Morte e vida Severina 1, mas qual Severina?

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Morte e vida Severina 1, mas qual Severina? Maria Teresa Silva Lopes Grupo Travessia 2 _ Severino, retirante, Deixe agora que lhe diga: Eu não sei bem a resposta Da pergunta que fazia, Se não vale mais saltar Fora da ponte e da vida; Nem conheço esta resposta, Se quer mesmo que lhe diga É difícil defender, Só com palavras, a vida, Ainda mais quando ela é Esta que vê, Severina Mas se responder não pude À pergunta que fazia, Ela, a vida, a respondeu Com a sua presença viva: 1 Morte e vida Severina Poema de João Cabral de Melo Neto, 1955. Auto de Natal. 2 Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Trabalho pensado a partir das discussões com o Grupo Travessia: Aline Demantova, André Luiz Alexandre do Vale, Claudia Amorim Garcia, Flávia Costa Strauch, Maria Teresa Naylor Rocha, Maria Teresa Silva Lopes, Marina Dechamps, Marta Rezende Cardoso, Pedro Wainer, Renata Azevedo, Sonia Verjovsky

Vê-la desfiar seu fio, Que também se chama vida, Ver a fábrica que ela mesma, Teimosamente, se fabrica, Vê-la brotar como há pouco Em nova vida explodida; Mesmo quando é assim pequena A explosão, como a ocorrida; Como a de há pouco, franzina, Mesmo quando é a explosão de uma vida Severina. Morte e vida Severina é um poema / teatro que fala da penúria e da ilusão. Este poema completa sessenta e um anos neste ano. Seu autor, João Cabral de Melo Neto, era filho de senhor de engenho e ainda criança se reunia com os empregados do engenho para ler para estes. Primo por parte materna do Gilberto Freyre e pelo lado paterno do Manuel Bandeira, talvez venha daí o seu talento literário. Um grande nome na cultura literária brasileira, pois seus escritos, em sua maioria, retratam a cultura nordestina denunciando principalmente a pobreza e a sofreguidão enfrentada na Caatinga pela seca que devasta todo este território. Neste momento, nada melhor, para uma reflexão, em uma Jornada de comunidade e cultura de psicanálise, do que este poema que nos cala tão profundamente. E coincidentemente, neste momento político que estamos enfrentando no Brasil é bem oportuno buscarmos autores que retratam estas realidades duras que até hoje desenham a sociedade de nossos tempos, hoje

um pouco melhor, mas caminhando com as novas propostas políticas neoliberalistas para uma grande catástrofe social. Este poema que descreve a vida e a morte severa daqueles que nasceram no sertão nordestino, e de sua busca incessante pela sobrevivência, sua retirada de seu local de origem indo atrás ilusoriamente de uma vida diferente, de possibilidades melhores, de um viver mais íntegro, também retrata a vida daqueles que aqui chegam, nas metrópoles, e nada encontram, somente o desconhecido. Elegi a última parte desse poema / teatro que é um auto de natal, que começa falando da morte para chegar a vida, e é exatamente desta qualidade de vida que gostaria de abordar partindo da observação da vida daqueles que encontramos nas comunidades, que chegam como retirantes de algum lugar, em busca de um pertencimento. Este poema cantado fala do retirante Severino que decide se aventurar, atrás de uma sobrevida melhor, seguindo o que em sua cabeça era o mais certo. Descendo a beira do leito do Rio Capiberibe com a intenção de alcançar o mar e a cidade, segue Severino. E qual não é a sua surpresa ao perceber que o Rio em seu percurso é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina. Tal qual Severino, de Marias e Zacarias, o Rio também padece com a seca. Seco ele desaparece e confunde Severino, que não sabe mais se deve seguir ou ali descansar o seu esqueleto. Mas mesmo na seca há vida, morte e vidas severinas, que nascem na mesma serra ossuda. São muitos os Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande, que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usam tem pouca tinta. E são muitos Severinos iguais em tudo na vida, morrem de morte igual, mesma morte Severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte Severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida).

Este imigrante nordestino anda duzentos e setenta quilômetros do sertão até o mar em busca de uma vida mais digna. Pelo Caminho seco ele vai sem perder o fio da esperança, com fé de encontrar algo melhor, um lugar onde possa fazer seu roçado, ganhar algum dinheiro e ter uma vida menos severa do que até então tem experimentado. Neste árduo caminho descobre que o que traz na bagagem não será de muita serventia. À medida que vai descendo o rio, percebe, pelos contatos que vai tendo, que não poderá ser o mesmo Severino de Marias e Zacarias. Outro Severino precisa ser inventado para dar conta do novo lugar, das novas demandas, da nova vida que ao longo do seu caminhar vem se apresentando para ele. Assusta-se, tem vontade de saltar da ponte da vida, tamanha estranheza e decepção, pois aquilo que era tão conhecido passa, a partir de então, a ser totalmente desconhecido para ele. Mas, nem tudo está perdido para Severino, que encontra um bom José (Carpinteiro) que lhe traz de volta dizendo: que mesmo a vida sendo Severina, ela vale a pena. Ela se cria, se fabrica e se faz. Mesmo provocando grande sensação de desamparo, tanto social como o desamparo original que é acionado em situações traumatizantes, Severino não desiste, persiste e esta é a sua grande questão. O que é persistir nesta imensidão de chão, agora não mais rachado pela seca, mas completamente desconhecido? A experiência do trabalho psicanalítico nas comunidades nos permitiu estar em contato com alguns desses Severinos que aqui chegaram, com uma mão na frente e outra atrás, sem perspectiva de vida, se sentindo enganado pela vida, ou seja, por ele mesmo, e sem esperança de encontrar algum serviço que desse o pão de cada dia, sem lenço e muitas vezes sem documento, sem paradeiro, sem conhecidos na maioria das vezes, sem dinheiro para retornar, enfim, cansados e sem ter para onde ir. Por indicação de outras pessoas iam subindo os morros, no caso do Rio de Janeiro, em busca de um lugar para morar ou de conterrâneos que os pudessem acolhê-los. E assim começa a vida de um retirante em uma metrópole.

Aqui, descobre que também se morre de morte Severina, de emboscada, de balas perdidas antes dos vinte ou trinta, ou de morte morrida causada pela desnutrição antes dos vinte, ou ainda não nascida. Também não conseguem roçar a terra, pois este ofício para cá não serve, muitos até conseguem fazer um roçado para se alimentar, mas não para sobreviver disso. A seca não é mais de falta d água, mas de emprego, de moradia, de identidade e dignidade. É com este público, sofrido, sem perspectiva, completamente invisível aos olhos da sociedade e do estado que buscamos acolher, tentando compreender a problemática da luta pelo pertencimento como uma experiência de reconhecimento social e de relação consigo mesmo. (Rocha, et al, 2016) 3 Acolhimento este diferenciado daquele que fazemos nos nossos consultórios, a atenção flutuante aqui é intensificada; ao mesmo tempo em que é preciso ficar muito atento ao que ocorre ao redor, é preciso também ter muito cuidado com a escuta, para não transformar, hábitos e costumes, dessas comunidades, em algo pernicioso, enquanto é somente um jeito de vida, muito diferente daquele a que possivelmente estamos acostumados, mas de nenhuma forma menos importante. O trabalho voltado a este público é um trabalho muito diferente, geralmente quando entramos em uma comunidade o impacto é enorme. Não podemos deixar de considerá-lo. Ficamos impactados com a forma como as pessoas se falam; como elas falam; como se relacionam; com os mais variados cheiros; com a questão da higiene pessoal; com as vestimentas, enfim são muitas variáveis que temos que levar em consideração para podermos desenvolver qualquer trabalho, principalmente o trabalho psicanalítico, que nos faz entrar em contato com todos esses fatores e pensar sobre eles. Pensar em como cada variável dessa se desenvolveu subjetivamente nas vidas daquelas pessoas. Obviamente que temos nossos paradigmas, nossos hábitos e costumes, que neste local, nos são de pouca serventia, tal qual o trabalho de 3 Expressão da dor e do desamparo via corpo trabalho elaborado pelo Grupo Travessia PROPIS-SBPRJ 2016, para o XXXI Congresso Latino Americano de Psicanálise. Participaram de sua elaboração: Aline Demantova, André Luiz Alexandre do Vale, Claudia Amorim Garcia, Flávia Costa Strauch, Maria Teresa Naylor Rocha, Maria Teresa Silva Lopes, Marina Dechamps, Marta Rezende Cardoso, Pedro Wainer, Renata Azevedo, Sonia Verjovsky.

roçar de Severino. Se não conseguirmos abrir mão do que trazemos para perceber o modo como eles vivem, corremos o risco de não conseguir trabalhar com esta população. A escuta aqui demanda muita atenção. Pois este mundo é muito diferente daquilo a que estamos acostumados. As regras são outras, a necessidade fez com que eles criassem novas formas de vida para sobreviverem ao grande descaso social no qual estão inseridos. A problemática da exclusão, principalmente da exclusão social, nos instiga a pensar o quanto a psicanálise tem a contribuir com uma prática na qual se considera que os efeitos clínicos do sofrimento psíquico são absolutamente indissociáveis daqueles cuja origem se situa no campo social não se realiza sem grandes desafios, exigindo que repensemos nossas ferramentas conceituais e pragmáticas. Isto representa a construção de um olhar para o método da psicanálise no qual há lugar para uma clínica voltada para as situações de luta dos sujeitos pela sustentação de sua existência simbólica quando confrontados com a dor da exclusão, da quebra de pertencimento à relação com o outro, quer essa precariedade se situe no âmbito individual quer no coletivo (ou na conjugação de ambos). (Rocha, et al, 2016) 4 O desamparo Social os deixa alienados do resto da sociedade; o desamparo social pode ser encarado como gerador de efeitos clínicos, pelas consequências que tem sobre a existência psíquica, ou seja, os sujeitos que experimentam situações extremas nessa esfera são acometidos pela dor, pela dor de existência que muitas vezes é acompanhada de humilhação, desprezo social ou indiferença. O sujeito isolado não existe, ressaltando-se assim a importância essencial da vivência de pertencimento. Furtos (pag. 268 ) 5 diz: nada é mais extremo do que se sentir no limite de ser ejetado da comunidade humana. Vale lembrar que as questões concernentes ao desamparo social se encontram na fronteira entre o psíquico e o social, 4 -Expressão da dor e do desamparo via corpo trabalho elaborado pelo Grupo Travessia PROPIS-SBPRJ 2016, para o XXXI Congresso Latino Americano de Psicanálise. Participaram de sua elaboração: Aline Demantova, André Luiz Alexandre do Vale, Claudia Amorim Garcia, Flávia Costa Strauch, Maria Teresa Naylor Rocha, Maria Teresa Silva Lopes, Marina Dechamps, Marta Rezende Cardoso, Pedro Wainer, Renata Azevedo, Sonia Verjovsky. 5 Jean Furtos Cliniques de léxtrême: La clinique psychosociale et la souffrance déxclusion comme paradigmes des situations extrêmes. Chapitre 14.

constituindo um problema coletivo clínico e também político, como muito bem fala o poema/ teatro, no que tange a situação de miséria e desigualdade social. A vulnerabilidade do ser humano existe, haja vista o estado e dependência originária de desamparo que lhe é constitutiva, o que implica no caráter essencial do outro para o sujeito. Por conta desse desamparo humano, desamparo original, inescapável ao sujeito, o reconhecimento do outro será sempre um aporte essencial e sua falta promoverá a exacerbação desse vivido subjetivo, constitutivo humano. Podemos considerar a importância para o processo de formação subjetiva a dimensão da confiança. Confiança no outro, que se faz presente quando dele se necessita. Confiança em si mesmo, no sentido de se perceber como tendo valor; confiança no futuro, já que novas situações de desamparo ocorrerão ao longo da vida, tal como acontece com Severino ao chegar no seu destino; demandando o estabelecimento de elo com o outro, através precisamente da dimensão do cuidar e ser cuidado, tal como José faz ao acolher a pergunta desencantada de Severino, cuidando para que ele possa voltar a acreditar que, mesmo a vida sendo Severina, ela vale a pena de ser vivida. Acredito que este é o trabalho que desenvolvemos com as comunidades. Tentando resgatar os sujeitos através de seu reconhecimento. Tentando conscientizá-los de que tanto a Morte como a vida severas que levam podem ser melhor pensadas e transformadas em vidas menos amargas, menos severas, menos Severina, porém podendo ter uma identidade Severina, de alguém que se reconhece, se pertence, se gosta e se realiza através de seus desejos. Muito Obrigada.