Prefácio Os nossos filhos são ou não são geniais? Absolutamente! Dando o devido desconto ao exagero, todos os pais acreditam que sim, que os seus filhos são inteligentes, que se transcendem quando têm saídas de adultos. As crianças são capazes de nos surpreender todos os dias, deixam-nos sem palavras com uma sabedoria e uma capacidade de argumentar insuspeitável. O avô diz ao neto: tira a chucha que te caem os dentes. E a criança, que ainda mal sabe falar, responde-lhe prontamente: porquê?, também usas óculos e não te cai o nariz. Os nossos filhos ouvem muito mais do que nós pensamos, absorvem mais informação por dia do que imaginamos. Na verdade, não é a criança que está distraída mas sim os pais, que se convencem de que podem falar livremente à frente dela, pois está no seu mundo e não percebe nada da conversa dos adultos. Mas, ainda que não entendendo tudo, a criança regista uma boa parte do que ouve e é capaz de selecionar e utilizar mais tarde argumentos adaptados das conversas dos pais. O resultado é, frequentemente, tão inesperado quanto hilariante, mas sempre com lógica, mesmo se pontuada pela ingenuidade própria da idade. O que a Sofia Bragança Buchholz nos oferece neste magnífico livro são estas pequenas e espantosas histórias protagonizadas pelas crianças e que deixam os adultos de boca aberta. Todos os pais vão adorar ler o livro do Simão porque vão reconhecer, com um sorriso nos lábios (quando não mesmo, com uma boa gargalhada), situações semelhantes às que já viveram com os seus filhos. De igual forma, aqueles que não têm filhos também se vão divertir e deliciar com este Simão, pois poderão ver nele o 8
sobrinho mais novo com quem convivem, o filho do amigo, ou outra criança conhecida. O Simão é o nosso filho, o nosso sobrinho, o miúdo engraçado do nosso vizinho. Os pais têm sempre histórias destas para contar, mas, o melhor de tudo, é que nenhuma é igual, são sempre originais, porque nunca se sabe o que pode sair daquelas cabecinhas. Infelizmente, são só um momento, que se esfuma no tempo. Só que, a Sofia, como escritora atenta ao que a rodeia, faz-nos o favor de colecionar estas histórias, que, não fosse o registo do espólio de infâncias bastante prolíficas em tiradas divertidas, ter-se-iam perdido para sempre. E, reunida a coleção, eis que nos é oferecida em livro, na boa linha de personagens imortais como a Mafalda, de Quino, ou Calvin & Hobbes, de Bill Watterson, mas numa versão muito original, já que aqui, embora ilustrado, é o texto o fio condutor das histórias. O espírito das famosas tiras está lá, mas a inversão do texto em relação aos desenhos é o toque de génio neste livro que deixa adivinhar muitos outros de uma série que, eu diria, veio para ficar. Porque o que o Simão pensa, o Simão diz sem papas na língua, a Sofia transforma em história e a Joana ilustra. Viva o Simão! Tiago Rebelo Escritor 9
Simão, o Hipocondríaco Na sala, eu e a minha irmã conversamos. Ao nosso lado, o Simão brinca. Eu, cautelosa, já batida nas con sultas de ortopedia desde os dezanove anos de idade, advirto: O Simão anda a queixar-se da coluna. Não achas que o devias levar ao médico? Qual quê, é treta! exclama ela, conhecedora do filho que tem. Queres ver? E, para me tranquilizar, pergunta-lhe: Simão, dói-te a coluna? Dói responde ele sofrido. E os ovários? Também. 11
Simão, o Perspicaz Existe um pequeno aquário em casa dos meus sobrinhos sempre com dois peixinhos coloridos, chamados Faneca e Sardinha. Quando estes morrem, a mãe, para que os miúdos não fiquem tristes, diz-lhes que eles estavam doentes e que os levou para o hospital para ficarem bons. Depois, substitui -os por novos que faz passar pelos antigos. Mas menosprezar as capacidades das crianças tem os seus riscos e, desta vez, ao ver um dos novos habitantes do aquário, o Simão interroga, intrigado: Ó mãe, o Faneca encolheu no hospital? 12
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Simão, a Geração XPTO Ao fim da tarde, em casa da minha irmã, brinco com o meu sobrinho Simão. A certa altura, a meio de uma história, conto-lhe: (...) e depois veio uma cegonha e... Ele interrompe-me, curioso: O que é uma cegonha? É um daqueles pássaros de bico comprido que trazem os bebés... sabes quais são? pergunto. Ele, pensativo... e depois determinado, exclama: Ahhh, sim, um pelicano!!! Ufa!, dou comigo a pensar, aliviada, com esta geração tão à frente, ainda bem que não lhe disse que os traziam de Paris! 15