FOTOETNOGRAFIA DE UMA CONGADA

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Transcrição:

Cristiano das Neves Bodart 1 Rochele Tenório da Silva 2 Esta fotoetnografia foi realizada nas franjas da 106º Festa a São Benedito, acorrido em 04 de janeiro de 2015, na pequena comunidade de Alto Rio Calçado, no município de Guarapari, estado do Espírito Santo. O evento é marcado pela ritualização de uma das congadas mais antigas realizada anualmente nesse estado. A comunidade que remonta aos anos após abolição da escravatura tem origem quilombola, o que explica os traços afrodescendentes de maior parte dos moradores. O uso da fotografia em trabalhos etnográficos não almeja apenas esclarecer o saber científico, mas promover condições de melhor compreensão humanística do que o outro tem a dizer para os demais que querem ver, ouvir e sentir (Andrade, 2002). É nesse sentido que este ensaio objetiva propiciar ao leitor condições sensitivas para a compreensão da cultura, no caso específico, da congada da comunidade em questão. Partimos, assim, do pressuposto de que a fotoetnografia pode revelar elementos aparentemente ausentes e na o percebidos pelo pesquisador no momento que se passa a cena registrada (Berger, 2007: 6), assim como nos possibilita repensarmos elementos não observados e anotados no campo. A metodologia adotada considerou as contribuições de Achutti (2004), para quem o trabalho fotoetnográfico deve deixar claro sua finalidade, assim como ter como aporte um planejamento de coleta de imagens e sua organização. Para ele: Se desde o princípio do trabalho de campo, o pesquisador-foto grafo na o tiver em mente a paginação final [...], o resultado de seu trabalho sofrera desta falta de planificação, pois uma narrativa visual que pretenda utilizar a fotografia deve ser fruto de um longo processo de construc a o, a construc a o de uma descrição visual. As fotografias no resultado final devem formar um todo. Por esta raza o, uma obra que utilize a fotografia devera ser construída com me todo [...]. Fotografias obtidas de maneira aleatória e desorganizada tornar-se-a o, no melhor dos casos, uma fonte de informac a o que terminara por encontrar talvez um dia seu lugar em alguma fototeca, mas que na o podera o vir a ser uma obra completa, uma narrativa fotoetnogra fica (Achutti, 2004: 3-4). 1 Universidade de São Paulo, Brasil. 2 Universidade de Vila Velha, Brasil.

Nesse sentido, foram realizadas entrevistas a alguns membros da comunidade e ao mestre da congada, a fim de compreender previamente todos os momentos do rito e seus significados para aquela comunidade. Esse momento foi fundamental para definirmos previamente um planejamento, compondo uma narração minimamente linear do evento. Atestamos que a fotoetnografia proporciona uma sensação de captura da realidade, ao mesmo tempo que nos oferece a certeza de sua impossibilidade (Leal, 2013), uma vez que nos desperta para fragmentos de tempo-espaço de uma realidade complexa. Ornamentação para agradar ao santo. Bandeirinhas, flores e panos coloridos são marcas do rito. Homens e mulheres se envolvem nessa atividade, a qual inicia-se ainda no dia anterior. Foto: Cristiano das Neves Bodart. 330

Rochele Tenório da Silva e Cristiano das Neves Bodart O preparo do alimento para receber os fiéis. Foto: Cristiano das Neves Bodart. O rito tem início apenas após uma missa a São Benedito. Foto: Cristiano das Neves Bodart. Após a celebração da missa, deu-se início a tradicional congada. Por meio de cantos, tambores, casacas e outros instrumentos típicos, alguns recentemente incluídos, estabelecia-se o ritmo afrodescendente. Foto: Cristiano das Neves Bodart. 331

A cantoria é ditada pelo mestre, o qual, por meio de um apito, dita o início e o término de um canto, o qual pode ser puxado por qualquer participante do rito. Foto: Cristiano das Neves Bodart. Os tambores: manifestação de alegria, exaltação da história da comunidade e louvor a São Benedito. Foto: Cristiano das Neves Bodart. 332

Rochele Tenório da Silva e Cristiano das Neves Bodart A permissão: O santo é retirado da igreja pelas mulheres após venerações e solicitação de permissão para ser conduzido por elas pela comunidade. Foto: Cristiano das Neves Bodart. A imagem do santo é retirada do altar da igreja e conduzida em um andor, levado sobre os ombros das mulheres, as quais se deslocam até o Mastro de São Benedito localizado ao pé do morro da igreja. Nessa procissão, leva-se também, na horizontal, a bandeira para o mastro que saúda o santo e que traz o nome da comunidade, estando ela repleta de flores. Foto: Rochele Tenório da Silva. 333

Puxada do Mastro de Sa o Benedito : momento de destaque e esperado pelos religiosos. Trata-se da busca do mastro, o qual será lavado com vinho tinto em gratidão às graças obtidas ou como rito de novas preces para o próximo ano. Foto: Rochele Tenório da Silva. O fogueteiro : noticiando que o mastro está a caminho da igreja e a comunidade está em festa. Foto: Cristiano das Neves Bodart. 334

Rochele Tenório da Silva e Cristiano das Neves Bodart Ao trazer o Mastro de Sa o Benedito, este se posiciona de forma com que possibilite os fies o lavarem. Enquanto o mastro e lavado, continua o congado, dando voltas ao redor do Mastro de Sa o Benedito. Foto: Cristiano das Neves Bodart. Lavagem do Mastro de São Benedito com vinho: Momento de agradecer as dádivas e realizar novos pedidos ao santo. As mulheres, sobretudo as mais velhas, têm prioridade na inicialização desse ato. Foto: Rochele Tenório da Silva. 335

Enquanto o mastro é lavado, um grupo prepara o local para a Enfincada do Mastro de São Benedito, sempre ao lado da Igreja. Foto: Rochele Tenório da Silva. 336

Rochele Tenório da Silva e Cristiano das Neves Bodart Pouco antes da Fincada do Mastro de Sa o Benedito, a bandeira que se encontra em posic a o horizontal, carregada pelas mulheres, recebe as balas de Sa o Benedito, as quais entornara o no momento em que a bandeira for encaixada no mastro e erguida. No cair das balas, os religiosos as disputam entre si. Tais balas são tidas como abençoadas pelo santo. Foto: Cristiano das Neves Bodart. 337

Com a fincada do Mastro de São Benedito, os homens tentam subir nesse mastro a fim de apanhar a medalhinha de Sa o Benedito que fica no topo do mastro, presa na bandeira. Ao alcanc ar a bandeira e a medalhinha, o fiel deve girar a bandeira do mastro como prova de ter atingido o objetivo. Foto: Cristiano das Neves Bodart. 338

Rochele Tenório da Silva e Cristiano das Neves Bodart Após o ápice da cerimónia, que é a Fincada do Mastro de São Benedito, dar-se início ao Canto de Reis, encerrando assim o rito do dia, o qual terá continuidade dias depois com a Retirada do Mastro. Foto: Cristiano das Neves Bodart. Referências ACHUTTI, Luiz Eduardo Robinson. 2004. Fotos e Palavras, do Campo aos Livros. In: Portal da Fotoetnografia do Grupo de Pesquisa Fotografia e Fotoetnografia: Arte e Antropologia. Disponi vel em: <http://www6.ufrgs.br/fotoetnografia/ textos/texto_achutti.pdf>. Acesso em: 24 jan. 2015. ANDRADE, Rosane de. Fotografia e Antropologia: Olhares Fora-Dentro. Sa o Paulo: Estac a o Liberdade, 2002. BERGER, Jonh. Modos de ver. Barcelona: Gustavo Gili, 2007. LEAL, Ondina Fachel. 2013. Paisagem etnogra fica: imagens, inscric o es e memo ria nos cadernos de campo. Iluminuras, Porto Alegre, 14 (34): 62-84. Disponível em: <http://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/viewfile/44381/28037>. Acesso em 23 jan. 2015. Recebido em: 12/11/2015. Aprovado em: 06/04/2016. 339