Autarquia Federal Lei nº 3.268/57 CONSULTA Nº 108.655/14 Assunto: Encaminhamento de cópias de laudos médicos periciais a Delegado de Polícia e Procuradores Federais da República. Relatores: Conselheiro Henrique Carlos Gonçalves, Coordenador do e Dra. Claudia Tejeda Costa -, subscrito pelo Conselheiro Renato Azevedo Júnior, Diretor Secretário. Ementa: Cópias de laudos médicos periciais a Delegado de Polícia e Procuradores Federais. Posição CREMESP consolidada em Nota Técnica 001/2014. Observância dos procedimentos previstos na Resolução CFM 1.605/00. Fatos Os presentes autos foram encaminhados a este por solicitação do I. Diretor 2º Secretário, Dr. Renato Azevedo Júnior, tendo em vista o questionamento formulado pelo Presidente da Comissão de Ética Médica do INSS Gerência Executiva de determinada cidade do interior de São Paulo. Pretende o consulente esclarecimentos acerca de como proceder diante de solicitação de cópias de laudos médicos periciais elaborados pelos médicos da Autarquia Previdenciária por Delegados de Polícia e por Procuradores Federais da República para serem anexadas em processos judiciais. Junta ao ofício encaminhado cópia dos pareceres da Advocacia Geral da União referentes ao tema. Parecer O direito à preservação do segredo médico, muito antes de ser reconhecido em todos os países civilizados do mundo, reflete um postulado milenar contido no Juramento de Hipócrates no auge da civilização grega.
Mais recentemente, a Organização das Nações Unidas, por meio da Declaração dos Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário, consagrou este princípio. Na mesma esteira, a Constituição da República Federativa do Brasil Constituição Cidadã no Capítulo que estabelece os Direitos e Garantias Fundamentais Artigo 5º, Inciso X, garante: São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. Assim sendo, a regra vigente é a de inviolabilidade do segredo do paciente por parte do médico. O ordenamento jurídico brasileiro admite, em três situações muito específicas, a violação da norma geral. Em primeiro lugar, o segredo perde a inviolabilidade quando tal conduta decorre de dever legal. Nestes casos, a palavra legal refere-se estritamente à existência de uma lei (aprovada em devido processo legislativo). As comunicações de doenças de notificação compulsória estão contempladas nesta exceção à regra. Em segundo lugar, a presença da justa causa pode ser invocada quando um bem maior que a preservação do segredo médico estiver em real e iminente risco de perecimento. Finalmente, o consentimento escrito do paciente autoriza o profissional a divulgar do segredo médico. Neste caso, a manifestação da vontade do paciente deverá ser livre e espontânea, podendo ser requerida por representante legal (advogado constituído, pais de menores de idade). Em casos diversos das três exceções autorizadoras, o segredo somente poderá ser quebrado diante de ordem judicial fundamentada - autoridade competente que decrete a suspensão do direito e da garantia da pessoa humana (Artigo 5º, Inciso X da Carta Magna). Do ponto de vista específico ético profissional, o debate acerca do segredo médico passa necessariamente pelo disposto no artigo 73 do Código de Ética Médica, de observância obrigatória de todos os profissionais médicos:.2.
É vedado ao médico: Art. 73. Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente. Considerando o teor do referido dispositivo, impõe-se à conclusão de que também os médicos peritos do INSS estão sujeitos ao sigilo médico, vez que, em virtude do exercício de sua profissão, têm conhecimento de informações de natureza médica do paciente, na hipótese, do segurado. Assim, os laudos médicos periciais também se encontram revestidos pelo sigilo. Ocorre, no entanto, que quando se trata de perícia médico legal, há que se considerar presentes condições especiais envolvendo o sigilo. A primeira circunstância se dá quando o periciando é parte no processo. A realização de perícia visa, fundamentalmente, a produção de provas materiais em processos em geral, sendo requerida pelas partes ou por um juiz de direito natural. Assim, a relação estabelecida é médico perito-periciando e, não, médico paciente. O periciando tem o direito de negar-se a se submeter à perícia visto que ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Há que se presumir que, previamente, tenha pleno conhecimento do objetivo e do destino da prova que será produzida. Desta feita, realizada a perícia e elaborado o respectivo laudo pelo médico, entendo presente uma autorização tácita do periciando para a destinação do documento à autoridade que preside o processo. Há que se destacar que o laudo pericial não é documento contra ou favor de quem quer que seja. O laudo elaborado pelo perito deve expressar a verdade dos fatos, doa quem doer. A segunda circunstância se dá quando o periciando não é parte no processo que demandou a perícia. Neste caso, entendo que a violação do sigilo pericial somente poderá ser quebrada diante de ordem judicial expressa ou consentimento escrito do periciando, cuja intimidade e vida privada serão expostas em procedimento do qual sequer participa. Analisando especificamente os questionamentos formulados na presente Consulta, cumpre esclarecer que o CREMESP, no que tange à entrega de cópia de laudo pericial ao Delegado de Polícia, já firmou posicionamento seguro com a edição da Nota Técnica CREMESP 001/2014. O referido ato administrativo traz a adequada interpretação do teor da.3.
Lei 12.830/2013, encontrando-se, no entanto, em posição antagônica à da Procuradoria exarada no Parecer 0043/2014/CGMADM/PFE-INSS/PGF/AGU. Note-se que, enquanto o CREMESP primou pela efetiva proteção do sigilo médico, tendo em conta toda a legislação vigente considerando amplitude dos poderes de investigação do Delegado já consignados no artigo 6º no Código de Processo Penal - a Procuradoria tendeu a dar maior ênfase à nova normativa isoladamente, concluindo pela existência de considerável ampliação dos poderes investigatórios dos Delegados de Polícia. Ao tratar do tema, o parecer da Procuradoria Federal - concluindo pela possibilidade de encaminhamento de cópias dos laudos aos Delegados de Polícia - fundamenta seu entendimento no disposto no 2º do artigo 2º da Lei 12.830/13 e no artigo 21 da Lei 12.850/13. Senão vejamos. O artigo 2º, 2º da Lei 12.830/13 dispõe expressamente: Art. 2 o As funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais exercidas pelo delegado de polícia são de natureza jurídica, essenciais e exclusivas de Estado. (...) 2 o Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de polícia a requisição de perícia, informações, documentos e dados que interessem à apuração dos fatos (grifos no original). Note-se que a Procuradoria Federal ressalta em seu parecer a possibilidade de o Delegado de Polícia requisitar perícia e, com isso, teria seu principal fundamento para o encaminhamento do laudo médico pericial à autoridade policial. Ocorre, no entanto, que a perícia referida na Lei 12.830/14 é aquela realizada posteriormente ao fato e especificamente para a instrução penal. Trata-se de meio de prova consistente no exame de algo ou alguém com objetivo de comprovar fato no âmbito de procedimento de natureza criminal. O laudo médico pericial em que se pretende preservar o sigilo médico possui natureza previdenciária, tendo objetivo claramente diverso da perícia prevista na normativa em análise. O laudo médico pericial de natureza previdenciária, se utilizado como prova no âmbito do processo penal, deve ser considerado como documento médico..4.
Outro dispositivo utilizado pela Procuradoria Federal como fundamento para a entrega dos laudos médicos periciais ao Delegado de Polícia é o artigo 21 da Lei 12.850/13 que expressamente consigna: Art. 21. Recusar ou omitir dados cadastrais, registros, documentos e informações requisitadas pelo juiz, Ministério Público ou delegado de polícia, no curso de investigação ou do processo: Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem, de forma indevida, se apossa, propala, divulga ou faz uso dos dados cadastrais de que trata esta Lei. Ocorre que tal dispositivo não deve ser interpretado destacadamente de seu contexto, devendo ser interpretado em conjunto com a totalidade da lei. Neste sentido, importa transcrever o artigo 15 da mesma normativa, que dispõe de modo expresso: Art. 15. O delegado de polícia e o Ministério Público terão acesso, independentemente de autorização judicial, apenas aos dados cadastrais do investigado que informem exclusivamente a qualificação pessoal, a filiação e o endereço mantidos pela Justiça Eleitoral, empresas telefônicas, instituições financeiras, provedores de internet e administradoras de cartão de crédito. A melhor interpretação do artigo de lei impõe que, também no que concerne aos dados de natureza médica, não se pode dispor livremente, sem qualquer limite. Portanto sem que haja autorização judicial apenas é possível o fornecimento de dados aos Delegados de Polícia nos mesmos termos expostos pelo dispositivo supratranscrito (qualificação pessoal, filiação e endereço). No que tange à Nota Técnica CREMESP 001/2014 e sua conclusão, impende ressaltar que em nada a normativa administrativa se contrapõe à Lei 12.830/13. O posicionamento do CREMESP expresso na Nota Técnica 001/2014 é de que os médicos devem agir no sentido da observância da Resolução CFM 1.605/00. O artigo 4º da referida Resolução consigna:.5.
Art. 4º - Se na instrução de processo criminal for requisitada, por autoridade judiciária competente, a apresentação do conteúdo do prontuário ou da ficha médica, o médico disponibilizará os documentos ao perito nomeado pelo juiz, para que neles seja realizada perícia restrita aos fatos em questionamento. Em que pese o dispositivo trate expressamente de autoridade judiciária, pode-se ampliar o entendimento com relação aos Delegados de Polícia. Neste caso, verifica-se que, se a Lei 12.830/12 possibilitou ao Delegado requisitar perícias meio de prova em procedimento criminal -, poderá a autoridade policial requisitar perícia para a análise do laudo médico previdenciário, nos exatos termos da Resolução CFM 1.605/00. No que se refere à entrega dos laudos periciais aos Procuradores Federais para sua anexação em processos judiciais, em que pese o quanto disposto no Parecer 004/2012/GAB/CGMAD/PFE-INSS/PGF/AGU, este Departamento possui por entendimento a necessária preservação das informações médicas contidas nos laudos médico periciais. No caso proposto à análise, o ofício encaminhado à Gerência Executiva do INSS solicitando as cópias de laudos médico periciais possui por objetivo a investigação de irregularidades nos laudos em sede de Inquérito Civil pela Procuradoria da República. Desta forma, não se trata de requisição por autoridade judicial a justificar a remessa das cópias, nos termos da Resolução CFM 1.605/2000. Desta forma, em que pese o entendimento diverso exposto nos pareceres formulados pela Advocacia Geral da União, o CREMESP reafirma seu posicionamento, reiterando o teor da Nota Técnica 001/2014, entendendo que a forma mais adequada de se preservar o sigilo médico é a observância do artigo 4º da Resolução CFM 1.605/2000, tanto no que tange às requisições da autoridade policial quanto também nas requisições de Procuradores Federais. Conclusão Opinio Juris Pelo exposto, este Departamento opina pela necessária observância do procedimento disposto no artigo 4º da Resolução CFM 1.605/2014 quando da requisição de cópias do laudo médico pericial por Delegados de Polícia e Procuradores Federais..6.
Assim, esperando ter atingido os objetivos propostos, apresentamos nosso parecer, colocando-nos à inteira disposição para eventuais esclarecimentos que se fizerem necessários. Atenciosamente, São Paulo, 04 de setembro de 2014. Dr. Henrique Carlos Gonçalves Coordenador do Claudia Tejeda Costa OAB/SP 163.991 CREMESP PARECER SUBSCRITO PELO CONSELHEIRO RENATO AZEVEDO JÚNIOR. APROVADO NA REUNIÃO DA CÂMARA DE CONSULTAS, REALIZADA EM 28.11.2014. HOMOLOGADO NA 4.635ª REUNIÃO PLENÁRIA, REALIZADA EM 02.12.2014..7.