Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos



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Transcrição:

METAPLASMOS POR SUPRESSÃO: UMA ANÁLISE EM ANÚNCIOS COMERCIAIS Patricia Damasceno Fernandes (UEMS) damasceno75@gmail.com Natalina Sierra Assêncio Costa (UEMS) natysierra2011@hotmail.com RESUMO A língua é um sistema que está em constante modificação, essas mudanças acompanham as necessidades de seus falantes e da sociedade como um todo. A língua portuguesa vem se modificando ao longo de sua história desde o latim em Roma. Os processos de transformação ou mudança sofridos pela língua recebem o nome de metaplasmo. Na língua atual esses processos de mudança continuam agindo e transformando-a. Sabemos que a língua falada é diferente da língua escrita, no entanto as modificações na escrita passaram primeiramente pela oralidade, quando o uso de determinada variante passa a ser prestigiada por uma comunidade de fala, essa variante pode ser dicionarizada e aceita como padrão. Buscando analisar a influência que a língua falada tem sobre a língua escrita é que se propõe esse trabalho tendo como corpus, anúncios comerciais encontrados na cidade de Campo Grande MS. Palavras-chave: metaplasmos. Língua falada. Língua escrita. Anúncios comerciais. 1. Introdução A perspectiva normativa procura prescrever normas para língua falada e escrita, estabelecendo a norma padrão da língua. Desta maneira, toda e qualquer forma da língua que não esteja dentro dos padrões prescritivistas, é considerada erro na visão da gramática normativa. As diferentes formas da língua falada podem a princípio parecer sem organização, citando Tarallo, um verdadeiro caos linguístico, no entanto apresenta regras e lógica, assim como a gramática normativa. Diante do exposto, para explicar e sistematizar essas regras da língua não padrão, os estudos sociolinguísticos avançam com resultados de pesquisas importantes na quebra de mitos linguísticos. A variação linguística é visivelmente mais presente na língua falada, quando estamos interagindo com um ou mais interlocutores conseguimos perceber as diferenças nos usos da língua com maior evidência, mas a língua escrita apesar de em menor grau, também apresenta variação. 1482 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

Sempre existirão em uma comunidade formas linguísticas diferentes que se refiram a mesma maneira de denominar as coisas, essas duas ou mais formas serão concorrentes, chegará um momento em que uma delas se tornará mais prestigiada e a outra perderá seu lugar, quando isso acontecer haverá uma mudança linguística. Deste modo, buscamos analisar as influências da língua falada sobre a língua escrita, sendo essas variações, possíveis mudanças linguísticas no futuro. Como corpus serão utilizados anúncios comerciais encontrados da cidade de Campo Grande MS. 2. A língua e sua história De acordo com Coutinho (1976) linguagem é o conjunto de sinais que a humanidade utiliza para comunicar suas ideias e pensamentos (ideologia), A ideologia é assim explicada: a esse conjunto de ideias, a essas representações que servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens [...] (FIORIN, 1998, p. 28). A linguagem usada particularmente por um povo chama-se Língua (COUTINHO, 1976, p. 24). Trombetti (1905, apud COUTINHO, 1976, p. 25-31) classificou as línguas existentes em quatro grandes grupos: 5. Línguas da África: 5.1 Banto-sudanês 5.2 Camilo- semítico 6. Línguas da Ásia e da Oceânia: 6.1 Dravídico-australiano 6.2 Munda-polinésico 7. Línguas da Eurásia: 7.1 Caucásico 7.2 Indo-europeu 7.3 Uralo-altáico 7.4 Indo-chinês Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 1483

8. Línguas da América: 8.1 Americano Esses quatro grupos formaram dois grupos maiores: 1. Austral: 1.1 Línguas da África: 1.1.5 Banto-sudanês 1.1.6 Camilo- semítico 1.2 Línguas da Ásia e da Oceania: 1.1.7 Dravídico-australiano 1.3 Munda-polinésico 2. Boreal: 2.1 Línguas da Eurásia: 2.1.5 Caucásico 2.1.6 Indo-europeu 2.1.7 Uralo-altáico 2.1.8 Indo-chinês 2.2 Línguas da América: 2.2.1. Americano Dos grupos Astral e Boreal, importa dizer que surgem dois mais importantes para este trabalho: O Árico e Indo-europeu, que se dividem em Asiático e Europeu. E do grupo Europeu surgem: a) Grego Antigo, Grego Moderno; b) Itálico (osco, umbro e latim que deram origem às línguas novilatinas ou românicas); c) Céltico; d) Báltico; e) Eslavo; f) Germânico; g) Albanês. O latim apresentou dois aspectos: o clássico utilizado mais na literatura e o vulgar, aquele que era falado pelo povo. Esta língua considerada atualmente como morta foi levada a diversas regiões e povos de diferentes culturas, originando assim, várias línguas Neolatinas. Assim, a língua portuguesa tem origem do latim vulgar que os romanos introduziram na Lusitânia. Vasconcelos (1926, apud COUTINHO, 1996, p. 56-57) divide a história da língua portuguesa em: pré-histórica que vai da origem da lín- 1484 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

gua até o surgimento de documentos escritos em latino-português, século IX; proto-histórica que vai do século IX ao XII quando os textos escritos já são em latim bárbaro e a histórica que começa a partir do século XII quando os textos aparecem na íntegra em português. Com isso, podemos comprovar que língua portuguesa está em constante transformação, percebemos isto ao comparar um texto muito antigo e um texto atual. É possível identificar palavras semelhantes que possuem algumas diferenças na grafia, pois as mudanças dentro da língua não ocorrem repentinamente, mas sim, ao longo do tempo, dependendo do seu uso pelos falantes. Ao estudar os metaplasmos conhecemos as características que cada processo possui, encontramos exemplos de palavras que se transformaram e que hoje já estão registradas em dicionários, porém a todo tempo percebemos que essas mudanças são constantes, sendo frequentes na língua falada, onde exatamente esta diferença nos mostra as transformações da língua na sociedade, isto é, as que já ocorreram e as que possivelmente irão ocorrer. 3. As transformações da língua Ao estudo das transformações que a língua sofre ao longo do tempo dá-se o nome de metaplasmos. Conforme Bagno, (2007) há quatro tipos de metaplasmos: por acréscimo, supressão, transposição e transformação. Dentro dos metaplasmos por acréscimo temos: a prótese: transformação caracterizada pelo acréscimo de um segmento sonoro no início das palavras. Por exemplo: spiritu > espírito Um caso particular de prótese é a aglutinação onde agrega-se no início das palavras um artigo. Por exemplo: lacuna > alagoa Comumente dentro da variedade do português brasileiro é possível encontrar palavras com o acréscimo do a. Como em: lembrar > alembrar. Muitas delas fazem parte de arcaísmos conservados em dialetos regionais. Outro tipo de metaplasmo por acréscimo a epêntese onde o acréscimo de segmento sonoro ocorre no meio da palavra. Por exemplo: umero > ombro Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 1485

A particularidade da epêntese é o suarabácti onde vogais são intercaladas para desfazer um grupo de consoantes. Por exemplo: blatta > brata > barata É comum encontrarmos a epêntese na fala das pessoas para tentar manter o padrão das sílabas que é (consoante + vogal), podendo ocorrer à inserção de um i ou um e depois da consoante muda, como em: pneu > p[i]neu ~ p[e]neu. Ao acréscimo do segmento sonoro no fim da palavra chama-se paragoge. Por exemplo: ante > antes Geralmente em palavras estrangeiras quando aportuguesadas ocorrem muito a paragoge. Como em: club > clube. Quanto aos metaplasmos por supressão há a aférese cuja transformação ocorre quando um segmento sonoro é suprimido do início da palavra ou primeira sílaba da palavra. Por exemplo: acume > gume Um caso especial de aférese é a deglutinação onde um a ou o é suprimido para que não haja confusão com o artigo. Como em: horologiu > orologiu > relógio. A aférese também ocorre com frequência na variedade do português brasileiro: aguentar > guentar. A supressão do segmento sonoro no meio da palavra ou sua sílaba do meio, chama-se síncope. Por exemplo: malu > mau A haplologia é uma modalidade da síncope onde ocorre uma supressão de duas sílabas que são sucessivas e que são iniciadas pela mesma consoante: bondade + -oso = bondadoso > bondoso. Quando um segmento sonoro é suprimido do fim de uma palavra, ou sua sílaba final, ocorre a apócope como em: mare > mar. A crase é a transformação onde duas vogais iguais se fundem. Utilizada para eliminação do hiato. Por exemplo: nudu > nuu > nu A sinalefa é o processo pelo qual a vogal final é eliminada da palavra quando a palavra seguinte começa por vogal. Por exemplo: de + intro > dentro Os metaplasmos por transposição são caracterizados pelo deslocamento de um segmento sonoro da palavra, ou pelo deslocamento do acento tônico. A metátese ocorre quando o deslocamento do segmento sonoro é 1486 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

promovido na mesma sílaba. Como em: semper > sempre. A hipértese já é o contrario, ocorrendo o deslocamento de uma sílaba para outra. Por exemplo: primariu > primairu > primeiro. O hiperbibasmo desloca o acento tônico. Ele pode ocorrer por sístole ou por diástole. Se o acento recua para a sílaba anterior chama-se sístole: erámus > éramos. Já se o acento passa para a sílaba posterior ocorre a diástole: gémitu > gemido. Metaplasmos por transformação: Vocalização é o processo que uma consoante se transforma em vogal: absentia > ausência. A consonantização é a transformação de uma voga para consoante: uita > vida. Nasalização é processo pelo qual uma palavra sofre a transformação de segmento sonoro oral em nasal: nec > nem. Na desnasalização um segmento sonoro nasal se transforma em oral. Como em: persona > pessõa > pessoa. A transformação de uma consoante surda em uma sonora homorgânica chama-se sonorização. As consoantes latinas /p, t, k, f, s/ se sonorizam quando são mediais intervocálicas, passando a ser então: /b, d, g, v, z/. Como em: lupu > lobo. A transformação do /b/ em /v/ chama-se degeneração. Como por exemplo: rabia > raiva. No latim não existe consoante palatal. A transformação de um ou mais segmentos sonoros em consoante palatal chama-se palatização. [ne, ni] + vogal > // (grafada NH): vinea > vinha seniore > senhor [le, li] + vogal > /λ/ (grafada LH): palea > palha folia > folha Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 1487

[de, di] + vogal > // (grafada J): video > vejo invidia > inveja [pl, kl, fl] > /t/ (grafada CH): pluvia > chuva clave > chave flamma > chama [kl, pl, gl, tl] mediais > /λ/ (grafada LH): oculu > oclu > olho tegula > tegla > telha vetulu > vetlu > velho scopulu > scoplo > escolho [ske, ski, se, si] > // (grafada X): pisce > peixe passione > paixão miscere > mexer russeu > roxo [si] + vogal > // (grafada J): basium > beijo caseum > queijo cerevisia > cerveja ecclesia > igreja A transformação de um ou mais segmentos sonoros em uma consoante sibilante chama-se assibilação: audio > ouço. A assimilação é o processo onde um segmento sonoro se transforma em outro igual ou semelhante a outro também existente na mesma palavra. Por exemplo: ipso > isso. A assimilação pode ser: total, parcial, progressiva e regressiva. Total: o som assimilado fica igual ao assimilador: persona > pessoa Parcial: som assimilado apenas fica semelhante ao assimilador: auru > ouro Progressiva: ocorre quando o som assimilador está antes do assi- 1488 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

milado: amam-lo > amam-no Regressiva: ocorre quando o som assimilador vem depois do assimilado: captare > cattar > catar. Nas variedades brasileira podemos observar: a redução dos ditongos OU e EI como em: pouco > p[o]co; roupa > r[o]pa cheiro > ch[e]ro; beijo > b[e]jo. A dissimilação é o processo de diferenciação de um segmento sonoro pelo fato de existir um outro igual ou semelhante: liliu > lírio; rotundo > rodondo > redondo. A dissimilação pode ser eliminadora ocorrendo quase sempre com a vibrante /r/ aratru > arado. Em pronuncias atuais isso ocorre muito como na palavra próprio > próprio. Apofonia: o timbre de uma vogal é modificado pela influencia de um prefixo: exemplo: sub + jactu > sujeito. Metafonia é a mudança de timbre de uma vogal em virtude da influencia de uma outra vogal ou semivogal que vem em seguida na palavra: feci > fizi > fiz. A ocorrência da metafonia aparece no singular, no masculino e na 1ª pessoa do indicativo. O timbre original latino é conservado no plural, no feminino, e na 2ª e 3ª pessoas do indicativo. Exemplos: texo > teço; verto > verto, mas texis > teces; vertis > vertes 4. Fenômenos linguísticos detectados 4.1. Monotongação A monotongação é a mudança fonética que consiste na passagem de um ditongo a uma vogal simples como do latim para o português a passagem de au para o (pauper > poper > pobre) (CAMARA JÚ- NIOR, 2002). De acordo com Bagno (2010) e Matos e Silva (2006) a monotongação acontece principalmente nos seguintes contextos: Ditongo OU; Ditongo EI; Ditongo AI. Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 1489

Para o ditongo Ei há regra específica, a monotongação ocorrerá diante de r, n, j e x. O ditongo AI também possui normas para a monotongar, sendo condicionada pelo segmento consonântico seguinte, em geral x. 4.2. Assimilação em formas de gerúndio A assimilação é assim conceituada: [...] a mudança de um segmento sonoro num segmento igual ou semelhante a outro existente na mesma palavra: ipso > isso. Fenômeno muito importante na história do português, a assimilação pode ser total, parcial, progressiva e regressiva. (BAGNO, 2007, p. 12). O gerúndio é uma forma da língua que veio do latim, conforme Campos (1972, p. 383), o caso que deu origem ao nosso conhecido gerúndio foi o Ablativo, porque no período arcaico era usado com mais frequência. Ainda de acordo com Campos (1972, p. 387), avançando no tempo, já nas línguas românicas derivadas do latim são enumerados cinco tipos de gerúndio: Circunstancial; Adjetivo; Coordenado; Verbo no modo finito; Perífrases com gerúndio. Atualmente define-se gerúndio como: forma nominal do verbo, terminada em /ndo/, usada para exprimir uma circunstância ou forma. (HOUAISS, 2001, s. v.). Gramaticalmente falando, pode-se explicar a função do gerúndio como uma forma nominal do verbo que expressa uma ação em curso, algo que está se realizando e pode ser equivalente a um advérbio. A assimilação do /d/ nas formas de gerúndio ocorre quando as pessoas na hora de falar palavras terminadas em gerúndio, como vendendo, falando, ouvindo, assimilam o D e pronunciam a palavra apenas com o N, falano, comeno. Esse processo é muito comum e acontece desde o 1490 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

latim até os dias atuais na língua portuguesa. 5. Análise de dados A seguir serão apresentadas as frases coletadas na pesquisa. Para análise selecionamos palavras contidas nos anúncios comerciais que ilustrassem a supressão em alguma parte da estrutura. A seguir, é possível verificar o quadro de palavras onde ocorre o fenômeno linguístico: COM SUPRESSÃO SEM SUPRESSÃO Mantega Manteiga Açogue Açougue Cabelerero Cabeleireiro Atendeno Atendendo Fejão Feijão Nas palavras mantega, açogue e fejão a supressão ocorre no meio da palavra ocorrendo de acordo com a classificação dos metaplasmos, uma síncope. Na palavra cabelerero a supressão acontece no meio e final da estrutura apresentando simultaneamente uma síncope e apócope. E a palavra atendeno o fragmento suprimido encontra-se no final da palavra sendo uma apócope. Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 1491

A maioria dos fragmentos suprimidos nas palavras acima possui algo em comum, todos são ditongos que passaram pelo processo de monotongação. A única exceção seria a palavra atendeno onde ocorre outro fenômeno chamado assimilação. Nesta análise é possível verificar que os fenômenos presentes na língua falada transferiram-se para a língua escrita, pois muitos falantes, que não tiverem acesso à vida escolar ou acesso restrito acabam escrevendo da mesma forma que falam. A pesar de serem considerados erros dentro da perspectiva da normatividade, dependendo do uso dessas variantes por seus falantes, pode ser que em algum momento essas variantes possam se tornar de prestígio e futuramente aceitas e registradas em dicionários. 6. Considerações finais Mediante a pesquisa foi possível verificar que a língua falada tanto quanto a língua escrita possui regras e que não é apenas a gramática normativa que prevê normas para língua. As diferentes formas da língua também fazem parte do sistema linguístico, porque são utilizadas por seus falantes. E a pesar de parecerem ser desorganizadas, essas formas são explicáveis mediante as pesquisas sociolinguísticas. Os fenômenos linguísticos são explicitados com mais frequência na oralidade dos falantes, visto que, a língua falada é mais evoluída do que a língua escrita que está presa aos princípios normativos. A pesar disso, não podemos negar que muitas vezes a língua falada acaba influenciando a língua escrita, como ocorreu no corpus de nossa pesquisa em que nas placas de comércio apresentaram fenômenos linguísticos de monotongação e assimilação. A grande prova de que língua não é um sistema em repouso e sim em constante mudança é o estudo da variação, pois por meio dele consegue-se ter ideias das possíveis mudanças futuras na língua. A sociolinguística considera a língua heterogênea e dá a devida importância tanto para a gramática quanto à variação, sendo as duas, parte do sistema linguístico, cabendo ao falante saber utilizar a modalidade 1492 Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014.

adequada à situação de comunicação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 16. ed. São Paulo: Contexto, 2010.. Gramática histórica do latim ao português brasileiro. Brasília: UnB, 2007. CAMARA JÚNIOR, J. Mattoso. Dicionário de linguística e gramática: referente à língua portuguesa. 23. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. CAMPOS, O. G. L. S. O gerúndio no português (estudo históricodescritico). Tese (de Doutoramento). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da UNESP, Araraquara, 1972. COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos da gramática histórica. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1976. FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 1998. HOUAISS. Antonio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. O português arcaico: fonologia, morfologia e sintaxe. São Paulo: Contexto, 2006. TARALLO, F. A pesquisa sociolinguística. São Paulo: Ática, 2007. Revista Philologus, Ano 20, N 60 Supl. 1: Anais da IX JNLFLP. Rio de Janeiro: CiFEFiL, set./dez.2014 1493