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Transcriça o da Entrevista

Transcrição:

Primeiro livro de poesia Nesta pequena grande obra de capa azul, onde se vê o esboço dum menino a segurar uma guitarra, encontramos poesias em português de Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Timor, Brasil, da Guiné, São Tomé e Príncipe. Entre os poetas portugueses contam-se, Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Jaime Cortesão, Vitorino Nemésio, António Nobre, Alexandre O Neill, Fernando Pessoa, Sidónio Muralha, Miguel Torga, Teixeira de Pascoais, Bocage, Eugénio da Andrade Há também poesias populares, tradicionais, sem atribuição de autor.

Plano de leituras 6ºano Texto poético Seleção de poemas retirados da obra PRIMEIRO LIVRO DE POESIA, Seleção de Sophia de Mello Breyner Andresen, Lisboa, Editorial Caminho, Agosto de 1991. Poemas de autores portugueses Luís de Camões AO DESCONCERTO DO MUNDO Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos; e, para mais m espantar, os maus vi sempre nadar em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim o bem tão mal ordenado, fui mau, mas fui castigado: Assi que, só para mim anda o mundo concertado. Bocage AVARENTO DAS DÚZIAS Levando um velho avarento uma pedrada num olho, pôs-se-lhe no mesmo instante tamanho como um repolho. Certo doutor, não das dúzias, mas sim médico perfeito, dez moedas lhe pedia para o livrar do defeito. «Dez moedas! (diz o avaro) Meu sangue não desperdiço: Dez moedas por um olho! O outro dou eu por isso.» Miguel Torga PORTUGAL Era uma vez, lá na Judeia, um rei. Feio bicho, de resto: Uma cara de burro sem cabresto E duas grandes tranças. A gente olhava, reparava, e via Que naquela figura não havia Olhos de quem gosta de crianças. Página 2 de 10 E, na verdade, assim acontecia. Porque um dia, O malvado, Só por ter o poder de quem é rei Por não ter coração, Sem mais nem menos, Mandou matar quantos eram pequenos Nas cidades e aldeias da Nação. Mas, Por acaso ou milagre, aconteceu Que, num burrinho pela areia fora, Fugiu Daquelas mãos de sangue um pequenito Que o vivo sol da vida acarinhou; E bastou Esse palmo de sonho Para encher este mundo de alegria; Para crescer, ser Deus; E meter no inferno o tal das tranças, Só porque ele não gostava de crianças. Alexandre O Neill CÃO Cão passageiro, cão estrito, cão rasteiro cor de luva amarela, apara-lápis, fraldiqueiro, cão liquefeito, cão estafado, cão de gravata pendente, cão de orelhas engomadas, de remexido rabo ausente, cão ululante, cão coruscante, cão magro, tétrico, maldito, a desfazer-se num ganido, a refazer-se num latido, cão disparado: cão aqui, cão além, e sempre cão. Cão marrado, preso a um fio de cheiro, cão a esburgar o osso essencial do dia a dia, cão estouvado de alegria, cão formal da poesia, cão-soneto de ão-ão bem martelado, cão moído de pancada e condoído do dono, cão: esfera do sono, cão de pura invenção, cão pré-fabricado, cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija, cão de olhos que afligem, cão-problema... Sai depressa, ó cão, deste poema! Página 3 de 10 Poemas de autores lusófonos Moçambique Mutimati O BURRO Vejam o burro, Camaradas Esta zebra pequena vestida de lama bonita fofa Tem quatro pernas de andar aos saltinhos Duas orelhas ouvidouras de ouvir tudo bem Dois olhos espertos cheios até às lágrimas de paciência O nariz do focinho

muito fresco e macio. O burro é burro, Camaradas? Quem diz que é burro e despreza este companheiro? Quem quiser ofender-me não me chame de burro Quem quiser ofender-me não seja tão amável! Quem quiser ofender-me inventa outra palavra Porque chamar-me de burro lembra-me burro mesmo E não posso magoar-me com simpatia. Não estou a defender o amigo útil somente Não estou a pensar bem deste que faz o meu esforço e puxa Não penso que ele me ouve tudo e puxa mais forte assim. Há coisas deste companheiro para pensar melhor e espalhar. Falo agora somente só de simpatia. Brasil Manuel Bandeira TREM DE FERRO Trem de Ferro Café com pão Café com pão Café com pão Virgem Maria que foi isso maquinista? Agora sim Café com pão Agora sim Voa, fumaça Corre, cerca Ai seu foguista Bota fogo Na fornalha Que eu preciso Muita força Muita força Muita força Oô... Foge, bicho Página 4 de 10 Foge, povo Passa ponte Passa poste Passa pasto Passa boi Passa boiada Passa galho Da ingazeira Debruçada No riacho Que vontade De cantar! Oô... Quando me prendero No canaviá Cada pé de cana Era um oficiá Oô... Menina bonita Do vestido verde Me dá tua boca Pra matar minha sede Oô... Vou m imbora vou m imbora Não gosto daqui Nasci no sertão Sou de Ouricuri Oô... Vou depressa Vou correndo Vou na toda Que só levo Pouca gente Pouca gente Pouca gente. Ribeiro Couto Café Sabor de antigamente, sabor de família, Café que foi torrado em casa, Que foi feito no fogão de casa, com lenha do mato de casa. - Café para as visitas de cerimónia, Café para as visitas de intimidade, Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada,para toda gente. - Página 5 de 10 Odylo Costa, Filho OS COELHINHOS Iam dois coelhinhos andando apressados para o Céu com medo de serem caçados. E também com medo de passarem fome. Pois quando não dorme O coelhinho come. E ainda tinha os filhos que a coelha esperava O Céu era longe E a fome era brava. Jesus riu, com pena: Fez brotar na Lua para eles florestas de cenoura crua. Cabo Verde Jorge Barbosa PRELÚDIO Para António Aurélio Gonçalves Quando o descobridor chegou à primeira ilha nem homens nus nem mulheres nuas espreitando inocentes e medrosos detrás da vegetação. Nem setas venenosas vindas do ar nem gritos de alarme e de guerra ecoando pelos montes.

Havia somente as aves de rapina de garras afiadas as aves marítimas de voo largo as aves canoras assobiando inéditas melodias. E a vegetação cujas sementes vieram presas nas asas dos pássaros ao serem arrastados para cá pelas fúrias dos temporais. Quando o descobridor chegou e saltou da proa do escaler varado na praia Página 6 de 10 enterrando o pé direito na areia molhada e se persignou receoso ainda e surpreso pensa n El-Rei nessa hora então nessa hora inicial começou a cumprir-se este destino ainda de todos nós. Guiné António Baticã Ferreira PAÍS NATAL Um sentimento de amor pátrio sobe no meu coração, Em espírito demando o meu pais natal, E lembro aquela floresta africana, Cheia de caça e de verdura; Lembro as suas imensas árvores gigantes, A folhagem verde ou amarela Que nos perfuma. Revejo a minha infância, Toda cheia de alegrias: Eu corria pelo mato, Espiava os animais selvagens, Sem medo; E olhava os lavradores nos campos, E, no mar, os pescadores, Que lutavam contra o vento, para agarrar o peixe, E que eu, atento, seguia com o olhar: Como gostava de os ver no oceano Domar as vagas, que lhes queriam virar as barcas! (Ah!, bem me lembro, bem me lembro do meu pais natal!) Timor Fernando Sylvan MENINAS E MENINOS Todos já vimos nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão retratos de meninas e meninos a defender a liberdade de armas na mão. Todos já vimos nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão retratos de cadáveres de meninas e meninos que morreram a defender a liberdade de armas na mão. Todos já vimos! E então? Página 7 de 10 Portugal D. Dinis CANTIGA DE AMIGO Ai, flores, ai flores de verde pino Se sabedes nova do meu amigo? Ai, flores, ai flores do verde ramo Se sabedes novas do meu amado?

Se sabedes novas do meu amigo aquele que mentiu do que pôs comigo? Se sabedes novas do meu amado Aquele que mentiu do que me há jurado? Vós me perguntades polo vosso amigo? E eu bem vos digo que é san, e vivo: Vós me perguntades polo vosso amado? E eu bem vos digo que é vivo e san: E eu bem vos digo que é san e vivo E será vosc ant o prazo saído: E eu bem vos digo que é vivo e san E será vosco ant o prazo passado, Cabo Verde Aguinaldo Fonseca MÃE NEGRA A mãe negra embala o filho. Canta a remota canção Que seus avós já cantavam Em noites sem madrugada. Canta, canta para o céu Tão estrelado e festivo. É para o céu que ela canta, Que o céu Às vezes também é negro. No céu Tão estrelado e festivo Página 8 de 10 Não há branco, não há preto, Não há vermelho e amarelo. Todos são anjos e santos Guardados por mãos divinas. A mãe negra não tem casa Nem carinhos de ninguém A mãe negra é triste, triste, E tem um filho nos braços Mas olha o céu estrelado E de repente sorri. Parece-lhe que cada estrela É uma estrela acenando Com simpatia e saudade Luís de Camões O ADAMASTOR «Porém, já cinco sóis eram passados Que de ali nos partíramos, cortando Os mares nunca doutrem navegados, Prosperamente os ventos assoprando: Quando uma noite, estando descuidados, Na cortadora proa vigiando, Uma nuvem que os ares escurece Sobre nossas cabeças aparece. Tão temerosa vinha, e carregada, Que pôs nos corações um grande medo. Bramindo, o negro mar de longe brada,

Como se desse em vão nalgum rochedo. «Ó Potestade», disse, «sublimada, Que ameaço divino ou que segredo, Este clima e este mar nos apresenta, Que mor coisa parece que tormenta?» Não acabava, quando uma figura Se nos mostra no ar robusta e válida, De disforme e grandíssima estatura, o rosto carregado, a barba esquálida; os olhos encovados, e a postura medonha e má, e a cor terrena e pálida, cheios de terra e crespos os cabelos, a boca negra, os dentes amarelos Aqui fica o poema de Gomes Leal - Rainha de Kachmir - que, pela aprimorada estrutura, vocabulário a que pouco se recorre no quotidiano, realidade distante, etc., se poderá pensar não ser adequado para os mais jovens. Mas, Sophia de Mello Breyner Andresen sabia perfeitamente que era, quando o escolheu. O vestido de noivado Da rainha de Kachmir Era a diamantes bordado, Como luar num terrado!... Parecia o Céu estrelado, Ou a visão de um faquir, O vestido de noivado Da rainha de Kachmir Se é a Via Láctea, em suma, Não há olhar que destrince!... Nenhuma vista, nenhuma Jurará se é neve ou pluma, Se é leite, ou astro, ou espuma, Nem o próprio olhar do Lince... Se é a Via Láctea, em suma, Não há olhar que destrince! Levava, nas mãos patrícias, Leque de rendas e sândalo... Oh! que mãozinhas... delícias

Para amimar com blandícias, Para beijar com carícias Que adorariam um Vândalo... Levava, nas mãos patrícias, Leque de rendas e sândalo. Cor da lua, os sapatinhos Eram mais subtis que o leque!... Seu manto, púrpura e arminhos, Não rojava nos caminhos, Pois sua cauda, aos saltinhos, Levava-a um núbio muleque. Cor da lua, os sapatinhos eram mais subtis que o leque! Eis que, no meio da boda, Entrou um moço estrangeiro... Calou-se a alegria doida Da grande assembleia, em roda! E a brilhante sala toda Fitou o jovem romeiro. Eis que, no meio da boda, Entrou um moço estrangeiro... Pegou no copo, com graça, E brindou, em língua estranha... E a rainha, a vista baça, Como a um punhal que a trespassa, Encheu de prantos a taça, E o seu lenço de Bretanha... Chorou baixinho, ao ouvir, com graça, Esse brinde, em língua estranha! Encheu de pranto o vestido, Encheu de pranto os anéis... E, sem soltar um gemido, Chorou, num pranto sumido, O seu passado perdido, Os seus amores tão fiéis!... Encheu de pranto o vestido,

Encheu de pranto os anéis. Quem era o moço viajante Que fez turbar a rainha?... Era o seu primeiro amante, Tão leal e tão constante, Que, do seu reino distante, Brindar ao Passado vinha... Tal era o moço viajante, Que fez turbar a rainha. Saudades de amor quebrado Fazem lágrimas cair! Por um brinde ao amor passado, Ficou de pranto alagado O vestido de noivado Da rainha de Kachmir. Saudades de amor quebrado Fazem lágrimas cair!... http://purl.pt/19841/1/galeria/poemas-lidos/indice.html http://portodeabrigo.do.sapo.pt/ Compre este livro, sem sair de casa. Clique na capa, ao lado. Mais leituras em: www.escolovar.org/lp.htm A Borboleta (recolhido por Sara Neves)

De manhã bem cedo Uma borboleta Saiu do casulo Era parda e preta. Foi beber do açude. Viu-se dentro da água. E se achou tão feia Que morreu de mágoa. Ela não sabia Boba! Que Deus deu Para cada bicho A cor que escolheu. Um anjo a levou Deus calhou com ela, mas deu roupa nova azul e amarela. Odylo Costa, A borboleta, Sophia de Mello Breyner Andresen, Primeiro livro de poesia poemas em língua portuguesa parra a infância e adolescência, Lisboa, Caminho 1999, p.18. Palavras de Sophia: «Este livro não é uma antologia e muito menos uma antologia panorâmica. Constituído por obras de poetas de todos os países de língua oficial portuguesa, é um livro de iniciação, destinado à infância e à adolescência e onde procurei reunir poemas que, sendo verdadeira poesia, sejam também acessíveis. É possível que muitos considerem este livro difícil. Mas a cultura é feita de exigência. Por isso afastei o infantilismo, o simplismo. Uma criança é uma criança mas não é um pateta.» "Branca estais e colorada", Gil Vicente Branca estais e colorada Virgem sagrada Em Belém, vila de amor da rosa nasceu a flor Virgem sagrada! Em Belém, vila de amor nasceu a rosa do rosal, Virgem sagrada! Da rosa nasceu a flor para nosso Salvador: Virgem sagrada! Nasceu a rosa do rosal,

Deus e homem natural: Virgem sagrada! Gil, Vicente in Andresen, Sophia de Mello Breyner(org.) - Primeiro Livro de Poesia.Lisboa:Editorial Caminho,1997, p. 15. "Pastor", Eugénio de Andrade O pastor Pastor, pastorinho, onde vais sozinho? Vou àquela serra buscar uma ovelha. Porque vais sozinho, pastor, pastorinho? Não tenho ninguém que me queira bem. Não tens um amigo? Deixa-me ir contigo Eugénio de Andrade Andrade, Eugénio de in O primeiro Livro de Poesia, Sophia de Mello Breyner Andresen. Lisboa: Ed. Caminho, 1997, p.16