Daí se extrai que a criança ou adolescente não pratica delito, mas sim ato infracional análogo (ou equiparado) a crime ou contravenção (art. 103).

Artigo 104, ECA. Tempo do ato infracional: para verificar se foi praticado crime ou ato infracional, deve-se observar a idade da pessoa à data do fato (art. 104, p.ú.). Se a pessoa comete o ato quando era criança ou adolescente (menor de 18 anos), então houve ato infracional, sujeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Se já havia completado 18 anos, então comete crime, a ser punido segundo as leis penais (Código Penal, Código de Processo Penal e Leis penais extravagantes).

Artigo 2º eca. Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e um anos de idade. Subsistência do parágrafo único do art. 2 Posição do STJ: dispõe o parágrafo único do art. 2 que o Estatuto é aplicável excepcionalmente às pessoas entre 18 e 21 anos de idade. Quando da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, estava em vigor o Código Civil de 1916, cuja disciplina acerca da capacidade civil determinava que a maioridade fosse alcançada aos 21 anos (art. 9, CC/16). Com o advento do Código Civil de 2002, foi reduzida a maioridade para 18 anos, o que leva alguns a afirmar que o parágrafo único foi tacitamente revogado.

TESE possível: Na verdade, o parágrafo único continua em vigor e é plenamente válido. Na apuração de ato infracional por exemplo, ainda que o adolescente tenha alcançado a maioridade o processo judicial se desenvolve no âmbito da Justiça da Infância e Juventude. Vale dizer, aquele que já completou 18 anos ainda está sujeito à imposição de medidas socioeducativas e de proteção. A aplicação do Estatuto somente cessaria quando a pessoa completa 21 anos. No âmbito cível, verifica-se que a adoção pode ser pleiteada no âmbito da Justiça da Infância e Juventude, mesmo que o adotando já tenha completado 18 anos, nos casos em que já se encontre sob a guarda ou a tutela dos adotantes (art. 40, ECA). Portanto, deveria ficar claro que o Estatuto fixa os conceitos de criança e adolescente e tem por objetivo tutelá-los, mas é possível sua aplicação em situações na quais o adolescente já tenha atingido a maioridade civil.

Acerca do tempo em que o ato é praticado, o Estatuto e o Código Penal adotam o mesmo princípio, o da atividade. Vale dizer, considera-se praticado o crime/ato infracional no momento da ação ou da omissão, ainda que outro seja o resultado (Cód. Penal, art. 42; Estatuto, art. 104, p.ú.). Dessa forma, se o adolescente, na véspera de completar 18 anos, atira na vítima, que fica agonizando no hospital e falece dias depois, quando o adolescente já completara a maioridade, ser-lhe-á aplicado o Estatuto, pois a ação (atirar) foi praticada quando era inimputável.

Criança também pode praticar ato infracional: é preciso destacar que a criança também pratica ato infracional, mas a ela não são aplicáveis medidas socioeducativas, apenas medidas de proteção, conforme determina o art. 105. Ao adolescente, podem ser aplicadas medidas socioeducativas ou medidas de proteção (art.112).

Medida de proteção X medida socioeducativa: Ambas não se confundem. A medida de proteção é aplicável a criança ou adolescente, sempre que verificada hipótese de lesão ou ameaça de lesão a seus direitos. Estão previstas no art. 101, em rol exemplificativo, numerus apertus. Por sua vez, a medida socioeducativa é aplicável ao adolescente que pratica ato infracional análogo a crime ou contravenção. Suas modalidades estão previstas nos incisos I a VI, do art. 112, cujo rol é taxativo, numerus clausus.

DAS MEDIDAS ESPECÍFICAS DE PROTEÇÃO Art. 101. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98, a autoridade competente poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas: I - encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade; II - orientação, apoio e acompanhamento temporários; III - matrícula e freqüência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental;

IV - inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, + apoio e promoção da família, da criança e do adolescente; (Redação dada pela Lei nº 13.257, de 2016) V - requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial; VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; VII - acolhimento institucional; (Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência VIII - inclusão em programa de acolhimento familiar; (Redação dada pela Lei nº 12.010, de 2009) Vigência IX - colocação em família substituta.

Capítulo IV Das Medidas Sócio-Educativas Art. 112. Verificada a prática de ato infracional, a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas: I - advertência; II - obrigação de reparar o dano; III - prestação de serviços à comunidade; IV - liberdade assistida;

V - inserção em regime de semi-liberdade; VI - internação em estabelecimento educacional; VII - qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI. 1º A medida aplicada ao adolescente levará em conta a sua capacidade de cumpri-la, as circunstâncias e a gravidade da infração. 2º Em hipótese alguma e sob pretexto algum, será admitida a prestação de trabalho forçado. 3º Os adolescentes portadores de doença ou deficiência mental receberão tratamento individual e especializado, em local adequado às suas condições

Existem termos jurídicos próprios do ECA.. Em relação ao adolescente, não se fala em flagrante delito, mas sim em flagrante de ato infracional. O adolescente não é preso, senão apreendido. Não se lhe imputa um crime; atribui-se-lhe um ato infracional. E não cumpre pena; a ele é imposta medida socioeducativa, dentre outros termos que serão apresentados oportunamente. (p. 143)

Liberdade privada: a liberdade é direito fundamental previsto na Constituição da República (art. 5Q, caput). Como todo direito, não é absoluto e excepcionalmente pode ser suprimido. A exceção ao direito de liberdade do adolescente está prevista no art. 106 do Estatuto-que tem redação análoga ao inciso LXI, art. SQ, da Constituição, que determina que "ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, [... ]".Assim, tem-se que há duas hipóteses legítimas de privação de liberdade: (i} o flagrante e (ii) a ordem judiciária. 2. Flagrante de ato infracional: em relação ao flagrante, há a necessidade de se valer dos conceitos estabelecidos pelo Código de Processo Penal. Seu art. 302 estabelece o seguinte: Art. 302. Considera-se em flagrante delito quem:

I - está cometendo a infração penal; II - acaba de cometê-la; III -é perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que faça presumir ser autor da infração; IV- é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele autor da infração. Diante da configuração das situações do art. 302 do CPP, o adolescente é apreendido em flagrante de ato infracional e deve ser encaminhado à autoridade policial com atribuição para lavrar a ocorrência (Estatuto, art. 172).

Art. 106. Nenhum adolescente será privado de sua liberdade senão em flagrante de ato infracional ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente. Parágrafo único. O adolescente tem direito à identificação dos responsáveis pela sua apreensão, devendo ser informado acerca de seus direito. Súm. 718 STF. A. opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposição de regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada.

Dos direitos individuais Art. 107. A apreensão de qualquer adolescente e o local onde se encontra recolhido serão incontinenti comunicados à autoridade judiciária competente e à família do apreendido ou à pessoa por ele indicada. Parágrafo único. Examinar-se-á, desde logo e sob pena de responsabilidade, a possibilidade de liberação imediata.

Comunicação à família: o art. 107 garante ao adolescente o + direito de que sua apreensão será comunicada à autoridade judiciária competente e à sua família ou a pessoa por ele indicada. Trata-se de direito fundamental previsto na Constituição para o preso, no art. 52, inciso LXII: "a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada". Liberação imediata: o parágrafo único do art. 107 determina que se examine a possibilidade de liberação imediata do adolescente.

Esse dispositivo guarda relação com os incisos LXV e LXVI, do art. 52, da Constituição, que tratam, respectivamente, do relaxamento da prisão ilegal e da concessão de liberdade provisória. O adolescente pode ser liberado quando sua apreensão tiver sido ilegal (exemplo: ordem de autoridade incompetente), ou quando, apreendido em flagrante de ato infracional, possa ser reintegrado prontamente à família (art. 174). O adolescente não está submetido ao pagamento de fiança.

Art. 108. A internação, antes da sentença, pode ser determinada pelo prazo máximo de quarenta e cinco dias. Parágrafo único. A decisão deverá ser fundamentada e basear-se em indícios suficientes de autoria e materialidade, demonstrada a necessidade imperiosa da medida. Art. 109. O adolescente civilmente identificado não será submetido a identificação compulsória pelos órgãos policiais, de proteção e judiciais, salvo para efeito de confrontação, havendo dúvida fundada.

Internação provisória: como visto acima, o adolescente pode ser apreendido em flagrante de ato infracional ou por ordem da autoridade judiciária (art. 106). Uma vez apreendido o adolescente em qualquer dessas situações, deve-se verificar a possibilidade sua liberação imediata (art. 107, p.ú. e art. 174). Não sendo liberado, o adolescente permanece internado durante o processo de apuração do ato infracional que lhe foi atribuído. O prazo máximo de internação provisória a que o adolescente está submetido é de 45 dias, conforme determinam os artigos 108 e 183. Decorrido esse prazo, sem que o processo tenha chegado ao fim, o adolescente deve ser posto imediatamente em liberdade. Sua nãoliberação nessa situação acarreta constrangimento ilegal, sanável por Habeas Corpus.

Aplicação em concurso (MP-SC- 2013) A internação de adolescente infrator, antes da sentença, pode ser determinada pelo Juiz uma vez demonstrada a necessidade imperiosa da medida, pelo prazo máximo de noventa dias.

2. É ilegal a manutenção da internação provisória pelo Tribunal a quo, em recurso exclusivo da defesa, no qual foi declarada a nulidade do procedimento judicial desde o recebimento da representação, pois a medida cautelar, cumprida durante mais de 210 dias pelo adolescente, extrapolou, em muito, o prazo legal e foi extinta pelo juiz de primeiro grau meses antes do julgamento da apelação. Ademais, no novo julgamento da representação, o adolescente não poderá ter sua situação agravada, sob pena de reformatio in pejus, e nem poderá ser compelido a cumprir, em duplicidade, a medida socioeducativa extrema. 3. Habeas corpus concedido para que o paciente possa aguardar em liberdade o novo julgamento da representação por ato infracional. (HC 306.667/SP, Rei. Min. Rogério Schietti Cruz, 6ª Turma, julgado em 24/02/2015, DJe 02/03/2015)

lmprorrogabilidade do prazo de internação provisória - posição do STJ: o prazo de internação provisória do adolescente é improrrogável, independentemente da fase em que se encontrar o processo de apuração do ato infracional. No regime jurídico das Leis Penais, consolidou-se o entendimento de que, se o processo está em fase de alegações finais, não há que se falar em excesso de prazo. Essa é previsão contida na súmula 52 do Superior Tribunal de Justiça: "Encerrada a instrução criminal, fica superada a alegação de constrangimento por excesso de prazo.

Das Garantias Processuais Art. 110. Nenhum adolescente será privado de sua liberdade sem o devido processo legal. Art. 111. São asseguradas ao adolescente, entre outras, as seguintes garantias: I - pleno e formal conhecimento da atribuição de ato infracional, mediante citação ou meio equivalente; II - igualdade na relação processual, podendo confrontar-se com vítimas e testemunhas e produzir todas as provas necessárias à sua defesa;

III - defesa técnica por advogado; IV - assistência judiciária gratuita e integral aos necessitados, na forma da lei; V - direito de ser ouvido pessoalmente pela autoridade competente; VI - direito de solicitar a presença de seus pais ou responsável em qualquer fase do procedimento.

(MP-ES - 2013 - Vunesp - adaptada) O adolescente, nos termos da Lei n. 8.069/90, A) tem o direito de solicitar a presença de seus pais ou responsável em qualquer fase do procedimento. B) por estar em desigualdade na relação processual em razão de sua idade, não poderá ser confrontado com a vítima, ou com as testemunhas dos fatos. E) não será necessariamente representado por advogado nos processos por ato infracional, bastando que compareça' em juízo acompanhado pelos pais ou por responsável legal.

Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando: I - tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência a pessoa; II - por reiteração no cometimento de outras infrações graves;

Direito de ser ouvido pessoalmente e regressão de medida - Súmula 265 do STJ: ao tratar da medida socioeducativa de internação, o Estatuto estabeleceu, no art. 122, as hipóteses de sua aplicação. Dentre elas, há a imposição da medida extrema para os casos de "descumprimento reiterada e injustificável da medida anteriormente imposta" (inciso 111). Vale dizer, se o adolescente deixa de cumprir uma medida socioeducativa ex: prestação de serviços à comunidade) de forma reiterada e injustificada, o juízo pode determinar a aplicação da medida de internação pelo prazo máximo de três meses {art. 122, 12). É o que se chama de regressão da medida socioeducativa, pois ocorre a substituição de uma medida mais branda por uma extremamente gravosa, a internação, que priva a liberdade do adolescente

Súmula 265. É necessária a oitiva do menor infrator antes de decretar-se a regressão da medida socioeducativa. (STJ).

Confissão do adolescente e desistência de provas-súmula 342 do STJ: instaurado o processo para apuração de ato infracional, o juiz designa audiência de apresentação para oitiva do adolescente. No cotidiano forense, verificou-se que alguns promotores de justiça e juízes, diante da confissão do adolescente de que havia praticado o ato infracional, desistiam da oitiva de testemunhas de acusação e da produção de quaisquer outras provas e aplicavam prontamente a medida socioeducativa cabível - inclusive a medida extrema de internação.

Súmula 342. No procedimento para aplicação de medida sócioeducativa, é nula a desistência de outras provas em face da confissão do adolescente De fato, não se pode admitir que a confissão do adolescente seja o único meio de prova para lhe impor medida socioeducativa. o Estatuto prevê o direito do adolescente de solicitar a presença de seus pais ou responsável em qualquer fase do procedimento (art. 111,VIl).

Conforme já destacado anteriormente, as crianças, não obstante praticarem atos infracionais, estão sujeitas apenas a medidas de proteção (art. 105), ao passo em que aos adolescentes são aplicáveis as medidas socioeducativas (art. 112, I a VI) e também as medidas de proteção (inciso VIl): VII - qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI. O Estatuto prevê os critérios para aplicação das medidas ao adolescente, a saber: capacidade de cumprir a medida, as circunstâncias e a gravidade da infração (art. 112, 1º).

DO SISTEMA NACIONAL DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO (Sinase) Art. 1o Esta Lei institui o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e regulamenta a execução das medidas destinadas a adolescente que pratique ato infracional. 1o Entende-se por Sinase o conjunto ordenado de princípios, regras e critérios que envolvem a execução de medidas socioeducativas, incluindo-se nele, por adesão, os sistemas estaduais, distrital e municipais, bem como todos os planos, políticas e programas específicos de atendimento a adolescente em conflito com a lei. 2o Entendem-se por medidas socioeducativas as previstas no art. 112 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), as quais têm por objetivos:

I - a responsabilização do adolescente quanto às consequências lesivas do ato infracional, sempre que possível incentivando a sua reparação; II - a integração social do adolescente e a garantia de seus direitos individuais e sociais, por meio do cumprimento de seu plano individual de atendimento; e III - a desaprovação da conduta infracional, efetivando as disposições da sentença como parâmetro máximo de privação de liberdade ou restrição de direitos, observados os limites previstos em lei.

Cumulação e substituição de medidas: é perfeitamente possível a cumulação de medidas socioeducativas e de proteção a um adolescente, com base nos artigos 113 e 99. Por exemplo, verificada a prática de ato infracional pelo adolescente, podem-lhe ser impostas cumulativamente as medidas socioeducativas de prestação de serviços à comunidade e liberdade assistida (art. 112, til e IV) e a medida de proteção consistente na matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental (art. 112,VIl, c/c art. 101, ltt). Além da possibilidade de aplicá-las isolada ou cumulativamente, as medidas também podem ser substituídas a qualquer tempo (art. 113 c/c art. 99). Nesse caso, em atenção ao princípio do contraditório, devese dar a oportunidade de o adolescente e seu defensor público (ou advogado) se manifestarem acerca da pertinência e adequação da substituição da medida.

Após a oitiva do adolescente, da produção de provas (testemunhas do MP e da defesa, perícias) e de alegações finais, enfim, após o desenvolvimento regular e válido de um processo, diante da "existência de provas suficientes da autoria e da materialidade da infração" (art. 114 caput), então poderá o juiz impor ao adolescente o cumprimento de medida socioeducativa.

Art. 114. A imposição das medidas previstas nos incisos II a VI do art. 112 pressupõe a existência de provas suficientes da autoria e da materialidade da infração, ressalvada a hipótese de remissão, nos termos do art. 127. Parágrafo único. A advertência poderá ser aplicada sempre que houver prova da materialidade e indícios suficientes da autoria.

Há, porém, duas exceções, a remissão e a advertência. Conforme estabelece a parte final do caput do art. 114, nas hipóteses de remissão, dispensa-se a comprovação de autoria e a materialidade da infração. A remissão significa uma forma de perdão dado ao adolescente, não tem efeito de antecedente e, principalmente, não implica o reconhecimento ou a comprovação da responsabilidade. Isso significa que não se atribui propriamente o ato ao adolescente; opta-se por não verificar tais questões. Daí a possibilidade de cumulação da remissão com uma medida socioeducativa (diversa da internação e da semiliberdade) sem que haja plena comprovação de autoria e materialidade.

Da Remissão Art. 126. Antes de iniciado o procedimento judicial para apuração de ato infracional, o representante do Ministério Público poderá conceder a remissão, como forma de exclusão do processo, atendendo às circunstâncias e conseqüências do fato, ao contexto social, bem como à personalidade do adolescente e sua maior ou menor participação no ato infracional. Parágrafo único. Iniciado o procedimento, a concessão da remissão pela autoridade judiciária importará na suspensão ou extinção do processo. Art. 127. A remissão não implica necessariamente o reconhecimento ou comprovação da responsabilidade, nem prevalece para efeito de antecedentes, podendo incluir eventualmente a aplicação de qualquer das medidas previstas em lei, exceto a colocação em regime de semi-liberdade e a internação.